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Terror em Moscou

Ontem passou um documentário excelente no Channel 4, produzido pelo premiado diretor Dan Reed, que me deixou petrificada.

Lembram-se daquele seqüestro que aconteceu num teatro em Moscou, onde 41 Chechenos fizeram mais de 200 reféns, no ano passado? O documentário mostrou o "lado de dentro" desta história trágica, através de imagens gravadas pelas câmeras internas do teatro, relatos dos sobreviventes e gravações das ligações telefônicas.

O que mais surpreendeu, obviamente, foi a dramática gravação do que se passou nas 57 horas de terror dentro do teatro. O documentário mostrou desde a entrada do primeiro atirador Checheno no palco até o desenrolar trágico do seqüestro. Nunca na história um seqüestro foi gravado com tantos detalhes em todo seu progresso.

Os chechenos estavam ali para exigir que as tropas russas fossem retiradas da Chechênia e que o genocídio terminasse de uma vez por todas. Sob a liderança de Movsar Barayev, estavam 22 homens e 19 mulheres, todos fortemente armados, carregando duas bombas do tamanho de um cilindro de mergulho. Duas mulheres estavam usando cintos-bombas de 2kg, além de granadas pelo corpo, eram as viúvas-negras suicídas.

O discurso de Barayev para os reféns dizia que eles estavam ali prontos para morrer em nome de Alah e que, para isso, infelizmente todos os presentes iriam morrer também.

Todo o documentário é entrelaçado com os relatos comoventes dos sobreviventes, que lembravam os momentos de desespero, de desilusão, de tensão, de reflexão da morte iminente, da apatia. Entre os reféns, estavam crianças e adolescentes também, que já nem choravam. Um deles, o mais novo entre as crianças, perguntou para a mãe como ele iria reconhecê-la no paraíso. Ela segurou a mão dele e disse que não ia ser preciso, que ela estaria com ele sempre, para onde quer que fossem.

Passado as 57 horas, após ameaças de execução e morte de três reféns, finalmente as tropas russas entraram em ação. Um gás foi introduzido nas saídas de ar-condicionado e logo uma nuvem cinza tomou conta do teatro. Os atiradores, percebendo a ação, correram para o subsolo. No teatro, ficaram apenas as viúvas-negras tomando conta dos reféns. Mas em poucos segundos, a grande maioria das pessoas foram nocauteadas pelo gás em um sono profundo.

As tropas russas invadiram o teatro e mataram todos os terroristas, que estavam inconscientes, sem machucar qualquer soldado ou refém. E o que era para ser um sucesso de planejamento militar, se mostrou um colossal desastre. O gás administrado em tal quantidade era potencialmente letal. Antídotos estavam preparados do lado de fora para serem injetados nos reféns. Mas não havia médicos o suficiente para dar as injeções. Este extraordinário contratempo levou a vida de 129 reféns, que se sufocaram com suas próprias línguas. De uma certa forma, o plano dos chechenos havia dado resultado e o triunfo miraculoso do exército Russia foi enterrado sob uma pilha de inocentes mortos.

O garoto que havia perguntado a mãe como ele a reconheceria no paraíso morreu nas mesmas circunstâncias, no hospital. Sua mãe, sobrevivente, ainda segurava sua mão e disse estava indo ao seu encontro. Saiu correndo do hospital, parou um carro na estrada, pediu que a levasse até uma ponte. Pagou o motorista com sua aliança e se jogou da ponte, num rio cheio de gelo. Foi salva, mas até hoje ela diz não se sentir feliz por isso.

Outra russa, que perdera o marido e a filha no seqüestro, diz que entende agora as razões que levam uma mulher a se tornar suicide-bomber. Ela diz que hoje odeia os chechenos com todas as suas forças, odeia até as crianças chechenas e que se não fosse pelo filho menor, hoje ela estaria toda amarrada em bombas para explodir na Chechênia.

Diante desse mútuo ódio generalizado entre Rússia e a Chechênia, um acordo de paz se tornou uma upotia tão grande quanto a dor da perda de ambas as partes.

Para ler em detalhes: www.channel4.com/culture/microsites/T/terror_in_moscow/index.html


Regina said:

O Sergio ja falou tudo o que eu iria escrever, no comentario dele aih abaixo. Falou tudo, concordo em numero, genero e grau.

Sheila said:

Oi,

Encontrei hoje seu blog. Estava procurando modelos que usassem o movable type. Acabei encontrando esse seu post, realmente é muito triste ver como o mundo está caminhando cada vez mais para o fim. Vou passar outras vezes por qui.
Té mais

Mary said:

Marcinha, que loucura... se passou aí, com certeza vai passar aqui também. A TV sueca compra MUITO da tv inglesa.

Já já respondo ao seu email, ok? Tô meio atolada... Visitar você foi o meu recreio.. :c)

Beijo

Simone said:

Uau... fiquei estarrecida. Ha' muito tempo vi um documentario sobre o fracasso no resgate dos atletas judeus nas olimpiadas da Alemanha. Um fracasso total, zilhoes de atos evidentemente erroneos. E existem mil outras situacoes iguais, mesmo no Brasil (a professra Geisa no assalto ao onibus, a professora de educacao fisica em SP, so' para citar duas), onde nao temos terroristas, mas coisa ate' pior...

Bia Badaud said:

caramba.

: /

Luciana Bordallo Misura said:

Foi realmente horrivel essa situacao, me lembro de ter acompanhado as noticias e do choque que foi quando tanta gente morreu por causa do gas. Muito triste. Nao da nem para imaginar como essa mae se sente tendo perdido o filho assim. Nessas horas da um pessimismo enorme com a humanidade.

Cris said:

Que coisa horrível, Marcia!!

Fiquei arrepiada com o seu relato. Aqui, deste lado do mundo, a gente não fica sabendo dos detalhes de dramas como este. Preferem mostrar Big Brother ou Ratinho.
Triste...

Cris

Sérgio said:

O interessante disso tudo é como a vida humana perde o valor diante de questões tão pequenas. E como algumas religiões são usadas pra justificar atitudes tão grotescas quanto amarrar uma bomba ao corpo e matar dezenas de pessoas. Tanto o exército russo quanto os terroristas têm autorização/justificativas pra matar. As histórias que envolvem crianças sempre me comovem muito. Fico triste e tenho vontade de chorar.