junho 30, 2006
A Thousand Years in One Hundred Days
Minha lista de iguarias que nunca passarão pela minha boca esta a cada dia ficando menor. Quando chegamos aqui já havia lido no guia Lonely Planet sobre o tal Thousand-year Egg, extensamente popular em Taiwan, que produz um dos melhores do mundo. Achava que era algo bastante raro de se encontrar, mas para minha surpresa qualquer supermercado vende uma caixa com quatro unidades. Até o 7Eleven ("SebenEleben" como eu e Mr.M chamamos, hihi) daqui da esquina vende. Comum, popular e adorado por toda a nação.
Mas o que vem a ser então Thousand-year Egg, você ávido leitor se pergunta, já sabendo que poucas iguarias podem me causar estranhamento e também, com uma certa estranha razão sádica, já torcendo para que eu me meta mesmo nessas comidas arrepiantes. Então lhe explico, caro leitor sádico: Thousand-year Egg ou Century Egg ou Pídàn é nada mais que ovo de pato preservado. Ou conservado. Ou, mais precisamente, fossilizado.
Para prepará-lo a receita é muito simples. Primeiro é feito um chá preto bem forte, no qual se adiciona óxido de cálcio, que é elemento de decomposição da pedra calcária. Em seguida, são acrescentados sal marinho e bastante cinzas de madeira de carvalho até formar uma pasta que se assemelha à argila. Cada ovo de pato cru é então envolvido nesta pasta e coberto por casca de arroz, para não grudar um no outro. Os ovos são então guardados em jarros de barro e cobertos por um tecido. E assim descansam por não menos que 100 dias.
Durante esse tempo, a mistura de sal, cálcio e cinzas aumenta os níveis de pH e sódio e formam componentes naturais bastante alcalinos, que impedem os ovos de serem estragados. Passados os 100 dias, os ovos são curtidos, a clara endurece como se tivesse sido cozida e adquire uma coloração âmbar, transparente e brilhante. Já a gema ganha uma coloração e consistência parecida com petróleo, um caledoscópio de cores preta, verde e azul, conforme a luz. E o gosto (diziam) é bastante pungente, semelhante ao queijo gorgonzola bem maduro, mas com gosto de terra. E não é recomendado simplesmente dar um dentada neste ovo porque (diziam) o sabor está muito concentrado e é (diziam) desagradável.
Pela descrição que havia lido no Lonely Planet, já tinha colocado o Thousand-year Egg na lista dos no-no (e nunca mais faço isso, principalmente porque o autor colocou no guia um fato sobre este prato que é na verdade um grande mito). No entanto, conversando com meus fellows gourmet enthusiasts, muitos deles me encorajaram a ao menos provar, já que é uma iguaria incomum e Taiwan tem os melhores do mundo. Me disseram também que o mesmo ovo servido em Congee (um mingau de arroz, caldo de carne de porco, tofu frito e cebolinha, delicioso!) é muito mais suave e saboroso. Muitos outros se juntaram a nossa conversa e cada um contou de que forma preferem preparar e servir seus ovos cor de âmbar, todos bastante entusiasmados e com boas lembranças do Congee com Thousand-year Egg. Passado algum tempo, fiquei com tudo isso na cabeça e minha curiosidade só cresceu e cresceu.
Nesta semana a Jo veio aqui no apartamento para esperar o Cable Guy vir instalar nossa TV a cabo. E o moço sumiu por três horas e nesse período papeamos sem parar, mostramos fotos pelo Yahoo! Fotos uma para outra, contamos sobre nossas vidas e acabamos fatidicamente conversando sobre comida. Perguntei a ela sobre o Thousand-year Egg e na hora ela ficou super animada de me fazer experimentar, mesmo porque ela já sabe que eu e o Martin somos muito muito receptivos a provar coisas novas (diferente, aliás, de todos os outros britânicos que estão aqui no momento). E ontem a noite ela marcou um jantar como todos nós num restaurante especializado em Dim Sum na China Trust.
