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M&M in Tokyo: Day 2

Acordamos bem cedinho na segunda-feira, nos arrumamos, pedimos informações pro concierge (outra grande vantagem de ter ficado num hotel) e saímos pouco antes das sete da manhã. Nosso destino: Tsukiji Fish Market.

Não, não é um lugar turístico. Mas um paraíso para foodies e amantes de tudo o que se relaciona a comida. Tsukiji Fish Market é um dos maiores mercados atacadistas de peixes e frutos do mar de todo mundo, comercializando mais de 2.000 toneladas de produtos marinos por dia. É de lá que vem os produtos mais frescos e de melhor qualidade para os restaurantes mais consagrados de Tokyo. Às cinco da manhã acontece o famoso leilão de atum, onde cada peixe é minuciosamente analisado, depois disputado em lances altíssimos e futuramente vendidos a restaurantes de grande prestígio. Nós não assistimos ao leilão porque agora é área restrita, turistas atrapalham na negociação que não demora mais que cinco minutos.

Tsukiji Fish Market & Tuna Fishes (Atum) from the auction
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O primeiro detalhe que nos impressionou assim que chegamos em Tsukiji Fish Market foi a ausência do cheiro forte de peixe. Estávamos num mercado de peixes, esperávamos sentir o cheiro de longe, mas incrivelmente o mercado tem apenas um leve aroma de frutos do mar. E a explicação é simples: mesmo com todo o comércio frenético que acontece nos galpões, tudo é lavado a cada instante. O chão do mercado é todo molhado (não vá com seu melhor sapato) por conta das centenas de bancas lavando seus utensílios, facas, bancadas e chão o tempo todo. Nada fica sujo, nada fica exposto fora do gelo. E principalmente, tudo é vendido rapidamente e o mercado fecha às nove da manhã, antes que o sol comece a esquentar.

Vimos várias espécies de frutos do mar que jamais tínhamos visto na vida. E aqui em Taiwan é comum ver muitos frutos estranhíssimos nos supermercados. Vários tipos de ostras e outros seres que vivem em conchas, carangueijos diversos, peixes de todos os tamanhos e cores possíveis, muita lula e polvo de diferentes espécies. O mercado tem também um tráfego intenso de empilhadoras, motocicletas e mini-caminhonetes que carregam caixas e caixas de produtos por todo canto. É infinitamente impressindível que turistas não atrapalhem o trânsito e o tempo todo ficávamos alerta olhando para trás e pros lados para ver se não estávamos no meio do caminho. Ficamos absolutamente surpresos de ver tanta variedade, tantas cores, tantos novos animais marinhos, tanto comércio acontecendo nas horas mais calmas da capital.

Octopus (Polvo) & Unknown Shelled Creature (Criatura Desconhecida)
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Big Eyed Red Fishes (Peixe vermelho de olhão) & Mr.King Crab (Super gigantes carangueijos)
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Em uma das bancas que vendia atum, ficamos num canto e assistimos à negociacão entre vendedores, dois chefs e um dono de restaurante. Eles mostavam pedaços enormes de atum (nunca imaginei que atum fosse tão tão grande, são imensos, parecem tubarões), explicando vários detalhes. Quando finalmente os chefs decidiram por tal e tal pedaço, os vendedores então começaram um coreografado plano de ação. Dois deles trouxeram o pedaço inteiro para a tábua, um deles chegou com uma faca tão longa que a lâmina tinha pelo menos um metro de comprimeito. O peixe estava fresco e bem gelado, mas não congelado. Dois vendedores seguravam cada ponta do pedação de atum, enquanto outros dois estudavam aonde seria feito o corte. A faca sobe ao ar e num movimento suave e único, a faca desliza pra frente, desde a ponta da lâmina até o meio da faca. Então a ponta da faca aponta para cima e o moço coloca toda sua força com os braços tremendo para baixar o resto da lâmina até a tábua. E o pedaço desejado é cortado, sem machucar ou rasgar nenhum canto, nenhuma fibra do peixe. O corte é tão perfeito que parece ter sido feito a laser. Outros dois funcionários entram em cena para guardar o pedaço que não foi vendido e outros três vêm cuidar do pedaço vendido com o maior cuidado do mundo: usam lenços para limpar a umidade, transferem para a balança, conferem com o cliente, depois mudam para outra mesa onde embalam o pedaço de atum, não sem antes colocar camadas de espuma nos cantos para proteger contra eventuais amassos. Embalam feito presente, amarram com fita de palha, envolvem tudo num saco plástico e literalmente sugam todo o ar para fora antes de lacrar o pacote. Finalmente entregam o produto ao cliente com várias grandes reverências e agradecimentos.

Fish sellers taking great care while handling the tuna pieces (Vendedores tomando o maior cuidado para manusear os pedaços de atum)
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E só então percebemos porque os melhores sushis e sashimis da cidade custam o preço que custam. Só em Tsukiji Market é que damos conta da procedência dos peixes, da qualidade rigidamente controlada, do cuidado com a carne, da experiência no corte, de tudo o que envolve para prover o melhor e e mais fino produto que um restaurante que preza sua reputação pode desejar. E quem é que não tem curiosidade, depois de assistir a esse maravilhoso espetáculo, de provar o que há de tão especial nesses peixes disputados a caríssimos lances, antes mesmo do sol nascer? Certamente nós éramos dois deles que estávam mais do que ansiosos para experimentar fatias desse atum. É uma tradição dos foodies que vão ao Tsukiji Market terminar a visita com um café da manhã num dos celebrados sushi bars ao redor do mercado. Não, não é para fracos. São pequeninas casas bem apertadas, com um balcão, umas oito cadeiras na frente desse balcão e uma parede bem atrás dessas cadeiras. Nada mais. Filas se formam para entrar, todos esperam pacientes do lado de fora pela sua vez.

