novembro 21, 2006

I Predict a Riot

Às vezes me pergunto por quê, neste mundo liderado pela infame guerra do Bem contra o Mal, nenhuma ação é feita a respeito do atual governo chinês. Mas esta pergunta dura apenas um segundo e meio porque a resposta é clara: a China não tem petróleo. E por essa simples razão, as atrocidades cometidas pelo partido comunista chinês continuam acontecendo explicitamente, sem que ninguém faça nenhum esforço para mudar a situação.

Em países ocidentais, raramente lemos ou ouvimos notícias sobre essa verdadeira crise asiática. O Ocidente, quando muito, se preocupa com a Gripe Aviária como se essa sim fosse uma ameaça asiática à humanidade. Muitos sequer tem idéia do que vem acontecendo neste canto do mundo.

Porém, em Taiwan, onde a população luta para ter sua soberania e liberdade, as notícias são mais intensas e constantes, mesmo sofrendo censura. Aqui, o tempo todo percebemos que o pior ainda está por vir e acontecer. Para quem não tem idéia do que eu estou falando, listarei aqui alguns fatos:

1. Censura e Tortura - Em país com governo comunista, nada é divulgado sem a aprovação do censo. Jornalistas, políticos, escritores, intelectuais e estudantes que ousam escrever sobre democracia e liberdade são perseguidos, presos, torturados e jogados em campos de concentração. Que ninguém se esqueça do massacre em Tiananmen Square, quando o povo chinês saiu às ruas para protestar contra o opressivo governo e o exército abriu fogo contra eles, utilizando atiradores automáticos e tanques de guerra. Que ninguém se esqueça do solitário protestante, conhecido como Unknown Rebel, que enfrentou sozinho o avanço dos tanques de guerra que estavam a caminho da praça. Segundo a Cruz Vermelha, mais de 2.600 civis morreram no massacre e mais de 10.000 ficaram seriamente feridos. O paradeiro do solitário protestante é desconhecido, uns dizem que ele foi executado poucos dias depois, outros, que ele atualmente mora em Taiwan.

Milhares de protestantes como esses foram confinados em condições similares a dos campos nazistas. São esses o tipo de presidiários chineses, os que ousaram a lutar pela democracia, não são criminosos ou assassinos. São os mesmos presidiários que são forçados a trabalhar de graça, produzindo todo tipo de bugiganga para exportação. Da próxima vez que você encontrar brinquedinhos fajutos e baratos Made in China, lembre-se deles. Nem tudo que é barato e chinês vem do trabalho de presidiários, mas sim da política de subsídios que deixa tudo a preços muito baixos, mas ainda assim muitos produtos vêm desse trabalho escravo, então lembre-se deles. Lembre-se dos presidiários de pele cinza, ossos à mostra, desesperança nos olhos, sacos de ossos à espera da dolorosa morte por tortura.

Ainda sobre a censura, sites como Yahoo e Google estão o tempo todo sob vigília e são proibidos de exibir qualquer resultado para busca de palavaras-chaves como "democracia", "Tiananmen Square", "Dalai Lama" e "Falun Gong" que incitem o povo a se manifestar contra o governo. O Google, aliás, foi duramente acusado de ajudar o governo chinês a perseguir sites e seus webmasters, shame on you.

Por último e não menos importante, Movable Type e Blogspot também são domínios bloqueados. Livros e filmes com idéias "subversivas" são também proibidos. DaVinci's Code? Brokeback Mountain? Memoirs of Geisha? Tomb Raider?!?! You must be joking, tudo banido dos cinemas.

2. Religião - Durante a visita do presidente Hu Jintao na Casa Branca, houve um incidente que saiu em todos os noticiários. Antes de executar o hino nacional, uma mulher, jornalista do The Epoch Times, subiu na área onde os cinegrafistas estavam e fez seu protesto em chinês dirigido aos presidentes que estavam a postos. Ela pedia para Bush fazer o presidente Jintao parar com a perseguição contra os religiosos da seita Falun Gong. Em Hong Kong, vimos um enorme grupo dessa seita fazendo um protesto com fotos dos presos religiosos sendo torturados, algo que jamais terei capacidade de descrever. Bush pediu desculpas à Jintao pelo incidente e a jornalista foi processada. Way to go... Da mesma forma, centenas de católicos, tibetanos, monges e freiras foram presos por causa de suas lealdades ao Papa ou Dalai Lama.

