abril 27, 2005

Our Wedding Anniversary

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Comemoramos hoje, Martin e eu, nosso terceiro aniversário do dia em que dissemos um para outro "quero ficar só com você". Este ano não estamos fisicamente juntos para celebrar a data, mas estamos mais próximos que nunca em nossa cumplicidade, respeito e true love.

Happy wedding anniversary, Martin my love.

"And you know
you know I love you so
you know I love you so...
Look at the stars
Look how they shine for you..."

Escrito a mão pela Marcia às 1:28 PM | mais em M&M Family | Comente este fragmento(29)

abril 25, 2005

Little M's Rememberance Day

LittleAngel.jpg


Hoje faz exatamente um ano. Parece décadas, parece uma eternidade. Mesmo assim ainda lembro de absolutamente tudo. O cheiro do hospital, a escuridão da sala de ultrassom, nossas mãos entrelaçadas, nossos olhos arregalados na tela, esperando um bracinho acenando pra gente ou algo parecido. O médico desligando o monitor, os olhos atrás das lentes dos óculos dele. Sua mão fria sobre a minha. "I'm sorry, the baby is no longer alive". O buraco se abrindo levando um mundo inteiro embora. O silêncio. Martin chorando. Soluços, abraços e um conforto que nunca veio.

Hoje faz um ano.

"(...) And I can’t stand the pain
And I can’t make it go away
No I can’t stand the pain

How could this happen to me
I've made my mistakes
I’ve got no where to run
The night goes on
As I’m fading away
I’m sick of this life
I just want to scream
How could this happen to me (...)"

WhiteFlower.jpg

We're thinking of you, little one.

Escrito a mão pela Marcia às 12:09 AM | mais em M&M Family

abril 23, 2005

Sobrevivendo mais um dia

Fui ao centro da cidade hoje de manhã para dar uma passeadinha. Tava tão cheio de gente, mal dava para andar. Mas fiquei andando pra cima e pra baixo, olhando as lojas e dando uma conferida no farmers market que estava tendo por lá. Tive a brilhante idéia de comprar o The Times para ir ler no jardim. De todos os lugares que vendem jornais, fui logo onde? Na Borders.

Como sou uma pessoa centrada e controlada, sabia que podia passear tranqüilamente entre as vastíssimas gôndolas de livros da Borders, em plena época de lançamentos e promoções "3 por 2". Pois então. Entrei e fui logo indo lá pro fundo da loja. E isso acabou sendo o primeiro erro, já que os jornais ficam bem na entrada e os caixas também, então eu poderia ter pego o jornal, ter pago e ter saído. Mas não, fui lá pro fundão e comecei a rodear a livraria desde o início. Um mar de lançamentos fantásticos, capas-duras, best-sellers, tanta coisa!

Dei uma folheadinha num do Ray Mears, que nesta semana começou a apresentar sua nova série do programa Bushcraft, na BBC2. Vi que lançaram dois livros bem bacanas que são programas de TV também, Little Angels e Supernany. Folheei também.

Depois vi as revistas. Adoro as revistas, mas sabia que não ia me interessar por nenhuma. Fiquei fuçando algumas e de repente vejo na capa de uma delas uma foto com os macaroons franceses. A revista? Donna Hay, uma espécie de Martha Stewart na cozinha, que é aquela cujos dotes editoriais tem como objetivo fazer você se sentir a pior das donas-de-casa do mundo porque você não mantém suas roupas em cabides revestidos de espuma e seda com ramos de lavanda. Ou então porque você deixa o detergente dentro da própria garrafa plástica ao invés de decantá-lo numa garrafinha de louça. Num tem mesmo que colocar na cadeia essas mulheres insanas?

Mas enfim, voltando aos macaroons da capa de Donna Hay. Peguei a revista de imediato porque sei o quanto é difícil fazer macaroons, como envolve um milhão de truques para sair direitinho, como a atenção aos detalhes é importante para criar o "domme" e os "feet" de cada macaroon. E qual não foi minha surpresa ao ver que a receita das doçuras francesas estava entre as muitas de uma matéria sobre como fazer sua festinha "Bem-vindo, Bebê".

Ou seja, você acabou de dar a luz, com o resto da barriga ainda pendurada, pontos doloridos, partes sangrando, peitos estourando, privada de sono, de comida e de sossego, vai chamar toda a família, os amigos e vizinhos para uma festinha de boas-vindas ao seu pedaço de felicidade. E vai servir o que? Um bolo, canapés de massa folhada, sanduíches coloridos e french macaroons, claro!!! Tudo feito em casa, já que titia Donna Hay ensina como fazer, é só seguir a receita da revista. MULHER LOUCA! A não ser que o pai da criança responda pelo nome de Pierre Hermé e tenha a melhor patisserrie de Paris, não se deve em nenhuma hipótese submeter uma mulher recém-parida a fazer macarrons, pelo bem de sua sanidade, de sua auto-estima e da segurança dos próprios convidados da festa. Algo me diz que ambas, Donna Hay e Martha Stewart, são as acionistas majoritárias do laboratório que produz Lexotan. You don't fool me, I know your secret!

