junho 30, 2014

June comes to a close

Junho chegou ao fim. Não posso dizer que sentirei falta deste mês. Ever. Apesar de alguns momentos bons (fomos pra praia em Bamburgh novamente, completei 41 anos, Miss S completou 3 e 1/2, fez muito sol), minha mente, porém, esteve distante, desconcentrada, decentralizada, half a world away.

O jardim está uma abundância de caos, seis das seis plantas de pepino morreram por conta das lemas dentro do solo, que comeram as raízes. Comprei uma variedade de ervilhas que cresce muito alta, então a fraca estrutura que eu havia feito desmoronou; as plantas continuam vivas, dobradas no meio, e as ervilhas estão crescendo. Vagens, asters e marigolds foram devoradas pelas lesmas também. Feijões estão crescendo bem devagar por falta de regar. Berinjelas decidiram não crescer mais. Cerejeira pegou scabs. Macieira tem só três frutos.

Há campanhas por todo país pedindo para plantarmos flores silvestres para alimentar as abelhas. As vezes me pergunto se vale o meu esfoço quando meus vizinhos têm jardins três vezes maiores que o meu (e com grama mais verde também). Mas quando vejo as abelhas nas minhas flores sempre reafirmo que se elas não precisassem do meu jardim não estariam aqui. E este ano, uma comunidade de bumblebees fez ninho em uma das casas de passarinho que temos. Muitas, muitas delas, entravam e saíam o dia todo. Agora foram todas embora, de repente.

Não tenho tirado fotos. Talvez por isso também não tenho postado aqui. Meio sem sentido porque isto aqui nunca foi um poço de fotos decentes. Mas ultimamente eu só escrevia quando tinha algo para mostrar. O que nem sempre é fiel ao momento ou à realidade. Uma abertura na lente faz tudo parecer perfeito. Ervas daninhas e desordem ficam desfocadas, quase inexistentes dentro da projeção na cabeça de quem lê.

Tenho escrito offline sobre absolutamente nada. Eu não sei, talvez nunca soube escrever uma história com começo, conflito e fim. Eu não consigo imaginar plots elaborados. Talvez saiba escrever, mas não saiba contar uma história. Writer, not storyteller. Eu escrevo diálogos enormes e meus personagens não sabem pra onde vão.



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Mas continuo, como Snoopy continuou, embora nunca tenha saído do parágrafo "it was a dark and stormy night".

Enfim, que Junho se encerre deixando pra trás as tempestades e que Julho chegue com novos dias melhores.

Escrito a mão pela Marcia às 1:57 PM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(11)

abril 3, 2014

The game, Mrs Hudson, is ON

Sir Arthur Conan Doyle foi um dos primeiros escritores que marcaram minha vida, quando eu ainda nem adolescente era. O primeiro livro de sua autoria que li era pequeno, de poucas páginas, chamado "Um estudo em vermelho". A história era complexa, a segunda parte era tão complicada, que tive que reler várias vezes para entender que ainda era a mesma história. Porém, desde o primeiro capítulo quando Dr. John Watson descreve quem então seria seu melhor amigo e parceiro, Sherlock Holmes entra em sua vida com seu violino, seu chapéu estranho, seu cachimbo, sua teoria da dedução, para nunca mais sair. E você se vê em meio ao fog de Londres da era Victoriana, com cabriolets e cascos de cavalos fazendo barulho nas ruas de paralelepípedos. E em meio aos assassinatos em série sem aparente solução do mistério.

Li e reli todas as outras obras de Conan Doyle, durante diferentes eras da minha vida, sempre com a mesma perplexidade de acompanhar os casos sendo meticulosamente desvendados e solucionados. Conan Doyle, aliás, foi convidado várias vezes para fazer consultoria em casos verídicos da Scotland Yard e pessoalmente resolveu dois mistérios de dois prisioneiros inocentes.

Com todo meu respeito por Conan Doyle, sempre tive muitas suspeitas ao assistir adaptações de seus livros em filmes.

E quando a BBC começou a apresentar a série Sherlock, baseada na obra original ambientada nos dias de hoje com Internet, GPS, exame de DNA e nicotine patches, eu fiquei distante. Não era possível que qualquer produção tão audaciosa poderia dar certo. Mas um detalhe me fez mudar de idéia: Mark Gatiss (que escreveu The League of Gentleman, Psychoville, CBBC Horrible Histories e Dr. Who) é um dos co-produtores e co-escritores, com Stephen Moffat (Dr.Who, Jekyll). Gatiss faz também o papel de Mycroft Holmes.

A série é genial. No sentido literal. A escrita é bastante inteligente, detalhada, numa velocidade beirando a Asperger's (Sherlock Holmes foi inspirado em um cirurgião que, acredita-se atualmente, tinha Síndrome de Asperger; mas na época, 1887, um diagnóstico ainda estava séculos de distância). Todas as adaptações pro século XXI estão bastante convincentes. E a pitada de humor britânico vindo do cérebro da elite da The League of Gentlemen é sutil, irônica, sarcástica e deliciosa.

Outros dois detalhes que me fizeram assistir, well. Martin Freeman + Benedict Cumberbatch:








O papel de Benedict Cumberbatch obviamente é mais exigente, alguns monólogos são extremamente longos e rápidos em um só take. Mas Ben é fantástico em papéis de personagens excêntricos, um pouco estranhos, um pouco diferentes e incrivelmente brilhantes.

Martin Freeman tem sido a maior revelação de toda a série e recebeu o BAFTA de melhor ator coadjuvante em 2012. Seu papel é ser a parte humana, ordinária, ignorante da história. O papel dele é nos refletir. Nesta nova série John Watson é sobretudo um traumatizado ex-soldado, ex-médico de guerra, vulnerável e solitário. E que encontra em Sherlock a adrenalina e o companheirismo que oxigena o vazio de sua vida civil. Freeman contracena com o melhor de seu talento: suas expressões faciais dizem mais do que qualquer diálogo. E Mark Gatiss sabe disso. Numa das mais tristes cenas que assisti na tv britânica nos últimos tempos, Martin Freeman expressa sua dor sem lágrimas, sem dramas. Só ele olhando fixo para a lápide, engolindo a seco a tragédia. A mão repousando no mármore frio. Os olhos baixando o olhar, fechando e nos carregando com ele em seu infinito desamparo.





