dezembro 30, 2006

Our Christmas Do

Ok, chega de assuntos desastrosos.

Vou contar como foi nosso Natal. Martin trabalhou das sete às cinco, voltou pra casa com febre alta, tossindo, garganta pegando fogo. Jantamos sopa, ele foi dormir cheio de Paracetamol, eu assisti tevê e fui dormir em seguida. Tá, então esse Natal não conta.

Mas no sábado anterior, fizemos nossa festa de confraternização. Só entre nós aqui que estamos com contrato a longo termo. Foi bem bacana. Confraternização mesmo, no melhor sentido da palavra. Ao contrário daquelas festas forçadas das empresas, com discursos vazios, sorriso amarelos. Comemos bem, bebemos melhor ainda, demos risadas, brindamos várias vezes, por várias razões. Foi emocionante ver os colegas do Martin abraçando-o e dizendo "é um grande prazer trabalhar com você, Marty", sem estarem bêbados. Porque eles discutem todo dia, se desentendem, discordam um do outro, perdem a calma, brigam até por causa do chá que acabou e ninguém comprou. Mas no fundo, são competentes, pró-ativos, ninguém tem nada contra ninguém pessoalmente. E foi essa a essência da nossa festinha. Palavras sinceras, abraços, honestidade, nos sentimos tão bem!

Escolhemos o restaurante do hotel HiLai que costumávamos morar. Nós havíamos pesquisado antes e este era o que tinha o menu de Natal mais atraente. Além do que, os garçons já nos conhecem a um tempão, são sempre simpáticos e o lugar é agradável sem ser muito pomposo demais. Foi uma ótima escolha.

O primeiro curso foi de salmão norueguês marinado em dill, muito muito bom. Pãezinhos quentinhos assados na hora, irresistíveis. Eu estava faminta comi tudo e não tirei foto. O segundo curso foi de sopa de couve-flor com patê de fígado de ganso. Nhammm, cremosa, aveludada. Ainda estava faminta e comi tudo sem tirar foto outra vez. Rats.

Oh sim, a bebida, não esqueçamos. Ian, que é um gentleman, já havia organizado todas as bebidas e nos presenteou com uma garrafa de Moët & Chandon Brut Impèrial. Oh my good lord almighty! Que delícia, que coisa mais delicada, suave, elegante, fantástica. Fiquei apaixonadíssima. Amei, amei, amei. Pro resto do jantar foi servido um vinho branco um pouco maduro demais pro meu gosto, um leve cheiro de barril de carvalho. Ian disse que se eu quisesse poderia beber champagne com todos os cursos porque é uma ótima bebida que combina com tudo. E eu concordei e fui muito feliz. Mas meu vinho não foi desperdiçado, já que Mr.M se encarregou do sacrifício de esvaziar minha taça.


Enquanto esperávamos o próximo curso, uma grata surpresa. Um coral de meninas do primário entraram no restaurante e cantaram maravilhosamente afinadas várias canções de Natal. Terminaram desejando "Merry Christmas" com o melhor sorriso nos rostinhos. E eu fiquei com os olhos cheios d'água. Que graça.


O terceiro curso era salada de folhas verdes, nada especial, mas difícil de se ter em Taiwan. Chineses em geral gostam de verduras cozidas, quentinhas, saladas são raras. O quarto curso foi de scallops com molho de maracujá e cenoura ralada e frita por cima. Combinação ótima, scallops fritos na medida, molho delicado, texturas diferentes, mas o sous chef perdeu vários pontos por não ter limpado a borda do meu prato. O que custava passar um paninho, eh?


E finalmente o esperado prato principal: peru assado com molho de castanhas. A carne estava tenra e úmida, bem temperada. E o molho foi uma ótima surpresa, excelente combinação que agradou todo mundo. De sobremesa tivemos um triffle de morango e framboesas, com carinha do Papai Noel.