Rindo eu saí da seção de revistas, confiante de que saíria da Bordes só com meu jornalzinho mesmo embaixo do braço como se eu fosse uma simples mulher atualizada e bem-informada, como se eu comprasse meu jornalzinho lá todo dia, não uma vez por mês, alternados.

No entanto, maldito seja. Infeliz, danado, desgraçado Tony Parsons. Maldito, maldito, maldito. Eu já estava quase saindo quando vi seu livro. Todos seus livros têm o mesmo layout de capa, mudam os títulos e as cores, por isso reconheci de longe, uma vez que tenho o Man and Boy e Man and Wife. E eu vi lá na seção "3 por 2" seu novíssimo lançamento The Family Way. Maldito seja. Sabia que não sairia mais dali imune.

Tony Parsons não é nenhum escritor de novelas arrepiantes ou de estudos super intrigantes ou de teorias absurdamente interessantes. Não. Parsons escreve ficções sobre comportamento humano familiar neste século 21. Com leveza, bom-humor inglês e muitos "F words". Mas é um autor que eu gosto de ler porque nada me atrai mais a atenção do que entender o comportamento humano num relacionamento, seja qual for. Leio porque gosto de rir e me reconhecer em seus personagens. Porque eu simplesmente gosto de ler para me divertir, muitas vezes. No entanto, sempre no final de seus livros, há muito mais o que refletir do que se espera.

Enfim, paguei os sete dinheiros necessários e trouxe o livro pra casa, junto com o jornal. Espero que Tony Parsons esteja feliz agora. Espero que ele vá numa Borders perto da casa dele e compre um exemplar de Donna Hay. E tente fazer macaroons pra impressionar seu editor quando este for jantar em sua casa. E tudo vire um chicletão. Rá. Maldito...

Depois dessa exaustiva saga, fui ao Marks & Spencer comprar frutas e verduras. Quatro bananas, três maçãs, umas clementinas. Uma cebola só, um pimentão vermelho só. Um pacote de salada, um macinho pequeno de cebolinha. Um pãozinho só. E oito mini-muffins de duplo chocolate. A caixa me olhou e pensou: "o marido dessazinha aí deve di tá viajando..."

Oh dear.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 7:42 PM | mais em M&M Family | Comente este fragmento(13)

abril 21, 2005

Tudo bem no Front

Até que por enquanto tudo está bem aqui na fortaleza dos M's. Quando, num passado nem tão distante, Mr.M tinha que se ausentar para muito longe e eu tinha que ficar sozinha aqui, eu morria de medo e me tornava a Drama Queen de todos os tempos. Imaginava que TUDO poderia acontecer. Nem conseguia dormir direito porque ficava sobressaltada achando que alguém iria invadir nosso apartamento, me matar (ou pior, roubar meu laptop!) e meu corpo só seria encontrado depois de duas semanas, de pijama e pantufa de coelhos.

Ando meio espantada com meu desligamento desta vez. Tenho dormido muito bem, aliás. Não fico entediada, nem nada. Tenho estudado só um pouquinho e lido um muitão de outros livros. Comecei a dar uma geralzona na casa, limpei os dois banheiros, passei o aspirador em todos os carpetes e todos os pisos de madeira, tirei o pó, limpei o fogão, lavei as toalhas. E, vejam só, a casa continua limpa e as coisas continuam nos devidos lugares! Não é um espanto?!

Mas sinto falta de Mr.M e sua personalidade expansiva dentro deste apartamento. Parece que ele enche cada canto deste lugar ao mesmo tempo, impressionante. Não só de alegria e bom-humor, mas de revistas, copos, migalhas, meias, ferramentas, lentes, memory cards, controles remotos, uma infinidade de coisas que ele gosta de ter ao seu redor ao mesmo tempo, mas que faz deste lar a cara de nós dois.

Ontem ele ligou para dizer que chegou bem em Far Far Away Land, estamos com a diferença de oito horas. Hoje já deve ter começado a trabalhar. Liguei pra irmã dele e ficamos hooooras batendo papo. Ela que foi a grande incentivadora para que eu começasse a fazer pão e hoje trocamos muitas experiências de sucesso e fracasso que saem dos nossos fornos. Ela é um docinho de pessoa, gosto muito dela.

No mais, fiz a esperada torta de frango (com milho, ervilha, cenoura e cebola), congelei metade e estou me alimentando com a outra metade, acompanhada de muita salada de rúcula e tomate. Nhaaam.

Eu até tinha pensado numa foto para postar aqui, quando lembrei que estou sem câmera! Mr.M levou nossa querida câmera com ele! Então vocês apenas imaginem um pratinho verde com uns pedacinhos de torta cortada em cubinhos, um copo de suco de laranja do lado e meio que no canto da foto, já sem foco, um livro de capa vermelha, com os olhos de Monalisa e o título em dourado que diz "O Código DaVinci". Este é o meu momento mais esperado do dia, quando sento para ler mais um pouco do livro que meu querido primo Maurício me deu de presente. Estou adorando, mas economizando as páginas para durar mais, porque ser pobre e culta é realmente uma tristeza.