Acredito que se Sir Arthur Conan Doyle imaginasse que um dia existisse algo chamado TV e que um dia doze milhões de pessoas em sua ilha estariam assistindo à adaptação de um de seus livros, talvez ele assistisse também, talvez não sem ressalvas. Talvez ele ficaria satisfeito de ver que finalmente Dr. Watson ganhou o papel merecido, não de coadjuvante, mas de co-líder da trama. Talvez ele teria se divertido e se arrepiado na mesma medida com Moriarty. Talvez ele teria se comovido ao perceber que seu personagem Sherlock Holmes, inicialmente um sociopata, fora acolhido com tanta admiração por tantos leitores ao redor do mundo, atravessando séculos, por tantas gerações. Talvez, por um momento, ele teria se orgulhado.

Escrito a mão pela Marcia às 12:15 PM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(4)

março 10, 2014

Between the pages is a lovely place to be

Há tanto tempo eu não me perdia entre páginas de uma ficção bem escrita.

Na verdade há tempos que eu não lia algo não-ficção. Mas também há tempos que eu andava meio desencantada com a literatura moderna. Não que eu tivesse lido uma montanha de best-sellers pra julgar. Não li. Apenas, provavelmente, tenha escolhido uma série de livros errados. Muita escrita ruim, muitos enredos duvidosos, muitos desfechos decepcionantes.





Mas então minha amiga Rita escreveu um livro de contos com a amiga dela, Luciana. E a Rita gentilmente enviou uma cópia pra mim (obrigada mais uma vez, Rita!). O envelope veio cheio de selos coloridos e a dedicatória de letrinha caprichada, cheia de carinho. Eu li Contos do Poente. Pelo título achava que seriam vários contos sobre pequenos detalhes da vida: pedras no fundo de riachos, cestas com ovos frescos, flores crescendo na grama longa, chuva repentina levantando cheiro de terra molhada. Daí eu li o primeiro conto. Bam. Segundo. Bam. E todos os outros contos. Bang, hell's bells! Entre a prosa bem escrita, descritiva e sonora (acompanhadas das complexas belas ilustrações da Joana) há cicatrizes profundas, corações desidratados, labirintos desconexos, uma multitude de sentimentos camuflados, experiências comoventes e retalhos de memórias costurados com pontos tortuosos de agulha já sem ponta. Confirmando a grande verdade que cada indivíduo nesta vida trava batalhas das quais não temos a menor idéia. Tocante por ser exatamente assim, inesperado e imprevisível, apesar da doçura infinita das escritoras.





E outro livro que eu estava curiosíssima para ler depois de toda repercusão (mais de 4.000 reviews na Amazon americana e 600 na Amazon britânica), com o aval de Stephen King na contra-capa, era The Goldfinch, de Donna Tartt. Eu comecei a ler um pouquinho agora, um pouquinho mais tarde, um pouquinho daqui a pouco. E depois de um tempo em já estava carregando o pesado livro por toda parte, na expectativa de encontrar tempo para mais uma página, mais um capítulo dessa Desaventuras em Série versão adulta. Quando dei por mim foram-se mais de 400 páginas lidas num período curtíssimo. Ainda não terminei (são 784 páginas) porque estou economizando páginas, um pouco por noite antes de dormir, sabe aquela pão-durice? Eu não quero terminar e ter que dizer adeus ao Theo Decker.

Só agora percebo o quanto senti falta de sentar com uma xícara de algo quente (builder's tea ou café com leite) e me perder voluntariamente na história de tal forma que quando ergo os olhos do livro já não sei mais onde estou ou quem sou. E de lamentar o fato de que os personagens não existem na vida real. E de perceber que meu chá esfriou, intocado.

Escrito a mão pela Marcia às 11:38 AM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(7)

janeiro 22, 2014

A little upgrade

Era uma vez um tempo em que eu fazia meus próprios upgrades do sistema que eu uso pra blogar. Eu mesma baixava o que precisava, transferia pro servidor, fazia ajustes no template. Lia fórums para corrigir meus erros, lia as documentações disponíveis e assim me virava. Até que um dia eu tive uma filha. The end.

Eu sabia que meu sistema estava atrasado várias versões, mas como ainda funcionava e como eu não escrevia com frequencia, ele me bastava. Até que o sistema ficou tão obsoleto que teve seu fim em Dezembro de 2013. A empresa, Movable Type, até que deu um longo prazo para que todos pudessem fazer o upgrade. O prazo foi de um ano. E eu obviamente nem sabia disso porque estava ocupada lendo que um Gruffalo tem joelhos ossudos e dedos virados e uma verruga venenosa na ponta do nariz.

Enfim, eis que desde o último post eu não podia mais acessar o sistema para blogar. Minhas opções eram: fazer o upgrade ou migrar para outro sistema. Nenhum dos dois eu teria tempo ou energia para vasculhar códigos e fazer sozinha. Contratei então a ajuda de uma pessoa que sempre ajudou muitos usuários no Movable Type Forum. E ahhh! O upgrade feito em poucas horas, meus templates corrigidos, anti-spam instalado, o chão limpo e as janelas lavadas.

Obviamente que uma terceira opção seria retirar o blog do ar, guardar meus backups, encerrar a conta no meu servidor. Mas a idéia de perder este espaço me deu um aperto no coração; já abri mão de tanta coisa, tanta coisa nesta vida.

Então pelo menos por mais um tempo manterei este meu canto cor de café com leite, minhas escritas irregulares, minhas cartas para Miss S, minhas fotos ruins com contraste demais. E meu contato com os (vejamos... cinco?) caros leitores que ainda passam por aqui e dividem a vista da minha janela.

Por hora, tudo o que eu precisava era de um simples upgrade.

Escrito a mão pela Marcia às 4:00 PM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(50)

outubro 13, 2013

She who Stirs the Pot

Aos poucos a vida vai voltando ao normal. Aos poucos a criança de dois anos e dez meses começa a ficar diferente daquela criança de dois anos e meio e mais diferente ainda daquele bebê de dois anos. Aos poucos a gente explica e ela entende. Aos poucos ela é menos exigente e mais companheira. Aos poucos.

Esta semana voltei a cozinhar com o mesmo prazer de antes ao invés de jogar alguma coisa às pressas no forno, exausta com noites mal-dormidas.

Encontrei uns tomates bonitos no supermercado a preço reduzido porque estavam muito maduros. Comprei duas caixas. E encontrei também esses mini-pimentões chamados Chiquiño. Comprei uma caixa.





Asseio-os devagar, no forno médio.





Utilizei mão-de-obra infantil para descascar cenouras.