3. Tibet - A China invadiu, matou muitas centenas de civis e militares tibetanos, forçando o Dalai Lama Tenzin Gyatso a pedir asilo político à India para que seu povo fosse poupado. A China tomou posse do país, tirou os tibetanos de seus empregos, instituiu o chinês como língua oficial, proibiu que a bandeira do Tibet fosse usada, assim como seu hino nacional. Tibet agora é parte da China, que agora também elegeu seu próprio Dalai Lama, desrespeitando toda tradição sobre reencarnação que reje a escolha do mesmo.

4. Taiwan - Sobre isso eu já contei aqui. Taiwan luta por sua independência e liberdade de expressão, enquanto que a China insiste em lembrar que o país é parte de seu território. Para reforçar esse lembrete, mais de 800 mísseis estão voltados para Taiwan.

5. India - No momento o presidente chinês Hu Jintao está em visita à India, então é capaz de sair uma ou duas notas nos noticiários ocidentais. A China invadiu e entrou em guerra contra a India para ter o controle do estado Arunachal Pradesh, ferida aberta e dolorida na história dos indianos.

6. Arsenal Nuclear - A China mantém laços próximos com o Irã. E de lá que a China compra petróleo e é de lá também que vem o interesse do governo chinês em armas nucleares. Da mesma forma, a China também mantém laços com a Córeia do Norte e Paquistão. Se você achava até agora que nada disso que a China vem fazendo afeta seu rabo, agora você pode começar a se preocupar.

7. Aquecimento Global - A China é hoje o segundo maior poluidor do mundo, em emissão de CO2. E o governo planeja para os próximos anos, a abertura de centenas de usinas de energia que utilizam a queima de carvão. Mesmo que o Reino Unido inteiro pare completamente de produzir CO2, os níveis mundiais de poluentes continuarão aumentando por conta do progresso industrial chinês. Existem esforços na China para conter a poluição, mas como em qualquer país, mesmo o Brasil, os interesses pelo meio ambiente sempre são atropelados pelo interesse governamentais e financeiros.

Admiro o povo chinês, admiro sua cultura, sua história, sua arte, suas glórias. Admiro o senso de comunidade, de família, de hospitalidade. Há muitos outros aspectos admiráveis na China e principalmente entre chineses. Os fatos listados aqui não devem em nenhum momento mudar o conceito desse grande país. Porque os fatos listados são criados e executados por pequenos e poderosos grupos, que infelizmente estão no poder atualmente. E eles não são tão diferentes dos outros poderosos grupos que outrora fizeram as mesmas atrocidades em outras terras, EUA e Inglaterra incluídos. E eu não consigo imaginar nenhuma mudança, não consigo ver a história da China mudar de rumo. O incidente de Tiananmen Square aconteceu há vinte anos, desde então nada mudou no que diz respeito à liberdade e democracia. Talvez um dia isso mude, não sei como, não sei quando. Mas pelo povo chinês, tibetano, taiwanês e indiano, pelos meus amigos chineses que guardo no coração, eu espero que um dia a liberdade chegue.

Escrito a mão pela Marcia às 2:06 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(19)

novembro 6, 2006

Obentô

Alguns de vocês devem se lembrar quando falei aqui sobre o sistema de educação alimentar das escolas japoneses e taiwanesas, chamado de Kyushoku. Bacana, civilizado e tal. Porém, nem todas as escolas oferecem o mesmo sistema e muitas delas pedem para que os alunos tragam seus próprios lanches. E é nesta hora que entra o famoso obentô (ou bentô, mas é mais polido dizer obentô, i'm a lady), que nada mais é que uma refeição completa disposta dentro de um caixa. Apesar de ser usado nas refeições escolares, o obentô não é, no entanto, voltado exclusivamente para crianças, muito pelo contrário. A grande maioria dos adultos japoneses preparam e levam seus próprios obentôs para trabalhar, ir a escola, viajar, assistir a eventos esportivos.

Parece tão simples como fazer uma marmita e é, com a diferença de que no Japão, preparar um obentô é uma expressão artística.

