« maio 2004 | Main | julho 2004 »

junho 28, 2004

Bem-vinda, Alice!!

Nasceu a filhinha linda da minha amiga Luciana Barrichelo e do meu amigo Fernando Barrichelo!!

Seja muito muito bem-vinda ao nosso mundão, Alice!!
Que você seja muito, mas muito feliz!!
Amada e querida você já é. Muito.

Parabéns, Lu e Nando!! Vocês merecem cada segundo desta felicidade. Beijos!!!

Escrito a mão pela Marcia às 7:16 PM | Comente este capítulo (7)

M&M in Johannesburg

Eu não poderia ter pedido por presente mais delicioso! Passar o dia em Johannesburg foi realmente bom para minha alma. A minha mais forte impressão da cidade é que é muito parecida com São Paulo: periferia com favelas e muita pobreza contrastando com bairros nobres, hotéis cinco estrelas, carros importados e casarões enormes.

Mas o bom em Johannesburg comparando com Middelburg (apesar que isso seria como comparar São Paulo com Piraporinha-Mirim-do-Bom-Jesus*) é que a globalização já chegou lá e nas ruas é possível ver pessoas das mais diversas nacionalidades e eu não preciso me sentir o ET-atração-da-cidade.

Outra coisa que nos chamou a atenção, como o Martin pontuou, foi que não há aquela tensão no ar, como em Middelburg. Em geral, não há aquela clara divisão entre brancos e negros em Johannesburg e é possível perceber que não há tanto daquele ressentimento racista tão marcante como estávamos acostumados em Middelburg, de brancos mal-tratando negros e vice-versa o tempo todo. A gente percebe em poucos segundos que a grande maioria das pessoas em Jo’burg está muito mais acostumada com a missigenação. E que alívio é poder sentir isso outra vez depois de um mês naquele Apartheid-não-declarado da pequena cidade.

Depois de rodar um pouco pela cidade – e encontrar uma placa alertando “Hijack Risk Area” – nos dirigimos ao shopping center Sandton City, onde passamos o resto da tarde. O shopping é maravilhoso, praticamente uma praia de água azul-piscina para esta paulista perdida no mato.

Fomos à loja Cape Union Mart e lá encontrei um casaco bem quentinho e bem bacana, por um preço muito mais em conta do que na Inglaterra, menos da metade do que eu pagaria lá, e o melhor, no meu tamanho, hooray!!!

É cinza claro com azul, à prova d’água (necessário 355 dias por ano na Inglaterra), breathable (como se traduz isso?! Respirável??), tem um casaco removível de fleece na parte de dentro, um capuz generoso que se fecha na frente da boca (mas não tanto para a sua respiração não congelar no frio, só para parar o vento) e também uma “saia” para colocar por dentro da calça e evitar que a umidade suba para sua camiseta, no caso de chuva. É bem legal, estou supercontente com ele, como dá pra notar. Depois de passar frio por dois anos e meio na Inglaterra a gente aprende o que um casaco deve ter.

Depois fomos comprar coisinhas para a câmera, um memory card de 512mb, um tripé e a cabeça do tripé. Deixamos na loja as calças, os olhos da cara, um rim e meio fígado, mas boas fotos nos aguardam! Valeu a pena ter comido miojo e bolacha salgada durante 35 dias. Devo continuar com essa dieta na Inglaterra e logo a gente compra uma casa!

E então passamos na livraria. Eu queria todos, muitos livros, mas comprei só dois: Holy Fools, de Joanne Harris e The Curious Incident of the Dog at Night-time, de Mark Haddon. O primeiro porque eu gosto da Joanne Harris, gosto como ela descreve texturas, cheiros, gostos e de como ela retrata a França de tempos atrás. E o segundo eu queria comprar desde que estava na Inglaterra. Já comecei a ler e não conseguia parar, tive que deixar o livro guardado senão terminava hoje mesmo. Preciso fazer racionamento de páginas.

Não encontrei de jeito nenhum em Johannesburg o livro Letters from Africa, de Karen Blixen, que o Cido havia recomendado. Acho que vou ter que ler esse só quando voltar pra casa. Quem sabe vai ser até mais legal já que tudo o que tenho vivido aqui vai ser memória quando voltarmos.

Cheios de sacolas e sorrisos enormes, fomos almoçar. Tinha vários, vários restaurantes para escolher e a gente queria algo bem diferente, algo que não lembrasse nem de longe o tanto de comida africana que temos ingerido esses dias. E escolhemos o Daruma, um restaurante japonês m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o! Nos sentimos tão bem, o restaurante era todo ambientado, bem decoradinho, chefs japoneses preparando sushis na hora, toalhinhas quentes para limpar as mãos, uma delícia!! Comemos sushis e asinhas de frango de entrada. Depois tivemos tempura de legumes fritos com perfeição e teriyaki como prato principal. Teriyaki são fatias finas de filé que vem num prato de ferro bem quente. Daí a garçonete despeja um molhinho de shoyu e cebolinha por cima e o prato faz tchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii e termina de cozinhar a carne e os vegetais que acompanha: broto de feijão, cenoura, nabo e repolho, tudo em tirinhas. E claro, muito arroz branco para acompanhar! Huuuummm, foi a melhor refeição em anos que tivemos (descontando, obviamente, as refeições na casa dos meus pais)!! E man, nós fizemos por merecer esta refeição divina, I tell you!

Depois de comer bem deu aquele sooooono, passamos na confeitaria para comprar pão fresco e salame pro jantar e voltamos pra Middelburg... oh dear.

Mas foi um dia espetacular, inesquecível, um dos melhores presentes de aniversário que tive. Johannesburg é imensa, tomando os mesmos devidos cuidados de quem vai a São Paulo, dá para ver que é uma linda e bem desenvolvida cidade. E é engraçado perceber que em menos de duas horas de distância o cenário social muda completamente, nem parece o mesmo país. Martin estava certo, bem certo, quando me disse para não tomar Middelburg como exemplo de toda África do Sul porque não é justo. Em apenas um dia na maior cidade do país pude perceber o quanto isso é verdadeiro. Navegar é realmente preciso.

*cidade fictícia só para dar idéia de um minúsculo lugar qualquer

Escrito a mão pela Marcia às 7:15 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (8)

Oh Yeah!

Quero agradecer a todos os recadinhos me felicitando pelo meu aniversário, muito obrigada, fiquei muito feliz de ler tanta coisa boa sendo desejada para mim! Eba! Adorei. Obrigada!

Escrito a mão pela Marcia às 7:14 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (1)

Parabéns, Dé!

Quem fez aniversário também no dia 27 foi a minha irmã Débora, que faz aqueles bolos artísticos fantásticos. Ela está cada vez mais especializada em bolos infantis, então quem estiver a procura de algo diferente e bastante caprichado para o filhote, entre em contato com ela: debora.satie@terra.com.br ou pelo website: www.deborayamashita.locaweb.com.br

Escrito a mão pela Marcia às 7:13 PM | Comente este capítulo (2)

junho 25, 2004

It’s My Birthday!

Primeiras horas da manhã da sexta-feira, dia do meu aniversário!
HOORAY!

Hoje eu faço 31 anos bem vividos até aqui. E este é o primeiro aniversário que comemoro na África do Sul.

Com Martin trabalhando de sol a sol, nem esperava que ele me fizesse nenhuma surpresa, ainda mais sabendo que a gente vai pra Jo’burg (decidimos!) amanhã de manhã. Mas assim que acordei ele me deu os parabéns e fantásticos presentes: um cartãozinho fofinho, 180 Rands de crédito para o celular pra usar a Internet e o DVD do Rei Leão Edição Especial. HOOOOOORAY!!!

Fiquei tão FELIZ com esses presentes!!! São todos tão especiais para mim. Não vejo a hora de assistir ao Rei Leão e tentar reconhecer os animais que vimos aqui. Faz tantos anos que assisti pela primeira vez que nem me lembro mais. Acho que vamos assistir hoje a noite, quando voltarmos do jantar.

Hummm, vamos comer bacalhoada no restaurante português, espero que seja bom. Eba! Eba!

Feliz Aniversário pra Mim!

In the arms of an angel

Hoje também é o dia que lembro do nosso bebê que foi para o céu. Dois meses. Ainda é difícil de acreditar, ainda sentimos tantas saudades de Little M, ainda nos machuca tanto lembrar de tudo o que aconteceu...

Não há um dia que eu deixe de pensar naquele bebê tão querido. Não há um dia que eu deixe de me orgulhar de Little M. Every single day...