Retirei um sem-número de cenouras dentro do meu açucareiro.





Cozinhei tudo devagar, por horas. Depois liquidifiquei a sopa, salguei, temperei. E apurei mais um pouco.





Fiz pão também. White Bloomer, do Paul Hollywood.





E tivemos um jantar com brinde. E um sabor de limpar o prato, que há muito tempo tivemos saudades.





No dia seguinte fiz uma torta de maçã (Sour Cream Apple Pie) com recheio de creme azedo e streusel de canela.





E hoje resolvi começar o Kitchen Cure do The Kitchn e limpei a geladeira. Utilizei mão-de-obra infantil mais uma vez.





Aos poucos o perfume de comida preparada pelas nossas mãos está voltando à nossa casa. Aos poucos a gente pensa, planeja, compra, prepara, se alimenta. Ainda há dias em que o Chicken Kiev comprado pronto vence e entra no forno junto com uma bandeja de purê de batatas também comprada pronta. Porque eu até sei descascar, cortar, ferver, amassar, temperar e preparar um purê de batata. Mas se eu faço isso tudo não sobra tempo de ler um livro no sofá preferido para a minha menina preferida. Prioridades. O sofá vence, sempre.

Escrito a mão pela Marcia às 4:02 PM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(6)

outubro 2, 2013

Autumn Introspection

Acredito com todas as células do meu ser que no Outono palavras são desnecessárias. O que a gente quer mesmo é tirar foto de folhas caídas e de café da manhã quentinho. Pelo menos é o que eu percebo -- e adoro ler -- no meu Feedly. Me sinto privilegiada de viver num país onde a introspecção não é considerada algo estranho. Porque quando a chuva fina dura muito mais do que a luz do dia essa quietude me traz conforto e aconchego.









Obviamente que vivendo com uma criança de quase três anos, que não dorme mais durante o dia, quietude é algo raro, senão suspeito. E talvez por essa mesma razão os poucos minutos que eu encontro para sentar quieta num canto são tão valiosos que preciso escolher cuidadosamente como gastá-los.

As vezes gasto fazendo uma nova xícara de chá porque a outra esfriou e não tomei nenhum gole. As vezes gasto assistindo ao Great British Bake-Off da semana passada que gravei e ainda não vi. As vezes
tomo banho, mas só as vezes.

E as vezes folheio (e até leio!) algumas de minhas revistas. Já não tenho mais tempo e inclinação para revistas que já não falam mais comigo. Então hoje importo a Taproot, que vêm lá do outro lado do grande lago, mas que fala o que eu gosto de ler, de imaginar, de sonhar. Fala de terra, de família, de Maple Syrup, de flores, de velhos potes vazios de geléia.





De manhãzinha faço café com leite, esquento meu steel-cut Irish Oats (que talvez eu tenha adicionado custard + maple syrup + banana, talvez não) e abro as páginas que me alimentam.





Mas como a Taproot é trimestral, na entressafra as vezes leio a The Simple Things, que é britânica e tem como proposta divulgar o ideal de uma vida simplificada. Porém logo nas primeiras páginas há um bom número de produtos sofisticados a preços não muito simplórios sendo oferecidos. Mesmo assim, entre uma ou outra matéria fútil, há matérias interessantes e bem escritas, as fotos são de bom gosto e há uma sessão fixa chamada Cake in the House, com receita de bolo. Sold.





Uma matéria que gostei foi sobre a história da profissão do leiteiro aqui na Inglaterra. E esta foto do leiteiro entregando o leite nessa casa bombardeada pela Blitz alemã, me encheu de admiração:





Diz a matéria que na época da guerra os leiteiros deixavam a garrafa de leite mesmo nas casas destruídas completamente, como forma de lealdade e solidariedade à família. Outros tempos.

Atualmente apenas 8% de todo leite consumido no país é distribuido via milkman. Aqui em nosso vilarejo nós temos milkman porque estamos rodeados de fazendas leiteiras. Garrafas de vidro são deixadas na porta ao anoitecer e pela madrugada o leiteiro vem com seu carro elétrico fazer a troca. Simplicidade da vida rural.

Outra coisa pitoresca de se viver no meio do nada? A caminhada que fizemos no domingo passado rendeu bolsos cheios de pinhas e acorns. Decoração de Natal = resolvida.





Enfim, para quem começou falando que sente falta da quietude já me alonguei demais. Que você leitor esteja aproveitando a estação da forma que mais lhe agrada.

Escrito a mão pela Marcia às 5:17 PM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(8)

junho 25, 2013

Forty

Hoje completo 40 anos.
E, hoje, não há outra idade que eu gostaria de ter.






Escrito a mão pela Marcia às 8:54 PM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(21)

julho 27, 2011

It Used to Be All Fields Around Here

Quando tudo isso aqui era mato eu iniciei meu blog. Hoje faz 10 anos que publiquei meu primeiro post. Muitas histórias da minha vida foram relatadas aqui, outras não. O blog sempre foi apenas uma fatia do bolo. Mas uma fatia muito especial, sem dúvida.

Aos caros leitores que ainda passam por aqui, cheers!

Escrito a mão pela Marcia às 8:49 AM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(31)

setembro 17, 2010

Officially Disabled

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Eu quase não menciono muito aqui a respeito da minha perda auditiva. Não porque eu tenha vergonha ou não queira falar do assunto. Mas principalmente porque para mim essa ainda é uma condição que venho me acostumando aos poucos, então não tenho experiencia suficiente para fazer grandes discursos. Até pouco tempo atrás eu não tinha a menor idéia de onde eu me encaixava: minha perda é clinicamente considerada "severa". Não é "profunda" (como os que nascem sem audição), não sei e não uso sinais, então não conseguia me envolver com comunidades que usam exclusivamente linguagem de sinais. Mas também não é "moderada" já que dependo bastante de leitura labial/facial.

E porque eu consigo me comunicar bem, muita gente pensa que minha perda não é tão ruim assim. Aliás a deficiência auditiva é uma das que recebe menos compaixão e empatia. Obviamente há deficiências que são mais evidentes e, por isso mesmo, consideradas "piores" ou "mais graves". Mas uma perda sensorial, qualquer que seja, é uma perda imensa do ponto de vista de quem a tem.

