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janeiro 25, 2008

"And He Stole from the Rich and the Poor

And the not-very-rich
And the very poor
He stole all hearts away..."

Bejesus, eu sou um fóssil. Não tenho mais o entusiasmo de ficar mais de cinco horas em pé. A espera foi excruciante, exaustiva. Na fila, vários Morrisseys-look-alike, com topete, óculos da NHS, jaqueta jeans, camiseta Meat is Murder. E vários adolescentes de visual Emo, além de vários casais de meia-idade (êêê).

Esperamos e esperamos e quando as portas do bacaníssima Roundhouse se abriram ficamos na sexta fileira na frente do palco. Nosso plano era: vamos ficar o mais próximo possível e se começar a ficar desconfortável a gente muda para trás. E esperamos mais um pouco. Meus nervos estavam tão sofridos quanto meus pés. Às oito da noite o primeiro ato começou; Girl in a Coma, banda punk-rock formada de três garotas. Tocaram bem, me distraiu um pouco, mas ainda assim fiquei checando o relógio a cada minuto.

As meninas deixaram o palco e, por serem uma banda ainda em começo da carreira, tiveram que desmontar e carregar seus próprios equipamentos. Na enorme tela que escondia a metade do palco, assistimos às cenas de filmes com alguns dos ídolos de Morrissey: Sascha Distel, Anthony Newley, James Dean, David Johansen (New York Dolls). Entre os acordes de Ou Ça Ou Ça, dava pra sentir a tensão da platéia, as conversas se calaram, os olhos todos voltados pra tela e pro microfone solitário. E enfim, as luzes se apagaram e às 20h50 a enorme tela caiu ao chão revelando o palco completo e preparado para receber a banda. No fundo, telas imensas retratando Richard Burton. A música de introdução começou e a platéia toda iniciou o canto "Mor-ris-sey, Mor-ris-sey, Mor-ris-seeeey..."

Um a um os membros da banda entraram, acenaram pra platéia e tomaram seus lugares. Segundos gigantescos se seguiram até que finalmente o homem em si deu o ar de sua presença. O chão chacoalhou, muitos braços no ar aplaudindo. Morrissey sorriu timidamente e pela primeira vez ouvi de sua voz ao vivo: "Dear hero imprisoned, with all the new crimes that you are perfecting..." O início de The Last of the Famous International Playboy. E a platéia se transformou num mar com ondas quebrando na barreira do palco. Braços esticados numa fervorosa determinação similar a de famintos implorando por migalhas. E tudo o que Morrissey nos oferece é parte do refrão, abrindo os braços após "I am the last of the famous..." permitindo que a platéia completasse com "international playboy". Fantástico começo.

E logo em seguida, sem qualquer misericórdia ou aviso prévio, Morrissey nos bombardeou com os versos "I am the son, I am the heir..." de uma das mais épicas canções de The Smiths, How Soon is Now?. Incrédula, a platéia não economizou pulmões para cantar junto "You shut your mouth! How can you say... I go about things the wrong way?" Ao final, Morrissey agradeceu e comentou "You're biting very hard on the bosom of Camden."

I Just Want to See the Boy Happy veio em seguida, mas nessa hora Mr.M já estava entrando em pânico com a leva de esmagamentos e fomos um pouco para trás. Porque Morrissey pode ser meu ídolo, mas Mr.M sempre vai vir em primeiro lugar.

Respiramos um pouco ouvindo a That's How People Grow Up do novo álbum e Tomorrow. Mas em pouco tempo já estávamos jogando nossos braços pra cima para aplaudir e celebrar Stop Me if You Thing You've Heard This One Before, que eu tanto adoro. Como não gostar de uma canção que descreve: "...and the pain was enough to make a shy, bald buddhist reflect and plan a mass-murder". E durante essa canção em particular, Moz esteve bem próximo de nós, inclinando-se pra frente e trocando a letra para "I still love you, oh I still love you.... only slightly, only slightly MORE than I used to..." e sorrindo sarcasticamente. No final da canção, o comentário "I know you’re only here because of my looks" fez todo mundo rir.