Escrito a mão pela Marcia às 7:02 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (39)

junho 24, 2004

Um Mês se Passou

Já faz um mês que estamos vivendo aqui na África do Sul. Passou rápido. Temos agora uma certa rotina e os dias acabam voando. Não é sempre que a gente passeia por aqui, principalmente porque Mr.M quase não tem tempo livre. Então quando todas as novidades começam a se tornar comum, às vezes sinto falta da nossa casinha na Inglaterra.

A família da Delia viajou hoje para Moçambique, de férias. Estamos com uma outra landlady cuidando da pousada até eles voltarem. Então amanhã vou passar meu aniversário só com Bruno, Phoebe e Silvester. Mas Mr.M vai voltar para almoçar comigo e a noite a gente deve ir ao restaurante português pra comer bacalhau. Hooray!

E o meu presente vai ficar pro sábado. Nós vamos até um shopping center em Pretoria ou em Johannesburg, ainda não decidimos. Vamos comprar livros pra mim, muitos livros, todos livros. Já li os dois que havia trazido pra cá nas primeiras semanas, comprei duas Marie Claire e estou atualmente lendo a caixa de pasta de dente e as informações nutricionais da bolacha salgada.

Também vamos dar uma olhada em bush clothes, que apesar do nome, não se trata de roupas com estampa de G.W.Bush, mas sim roupas que se confundem com a cor da vegetação pra quando a gente for visitar os parques. Precisamos de camisas de manga comprida para evitar picadas de mosquitos malarientos e também para evitar a desidratação. E eu quero ver se encontro um casaco quentinho pra mim (só trouxe o impermeável, que não esquenta e ainda por cima é vermelho).

Li naquela revista Getaway que aos olhos de um carnívoro do alto da cadeia alimentar você não passa de uma simples refeição. Então é melhor respeitar as recomendações dos parques, vestir sua roupinha cor cáqui e ficar na sua sem querer chamar a atenção de quem tem mais dentes que você.

Eu não vejo a hora de conhecer outra cidade sul-africana! Ainda mais essas duas que são tão grandes e desenvolvidas. Estou com grandes expectativas, principalmente de comer bem, nham!

Mas só de ir para uma dessas cidades e conhecer um pouquinho mais deste país já vai ser um presentão de bom tamanho!

Escrito a mão pela Marcia às 7:15 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

Sem Gosto

Esses dias tenho sentido falta principalmente de cozinhar. Argh, tô desnutrida, desidratada e desiludida. Outro dia estávamos comentando que aqui em Middelburg não há o prazer de servir boa comida. Não há. Diferente da Itália, onde qualquer vilarejozico, qualquer lugarzinho mínimo serve boa comida porque simplesmente os italianos tem paixão de comer bem. Ou na França. Ou em certos lugares no Brasil. Ou em Portugal. Ou até mesmo na boa e velha Inglaterra com seus religiosos Sunday Roasts.

Não aqui, não, não, não. Já comemos em praticamente todos os restaurantes desta cidade. Tudo o que servem tem gosto de tempero pronto e de molho em garrafa. Tudo o que for mais barato e der mais lucro e aos diabos com o sabor. De início você nem percebe, acha tudo ok, mas logo o sabor vai se repetindo de restaurante em restaurante e você não agüenta mais sentir o cheiro do mesmo tempero.

Martin me perguntou o que eu quero ganhar de aniversário e eu respondi em um segundo: linguine ao pesto. Buá. :-(

Escrito a mão pela Marcia às 7:14 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (5)

junho 20, 2004

Anfitriões que se prezam

Li numa excelente revista de turismo daqui, chamada Getaway, que existe uma região na costa sudeste da África do Sul chamada Pondoland. Lá habitam os Pondos, cujos ancestrais foram valentes guerreiros que arrancaram a cabeça do chefe da tribo quando o mesmo tentou dar as terras para os brancos. Desde então ninguém mais mexeu com eles. Os Pondos nunca ouviram falar de Apartheid. Colonização – e conseqüentemente desenvolvimento – foram aspectos que passaram longe da região. Nem as tropas britânicas durante a Frontier War se meteram a besta de querer conquistar as terras deles.

Hoje em dia, os Pondos são um pequeno povoado extremamente humilde e acolhedor (desde que você não queira tomar posse das terras deles), que recebe turistas que vão visitar a Reserva Natural Mkabati e a costa selvagem sul-africana.

As acomodações são nas próprias casas dos Pondos, cabanas feitas de barro e palha, construídas em terrenos muitas vezes arenosos ou pedregosos. Porém, para aumentar o confortos dos hóspedes, a única forma de fazer o chão ficar lisinho para os seus pés é esfregando uma fina camada de cocô de vaca até tudo ficar bem suave e aconchegante, praticamente um carpete.

Então, assim que você chega, uma anfitriã vai estar ajoelhada, esfregando uma generosa camada de cocô de vaca em círculos para mostrar que foi feito tudo ao alcance deles para que você tenha uma boa estadia.

Ahhhh, quanto os hotéis cinco estrelas ainda têm a aprender...


Escrito a mão pela Marcia às 7:37 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (13)

junho 18, 2004

Compradores de Enciclopédia

Definitivamente precisamos comprar uma daquelas enciclopédias de animais, com o nome e a categoria de todos os animais da face terrestre.

Toda vez que vou com a Delia à Botshabelo eu não sei nem um mísero décimo dos nomes dos animais que vejo. Só sei: avestruz, zebra e impala (esse último porque aprendi aqui e ainda assim confundo com cervo e antílope).

A cada vez que a Delia avista um animal ela diz: Look! A “zxybghwtz” there!!! (sendo “zxybghwtz” o nome correto do animal em questão). Toda vez que eu avisto um animal eu digo: A “guy” there! Look at those guys there! Wow, nice guy* that one!

Completamente deprimente.

*guy = cara, rapaz, carinha, moço, fulano, dito cujo

Escrito a mão pela Marcia às 8:04 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (10)

É féshion in Middelburgh

Aliás outra coisa que nos faz pensar que voltamos no tempo são os cabelos das maioria das mulheres aqui em Middelburg. Parecem todas saídas daquele seriado Dallas, sabe? Ou Dancing Days. Escovados com as pontas pra cima, formando rolinhos. Olhos pintados de sombras azuis, uma cousa, vou te dizer. Mas é féshion. Daqui a pouquinho vou comprar uns bóbis pra mim.

Escrito a mão pela Marcia às 8:03 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (5)

Tiro ao Alvo

Martin estava me contando que uma vez ele visitou um museu em Cape Town e havia lá uma área sobre os primórdios do Apartheid e seus horrores. Disse ele que por volta de 1800 havia uma lei que permitia a todos os homens brancos da África do Sul o direito de atirar em qualquer bushmen (negros nativos, como os índios no Brasil), livres de qualquer pena. E então atirar em bushmen passou a ser um “esporte” como qualquer outra caça. Homens brancos saíam para caçar os negros por simples prazer da caça, nem era para escravizar nem nada, só pra matar mesmo. Era possível agendar roteiros turísticos com “exciting bushmen hunt”. Não é nem um passado tão remoto assim, tendo em vista que em 1880 o Brasil estava abolindo a escravidão.

Por mais que o Brasil tenha vivido atrocidades durante o período de colonização e escravidão, os níveis de racismo na história deste país com as leis do Apartheid estrapolam todos os limites, não dá para comparar com nenhum lugar do mundo. Assim como o holocausto também não se compara com nenhum outro massacre na história da humanidade.

Todos os dias a gente se depara com algo que nos dá a sensação de que voltamos séculos atrás. Simples comentários, que para os sul-africanos é comum e corriqueiro, nos faz arregalar os olhos.

Outro dia estávamos num churrasco promovido na pousada, com vários hóspedes sul-africanos. Lá pelas tantas comentamos sobre a boa comida do restaurante português que fomos e um dos hóspedes perguntou onde ficava o restaurante. E logo outra hóspede emendou na pergunta: “é um restaurante misto?” Mixed place é como eles chamam lugares onde brancos e negros freqüentam. Há restaurantes e lojas aqui que são obvios, não há negros, como se fosse um acordo silencioso. Outros são “mistos”.