Sinto saudades de Mr.M, mas estou bem aqui e ele está bem lá também. Logo chega o final de semana e aí vai faltar pouco para dar boas vindas e abraça-lo bem forte.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:27 AM | mais em M&M Family | Comente este fragmento(13)

abril 19, 2005

Mr.M in Far Far Away Land

Hoje Martin vai viajar a trabalho para um país bem distante. Vai ficar lá por duas semanas e eu vou ficar aqui cuidando da nosssa fortaleza. Já estou morrendo de saudades, passamos o final de semana inteiro feito chicletes derretidos na sola do sapato, bem grudados. Este ano vamos passar o nosso aniversário de casamento separados, mas quando ele voltar celebraremos juntos!

Sei que ele vai estar bem, Mr. MonkeyMan (lembram dele?) vai estar com ele também, então sei que tudo vai correr bem.

Quanto a mim, tenho bastante coisa pra estudar, vou aproveitar para fazer as coisas que gosto sem ter pressa, o apartamento precisa de um Spring Clean urgente e também vou comer torta de frango em todas as refeições do dia.

Have a safe journey, my love. I'll miss you. See you in two weeks.

So lately, you're wondering
When we'll be there to take my place
When I'm gone, you'll need love
To light the shadows on your face
If the rain will wish I'd fall
I'd fall upon a star
And between the sand and stone
Could you make it on your own

If I could, then I would
I'll go wherever you will go
Way up high or down low
I'll go wherever you will go

Wherever you will go - The Calling

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:21 AM | mais em M&M Family | Comente este fragmento(6)

abril 16, 2005

Cuide da sua audição

Pessoas amigas, muito obrigada pelas mensagens no post abaixo, pelo incentivo todo de vocês. Eu não vejo a hora de testar e tentar me adaptar bem com eles. É um novo grande passo na minha vida. Se antes eu tentava ignorar que tinha um problema e depois eu tentei arranjar subterfúgios para driblá-lo, hoje recebo o problema de frente, ofereço chá e biscoitos. A vida têm ficado mais leve e simples.

E para todos vocês que têm boa audição, gostaria de recomendar muito muito cuidado com ela. Não fiquem expostos a barulhos excessivos. Muitos dos aparelhos domésticos respeitam o limite de decibéis, mas mesmo assim o uso contínuo deles causam muitos danos aos nervos que, inexoravelmente, vão envelhecendo e enfraquecendo com o tempo. Compre um tapa-ouvidos que seja confortável para você, os da 3M são bons e baratos. Tem de espuma, de gel, de borracha, tem uns que cobrem toda a orelha.

Aqui em casa, os mais barulhentos são o aspirador Dyson, o exaustor da cozinha e o processador de alimentos (food processor, como chama em português?). Eu coloco os protetores quando uso um deles, sempre. O Stefan, urso polar da Mary, nos deu de presente dois protetores de ouvido muito bons, quando fomos brincar de bang-bang com os rifles do exército na neve. E hoje são eles que eu uso, são bastante úteis aqui em casa (tak, Stefan!). Preciso cuidar bem da audição que ainda me resta.

No Brasil, imagino que o que mais desgastou minha audição foram os ônibus. Ficava nos pontos às vezes por meia hora, quarenta minutos, uma hora, dependendo se o ônibus não parava, não passava ou tava muito lotado. E isso era todo dia, duas vezes por dia, com centenas de ônibus acelerando e freando a cada minuto enquanto eu esperava. Sem contar com o barulho dentro do ônibus também, motor, portas, janelas bambas. Se por um acaso alguém de vocês têm que passar pelo mesmo, use algum tipo de proteção.

Shows, concertos e festivais com música ao vivo geralmente têm um nível de decibéis bem alto para o que estamos acostumados. Como minha amiga Samara lembrou nos comentários, uma vez ela e o marido Milton me levaram para uma grande festa maravilhosa, com uma banda tocando ao vivo, Beatles4Ever. Nós duas dançamos durante toda a festa e ficamos bem perto do palco gritando AAAAHHH LINDOOOOOO pro "John Lennon" e pro "Paul McCartney" da banda, descabelando feito duas beatlemaníacas. E eles nem tchums pra nós duas, sequer dedicaram Hey Jude pra nós... Na manhã seguinte, pumba! Eu não conseguia ouvir quase nada. A Samara teve que me chacoalhar para me acordar porque eu não a ouvi batendo na porta ou me chamando. Senti que tinha algo estranho. Procurei um otorrino, que me explicou que é bastante normal ter essa "perda auditiva temporária" depois de uma exposição excessiva, mas que logo isso iria voltar ao normal (viu Sammy, não precisava se sentir culpada, queridoca). E realmente na segunda audiologia a curva melhorou, mas foi num outro exame dos meus nervos que vão pro cérebro que o médico percebeu que a minha audição já estava caminhando de "leve" perda para "moderada". Foi quando meu tinnitus começou também.