Em seguida fomos apresentados às músicas do novo álbum, All You Need is Me, Something is Squeezing my Skull, One Day Farewell Will Be Goodbye, I'm Throwing My Arms Around Paris e a contagiante rocky Mama Lay Softly on the Riverbed com sexy Moz agitando um tambourine. A nova banda aliás estava excelente, quase todos multi-instrumentistas liderados por Boz Boorer. Tivemos acordeão, double bass, clarinete, cymbals, trompete e um gongo atrás da bateria, que tinha como logo "Some of Us is Turning Nasty".

Duas de minhas favoritas, Why Don't You Find Out for Yourself e a fabulosa The World is Full of Crashing Bores, foram muito bem recebidas. Mas mal tivemos tempo para apreciá-las porque em seguida chegaram mais presentes de The Smiths, com a psicodélica Death of a Disco Dancer que causou outro estampido na platéia e a melódica Strech Out and Wait, que fez estranhos se abraçarem e entoarem "Will the world end in daytime, I really don't know..."

Depois de The Loop, Sister I'm a Poet e Billy Budd , o inevitável final chegou com Moz agradecendo pela noite fantástica, nas palavras dele, e com o explosivo hit Irish Blood, English Heart que levou a platéia a mais uma convulsão coletiva. A banda voltou para o encore e arrastou com ela toda multidão para o êxtase maior da noite, com a poderosa The First of The Gang to Die. Todos nós atiramos nossas mãos como se jogando algo ao vento, repetindo os últimos versos "he stole all hearts away, a-hey a-hey a-hey... away a-hey..." até que a banda finalmente encerrou a canção e o show. Morrissey agradeceu, nos reverenciou junto com a banda e atirou sua camisa à platéia.

E assim se encerrou o show que esperei vinte anos pra ver. Não, não houve grandes hits, não houve as mais populares. Mas houve grandes momentos, raros e belíssimos privilégios. E nessa recompensa pela espera, jamais vou esquecer a voz de Morrissey, que soa sem esforço em uma precisão inacreditável, mesmo com a garganta inflamada como ele estava naquela noite. E da maneira com que ele coloca todos os mais significativos sentimentos em cada palavra de suas composições. E do fio do microfone sendo chicoteado em uma dança hipnótica, sua marca registrada há tantos anos. E das conversas sarcásticas, das poses provocantes, do magnetismo com a platéia e da voz, a voz que me acompanha por quase metade de minha vida. Inesquecível jamais será uma palavra suficientemente justa.

"Oh, you don't care if it's late
and you don't care if you're lost
and oh, you look so tired
but tonight you've presumed too much
too much, too much
and if it's the last thing I ever do
I'm gonna get you
crash into my arms..."

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Assim que terminei de escrever este post, recebi a notícia que Morrissey deixou o palco no show de hoje depois da terceira canção e cancelou o resto da turnê, alegando estar doente. Jesuschristinabasket!

Get well soon and take care, Stretford poet.

Escrito a mão pela Marcia às 11:25 PM

janeiro 22, 2008

"Now my Heart is Full..."

"Now my heart is full
and I just can't explain
so I won't even try to..."

Dos meus poucos ídolos desde minha empoeirada, esquecida e grisalha adolescência, a maioria morreu de overdose, AIDS ou câncer. Jim Morrisson (The Doors), Freddie Mercury (Queen), Joe Ramone (Ramones). All gone. Mas há um deles que esteve presente desde sempre, que contribuiu para a trilha sonora de cada fase de minha ordinária existência, que me fez questionar cada assunto de suas obtusas letras, que ganhou para toda eternidade minha admiração açucarada e derretida. E para o meu enorme deleite, ele continua mais vivo, mais sarcástico, inteligente e ousado que nunca. This charming man, Morrissey.


