maio 24, 2006

Our Sweet Non-Permanet Home

Finalmente nos mudamos para um apartamento no último domingo. E é difícil descrever como estamos imensamente mais felizes e à vontade aqui.

Temos mais espaço, mais conforto, mais privacidade, mais liberdade. Foi bacana morar sete semanas em um hotel cinco estrelas, mas confesso que entramos aqui sem olhar para trás. E é tão bom ver que temos nossas coisinhas agora pelos cantos, nossa própria forma de transformar este imóvel em um lar, sem interferências ou intrusões, só nós dois, do nosso jeito.

E maravilhas das maravilhas: agora temos uma cozinha! Pequena, é verdade. Nem forno convencional tem. Mas é funcional, a empresa equipou com tudo o que a gente queria e já fizemos muitas agradáveis refeições aqui. Agora posso tomar meu café da manhã de pijama, assistindo TV, no horário que bem entendo. No hotel eu precisava me trocar e me vestir decentemente, ir pro 43º andar no restaurante com vista panorâmica e esperar a garçonete me mostrar onde eu poderia sentar. Depois de responder "não, obrigada" a uma lista de ofertas, eu finalmente poderia me servir no buffet. E uma vez sentada eu seria vigiada por garçonetes ávidas a retirar meu prato usado, encher minha xícara, trocar meu copo. Bacana no começo, mas depois de certo tempo tudo o que você quer é ser deixada em paz com seu livro e sua xícara e seu pedaço de pão.

E é essa paz que temos agora. Para nós isso é mais que cinco estrelas.

Outro aspecto importante desta mudança é que saímos da asa da equipe do hotel que era fluente em inglês. Agora tudo é por nossa própria conta, sem concierges, sem recepcionistas. Mas não tem sido tão difícil porque mesmo no hotel a gente preferia não pedir muita ajuda. Já tomo taxi sozinha para vários cantos, sempre me preparo antes de sair, sempre coleto folhetos ou cartões dos lugares que quero voltar, assim basta eu mostrar pro motorista aonde quero ir. Aprendi também a dar direções como "à direita", "em frente" etc.

Na verdade, taiwaneses em geral são muito amigáveis quando percebem que somos estrangeiros e estão prontos para ajudar, como nunca vi em nenhum dos outros países que já visitei. Ontem por exemplo eu queria comprar sopa com noodles num lugar que eu gosto, mas queria trazer pro apartamento porque estou bastante resfriada e febril e queria voltar pra casa e não comer na praça de alimentação. Eu não sei como diz "pra levar pra casa" em Mandarim, mas perguntei se poderia ter o noodles "na sacola" e a atendente me entendeu, mostrou os potes descartáveis e a sacola de plástico e eu concordei com a cabeça e tudo deu certo. A atendente ainda deu um imenso sorriso e acenou falando "bye bye! bye bye", pequeno gesto que fez meu dia. Outro dia numa lanchonete fiz a mesma coisa quando quis comprar um sanduíche e o atendente foi bem legal e respondeu em inglês "sure, one minute" e voltou com um copo de chá com limão bem gelado e fresquinho enquanto eu esperava meu lanche pra viagem ficar pronto. São uns doces, em geral.

E estou muito satisfeita de ter saído do casulo protegido do hotel e estar agora mais pé no chão, entre eles. Com eles.

Escrito a mão pela Marcia às 5:33 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(14)

maio 18, 2006

The Chanchu Typhoon

O mesmo Typhoon Chanchu, que fez 41 vítimas fatais nas Filipinas e que eu achei que já estava indo embora, retomou força e ontem a noite alcançou a costa oeste de Taiwan (onde estamos). Nunca em minha vida vi algo semelhante. Tempestade forte com algo que não se pode chamar simplesmente de "vento" ou sequer "vendaval". Uma força espetacular, movendo o ar em várias direções, potente e impiedosa. E o mais assustador é o som, o uivo aterrorizante, intimidante, fantasmagórico, que durou a noite toda. E a chuva sendo literalmente atirada nas janelas, espatifando suas gotas com urgência e agressividade.

