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"Hear my voice in your head and think of me kindly"

Depois que a banda Doll & the Kicks encerraram o show ainda se passaram muitos minutos de projeção, no pano que esconde o palco, com pequenas amostras dos filmes e personalidades de quem Morrissey é fã: Oscar Wilde, New York Dolls, Lou Reed, Vince Taylor, filmes noir. Assim que a projeção termina, o pano cai e revela o palco oficial com todos os intrumentos a postos e um enorme backdrop do ator italiano Walter Chiari.

As luzes se apagaram e nossos corações pararam. Será que ele está bem? É a primeira vez que o veremos fora do hospital. Será que ele está bem? Vultos aparecem e logo vemos Morrissey liderando a fila com a banda ao seu encalço. Eles entram no palco sob barulhenta e emocionante ovação e aplausos carinhosos daqueles que torceram pela sua recuperação. Cada um dos membros da banda tomam suas posições e um pouco antes de alcançar o microfone, Morrissey sendo Morrissey, finge cambalear fraco das pernas. Aaaahh o alívio, seja o que for que acomete a saúde dele, não tem afetado o humor sarcástico de sempre. Assim que ele alcança o microfone, dispara: "Fasten your seatbelts, it's going to be a bumpy ride!" E mostra a que veio iniciando a noite com This Charming Man.

"Punctured bicycle
On a hillside desolate
Will Nature make a man of me yet...?"







Em seguida vieram duas do álbum Years of Refusal, Black Cloud e When Last I Spoke to Carol. Em ambas a voz de nosso barítono preferido estava impecável, principalmente nessa última em que Morrissey canta transmitindo um triste tormento em cada verso. Desde então agora essa canção é uma das minhas preferidas do álbum.

"When last I spoke to Carol I said:
'I can't pretend I feel love for you.'
she said:
'I've hammered a smile across this pasty face of mine
since the day I was born in 1975...' "

E enquanto ainda me recuperava da comoção, os acordes da dramática How Soon is Now começaram. Quase no final da canção Morrissey deita no chão do palco, curvado, de costas para a plateia. A banda continua tocando. Strobo lights. A gente ri. Depois não ri. Ele permanece deitado. A gente pára de respirar. A banda continua tocando. Spotlight em Morrissey imóvel. A banda termina a música. As luzes se apagam. Quando acendem de novo Morrissey está de pé, com o microfone no pedestal. "Thank you Swindon", ele agradece irônico.

Foi brilhante porque logo no começo do show, de uma vez só ele já eliminou o que mais temíamos: vê-lo caindo novamente. A partir daí o show foi muito mais empolgante. Morrissey estava visivelmente bem, mas não havia como não perceber que ele ainda estava com menos fôlego e energia que antes. Mas nem por isso o show foi menos fantástico. Principalmente quando Morrissey dedicou a próxima música à Linder Stirling:

"A dreaded sunny day
so I meet you at the cemetry gates
Keats and Yeats are on your side..."

Cemetry Gates!! Oh my! Certamente uma das músicas mais queridas do belíssimo The Queen is Dead. Amei poder ouvir ao vivo, algo raríssimo e quase inédito. Toda a saudade do mundo dos riffs de Johnny Marr mas os guitarristas (incluindo Jesse Tobias, ex-Red Hot Chilli Pepper) não fizeram feio. E Morrissey abrindo os braços cantando o final "Wiiiiiiilde is on mine..." foi memorável.

O novo hit I'm Throwing My Arms Around Paris foi a próxima, seguidas dos lado-B dos Smiths Teenage Dad on the State e Nowhere Fast.







Sobre a sua hospedagem no Great Western Hospital, Morrissey somente nos contou: "The doctor said I shouldn't smile. I told him 'I don't!' ". E enquanto ainda ríamos o Albert Hall estava chacoalhando novamente com a incendiária Irish Blood, English Heart que é sempre tão bacana ver a platéia pulando horrores e cantando o refrão empolgadíssimos:

"I've been dreaming of a time when
the English are sick to death of Labour
and Tories
and spit upon the name Oliver Cromwell..."

E meus guilty-pleasures vieram em seguida, Why don't You Find Out for Yourself e The World is Full of Crashing Bores, em que Morrissey aproveitou para levantar sua bandeira a favor do vegetarianismo. No meio delas, no entanto, mais um presente vindo de The Queen is Dead, desta vez Death at One's Elbow (eu nunca lembro o nome dessa música):

"Ooh Glenn
Ooh Glenn
Don't come to the house tonight..."

A seguinte, One Day Goodbye will be Farewell teve um significado mais próximo da realidade no palco:

"how Time grips you slyly in its spell
and, before you know, goodbye will be farewell
and you will never see the one you love again..."







E quando achei que já tinha sido agraciada mais do que poderia sonhar com tantas músicas dos Smiths, eis que mais uma chega, adoradíssima por mim porque ela sempre me faz rir, Is it Really So Strange?:

"I left the North again
I travelled South again
And I got confused
I killed a nun
I can't help the way that I feel
I can't help the way that I feel
I can't help the way that I feel
Oh why is the last mile the hardest mile?
I lost my bag in Newport Pagnell..."

A essa altura Morrissey estava esbanjando energia, dançando, batendo palmas, chicoteando o fio do microfone, fingindo mais desmaios, apertando a mão dos stage-invaders mal-sucedidos em The Loop, Because of My Poor Education e I'm OK By Myself. Finalmente ele agradeceu e deixou o palco junto com a banda. De camisa nova, ele e a banda voltaram, reverenciaram e agradeceram pela noite. E o encore começou e terminou com The First of the Gang to Die, que eu nunca canso de ouvir e de gostar. Morrissey estendeu o braço e cumprimentou vários fãs e encerrou o espetáculo tirando a camisa e jogando-a para a platéia e reverenciando mais uma vez, sinceramente agradecido, sinceramente satisfeito.

"the first of the gang
with a gun in his hand
and a bullet in his gullet
the first Lost Lad to go under the sod
And he stole from the rich and the poor
and the not-very-rich
and the very poor
and he stole all hearts away
he stole all hearts away..."

Estivemos tão perto de não vê-lo. Estivemos tão perto de não vê-lo nunca mais. E eis que o show foi completo, mais curto que o normal, mas hey, quem é que poderia reclamar? Morrissey estava lá, nós estávamos lá. Do começo ao fim. A voz dele ainda ressoando em meus ouvidos, na minha mente, sendo gravada no long-play da minha memória. Long live our noble Moz. Long to reign over us. God save the King.







Lelei said:

Ahn, The Smiths foi uma parte tão grande da minha vida e da minha adolescência, mas não sei porque sou resistente de ir assistir Mozz ao vivo, seria medo de me decepcionar? Seu relato no entanto me deixou arrepiada e repensando se deveria ir na próxima turnê :)

Priscila Braga said:

Ahhhh, que delícia! Invejinhaaaaa mi-mi-mi! =)

Rita said:

There is a light and it never goes out... just can't stop singing now.. :-)

Rita said:

Delícia, Marcinha. Parabéns, sortuda. My mouth watered. Long live the king, yeah!