Eu sei, eu sei que musicalmente The Smiths eram fenomenais com as composições geniais de Johnny Marr e tal e coisa. Mas assim como meus outros ídolos falecidos, The Smiths também morreu. E Morrissey sobreviveu e caminhou com as próprias pernas. Não há como comparar Morrissey de hoje ao The Smiths the outrora, apesar da voz ser a mesma e das letras virem do mesmo autor.

Morrissey hoje tem 48 anos, o topete ficou mais escasso, as linhas no rosto ficaram mais acentuadas, as camisas ficaram mais discretas, porém com a mesma tendência de serem despidas e atiradas à platéia. Seus protestos contra o parlamento inglês, a família real, a igreja e os problemas sociais ainda persistem, embora menos inflamados que antes, agora que Margaret Thatcher é história e levou com ela a Clause 28, que listava como crime qualquer material incentivando o homosexualismo. "My only weakness is a listed crime..." Suas ironias estão ainda mais afiadas, muitas vezes causando ofensas a quem pouco compreende quando uma canção fala na voz de um personagem sendo ridicularizado, ou de uma situação ou de seu próprio autor. Mas há também um outro lado de Morrissey que ficou mais profundo, mais obscuro, que fatia seu coração em lascas finas pela dor da solitude que sangra de suas letras.

E ainda nem cheguei a mencionar a voz. A voz única, só dele, potente, precisa, suave e intensamente emotiva. Os melódicos yodels, afinados e tão significantes. E a vontade inalterável de fazer justiça com sua voz a cada palavra de seus versos. Mais que nunca, Morrissey continua me inspirando e alimentando minha admiração inabalável.

E somente agora, mais de vinte anos desde que ouvi o velho album em vinil The Queen is Dead, somente hoje vou vê-lo ao vivo pela primeira vez. Depois de muitos lamentos e tormentos por perder ainda mais uma turnê por diversos motivos, desta vez estou aqui e ele está aqui também. E nos encontraremos num lugar imensuravelmente especial: o Roundhouse, em Camden Town, Londres. O mesmo palco que uma vez abrigou apresentações memoráveis de The Doors, Ramones, Jimmy Hendrix e Led Zeppelin. Depois de tanto tempo, de tantos anos ouvindo sua voz via headphones, agora finalmente vou ouvi-lo ao vivo. Vê-lo ao vivo. Vivo. And now my heart is full.

Escrito a mão pela Marcia às 12:45 AM

janeiro 14, 2008

The Choice of Freedom

Na semana passada, a maior discussão nacional ficou por conta das galinhas. Dois chefs, Hugh Fearnley-Whittingstall e Jamie Oliver, exibiram em mínimos detahes a crueldade da produtividade em massa de ovos, frangos e galinhas em dois programas que duraram quatro dias, respectivamente chamados Hugh's Chicken Run e Jamie's Fowl Dinners, exibidos no Channel 4.

A proposta de ambos programas não é de condenar o comércio de frango. Nem tão pouco de incentivar o vegetarianismo em favor dos animais, mesmo porque o ovo-lacteo-vegetarianismo também contribui na produção ainda mais cruel que é a indústria de ovos. Vamos ser bem realistas aqui: o mundo inteiro não vai virar vegetariano da noite pro dia. A demanda por carne sempre vai existir e a realidade é que ficar catequisando carnívoros a se tornarem vegans não resolve os problemas de maus-tratos a animais.

A grande proposta é de mudar hábitos, é de se manter consciente de como o animal chega à sua mesa. É de informar e alertar os consumidores de fatos quase secretos dentro do comércio de frangos e ovos. É de incentivar a escolha pelos animais free-range, criados soltos no pasto, atingindo seu peso naturalmente. É de pagar mais por melhor qualidade e comprar menos.

Que a produção de galinhas confinadas é cruel todo mundo de uma certa forma já sabia, mas o que ambos programas exibiram foram quão miseráveis são as condições em que as mesmas são submetidas, em todos os mínimos detalhes.