Cansei de ouvir comentários do tipo "ah, mas é igual usar óculos né? assim que você coloca os aparelhos auditivos fica tudo bem, né?" Não, não é. E nunca vai ser. Visão é uma coisa, audição é outra, caso nunca lhe tenha ocorrido. Os aparelhos ajudam sim, imensamente, mas a audição jamais será corrigida completamente. Sons variam de tantas formas que nenhum aparelho ainda é capaz de acompanhar. Sem contar que a maior parte do processamento da audição não acontece somente no ouvido, mas no cérebro. No meu caso, todos os ossos, membranas e nervos dos meus ouvidos estão intactos, sem nenhum problema. Minha perda é totalmente sensorial, no processamento que ocorre dentro do cerebelo.

Eu tenho o privilégio de poder ter um dos mais modernos aparelhos auditivos disponíveis atualmente (sem contar implantes cochelar). Os aparelhos nos dois ouvidos se comunicam entre si via wi-fi, os speakers ficam dentro do canal auditivo (não preciso de moldes de silicone nos ouvidos), contam com detecção automática de diferentes situações acústicas, conexão via Bluetooth, controle remoto e tal. Mas mesmo assim, por melhor que sejam, eles não substituem o processamento que o cérebro faz naturalmente.

A percepção da direção do som é, por exemplo, um dos processos que nenhum aparelho lhe traz de volta. Outro é a falta de filtragem de sons irrelevantes, barulhos de fundo que o cérebro normalmente ignoraria, mas que os aparelhos amplificam da mesma forma que os sons relevantes. Porém, talvez o maior desafio que os aparelhos encontram seja lidar com vozes. As frequencias dos sons podem até ser corrigidas num certo ponto, mas não o suficiente para o cérebro ter 100% de certeza da pronúncia. E vozes vindas de fontes artificiais (telefone, tv, rádio) são praticamente impossíveis de assimilar e decifrar.

Por muitos anos eu achei que o uso dos aparelhos seria suficiente para levar uma vida "normal", que eu poderia "advinhar" boa parte das falas, que eu poderia me virar de alguma forma no telefone adaptado, que ninguém precisaria saber das minhas dificuldades. Pelo menos na minha experiência, essa estratégia foi um grande fiasco e só fez da minha vida um inferno. Dores de cabeça gigantescas porque a cada mísera palavra meu cérebro percorria todo o vocabulário do mundo para advinhar a correta dentro do contexto da conversa, em milésimos de segundos. Eu não entendia o que era dito e quem falava comigo, ignorante da minha deficiência, ficava confuso, frustrado ou irritado. Demorei para aceitar que minha audição não é normal e que nunca mais vai ser. Como consequencia, eu me sentia uma idiota, minha confiança ia pro lixo e minha auto-estima fazia as malas pela milésima vez.

Tudo começou a mudar quando conheci uma entidade de apoio (volto a falar dela num outro dia) e nela encontrei pessoas na mesma situação. Conversando com elas recebi muita informação a respeito do que estava disponível para me ajudar. Também pela primeira vez percebi o quão vulnerável minha vida se tornou. E o quanto eu precisava aceitar o que estava sendo oferecido. Nem sempre eu sou capaz de perceber sinais sonoros de alerta (principalmente se estiver dormindo, sem os aparelhos) e com isso perco a chance de me salvar ou salvar alguém que dependa de mim.

Alguns exemplos dos serviços que me foram oferecidos:

  • Acesso aos serviços de emergência (polícia, ambulância, bombeiros) via mensagens de texto no celular, exclusivo para deficientes auditivos ou com problemas de fala (mutismo, gagueira, bloqueio).
  • Apoio do Serviço Social para obter equipamentos com alertas visuais e com vibração (inclusive baby monitors).
  • Desconto em transporte público (porque nem todos deficientes auditivos podem dirigir e porque também é fácil se perder quando as estações são anunciadas apenas via auto-falantes).
  • Disability Living Allowance - DLA, (mínima) ajuda financeira do governo para arcar com os (altos) custos dos equipamentos e assistências.

Estou cadastrada em todos os serviços acima. A mais recente, relevante e difícil conquista foi o DLA, que agora registra nos arquivos do governo que sou cidadã deficiente. Parece um pouco trágico e triste, mas pelo contrário, é um grande e importantíssimo passo nessa minha condição atual. Não pelo valor monetário, que mal pagaria pelos custos das baterias, mas pela oficialização e reconhecimento como portadora de uma deficiência, que embora seja invisível, não é menos monumental. A partir de agora tenho direito às leis protetoras (Disability Discrimination Act), ao suporte e ao apoio como qualquer outro deficiente.

Desde que passei a aceitar minha deficiência, minha vida deu um salto imenso de qualidade. Agora sempre que eu preciso me comunicar com médicos, dentistas, gerentes de banco, etc sempre inicio a conversa dizendo: "eu sou deficiente auditiva, preciso que você fale comigo olhando pra mim e talvez eu tenha que pedir pra você repetir". E tudo, tudo flui milhões de vezes mais fácil que antes.

Em inglês, sempre uso a palavra "deaf" ao invés de "hard of hearing" porque percebi que tem mais impacto em como as pessoas respondem. Eu preciso que elas falem olhando pra mim, sem aumentar o tom de voz, que aliás é contra-produtivo já que distorce o som e a forma dos lábios. Se eu digo que sou "hard of hearing" dá a impressão que só estou com preguiça de ouvir e que faço pouco esforço. Mas se eu digo que sou "deaf" minhas instruções são levadas mais a sério.

Há ainda uma outra grande e linda mudança pela frente a respeito da assistência auditiva em minha vida. Mas ainda deve demorar uns dois ou três anos para acontecer (estou na fila de espera), então conto quando estiver mais próxima de se concretizar.

E por último e não menos importante, tudo, tudo isso não teria acontecido ou sequer começado se eu não tivesse o maior dos incentivadores do mundo, que é o Martin, aquele moço que mora comigo. Ele, que jamais perdeu a paciência comigo quando não ouço, ele que insiste para que eu faça exames, ele que pesquisa sobre aparelhos e equipamentos, ele que viaja 200km para encontrar um audiólogo ultra-nerd e geek para ajustar as frequencias da melhor forma possível, ele que vai comigo em todas as consultas, ele que adapta nossa casa para todas as minhas necessidades. Ele que terá para sempre minha eterna gratidão. ♥

"light up, light up
as if you'd have a choice
even if you cannot hear my voice
I'll be right beside you dear..."

