julho 28, 2006

Kyushoku

Taiwan tem muitas influências de seus países vizinhos. Boas e más, mas outro dia falo das más porque preciso usar muitos neurônios e no momento o estoque está às moscas. E da parte boa, muita coisa vem da cultura japonesa, deixada aqui após a invasão nipônica que durou 51 anos (1894-1945).

Entre tantos aspectos intelectualmente e culturalmente fascinantes, meu cérebro só conseguiu registrar um, obviamente porque diz respeito à alimentação. Mais especificamente, diz respeito ao sistema de merenda escolar, que no Japão é chamada de kyushoku. E Taiwan adota o mesmo método em algumas de suas escolas.

Pois bem, mas o que existe de diferente nesse sistema, você leitor, que já não tem merenda escolar há pelo menos duas décadas, me pergunta. Então eu lhe respondo caro leitor ancião: é muito, mas muito diferente de qualquer sistema de refeição escolar ocidental. A filosofia que involve é totalmente diferente.

A começar pelo fato que eles não relacionam a merenda escolar como um "intervalo" para estudantes e professores se verem livres um dos outros e fazerem o que bem entendem. Não. E a comida não é para encher a barriga e aplacar a fome, encher o vazio. Não. A hora da refeição nas escolas é como qualquer outra atividade curricular e é levada com o mesmo respeito que qualquer outra disciplina. É a hora da educação alimentar, é a hora em que a escola se esmera para ensinar o que é uma alimentação balanceada. É um assunto tão sério, que cada cidade no Japão tem suas secretarias políticas que coordenam todo o processo, de nutrientes à procedência dos ingredientes.

Escolas que usam esse sistema kyushoku cobram taxas diárias (mais ou menos US$1.85) pelas refeições. Todas as crianças de cada cidade comem a mesma refeição, sejam ricos ou pobres. E todos os pais recebem uma cópia do menu que lista as quantidades, calorias, proteínas, ingredientes e formas de preparo de cada item. Crianças alérgicas recebem lanches sem o produto que causa reação ou então, em casos mais graves, podem levar seus próprios lanches feitos em casa. Vegetarianos também. Uma vez por ano os pais são convidados a experimentar uma amostra do que vai ser servido aos alunos e são também informados sobre como os menus são decididos, como as cozinhas funcionam e tudo mais.

Um exemplo de um menu típico de uma semana na cidade de Yokohama é:

SEGUNDA -- pão, leite, bolinho de peixe, ensopado com porco, batata, nabo, cenoura e espinafre, gelatina de pêssego e suco 100% natural.

TERÇA -- arroz branco, leite, tofu com porco, salada chinesa com broto de feijão, pepino, cenoura e amendoim, laranja de sobremesa.

QUARTA -- pão com passas, leite, macarrão bolognesa com cebola, cenoura, salsão e cogumelos, salada de nabo, pepino e cenoura, maçã de sobremesa.

QUINTA -- arroz branco, leite, sukiyaki com carne, tofu e vegetais, sobremesa de ougiage, que eu não sei o que é.

SEXTA -- leite, sanduíche de ovo com maionese, sopa de vegetais com porco, bacon, batata, repolho, cebola e cenoura, sorvete de sobremesa.

Daí vem a parte interessante. As crianças comem suas refeições na sala de aula, em suas próprias carteiras. Geralmente duas ou três crianças vão até o refeitório e trazem o carrinho com as merendas, as bandejas e talheres. As mesmas crianças, vestidas de aventais, luvas e máscaras, servem todos os seus colegas. E então quando todos foram servidos e estão em suas carteiras prontas para começarem a comer, as crianças juntam as palmas de suas mãos, fazem uma reverência e dizem bem alto "Itadakimasu", que em japonês quer dizer algo como "eu agradeço e aceito o que me foi servido". E comem. Crianças que geralmente não comem isto ou aquilo em casa, na escola, vendo os outros colegas comendo, acabam comendo também. A magia de se comer em grupo.

Elas não são obrigadas a comer tudo, comem o que querem, deixam o que não querem, ninguém força absolutamente nada, ao contrário do que acontecia no passado. Porém, as crianças mais novinhas do primário, se não comerem tudo, precisam levar suas bandejas para a professora ver se elas comeram o suficiente ou não. A professora então pode encorajar a criança a comer mais um ou dois items da refeição ou então decidir que sim, ela comeu o suficiente.