Nós nunca tínhamos ido neste lugar e ficamos impressionados. Bem legal, mesas amplas e carrinhos de comida bem quente circulando, tudo preparado na hora e você escolhe o que lhe atrai e a garçonete tira do carrinho e coloca na mesa, sem demora. Jo escolheu todos os pratos para que a gente pudesse experimentar os mais famosos. Mas ela foi bem cuidadosa em escolher os mais "ocidentalizados" pra ninguém ficar sem comer. E logo em seguida ela chamou a garçonete e cochicou algum pedido.
Em pouquissimo tempo, a garçonete voltou com uma tigela quentinha de Congee com Thousand-year Egg e colocou bem na minha frente! Aaaawww, não é um doce essa Jo? Parei imediatamente o que estava comendo (hard task) e me concentrei no tal congee. O ovo estava perfeito, clara cor de coca-cola em consistência de gelatina dura, gema brilhante e escura, tudo cortado em cubinhos e misturado na brancura límpida do mingau de arroz. Peguei uma porção do Congee e um pedaço grande de ovo. Tentei sentir o aroma do ovo, mas o cheiro do Congee estava mais forte. E experimentei. Jo esperava ansiosa pela minha reação. E realmente eu me surpreendi:
"But it tastes like egg!!" eu exclamei, porque a textura e o gosto não eram muito diferente de um ovo, simplesmente. Comi bastante do congee, que estava divino, e testei e testei e continuei achando que o Thousand-year Egg tinha gosto de ovo.
E Jo fez uma expressão de quem diz "Óbvio, duh".
Daí perguntei a ela onde estavam o cheiro pungente de terra, sabor amônia-gorgonzola, que tanto li a respeito. E ela me explicou que Thousand-year Egg cozido em congee perde quase todo o cheiro forte e retém o sabor fresco do ovo e é essa a intenção de se preservar o mesmo. Já muitos gostam do sabor e aroma forte e a melhor maneira de prová-lo assim, disse Jo, é em forma de salada de tofu. Ovo e tofu cortados em cubos, regados com shoyu e depois polvilhado com cebolinha verde. Mas ela me recomendou a experimentar o congee primeiro, se eu gostasse, tentar a salada numa outra vez.
Well, bring it on then, i'm ready! Pra falar a verdade, adorei. Foi uma excelente oportunidade para experimentar, com a Jo ali para dar seu selo de autenticidade, e aproveitei bastante minha chance. Perdi meu receio a respeito do ovo de pato preservado e quero provar novamente.
O que mais me fascina a respeito do Thousand-year Egg é a inteligência deste povo asiático de aprender a conservar um alimento. Há muito tempo atrás, numa época sem eletricidade, conservar comida era uma opção entre viver ou morrer nas épocas de escassez. Estudos e testes sobre níveis pH, bactérias e condições ambientais nessa mesma época eram tarefas difíceis, se não quase inimagináveis. Mesmo assim este povo aprendeu a ler o que acontecia ao seu redor, aprendeu a driblar a reação química, aprendeu a sobreviver. Não me espanta que taiwaneses sejam tão orgulhosos de sua produção de Thousand-year Egg, é mesmo admirável, de uma cultura muito mais antiga e milenar que a nossa e espero que muitas gerações continuem a produzí-los e a saboreá-los com o mesmo gosto.
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junho 26, 2006
33 and counting
Este foi o bolo do meu aniversário ontem. Um mini-bolo de chocolate com mousse de chocolate e coberto de calda de framboesa. No topo, uma fita de chocolate branco e uma framboesa com -- notem, notem, notem -- um mínimo de fragmento de ouro. Sim, ouro. Minhas vísceras são as mais chiques.
No segundo plano, o crème brûlée de manga, escolhido por Mr.M.
Tivemos um dia excelente, ganhei os pesentes mais kawai do planeta e fomos jantar num restaurante japonês do hotel em que antes fora nosso lar. Bacaníssimo lugar, toalhinhas quentes, diversas porcelanas, chá verde a toda hora, comemos o sushi (hand roll de camarão e pepino) mais fresco e delicioso do mundo e tempura de legumes perfeitos, entre eles um de cogumelo recheado fantástico. Depois tivemos nossas sobremesas, os bolos mais chiques do universo.