Muitos japoneses acordam bem cedo, antes do sol nascer, para preparar os obentôs para a família, filhos ou para si mesmos, sempre seguindo as regras que o obentô precisa ser apetitoso, saudável e... fofíssimo. Sim, precisa ser kawaii, cute, bonitinho, coisa fofa. E para isso hoje existe um mercado imenso de acessórios para criar os obentôs de deixar qualquer ocidental totalmente perdido. A começar pelas próprias "caixas de obentô", que podem ser desde um simples Tupperware retângular, passando por formatos de personagens como Hello Kitty, Snoopy, Shinkansen, UltraSeven, AmpanMan entre muitos outros; há "caixas de obentô" térmicas, há outras empilháveis, há umas luxuosas, com vários compartimentos. E então há um mundo inteiro de cortadores, moldes, furadores, além de divisores coloridos, bandeirinhas, tubos para molhos, tudo o que puder adicionar fofurice na refeição.

O resultado? Obras como estas tiradas dos bento-blogs Cooking Cute e E-obento:


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Fonte: Cooking Cute



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Fonte: e-obento



Note que o conteúdo de um obentô não precisa ser necessariamente elaborado. A razão de um obentô equilibrado é de uma porção de proteína para duas porções de vegetais ou frutas (fibras e vitaminas) e três poções de arroz (ou outro carboidrato) . E nem sempre é preciso acordar no raiar da manhã, como muitos japoneses, para fazer seu obentô. Há vários sites e blogs sobre o assunto dando dicas de como planejar e não gastar muito tempo preparando. Geralmente é possível usar o que restou no jantar e pronto. Basta fazer uma porçãozinha a mais quando fizer o jantar, além de ter na geladeira, na despensa e no freezer algo fácil para incrementar a refeição (tomates cerejas, ovos, frutas, sopas).

Eu, que adoro todas as coisinhas em miniatura, sempre achei o obentô o ápice da apresentação de uma refeição. Formatos diferentes, alimentos com sorrisos e carinhas, flores de legumes, cores, diversão. Quando voltamos do Japão, Mr.M decidiu que queria levar seu próprio obentô pro trabalho porque ele já estava cansado dos sanduíches comunitários que os colegas dele fazem (um rodízio de sanduba de queijo, bacon ou spam *argh*). Fizemos um mini planejamento, comprei uns acessórios no Japão (hooray!!), compramos um novo bento box (por alguma razão desconhecida, Mr.M se recusa a usar o meu do Snoopy).


Cortadores de sanduíches em formato de animais. E mini-garrafinhas para colocar vinagrete, shoyu ou outro molho qualquer.
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Um potinho "apertável", excelente para colocar mostarda ou sour cream. E meus queridos Egg Molds, que deixam o ovo cozido no formato de um ursinho ou um coelho.
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E então há mais de um mês Mr.M tem se alimentado melhor durante o almoço e eu tenho me divertido na cozinha (apesar das limitações de equipamentos e espaço). Eis algumas de minhas primeiras criações:

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No começo eu estava empolgada e procurava encher cada espacinho do bento box com alguma coisinha diferente. Mas logo nos primeiros dias Mr.M me avisou que era comida demais ("way too much food") e que ele não conseguia comer tudo durante o almoço. Também sugeriu que eu não fizesse muitos ursinhos, florzinhas e sorrisinhos na comida dele. Rats... Então hoje o bento box dele não é tão recheado assim como nas fotos acima, cortamos a quantidade pela metade. O que vai no bento box dele é geralmente o que tivemos pro jantar. Embalo, espero esfriar e coloco tudo na geladeira. No escritório ele tem microondas e esquenta tudo. Mas não preparo obentôs diariamente. Muitas vezes ele prefere levar sanduíche que ele mesmo escolhe como fazer. O nosso preferido é um pedaço de baguete recheado de pesto, mussarella de búfala e tomates. Nham. E quando estamos ambos com preguiça vai um sanduba de atum com cenoura mesmo.

Achei que fosse perder o interesse dos obentôs com o tempo, mas tem sido prazeroso e na verdade me ajuda a pensar no que fazer pro jantar também. Começo a pensar nos três potinhos e no que vou colocar em cada um deles. O mais fácil é o de vegetais ou frutas, então já começo escolhendo esses primeiro. Depois penso na proteína e aí decido se faço arroz ou pasta. E pronto.

Nos últimos anos os obentôs começaram a ficar mais populares e o interesse pelas caixinhas criativas começou a atrair adeptos de todo mundo. Tem até sua própria TV. Mania ou não, enquanto o conteúdo respeitar a proporção de carboidratos, vegetais e proteínas, o obentô sempre vai ser uma fonte de alimentação equilibrada e saudável, muitas vezes ridiculamente, desavergonhadamente fofa ou algumas vezes doentemente estranhas.