Quando no Brasil você ouviria algo assim? Quando no Brasil alguém iria deixar de ir a algum lugar só porque negros também freqüentam? Ou vice-versa? Aliás, para a grande maioria dos brasileiros isso nem sequer passa na cabeça. Você vai e se diverte e pronto, nem liga para quem está lá ou deixa de estar. Pode até ser que existam certas criaturas iguais no Brasil, mas não o suficiente para ser uma pergunta ou uma menção (“ah, tal supermercado é bom, mas é misto!”) tão freqüente e comum como ouvimos aqui tantas e tantas vezes.

Palavras nos faltaram na hora, não respondemos nem sim nem não, que diabos, o que isso importava? Falávamos da comida...

(“Não entendo de terrorismo, falávamos de amizade...” – Legião Urbana)

Mas enfim... essa é a realidade deles. E Martin me alerta várias e várias vezes que Middelburg não deve ser usada como o reflexo ou exemplo da África do Sul. Como eu disse antes, esta é uma das cidades mais atrasadas quanto ao fim da segregação e a maioria dos brancos parece se orgulhar disso. Martin está sempre me explicando que na região de Cape (Cidade do Cabo) existem pessoas fantásticas, parece um outro país, uma outra sociedade.

Então talvez haja mesmo salvação.

Talvez o tiroteio um dia tenha fim. Não por causa da lei, mas por consciência.

Escrito a mão pela Marcia às 8:02 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (6)

junho 17, 2004

As Feras

É possível encontrar onças na região de Loskop, naquele parque que fomos e não encontramos os rinocerontes. Onças são animais solitários e muito tímidos e não gostam de se expor muito. São ótimos escaladores de árvores dificultando ainda mais a tarefa de seus admiradores.

Leões porém são mais cheios de auto-confiança, auto-estima e autoridade. Vivem em bandos e são mais fáceis de localizar do que as onças. Porém, como muitos de vocês devem ter percebido, não há leões nas ruas de Middelburg.

Para ver leões é preciso ir aos parques naturais onde eles vivem e o mais próximo de nós é o maravilhoso Kruger National Park, famoso por conter na imensa área natural o que eles chamam de Big Five: leões, onças, rinocerontes, girafas bufalos e elefantes.

Então acredito que até que a gente vá para esse parque vai ser muito difícil dar de cara com algum leão, mas nunca se sabe, né? Vai que? Então.

Aliás, uma coisa que estou aprendendo aqui é que safari não é o mesmo que ir ao zoológico. Sei que parece óbvio, mas eu tive grandes dificuldades para entender. Porque a gente espera ver os animais da mesma forma que a gente vê no zoológico, mas no seguinte sentido: quando alguém diz para você que no zoo tem leão, você vai lá e vê o leão bonitão, fica feliz e volta pra casa satisfeito. Então aqui na África quando alguém diz que no parque existe leão você vai no parque com as mesmas expectativas de quando você vai ao zoológico, mas a grande diferença é que ninguém pode garantir que você vai ver o bonitão do leão, ou qualquer outro animal.

É um pouco de sorte, um pouco de conhecer os hábitos dos animais, um pouco de saber onde eles estão em determinados horários, um pouco do olhar acurado para distigui-los da vegetação, um pouco de ter um bom carro 4x4. E mesmo com tudo isso preparado muitas vezes você não os vê. E obviamente que você se sente frustrado, afinal você foi lá para vê-los, quer vê-los e não voltar pra casa sem nada. Essa é a diferença e foi difícil quando fomos a Loskop e não encontramos os rinoncerontes, que são a grande atração daquele parque.

Nem sempre os animais querem ser vistos e eles são extremamente eficientes na arte da camuflagem. E este também foi um enorme aprendizado que tivemos aqui. Por mais que a gente admire a beleza de um animal numa revista, num livro ou num zoológico, só estando no ambiente deles para perceber e entender por quê eles têm a cor que têm, os chifres que têm, a pelagem que têm.

Quando você vê a mata ao seu redor com tocos de arbustos secos e escuros, pode estar certo que logo você encontra um animal com chifre semelhante. Quando a vegetação muda e as árvores secas são mais altas e os galhos mais pontudos, ali estarão também os antílopes. E quando a pálida grama alta de quase um metro cobre o solo de areia escura formando listras, lá estarão as zebras. Até os leões têm a mesma cor da terra e da grama. Até as onças se confundem entre a cor das árvores secas com suas folhas arredondadas que na sombra ficam pretas. É a seleção natural, dizia Darwin. E não deixa de ser naturalmente, incrivelmente fascinante.

Escrito a mão pela Marcia às 8:06 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (6)

Limites


A conexão via telefone celular é bem legal, mas tem seus limites. Eu achava que comprando o cartãozinho com os créditos pré-pagos estava tudo certo, mas não é bem assim. Aqui existe o horário caro e o horário barato para usar o celular pré-pago. No horário caro (7h00 às 20h00) os créditos vão embora feito água no seco solo africano. No horário barato (20h00às 7h00) os créditos duram três vezes mais.

Eu não sabia disso até usar a Internet para fazer transferências e pagamentos em bancos, checar meus e-mails e tudo mais. Quando fui ver quantos créditos restavam levei um susto, toda nossa quota para esta semana já tinha ido embora em 30 minutos.... L

Fiquei tão triste e me senti tão anta! Eu tinha economizado todos os dias comendo miojo na pousada durante o almoço só pra poder comprar o cartão cheio de créditos (ser nerd e pobre definitivamente não é saudável) e eles foram embora assim, sem piedade.

Mas agora já sei como funciona e vou conectar apenas depois das 20h00 só para enviar dados escritos offline. Martin comprou novos créditos ontem para eu parar de chorar, mas eu quero economizá-los e fazer durar até a semana que vem. Muitos miojos me aguardam.

Escrito a mão pela Marcia às 8:05 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (2)

junho 16, 2004

Brasil no Sunday Times da África do Sul

O Sunday Times é o único jornal sul-africano que eu consigo ler porque é em inglês. E no jornal do domingo passado havia uma matéria de página inteira, escrita por Fernando de Freitas, sobre o rascismo no Brasil.

Há muitos elogios sobre o fato do Brasil estar cada vez mais incluindo modelos e artistas negros e pardos em produtos, propagandas, filmes, novelas, como parte de sua sociedade, ao invés de apenas loiros europeus, que não condizia com a realidade do país.

A matéria foi muito bem escrita, envolvendo os três séculos de escravidão, a novela Da Cor do Pecado, o racismo codial, mas principalmente focalizando a grande polêmica da quota de vagas nas universidades para estudantes negros, que aliás eu nem sabia que estava acontecendo.

E muitos especialistas (sociólogos, antropólogos e historiólogos) comentam na matéria o caminho errado e perigoso que o Brasil está tomando com decisões como essa. Dizem eles que é nítido que o Brasil está copiando o mesmo sistema usado na África do Sul na época do fim do Apartheid, numa tentativa sem jeito de combater o problema do rascismo, mas há uma diferença muito grande que os governistas e ativistas não estão enxergando: o Brasil não é a África do Sul.

Na África do Sul sempre houve e ainda há essa grande e gritante diferença: brancos e negros. No Brasil não. No Brasil há brancos, há negros, há pardos, há vermelhos, há amarelos, há tudo isso misturado, filhos, netos e bisnetos de negros com brancos, negros com amarelos, vermelho com bancos, numa mistura sem fim, muitos mestiços de gerações diferentes, sem sequer ser possível de classificar. Na África do Sul há sul-africanos negros e brancos holandeses. No Brasil há grupos vindos da África, da Ásia e da Europa, numa missigenação única, como em nenhum lugar do mundo.

O inglês antropologista Peter Fry, que mora no Brasil, diz que os brasileiros têm mais de 300 diferentes categorias para se identificar. “E mesmo assim o governo agora está dizendo a todos os brasileiros que existe uma uma divisão entre a sociedade: brancos e negros. E isto é a base para atritos raciais. Eu não acho que este modelo é viável ao Brasil de forma nenhuma e me preocupo quando o governo tenta forçar as pessoas a se identificar nas bases dessa rígida categoria de raças”, diz ele.

E o jornalista Ali Kamel ainda complementa: “o maior problema do Brasil é a miséria, não o rascismo. E a resposta não está em culpar os brancos ou outros grupos, mas atacar o real problema da miséria. O que o governo está tentando fazer é tornar um fenomenal país multi-colorido e uma fantástica sociedade que sabe viver pacificamente junta, em um país bicolor cheio de mútuo ressentimento”, explica Kamel.