E mudamos. Já estamos instalados no novo apartamento. Há malas e caixas abertas espalhadas. Sacolas e pacotes também. Ontem colocamos bastante coisa no lugar, principalmente para tornar o apartamento funcional. Toalhas, papel higiênico, copos, roupa de cama, escovas de dente, microondas, aquela coisa toda. O único inconveniente foi que a geladeira foi deixada fechada por muito tempo com umidade dentro. E tinha traços de bolor. Passei quase duas horas do meu dia especial tirando e lavando todas as prateleiras; esfregando todas as paredes internas, desinfetando cada milímetro de tudo com o mais poderosos dos desinfetantes (hospital grade). Talvez sejamos intoxicados de Benzalkonium Chloride e Cationic Surrfactant, mas hell não há mais bactérias.
No primeiro jantar neste apartamento tivemos Cornish Pasties (hooray, hooray!), aspargos e vinho tinto Jacob's Creek.
Hoje tenho muito a fazer, todos os armários e guarda-roupas me aguardam ansiosos e famintos.
junho 24, 2006
Moving Out (Again)
Estamos de mudança novamente.
Pela terceira vez em muito pouco tempo estou empacotando nossos pertences. E agora além das malas, temos todos estes eletrodomésticos e parafernalha interminável.
Estamos nos mudando para um outro apartamento, mas aqui no mesmo condomínio. Sairemos do terceiro andar e nos mudaremos para o topo de outro prédio. A causa da mudança é o barulho em horários não-civis e a falta de pressão da água. O outro apartamento é menorzinho e menos charmoso, mas vamos ver se agora pelo menos a gente pode tomar banho e dormir decentemente.
Não sei quando vai ser instalada a Internet por lá, talvez demore um pouco.
Esta vida nômade me cansa, às vezes.
junho 20, 2006
Air Raid Drill
Hoje aconteceu em todo país o Air Raid Drill, mais ou menos como um toque de recolher, para testar as sirenes de emergência.
Às duas horas da tarde as sirenes de Kaohsiung começaram a tocar, alertando à população a permanecer dentro de casa (ou qualquer outro estabelecimento) até segunda ordem. As ruas ficaram completamente vazias, sem carros, sem pedestres. Só policiais patrulhando, uma vez que o treinamento é militar e quem desobedece recebe multa. Fiquei na janela só admirando algo que dificilmente se vê pelas ruas de Taiwan: vazio e silêncio. Às duas e meia outra sirene soou, indicando o fim do treinamento.
Soube do Air Raid Drill pouco antes de começar. Um dos colegas do Martin havia recebido um aviso do hotel e avisou os colegas. Martin me ligou quinze minutos antes para me avisar. Como não lemos Chinês, não sabíamos que tal treinamento iria acontecer e certamente teríamos ficado alarmados, nestes tempos de guerra, principalmente se estivéssemos nas ruas, com todo mundo correndo para dentro. Ninguém da empresa nem para nos informar. Um anúncio em qualquer 7Eleven também teria sido bem simples e útil, mas nada. Mas tudo correu bem, a amizade é a mesma. Méi shén me (never mind).
The Time Travelers
Trouxe alguns livros da Inglaterra para ler aqui. Livros que demorei para escolher na querida Borders porque queria bons parceiros de viagem, boas estórias, boa escrita. Entre eles, The Time Traveler's Wife (Audrey Niffenegger), que terminei de ler quando ainda estávamos no hotel. E quando Martin viu o livro, logo me mostrou a data em seu crachá: 1995. E me explicou que em Taiwan o calendário está 11 anos atrás do ocidental. Então estamos vivendo o ano de 1995, outra vez e pela primeira vez.
Estava satisfeita com esse primeiro livro, de situações convincentes e bem construídas, de espera, de ausências, de presente. Mal sabia como os outros dois que trouxe me levariam por viagens tão mais fascinantes:Shadow of the Wind (Carloz Ruiz Zafon), pela Barcelona da época de reino fascista de Franco; e The Kite Runner (Khaled Hosseini), pelo Afghanistão pré-invasão Russa, pré-Taliban, quando crianças tinham infância. Este último, um dos melhores que li em muito tempo.