Por exemplo: quanto tempo você acha que um frango dessa produção confinada em celeiro leva para engordar, desde que nasceu do ovo até o dia do abatimento para ser vendido no supermercado? Um ano? Seis meses? Três meses?

E nessas produção confinada quantas galinhas você acha que vivem num metro quadrado? Imagine um metro quadrado no chão, quantas galinhas você acha que caberiam ali? Seis? Oito? Nove?

E sabendo-se que o preço médio de um frango inteiro aqui na Inglaterra custa £2,99 quando você acha que o produtor recebe de lucro desse valor, por cada frango? £0,99? £0,50? £0,25?

Pois então, eu achava que sabia todas essas respostas, com meu bom-senso. Estava bem, mas bem errada.

Cada frango criado em confinamento em celeiro leva 39 dias para crescer e engordar, desde o ovo até o abate. Os animais são expostos à luz artificial por 23 horas por dia. Então eles comem, bebem, fazem cocô, comem, bebem, fazem cocô por todo esse tempo. Dormem por uma hora e tudo começa novamente. Assim engordam de forma pouco natural, e em poucos dias não conseguem mais andar porque os ossos não se desenvolveram na mesma velocidade que a carne. Mas há ainda uma outra razão porque eles não conseguem andar.

Em um metro quadrado de confinamente, são criados 17 frangos. E conforme vão crescendo o espaço vai ficando menor e os frangos ficam praticamente imóveis, com membros atrofiados, pés queimados pela amônia dos cocôs acumulados, penas caindo.

O produtor desses infelizes frangos recebe de lucro, em média, £0,03 por cada frango. E quando chegamos a este ponto, encontramos as raízes de toda essa produção cruel, a razão desse comércio insano. As grandes vilãs dessa história são as grandes redes de supermercados, que atendem pelos nomes de Tesco, Asda (Wal-Mart), Morrisson, Sainsbury's e afins.

São essas redes que exigem do produtor um número enorme de frangos, oferecendo margem de lucros irrisórias. Caso o produtor recuse, os supermercados começam a importar frangos de outros países, como Tailândia, China, India e países do oriente médio. Para não perder mercado, os produtores se vêem forçados a produzir frangos em larga escala, no menor espaço de tempo possível.

Hugh e Jamie atacaram diretamente cada rede de supermercado por toda essa situação. Tesco, Asda e Morrisson se recusaram a filmar entrevistas, despejando a culpa nos consumidores, dizendo que eles vendem esses produtos porque a demanda exige e porque o público-alvo deles não podem pagar por frangos free-range.

Sainsbury's, que aliás patrocina Jamie Oliver, se comprometeu a exterminar de suas prateleiras qualquer frango que não esteja dentro das normas de Animal Welfare ou que não sejam free-range até o final de 2008. O Waitrose foi o único que participou de todos os programas, uma vez que eles têm orgulho de ser o único supermercado que vende frangos e ovos exclusivamente free-range e pagam seus fornecedores de forma ética e sustentável.

Nesse ponto a discussão estava correndo o risco de ser elitista: quem pode pagar free-range, paga. Quem não pode, come o frango frankenstein do Tesco, que come e caga 23 horas por dia. E foi então quando a RSPCA entrou na história para informar que há um meio-termo, há uma forma de se criar frangos em larga escala e ainda assim oferecer bem-estar para esses animais durante todo o período de suas vidas penosas.

Há um programa criado pela RSPCA, chamado Freedom Food. Nesse programa, os animais ainda são confinados em grandes celeiros, mas em menor escala, com 25% mais espaço do que nas indústrias comuns. A iluminação do celeiro é natural, com períodos de luz e escuridão normais, com janelas abertas quando o tempo permite. Além disso, todo o ambiente é preparado com poleiros, móbiles de CD's, bolas coloridas, espigas de milho e outros objetos para que os animais continuem ativos, voando, bicando e ciscando em tudo o que achar interessante.