O centro do Typhoon aterrissou na China, onde 600.000 habitantes foram previamente evecuados. Só sua borda é que atingiu Taiwan. Em Kaohsiung, um navio petroleiro imenso foi arrastado com a força do vento, tombou e encalhou na costa. A tripulação foi resgatada por helicópteros.

Hoje de manhã a tempestade passou mas os ventos continuam fortes. Martin e seus colegas foram trabalhar mas a indústria comunicou que eles devem ficar só no escritório e não nas instalações ao ar livre, por medida de segurança. Não há estado de alerta, parece que o pior passou ontem a noite mesmo, mas nunca se sabe. Uma vez aterrissado, o typhoon pode mudar sua rota a qualquer instante.

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Escrito a mão pela Marcia às 3:12 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(9)

maio 13, 2006

Moving On

Os dias voam. Seis semanas em Taiwan. Às vezes parece que chegamos ontem, outras vezes quando pensamos em nosso apartamento em Bournemouth ou todo o resto que ficou para trás, parece que estamos aqui há décadas.

Um typhoon passou raspando por aqui, mas desviou e perdeu força a caminho de Hong Kong. A calmaria, porém, está longe daqui. Estivemos bastante ocupados ultimamente. Em poucos dias estaremos finalmente nos mudando para um apartamento nos mesmos padrões que este hotel, mas com mais espaço e liberdade. Por isso estivemos bastante envolvidos com a procura do novo lar e também pensando em tudo o que precisamos comprar, de toalhas a microondas, de talheres a chuveiro. Está sendo como começar uma casa do zero para nós, novamente. O apartamento tem dois quartos, uma pequena cozinha, lavanderia, varanda, sala de estar, um banheiro com chuveiro e banheira jacuzzi. Assim como o Japão, Taiwan sofre o mesmo problema de falta de espaço e encontrar um apartamento com esse layout foi bastante dificil. Encontrar três (pros outros colegas também), foi tarefa hércula.

Já estive no local várias vezes para procurar por supermercados, feiras, farmácias, tudo o que a gente vai precisar ter por perto. Teremos três shopping centers bem na frente do prédio, um complexo de cinemas Warner Village, três supermercados, dois 7Eleven, um mundaréu de lojas de rua vendendo absolutamente tudo e a maior e mais fantástica livraria que eu jamais vi em toda minha vida, chamada Eslite.

O prédio também tem piscina e não vou precisar interromper minha natação diária que está indo tão bem. No começo eu dava umas braçadas, parava no meio da piscina (que é semi-olímpica, 25 metros) para recuperar o fôlego. Agora vou e volto, vou e volto 10 (déééis) vezes antes de fazer uma pausa. Tenho feito 22 a 24 distâncias por dia, o que em metros já dava para eu ter voltado pra Inglaterra a nado, mas não quero. Na verdade nadar é o único exercício possível nesta terra cuja temperatura média agora está nos 34ºC.

Esses dias estivemos muito mais em contato com a Jo, secretária taiwanesa mais competente que este mundo já viu. Jo é o carisma em pessoa, atenciosíssima e super divertida. Na semana que vem vamos nós duas às compras, para tornar os apartamentos habitáveis e ela tem restritas ordens do gerente de projeto para dizer "Márcia, não!" toda vez que eu mencionar as palavras "Laura Ashley" ou "Calvin Klein Home". Humpf.

No mais, estamos asiáticos. Muito mais asiáticos, precisamente. A grande prova aconteceu na quinta-feira, quando para fazer a noite de despedida pro gerente de projeto MonkeyMan, fomos todos a um karaokê! Típico karaokê nos moldes japoneses, uma sala privada, toda fechada e sigilosa, só nós a sós, com uma TV em tela plana imensa, videokê, dois microfones e um banheiro. Pedimos dois barris de chopp e a festa começou. E eu não me lembro de ter me divertido tanto em muito tempo.