Falando nele, logo entrou um Papai Noel taiwanês restaurante adentro, com uma assistente balançando sinos de Natal, ho ho ho, aquela coisa. Eu pedi um Playstation 3 pro Santa Claus e tudo o que ele me trouxe foram essas balas de toffee. Passem a garrafa, sim? She's a boozer, she's a boozer.





Escrito a mão pela Marcia às 3:16 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(5)

dezembro 29, 2006

Speckle

As placas tectônicas que convergem por aqui parecem finalmente terem entrado num acordo. Houve um total de seis terremotos em dois dias. Sentimos todos eles. O saldo foi de duas vítimas fatais e 42 pessoas feridas. As linhas de telecomunicação submarinas foram bastante afetadas, ainda estamos tendo problemas com a Internet e telefone.

O terremoto principal, chamado de Hengchun, já foi adicionado na lista dos maiores terremotos do mundo, no Wikipedia. Um colega taiwanês do Martin, que tem seus mais de 40 anos, nos contou que este foi o segundo pior terremoto que ele já passou na vida. O primeiro dever ter sido certamente o de 1999, chamado Chi-Chi, que levou a vida de mais de 2 mil pessoas e destruiu mais de 44 mil residências. Até hoje encontramos rachaduras no solo em alguns pontos turísticos de Kaohsiung que se abriram durante esse terremoto.

Desde então, muito foi feito para proteger a população de uma tragédia natural como essa. Só depois de termos passado por este terremoto Hengchun é que compreendemos a razão de muita coisa que nos cerca. Moramos em dois apartamentos diferente aqui em Kaohsiung. Os dois eram apartamentos novos. E ambos tinham todas suas mobílias, como guarda-roupas, armários da cozinha, bancada de TV, estantes, espelhos e criados-mudos, tudo, tudo cimentado na parede e no chão. No começo achamos estranho esse layout, estranha essa forma fixa, essa impossibilidade de alterar a mobília de acordo com nosso gosto ou necessidade. Agora tudo faz sentido. Se nossa mobília não estivesse cimentada, o estrago certamente teria sido enorme, sem contar o risco de nos machucarmos, de algo cair sobre nós.

O prédio em si é à prova de terremotos e typhoons, todo em concreto e aço, com vidros temperados. O único grande risco é acontecer algum incidente no encanamento de gás. Foi por essa razão, entre outras, que precisamos ser evacuados dos apartamentos. Mas nada aconteceu e logo pudemos voltar.

Nessa hora, principalmente para quem nunca viveu uma situação como essa, a sensação é de total impotência contra a força da natureza. Por mais que a gente leia e decore os procedimentos de segurança, quando o tremor começa, não dá para planejar nada, pensar em nada. O tremor dura cerca de 20 segundos e, morando no décimo quarto andar, não dá pra fazer nada nesse tempo além de esperar. Não há como descer pro térreo em 20 segundos. Hell, não dá nem para andar até um lugar relativamente seguro dentro de um único quarto! O melhor mesmo é estar onde você acha que vai estar mais seguro e esperar.

Foi o que fizemos. Ficamos juntos, olhando um pro outro, sem saber o que poderia estar prestes a acontecer. "(...) to die by your side oh such a heavenly way to die..." Felizmente absolutamente nada aconteceu. No dia seguinte ainda estávamos mais traumatizados do que haviamos imaginado. O corpo dolorido pela tensão nos músculos e pelo sobe-e-desce nas escadas. A sensação estranha de que algo estava pra acontecer novamente. E essa sensação era tão forte, que no meio da manhã Martin me ligou e conversamos sobre como ambos estávamos nos sentindo esquisitos. E no meio do telefonema, outro tremor começou, um pouco mais fraco (5.9), mas ainda forte o suficiente para nos abalar. Não só os cães prevêem tremores, vejam só.

Agora já estamos nos sentindo melhores. Nada como um dia sem tremor para nos sentirmos com os pés no chão novamente. As vezes a gente perde a perspectiva do grão de areia que somos no universo. Desordeiros grãos de areia, mas grãos, ainda assim.