Escrito a mão pela Marcia às 6:34 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(21)

novembro 1, 2006

Second Trip to Hong Kong

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Fomos à Hong Kong novamente. A razão dessas nossas curtas viagens para o continente chinês se dá pelo fato que Taiwan tem esta estranha e inconveniente política de que os vistos devem ser emitidos somente fora do país. Esta foi a segunda vez que precisei extender meu visto e por isso tivemos que ir até a vizinha Hong Kong. Martin tem o Alien Resident Card, então ele não precisa renovar vistos (aliens podem morar em Taiwan, mas eu não). Mesmo assim ele precisa ir comigo já que meu visto é Visitors Business (uma vez que eu o acompanho nesta viagem à trabalho) e preciso provar que ele existe e é meu marido.

Enfim, já sabíamos de tudo isso, a empresa paga as despesas de vôo, acomodação, taxas e tudo mais. Também já havíamos feito isso antes, em Junho. Desta vez, como já sabíamos aonde ir e como proceder, a empresa organizou pra partirmos a Hong Kong no domingo e nos aconselhou a fazer a renovação do visto na manhã da segunda-feira, pagando a taxa extra para ficar pronto no mesmo dia e, assim, voltaríamos no mesmo dia pra Taiwan e Martin perderia apenas um dia no trabalho.

OK, preenchi o formulário, conferi duas, três vezes se estava tudo certo, Martin checou também; revi os documentos necessários, passaportes, carta-convite da empresa, carta-convite de Taiwan, fotos, certificados de casamento, Alien Card do Martin, tudo certo.

Chegamos no domingo, sol forte, neblina de vapor, calor, claridade irritante. Estávamos com um colega do Martin que também teve que sair do país para ganhar outro visto de visitante, mas ele não precisava ir ao escritório de vistos como eu. Ele só precisa ficar mais uma semana em Taiwan, então só sair e entrar com um visto de turista servia. Levamos este colega, que estava em Hong Kong pela primeira vez, em alguns dos pontos turísticos, vimos a baía, o porto, os arranha-céus. Subimos no The Peak, o alto de uma montanha de onde se vê toda cidade, mas era um horário ingrato, cheio de turistas e visibilidade terrível, como dá pra perceber na foto acima. Almoçamos num restaurante quase italiano (estamos cansados de shoyu), comemos pizzas deliciosas na beira da baía, passeamos em Kowloon e no centro de Hong Kong. Levamos o colega de volta à estação (porque somos bacanas), demos entrada no hotel e saímos para jantar num restaurante fusion japonês. Comemos sushis e rolinhos inovadores excelentes. Seja lá quem foi que inventou de misturar salmão cru com abacate maduro tem todo meu respeito, oh joy, como adoro os "california sushis".

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Andamos na área Causeway Bay, que é lotada de gente e lojas. Não sei qual é o grande barato do famoso cruzamento de Shibuya (em Tokyo), quando o cruzamento de Causeway Bay na frente do Sogo é muito mais densamente populoso, muito mais cheio, muito mais confuso, muito mais desesperador. Fomos até o Food Hall do Times Square, compramos chocolate Valhona e sake. É, eu sei.

Dia seguinte acordamos bem cedo, tomamos café da manhã no hotel, conferi meus documentos, formulário, tudo certo. Pegamos o metrô, estava estranhamente calmo. Andamos pela rua, o trânsito estava calmo também. Entramos no prédio onde fica o escritório de vistos e logo na saída da escada rolante tinha dois guardinhas numa mesa, que perguntaram para onde estávamos nos dirigindo. Respondi sorridente que ia até o quadragésimo andar. E ele respondeu:

Moço guarda: Not possible. (Não é possível)
Eu: Hein?
Martin: Beg your pardon?
Moço guarda: Not opened today, national holiday (Não está aberto hoje, feriado nacional)
Eu: What...?
Martin: WHAT?!?!?
Moço guarda: Chinese holiday, open tomorrow, come tomorrow (Feriado chinês, abre só amanhã, venham amanhã)
Eu: well... ok, thank you very much.
Martin: WHAAAT?!?!?