Agora sem livros estou. E como na livraria aqui da frente do prédio vende muitos da coleção dos clássicos em inglês, é com eles que vou colocar minha leitura em dia. Livros que sempre pensei em ler, mas no final, entre os tantos lançamentos disponíveis nas livrarias inglesas, sempre acabava escolhendo um mais contemporâneo. O primeiro que comprei aqui é Great Expectations (Charles Dickens) e estou prestes a embarcar no século 19.
junho 14, 2006
Indiana Jones and The Temple of Doom -ish Banquet
Eu nem sei por onde começar.
Eu nem bem queria escrever nada para evitar pedras e longas lições de moral e veganismo e isso e aquilo. Porque poucos entendem que estamos em outra cultura, outro mundo. Mas não há como não registrar aqui uma experiência única que vivemos, gastronomicamente falando. Para minha família, pros meus amigos queridos e pra aqueles que entendem.
Então. Fomos convidados a um banquete. Sabíamos que aconteceria cedo ou tarde. Se comer é um prazer para os taiwaneses, um banquete é a manifestação mais pura desse deleite. É com um banquete que eles selam acordos de amizade, negociações de paz, contratos de negócios. E como todo banquete, há regras de etiqueta. E em Taiwan essas regras se estendem em vários sentidos, que não involvem usar talheres corretos, mas sim mostrar gratidão, generosidade, polidez.
O anfitrião geralmente oferece 10 ou mais pratos em seqüência para os convidados. A idéia é servir muito mais comida do que todos nós podemos comer. É o gesto de generosidade dele. Da parte dos convidados é esperado que se prove ao menos um minúsculo pedaço de tudo o que é servido. É o seu gesto de gratidão. É possivel, claro, recusar. Mas recusar às vezes é mais complicado do que engolir um mísero pedaço de seja lá o que for oferecido. Porque ao recusar, logo o anfitrião pede sinceras desculpas por ter escolhido um prato que lhe desagrada, pergunta se você prefere que o chef lhe traga algo diferente, do jeito que você gosta. Isso tudo na frente de todos os outros convidados do banquete, enquanto o evento pára. Em outras palavras, chega sim a ser uma ofensa não aceitar o que é considerado pelo anfitrião tudo o de melhor e mais caro que ele pôde lhe oferecer. Tenham tudo isso em mente quando estiver lendo o restante deste post.
No banquete que fomos estávamos em 13 pessoas: seis britânicos, seis taiwaneses e uma brasileira-nipo-britânica perdida. Os anfitriões eram CEOs da empresa fornecedora de equipamentos para o projeto em que a equipe do Martin está trabalhando. O restaurante era especializado em frutos do mar e ainda mais especializado em banquetes privados. A mesa era redonda, imensa, com outra mesa giratória no centro. Quando todos estavam sentados e com seus copos cheios de cerveja, pratinho cheio de shoyu, hashis, prato, tigela e guardanapos a postos, o banquete começou.
Primeiro, obviamente, um brinde de boas vindas a todos os presentes. E com um sinal o anfitrião pediu que fosse servido o primeiro prato, que geralmente é frio e esperávamos alguma salada, umas porções de suhi ou algo parecido. Mas o que foi servido marcou o resto da nossa noite, senão das nossas vidas.
Uma escultura de gelo, que tinha o formato e detalhes de um navio pesqueiro. Orquídeas frescas decoravam a borda. Dentro, a maior lagosta jamais vista por meus olhos. Uma única lagosta enorme o suficiente para servir uma mesa de treze adultos. A lagosta fora disposta como se estivesse deitada de barriga pra baixo dentro do navio, cabeça na proa olhando pro infinito, rabo na popa, pernas pra fora do navio. Finas fatias de sashimi da lagosta no meio, no que antes fora a calda da mesma. Esse era o prato.