Então, se vocês puderem, num show ou concerto, procurem escolher lugares que não fiquem tão próximos às caixas de som. Mr.M que é expert em hi-fi e aparelhos de som diz é preciso ficar a uma certa distância das caixas para que os sons possam convergir e você possa ouvir as músicas em seu melhor. Ficar muito perto de uma delas não adianta nada.

E por fim, se você sente algum incômodo em um dos ouvidos, se você se sente meio bloqueado ou com tontura, se você percebe que precisa pedir para os outros repetirem com muita freqüência, procure um médico. Às vezes só vai ser preciso um remédio. Às vezes, como eu, você pode se beneficiar de um aparelho auditivo. Mas não deixe de investigar. A ressonância magnética que fiz da minha cabeça foi para investigar se havia possíveis tumores que poderiam afetar os nervos da audição. Não havia, thank God (segundo Martin é porque eu não tenho massa encefálica também). Mas quanto mais cedo detectado, mais efetiva a cura.

Então cuide-se. Previna-se. Você não percebe a importância de seus sentidos até perdê-los, mesmo que seja parcialmente.

Escrito a mão pela Marcia às 11:13 AM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(12)

abril 14, 2005

The Voice I Hear

Ontem foi um dia bastante importante para mim.

Desde 2003, quando resolvi que precisava procurar um médico para me ajudar com a perda auditiva que tenho, estou pacientemente esperando para que o NHS providencie os aparelhos auditivos que preciso.

Primeiro enfreitei uma longa espera para fazer a ressonância magnética da minha cabeça no hospital. Depois esperei mais um bom tempo até que o otorrino pudesse me ver novamente e dar o resultado. Tudo normal. Passei finalmente para a fila mais esperada: a que me leva a uma consulta com um audiólogo para finalmente poder discutir as opções de aparelhos que o NHS pode me prover.

E nessa fila estou desde agosto do ano passado. Recebi uma carta do hospital dizendo que logo vou ser chamada, mas que ainda não há previsão de data. Na semana retrasada Martin ligou pra clínica e informaram que talvez no final deste ano serei chamada, mas que se eu quiser dois aparelhos vou ter que convencer o NHS para tal.

Martin perdeu a paciência e me propôs rasparmos as nossas economias e irmos a um audiologista particular e pagar do nosso bolso dois aparelhos, os melhores que o dinheiro pudesse comprar.

Em duas semanas fomos juntos em dois audiologistas particulares, ambos excelentes, que passaram uma hora inteira conversando comigo, cada um. Fiz a audiometria no mesmo dia, recebi explicações minuciosas do meu quadro, inclusive do tinnitus, o zumbido. Aprendi que por causa da minha perda auditiva, alguns nervos e neurônios que cuidam da audição começaram a trabalhar horas extras para compensar a perda e por isso acabo ouvindo o zumbido. Talvez, apenas talvez, os aparelhos ajudem. Aprendi também que eu tenho muita dificuldade de ouvir as consoantes nasais de cada palavra e as frases ficam muitas vezes sem sentido pra mim por causa disso. É como ler uma sentença cheia de buracos no meio. Meu cérebro, treinado há sete anos, acostumou-se em advinhar o que as pessoas estão falando, mas é sempre frustrante e triste.

Ambos audiólogos me mostraram quais aparelhos o NHS oferece (apenas os mais básicos) e quais os disponíveis no mercado. Falaram sobre as diferenças, os preços, as vantagens, sem empurrar nenhuma venda pra gente. E também foram bastante honestos comigo, avisando que eu nunca mais vou ter a audição natural e boa que tive antes, mas que os aparelhos vão me ajudar bastante a recuperar minha liberdade e minha confiança.

Voltamos pra casa cheios de informações, folhetos, catálogos. Pesquisamos opiniões, modelos, tecnologias. E finalmente nos decidimos por um.

Então ontem foi o dia que passamos mais uma hora conversando com o audiólogo e finalmente decidimos ir em frente. Fiz dois moldes de cada lado do meu ouvido, muito estranho mas nem um pouco desagradável. Parece um grande chicletão macio entrando no ouvido.

E decidi também pelo modelo dos meus aparelhos. Há atualmente modelos minúsculos e imperceptíveis. Mas eu decidi por aqueles que ficam atrás da orelha. Todos custam o mesmo preço, você é que escolhe o tamanho de acordo com o seu gosto. Mas há uma grande diferença: quanto menor o aparelho, menor o espaço para colocar tecnologia. Quanto maior, mais tecnologia e programas são possíveis. Então decidi que queria os que tivessem mais tecnologia. Afinal, não vou ter vergonha nenhuma de usá-los, não há razão para escondê-los.

