Sim
Fui assaltada três vezes em São Paulo, uma delas com um revólver na minha nuca. Meu pai já foi violentado agressivamente por ladrões armados. Meus irmãos também foram vítimas dessa criminalidade. Meu primo foi vítima de um seqüestro relâmpago. E tantas outras histórias, que nos afetaram diretamente. Em nenhum dos casos consigo imaginar que uma arma teria ajudado ou evitado tais assaltos. Em nenhum momento imaginei que o desarmamento mudaria esses acontecimentos.
Eu não acredito em auto-defesa armada, não acredito em justiça pelas próprias mãos. O que eu acredito é que ter uma arma é ter a intenção de usá-la. Pra gerar medo, coibir, ameaçar, atirar, acabar com uma vida. Não só do ladrão, mas da esposa, do filho, do genro, do vizinho, do estúpido motorista no trânsito e do inocente leiteiro. O que eu espero é que as mudanças comecem pela educação, condições de vida, emprego, moradia, dignidade. Para que a necessidade de usar uma arma cesse, antes de mais nada. O que eu espero é que essa distração de referendo não embace a vista da nação para o que realmente importa.
A Telinha publicou e eu reproduzo aqui o que Drummond há muito tempo já dizia.
A Morte do Leiteiro
Carlos Drummond de Andrade
a Cyro Novaes
"Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.
Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha
vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.
Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morados na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.
E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro...
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.
Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.
Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.
Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,
a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.
Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue... não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora."

Eugenia said:
Oi Marcinha. Também lamento tudo isso. Mas fiz parte da maioria q votou não. E eu votei NAO, nao pq gostaria de ter uma arma um dia. Mas simplesmente pq o Governo começou a fazer as coisas pelo lado errado, penso eu. Em vez de desarmar bandido e educar policiais, oferecer melhorias nas áreas de educação e saúde, quis tirar a arma dos cidadãos. Sim, pq os bandidos, com ou sem referendo, continuariam com a posse de armas. Bah! Não pretendo ter uma arma. Já fui vítima de assaltos e lamentei duas mortes na mesma ocasião. Mas as mesmas eram usadas por policial e bandido. Dentro de casa, pelo menos, os bandidos vao ficar na dúvida, se podemos reagir ou não. Mas concordo, q nao faz a menor diferença e uma reação à assaltos é muito pior. Mas deixar os bandidos com a certeza de que podem entrar na minha casa sem resistência, "apenas para roubar de boa, tudo o q tem lá", ah, isso nao dava. Até pq o governo nao iria impedir isso. Prefiro q eles fiquem na dúvida...
Yara said:
Pois é, Marcinha e o não venceu. Não sei o que podemos esperar de um povo que não sabe nem falar a própria língua direito e ainda por cima quer ter o direito de andar armado. Deveríamos é lutar pelo direito à educação, à saúde, a uma moradia decente, a políticos honestos e chances iguais para todos e não pelas armas. Fazer o que, né? O consolo é que fiz parte dos 35% que votaram sim.
Emilia said:
Olá, Marcia
Sempre acompanho seu blog mas nunca escrevo. Hoje resolvi escrever para dizer que fiquei muiiiiiiiiito FELIZ neste final de semana, pois depois de 3 tentativas consegui fazer o Macaroons que você tão detalhadamente postou aqui.
Minhas filhas e meu marido ADORARAM!
Agora vou tentar o Petit Gateau.
Obrigadão pelas receitas.
Luciane Fajan said:
Correção: 3 brancos e 16 votos nulos.
Thanx.
Luciane Fajan said:
Pois é Márcia e galera do sim, trago tristes notícias para todos nós da paz:
fui mesária nesta eleição e na apuração constatamos que a população brasileira é sim chegada em resolver tudo na bala. De 546 votantes na minha seção compareceram 462 eleitores e destes, 3 eram brancos, 16 brancos, 122 votaram sim e 321 votaram Não, isto é, tão afim de comprar uma arma e sair dando tiro prá tudo quanto é lado... uma vergonha para este país!
E o resultado das demais urnas apuradas só na zona onde trabalhei: todas as seções o não ganhou desparado.. What a shame, Brazil! E ainda assim tem uma porrada de demagogo falando que brazuca é da paz. Da paz o cac..., digo, uma ova, se é da paz por quê quer ter armas?
Desculpa Márcia, mas isto é rí-di-cu-lo!
Marcia de Souza said:
E quanto ao post anterior, eu assisti e adorei, lanmento que não vou ver o resto, prncipalmente quando eu vejo o que me espera na TV tupiniquim ( não temos cabo), buaááááá!! Só se eu tiver sorte de pegar reprise no meu retorno.
Aqui apenas o primeiro livro dele foi lançado, e é um best seller.
Marcia de Souza said:
Estou aqui em SP, mas acho que não vou votar amanhã não, até porquê eu nem sei onde eu voto ( o site do TSE não está permitindo consulta) e porquê eu não concordo com esse plebiscito. Você disse muito bem: isso é uma distração. Lamento que você e sua família já tenha sido vítima desses crimes horríveis, comigo nunca aconteceu nada aqui ( toc, toc, toc) mas acho que é porquê não fiquei tempo suficiente aqui - fui vítima de muito mais crimes em Londres, mas nada que envolvesse armas. Enfim, parece que o não vai vencer. E que alguém venha com soluções reais para combater a criminalidade.
Márcia said:
Infelizmente amanhã não poderei votar porque estou fora da minha cidade. Porém se fosse votar ainda teria dúvidas. Meu medo é o mesmo que o seu, de que a nossa população ache que só isso vai bastar pra acabar com a violência. Acho que estamos começando pelo fim, nossas crianças ainda vão ter uma educação péssima, nós ainda teremos subempregos (na maioria dos casos) e infelizmente acho que nosso governo está utilizando este referendo como um tapa buracos para problemas tão importantes quanto o desarmamento!
Nara said:
Depois de ler Carlos Drummond atraves do seu blog,finalmente tive certeza do meu voto de amanhã...
você mandou muito bem em tudo que escreveu...
telinha said:
É, querida. Eu venho pensando, nesses dias, que quem vota "Não" vai ter as mãos sujas de sangue. Do sangue daqueles que morrem em brigas de torcida, de trânsito, acidentes com armas que crianças e adolescentes levam para a escola para mostrar para os amigos... É triste o anúncio de que, pelas pesquisas, o "Não" vai vencer. Pelo menos, minha mãe, de 77 anos, de saúde frágil, já me avisou que amanhã vai votar, que é cidadã, que é contra as armas... Isso me anima e me faz ter fé na sua saúde...