Muitos supermercados já participam desse programa e vendem frangos com o selo Freedom Food, mas as vendas são irrisórias comparadas com os frangos infelizes. A diferença de preço do frango infeliz confinado e do frango do RSPCA Freedom Food é de apenas £1. E a RSPCA implora para que os consumidores que podem pagar essa Libra a mais pelo frango Freedom Food que pensem em quanta diferença essa Libra faz para a criação justa e sem crueldade, pelo pagamento ético ao produtor e obviamente pela qualidade superior do produto final.

É claro que há muitos que não podem pagar por esse tipo de frango, famílias em difíceis condições onde o frango é o último de seus problemas. E na realidade, acredito que por muitos anos ainda vai haver frangos baratos nas prateleiras do supermercado, vindos de industrias intensivas, exclusivamente para essa fatia de mercado. Mas há também uma grande parcela de consumidores que podem pagar mas que não compram por pura falta de informação. Ninguém gosta de passar horas lendo rótulos no supermercado (só eu). No máximo uma rápida comparação de preços e pronto, coloca o frango mais barato no carrinho. Agora com todas essas campanhas acredito que muitos vão parar por mais alguns segundos e procurar pelos orgânicos, free-range ou Freedom Food. E se dentre esses, pelo menos a metade escolher os free range, grandes mudanças virão pela frente.

E não há como negar que este país ainda é uma ilha, que idéias espalham rápido de norte a sul e que mudanças ainda são possíveis de se realizar. Há pouco tempo atrás houve a mesma discussão a respeito de ovos produzidos de maneira intensiva e cruel. Os consumidores acabaram concordando com a campanha e hoje 27% dos ovos vendidos no Reino Unido são free range. A partir de 2012 toda produção de ovos com galinhas presas em gaiolas será banida e proibida na Inglaterra, pelas leis de Animal Welfare da União Européia. A grande esperança é que o mesmo aconteça com os frangos, mesmo que de grão em grão.

Do filme Chicken Run:

Ginger: You know what the problem is? The fences aren't just round the farm. They're up here, in your heads. There's a better place out there, somewhere beyond that hill, and it has wide open places, and lots of trees... and grass. Can you imagine that? Cool, green grass.
Babs: Then, where does the farmer live?
Ginger: There is no farmer, Babs.
Babs: Is he on holiday?
Ginger: He isn't anywhere! Don't you get it? There's no morning head count, no farmers, no dogs and coops and keys, and no fences.
Bunty: In all my life, I've never heard such a fantastic load of tripe. Oh, face the facts, ducks. The chances of us getting out of here are a million to one.
Ginger: Then there's still a chance.
Ginger: Listen. We'll either die free chickens or we die trying.
Babs: Are those the only choices?

Update 28/02/2008: Matéria de primeira página do The Independent afirma que as vendas dos frangos infelizes confinados caíram para mais de 10 milhões de unidades e que as vendas dos frangos free-range aumentaram em 35%, comparando com o mês anterior ao da campanha.

Escrito a mão pela Marcia às 1:11 PM | mais em Greedy Cow

janeiro 9, 2008

"Cheesecake?! A Cake... of Cheese?!"

Minha irmã sempre foi muito fã de cheesecake e sempre me falava maravilhas dos chesecakes que ela comia no Japão, quando ela morava lá. E eu sempre tive a impressão de que estava comendo os cheesecakes errados, já que jamais havia provado nenhum que tivesse me surpreendido. E realmente percebi que estava mesmo provando todos os errados quando minha irmã me esclareceu que os melhores são os assados, bem fofinhos e levinhos. Até então eu havia provado, e desgostado, de apenas dois tipos:

1) os cheesecakes que não são assados, mas endurecidos com gelatina
2) os cheesecakes do Starbucks, que são assados, porém secos, duros e um pouco salgados pro meu gosto (tanto na quantidade de sal como no preço).

Em Taiwan cheguei a provar um (porque eu nunca desisto) da patisserie do hotel Hi-Lai e estava melhorzinho, mas ainda não era algo digno de nota. Aliás, a maioria dos bolos que comi em Taiwan (e foram muitos) eram fantasticamente decorados mas com gosto de absolutamente nada. Hoje sei que gosto tem morder o Nada.