Com um mero detalhe: a lagosta, que há poucos minutos havia sido fatiada em sashimi, ainda estava viva. Sua carne branca transparente, em tiras, estava disposta em suas costas. Suas garras, olhos, braços e pernas ainda mexiam, contorciam, clicavam, sem sair da pose dentro do barco. O prato, a escultura, a lagosta semi-viva, rodava na mesa giratória, nossos olhos arregalados, os queixos caídos. O silêncio desconfortável, durou muitos segundos. Finalmente o anfitrião explicou que era sua forma de nos oferecer algo fresco, o mais fresco possível, a melhor qualidade do melhor crustáceo que jamais poderiamos ter. "Please do try it", nos encorajou. A lagosta deu mais uma volta completa na mesa sem que ninguém tivesse coragem de tocá-la. É esperado que os convidados sejam sempre os primeiros a se servirem e todos os outros taiwaneses esperavam pela vez deles. Mike finalmente pegou um pequeno pedaço. "Please Martin, Marcia, try it", ouvimos. Eu segurei meu hashi e falei em pensamento pra lagosta: "você morreu por nós e nos deu sua carne; para que você não morra em vão, eu aceito, obrigada". Peguei minha fatia, molhei no pratinho com shoyu e comi. Martin fez o mesmo. E todo mundo seguiu. E ninguém conseguia falar nenhuma palavra, o que era um tormento porque podíamos ouvir a lagosta fazer clic, clic, clic com as patas. Logo o clic-clic parou e eu quis chorar. Como somos hipócritas. Nem bem senti o gosto do sashimi, o sabor é muito leve e pouco distinto, nada que justificasse tal espetáculo circense.
Não durou muito tempo, logo a garçonete retirou a agonizante criatura e trouxe um prato cheio de sashimis de salmão, dourado e atum, esses todos bem mortos, para nossa conveniência. Outros pratos seguiram: bifum, que estava uma delícia; pepino amargo em molho de gergelim, broto de bambu cozido; sopa de ostras, divina; peixe grelhado e peixe no vapor; lula marinada em thai basil e chilli peper, muito saborosa; manjubas fritas; camarões fritos; costelas de porco assadas e mais um monte de outros pratos que não me lembro. E como em toda refeição taiwanesa, logo chegou em nossa mesa, sobre o fogareiro, outra sopa, mais leve, para ajudar a digestão. E quem é que não retornou à mesa se não nossa conhecida lagosta? Sim, agora dentro da sopa e eu dei risada porque já não sabia mais o que fazer ou pensar nessa altura.
E como todo bom banquete asiático, tudo terminou em karaokê, mas não foi tão divertido quanto o primeiro que fomos porque não pudemos ser bestas e ridículos na frente dos anfitriões. Mesmo assim Martin levantou e saiu correndo para pegar o microfone e cantar Yesterday (Paul MacCartney) e Hello (Lionel Ritche). Eu quase que não reconheço esse moço que canta em karaokê com essa empolgação toda. Os taiwaneses cantaram várias em chinês, depois alguns deles (uns velhinhos bem gracinhas, uns amores), cantaram em inglês com a gente. Foi divertido.
Durante todo o jantar, são feitos pequenos brindes individuais, que eles chamam de "ganbei". Qualquer um pode erguer um brinde a qualquer outro e ambos devem secar o copo de uma vez. O copo era bem pequeno, então era fácil. E os "ganbei" acontecem a todo instante, tem sempre alguém erguendo um brinde, várias vezes e aí sim não se deve recusar. Mas todos os brindes a mim não precisavam ser esvaziados, porque eu não bebo (muito). Aliás todo mundo me chamava de Lady, porque ninguém consegue pronunciar meu nome aqui. Então eu era Lady, posh or what?
Logo o "ganbei" passou a ser brincadeira e os taiwaneses caíram na bobeira de tentar deixar os britânicos bêbados. Hohohohohohohoho... eles não caíram do cavalo? Depois de vários "ganbei" eles perceberam que nenhum dos britânicos estavam minimamente abalados e pararam. Mas aí os britânicos é que começaram a levantar os "ganbei" e os taiwaneses não tinham como recusar e saíram de lá pra lá de Peru (Baghdá é perto).