Muitos, muitos outros ocidentais chegavam no prédio e recebiam a mesma notícia e faziam cara de perdidos como nós. A partir daí Martin teve uns minutos de pânico. Primeiro porque era feriado, obviamente, e não íamos conseguir fazer nada a respeito do visto. E segundo que teríamos que ficar mais um dia em Hong Kong e ele perderia mais um dia de trabalho. Talvez não fosse um problema se no momento ele não estivesse atravessando um período monstruoso no projeto, onde tudo tem dado errado. Para completar, dois especialistas foram contratados para chegar em Taiwan no dia seguinte só para ter reunião com o Martin. Depois de muitos telefonemas, a Jo mudou nossas passagens aéreas e reservou o mesmo hotel novamente. Ela geralmente sabe todos os feriados e nos avisa quando podemos ou não viajar, mas esse em particular ela não sabia.

Tivemos mais um dia livre, mas foi estranho. Martin estava preocupado e a todo momento os outros colegas ligavam pra ele tirando dúvidas. Obviamente que não queríamos ir pra Hong Kong Disneyland, atender ao celular e fazer os gerentes ouvirem "ele é o maior, viva o Mickey Mouse!" tocando ao fundo. É certo que não era nossa culpa, nem culpa de ninguém, só da China mesmo. Ficamos no centro, sem rumo, sem destino, sem muita empolgação para fazer nada turístico. Compramos cuecas, calcinhas e meias novas, que é só o que importa no final das contas.

Terça-feira, nosso humor já tinha melhorado. Acordamos ainda mais cedo, abrimos mão do café do hotel e fomos até um lugarzinho quase francês onde comemos croissants muito bem feitos, daqueles que formam uma teia por dentro, delicados, sem serem gordurosos e bem macios.

Chegamos no escritório de vistos antes de abrir e havia uma fila com cinco pessoas. Nos juntamos a eles, muitos outros se juntaram a nós e esperamos abrir. Assim que os funcionários chegaram, um guardinha nos guiou para pegar senhas. Todos com senhas e sentados, o guardinha veio distribuir os formulários de vistos. Todos os que estavam na minha frente, assim como os que estavam atrás de mim pegaram o formulário e começaram a preencher ali na hora. E eu fiquei com a minha cara abismada olhando praquele povo todo de cabeça abaixada preenchendo os campos. Pensei comigo, comassim??? Cêis vem aqui no escritório de vistos, sem formulário preenchido?? Jurapordeus que cêis conseguem fazer isso?? E como eu era a única com formulário preenchido e com todos documentos, fui a primeirona a ser atendida. A funcionária checou tudo, conferiu tudo, disse que tudo estava OK e que era para voltar depois das quatro da tarde para retirar meu passaporte.

Atrás de mim um povo já fazendo barulho e confusão porque não sabiam que precisavam disso e daquilo pra dar entrada no visto, gente saindo correndo para buscar documento, gente se descabelando. Antes de sair Martin comentou como é bom que às vezes vale a pena sermos organizados. Very true. Voltamos às quatro da tarde, meu passaporte já esperava com o visto prontinho.

Neste interim, Martin recebeu e fez dúzias de ligações para a empresa, conversou horas com os especialistas que esperavam por ele. E por causa disso, encontramos mais um "problema" para resolver. Como originalmente iríamos ficar apenas uma noite em Hong Kong, Martin trouxe só o celular dele (velho, caquético, da empresa), sem o carregador de bateria. A bateria estava cheia, porém, com tantos telefonemas recebidos e tantas explicações dadas, a bateria idosa logo começou a dar sinais de morte iminente. Precisávamos comprar um carregador de bateria, mas daí precisaríamos também encontrar algum lugar para conectar à energia e já havíamos feito o chekout do hotel de manhã.

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Diante das opções, ganhei um celular novinho, hooray!!! Veio com meia bateria carregada e o Martin pôde usar o SIM card dele e continuar trabalhando remotamente. No final tudo deu certo, voltamos pra Taiwan exaustos, depois de três longos dias. Tudo seria tão mais descomplicado se a gente pudesse simplesmente resolver o visto aqui mesmo em Taiwan... Mas "descomplicado" e "Taiwan" não são palavras que combinam entre si. Pelo menos por mais alguns meses ainda estou aqui legalmente.

Escrito a mão pela Marcia às 1:14 AM | mais em M&M in Hong Kong | Comente este fragmento(8)