Resolvi então pesquisar e procurar receitas do verdadeiro chessecake, fazer um do princípio e provar a diferença. Percorri algumas histórias, alguns diferentes métodos e muitas versões (New York style, Italian, French...), além de várias dicas para não fazê-lo rachar ou ficar seco. Nessa busca, me deparei com uma versão clássica de cheesecake, da Lesley Waters, no site da BBC Food, que agora tem estes bacaníssimas vídeos interativos Get Cooking. Assisti ao vídeo dela fazendo o cheesecake de limão, e me pareceu bem facinho de fazer.

Usei os ingredientes básicos, mas fiz apenas meia receita porque somos foodies, mas moderação e bom senso continuam em moda nesta casa. Troquei as raspas de limão por baunilha, e na cobertura usei creme Elmea Double Cream Light e fiz uma calda de blueberries. Eis o resultado:



O sabor? Ahh, muito, mas muito diferente de tudo o que havia provado antes. O perfume da baunilha, dos biscoitos, do creme não deixa dúvidas de que se trata de uma sobremesa rica. Já na primeira garfada você sente o prazer da textura crocante da base, macia do recheio, cremosa da cobertura. E logo em seguida vem o sabor levemente salgado do cream cheese, levemente adocicado do açúcar, levemente picante do gengibre e arrematado com um leve frescor das frutinhas. Agora tambéms sou grande fã, desde que seja esse o meu tipo de cheesecake. Martin também não parou de elogiar até agora. Ainda temos as últimas fatias na geladeira.


Baked Cheesecake

(Esta é a receita completa, suficiente para 8-10 pessoas. Eu fiz apenas metade e usei uma forma menor)

Pré-aqueça o forno em 150ºC.
Forre a base de uma forma de fundo removível, de 24cm, com papel-manteiga.

Base:
10 biscoitos digestivos (Maria ou Maizena servem também)
6 biscoitos de gengibre
85g de manteiga derretida

Triture os biscoitos num processador até formar uma fina farinha. Misture a manteiga derretida e processe por poucos segundos, só para misturar. Forre o fundo da forma com essa mistura, alisando levemente com as costas de uma colher, até cobrir todo fundo. Leve ao forno e asse por 15 minutos. Retire e deixe esfriar por pelo menos 5 minutos.

Recheio:
600g de cream cheese (usei Philladelphia full fat)
150ml de creme de leite (*acho* que o creme de leite em lata do Brasil é grosso demais, recomendo o fresco)
140g de açúcar
3 ovos grandes
1 colher de chá de baunilha ou raspas de limão ou outro sabor a gosto

Bata tudo em velocidade baixa, até combinar tudo. Não bata demais, alguns pedacinhos de cream cheese na massa são perfeitamente aceitáveis. Despeje esse recheio sobre a base, leve ao forno por 1 hora. Retire do forno, espere esfriar completamente e leve o cheesecake à geladeira por 1 hora. Desenforme e decore.

Cobertura:
Creme de leite batido em chantilly
Frutas de sua escolha

Recomendo muitissimo o vídeo Baked Lime Cheesecake do Get Cooking para ver a consistência do creme, a textura da base e também em como checar se o cheesecake está assado no ponto exato.

Escrito a mão pela Marcia às 11:53 AM | mais em Greedy Cow

janeiro 7, 2008

For a Snowy(ish) Day

Na semana passada tivemos a primeira neve do ano. Pouquíssima, quase uma fraude. Mas qualquer desculpa é uma boa desculpa para assar mini-madaleines fresquinhas e devorá-las todas, acompanhadas de chá e leite na sua caneca mais brega, de preferência com vaquinhas, assistindo pela janela os flocos de neve mais fajutos do inverno. Minha fascinação por formas em tamanhos minúsculos continua em ascenção e esta foi a primeira vez que usei minha nova forma de silicone de mini-maddies (garimpada na TK Maxx), que funcionou muito bem.


