Pela Culatra
Assistimos a um programa muito bom, feito pela Channel 4, chamado The Blair's Gamble, discutindo as razões que fizeram Tony Blair apoiar George Bush. Muito bem produzido, com participação de diversos membros do parlamento, jornalistas editoriais, biógrafos e estudiosos.
Confesso que anteriormente eu tinha uma certa admiração pelo Primeiro Ministro, principalmente pela política de modernização pós-Tatcher. Tony Blair, em parceria com a secretária do estado da Irlanda do Norte, Mo Mowlam, reuniou esforços e lutou para concretizar o processo de paz e para pôr um fim na guerra entre irlandeses católicos e ingleses protestantes. O resultado foi o desarmamento da guerrilha IRA e um acordo de paz foi estabelecido. Nunca mais se ouviu falar de atentados extremistas em Londres ou Belfast.
Com esse currículo mudando o rumo da história do Reino Unido, o mundo inteiro ficou pasmo ao saber do apoio de Blair na invasão ao Iraque.
Mas assistindo ao programa, muitas questões foram esclarecidas. Obviamente que Tony Blair não é nenhum santo, nenhum mártir, nenhum ser inocente nessa história. Mas as razões dele estavam longe de serem as mesmas de George Bush, o que já é grande coisa.
George Bush, p* da vida com o atentado de 11 de Setembro, decidiu e declarou guerra ao terrorismo. Atacou o Afeganistão e redondezas sem dó nem piedade. O próximo da lista? Iraque e Saddam Hussein. Vamu bombeá!, dizia Bush, em nome da "segurança nacional" (não mundial, não, ele nunca disse isso).
Daí que Tony Blair, parou e pensou: "peraí, se esse doido começa bombear tudo quanto é país mussulmano-árabe-islâmico-turco (porque para Bush é "tudo a mesma coisa"), ele vai começar a tomar conta e controlar cada um desses territórios, qualé??"
Acima de tudo, Blair não queria que essa fosse uma ação apenas dos EUA. Ele queria ao mesmo tempo impedir a hegemonia dos americanos ou ao menos dividir essa marmelada. Foi então que ele sugeriu a Aliança. Convenceu (e diga-se, Blair é o Mr.Persuasão) Colin Powell de que mesmo uma mega-potência como os EUA precisa de aliados.
Qual era o jogo de Blair? Se ele conseguisse, iria trazer a discussão sobre o ataque ao Iraque para a ONU, que encontraria uma outra solução que não fosse a guerra, obviamente, e o Reino Unido sairia dessa situação como o elemento pacificador e se beneficiaria com a divisão de poder, afinal, era o aliado número 1 dos EUA. Se falhasse, não poderia voltar atrás no seu comprometimento de aliança com os EUA e teria que partir para a guerra.
Tudo ia bem, Mr.Blair estava satisfeitíssimo de ter conseguido realizar a conferência da ONU, impedindo que os EUA agissem sozinhos. Ótimo, pensou Blair. Chamaram o Blix para fazer uma vistoria no Iraque. Excelente. Blix faz o relatório dizendo que nada foi encontrado. Maravilha! EUA chia e diz que Hussein está mentindo. Ihhhh, lá vem eles. ONU manda Blix de volta e acompanha a destruição de armas. Tá, beleza de novo. Blix faz outro relatório afirmando com 70% de certeza de que o Iraque está desarmado. Jóia! Beleza.
E então, para o desgosto, desespero e ruína de Blair, George Bush faz o seguinte pronunciamento: "Nós vamos atacar o Iraque e tirar o ditador do poder, queira a ONU ou não e ponto final." Me fudi, concluiu Blair.
Daí pra frente foi tudo arruinado. EUA exigia que a Aliança fosse em frente. Jaques Chirac chegou para a Comunidade Européia e negou apoio. Convocou mais países e ganhou o status que tanto Tony Blair queria para si mesmo. Milhares de protestantes em Londres, na maior mobilização popular da história da Grã-Bretanha.
Tudo errado. Tropas britânicas enviadas. Soldados mortos. Civis mortos. Labour Party acusando Blair de "vira-casaca-traidor". Tudo errado. Deu tudo muito errado. Mas em todo jogo há a possibilidade de perder tudo. Não há sorte, nem azar nesta história. Foi simplesmente um jogo muito arriscado, muito caro e muito ilegal, que Tony Blair apostou cegamente.

Luciana Bordallo Misura said:
Marcinha, essa teoria e boa, mas acho que fizeram depois que o problema aconteceu, para tentar amenizar a pessima imagem do Tony Blair com o episodio...Se foi jogo mesmo, ele jogou mal.
Beijos
Lu
cintia said:
Nao sei nao... Me parece meio conveniente virem com essa estoria agora. Nao acredito muito, nao! Acho que os interesses que os uniram sao bem outros...
Marie said:
Marcinha,
Nem posso falar muito porque não acompanho a política britânica e o Sr. Tony é para mim figura distante. Porém lendo o que vc escreveu sobre o programa, veio-me à cabeça uma expressão tão braileira que vc conhece bem e sentido incluso, creio eu: coisa pra inglês ver! literalmente né?
Beijosssssssssssss
Camila said:
Marcinha, adorei sua explicação de como as coisas aconteceram com o Mr. Blair - então talvez ele não seja tão maria-vai-com-as-outras como a gente pensava... O programa deve ter sido bem interessante mesmo. Eu simplesmente AMO quando vc fala dos programas de TV que vc assistiu aí, pois além de ficar por dentro do que anda rolando na terra dos bretões, tenho assunto para falar e discutir com o Steve durante horas! :-) Pois é, eu sempre converso com ele sobre seus posts, e muitas vezes ele vem me contar alguma coisa interessante que aconteceu aí e eu digo...."já sei, já sei, a Marcinha escreveu sobre isso" :-)
Outra coisa, PARABÉNS pelo seu inglês, vc escreveu este post com jeito de que entendeu 100% do programa. Estou te falando isso por que senti na pele como é difícil entender a TV aí - e vc está se saindo otimamente bem. É isso aí menina!
Beijos,
Camila