Queue to get into a sushi bar (Fila para entrar num dos sushi bars)
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Escolhemos o Daiwa Sushi, que junto com o Sushi Dai é um dos mais famosos de Tsukuji. Ficamos na fila por uns 20 minutos e a toda hora a obaasan vestida de avental vinha "dar bronca" porque a fila estava torta. Quando estávamos perto de sermos atendidos ela pediu para as duas mulheres na nossa frente entrarem. As mulheres disseram que precisavam que quatro lugares porque os maridos estavam perambulando pelo mercado e iriam vir logo. Oooohhh, big mistake. A obaasan deu a maior bronca, mandou elas irem embora, apontou pro aviso que dizia que não era permitido guardar lugar na fila. Todo mundo na fila deu risada com a irritação da obaasan. Nós éramos os próximos, ela nos chamou e eu falei: "futari teburu de onegaishimas" (mesa pra dois, por favor). Ela logo sorriu e disse "Hay, dozo".

No Daiwa havia três sushimen, sentamos na ponta e um deles sorriu e perguntou o que queríamos. Não havia menu com fotos, nem muito menos em inglês, aliás não havia menu nenhum. Falei que sabia falar só um pouquinho de japonês e perguntei o que ele sugeria ("nihongo ga sukoshi hanasemas, doko ga o susumedeska?"). E ele respondeu que sugeria "sushi seto" (sushi set, um de cada sushi). Concordamos. Recebemos chá quentinho, sopa missô, wasabi e genbibre. E o chef começou a preparar nossos sushis e a nos servir. O primeiro foi de nigiri sushi (arroz com uma fatia de peixe por cima) de atum. Oh Lord. Oh my. Nunca na minha vida havia provado sushi como aquele. Imediatamente nós dois suspiramos "Hummmm..." de tão boa era a sensação do atum dissolvendo na língua e fizemos o chef dar risada. Newbies...

Daiwa Sushi Bar, photo from Wikitravel
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Outros igualmente deliciosos nigiri sushis seguiram: atum toro (parte da barriga), salmão, mackerel, camarão, enguia, polvo. Em seguida fomos servidos de gunkansushis (pequenos "copos" de alga por fora, arroz no fundo e ovas por cima) de ikura (ovas de salmão), de uni (ovas de ouriço), e dois tekkamaki (mini sushis) de ainda mais atum e dois de ikura. No final eu não consegui comer tudo. Deixei o omelete, dois tekkamakis de ikura (não gostei desses...) e um mini sushi de atum. Martin também deixou os de ovas e o omelete e nem tocou na sopa de missô. Agradecemos ao gentilíssimo sushiman, que deu uma olhada no que deixamos de comer, apontou pros nossos restos e disse "Ah! Ah!" com ar de desaprovação como se fosse dar bronca. Eu apontei pra minha barriga e enchi minhas bochechas de ar pra mostrar pra ele que estava estufadíssima (eu sei falar "onaka ga ipai" mas fiquei com vergonha de falar porque é gíria). Ele riu e abriu um sorriso mostrando que estava brincando, reverenciou e agradeceu. Reverenciamos de volta, pagamos (aliás foi uma das refeições mais caras que fizemos, uma das melhores também), agradecemos à obaasan e deixamos o Tsukiji Fish Market. Ainda eram dez e meia da manhã.

Pheew... chegarei eu ao final do relato das férias?


7 Comentários

Como adoro ler seus posts, minha amiga!!!
Que orgulho de você pelo mundo!!!

grande beijo,
Lu ;c)

Marcinha,

Adoro viajar com você pelo mundo! Você descreve tudo tão bem que chego a sentir a atmosfera do local, ouvir os sons...
Não sei se eu seria capaz de comer sushi de manhã cedo, mas deve ter sido mesmo uma experiência e tanto.
bjs

Eu tenho muita vontade de visitar o Japão, e eu amo sushi. Comer a versão original e ainda ter visto de onde vêm o peixe deve ter sido ótimo. Eu adoro visitar os mercados locais para ter um feeling dos hábitos alimentares locais. Enqunto isso tenho que me contentar com a versão holandesa de sushi, que também inclui dim sum, hahaha! Vou passando por aqui quando dá para ler o resto. Bjs,

Ah sim, MAC é meu vício, mas é uma linha de qualidade 10. E os cabelereiros daí é que devem entender bem do seu cabelo. Pelo que eu vi da foto, ficou legal!

Não precisa ter pressa pra terminar de contar a viagem... assim dá pra saborear melhor os seus posts!

Hummmmmmm, estou sentindo o gosto daqui!!!!!!!!!!

Deve ser muuuito bom.

Sabe o que é o melhor de ler seus textos? Eu, que (com todo respeito) odeio comida japonesa (apesar das várias empreitadas que já fiz), fiquei com água na boa só de vc descrever a aventura de vcs comendo no sushi bar! ahahaha

Pode isso?

Beijinhos

P.S.: é a primeira vez que escrevo aqui... rsss