Mini-Madeleines de Chocolate

2/3 (dois terços) de xícara de farinha de trigo
1/4 (um quarto) de xícara de cacau
1/2 colher de chá de fermento em pó
pitada de sal
2 ovos grandes
1/2 xícara de açúcar
1/2 colher de chá de essência de baunilha
6 colheres de sopa de manteiga sem sal, derretida e fria (eu usei bem menos, cerca de 40 gramas e achei mais que suficiente)

Nota: Eu odeio, odeio, odeio receitas que usam em volume (xícaras, colheres) ao invés de quantidade métrica (gramas, litros).

Peneire juntos a farinha, o cacau e o fermento. Reserve.
Na batedeira, bata os ovos, a baunilha e o açúcar até formar um creme clarinho e espumoso. Retire a vasilha da batedeira.
Agora usando uma colher flexível, misture o creme com os ingredientes secos peneirados, seguido da manteiga derretida. Cubra a vasilha com filme plástico (eu coloquei a massa num saco de confeitar, bico liso, grande)
Leve a massa à geladeira por no mínimo 3 horas.
Na hora de serví-las, aqueça o forno em 175ºC.
Unte e enfarinhe a forma de madeleines se não estiver usando formas de silicone.
Coloque a massa às colheradas (ou com o saco de confeitar) na forma , até encher 3/4.
Leve a forma ao forno e diminua a temperatura para 150ºC.
Asse por 8-10 minutos se estiver fazendo mini-madeleines ou por 13-15 minutos se estiver fazendo madeleines no tamanho normal.
Retire do forno e bata a base da forma algumas vezes em uma superfície coberta com uma toalha.
As madeleines devem pular pra fora com o susto.
Devore-as o quanto antes, sem demora.

Escrito a mão pela Marcia às 12:45 PM | mais em Greedy Cow

janeiro 2, 2008

Happy Brand New 2008

Voltamos de Lake District.

Nos últimos anos, estávamos criando uma certa tradição de Natal: ir para Keswick, comer Fish & Chips na Old Keswickian; visitar a loja Peter Rabbit and Friends que também vende tudo de Wallace & Grommit, Snoopy e Pingu; e degustar as melhores tortas artesanais do açougue Michael's.

Pois então. Chegamos em Keswick e:

1) A Old Keswickian havia sofrido um incêndio uma semana antes;
b) A loja Peter Rabbit and Friends faliu;
III) O açougueiro fechou.

Então tá. Um dia a Inglaterra inteira vai virar um grande Tesco e a vida vai ser um grandíssimo tédio. Ao menos ainda estavam lá a magnífica doceria Ye Olde Friars, o farmers market e a padaria Bryson que faz o melhor Lakeland Plum Bread da região.

O tempo estava bom nos primeiros dias, o lago estava congelado, as caminhadas foram longas e bem agradáveis. Mas depois do Natal a temperatura subiu e começou a chover sem parar. O lago descongelou, transbordou, alagou tudo em volta, subiu até cobrir totalmente o pier da casa em que estávamos hospedados.

Aproveitamos esse tempo ruim para visitar os charmosos vilarejos de Cumbria, que eu não conhecia antes. Adorei Ambleside, mesmo embaixo de muita chuva.

Nos poucos momentos em que ficamos na casa, recebemos a visita de vários patos, um heron, um cisne, um faisão macho e três faisões fêmeas, alguns robins e também um querido coelho. Todos selvagens, todos aversos à câmera. Também vi uma coruja enorme voando pelo nosso caminho.

Foram bons dias. Voltamos pra Sheffield satisfeitos, passamos o Ano Novo só nós dois no sofá, assistindo The Most Annoying Celebrities of 2007, ouvindo os fogos de artifício pipocando lá fora. E começamos o ano sem resoluções, sem planos, como sempre. Come as it may.

Happy New Year.


Escrito a mão pela Marcia às 8:54 AM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

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