-- Run, Snow Patrol

Escrito a mão pela Marcia às 2:24 PM | mais em An ordinary life | Comente este fragmento(24)

março 2, 2010

Half a Day in Pictures

Gosto quando alguns dos meus blogs preferidos publicam "A Day in Pictures", com várias fotos despretenciosas de um único dia deles, do começo ao fim. Alguns são bem metódicos e incluem até o horário em que as fotos foram feitas. Outros são bem detalhistas e não perdem nenhum ângulo do dia. Existem também aqueles que se esforçam em exibir como a vida deles são incrivelmente ocupados, interessantes, culturais, blablabla. Yaaawn, desses eu não gosto. Eu prefiro os honestos, mundanos e ordinários. Feitos com qualquer câmera, sem produções. Tentei fazer um ontem. Estava com uma febre intermitente e esqueci de documentar várias horas do meu dia. Então o que restou foi quase que um meio dia em fotos. Não tente analisar minha vida inteira pelas fotos a seguir. São apenas snapshots de uma vida extremamente ordinária e mundana, porém honesta, nada a mais.


Começo do meu dia: oi escova, sou eu de novo




Primeira tarefa do dia:
conferir se Muffin continua hibernando




Segunda tarefa: alimentar Mr. Pepe
que me espera na porta do conservatory




Só então café da manhã: cappuccino e pão irlandês Barmbrack




Terceira tarefa: conferir se o refeitório do jardim foi usado
pra minha surpresa alguém comeu e deixou um cocô do lado do prato




Providenciar uma proteção prova d'água hi-tech para a câmera IR




Testar a câmera na TV:
refeitório agora limpo e com comida fresca




Housework: aspirar o carpete e o sofá




Housework: lavar roupas




Housework: deixar de ignorar a louça
e lembrar de comprar detergente




Lunchtime: sopa para convalescentes




Acrescentando Goji berries na sopa




Recebendo compras do supermercado
e cuidando para que o leite não escape da sacola




Xarope




Pepinos




Saindo para caminhar




Muro "dry wall" quebrado.
Pelo jeito alguma vaca tentou pular a cerca




Eu nunca como nada a tarde,
mas ontem quis experimentar esse mel




Cobertor macio, livros, lenços com bálsamo e lip balm
e a febre não passa




Hora de fazer o jantar




Depois do jantar vimos o porco-espinho
que tem visitado o refeitório do nosso jardim




Suspeitamos que seja nosso conhecido Nutkin,
que adora amendoins




De sobremesa tivemos profiteroles
assistindo a Desperate Housewives




Triste ao saber da morte do Kristian




Bedtime



Escrito a mão pela Marcia às 8:21 AM | mais em An ordinary life

janeiro 15, 2010

My Winter Gear

Este post não tem a intenção de ser um guia, uma vez que neste meus muitos anos acumulados tenho aprendido às duras penas que "tudo que sei é que nada sei".


Depois de muitos invernos batendo os dentes e ficando azul, finalmente acredito que nos dois últimos invernos estive confortável porque que tenho usado as roupas e os acessórios adequados pro inverno britânico. Não comprei tudo de uma vez, mind you, cada peça foi comprada aos pouquinhos de acordo com a lâmpada que acendia na cabeça. E isso levou uns bons oito anos.

Em meus primeiros invernos nesta terra esquecida pela sol usava minhas roupas do Brasil, que se resumiam em blusas de lã, algodão e um casaquinho. Jamais foram suficientes para enfrentar temperaturas negativas, com geada, vento e chuva ao mesmo tempo. Eu mal podia ficar poucos minutos fora de casa que passava frio e ficava emburrada (ainda fico se passo muito frio ou muita fome, mind you).

Minha irmã, que então morava no Japão, me enviou gentilmente vários casacos de lã e de nylon mais quentinhos e realmente me ajudaram imensamente por algum tempo. Mas ainda assim eu precisava usar muitas blusas por baixo.

O pai do Martin foi o primeiro a sugerir minha mudança de vestimenta: "você precisa de thermals", ele me disse um dia na casa deles que não tem aquecimento central. Thermals são roupas fininhas de uma malha ultra-macia que você usa por baixo das roupas normais. Geralmente são vendidas nas áreas de lingerie das lojas de departamento; existem modelos masculinos e femininos. Na Inglaterra, é bem comum e barato comprar os thermals no Marks & Spencer e foram lá que comprei meu primeiro par.

Então minha vida mudou. Como ficam quase colados no corpo, eles mantém o calor mas sem incomodar. E são discretos para não aparecer por baixo da sua roupa normal. Mas eu sei que falando assim, você leitor já está lembrando da sua tia velha com as ceroulas encardidas. De fato, o princípio é o mesmo. Porém, se você quiser se distanciar da idéia de "roupa da terceira idade", há uma outra opção chamada baselayers, que são thermals voltados para esportistas e montanhistas, disponíveis em lojas de esporte "outdoor". A qualidade e tecnologia envolvida são superiores e, portanto, são mais caros. Mas valem a pena, são excelentes e ao invés de se sentir uma tia velha (o que sou, na verdade), você se sente um atleta olímpico:


O próximo passo foi encontrar um casaco. Na Inglaterra chove. Muito. E você precisa sair na chuva inevitavelmente. E provavelmente sem guarda-chuvas por causa dos ventos. Comprei um bom casaco a prova d'agua e com forro de fleece quando estávamos na África do Sul. Usei por muitos anos e me mantinha aquecida e seca. Porém era pesado. Em caminhadas que demoravam horas, eu chegava em casa morrendo de dores nos ombros e emburrada (provavelmente com fome também). O mesmo acontecia com sobretudos de lã, muito peso e sem proteção contra chuvas.

Nas viagens à Lake District, fui apresentada aos Down Jackets, que são casacos feitos de penas de gansos. Jamais vi nenhum ganso tremendo de frio e provei um. Oh my good lord almighty. Pesa próximo a nada e aquece imediatamente. E é fofo, macio, confortável, delicioso e quentinho. Nunca mais olhei pra trás. Encontrei Jesus e ele é um ganso. O meu é um daqueles que você fica parecendo um boneco Michelin, mas há outros modelos diferentes, em que você fica parecendo uma lagarta:


Na verdade não importa porque como a maioria dos Down Jackets não são à prova d'água, é preciso usar também um outro casaco por cima, os waterproof jackets. Se tiver Gore-tex, excelente, se não há vários sprays pra repelir a água, que funcionam bem também. Há alguns casacos em que o capuz gira com a sua cabeça o que é excelente para atravessar a rua, por exemplo. Os dois casacos juntos (down + waterpoof) não pesam nem um terço do que o meu antigo casaco pesava.