Quando todos terminam, as mesmas três crianças que trouxeram a refeição recolhem tudo e levam para o refeitório. Quando elas voltam pra sala de aulas, todos os colegas levantam e reverenciam dizendo bem alto "Gochisousama" que ao mesmo tempo quer dizer "foi uma grande fartura" pela refeição e também é uma forma de agradecer aos três coleguinhas que fizeram todo o trabalho de distribuição. No outro dia outras crianças são convocadas para fazer o mesmo trabalho, sucessivamente. Com isso, a escola busca ensinar que ninguém está acima desse tipo de serviço e que eles devem sempre, sempre ser muito agradecidos a quem lhe serve.

Mas ainda não terminou. As crianças agora partem para os lavatórios, todas escovam os dentes. E então chega o momento de limpar a escola. De lenço na cabeça, eles limpam desde os corredores aos banheiros (com exceção dos vasos sanitários que precisam usar desinfetantes considerados perigosos para crianças), com ajuda de todos os professores e alguns pais que queiram participar. É parte da mesma educação e disciplina de cuidar de seu ambiente e nunca esperar que alguém menos privilegiado faça por você.

Então aí estão todas as diferenças das merendas escolares que alguns países asiáticos adotam. Algumas escrevi explicitamente, outras você mesmo pode deduzir. O que as crianças aprendem nesse sistema vai muito além do que aparece em suas bandejas. Senso de comunidade, de nutrição, de gentileza, de gratidão, de cidadania. E muito, muito mais. Não se trata simplesmente de uma refeição e é isso que muitos países ocidentais sequer conseguem entender. A refeição é apenas o começo de toda a educação. Jamais consigo imaginar tal sistema ser aplicado em países como Inglaterra e EUA, onde um bando de pais estariam processando a escola (o quê? limpar o banheiro? meu filho, não!). Cada um com seu cada qual, não é um sistema para todas as culturas mesmo. Mas funciona e funciona muito bem para países como Japão e Taiwan. Chega a ser bem bonito de se ver, na verdade.

Neste link aqui você pode ver um dia típico de uma escola de ensino elementar. E neste outro link, as crianças sendo servidas pelos seus coleguinhas. Nem todas as escolas no Japão adotam o kyushoku, em muitas delas as crianças levam seus próprios almoços feitos em casa, mas nunca deixam de ser refeições balanceadas, chamadas de obentô. Mas isso é imenso assunto para outro post.

Escrito a mão pela Marcia às 7:59 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(16)

julho 22, 2006

In Season

Acabou de passar a temporada das Lychees, comemos vários cachos dessa delicada frutinha por vários dias. Depois veio a temporada dos kiwis amarelos, tão diferente dos verdes, bem mais suculentos. E há outras frutas que estão sempre em temporada, como o abacaxi, que é vendido no supermercado e tem sempre uma atendente que descasca, corta em cubinhos e coloca num pacote para você poder levar pra casa. Banana, melancia e maçã também existem em abundância. Agora a temporada é de mamão papaya, fruta do conde (que o Martin chama de "a fruta que seu pai comprou pra mim no Brasil"), caqui, grapefruit, manga, pêssego.

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Obviamente, quando em estação, as frutas estão em seu melhor, maduras, mas ainda firmes e bastante suculentas. Em poucos dias elas passam a ficar supermaduras e o preço despenca. É quando percebemos que a estação está passando. É ótimo ter essa variedade, mesmo que a gente tenha que se despedir de alguma frutinha em tão pouco tempo, como as lychees. Mas outras vêm em seguida e animam o dia. Tão diferente da Inglaterra, onde temos praticamente os mesmos tipos de frutas o ano inteiro e todas com o mesmo gosto de nada, salvas algumas berries.

Sempre que corto uma fruta aqui em Taiwan admiro a cor viva, o suco escapando de fininho, o perfume doce que finalmente se liberta de seu interior. Às vezes dá vontade de tirar uma foto para guardar o momento. Outras vezes (a maioria das vezes) a gula é maior e não sobra nenhuma para posar para a câmera. A manga e o pêssego tiveram seus momentos porque havia bastante deles suficiente para fotografar e comê-los ao mesmo tempo.

Tentando focalizar a pele aveludada do pêssego, lembrei de uma entrevista que Gordon Ramsay havia dado a uma revista. O repórter havia perguntado se ele tinha algum truque para tirar a pêle do pêssego facilmente. E Ramsay respondeu: "Yes, buy a nectarine". Haha. Porquê alguém vai querer tirar o fino manto da única fruta vestida de veludo é algo que me escapa da compreensão.