Ninguém queria ir, a princípio. MonkeyMan e Jo insistiram e disseram pra irmos só assistir a eles e dar risada. Todo mundo então topou e fomos. Silly nem nada, MonkeyMan tascou a primeira música: YMCA (Village People). Pergunta se havia vivalma que não pulou e começou a cantar e fazer a coreografia? E logo os hinos nacionais seguiram: Hard Days Night (The Beatles), Hey Jude (The Beatles), Yellow Submarine (yep, you guessed, Beatles). Microfone disputado a tapa, foi o que aconteceu. Sofás só serviam para a gente ficar mais alto e berrar com mais força, ninguém conseguia ficar sentado.

Os melhores momentos ficaram para os rapazes cantando Like a Virgin (Maddona) com caras e bocas e gestos pouco familiares; Danny e eu, a única dupla roquenróu, fazendo Michael Stipe se encher de orgulho com nossa interpretação de Losing My Religion (REM); Martin estraçalhando corações em Purple Rain (Prince) e fazendo voz de locutor sexy em Hello (Lionel Ritchie); MonkeyMan em sua versão "perca-toda-sua-voz-em-dois-minutos" em Paradise City (Guns'n'Roses) enquanto fazíamos a parte dos headbangers; o garçom desavisado que entrou com um desentupidor de privada na nossa sala e nos fez cair no chão de tanto rir; e finalmente todo mundo fazendo coro pro MonkeyMan em Leaving on a Jet Plane (John Denver):

"...'Cause I'm leaving on a jet plane
Don't know when I'll be back again -
Oh Babe, I hate to go..."

Voltamos de manhã, fizemos uma parada no pub BlackDog e dali pro hotel, bando de bêbados ainda cantando e fazendo eco no hall imenso e vazio. Such an incredible night. Não levamos nossa câmera, que está no conserto novamente, mas mesmo que estivesse boa não iríamos mostrar evidências. Porque a gente somos ridículos mas a gente não somos ingnorantes.


Escrito a mão pela Marcia às 9:53 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(10)

maio 2, 2006

Far Far East

Faz calor. 32ºC. Já não estou mais acostumada. E a grande vilã é a umidade. Calor úmido, sensação térmica desconfortável, dez passos e a idéia de ter uma morte por derretimento não é mais absurda. Talvez por isso poucos caminham aqui nesta cidade. É fácil perceber isso pela total inexistências de calçadas livres e desempedidas. Por outro lado, scooters são os pés taiwaneses. Por todos os cantos, por todas as frestas, por todos os mínimos espaços. Scooters se empilham, estacionadas nas calçadas. Scooters carregando até quatro passageiros, geralmente um adulto, três crianças. Ou dois adultos e duas crianças. Já vi uma com um adulto, duas crianças, a maior atrás da mãe, a menor na frente, segurando no guidão. E um cachorro no assoalho da motocicleta. Ninguém parece atento ao perigo, mas principalmente, muitos não têm outra opção. Transporte público é quase inexistente, carros são caros, taxis também. Insano, porém este é um trânsito sem violência, sem agressividade. É uma bagunça generalizada, mas é uma bagunça em que eles se entendem e os estrangeiros se perdem.

Atravessar uma rua é um ato de fé em reencarnação. Semáforo, ao que me parece, é opcional, principalmente para as Scooters e taxis. Fazer contorno em U é permitido a cada vez que um motorista mudar de idéia. Andar na contra-mão é aceitável. Antes eu me sobressaltava a cada passo, mas aos poucos fui aprendendo com os locais a seguir em frente, literalmente. No final das contas, as scooters que não pararam no vermelho acabam desviando, os carros reduzem até que você termine de atravessar, ninguém quer atropelar ninguém. E assim sigo.

Não há muito o que se ver ou fotografar por aqui. Kaohsiung não é turística, ao contrário, é bastante industrial, urbanizada, poluída. Mas tem seus pequenos cantos cheios de charme. Love River é o rio que corta a cidade. Rio que já foi um shit hole tempos atrás, como o Tietê. Mas que hoje está 100% recuperado, com peixes pulando, flores e plantas, e logo vai ser palco para o tão esperado Dragon Boat Race. Suas margens foram modernizadas e é um dos poucos lugares para se caminhar calmamente, por toda sua extensão. É lá que faço minhas caminhadas, lá que sento para ver o rio passar, lá que a noite vamos prestigiar os artistas de rua.

