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Kyushoku

Taiwan tem muitas influências de seus países vizinhos. Boas e más, mas outro dia falo das más porque preciso usar muitos neurônios e no momento o estoque está às moscas. E da parte boa, muita coisa vem da cultura japonesa, deixada aqui após a invasão nipônica que durou 51 anos (1894-1945).

Entre tantos aspectos intelectualmente e culturalmente fascinantes, meu cérebro só conseguiu registrar um, obviamente porque diz respeito à alimentação. Mais especificamente, diz respeito ao sistema de merenda escolar, que no Japão é chamada de kyushoku. E Taiwan adota o mesmo método em algumas de suas escolas.

Pois bem, mas o que existe de diferente nesse sistema, você leitor, que já não tem merenda escolar há pelo menos duas décadas, me pergunta. Então eu lhe respondo caro leitor ancião: é muito, mas muito diferente de qualquer sistema de refeição escolar ocidental. A filosofia que involve é totalmente diferente.

A começar pelo fato que eles não relacionam a merenda escolar como um "intervalo" para estudantes e professores se verem livres um dos outros e fazerem o que bem entendem. Não. E a comida não é para encher a barriga e aplacar a fome, encher o vazio. Não. A hora da refeição nas escolas é como qualquer outra atividade curricular e é levada com o mesmo respeito que qualquer outra disciplina. É a hora da educação alimentar, é a hora em que a escola se esmera para ensinar o que é uma alimentação balanceada. É um assunto tão sério, que cada cidade no Japão tem suas secretarias políticas que coordenam todo o processo, de nutrientes à procedência dos ingredientes.

Escolas que usam esse sistema kyushoku cobram taxas diárias (mais ou menos US$1.85) pelas refeições. Todas as crianças de cada cidade comem a mesma refeição, sejam ricos ou pobres. E todos os pais recebem uma cópia do menu que lista as quantidades, calorias, proteínas, ingredientes e formas de preparo de cada item. Crianças alérgicas recebem lanches sem o produto que causa reação ou então, em casos mais graves, podem levar seus próprios lanches feitos em casa. Vegetarianos também. Uma vez por ano os pais são convidados a experimentar uma amostra do que vai ser servido aos alunos e são também informados sobre como os menus são decididos, como as cozinhas funcionam e tudo mais.

Um exemplo de um menu típico de uma semana na cidade de Yokohama é:

SEGUNDA -- pão, leite, bolinho de peixe, ensopado com porco, batata, nabo, cenoura e espinafre, gelatina de pêssego e suco 100% natural.

TERÇA -- arroz branco, leite, tofu com porco, salada chinesa com broto de feijão, pepino, cenoura e amendoim, laranja de sobremesa.

QUARTA -- pão com passas, leite, macarrão bolognesa com cebola, cenoura, salsão e cogumelos, salada de nabo, pepino e cenoura, maçã de sobremesa.

QUINTA -- arroz branco, leite, sukiyaki com carne, tofu e vegetais, sobremesa de ougiage, que eu não sei o que é.

SEXTA -- leite, sanduíche de ovo com maionese, sopa de vegetais com porco, bacon, batata, repolho, cebola e cenoura, sorvete de sobremesa.

Daí vem a parte interessante. As crianças comem suas refeições na sala de aula, em suas próprias carteiras. Geralmente duas ou três crianças vão até o refeitório e trazem o carrinho com as merendas, as bandejas e talheres. As mesmas crianças, vestidas de aventais, luvas e máscaras, servem todos os seus colegas. E então quando todos foram servidos e estão em suas carteiras prontas para começarem a comer, as crianças juntam as palmas de suas mãos, fazem uma reverência e dizem bem alto "Itadakimasu", que em japonês quer dizer algo como "eu agradeço e aceito o que me foi servido". E comem. Crianças que geralmente não comem isto ou aquilo em casa, na escola, vendo os outros colegas comendo, acabam comendo também. A magia de se comer em grupo.