As fotos não estão muito boas. Câmera nova, lente nova, Márcia velha. Treinando depth of field e saturação. Não fui feliz em nenhum dos dois treinos. E sim, além do Mr. Prato Horroroso Azul, também temos o Mr. Prato Pavoroso Cor de Laranja. Monstros marca Carrefour, comprados pela empresa porque eram os mais baratos do mundo. Não, não os defendam. Eles podem até sair decentes nas fotos (não por mérito deles, diga-se) mas odeio-os. Brancos sempre. No máximo um filete dourado na borda para dar a ilusão de que a comida é maior (ah-há, sabia dessa?). Mas brancos, elegantes, discretos, pano de fundo pra comida, que esta sim, precisa ser colorida. Pratos querendo chamar atenção para si mesmos me irritam. Profudamente. Pratocídio é a única solução.

Escrito a mão pela Marcia às 8:12 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(10)

julho 17, 2006

Storm's Eye

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Teve de tudo um pouco. Muitas enchentes por todo país, alagamentos diversos, pontes destruídas, deslizamentos de terra. E não foi pra menos. Como mostra o quadro pluviométrico acima, choveu tanto que até saiu dos níveis máximos da tabela. Três dias de tempestades intermináveis. Pequenas pausas de uma meia hora ou menos entre elas. De resto, choveu torrencialmente por horas e horas, nos três dias. Ventos fortíssimos quebraram várias árvores do nosso bairro, arrancaram outdoors, levaram nossa paciência. E nosso apartamento não ficou ileso: por uma rachadura no canto da janela da sala de estar entrou água, muita água da chuva, que se espalhou pelo chão inteiro. A sorte é ter piso de cerâmica e sofá com pezinhos, só tivemos que dar conta dos panos-de-chão, mas não deu muito mais trabalho que isso.

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Enquanto isso, na longínqua São Paulo, onde a tempestade de violência e impunidade parece nunca ter fim, meu querido pai Seu Jorge, que voltava a pé de seu honesto trabalho, se chocou com uma moto (que sequer parou) e ficou machucado. Então fica aqui meu querido abraço a ele, cheio de carinho e afeto e muitos Band-Aids, com desejos de que ele se recupere bem. Beijos, pai.

Escrito a mão pela Marcia às 6:51 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(8)

julho 13, 2006

Bilis

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Esta é a foto do satélite desta manhã, a tempestade tropical Bilis quase engolindo a pequena Taiwan. O país todo recebeu alerta do Central Weather Bureau para se preparar para severas tempestades. Mas pela previsão, não haverá ciclone, por isso o Typhoon mudou de nome para "severa tempestade tropical". Apenas forte vendaval, enchente, mar em ressaca e deslizamento de terra. Ah tá, então tudo certo.

No exato momento chove um pouco, troveja um pouco, venta bastamte. O Bilis está previsto para atingir com força total esta noite e na manhã da sexta-feira.

Escrito a mão pela Marcia às 3:31 AM | mais em M&M in Taiwan

julho 10, 2006

Random thoughts

Três meses e uma semana aqui em Kaohsiung, Taiwan. Neste mesmo tempo na África do Sul nós já tínhamos voltado pra casa exaustos. No entanto, em Taiwan ainda parece que acabamos de chegar. Talvez porque mudamos tantas vezes, só agora é que parece que finalmente estamos mais acomodados numa rotina. E talvez porque também não estamos sentindo a menor vontade de voltar pra casa. Ainda.

Quando mudamos para este apartamento, eu não estava muito satisfeita porque é bem menor do que o outro em que estávamos. Mas agora passadas algumas semanas, percebo que é muito, muito melhor. O chuveiro é decente, a água quente é constante e forte, o banheiro em si é muito mais espaçoso. O apartamento inteiro é bem iluminado, a vista daqui de cima é linda, os donos compraram um colchão excelente novinho pra nós. Compraram também nova cortina para deixar o quarto mais escuro e agora estamos dormindo com muito mais conforto e sossego. O andar inteiro é silencioso e acima de nós só a chuva faz barulho.

Descobrimos um canal que está passando Smallville (Season 5) e para o nosso delírio, encontramos esse canal no episódio que havíamos parado de ver na Inglaterra e agora estamos acompanhando na seqüência diariamente. Tem sido ótimo porque estávamos ansiosíssimos para saber o que havia acontecido depois do centésimo episódio da série.

Quase não vemos muita TV aqui, aliás. Além dos canais de filme que passam pouca coisa nova, temos só uns três ou quatro canais de variedades e notícias, que nem sempre são interessantes. O resto é tudo em chinês e a NHK em japonês.

