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"And He Stole from the Rich and the Poor

And the not-very-rich
And the very poor
He stole all hearts away..."

Bejesus, eu sou um fóssil. Não tenho mais o entusiasmo de ficar mais de cinco horas em pé. A espera foi excruciante, exaustiva. Na fila, vários Morrisseys-look-alike, com topete, óculos da NHS, jaqueta jeans, camiseta Meat is Murder. E vários adolescentes de visual Emo, além de vários casais de meia-idade (êêê).

Esperamos e esperamos e quando as portas do bacaníssima Roundhouse se abriram ficamos na sexta fileira na frente do palco. Nosso plano era: vamos ficar o mais próximo possível e se começar a ficar desconfortável a gente muda para trás. E esperamos mais um pouco. Meus nervos estavam tão sofridos quanto meus pés. Às oito da noite o primeiro ato começou; Girl in a Coma, banda punk-rock formada de três garotas. Tocaram bem, me distraiu um pouco, mas ainda assim fiquei checando o relógio a cada minuto.

As meninas deixaram o palco e, por serem uma banda ainda em começo da carreira, tiveram que desmontar e carregar seus próprios equipamentos. Na enorme tela que escondia a metade do palco, assistimos às cenas de filmes com alguns dos ídolos de Morrissey: Sascha Distel, Anthony Newley, James Dean, David Johansen (New York Dolls). Entre os acordes de Ou Ça Ou Ça, dava pra sentir a tensão da platéia, as conversas se calaram, os olhos todos voltados pra tela e pro microfone solitário. E enfim, as luzes se apagaram e às 20h50 a enorme tela caiu ao chão revelando o palco completo e preparado para receber a banda. No fundo, telas imensas retratando Richard Burton. A música de introdução começou e a platéia toda iniciou o canto "Mor-ris-sey, Mor-ris-sey, Mor-ris-seeeey..."

Um a um os membros da banda entraram, acenaram pra platéia e tomaram seus lugares. Segundos gigantescos se seguiram até que finalmente o homem em si deu o ar de sua presença. O chão chacoalhou, muitos braços no ar aplaudindo. Morrissey sorriu timidamente e pela primeira vez ouvi de sua voz ao vivo: "Dear hero imprisoned, with all the new crimes that you are perfecting..." O início de The Last of the Famous International Playboy. E a platéia se transformou num mar com ondas quebrando na barreira do palco. Braços esticados numa fervorosa determinação similar a de famintos implorando por migalhas. E tudo o que Morrissey nos oferece é parte do refrão, abrindo os braços após "I am the last of the famous..." permitindo que a platéia completasse com "international playboy". Fantástico começo.

E logo em seguida, sem qualquer misericórdia ou aviso prévio, Morrissey nos bombardeou com os versos "I am the son, I am the heir..." de uma das mais épicas canções de The Smiths, How Soon is Now?. Incrédula, a platéia não economizou pulmões para cantar junto "You shut your mouth! How can you say... I go about things the wrong way?" Ao final, Morrissey agradeceu e comentou "You're biting very hard on the bosom of Camden."

I Just Want to See the Boy Happy veio em seguida, mas nessa hora Mr.M já estava entrando em pânico com a leva de esmagamentos e fomos um pouco para trás. Porque Morrissey pode ser meu ídolo, mas Mr.M sempre vai vir em primeiro lugar.

Respiramos um pouco ouvindo a That's How People Grow Up do novo álbum e Tomorrow. Mas em pouco tempo já estávamos jogando nossos braços pra cima para aplaudir e celebrar Stop Me if You Thing You've Heard This One Before, que eu tanto adoro. Como não gostar de uma canção que descreve: "...and the pain was enough to make a shy, bald buddhist reflect and plan a mass-murder". E durante essa canção em particular, Moz esteve bem próximo de nós, inclinando-se pra frente e trocando a letra para "I still love you, oh I still love you.... only slightly, only slightly MORE than I used to..." e sorrindo sarcasticamente. No final da canção, o comentário "I know you’re only here because of my looks" fez todo mundo rir.

Em seguida fomos apresentados às músicas do novo álbum, All You Need is Me, Something is Squeezing my Skull, One Day Farewell Will Be Goodbye, I'm Throwing My Arms Around Paris e a contagiante rocky Mama Lay Softly on the Riverbed com sexy Moz agitando um tambourine. A nova banda aliás estava excelente, quase todos multi-instrumentistas liderados por Boz Boorer. Tivemos acordeão, double bass, clarinete, cymbals, trompete e um gongo atrás da bateria, que tinha como logo "Some of Us is Turning Nasty".