Elas não são obrigadas a comer tudo, comem o que querem, deixam o que não querem, ninguém força absolutamente nada, ao contrário do que acontecia no passado. Porém, as crianças mais novinhas do primário, se não comerem tudo, precisam levar suas bandejas para a professora ver se elas comeram o suficiente ou não. A professora então pode encorajar a criança a comer mais um ou dois items da refeição ou então decidir que sim, ela comeu o suficiente.

Quando todos terminam, as mesmas três crianças que trouxeram a refeição recolhem tudo e levam para o refeitório. Quando elas voltam pra sala de aulas, todos os colegas levantam e reverenciam dizendo bem alto "Gochisousama" que ao mesmo tempo quer dizer "foi uma grande fartura" pela refeição e também é uma forma de agradecer aos três coleguinhas que fizeram todo o trabalho de distribuição. No outro dia outras crianças são convocadas para fazer o mesmo trabalho, sucessivamente. Com isso, a escola busca ensinar que ninguém está acima desse tipo de serviço e que eles devem sempre, sempre ser muito agradecidos a quem lhe serve.

Mas ainda não terminou. As crianças agora partem para os lavatórios, todas escovam os dentes. E então chega o momento de limpar a escola. De lenço na cabeça, eles limpam desde os corredores aos banheiros (com exceção dos vasos sanitários que precisam usar desinfetantes considerados perigosos para crianças), com ajuda de todos os professores e alguns pais que queiram participar. É parte da mesma educação e disciplina de cuidar de seu ambiente e nunca esperar que alguém menos privilegiado faça por você.

Então aí estão todas as diferenças das merendas escolares que alguns países asiáticos adotam. Algumas escrevi explicitamente, outras você mesmo pode deduzir. O que as crianças aprendem nesse sistema vai muito além do que aparece em suas bandejas. Senso de comunidade, de nutrição, de gentileza, de gratidão, de cidadania. E muito, muito mais. Não se trata simplesmente de uma refeição e é isso que muitos países ocidentais sequer conseguem entender. A refeição é apenas o começo de toda a educação. Jamais consigo imaginar tal sistema ser aplicado em países como Inglaterra e EUA, onde um bando de pais estariam processando a escola (o quê? limpar o banheiro? meu filho, não!). Cada um com seu cada qual, não é um sistema para todas as culturas mesmo. Mas funciona e funciona muito bem para países como Japão e Taiwan. Chega a ser bem bonito de se ver, na verdade.

Neste link aqui você pode ver um dia típico de uma escola de ensino elementar. E neste outro link, as crianças sendo servidas pelos seus coleguinhas. Nem todas as escolas no Japão adotam o kyushoku, em muitas delas as crianças levam seus próprios almoços feitos em casa, mas nunca deixam de ser refeições balanceadas, chamadas de obentô. Mas isso é imenso assunto para outro post.


16 Comentários

Quando eu fazia científico, lá no século passado, a minha escola tinha um rodízio de alunos para limpar a sala de aula no fim do dia. um varria, outro apagava o quadro negro e mais um ajeitava a posição das bancas. isso era determinado pelo número da chamada. eu não me lembro de nenhum pai ou mãe reclamando do filho ajudar na faxina...

Vc é simplesmente maravilhosa na arte de ensinar coisas que, se vc não falasse, eu jamais saberia. Faz parte da minha leitura diária e nem imagina isso... Tb já cansou de ouvir elogios assim e eu sei bem, alguns eu até li... mesmo assim faço questão de dizer: espero um livro seu pra contar todas essas histórias pra meus filhotinhos, pq é muita coisa, muito papel e muita tinta pra imprimir aqui na minha impressora...rsss. Amo! (desculpe se fui invasiva demais). Bjoca!

Oi, fui professora durante 12 e quanta sala de aula eu limpei por não ter faxineiras na escola, e quanta briga eu arrumei com alunos que jogavam papel no chão, mas se a gente pedisse para o individo varrer o chão era capaz de alguma mãe dar um safanão em mim.
Bjs
Irma

Adorei o sistema, em especial a valorização do alimento, do trabalho, da gentileza em servir e a retribuição de quem foi servido.
Imagine algo assim aqui? Não rola. Nem mesmo nas escolas dos bairros mais pobres. Eu lembro da minha empregada, a dona Luisa, que contava que as vizinhas dela a chamavam de piniqueira, porque ela trabalhava como doméstica. Pessoas que mal tinham o que comer, mas que preferiam denegrir o trabalho dela. Imagine se os filhos dessas pessoas tivessem de servir os amiguinhos no colégio? Capaz de no dia seguinte o pai aparecer armado e matar a diretora.