O aparelho vai ser da Siemens, modelo Acuris S, que é o state-of-art, o mais avançado dos aparelhos atuais. É digital, completamente automático, tem dois microfones (os aparelhos pequenos só têm um) e com wireless comunication! Se eu estiver em um lugar barulhento (restaurantes, pubs, concertos) e alguém estiver falando comigo, o aparelho diminui o barulho ambiente e amplia o som da voz em primeiro plano. Se alguém estiver falando comigo do lado esquerdo, o aparelho do lado direito ajusta, em milésimos de segundo, automaticamente para me dar a sensação de espaço, para saber de onde vem o som. Fora isso vai ter Telecoil que funciona através de freqüências de rádio. Bancos, correios e outros órgãos públicos têm telecoil nos caixas e as vozes dos atendentes vão direto pro meu aparelho. E tudo vai ser programado de acordo com minha audiometria, então o aparelho vai automaticamente ampliar os sons de acordo com a minha própria necessidade.

E não pára por aí! O mais importante de tudo -- e que vocês nem vão crer -- é que eu pude escolher a cor! Sim, nada daquelas coisas cor de pele ou cinza, tudo sem graça e austero demais pra mim. Nãonãonãonão. Os meus, dos dois lados, lindos e queridos, vão ser pink! Oh yes, pink. Mais pra vermelho do que pink, na verdade, e transparentes. Causei furor na sala de consulta, com Martin e o médico repetindo "Are you sure?!? Are you sure?!?". Depois ambos caíram na risada fazendo piada que vai ser o acontecimento do ano na fábrica da Siemens ("Somebody ordered a pink one! What?! Pink?!"). Mas nem liguei, são meus e se eu vou ter que usar dia após dia após dia de todos os dias da minha vida, que eles sejam pelo menos alegres e divertidos. Por fim o médico disse "why not, you're totally right".

E, mesmo sendo os maiores da linha, o aparelho é tão pequeno e leve, bem menor do que eu imaginava, nada que lembre aqueles gomos de mexerica de antes. Então em pink vão ficar umas coisinhas bem bonitinhas, parecendo umas jóias. Depois eu mostro aqui. Vou ter 30 dias para decidir se quero mudar de modelo ou se quero meu dinheiro de volta, o que nos dá bastante tranquilidade. Ah sim, compramos dois pelo preço de um, porque estava em promoção, viva! (Não que tenha ficado barato, longe disso)

Enfim, estou ansiosíssima para receber meus aparelhos, que vai ser no dia 6 de Maio. Felicíssima da nossa decisão. Felicíssima com a cor pink. Felicíssima com os aparelhos que custaram boa parte das nossas economias, mas que para mim vai ter um valor incalculável.

Hooray!! Hooray!!

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 2:44 PM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(25)

abril 12, 2005

Eleições no Império Britânico

Está marcada para 5 de Maio a data para escolher o Primeiro Ministro do Parlamento.

A disputa vai ser, como sempre, entre dois partidos: Conservative (de Michael Howard) e Labour (do qual Tony Blair faz parte). Há outros partidos menores como o Liberal Democrats e o controverso Sinn Féin, partido irlandês que esteve envolvido em violentos ataques para a libertação da Irlanda do Norte durante os anos 80.

Mas a grande corrida mesmo vai ser entre Howard e Blair.

Na minha humilde opinião de quem nem pode votar ainda, eu espero que entre esses dois, Tony Blair vença. Ou que aconteça algum milagre e dêem uma chance aos liberais democratas, mas não aposto meu dinheiro nisso. Apesar da grande besteira que foi se envolver com a invasão do Iraque e arcar com suas conseqüências, o governo de Blair foi uma enorme revolução política e econômica para o Reino Unido, depois do conservadorismo ferrenho de Margareth Tatcher.

Mas o que me faz querer que o Labour vença é que não quero ver o país de volta às rédeas do Convervative, que espera fazer uma "Inglaterra para os ingleses". Só nesse slogan já dá para perceber que a principal meta para os conservadores vai ser atacar a imigração. Segundo as palavras de Howard, seu partido pretende "criar quotas anuais de refugiados que podem entrar no país, controlar os imigrantes que entram e criar um novo work permit". Palavras que fazem tudo parecer organizado e certo, mas que por trás vem carregada de rascismo, discriminação, ignorância e preconceito. Fechar as fronteiras só vai fazer crescer o número de imigrantes ilegais e tornar a população ainda mais xenófoba do que já é.

E ao que refiro imigrantes, não estou falando de brasileiros que se casam com ingleses ou de brasileiros que vêm trabalhar aqui legalmente. Falo de perseguidos políticos, refugiados de guerra, exilados das mais diversas e cruéis razões. Esse tipo de gente que perdeu total confiança de viver em seu próprio país, ameaçados de morte por severas leis religiosas, e que espera receber de um outro país mais rico e mais democrático ajuda para sobreviver. E some-se a isso a real e indiscutível necessidade que o Reino Unido tem de adquirir mais mão-de-obra, especializada ou não, para fazer o país continuar crescendo. Um precisa do outro. Nick Hardwick, atual membro do Refugee Council no governo de Blair, sabe da importância dos imigrantes para o país e tem lutado para regularizar a situação de quem pede asilo aqui.