Há ainda os Down Jackets à prova d'agua, geralmente são o topo da linha e portanto, mais caros:

Nas pernas, eu geralmente uso o thermal e calça jeans ou calça de caminhada que é mais flexivel. Porém, assim como o casaco, é crucial ter uma camada à prova d'água. Acredite, não é nada agradável arrastar um jeans enxarcado de chuva, pesado e gelado num dia de frio cortante. Emburração na certa. Mas a salvação está próxima e é barata. São os overtrousers ou rainpants, calças de nylon seladas, que depois de usadas podem ser dobradas e colocadas na bolsa (geralmente são vendidas com uma bolsinha).


Algo que aprendi desde o ano passado é que a neve é linda e tal, mas que com o tempo vira um lamaçal desgramento, cheio de barro, óleo e xixi de cachorro. E que gruda na sua calça. Recentemente adquiri os gaiters, para proteger a barra da calça se eu não estiver usando o overtrouser. É um item essencial também para quem mora na roça, como nós, onde a lama impera. Depois de usado basta colocar na máquina de lavar e seca rapidinho.


O que nos leva finalmente à questão dos calçados. Geralmente boas meias de caminhada e um bom sapato confortável bastam. Porém, em casos extremos em que temos gelo e neve, um bom solado é crucial. Pense num pneu careca no gelo. É preciso um solado com vincos profundos para não escorregar. Lojas outdoor decentes têm sempre rampas e diferentes superfícies para você testar o solado quando estiver provando botas de caminhada. Eu havia testado um par, comprado e levado pra casa. Fiquei com ela o dia todo (andando no carpete) mas não estava contente. Voltei à loja, testei mais algumas e finalmente encontrei uma que serviu bem e troquei. Hoje é meu calçado mais fiel em tempos de chuva, barro, gelo e neve. E longas caminhadas.

Acessórios como luvas, chapéus e cachecóis, são escolhas pessoais, mas não menos essenciais. A perda de calor pela cabeça e colar são grandes, algo que só aprendi aqui na Inglaterra. Manter a cabeça aquecida faz uma enorme diferença. No momento estou a procura de um chapéu ideal. Ainda não encontrei. Como uso os aparelhos auditivos (que não são mais pinks há muitos anos, mudei pra uns mais modernos, que agora são brancos), gorros muito apertados machucam e provocam microfonia. Minha mãe tricotou um pra mim, bem macio e colorido e tem me ajudado bastante. :-)

Ah sim, vale lembrar que toda essa indumentária é para enfrentar o frio lá fora por algumas horas. Dentro de casa, restaurantes, lojas e afins há aquecimento central e a temperatura é agradável. Nosso aquecimento dentro de casa está programado para 19ºC, então mesmo em casa visto uma blusa. As mais confortáveis pra mim são as de fleece, já que o contato direto com a lã, angorá ou cashmere me dão alergia.

Se me cabe dar apenas uma dica aqui: eu tenho 1m56 e sou basicamente petite, calçando size 3 (34 no Brasil). Com essas dimensões, encontro calçados e roupas em tamanho juvenis, voltado para adolescentes. Então quase tudo relacionado acima comprei na área "kids", pagando menos da metade do preço adulto e sem VAT porque vestimentas infanto-juvenis são livres de impostos. E também aproveito para comprar roupas de inverno perto da primavera, quando as lojas estão loucas para se livrar do estoque de inverno. No ano passado comprei um casaco waterproof com 50% de desconto.

Enfim... se você estiver apenas visitando países com climas parecido com os Inglaterra por alguns dias, muito provavelmente vai ficar super bem com as roupas que trouxer, sem precisar comprar nada a mais. Como mencionei no começo, isto não deve servir de guia. São apenas itens que funcionaram comigo, talvez não sirvam pra mais ninguém. Mas, se como eu, você estiver enfrentando um clima miserável dia após dia, mês após mês, décadas após décadas, ter alguns desses itens é a diferença entre viver confortável ou eternamente emburrada.




:o)

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novembro 25, 2009

Uncomplicated

Outro dia preparei um certo prato pro jantar e Mr.M devorou e pediu para que repetissemos o mesmo prato durante a semana. Acabei esquecendo e fiz outros jantares diferentes. Mas depois de alguns dias Mr.M lembrou e perguntou se ainda estava nos meus planos refazer o tal prato. Fiz então o jantar tão esperado e requisitado por Mr.M, que comeu com satisfação e deleite.

O prato em questão? Arroz temperadinho, ovo frito e salada de tomates.

Easy peasy.

Escrito a mão pela Marcia às 5:45 PM | mais em An ordinary life | mais em Greedy Cow

outubro 10, 2009

Juggling

Como disse uma vez, em algum ano que não me lembro mais porque meus dois neurônios agora estão grisalhos e banguelas, problemas existem todos os anos, uns são mais fáceis, outros mais difíceis, mas sempre presentes, apenas diferentes. E eles também vão passar. Como passaram os do ano passado e do ano anterior e do anterior àquele.

No momento, meu pet hate tem sido a velha conhecida burocracia. Tentando alterar a matrícula do apartamento em SP para o nome de casada, incluindo o nome do meu respectivo cônjuge, para autorizar a venda do imóvel. Vocês não tem idéia da monstruosidade da situação. Porque o respectivo cônjuge não é brasileiro, mas precisa ter CPF e documentos autenticados para constar na matrícula. Eu não vou aborrecer vocês com os detalhes, mas só vou listar aqui que isso envolve um tabelião britânico que cobra preços extorsivos, um Consulado com má vontade, uma despachante sem educação, um corretor confuso, uma procuradora/advogada de confiança, um agente financeiro sem noção, um cartório lotado, um correio em greve, um banco em greve, um Royal Mail ameaçando greve. Ah sim, e um respectivo cônjuge que está viajando de novo e não pode assinar nada até voltar. Earth, swallow me.

Não há um dia em que eu não acorde e tenha vontade de entrar em coma e acordar daqui cinco anos. Mas eu sei que daqui cinco anos isso tudo ainda vai estar esperando por mim, então é melhor continuar acordada e resolver isso logo.