Oi Marcinha, isso eh que eh licao de vida. Eu sempre respeitei culturas diferentes da minha, mas sempre tive uma paixao especial pela cultura japonesa, eles sao tao sabios e o melhor de tudo eh que eles nao saem por ai aclamando para os quatro cantos do mundo o que eles sao e que todo mundo os deve seguir. Nao como os Estados Unidos que nao sabem o que fazer pra todo o mundo se igualar a eles. Tomara que isso nao aconteca nunca!

Que fantástico, que ~escola de vida!
Concordo com você, não imagino esse método sendo usado nas escolas brasileiras...
Adoro seus posts.
Beijo pra você,querida.

genial, Marcinha.
:-)
beijos!!!

Marcinha, eu achei este texto absolutamente fantástico. E, confesso, estou boquiaberta de tão encantada, mas também de tão surpresa. Muito legal eles ensinarem pras crianças o valor da nutrição, do trabalho, da gentileza, do servir e do ser servido, do senso de comunidade, de gratidão, da igualdade, da responsabilidade pelo ambiente, tudo, tudo. Agora eu acho assim, podia funcionar em outras sociedades sim. Claro que a princípio rolariam dificuldades e resistências, mas não é sempre assim? Não foi sempre assim com todas as mudanças e conquistas da história da humanidade? Lembrou-me de um intercambista norueguês q tivemos aqui em casa. A faxineira lavando a louça e ele ensandecido enxugando, ela varrendo a sala e ele aspirando outros cômodos, e atitudes do gênero. Claro q ele não revolucionou em 100% o nosso melhor estilo "Casa Grande e Senzala" brasileiro. Mas até hoje (depois da vinda dele!) faço minha cama, lavo louça, troco jornal sujo dos bichos e coisas do gênero, *inclusive* nos três dias q temos ou faxineira ou lavadeira. Aos poucos e com a abordagem correta, até os mais arrogantes e mimados podem sim evoluir. Falei de cátedra, viu? ;)
457 bisous!
E parabéns pelo blog, q quando eu penso q já não tem mais como melhorar... Bufo! Você volta aqui e me surpreende.

Parabéns pelo blog! Continua com o excelente trabalho!

Oi Márcia! Faz muito tempo que vc está por aí? Imagino a riqueza de experiência que deve ser morar em um país tão oposto ao nosso. E difícil tbém... ;o)
Fora esse post, que eu achei fantástico e com o qual aprendi muito, tbém li que vc gosta de fotografia (nem achei que as fotos ficaram ruins!). Tbém amo fotografia, mas sou amadora do amador. Qual câmera vc usa? Abraço da terrinha!

Levanto-me e aplaudo o sistema de organizacao do sistema escolar que vc mencionou Marcia. Que exemplo, achei o maximo, excelente, ensina as criancas muito mais do q disciplina escolares, ensina as criancas a se tornarem pessoas decentes, uma licao p/ levar consigo p/ o resto da vida.
Adorei seu post, gosto muito mesmo do seu blog Marcia, parabens!
Ana

Acho que tem a ver com a filosofia budista.

marcinha, fui lá no blog da Fal e quase rolei de rir com a novela. Mas a coisa melhor mesmo foi aquele cachorro chupando chupeta, que coisica mais linda!!!

Adorei seu blog,achei simplismente o máximo!

Espero ler mais coisas sobre algima comida típik daí.

Beijos e até mais...

Esqueci de dizer que sou de maceió em alagoas.

ano que vem vou dá uma passada por aí no japão, estarei participando do word skills um capeonato de profissões onde irei representando o BRASIL na ocupação de confeitaria pois já participei este ano em março em um capeonato a nível nacional e fui a 1º colocada.

Beijos...seu blog é tudo de bom..