Fernando de Freitas também não deixa de fora os brasileiros de bom-senso: “Kamel expressa o ponto de vista de muitos brasileiros, que as autoridades deveriam focalizar na melhoria do ensino público e no sistema educacional, para dar condições a todos os brasileiros de entrar na universidade, sejam eles brancos, negros, pardos, amarelos, vermelhos, ricos, pobres, deficientes físicos ou o que for. Fazer estudantes se sujeitarem a exames extremamente difíceis só favorece candidatos que tiveram ensino de elite em escolas particulares”. E finaliza dizendo que é louvável que o Brasil esteja ciente e preocupado com o problema que os negros enfrentam na sociedade e no mercado de trabalho. Mas que nesta estrada tentando encontrar seu próprio caminho, o país se perde ao querer se reinventar.


Escrito a mão pela Marcia às 7:05 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (12)

junho 14, 2004

Recado de MR.M

Alguém além da Bia Badaud reparou no recadinho que Mr.M havia escrito pra vocês num dos post? Tá aqui (notem no português perfeito dele):

"Hello everybody,

I have printed off all your comments today for Marcia to read tonight!

I hope that Marcia will finally have an internet connection by the end of this week, muito dificil aqui na Africa da sul!!

tchau,
Mr. M
Posted by Mr M at junho 7, 2004 02:57 PM

E ele fez tudinho mesmo para que hoje a gente tivesse essa conexão maravilhosa! Dankie, Martin my love! :o)

Escrito a mão pela Marcia às 8:45 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (15)

Conectados

14/06/2004
Nerds Strikes Again

Chegou! Apesar do meu ceticismo, o birinaite para nos conectar à Internet chegou na sexta-feira! HOOOORAY!!! Demorou até domingo para a ente fazer tudo funcionar no laptop. A gente sabia que o laptop estava com um problema desde que o instalamos em rede com o PC lá de casa, então tivemos que restaurar o Windows desde a última modificação antes da rede para poder acessar a Internet. E para fazer isso, levou bastante tempo até a gente gravar tudo o que precisávamos, depois instalar tudo de novo para fazer tudo funcionar como antes.

Estamos usando o SIM card local do meu celular no adaptador Nokia D211, que é inserido no laptop. Estamos pagando com cartões pré-pagos, como se fosse uma chamada normal de celular mesmo. Quando finalmente resolvemos o problema da rede, os créditos do cartão pré-pago tinham se esgotado e tivemos que esperar até o dia seguinte para comprar outro e testar. E ficamos surpresos em perceber como os créditos acabam rapidamente quando se conecta várias vezes! É melhor conectar uma vez e ficar conectada por um bom tempo do que conectar várias vezes por curtos espaços de tempo.

Essa mordomia continua saindo bem caro, então vou continuar escrevendo tudo offline e provavelmente não vai ser possível publicar fotos por causa da lentidão da conexão, que é local e gratuita, para não gastar os créditos à toa. Nós não vamos assinar nenhum plano de provedor de Internet sabendo que logo estaremos de volta à Inglaterra, nossa nerdisse fica por aqui mesmo.

Mas ao menos agora a gente pode conectar à Internet em qualquer lugar do mundo que estivérmos, sempre que quisermos ou precisarmos, sabendo exatamente quanto estamos gastando.

Já está sendo infinitamente útil ter essa conexão no laptop, principalmente para controlar nossas contas bancárias (nem sempre você quer digitar sua senha num computador alheio), fazer pagamentos, entrar em contato com as nossas famílias, fazer pesquisas que a gente precisa, um mundo de outras coisas. E por tabela, manter o contato com meus amigos, meu blog, meus e-mails, continuar me comunicando, enfim. Tudo isso é tão importante, principalmente neste lugar tão remoto, que estamos bastante satisfeitos de termos adquirido mais essa tecnologia fenomenalmente priceless.


14/06/2004
Trekking in Botshabelo

Foram dois dias de trekking no parque natural de Botshabelo.

No Brasil quando eu fazia alguma viagem que incluía trekking, geralmente o que acontecia era só uma caminhada longa, às vezes com declives e nada mais difícil que isso. Já aqui quando se diz trekking é melhor levar a sério.

No primeiro dia fomos eu e a Delia numa área extremamente rochosa, pedregosa e arenosa. Quando meu pé não rolava com as pedras, se afundava na areia fofa vermelha ou então se equilibrava nas rochas balançantes. Nada de caminhada em relevo plano, em trilha aberta, nadinha. As decidas são sempre mais difíceis, exigem muito mais das coxas, dos joelhos e dos tornozelos. Já nas subidas são os braços, as mãos, as costas e as panturrilhas que trabalham mais. Foi cansativo, mas bem divertido, vimos ovos roubados, penas de pássaros predatores, toca de animais, plantas esquisitas, foi bem legal. Cansei um pouco, mas não cheguei nem a ficar dolorida. Acho que o mínimo de preparo físico que tive deve ter vindo da Yoga. Depois do trekking fomos fazer o safari com o 4x4, vimos lindos meerkats (o Timão do Rei Leão), vimos também uma família de wild boars (o Pumba do Rei Leão) com vários filhotinhos, vimos muitos impalas, antílopes, zebras e um outro chifrudo bem feio (que chega a ser bonito) que eu não sei o nome.

No segundo dia fomos eu e Martin, em seu tão precioso e merecido dia de folga! Antes de começar, visitamos o mini-museu para ver o artesanato local, depois fizemos um picnic no vilarejo de Botshabelo, estendemos a colcha, comemos sanduíches, frutas, tomamos Ice Tea e ficamos deitados apreciando os pássaros predatores voando com seu ar de dignidade.

Depois pegamos uma trilha que exigiu bastante de nós. Muitas vezes a gente tinha que escalar alguma pedra para poder enxergar por cima da vegetação onde é que a trilha continuava. E durante o percurso, vários vãos bem largos entre as rochas que a gente teve que de alguma forma ultrapassar, paredões para se segurar feito homem-aranha, árvores fazendo teias com seus galhos finíssimos cheios de espinhos, areia fofa cinza que segurava nossos pés, buracos escondidos nas palhas do chão, cocozinhos de impalas por todos os lados. Levei tombos, torci o tornozelo (o que estava bom, não o outro torcido), Mr.M torceu o tornozelo dele, nós dois tivemos espinhos encravados nos dedos, escorregamos algumas rochas de bunda, vários arranhões nos braços, voltamos com as mãos e os rostos completamente sujos e vermelhos, pés com bolhas, tênis cheios de areia, calças e unhas irreconhecíveis, but boy we had fun! Foram três horas de trekking seguindo o curso do rio, encontramos algumas áreas onde a grama estava toda amassada no chão, provavelmente onde alguma família de impalas costumam dormir a noite, foi bem especial. Às vezes Mr.M ouvia algum animal bufando, mas não vimos nenhum, mal dava para tirar os olhos do chão para não cair. Havia uma ponte pênsil no caminho, mas não nos atrevemos a atravessá-la, depois eu mostro as fotos e vocês vão entender o porquê.

Voltamos do trekking, pegamos o carro e fomos fazer um safarizinho para ver os animais. Mas como estávamos com o carro normal, não deu para chegar muito perto (por causa dos buracos e valetas imensas), só vimos à distância. Além dos animais que vi no sábado, vimos desta vez um casal de avestruz enorme, milhões de macaquinhos, renas orelhudas e um pôr do sol absolutamente magnífico!
A cada dia, a cada vez que vamos a Bostshabelo é completamente diferente. Não há um dia igual ao outro. Num dia você vê um animal diferente, no outro um pôr de sol diferente, no outro algo completamente inesperado. Não me canso de ir lá, não me canso nem se for ver os mesmos animais again and again. É sempre diferente, é sempre uma surpresa, é sempre inesquecível.

11/06/2004
A Bica

Ontem os donos da pousada nos recomendaram um restaurante português. Fiquei empolgadíssima e fomos lá jantar.

É um lugar bem simples, com mesinhas de alumínio, sem chiqueza nenhuma. Mas uma delícia de comida, huuummm!

Comi risoles de bacalhau com tanto gosto, estava tão bom!!!
Depois comemos frango assado com alho, nham!!

E o melhor da noite: estávamos jantando e a música ambiente era de umas canções típicas portuguesas. Daí contei pro Martin que no Brasil tem um cantor português chamado Roberto Leal que canta umas músicas daquele estilo e que tinha uma dança de bater palma dando pulinhos e tudo mais, tudo muito brega e muito engraçado. Lá pelas tantas eu ouço dos altofalantes:

“ai bate o pé, bate o pé, bate o pé
ai bate o pé faça assim como eu
ai bate o pé, bate o pé, bate o pé
foi assim que meu amor me prendeu...”