Agora o que o Conservative quer é aumentar ainda mais o medo do desconhecido que a população tem a respeito da imigração. Há obviamente casos em que os refugiados são largados num canto e como não falam a língua, não podem trabalhar, nem nada, acabam enchendo a cara e entrando pro mundo do crime. É essa a única imagem que vêm a cabeça de quem é pouco informado a respeito e é também a única imagem que os conservadores querem que a população tenha. Imagem extremamente injusta porque nem todo imigrante é problema, nem todo refugiado é criminoso, nem todo exilado é lixo. Muitos dos que imigram pra cá trazem com eles força de trabalho, dedicação, respeito, cultura e divisas.

E por fim, para um partido que séculos atrás invadiu e conquistou territórios na África do Sul, Hong Kong, India, Austrália e Falklands (?), fazer discurso de que cada um deve ficar em seu lugar é no mínimo hipocrisia. Muitos dos que aqui pedem asilo vêm de países cuja própria política invasiva dos países ricos tornou o lugar insuportável de se viver.

É isso.

Escrito a mão pela Marcia às 11:55 AM | mais em Little Britain | Comente este fragmento(10)

abril 9, 2005

Who Cares?

Hoje realiza-se um casamento real no Reino Unido. O príncipe herdeiro da coroa real une laços matrimoniais.

And who cares?!?

Quase ninguém aqui no solo britânico está interessado no que acontece hoje. Muitos sequer sabem do acontecimento. A BBC tem o direito à transmissão, mas nem fez grandes alardes. A Rainha Elizabeth II também nem vai atender à cerimônia civil.

E a bem verdade mesmo, mesmo é que Charles, o noivo, é extremamente mal visto e pouco querido em seu próprio reino. E ninguém vê os noivos como pombinhos ou coisa que valha.

Se era pra ficar juntos, por que não casaram antes de fazer da vida de Diana um inferno? Se a rainha não aceitava antes, por que aceitar agora? Existe esse gosto amargo na boca da maioria dos plebeus. E também a lembrança do suntuoso casamento de Charles & Diana, os affairs intermináceis de Charles & Camila PB, as declarações horripilantes de Diana sobre sua depressão, bulimia e tentativas de suicídio. Sua estranha e inexplicada morte em Paris. E finalmente os soluços e lágrimas de William e Harris.

Tudo isso ficou para trás, claro. Charles e Camila têm o direito de ficarem juntos, claro. Eles não precisam da aprovação do público para casarem, claro. Vai ter uma porção de gente acenando bandeirinhas durante o cortejo, claro.

Mas está longe, muito loge de ser um evento que vai manter a população na frente da TV como há 23 anos atrás.

Update: Acabamos de chegar de uma longuíssima caminhada e o casamento acabou de começar. Então deixei a TV ligada porque não se pode perder nenhuma oportunidade de ver William vestido em fraque completo!

Ing, ing, ing Will is our King!
Ing, ing, ing Will is our King!
Ing, ing, ing Will is our King!

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 9:54 AM | mais em Little Britain | Comente este fragmento(21)

abril 7, 2005

Aprendendo a fazer pão, por Nina Horta

Recebi o texto abaixo da querida Telinha, no comentário do post anterior. Achei tão lindo e tão condizente com o momento de minha vida que resolvi colocar aqui. Obrigada Telinha! Aí vai:

"Mulheres e trabalho caseiro dão uma boa série para começo de ano. Quem é essa baixinha, vestida de branco? O que é, o que é, esse fiapo de gente de cabelo vermelho, arretada, difícil, fechada? O que é, o que é, reclusa, apaixonada, monja, pagã, noiva sem noivo, homem ou mulher, o que é?

Dizem que é a maior poeta americana, alguns a comparam a Shakespeare na consistência das palavras. O que tinha na cabeça para se esconder uma existência inteira na casa dos pais, esconder seus quase 2.000 poemas, nunca publicados em vida, guardados em saquinhos de pano?

Não aprendeu o recato do lar na escola. A diretora tinha fogo nas ventas e afirmava que um dos grandes perigos para o cérebro das mulheres era a cozinha. Concentravam toda a atenção nessa área do conhecimento e não lhes sobrava tempo para cultivar a mente. O que as donas-de-casa tinham que fazer era simplificar a lida e aproveitar a vida (com leituras edificantes). E que se danassem os maridos, esses tiranos, diante dos quais as mulheres se curvavam em servidão sem esperança. (Opa, isso em 1850!)

Mas a poeta só achava da vida o que queria achar, depois de muito pensar. Tratou de transformar a religião da família e do colégio numa coisa só sua, estudou bastante, apaixonou-se pelos livros e depois, já que podia escolher, escolheu voltar para casa, para a fortaleza paterna, de onde começaria uma imensa viagem para dentro de si mesma. Lutou sempre para reconciliar seus dons de imaginação com o papel de mulher, com a realidade doméstica, sem deixar que o fogão, a agulha e a vassoura a fizessem menor. Completou a grandeza de seu projeto poético lavando louça na pia.