Há também a única área verde remanescente, Monkey Mountain, a grande montanha com trilhas entre a floresta e escadarias que levam até o topo. Lá há templos encrustados na mata, carregados em adornos vermelhos ou amarelos, imagens, Buddah, dragões, incensos, lanternas. Há macacos também, obviamente, mas difíceis de serem vistos.

Não, não há muito o que se ver aqui. No entanto, de alguma forma, por alguma razão, este lugar me encanta e me acolhe. E tenho quase toda a certeza de que a atração principal não está em nenhum guia turístico. Invisível aos olhos e presente em cada um dos nossos dias. Por mais que MacDonalds proliferem por aqui, a essência asiática em Taiwan ainda é muito mais pungente, abrangente, envolvente. A idéia de ser gentil para receber gentileza é prática constante, quase religiosa. A população taiwanesa é mesmo sua principal riqueza. Em geral, simpáticos sem serem falsos, solícitos sem serem grudentos, amigáveis sem fazer esforço.

Ao contrário da maioria britânica e americana que vive aqui e acha que o mundo todo deve entender inglês, sempre que possível, falamos em Mandarim. Obviamente tudo errado e sofrível, mas o suficiente para ganharmos o respeito de quem nos atente. Quando sei de antemão que vou precisar pedir isso ou aquilo, ainda no hotel escrevo os caracteres em chinês num papel (copiando do dicionário) e levo pra loja/lavanderia/farmácia/mercado ou o que for. Primeiro tentamos falar, depois mostramos meus hieróglifos e por último apelamos para a linguagem de sinais, movimentos, desenhos. Mas jamais exigimos que alguém fale em inglês conosco. Estamos na terra deles e se há alguém que precisa se esforçar para se comunicar, somos nós não eles.

E sempre compensa muito mais do que jamais imaginamos. De meros compradores, logo somos presenteados com chá verde, água gelada, balas de menta, sorrisos e vamos embora sob reverências respeitosas que sempre retribuímos com muito respeito também. Outros, vendo as feições ocidentais do Martin, pedem para a gente esperar e saem correndo em busca de algum adolescente que fale inglês para conversar com a gente (quanto mais jovens, melhor a pronúncia e o entendimento em inglês, graças à Hollywood, Internet e MTV). Os adolescentes adoram a chance de praticar inglês e fazem todo tipo de pergunta pro Martin, as meninas sempre perguntam se ele é casado, vejam só. E alguns, simplesmente falam todo o repertório em inglês que sabem, como um senhor que estacionou na nossa frente sua motocicleta com três botijões de gás na traseira, abriu os braços e nos saudou "Hello! Happy Sundaaaay!!!" cheio de sorriso de dentes faltando. Enfim, às vezes uma simples ida no mercado pode trazer acontecimentos pitorescos e inusitados.

Mas nem sempre é assim, claro. Taiwaneses são bastante reservados, jamais se intrometem ou tentam ser inconvenientes. E são muito mais do jamais eu vou poder entender, perceber e descrever aqui. Há babacas, há folgados, há chatos e imbecis também, claro que há. Nenhuma sociedade é só flores e açúcar. Mas por ser um país tão pequeno e ao mesmo tempo tão densamente populoso (o décimo país do mundo com maior índice de densidade populacional), Taiwan têm uma sociedade única, diferente de seus vizinhos chineses, coreanos, japoneses. Nenhum homem aqui consegue ser uma ilha.

Hwáy tó jyèn!
(See you later! Até mais!)

PS: tenho me conectado à Internet raramente e por pouquíssimo tempo (muito cara aqui no hotel, muito o que fazer lá fora).

Escrito a mão pela Marcia às 4:28 PM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(13)