E eu: GAAAAAAAAAAAHHHHH!! É ele! É ele, Roberto Leaaaaal em Middelburg!!!

E eu fiquei cantando junto com a música e só não mostrei como dançava porque Mr.M me ameaçou me deixar sozinha no restaurante. Hoho.


11/06/2004
Feliz Aniversário!

Hoje é aniversário da minha cunhada Maristela, que é uma pessoa linda em vários sentidos.
Feliz Aniversário, Maristela!
Beijos com muitas saudades.

10/06/2004
Recados Amados, o post-respostão

Meus amores, Martin imprimiu mais uma vez os comentários daqui do blog. Ele gosta de chegar no quarto, fingir que tem uma surpresa dentro da mala do laptop dele e tirar lá de dentro -- dizendo tãrãm! -- umas folhinhas com todos os comentários impressos, só pra me ver abrir um sorriso que ultrapassa as orelhas e os cantos da minha boca dão um nó bem na altura da testa de tão feliz que eu fico!!

Eu leio e releio cada um, várias vezes, por vários tempos. É tão bom receber esse retorno, conversar com vocês todos, sentir esse monte de energia positiva vindo nessas palavrinhas escritas com tanto carinho. Eu simplesmente amo tudo isso.

Vou tentar escrever aqui um post-respostão incluindo alguns dos comentários, mas por favor ninguém se sinta ofendido se eu não respondi pessoalmente a algum recado. Li todos, amei todos, igualmente. As respostas aqui na verdade são para todos vocês.

Ontem antes de sair para o jantar, lembrei das aulas da Marcia-SP e falei para a Delia com meu sorriso cheio de dentes: tot straks! E ela perguntou se eu estava precisando de alguma coisa (?!?!?). Acho que ela pensou: “pronto, a menina endoidou de vez, num consegue nem falar direito mais”. :-/ Perguntei a ela se não era tot straks que se usa para dizer ‘até mais tarde’, mas ela não reconheceu esta palavra, nem soletrando. Daí o outro hóspede sul-africano que estava jantando (porque claro, eu tinha que passar mico com audiência e tudo), falou: “aaaah, ela quer dizer tot siens”. Daí ele ainda me explicou que o tot siens é que quer dizer ‘até a próxima vez que nos encontrarmos’. E eu pensei que tot siens era só pra quando você queria dizer goodbye, so long, farewell. Oh buggar. Não foi desta vez que impressionei com meu rico vocabulário em Afrikaans. Mesmo quando tivermos internet acho que vou continuar perguntando as coisas prôce, Márcia-SP, muito mais legal. :o)

A África do Sul é tão grande e tem cidades tão populosas como Johanessburg e Cape Town, que acredito que já houve sim casos de casamento entre brancos e negros, como a Maria Inês havia perguntado, dignos de romances com famílias contra e tal. Eu ainda não vi aqui em Middelburg e acho que nem vou ver, mas acho que existem casos sim.

Estou com muitas saudades de responder e enviar e-mails, ter os bate-papos casuais no messenger como os que eu estava tão mal-acostumada a ter com a Mary queridoca louca e desvairada, só pra falar bobagem, pra dizer o que comeu no almoço, o que passou na tv. Mary, cê viu o comentário da Anna da Dinamarca? Igualzinho ao que eu senti quando você se mudou de Böden para Umëa. Engraçado, né? Estamos todas separadas de qualquer forma (Anna, Mary, eu e todo mundo, aliás), mas a gente sente saudades, tantas saudades quando aquela pessoa que estava sempre “perto” vai para um outro lugar! Eu chego até a rir de vez em quando, pensando: que diabos, que diferença faz Böden ou Umëa, Inglaterra ou Middelburg, Dinamarca ou Suécia, estamos longe e separadas da mesma forma, hehehehe. Mas é bom, né? Shows that we care. Isso é muito bom.

Obviamente que fiquei completamente lisonjeada e totalmente sem jeito com a história do Cido meu querido com o “Marciaholic”. Cido, só você mesmo para vir com essa história tão bem-humorada e cheia de carinho, hohohoho. Amei, ri até dar dor de barriga, imaginando as reuniões do M.A. hohohohohoho. Muito obrigada, viu? Cê sabe que eu tenho várias dessas síndromes também, né? E ultimantente estou em abestinência de todos os meus blogs viciantes e ando tendo tremedeiras e calafrios só de imaginar a corzinha azul clara de um tal de Vilamarca, do lilás da Montanha-Russa, do colorido do... aaaargh, melhor parar!!! Você tem razão Cido, as experiências que tenho vivido aqui vão ser preciosamente guardadas pro resto da minha vida. Estou muito contente de ter o blog, de estar registrando tudo isso (e fazendo back-ups), de estar contando para vocês meus dias, minhas impressões, meus passeios, meus micos. E receber esse carinho todo faz tudo tudo ficar mais belo e feliz!

Hohoho, a bronca que o taxista deu na Bia Badaud até que faz sentido, mas que coisa, hein Biazita? Você não merecia isso não, o moço bem que poderia ser mais sutil contigo, ainda mais com passagem comprada e empolgação toda que envolve uma viagem dessas. A África do Sul é um país que vale a pena sim vir visitar. Eu nunca achei que sequer teria a chance de um dia estar aqui. Quando a gente pensa na África, logo vem na cabeça safaris no Quênia ou coisa assim. Mas no sul há muitos safaris fantásticos para se fazer e muito mais barato. Aliás, para os brasileiros realmente é uma excelente idéia de turismo já que o Real está mais valorizado que o Rand. Não é sempre que brasileiros têm a chance de viajar para um país e achar tudo mais barato. Quem sai do Brasil para a Europa já carrega o saldo negativo de R$5 para €1, no mínimo. E para a Inglaterra, R$6 para £1, mais ou menos. Já aqui na África do Sul, estamos com a diferença de 12 ou 13 Rands para cada Libra. Então acredito que o Real vale o dobro de Rands (façam as contas por mim, please, eu não me entendo com os números, nem em conta facinha, eu sempre uso o Yahoo! Currency Converter pra isso e no momento estamos em falta). Entã enfim, é sim uma rota turística a se levar em conta, para visitar um país de clima delicioso, conhecer essa gente amável e ver animais selvagens em ambiente natural como em nenhum outro lugar do mundo. E não pagar tanto durante a estadia. Bia Badaud, Luciana e Tereza de Bruxelas se vocês um dia fizerem isso e vierem para cá, tenho certeza que não vão se arrepender. À vista da primeira horda de antílopes, tudo parece valer a pena. Ah sim e mandem um postal pro taxista que ele vai ficar feliz da vida!

Eu não sei bem em que latitude estamos aqui em Middelburg, nosso Atlas tá lá em casa e só me resta minha amiga Samara para dizer com precisão. A Luciana Misura havia me perguntado se não era a mesma do Rio, mas até agora eu não sinto que estamos num país tropical não. Acho que estamos numa latitude mais ao sul, como a Argentina, mas não tenho certeza. Ao meu redor vejo vegetação muito seca, relevo de rochas vermelhas, muita poeira, ar muito seco. A noite faz um frio intenso, gelado. Luciana, acho que vocês vão se dar bem com a comida daqui, tem molho para todos os gostos! Nós estávamos acostumados com uma comidinha mais simples em casa, mesmo comendo carne, a gente sempre tinha um purezinho de batatas, legumes no vapor, linguine ao pesto, saladinha de rúcula e mozzarela de búfala, risoto de cogumelo, aquelas coisas divinas todas, aiai...

Como disseram a Joaninha Lu e a Andrea, estou ficando poliglota no que diz respeito ao obrigado. Quer dizer que em alemão é Danke? Que maravilha! Agora já sei falar Obrigado e Feliz Natal (por culpa dos cartões da Unicef) em várias línguas. Pelo menos não vou ser mal-educada globalmente. Danke, ladies.

E por fim, a Garota Urbana exemplificou bem como essa idéia da segregação ainda é intrínseca em uns e inexistente em outros. O que me espanta no caso dos amigos dela é que são da mesma família. Mas concordo contigo, Garota Urbana, há pessoas com boas e más intenções em todos os lugares. E há chatos e babacas no mundo todo também. Hehe.

Beijos a TODOS vocês, muito obrigada por todos os comentários, torcidas para o leão aparecer e desejos de bons momentos para nós. Desejo a vocês tudo isso em dobro (apesar de que o leão fica opcional), muita coisa boa para cada um de vocês, todas as porções de felicidade que todos nós merecemos na vida. E agora é melhor eu ir antes que todo meu repertório de mensagens de Natal se acabe neste único parágrafo. :o)

Tot siens!


