Carmina Burana
Estava aqui ouvindo meu velho CD do Carl Orff e lembrei que este é um dos CDs mais antigos que tenho, porque antes tudo o que eu tinha era em vinilzão. Mas este CD tem uma história longa, que guardo com muito carinho.
Quando eu tinha meus 16 anos, havia assistido a um filme chamado Young Sherlock Homes (O Enigma da Pirâmide) e fiquei
apaixonada pela trilha sonora. Queria encontrar um CD parecido, com temas medievais, orquestras e coral. Mas não tinha a menor idéia de como encontrar um álbum assim.
Aos meus 18 anos entrei no cursinho Anglo Tamandaré, onde tive o prazer de ter aulas de História Geral com o professor Cláudio. Ele tinha uma forma encantadora de dar aula, mostrando projeções de slides maravilhosos com trilhas sonoras ainda mais envolventes. Eu adorava as aulas dele, enquanto meia classe dormia. A mais marcante, porém, foi uma aula sobre a Revolução Francesa. Ele ia explicando como a realeza vivia luxuosamente, mostrava slides com imagens do Palácio de Versaille, seguidos das xilogravuras da revolução popular, dos retrados pintados da Rainha Maria, a Louca. No entanto, o que tocava ao fundo era nada menos que a trilha de Carmina Burana e eu nunca mais esqueci aquelas músicas.
Nunca fui muito de ficar batendo papo com os professores. Mas naquele dia, no final da aula, fui correndo lá para frente falar com o Cláudio e perguntei que trilha sonora era aquela, porque eu havia gostado tanto, tanto, tanto. Ele abriu um sorriso enorme e respondeu:
"É Carmina Burana, obra de Carl Orff. Escreve assim, ó" e o professor escreveu na lousa o nome da obra e do autor, que anotei com os olhos arregaladíssimos. No próximo final de semana eu estava comprando o CD felicíssima da vida! Tocava O Fortuna milhares de vezes. Mas era impossível cantar junto em latim.
Dias depois, coincidência ou não, a Globo exibiu na antiga série Grandes Concertos Internacionais a obra Carmina Burana, com a Orquestra Filarmônica de Boston, regida pelo maestro Seigi Ozawa. Ma-ra-vi-lho-sa!! Não desgrudei os olhos nenhum minuto.
No dia seguinte, o professor Cláudio apontou para mim no meio da classe de 120 pessoas e perguntou: "Gostou do concerto de
ontem?"
E no final da aula lá fui eu de novo correndo pra frente para conversar com ele sobre o concerto. E então ele me contou que
ele tinha um encarte bastante antigo com as letras das músicas e a história de Carmina Burana, que na verdade eram versos profanos da Idade Média. E me prometeu que traria para eu tirar xerox. (Não meus filhos, não existia Intirneti, nem e-mail, nem scanner barato naquela época).
Dias se passaram e Cláudio sempre esquecia de trazer. Toda vez que ele me via, dizia: "Iiih menina, esqueci de trazer de novo".
E assim os meses se passaram e ele nunca lembrava. No último dia de aula, todos se despedindo de todos, meia classe chorando porque já haviam saído as notas de corte da Fuvest. Eu estava desanimada porque também não tinha passado e fui me despedir do Cláudio. E foi uma surpresa quando ele falou: "Não vai embora não porque hoje eu trouxe as letras!!" Acompanhei ele até a sala dos professores e ele me entregou um livreto amarelado, todo escrito em latim com tradução para o espanhol. Meus olhos brilhavam, parecia um tesouro preciosíssimo para mim.
"Depois você deixa na recepção com um recado dizendo que é meu, tá?" ele me pediu. Mas eu segurei o braço dele e falei: "Cláudio, obrigada. Eu nunca vou esquecer de você" e realmente eu quis dizer isso. Não sei que circunstâncias ele passava, mas sei que os olhos dele se encheram de lágrimas e ele me abraçou bem forte dizendo: "Não faça isso comigo, obrigado, obrigado."
E foi a última vez que vi o professor Cláudio. Tirei a cópia, devolvi o original na recepção com um recado num clips dizendo: "Mais uma vez, obrigada".
Em casa, li o livreto com muita dificuldade, tentando advinhar o significado das palavras com meu nulo conhecimento em espanhol e latim (não meus filhos, não existia Google Translator naquela época).
Aprendi que Carmina Burana é uma coleção de poemas, canções e peças escritos pelos "Poetas Vagabundos Goliards", que foram encontradas numa abadia Beneditina, em 1803. Os escritos são do século 12 e evocam o repúdio à Igreja e ao poderio dos senhores feudais. Clamam pela independência, pelas diferentes formas de amar, pelo gozo da vida antes que a morte e o sofrimento cheguem. Acreditam que a vida é uma roda girada pela Deusa Fortuna, onde quem está no topo começa sua decadência e quem está no fundo pode começar seu caminho para a ascenção, para depois decair de novo, numa ironia infinita.
Eu não sei se o professor Cláudio sequer se lembra deste episódio ou se um dia vai parar aqui nesta página, por um acaso. Mas foi ele quem me apresentou à Carmina Burana e disso eu não vou ser capaz jamais de esquecer. De qualquer forma, fiquei feliz de ter registrado esta memória aqui.
como a lua tu és
inoportunamente mutável
crescendo e minguando
ganhando e perdendo
a vida nos trata detestavelmente
uma hora oprime
outra hora acaricia
nos move como peças
em um jogo de tabuleiro
pobreza e poder
derretem como gelo
Destino tão cruel
quanto caprichoso
tu és uma roda girando
tu és malévola
com tua dispensável cortesia
Esfarelando-te pelo chão
obscuramente te infiltras
coberta pelo véu
tu vens movendo contra mim
para a medida
do teu tolo prazer
eu ofereço minhas costas nuas
para a tua maldade vilã
Nobre atos, transações justas
sem demora chegam a mim
o poder que cria em mim
é só para me quebrar
tudo faz parte
da tua conspiração
Agora é a tua hora
não perca mais tempo
arranque essa frágil corda e solte-a
para que a queda seja a mais forte e longa
e que o mundo esteja comigo em meu lamento