O que mais me aborrece é que por precisar autenticar alguns documentos em tabelião britânico eu não posso ir pro Brasil. Tinha planos de ir e visitar meus pais que continuam precisando de cuidados e abraços. Esperava já estar de volta, na verdade. Mas não posso nem marcar uma data porque não sei quanto tempo esse processo ainda vai se arrastar. *Sigh*

Por um outro lado menos nublado, tenho outra paciente espinhuda por aqui já faz duas semanas. Estive tão ocupada que a pobre não tem nenhuma foto, nem videozinho engraçadinho. É uma fêmea chamada Misty, que foi trazida para mim por uma velhinha muito velhinha mas muito simpática e cuidadosa. Ela encontrou a Misty no jardim a luz do dia, entrou em contato com o veterinário, que a encaminhou para mim. Ela estava com 100g e hoje pesa 650g. Nesse peso o Spikey já estava livre e solto, mas como agora estamos próximo do inverno e do período de hibernação, os porcos-espinhos precisam engordar até pelo menos 800-900g para sobreviver. Misty tem uma personalidade totalmente diferente do Spikey, muito valente e agressiva, morde, bufa mau-humorada, empurra, dá fortes cabeçadas, enfim uma pequena hooligan. Mas é ultra-saudável, tem um apetite infinito e uma condizente capacidade de também esvaziar seus intestinos. Minha única preocupação é que ela não tem mostrado interesse em construir seu próprio ninho, algo que Spikey já era mestre nessa mesma idade.

Misty não era a única hedgehog por aqui. Desde que Spikey nos deixou, um outro porquinho começou a nos visitar por várias semanas e se acomodou na casa que antes era do Spikey. Dormiu todas as noites na casa e dentro dela construiu um ninho com feno de admirar qualquer arquiteto. Chamamo-o de Nutkin porque ele adora amendoins e castanhas. Acompanhamos o crescimento dele todos os dias, mas sem interferir, Nutkin continua completamente selvagem. Esta semana ele nos deixou para ir morar em outro lugar, já estava enorme, certamente pesava por volta de um quilo e tenho certeza que está saudável o suficiente para hibernar.

Neste mesmo tempo, a BBC começou a apresentar o programa AutumnWatch, que é uma continuação do já consagrado SpringWatch, em que acompanhamos o desenvolvimento de vários animais selvagens ao vivo, em tempo real, praticamente um Big Brother mas com personagens mais inteligentes, ha. Eu AMO ambos. SpringWatch é mais famoso porque mostra passarinhos desde o nascimento do ovo até deixarem o ninho, e envolve também toda a realidade brutal da natureza, com ataques, mortes, desastres, finais infelizes. AutumnWatch é novo, mas não menos interessante. Ambos contam com a presença de ambientalistas e apresentadores muito bem informados. Um deles é Simon King, meu preferido, famoso pela série Big Cat Diaries. Outro é Chris Packham, polêmico naturalista, porém extremamente bem-informado e fã dos Smiths, tee hee. E também Kate Humble, atual presidente da RSPB.

Na semana que vem o AutumnWatch vai apresentar um programa dedicado à hibernação e os porcos-espinhos vão ser o tema principal. Vários reabilitadores e amantes dos espinhudos, inclusive yours truly, estamos entupindo a BBC com emails pedindo para que eles incluam nesse programa fatos importantes para educar a população corretamente sobre como ajudar a espécie. Vamos ver se dá resultado, mas não tenho muitas esperanças.

Recentemente saiu em vários jornais nacionais que a moda agora é ter um African Pigmy Hedgehog como animal de estimação. É o must-have deste Natal (!!!). Uma publicidade perigosíssima e irresponsável porque logo que os desavisados e desinformados perceberem que o porco-espinho dorme o dia todo, faz mais cocô do que aparentam, morde, machuca e não gosta de posar para fotos fofinhas, vão jogar o animal num parque ou num jardim, como já fazem com ferrets, iguanas, cobras. E essa espécie não sobrevive solta, nunca foi selvagem e não é nativa. O outro risco é que outros mais desavisados ainda, vão catar o porco-espinho selvagem que visita o jardim (que não é African Pigmy e sim European Hedgehog) e transformá-lo em bicho de estimação. Sem perceber que essa espécie é diferente, protegida pela Wildlife and Countryside Atc, cujo encarceramento é crime, além de ser um ato cruel e egoísta.

Mas enfim, ao menos tentamos.

É esta a situação por aqui, caros três leitores negligenciados. Não vejo a hora de respirar outra vez. De postar fotinhos de comida, de folhas de outono, de passarinhos famintos. Por enquanto isso parece um sonho distante e quase irreal.

Escrito a mão pela Marcia às 10:52 AM | mais em An ordinary life

outubro 24, 2008

The Way We Shop

Oh dear, mais uma semana se passou e tudo o que tenho a contar por aqui é a minha emocionante compra semanal. Eu sei, eu sei, uma euforia atrás da outra. Whoopee-de-doo. Desta vez escolhi a cesta de legumes Summer Box, que contém produtos do finalzinho da estação passada mas que ainda estão belos e faceiros.

Adorei as espigas de braços levantados. Yay \o/.

E outra boa novidade é que agora podemos fazer nossas compras de supermercado no Ocado (Waitrose). Desde que nos mudamos pra cá faço nossas compras de supermercado online -- no Sainsbury's -- porque acaba saido mais barato do que dirigir até outra cidade e também encontro tudo o que não tem aqui no vilarejo.

O Ocado começou a fazer entregas por aqui na semana passada. Me mandaram email, voucher de desconto e assim me fisgaram. O que achei bacana é que dá para ver quais os horários que a van deles vai estar na vizinhança e, se for da sua conveniência, você pode marcar para o mesmo horário e ajuda a reduzir o consumo de combustível e emissão de poluentes, e ganha também um outro desconto.

A outra vantagem é poder contar com a qualidade e variedade única de alguns produtos do Waitrose. Desta vez encontrei um vinho da vinícola de Mondavi, na Califórnia, que sempre tive curiosidade de experimentar de tanto que leio a respeito do fundador Robert Mondavi nos foodblogs e no Chucrute da Fer.

Rótulo bacaninha



Prática tampa de rosca

Sou uma analfabeta a respeito de vinhos, então só vou dizer que gostei muito, achei delicioso. Gosto de Chardonnay, apesar de já estar bastante frio para tomá-lo geladinho e fresquinho. Fez um bom contraste com o calor fervoroso do curry jalfrezi que tivemos pro jantar.

Live a little: para o Waitrose e boa parte dos ingleses,
viver é encher a cara. Tá certíssimo.


