Dias Melhores - continuação
Estava escrevendo na janelinha de comentários, mas ficou grande então resolvi postar aqui. Mesmo porque é bom para eu reler minha vida também.
Pois é, eu -- assim como você, Mary -- já tive a pouca vergonha de chorar por mais de duas horas sem interrupção só pensando nisso. Sou redatora publicitária e estou sentindo que este campo é quase impossível para trabalhar aqui, já que a profissão depende de conhecer muito bem a cultura de um povo... e esta aqui não é a minha. Pode parecer desculpa, mas eu mesma não contrataria um estrangeiro recém-chegado para falar com meu povo.
Aí começo a pensar em outra alternativa, em fazer outra coisa, mas por enquanto nada têm me dado satisfação de fazer. A localização também é outro problema, não estou em Londres, estou numa cidade nova e pequena, perto da costa. Ao redor, muitas fazendas e pasto para todo lado. Quando penso no emprego que tinha, no salário, nos prêmios e bônus, na liberdade de gastar como queria, me sinto realmente triste.
Tenho que dar graças a Deus por ter o Martin que faz de tudo para que eu controle nossas finanças e me sinta cuidando do nosso dinheiro, não dele. Mas mesmo assim meus pensamentos tratam de acabar com minha auto-estima, me sinto dependente, vagal, inútil, feia, boba, xixi-cocô. Me culpo por tudo e por nada. Me sinto obrigada a ser perfeita em casa em tudo, já que não trabalho. Uma verdadeira tortura interna.
Mas quando toda essa onda de pessimismo se esvai vejo a tempestade que estou fazendo. Abri mão (assim como Mary, Anelise e Leticia) de muita coisa no Brasil. Do meu emprego, meu apartamento, meus amigos, minha família. Então tudo o que temos agora é nosso. É meu e do Martin. E estamos felizes assim porque é o que mais desejamos nas nossas vidas. Então por que sofrer assim, não é?
Também concordo que o tempo é o melhor remédio. Preciso ser mais paciente, preciso parar de querer ser a perfeita o tempo todo. Tudo tem sua hora certa de acontecer, ainda não estou preparada para querer alçar grandes vôos. Preciso aprender a andar primeiro. É tudo o que eu quero. Mas minha cabeça fica insistindo: "mas bem que você podia estar fazendo isso. Ou então aquilo. Ou ao menos aquilo outro". E me enlouquece. Porque não quero fazer isso ou aquilo. Quero investir em mim, esgoisticamente. Necessariamente. Não quero trabalhar em pub, não quero cuidar de crianças, não quero lavar prato em restaurante, não quero. Preciso parar de pensar que as pessoas estão achando isso ou aquilo. E mesmo que achem, ninguém está aqui no meu lugar. E eu preciso ser mais flexível comigo mesma, entender meus
limites, meu tempo, parar de me torturar. Eu sei que a cobrança e a pressão vêm de mim e preciso parar de me sabotar.
Sei que um dia vou voltar aqui e ler este mesmo post e achar graça e pensar: "nossa, mal sabia eu..." :o)