Duas de minhas favoritas, Why Don't You Find Out for Yourself e a fabulosa The World is Full of Crashing Bores, foram muito bem recebidas. Mas mal tivemos tempo para apreciá-las porque em seguida chegaram mais presentes de The Smiths, com a psicodélica Death of a Disco Dancer que causou outro estampido na platéia e a melódica Strech Out and Wait, que fez estranhos se abraçarem e entoarem "Will the world end in daytime, I really don't know..."

Depois de The Loop, Sister I'm a Poet e Billy Budd , o inevitável final chegou com Moz agradecendo pela noite fantástica, nas palavras dele, e com o explosivo hit Irish Blood, English Heart que levou a platéia a mais uma convulsão coletiva. A banda voltou para o encore e arrastou com ela toda multidão para o êxtase maior da noite, com a poderosa The First of The Gang to Die. Todos nós atiramos nossas mãos como se jogando algo ao vento, repetindo os últimos versos "he stole all hearts away, a-hey a-hey a-hey... away a-hey..." até que a banda finalmente encerrou a canção e o show. Morrissey agradeceu, nos reverenciou junto com a banda e atirou sua camisa à platéia.

E assim se encerrou o show que esperei vinte anos pra ver. Não, não houve grandes hits, não houve as mais populares. Mas houve grandes momentos, raros e belíssimos privilégios. E nessa recompensa pela espera, jamais vou esquecer a voz de Morrissey, que soa sem esforço em uma precisão inacreditável, mesmo com a garganta inflamada como ele estava naquela noite. E da maneira com que ele coloca todos os mais significativos sentimentos em cada palavra de suas composições. E do fio do microfone sendo chicoteado em uma dança hipnótica, sua marca registrada há tantos anos. E das conversas sarcásticas, das poses provocantes, do magnetismo com a platéia e da voz, a voz que me acompanha por quase metade de minha vida. Inesquecível jamais será uma palavra suficientemente justa.

"Oh, you don't care if it's late
and you don't care if you're lost
and oh, you look so tired
but tonight you've presumed too much
too much, too much
and if it's the last thing I ever do
I'm gonna get you
crash into my arms..."

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Assim que terminei de escrever este post, recebi a notícia que Morrissey deixou o palco no show de hoje depois da terceira canção e cancelou o resto da turnê, alegando estar doente. Jesuschristinabasket!

Get well soon and take care, Stretford poet.


Ro Costa said:

Olá Márcia... já algum tempo venho lendo seus posts... te achei lá no sindrome de estocolmo... e essa semana estou ajudando um amigo com o visto de noivo para se casar com um ingles e na net encontrei uma página que explicava os procedimentos e documentos e tinha um depoimento seu com um bilhetinho escrito em português do seu marido... achei uma conscidência incrível...
Quanto ao show posso imaginar que delícia...
Um abraço, Ro

Marcia said:

Lolla Moon, foi uma grande sorte mesmo. No primeiro show ele comentou que tinha "a frog in my throat and I don't mean a small french person", hoho. Acho que o show que você foi em Manchester teve o melhor repertório de todos os tempos. Mas foi bacana ouvir algumas músicas do "Lado B" dos Smiths ao vivo. Como você bem falou, eu teria ido só para ouvi-lo tossir e espirrar. O vídeo Stop Me é um clássico, Moz de bike de cestinha, o Salford Lads Club, Oscar Wilde.

Lolla Moon said:

Uma pena pra ele estar doente, mas sorte a sua e a do Mr. M por terem podido assistir à apresentação inteira. Ele está tocando mais músicas dos smiths agora, porque o último álbum não foi tão bem. Quando fui vê-lo no Rio, ele só tocou uma ou duas dos smiths. E começou com Boy Racer, que eu amo. Anyway, para mim é sempre um privilégio ouvi-lo tocar até atirei o pau no gato.

E esse trecho de "stop me" que você citou me faz dar risadinhas até hoje. E lembrar do vídeo, so sweet, com os boyzinhos todos vestidos de Morrissey andando de bicicleta com o próprio pelas ruas de Manchester. Love!

Lilian Moreora said:

Olá Márcinha,

Olha !!!!!!!!!!! fico feliz pôr vc ter realizado o seu sonho...
Isso mesmo querida, sonhe sempre!!!!!

Beijos

fal said:

lindona!!!!

brisa said:

Nossa, fikei toda arrepiada. Com uma vontade de estar la tb..e muito feliz por este ano estar sendo muito bom pra voce:))
Cheers!!