Sinto falta dos programas ingleses, principalmente de dar risada com Catherine Tate, Have I Got News for You, Never Mind the Buzzcocks, Jonathan Ross, entre muitos outros. Se soubéssemos do Slingbox um pouco antes, teríamos comprado e configurado, mas no nosso apartamento na Inglaterra cancelamos todos os serviços de TV, telefone, internet, tudo.

Falando ainda em TV, não acompanhamos a nenhum jogo da Copa. Só lia as manchetes no dia seguinte e via quem ganhou, quem perdeu. Não que a gente não ligue (na verdade não ligamos mesmo, nenhum de nós dois gosta de futebol), mas a principal razão é que os jogos eram todos transmitidos depois da meia-noite aqui. E o país inteiro também parece que não estava muito interessado na Copa (Taiwan perdeu nas eliminatórias com 3 gols favoráveis e erm... 26 gols desfavoráveis), dificilmente se via alguma propaganda a respeito. Só nos bares, tentando atrair o bando de expats.

Mais um typhoon passou raspando por aqui, trazendo tempestades fortíssimas, mas sem destruição. Outro typhoon vêm se aproximando e a sua rota está voltada diretamente para Taiwan. A previsão é de atingir a ilha na quinta-feira. Ainda é cedo para saber a intensidade, precisamos acompanhar nos noticiários. Um dos colegas do Martin passou por um forte typhoon no ano passado aqui em Taiwan e teve que ficar em casa por três dias sem sair pra absolutamente nada, até tudo passar. Por isso que precisamos acompanhar a cada dia a evolução e a rota do typhoon. Se for certo que vai atingir o país inteiro e a força dos ventos é muito perigosa, então um dia antes precisamos estocar galões de água (água da torneira não é potável) e comida para não precisar sair de casa no meio do furacão. Pelo menos dá tempo de se preparar sem pânico.

Ah, antes que eu me esqueça: o blog está com os comentários fechados. Meu servidor avisou que há um buraco no script dos comentários e uns hackers estavam tentando explorar essa brecha para inundar com spam. Desabilitamos o script, instalei uns plugins mas por enquanto os comentários vão precisar ficar fora do ar. O tempo realmente pesa diferente nas mãos de uns do que de outros. Tsc.

Update: Comentários de volta agora com um bom plugin que verifica se você é humano ou idiot-robot, que deve resolver o problema.

Escrito a mão pela Marcia às 6:44 AM | mais em M&M in Taiwan

julho 4, 2006

Lo Bak Ko, the Turnip Cake

Para não dar a errada idéia de que aqui em Taiwan só tem comidas estranhas e rastejantes, apresento-lhes um dos pratos mais adorados em restaurantes de Dim Sum do mundo todo: Lo Bak Ko, o mais delicioso e delicado bolinho de nabo.

Comi pela primeira vez no restaurante que a Jo nos levou, mas nem sabia o que era, só sabia que tinha gostado bastante. A Jo havia dito o nome mas eu não tinha entendido e sequer sabia como soletrar em Chinês. Procurei e vasculhei toda a Internet e por dias não consegui encontrar. Mas finalmente minha busca foi recompensada e hoje sei o nome, a receita e título de eleitor do dito cujo.

A preparação dele é simples: nabo ralado misturado com farinha de arroz, caldo de cogumelos, de porco ou de camarão, temperos e tal. É cozido por uma hora no vapor até endurecer e depois de frio é cortado em quadradinhos e fritos na grelha. E o resto é história. Crocante por fora, muito cremoso por dentro, sabor bem suave, nem bem se sente o gosto do nabo, na verdade. Se você, leitor faminto, tiver a oportunidade de ir a um dos milhares restaurantes Dim Sum verdadeiros espalhados no mundo, não perca a chance de pedir uma porção de Lo Bak Ko. Este eu recomendo sem hesitar porque é o dim sum mais popular entre ocidentais e crianças.

Como eu não tenho instrumentos suficientes nesta minha micro-cozinha para fazer a receita, comprei um pacote de Lo Bak Ko no supermercado mesmo, pronto para fritar. Não é tão bom como os preparados na hora, mas ainda assim... mmmm!

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Oh sim, não fui eu quem comprou esse prato nessa cor horrorosa, pavorosa, que assusta qualquer comida. Preciso ir comprar pratos brancos urgentemente.

Escrito a mão pela Marcia às 5:37 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(6)