10/06/2004
A passo de mula

O que era para ser hoje, quinta-feira, ficou para sexta, mas provavelmente só para a segunda mesmo. Então estou assumindo que vai ser só na outra semana mesmo.

Estou falando do nosso treco para conectar o laptop à Internet. O birinaite ainda não chegou de Jo’burg (é como eles chamam Johannesburg, o que eu acho uma pena porque é um lindo nome antes da abreviação).

Parece que a central em Jo precisa fazer o pedido pra Nokia, que vai enviar para a loja em Jo, que então vai enviar para Middelburg. E eu não sei ainda em que processo que o breguete tá enroscado.

É preciso ter paciência, as coisas não funcionam tão rápido quanto a gente gostaria, mas é bom saber que temos essa opção a caminho e se Zulu quiser, vai dar tudo certo.

10/06/2004
Churrascada entre Bretões

Ontem fomos à um churrasco com todos os colegas de trabalho do Martin, mas desta vez sem os big bosses, como naquele jantar anterior.

Foi na pousada onde Simon, James e Les estão hospedados, o Simon que organizou tudo.

Para a minha alegria, o churrasco foi feito ao ar livre pelos funcionários da pousada mas todos nós ficamos dentro do pub, com lareira e aquecimento acesos só esperando a comida chegar. Estava um frio incrível, muito gelado.

Os colegas do Martin estão espalhados em três pousadas: esta que fomos ontem se chama Selma’s Guesthouse, tem três cachorros grandes, sendo que um deles é um Husky Siberiano vermelho. A dona da pousada é portuguesa. Mas não gostei do lugar não. Fica muito distante do centro e não tem absolutamente nada de atraente no lugar. Só grama seca, uns quartos sem imaginação e só.

O outro lugar é um Country Club, com área de golf e quadra de tênis. Lá estão hospedados Ray, Mike e Brian. Também é longe do centro e o ambiente é de hotelzão mesmo. Mas lá tem linha telefônica nos quartos.

E finalmente nós dois estamos na pousada da Delia, que até onde vi, é o melhor lugar para se estar por tudo que inclui: boas pessoas, bons animais, bom serviço. Dave estava aqui conosco, mas ele já voltou ao UK, então só estamos nós por enquanto, até julho, quando mais funcionários da Inglaterra vão vir para cá para o encerramento do projeto.

Mas voltando ao churrasco. Eu adorei. Conversei bastante com o Les, uma simpatia de pessoa, bem legal. Ele pratica vários esportes outdoor, passou vários meses em Governador Valadares/MG fazendo paragliding. Recentemente ele fez um trekking em um lugar bem remoto do planeta, esqueci o nome... Logo o Brian se juntou a nossa conversa, ele é bem divertido, acho que ele é o mais velho de todos, também viveu no Brasil por dois anos, em Vitória/ES. Depois ele quis cantar Garota de Ipanema em inglês para um outro colega deles que disse que nunca ouviu falar em tal música, foi bem engraçado.

Conversamos também com o outro Brian e a esposa dele, Bridget. Ambos moram em Poole (a maioria dos funcionários aqui vêm de Sheffield, só o Martin e este Brian vêm de Dorset) e são também amigos do Trevor e da Ariete, que é minha amiga brasileira. Eles também viveram um tempo no Brasil, em Recife, por um ano. Visitaram também Manaus e o Rio de Janeiro e adoraram tudo.

O jantar estava bom, carne, borwoss (não sei se é assim que escreve, é aquela linguiça de carne), “pap” que parecia uma polenta branca e salada. Comi bem, bebi só um tiquinho de vinho Cape. E não tinha sobremesa. Humpf.

Foi uma ótima noite, adorei entender as pessoas falando em inglês comigo. Já estava achando que era algum fusível queimado no meu cérebro (ou fusil queimado no célebro) porque eu não entendo os sul-africanos falando em inglês. Repentinamente o inglês da Inglaterra têm soado como música em meus pobres ouvidos, muito mais fácil, limpo e claro de se entender. Oh Goodness gracious me!


Escrito a mão pela Marcia às 8:34 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

junho 7, 2004

Outra Janela para Africa

07/06/2004
Mais presentes

Mr.M imprimiu e trouxe mais comentários para eu ler!!

ÊÊêÊêêêÊÊÊêê!!!
Viva tanãnã! Viva tanãnã! Viva tanãnã!

Vou tentar publicar mais posts hoje a noite!
Beijos a todos vocês com IMENSAS saudades!!


07/06/2004
Keep on Movin’

(wheeeeeeze… pufff... pufff....)

Mr.M tem trabalhado todos os dias, inclusive de final de semana, por mais de 10 horas por dia. Tem sido bem cansativo pra ele e a gente não vê diferença quando chega sexta ou sábado ou domingo. (pufff... pufff...)

E como eu tenho ficado sozinha a maior parte do tempo, os donos da pousada me levam com eles para todos os cantos: no banco, na vizinha, no vilarejo de Botshabelo, na academia. (wheeeze..)

No final de semana passado a dona da pousada me intimou a caminhar com ela todos os dias, às cinco da tarde (horário do pôr do sol) por meia hora. E hoje fomos caminhar juntas. Eu com minhas pernas curtas e ela com suas pernas holandesas longas em ritmo acelerado, em ladeiras, escadas, ruas, pontes e tudo mais. (wheeeeze... wheeze.. wheeeeze....)

Eu (puff… puff…) cansei (puff…) tanto… Mas estou me sentindo bem. Trouxe o DVD de Yoga mas até agora não tinha feito nenhuma série, pura preguiça. Então meu corpo estava acostumadíssimo com a vida boa. Agora meu coração acha que as pernas tão di sacanagi e meu pulmão ameaça greve. (wheeeeze....)

Amanhã tem mais caminhada. E depois e depois também. Vou voltar pra Inglaterra pronta para a Maratona de Londres. (huuuffff pufff.....)

Ah sim, comecei também a limpar a piscina. Como estamos no outono e tem um árvore imensa derrubando 3 bilhões de folhas por hora na piscina, eu fico com a redinha com seu cabo longo e pesado pescando e jogando as folhas num canto do jardim. É um bom passatempo e exercício para os braços, já que a cada minuto a árvore joga mais e mais folhas pra pateta catar. Vou começar a cobrar R2 por cada vez que limpo a piscina, que nem o moço que cobra para olhar o carro.

Meu branco-fantasma já sumiu e agora exibo uma bela cor magnólia-clara-esbanquiçada. Mais ou menos como um copo de leite com meia colher de chá de nescau.

Eu não aguento mais comer fast-food. Acho que nunca mais vou colocar um hamburger na minha boca outra vez. Argh. Hoje almocei vento, simplesmente porque não queria ver comida na minha frente. Agora estou morrendo de fome com esses exercícios todos. A gente vai jantar na pousada hoje, dankie God, não aguento mais comida de restaurantes também. A Delia cozinha uma comidinha caseira muito boa e uma sobremesa divina! Nham. Acho que vamos passar a jantar todos os dias aqui e em restaurantes só no final de semana, quando a pousada não serve jantares.

Saudades da minha cestinha de legumes querida, nhaaaaaam....
Por hoje é só, vou lá descansar.. pheeeeeew....

Ah sim, número de leões vistos até o momento: 0

06/06/2004
Paying it Forward

No sábado fui no McDonald’s almoçar. Pedi um quarteirão e um suco de laranja. O moço me deu o suco e disse que eu podia ir sentar que ele levaria o sanduba pra mim.

Mas daí a escola do lado havia terminado a educação física e num instante o lugar estava lotadíssimo de adolescentes comprando Big-Macs. Esperei, esperei, esperei e como meu sanduba não vinha, fui lá no caixa outra vez.

O moço me viu e fez aquela cara de espanto de quem esqueceu completamente do meu pedido. Ele me entregou o quateirão e pediu desculpas. Eu disse que não tinha problema, sorri e fui sentar para comer. Logo ele veio até a minha mesa me trazendo um outro copo de suco de laranja. Eu disse que não precisava que estava tudo bem, mas ele insistiu por causa da demora.

Daí eu já estava estufadíssima com meu sanduba e o suco que já havia tomado porque eu não costumo beber muito durante a refeição. E eu não queria nem ver mais suco na minha frente. Nem coloquei o canudinho. Pensei: vou levar o copo de suco pra pousada e tomo a tarde, sei lá.