No final do jantar, relembrando, tivemos uma ótima noite, conversa animada, boa comida, experiências únicas que jamais teríamos se não tivéssemos sido convidados. Ficamos chocados com o incidente da lagosta, mas hey, vamos ter do falar por muitos anos pela frente. Pelo menos não foi algo extremamente repugnante como o banquete em Indiana Jones e o Templo da Perdição (que não é totalmente ficção, os pratos que aparecem no filme são iguarias em vários países deste canto), mas chegamos perto e não queremos ir mais além que isso.Acho que ainda teremos outros jantares assim para atender até o final do projeto. Sabe-se lá o que vem pela frente. Não reclamo, jamais reclamo, na verdade me sinto privilegiada de ver e vivenciar tudo isso. O mundo é realmente um lugar estranho.
junho 12, 2006
Downpour
Não sei se as notícias chegam ao oeste do mundo, mas por aqui na Ásia-Pacifico o mundo está se acabando em água. Eu, paulista acostumada com enchentes e enxurradas daquelas que carregam carros rio abaixo, me assusto com as tempestades daqui. Porque parecem não ter fim. O céu fica escuro durante todo o dia, como se estivéssemos num dos pólos extremos da Terra, distante do sol. O céu negro não passa, nem depois que a tempestade começa, indicando que a chuva vai cair por todo o dia. Estranho, muito estranho.
A água que cai é intensa, muita água, muita muita chuva, trovões retumbam agressivos, raios chovem também. Mas não como as chuvas fortes que costumamos ver. Tudo acontece intermitentemente, sem fim, sem parada. No sábado choveu e acumulou 106 milimetros, como há muito tempo não se via no país. Em Kaohsiung houve enchentes, deslizamento de terra e descarrilhamento de trens, aquele caos. Na China há centenas de desabrigados. No Japão houve terremoto também, como se já não bastassem as tempestades.
Hoje acordei e a escuridão persistia, sinal de mais um dia de tempestades. Sonhei com minhas cachorras Sasha e Bianca, um sonho triste porque senti o calor do corpo delas, porque não pude mantê-las comigo, porque elas precisavam ir com pressa, para algum outro lugar que eu não podia seguir. Um amanhecer ainda mais triste porque elas já não estão mais aqui por tanto tempo.
E eu preciso ir comprar um guarda-chuva novo. O meu já era velho e se quebrou. Guarda-chuvas são duplamente úteis em Taiwan porque protegem contra chuva e principalmente do sol forte. Ontem caminhamos na vizinhança o dia todo para descobrir novos lugares e percebemos como é muito mais fácil andar embaixo de chuva do que do sol impiedoso desta terra. Então logo vou numa dessas lojas que vendem três milhões de guarda-chuvas e sombrinhas coloridas em tons pastéis para escolher um para mim.
Porque quero continuar pelas ruas, mesmo que chova, mesmo que o sol queime, mesmo que meus sonhos me inundem e me afoguem.
junho 7, 2006
Wor gwài-èr ler!*
Eu sei que estou devendo um post ou uns doze posts sobre a culinária taiwanesa. Pensei em várias coisinhas diferentes, mas nada que me inspirasse a escrever. Decidi então ir com calma, escrever um pouquinho por vez, mesmo porque é difícil classificar em um só post que a comida de Taiwan é assim ou assado, preto no branco, porque cada região têm seus pratos típicos, suas influências externas, seus costumes de preparar. As minhas impressões descritas aqui, retalhadas e picadas e sob a ótica de uma estrangeira perdida, serão portanto apenas um pálido reflexo (talvez errôneo) da culinária daqui de Kaohsiung City e não de todo o país, mesmo que eu inicie um parágrafo dizendo "Aqui em Taiwan...".
Pois bem. Aqui em Taiwan, comer é um hobby. Dos mais populares e abrangentes. Ande pelas ruas estreitas e no mesmo segundo você entende. Qualquer rua, por minúscula e sem saída que seja, tem pelo menos uma banca de comida. Quanto maior a rua, mais bancas de comida, mais restaurantes, mais feiras. E nos horários das refeições, as ruas fervem. Um misto de Five Spices, peixe, frango frito, alho, shoyu e óleo de gergelim perfumam o ar. Impossível não sentir fome quando o burburinho começa. Woks superquentes sobre o fogareiro de chama única, caldeirões com caldos diversos fervendo, patos defumados pendurados pela cabeça, um mundo de pequenos espetáculos de mãos habilidosas preparando noodles, panquecas de arrroz, gyozas, espetinhos, tudo ali na sua frente.