Escrito a mão pela Marcia às 5:08 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(7)

dezembro 26, 2006

Shaken

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Antes de mais nada: estamos bem.

Mr.M e eu estamos bem, nosso apartamento está inteiro, nada que é nosso quebrou.

Tudo bem. Just fucking terrified.

Para quem não sabe o que aconteceu, houve um fortíssimo terremoto em Taiwan. Mais especificamente, na península Hengchung, há meros 90km daqui de Kaohsiung. Segundo o U.S. Geological Survey, a magnitude do tremor de terra foi de 7.1 na escala Richter. A mesma magnitude do terremoto que destruiu a cidade de Kobe, no Japão, em 1995. A grande e importante diferença é que o epicentro desse tremor que tivemos aqui foi no fundo do mar, não na terra, como em Kobe.

Se esse tremor já havia nos assustado o suficiente, o pior para nós foi o aftershock, o segundo terremoto que aconteceu 10 minutos mais tarde, cujo o epicentro foi aqui, 27km ao sul de Kaohsiung, magnitude de 6.4 pontos. Scared the living shit out of us. Começou com uma vibração no chão como se um caminhão pesado estivesse passando no quarto ao lado. Ficou mais intenso e tudo que estava nas mesas e bancadas começou a andar e a fazer batuque. A sensação era de que estávamos dentro de um veículo rodando por uma estrada cheia de pedras e buracos. E então o prédio inteiro começou a mover. As luminárias do teto balançaram tanto que bateram suas bordas no teto. Ficamos de quatro no chão porque nem de pé conseguíamos ficar. Lá fora barulho de algo quebrando, se espatifando no chão. Tentamos engatinhar até o quarto e o apartamento chaoalhava tanto para frente e para trás que demoramos um tempo imenso (aparentemente) para avançarmos um metro. Colocamos travesseiros nas cabeças e nucas e esperamos. No chão, ajoelhados, peitos no colchão, cabeça abaixada, olhos esbugalhados um no outro. E esperamos. Miseráveis, longos, intermináveis, sonofabitch 20 freaking segundos.

Quando o tremor começou a ficar mais fraco, o comunicador de emergência do prédio convocou todos os moradores a evecuarem os apartamentos. Evacuamos. Descemos 14 anda

Shit! Neste exato momento, mais um tremor está acontecendo. Parece pequeno (update: foi 5.5). Shit. Shit. Shit.

Shit.
Sh...

Parou. Mas até quando?

Enfim, estava dizendo que tivemos que descer pelas escadas, 14 andares. E o que nos deixou ainda mais assustados foi ver que muitos taiwaneses estavam realmente preocupados. Ficamos todos no hall e o fato de não entendermos a língua nesta hora foi terrível porque seja lá o que o segurança falava para acalmar os moradores, a gente não entendia. Voltamos há pouco para o nosso apartamento. Tudo em ordem, mas estamos abalados, assustados, confusos. Como o Martin bem disse, para nós poucas coisas são mais sólidas do que o chão que a gente pisa. Quando a confiança nesse mesmo chão se perde, o que nos resta? Pra onde correr? Pra onde ir?

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Num dos corredores do nosso prédio, o painel de azulejo e madeira foi arrancado da parede, nem o interruptor da campainha foi poupado. A foto está ruim porque foi tirada com o celular e estava bem escuro. E eu estava tremendo.

Escrito a mão pela Marcia às 3:15 PM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(7)

dezembro 24, 2006

Jingle All the Way

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Merry Christmas! Feliz Natal!

E obrigada por mais um ano.