Saí do Mac carregando meu copo extra de suco e o canudinho ainda embalado no papel. Eu tinha que andar vários passos e conforme eu ia caminhando o suco ia vazando e pingando na minha calça. Por um milésíssimo de segundo pensei: tomo o suco? Jogo fora no lixo? Continuo carregando o copo pinguelento?

E enquanto eu pensava o que fazer com o copo extra de suco, olho para o meu redor e vejo duas mulheres sentadas no gramado, com um bebezinho pequeno e uma menina maiorzinha. Fiquei olhando aquela família por um tempo, me aproximei delas e perguntei em inglês se elas queriam ficar com o suco. E por um outro milésíssimo de segundo fiquei constrangida de talvez estar ofendendo uma família que estava lá no gramado só tomando um solzinho. Mas logo a mulher segurando o bebê arregalou os olhos e abriu um sorriso imenso vendo o copo de suco na minha mão e fez sim com a cabeça urgentemente. Eu entreguei o copo e o canudinho para a menina maior, que também estava de olhos arregalados para o copo com o Ronald McDonald estampado.

Daí a mulher com o bebê sorriu olhando para mim e disse “Thanks, Dankie”, acho que ela não conseguiu reconecer se eu falava mal-inglês ou mal-afrikaans. E a mulher mais velha ao lado dela também balançou a cabeça e disse “Dankie” timidamente.

E eu me senti um monstro por ter pensado por um instante em jogar fora o suco só porque estava pingando na minha calça. Mas me senti aliviada porque não fiz isso e porque doei aquele suco doado para alguém que dificilmente teria condições de comprar. Queria poder ter dado todo aquele sanduíche também porque nem com muita fome eu estava.

Queria poder ajudar mais do que está ao meu alcance.

Eu não vou mais esquecer os sorrisos e os olhares e os “dankies” que recebi hoje.


05/04/2004
Fingers Crossed

Estamos com todos nossos dedos cruzados para que dê certo.

Na semana que vem, num ataque de nerdisse extrema, vamos ver se conseguimos um adaptador da Nokia para nos conectar à Internet, HOORAY!!!

Espero que dê tudo certo e que funcione. Não vejo a hora de poder ter Internet sem precisar depender de ninguém. E também ganhar um crachá de nerd senior. Aliás há dias que não sei o que acontece no mundo, não encontro jornal em inglês aqui, só em Afrikaans. Foi um susto saber que o Regan morreu. Estou completamente defasada. Preciso de um meio de comunicação com o mundo, com minha família, meus amigos. Enfim, preciso de uma interneta, preciso.

Tomara que dê certo, tomara, tomara.

Temos que esperar até a semana que vem. *sigh*


05/04/2004
Invernos

Só porque eu reclamei pelas orelhas sobre o inverno na Inglaterra, este ano excepcionalmente vou viver dois invernos seguidos, posteriormente seguido de um outono e depois de um terceiro inverno.

Tinha acabado de sair do frio nublado e chuvoso do inverno sem fim da Inglaterra, estávamos no começo da primavera quando viemos para cá. Na Inglaterra as árvores estavam desabrochando em folhas novas, flores viçosas, muita vida. Chegando aqui na África do Sul vi as árvores em cor mate, folhas caindo, noites mais frias.

Agora o inverno já está entre nós definitivamente. De noite e de manhãzinha o gelo cobre o gramado e os telhados, num frio impressionante, chegando a – 5C. Impressionante porque de dia o sol continua brilhando firme e forte e quente, chegando a marcar 23-25C. Então a queda é muito mais acentuada e drástica.

Mas a África do Sul é um país seco. Muito seco. A sensação térmica não é tão má, basta se agasalhar. Não chove no inverno, a vegetação tá uma palha só e os incêndios ocorrem facilmente. Outro dia acordamos no meio da madrugada com um cheiro forte de fumaça no quarto, entramos em pânico e achamos que estava tudo pegando fogo. Mas os donos da pousada também haviam acordado e nos informaram que era provavelmente a grama pegando fogo em algum lugar. No dia seguinte vimos que o fogo aconteceu num campo até bem distante da pousada, mas a fumaça tinha chegado até lá no nosso quarto.

O clima é realmente de deserto, mas deste inverno eu não tenho do que reclamar. Porque aqui faz sol todos os dias. Dia sim, dia sim também. Todos os dias. Sol, sol, sol. E eu precisava muito desta luz quente, deste céu azul royal intenso. E deste calorzinho no coração depois das tempestades que passamos.

04/04/2004
Botshabelo, o retorno

Estava eu calma e tranqüila, sentada na frente da pousada, onde sempre fico para assistir o espetacular pôr do sol africano, com cão Bruno dormindo no meu colo, quando a Delia me convidou para dar uma volta com a pick-up, só nós, sem os meninos. Só tive tempo de fechar nosso quarto e entrar no carro.

Pra minha surpresa ela me levou para Botshabelo de novo para ver os animais. Mas desta vez era com a luz do dia, ao contráro daquela vez que fizemos o safari noturno. Eu fiquei estonteada com a beleza que vi. Absolutamente encantador ver as zebras, os búfalos e impalas olhando para nós e atrás deles um cenário magnífico de pedras vermelhas, grama seca e o céu tingido de azul intenso, cor de laranja e vermelho, pós pôr-do-sol.

Depois de mais ou menos meia hora, começou a escurecer um pouco, mas o céu continuava com o laranja intenso em todo horizonte e é indescritível a emoção de ver apenas a silhueta preta dos animais e seus grandes chifres contrastando com o céu colorido.

Eu não havia levado a câmera, mas acho que o mais importante foi ter registrado tudo isso na minha memória, na minha experiência de vida. Jamais imaginei que um dia estaria com os pés na África, muito menos tendo a chance de ver esses animais selvagens em seu ambiente natural. Já está valendo muito a pena estar aqui.


2/06/2004
Headless Chicken in Middelburg

O nome correto da cidade onde estamos é Middelburg. Escrevi várias vezes no post anterior e todas as vezes escrevi errado. Aliás, estava lendo novamente aquele post imenso (quando eu voltar pra Inglaterra vou quebrá-lo em pedacinhos) e percebi um montão de erros, i appologize.

Estou indo para o “centro” da cidade a cada dois dias apenas. Não gosto muito de andar sozinha por lá. Isso porque eu sou “a japonesa” daqui do noroeste sul-africano. Nenhuma outra viva alma de olhos puxados aqui. Só moi. Todo mundo pára pra me ver. Ou me segue. Ou anda ao meu lado. E muito longe de me achar uma celebridade, eu morro de medo. Porque eu não sei se me olham por curiosidade ou outras intencões.

Então, vou andar sozinha só pela manhã por algumas horas, quando é mais calmo, passo no cybercafé, vou ao Woolworth comprar um lanchinho e volto pra pousada. Believe me, não existe mais nada pra fazer na cidade. É como andar no Largo 13, em São Paulo, só que 10 vezes menor: cheio de camelôs vendendo coisas no chão, várias lotações (que eles chamam de taxi, hohoho), churrasquinho, moço fazendo truque de mágica, uma bagunça. Depois de uma semana fazendo o mesmo todos os dias, não tem muita graça ir sempre.

Teve também o incidente do meu tornozelo, fiquei sem andar por uns dias, mas agora já sarei, nenhum sinal da torção, estou caminhando normalmente.

E outra razão que me faz sentir perdida da silva xavier é atravessar a rua. A mão aqui é a mesma da Inglaterra (como diria o Martin, o lado “certo”: left is right). Mas nos faróis não têm aquele homenzinho verde para atravessar e os carros vêm de todos os lados. Agora tô mais esperta, assim que o farol fecha de um lado eu atravesso antes que os carros que vão virar acelerem. Mas já fiquei um bom tempo parada no farol e olhando, olhando, olhando, num entendendo nada.


02/06/2004
Uma esmola pra a desplugada

Os moços dos cybercafé já estão mais acostumados comigo. Nos primeiros dias eles achavam que eu era um tipo de ET, mas agora estamos nos dando bem. Nos últimos dois dias eles me deixaram usar o computador deles (que não é o mesmo dos clientes), mais rápido e com mais memória. Mesmo assim é caro passar meia hora conectada.