A grande maioria da população parece preferir comer fora de casa, o que deve explicar o tamanho mínimo da cozinha e a falta de um precioso forno. Na verdade, é muito mais barato comprar alguns dos pratos típicos nas bancas de rua do que preparar em casa. Mas o fato é que comer é um acontecimento social em Taiwan. Os melhores restaurantes sãos os mais barulhentos. Gente conversando animada é sinal de boa comida sendo servida. "Siga o barulho", é a dica que sempre recebemos. E aqui encontramos uma grande diferença.
Em países ocidentais, ser levado a um bom restaurante significa ser levado num lugar bem decorado, com atendimento rápido e discreto, culinária criativa, três ou quatro pratos, vinhos de boa safra, vários talheres, porcelana branca, guardanapo de linho. Em Taiwan, como na maioria dos países asiáticos, ser levado ao um bom restaurante significa muitas vezes ser levado a um fundo de quintal ou a uma porta de garagem com mesas de fórmica, cadeiras dobráveis, calendários de cinco anos atrás nas paredes, mas que serve o melhor prato da região. Porque para os ocidentais, é importante ver o valor do dinheiro gasto, sentir que a conta pagou pelo ambiente, pelo serviço, pela atmosfera. Já para os asiáticos bons restaurantes ganham reputação pela qualidade da comida, única e tão somente, não importa se a decoração é pós-moderna ou decadente.
Não quer dizer que Taiwan não tenha restaurantes bacanas, existem inúmeros, em cada esquina. Também não quero dizer que exista nada de errado com a forma que apreciamos um bom restaurante no Ocidente. Por mim, se Gordon Ramsay fosse um homem pobre e tivesse uma banquinha na rua ao invés do restaurante no Claridge's, eu estaria almoçando lá todos os dias. Mas como ele não é, ainda sonho em um dia juntar minhas moedas e ir gastar todas elas num jantar com tudo que tiver direito e deixá-lo ainda mais rico.
Enfim, o importante de tudo isso é perceber que comer bem aqui em Taiwan não é um privilégio, mas é preciso ter a mente aberta, entender que uma refeição aqui está desassociada ao status. E ter também um pouco de coragem para experimentar o novo, fechar os olhos para certas condições higiênicas, mais ou menos como quando compramos os "churrasquinhos de gato" em São Paulo, como bem me lembrou o Mauro.
A Jo nos sugeriu duas bancas de ruas famosíssimas em Kaohsiung para experimentarmos. E armados com o dicionário fomos imediatamente. A primeira, foi para apreciar o prato mais popular de Taiwan, niúròu mián, que são noodles grossos do tipo udon, com caldo de shoyu, bastante verduras e carne assada no vapor. Abolutamente simples e delicioso, tudo bem preparado e temperado suavemente, a carne simplesmente desmancha na boca. A segunda banca foi a favorita, de Beijing káo-yá, ou Peking Duck, como é chamado na Inglaterra, que são fatias de pato marinado em especiarias, assado e defumado, depois fatiado finamente e servido dentro de panquecas, com molho de ameixa e pepino em tiras. O moço fatia o pato na sua frente, com uma machete capaz de cortar uma rocha, coloca tudo num prato descartável, embala, ainda corta todos os ossos do pato, joga numa wok, adiciona um caldo maravilhoso e muitos ramos de thai basil, despeja tudo num saco plástico e lhe entrega. Depois de comer as panquecas, a melhor parte é ficar pescando os ossos com alguma carne e comer com as mãos, saboreando o caldo fantástico que impregnou os pedacinhos. Indigno, eu sei, mas absolutamente delicioso. Essa banca de patos é muito famosa, bem barata e forma uma fila imensa e fecha antes das oito da noite porque acaba todo o estoque. E isso acontece todos os dias da semana, sempre lotados, sempre vendendo tudo. Espero que eles nunca entrem em contato com Gordon Ramsay.