"Viver é um êxtase, o mero sentir a vida é alegria bastante."É um lugar-comum comparar a casa a um cadinho de alquimia, mas os lugares-comuns existem para serem repetidos à exaustão. A transformação das matérias, a fibra se fazendo fio, o fio tecido, as aranhas trabalhando em círculos de luz, o fim e o começo, circunferências, tarefa interminável. O barro, bilha e vaso, o bulbo, flor.

Os detalhes mais comezinhos se transformavam em metáforas, palavras unidas ou separadas por traços inconfundíveis e escritas em papeluchos guardados no bolso, em meio à faina.

Não era preciso atravessar a rua, largar a horta, a estufa ou o jardim para saber o Vesúvio, Veneza, Vera Cruz, Vevay. "Fechar os olhos é viajar. Gosto de viajar, mas minha casa tem encantos só dela." Andando de cá para lá, mãos ativas, cabeça no mundo da lua. As coisas do dia-a-dia tinham um halo sagrado. Rosa-abelha-borboleta, pássaros-morcegos, bolos-sopas, bordados-costuras, uma religião de domesticidade (feroz). Na verdade, não adorava o trabalho todo da casa e, imagino, muita empregada ao redor. Sanguessuga, tensa, erótica, gostava mesmo era de juntar palavras, retratar a vida e a morte, bordar em sangue, chorar por dentro, trepanar o mundo, destampar a cabeça para ver o cérebro. Mas, já que tinha que escolher um serviço mais afável, que fosse a cozinha ou o jardim. Adorava escrever cartas, nos dias de hoje seria uma internauta viciada e empedernida.

Aos 14 anos, conta a uma amiga: "...Hoje vou aprender a fazer pão". Daí em diante, tornou-se a padeira da casa, o pai não comia outro pão que não o dela. Num lance incongruente de sua biografia de mito, ganhou um concurso de bolos na feira de gado de sua cidade. O prêmio era de 75 cents, mas ganhou e continuou a fazer o pão ou bolo vida afora. "As pessoas querem doces, então é preciso fazê-los." Quatro xícaras de farinha de centeio - 1/2 xícara de manteiga - 1/2 xícara de creme - uma colher de sopa de gengibre - uma colher de chá de soda - uma colher de chá de sal. Confeitar com melado. E sempre batendo a massa, com a cabeça rodando, tentando transformar o indizível em articulado, rabiscando, rabiscando.

Flashes do dia-a-dia furando e machucando os olhos. A irmã com a vassoura na mão - o avental sujo - o vestido que havia que ser branco impoluto - o balde as flores no vaso - é hora de fazer o jantar - costuro o mais depressa que posso para ter tempo de te amar - está na hora do chá - viver é tão emocionante que não sobra tempo para mais nada - os pêsames a carta - os pequenos desejos de mamãe, ler para ela, abaná-la, prometer que sua saúde vai voltar amanhã.

Paisagem que a alma triturou, descascou, escalpelou, rachou, soldou em versos."

Emily Dickinson. Amherst, Nova Inglaterra, 1830-1886

Escrito a mão pela Marcia às 11:24 AM | mais em Food Talk | Comente este fragmento(4)

abril 3, 2005

Wild, wild yeast

Há mais de cinco semanas estou tentando cultivar wild yeast, que é um fermento natural para fazer o pão crescer. Um verdadeiro teste para a paciência, um exercício contínuo de alquimia, de cuidado, de tentativa e erro. Mas também um desafio apaixonante para quem ama fazer pão.

O fermento de pão comercial, que a gente compra fresco, em pó ou graulado, é composto das mesmas células vivas de fermento que entram na fabricação da cerveja, Saccharomyces cerevisiae.

Já o wild yeast é composto de duas frágeis comunidades: uma de células vivas de fermento chamadas Saccharomyces exiguus e outra de bactérias lactobacillus e acetobacillus, que criam respectivamente ácidos lácteo e acético. As duas comunidades são importantes para fazer o pão crescer e também para dar o sabor característicos aos chamados Sourdough Breads. O Sourdough Bread é o nome de qualquer pão que utilize o wild yeast para fazer crescer. O nome é errôneo (Pão Azedo) porque apesar do ácido lácteo e acético estarem presentes, o pão não é necessariamente azedo.

Se por um lado é fácil comprar um fermento de pão comercial em qualquer supermercado, o mesmo não é verdade no caso do wild yeast. Não se compra. E aí é que entra o mais fascinante dos aspectos desse fermento selvagem. Não se compra, mas captura-se, cultiva-se, alimenta-se este organismo vivo.

Basta juntar uma farinha integral e água. E esperar. E alimentar com mais farinha e mais água. E jogar fora metade e alimentar o restante com mais farinha e mais água. E esperar, observar, repetir, deduzir.

Parece simples. E é. Mas diferentes condições do clima, da água e da temperatura ambiente mudam completamente o resultado. Equilibrar o frágil sistema das comunidades praticamente invisíveis é algo bem complicado. Para mim, foram três tentativas intensas. Duas acabaram descartadas depois de muito insistir e alimentar cuidadosamente todos os dias. Dois pães foram assados com cada uma das tentativas e, apesar de crescerem bem, o miolo não havia fermentado como deveria.