Delia ofereceu a linha telefônica dela, disse que a gente pode usar quando quiser. Fizemos o acordo de que usaremos pelo menos uma vez por semana a noite e pagaremos pelo uso. No laptop do Martin existe a conexão global da AT&T, basta plugar a linha. E como a conexão é em Johannesburg, fica mais fácil para a Delia encontrar na conta telefônica quanto gastamos. A gente precisa apenas anotar os horários em que usamos. De qualquer forma, não vamos abusar também e deixar a única linha dela ocupada por muito tempo. Pequenas barganhas que a gente precisa fazer para ter Internet nesta terra esquecida pela chuva.

Mas a gente não pode ter tudo, não é mesmo? Ou eu ficava na Inglaterra com conexão de banda larga, ou vinha prá cá com conexão via sinal de fumaça. E estou certa que fizemos a melhor escolha.


02/06/2004

A Luciana havia me perguntado qual é o prato típico daqui, mas ainda não sei responder. Na verdade eu perguntei pra Delia uma vez e ela falou os nomes de dois pratos típicos em Afrikaans e eu não entendi. Mas lembro que na descrição dela tudo inclui carne vermelha. E molho, como já disse antes. Assim que eu souber com mais certeza, eu conto aqui.

Ah sim, e o Biltong não é usado para fazer feijoada, como eu havia pensado antes (o que pode provar que a origem da feijoada veio mesmo dos europeus – portugueses e espanhóis – que faziam o pork stew e levaram a receita para o Brasil, ao contrário da lenda que diz que a feijoada era um prato feito pelos escravos).

Mas voltando ao Biltong. Eles comem aquela carne seca em pedaços com – advinhem – molho por cima. E os molhos daqui não são brincadeira, bem pesados, bem ricos. Tem molho branco (muito queijo), molho de queijo (bastante queijo), molho de cogumelos (só um pouco de queijo), molho de frango (que é molho branco com frango – notem que isso vai por cima de uma carne!), molho peri-peri (de pimenta dedo-de-moça) e por aí afora.

Nos restaurantes de Middelburg os pratos principais são sempre os steaks. Bifões. São o centro do menu. Para quem não come carne vermelha, há a opção do peixe: Kingklip ou Sole. É impressionante como todos os restaurantes servem a mesma coisa aqui. Só muda o restaurante, mas sempre carne (rump ou fillet) ou peixe (kingklip ou sole), os mesmos em todos os lugares. Para quem gosta de frango há somente os fast-foods Nando’s e o KFC. Para quem gosta de pizza, tem várias opções, todas com uma generosa camada de queijo por cima, capaz de fornecer toda quantidade de cálcio que você precisa pro resto de sua vida. E finalmente, para quem gosta de linguine ao pesto, fica chupando o dedo, imaginando que vai ser o primeiro prato a cozinhar assim que colocar os pés de volta à Inglaterra. Talvez em Johannesburg e em Pretoria, respectivamente a maior cidade e a capital da África do Sul, os restaurantes sejam diferentes e mais variados. Mas por aqui é assim.

Ah! Falando em restaurantes, o costume das garçonetes daqui da África do Sul é de escrever uma pequena mensagenzinha na sua conta. Geralmente agradecendo e desejando um ótimo fim de noite ou coisa assim. Daí você dá a gorjeta, que é de 10%. E mais 2 Rands pro moço que “olha” seu carro no estacionamento.

Agora lembrei! Existe uma sobremesa típica da África do Sul. Chama-se Dom Pedro, deve ter vindo de Portugal, ora pois. Vem numa taça de vinho. As bordas e o fundo da taça são regadas de licor da sua escolha (Amarula, Tia Maria, Fragelico, Cointreau etc) e depois é cheia de um milkshake de sorvete de baunilha. Um pouquinho de chantili por cima e polvilhado de chocolate em pó. Você toma de canudinho. Supersimples, dá pra fazer em casa. Mas é igual caipirinha na beira da praia, só tem graça tomando aqui. Hehe.

:o)

02/06/2004
Primeiras palavras

Aprendi minha primeira palavra em Afrikaans.

Dankie.

Que quer dizer Obrigado.

(deve ter 465 leitores pensando agora: “aaah, eu já sabia disso”, nem ligo ó)

E como a Marcia-SP me explicou que o Afrikaans é na verdade o holandês arcaico (porque ela sim é globalizada e morou no UK, na França, na Holanda, e tudo mais), então por tabela já sei falar obrigado em holandês também. Maravilha. Me sinto poliglota.

Dankie. Obrigada. Thank you. Ou como diz Mr.M, “obrigado você”.

Hoho.


02/06/2004
O Caminho de Volta

Ontem a noite ficamos batendo papo com a Delia e ela nos contou coisas bastante interessantes. Ela é branca, mas nunca concordou com o Apartheid, assim como muitos outros sul-africanos. A gente tem o costume de generalizar tudo e achar que todos os brancos ou negros aqui pensam da mesma forma. Não é verdade. Há excessões, sempre há.

Estávamos falando sobre as diversas línguas que são faladas aqui, como é difícil para nós ouvir várias pessoas falando várias línguas diferentes num mesmo lugar. E a Delia nos contou que com o fim do Apartheid a grande dificuldade do país foi adaptar uma linguagem única. No início, os brancos queriam que o Afrikaans fosse a lingua oficial e queriam passar longe do Zulu. Os negros se negaram a deixar de falar o Zulu e se negavam a aprender o Afrikaans. O inglês é o meio termo, mas nem todos falam inglês. Mais ou menos como no Brasil, o inglês aprendido nas escolas não é suficiente para se comunicar bem. Então por um tempo ficou esse samba do crioulo doido.

Mas de ambos os lados, foi preciso abrir mão e aprender uma outra língua. Brancos aprenderam o Zulu para poder trabalhar com os negros. Negros aprenderam Afrikaans para conseguir melhores empregos. Não há uma única língua oficial, mas atualmente brancos e negros se comunicam melhores que nunca.

E dessa conversa sobre a linguagem, a Delia acabou falando do problema racial. Ela nos contou que Middelburg é uma das cidades mais atrasadas da África do Sul quanto ao fim da segregação. Ela diz que aqui a maioria dos brancos tem mesmo essa repulsa de negros, não podem sequer imaginar negros de outra forma senão uma sociedade de segunda classe usada para mão de obra. E, de uma certa forma, os negros desta pequena cidade têm essa baixa auto-estima também, acreditando que são melhores mesmo servindo aos brancos, sem ambição, sem vontade de mudar.

Ela nos disse também que no começo toda a África do Sul era assim. Mas aos poucos os negros passaram a ir às aulas, passaram a ser letrados, informados e graduados. Hoje muitos têm cargos de responsabilidade que antes eram exclusivos dos brancos. Por sua vez, os brancos também aprenderam muito, absorveram novas idéias, se envolveram mais com essa parte da sociedade que antes era tão discriminada. Novos vínculos foram criados, velhos preconceitos foram quebrados.

Porém, é impossível exigir que uma inteira sociedade mude da noite pro dia. Vão ser gerações e gerações para que isso aconteça. E infelizmente, esse novo horizonte tão promissor, essa convivência enriquecedora entre brancos e negros até agora foi mínima, escassa e pulverizada. A grande verdade é que boa parte dos brancos odiaram com todas as suas forças o fim do Apartheid. E quando viram que a nova lei era inevitável, quando viram que a democracia seria a regra, muitos, mas muitos mesmo, um grande número, fizeram suas malas e partiram para a Holanda, Austrália, Alemanha e Reino Unido. Tristemente a maioria dos brancos se recusaram a viver entre negros, trabalhar entre negros, ver seus filhos entre negros, correndo o risco de -- god forbid -- ter um membro da família negro. E partiram.

E continuam partindo. Em massa. Segundo a Delia, os novos censos já indicaram uma queda acentuada de brancos na Áfica do Sul, que antes eram a maioria. Curiosamente, assim que os colonizados ganharam direitos, os colonizadores içaram âncora e aos poucos estão voltando para seus continentes de origem. E aos poucos, a África do Sul está voltando a ser um país de negros como na época da sua descoberta.

Há razões e razões para se deixar um país, muitas delas são louváveis e outras nem tanto. Cada um sabe o que é melhor para si e sua família. Não cabe a nós que nunca vivemos na situação deles julgar. Mas eu admiro aqueles que ficam aqui. A família da Delia são um deles. Aqueles que ficam e lutam por uma África do Sul de dias melhores. Não por falta de opção, mas ficam porque acreditam no país e nesta nova sociedade que está se formando.


Escrito a mão pela Marcia às 6:17 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (32)

« maio 2004 | Main | julho 2004 »