Essas duas bancas nos marcaram por serem as primeiras que tentamos e viramos fregueses. Já faz tanto tempo desde que as visitamos nas primeiras semanas que chegamos aqui. Hoje tanta comida diferente já passou pelas nossas bocas, principalmente porque moramos muito tempo no hotel e nossa única opção era comer fora. Mas sinto que ainda há um mundo inteiro de comidas me esperando, muito além de tudo o que já provamos. Só de visitar o mercado de comidas eu vejo o quanto ainda não experimentei e o quanto ainda não faço idéia se é doce ou salgado, pra comer ou pra lavar roupa.
Logo conto sobre o Lado B da culinária taiwanesa, aquelas comidas de arrepiar e se indignar, que jamais passarão minha goela abaixo, God willing. Não temos fotos de quase nada porque nossa câmera ficou muito tempo no conserto, vou ver se logo saio para um tour fotográfico pelo mercado de rua. Cheers!
*Estou morrendo de fome!
junho 3, 2006
A Trip to Hong Kong
Passamos intensos três dias em Hong Kong. Os arranha-céus são impressionantes, não só pela altura, mas pela quantidade deles em todo país. Desde instituições financeiras a apartamentos residenciais, luxuosos, humildes ou caindo aos pedaços, a maioria dos prédios têm mais de 50 andares. Por todos os lados grandes colunas que ultrapassam as nuvens, pilhas e pilhas de andares. E gente. Muita gente. Estivemos em Kowloon (no continente chinês) e Hong Kong Island e por todos os cantos, por todos os lados, gente aglomerada, gente indo e vindo em massas, multidões. Quase sete milhões de habitantes e todos eles estavam nas ruas nestes três dias que passamos lá.
E se em Taiwan o sorriso é marca registrada da população, em Hong Kong o mesmo desaparece. Aparências sisudas e comportamento idem são predominantes. Os colegas do Martin que já moraram em Hong Kong nos alertaram do contraste e realmente notamos a diferença nas primeiras horas. Mas três dias são poucos para se ter uma impressão justa de uma comunidade.
Sem contar que choveu. Choveu torrencialmente sem parar. E nosso plano de subir nas montanhas e apreciar os pontos turísticos ao ar livre foram jogados pela janela. Mas mesmo com chuva caminhamos. E como andamos e andamos e andamos. Não há, para nós, melhor maneira de se conhecer um lugar do que andar a pé pelas suas ruas. Usamos o metrô algumas vezes também, que é excelente, principalmente para atravessar o estreito onde o mar divide a ilha de Hong Kong do continente.
Visitamos os fantásticos shopping centers que abrigam lojas Chloé, Manolo Blahnik, Versace, D&G. Nos perdemos nas inúmeras lojas de rua, tudo duty & tax free, que atrai uma multidão de consumidores de todo mundo. Aliás, em Hong Kong, grande parte da população fala inglês muito bem, é bastante fácil se comunicar. No entanto, particularmente, achamos que nem tudo é lá tão barato quanto se espera de um país tax-free.
Assistimos à Sinfonia das Luzes, que acontece todas as noites às oito horas, quando vários dos arranha-céus que ficam na borda da baía fazem um espetáculo com holofotes coloridos. E no final, vimos uma embarcação lindíssima chamada Junk, que parece saída dos filmes de samurais, navegando pela Victoria Harbour.
Comemos muito bem, em restaurantes com culinária japonesa e outro de Singapura (culinária local, pelo que entendi, é chinesa cantonesa). Passeamos num parque chamado Kowloon Park, que tinha tartarugas no lago, flamingos, cisnes e patos (e uma ratazana enorme que passou correndo e me fez correr na direção oposta). Resolvemos os assuntos burocráticos que tínhamos para resolver em Hong Kong. Tomamos toda a chuva possível no meio de uma tempestade que caiu ontem. Compramos dois DVDs para assistir no aconchego do nosso lar temporário, paramos para tomar café e comer um petit gateau maravilhoso e nos despedimos de Hong Kong.
E foi com um imenso sorriso e um suspiro de alívio que chegamos à nossa querida Taiwan, à querida Kaohsiung. Viajar é bom, mesmo que seja só para ter certeza de que seu lugarzinho é ainda o melhor.
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