Escrito a mão pela Marcia às 6:49 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(6)

dezembro 14, 2006

Christmas is a Paper Crane

Não há muitas opções de decoração natalina de bom gosto neste país asiático; tudo de plástico, com purpurina e tinta dourada. Mas pelo conseguimos encontrar uma arvorezinha de Natal de uns 30 centímetros. De papel e plástico, totalmente environment unfriendly. Minhas tentativas de decorá-la, no entanto, foram bastante prazeirosas uma vez que tive que encontrar meus próprios recursos. Fiz uma porção de origami de tsurus com papéis de presente. Sim, os mesmos papéis que fiz o Advent Calendar. Pendurei-os na árvore e fiz até um ninho pra uma família deles, com papel picotado daqueles que vêm dentro de embalagens. Comprei fita e fiz uma laçarote grandão para enfeitar a ponta da árvore. O cordão vermelho que segura a fita usei de uma embalagem de bolo. Mr.M colocou luzinhas coloridas. E eis que agora estamos nos sentindo mais Christmasssy que nunca.

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Aliás, nosso Advent Calendar tem sido uma grande diversão. Toda manhã abrimos um envelopinho com muita expectativa de saber o que iremos fazer à noite. Já fomos jantar fora, jogar sinuca, jogar air hockey, já fizemos massagens nos pés, fizemos sushi juntos, saímos pra comprar revistas britânicas, uma porção de mini atividades que têm nos feito muito bem, principalmente quando incluem vinho. Faltam poucos envelopes na caixa, os dias passaram rápido.

Escrito a mão pela Marcia às 4:48 PM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(12)

dezembro 2, 2006

M&M's Advent Calendar with Activities

É Dezembro, finalmente. Jingle bells, Santa smells and all that. Não temos muito a esperar deste Natal de 2006. Taiwan é um país predominantemente taoísta e budista, então Natal é algo tão estranho para eles quanto comemorar Halloween é para os brasileiros. Para completar, Mr.M vai trabalhar normalmente no dia 25, o que significa que vou passar a maior parte do dia all by myseeeeelf... don't wanna be... aaall by myseeeeeeeelf... Óquei, parei.

Mas para que a gente não se enforque em tinsels (festão?), estamos fazendo de tudo para criar um clima natalino entre nós. Basta estar privada de algo para começar a desejar por isso intensamente. Eu estava desanimada com a história, mas Mr.M, que é mais doce que mince pie, começou a me incentivar, comprou umas decorações natalinas e me contagiou com a empolgação.

E então lembrei dos Advent Calendars, que conta os dias de dezembro até a chegada do Natal. Na Inglaterra esses calendários são geralmente associados com mini chocolates, como descobri há quatro anos. Porém, existem milhares de outras idéias sugar-free pelo mundo, bem mais criativas que chocolates de má qualidade numa caixa de papelão. Inspirada pela Claire, comecei a planejar um Advent Calendar with Activities.

Listei uma porção de atividades para tirarmos nossos traseiros deste apartamento e fazer uma coisinha bacana todo dia até a chegada do Natal. Comprei papéis de presente para recortar em retângulos, adesivinhos de Natal e uma caixa bonitinha. Em cada envelopinho escrevi uma atividade para fazermos em cada dia. Mr.M não sabe quais são. Mas as atividades são todas simples e fáceis de realizar; vão desde dar um passeio nas margens do rio, falar só em português o dia todo, até disputar Daytona Race ou abrir uma garrafa de vinho pro café da manhã, essas coisas que nos deixam felizes, vocês me entendem.

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Todas as manhãs antes de Mr.M sair pro trabalho ele me acorda, sorteia um envelope e nós abrimos e descobrimos o que temos que fazer no dia de hoje. E como ontem eu ainda estava ocupada com a produção dos envelopinhos, só começamos o Advent 'Calendar' hoje. E o primeiro envelopinho diz para irmos jantar no nosso restaurante japonês preferido, hooray! Mr.M riu e perguntou se todos os envelopes envolvem eu não cozinhar durante o mês todo, haha. Me espanta a rapidez dele descobrir as nuances do meu plano...

Escrito a mão pela Marcia às 12:22 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este fragmento(12)