Mas finalmente, na terceira vez, a recompensa chegou. Levou mais tempo, mas o resultado foi visivelmente melhor do que as outras tentativas. A mistura de água e farinha finalmente se tornou numa espuma borbulhante, ativa e forte, como se fosse mágica, como se houvesse algo que a despertasse de um sono profundo. Fiquei absolutamente feliz e fascinada com o sucesso. Essa mistura agora ativa, chama-se mother starter ou chef. Ela fica na geladeira e de tempos em tempos preciso alimentá-la para que continue ativa. Algumas das padarias mais famosas da França e dos EUA usam o mesmo starter há mais de cem anos, alimentando-a diariamente.

A primeira mistura de centeio e água não parece nada promissora. Depois do segundo ciclo de alimentação, Pickles ficou vigiando para o monstro não escapar!
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Com mais diluições a mistura mostrou uma queda acentuada de atividade. Mas depois de alguns dias, as bolhas voltaram com força total. E temos finalmente um starter!

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Mas por quê fazer pão com o wild yeast? Pergunte a qualquer baker e a resposta vai ser que a complexidade do sabor de um sourdough é incomparável. Várias áreas da sua língua e do seu palato são ativadas. Doce, azedo, salgado, crocante, quente, tudo enchendo sua boca de água e ativando as papilas do fundo da sua língua para finalmente fazer você suspirar um "hummm" de satisfação, sem qualquer esforço.

Mas pra mim, o que mais me encanta é a simplicidade. É fazer o pão como há milênios o ser humano vem fazendo. É transformar grão em sabor e em prazer, sem recorrer aos processados industriais. É principalmente ter o conhecimento dessa técnica que vai estar comigo para onde quer que eu for. Onde quer que eu esteja, com um pouco de farinha, sal e água eu faço um pão. Faço o pão como os egípicios faziam há 10.000 anos atrás.

Para fazer o meu starter, usei farinha de centeio comprada em Leicestershire, moída num dos poucos moinhos de vento que ainda existem na Inglaterra. E para as primeiras alimentações, usei farinha integral que a irmã do Martin nos deu, tambem moída em moinho de vento, com método frio, usando pedras. Agora para as subseqüentes alimentações, estou usando farinha orgânica Carrs, da região de Cumbria, onde Martin nasceu. É portanto, um starter puramente britânico.

No entanto, nenhum starter é completamente feliz se não for usado para fazer pão! É o momento crucial e também mais divertido. É frustrante quando o pão até cresce mas o miolo se mostra cinza, pesado e com forte aroma de álcool que o fermento não-ativo começa a produzir. Mas a quantidade de aprendizados que se adquire quando algo dá errado é fenomenal. É quando você começa a procurar respostas para os erros, pesquisa, pergunta para especialistas, lê muito, começa a entender o que antes era um mistério. E claro, começa a pensar em tentar de novo. Um erro é frustrante sem dúvida, mas fracasso, isso jamais será.

Enfim, depois de vários starters no lixo e duas fornadas de pães que foram na mesma direção, finalmente consegui obter o êxito que esperava: um pão sourdough saboroso e cheiroso, crocante, de miolo extremamente leve e consistência tão feliz que ativa todos os nervos que me fazem sorrir.

O pré-fermento do pão que formou uma boa teia com o novíssimo starter. E a massa com os cortes pouco antes de ir pro forno.
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O pão assado, bem vermelho por causa da caramelização do açúcar gerado na fermentação. E finalmente o pão fatiado que me brindou com essa consistência levinha e bem saborosa.

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Por tudo isso que estudei, tentei, errei, pesquisei, constatei e aprendi é que não coloco receita dos pães que faço aqui. Não basta simplesmente misturar, sovar, moldar e botar no forno. Não. Assim como aprender a fazer e degustar um vinho leva tempo e muita dedicação, fazer pães requer antes de mais nada conhecimento. E ainda tenho uma estrada inteira pela frente para aprender. Esse sourdough, por exemplo, leva na receita farinha, água e sal. Sem absolutamente nada a mais. O desafio de transformar esses ingredientes em algo que surpreende o paladar vem de muito controle de várias coisas: fermentação, bactérias, temperatura, tempo, entre outras variáveis.

No mais, meu prazer por fazer pão é o mesmo daquele que faz da argila uma escultura. Criar e evocar vida num bloco de massa. Não tenho, em hipótese nenhuma, intenção de fazer disso um comércio. É meu hobby, meu prazer e minha própria arte. Divido meu pão com meu vizinho, mas vender, lucrar, não, não isso.

" ...Mas que me seja permitido sonhar com outra vida e outro mundo, em que um homem batesse à porta do outro e dissesse: "Vizinho, são três horas da manhã e ouvi música em tua casa. Aqui estou". E o outro respondesse: "Entra, vizinho, e come de meu pão e bebe de meu vinho. Aqui estamos todos a bailar e cantar, pois descobrimos que a vida é curta e a lua é bela". (Rubem Braga)

Escrito a mão pela Marcia às 9:55 AM | mais em Food Talk | Comente este fragmento(15)