E para me conquistar de vez, o Ocado também me mandou um chocolatezinho Lindt de cortesia, um jornal The Times do dia e um voucher de mais uma garrafa de Mondavi grátis na próxima compra. Tô vendida, facinha.


Bribery

Então é isso, um post só pra falar da minha experiência supermercadística da minha vidinha ordinária. Eu poderia contar também como tem sido viver sem aquecimento central que quebrou, como o médico desmarcou meu exame e o próximo horário é só daqui 40 dias, como a casa continua o mesmo canteiro de obras de sempre, como os insetos cheio de patas começaram a achar que é uma boa idéia vir morar *dentro* de casa, que é menos frio que lá fora. Pois então. Passe a garrafa.

Escrito a mão pela Marcia às 3:30 PM | mais em An ordinary life

abril 18, 2008

Rice and Beans

Depois de ter confessado aqui uma parte da rotina deste nosso lar e ter ficado com a nítida sensação, após ler os comentários, de sermos o único casal alienígena, verdes, de olhos esbugalhados e com pares de antenas na cabeça da face da terra a jantar às seis e meia, descobri que a bacaníssima Fer do Chucrute também serve o jantar no mesmíssimo horário! Me sinto humana novamente, ainda que anciã, mas hey, não falta muito e estarei jantando às cinco de canudinho e manta de lã no colo, assistindo à Antiques Road Show.

Mas enquanto esse dia não chega, os jantares por aqui continuam como sempre. E desde que nos mudamos aqui para Sheffield tenho feito menus semanais. Control freak, eu sei, mas explico. Nosso supermercado mais próximo é o Waitrose. Não temos a menor paciência de atravessar a cidade, gastar combustível, enfrentar trânsito infernal, estacionamento desorganizado e caixas mal-humoradas só para comprar no outro supermercado barato e anti-ético (cof Tesco cof) da cidade. Então é no Waitrose que vamos. Fazemos nossas compras lá uma vez por semana. E se eu não fizer uma lista rigorosa de tudo o que vamos consumir na semana, sem mais nem menos, nosso carrinho transborda de supérfulos e a conta vai pra estratosfera. O Waitrose é recheado de tentações e eu sou uma pessoa fraca, que se encanta com tudo o que encontra pela frente, de confit de canard à aliche enlatado.

Durante a semana, vou tendo idéias via foodblogs, revistas Delicious, livros, programas de culinária. E vou rabiscando o menu. Depois faço a lista dos ingredientes que preciso desse menu, acrescento as coisas que faltam pela casa e pronto. O mais importante detalhe é ir sempre com Mr.M porque é ele que controla a fluidez do carrinho pelas gôndolas, me puxando e lembrando que não, palmito não está na lista. Rats.

Muitas vezes Mr.M também dá palpites no menu, geralmente porque nos finais de semana a cozinha é dele. E quase toda semana eu pergunto se há algo que ele gostaria de comer em particular na semana que vem, uma tarefa extremamente complicada já que ele sequer sabe o que quer comer daqui meia hora, o que dirá daqui uma semana. No entanto, sempre, sempre recebo como resposta: "Can we have rice and beans on Monday? I like rice and beans on Mondays."

E então arroz com feijão se faz, quase todas as segundas-feiras, nesta casa. Às seis e meia.

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setembro 1, 2006

My Six Little Things

A Giorgia pediu (=intimou) e eu obedeço senão ela me processa (hahaha). Ela quer saber "seis coisinhas" sobre mim. Pelo que entendi, devo apontar seis verdades sobre minha pessoa que nem sempre ficam muito claras para quem pouco me conhece. Hmm.

Coisa Número Um: Sou essencialmente uma pessoa bem-humorada. Adoro rir, melhor ainda gargalhar, adoro estar entre pessoas alegres e inteligentes, que sabem fazer piada de si mesmos, que têm raciocínio rápido para rir e tirar o barato na hora certa. Gosto de rir de besteiras, mas não gosto de nada forçado ou que não seja natural. Odeio ter que sorrir amarelo e sou péssima para fazer isso.

Coisa Número Dois: Sou ultra-mega organizada em vários aspectos da minha vida. No entanto, meu guarda-roupas e minhas gavetas são uma bagunça. Passo as camisetas e guardo-as nas gavetas, mas junto com elas as camisetas sem passar também dividem o mesmo ambiente e elas se organizam num Movimento Sem Ferro e logo uma está por cima das outras, invadindo território, amassando propriedade alheia.

Coisa Número Três: Sou extremamente caseira e isso não me entedia. Eu gosto do meu canto, gosto de ficar em paz, gosto de ter-me como minha própria companhia. Exercito minha mente, exercito minhas habilidades, cuido dos nossos interesses e das nossas necessidades na tranqüilidade do nosso lar, sem ter que provar ou explicar nada a ninguém.

Coisa Número Quatro: Em momentos de crise, coloco meus dois pés no chão e procuro ser mais racional possível. Procurar uma solução é o que sempre me vem à cabeça. Odeio drama queens perto de mim. Ou ajuda a encontrar uma solução ou cai fora. Gente que tem faniquito, que faz que vai desmaiar (e nunca desmaia) ou que chama atenção para si ao invés de se concentrar no problema me dá nos nervos. Porque pra mim isso tudo soa egoísmo. Já temos um problema, se você desmaiar porque não sabe dar conta da crise, daí eu vou ter dois problemas enquanto você dorme até passar. Get a grip or get lost. Não, não tenho paciência com drama queens, muito menos com egoístas.

Coisa Número Cinco: Tenho boa memória. Guardo frases exatamente como elas foram ditas. Guardo momentos e acontecimentos com todos os detalhes. Guardo sentimentos, cheiros, sabores, texturas. Guardo rostos, nomes e personalidades. Mas não sei guardar números, datas de aniversário ou endereços. Lembro de passado muito antigo, lembro de muita coisa. Por isso mesmo, muitas vezes perdôo, mas nunca esqueço. "Forgetting you but not the time..."

Coisa Número Seis: Sou omnívora e bastante consciente de tudo o que passa pela minha boca. Não tomo refrigerante há vários anos a não ser quando é a única opção segura, mas não gosto, não compro. Sal e açúcar uso com extema moderação porque aprendi o quando ambos escondem o sabor do alimento. Café para mim só precisa de açúcar quando é de baixa qualidade, café bom não precisa. Um pedaço de chocolate com pelo menos 60% de cacao é para mim muito mais rico, saboroso e satisfatório do que um quilo de Cadsbury (arghhh!). Na Inglaterra compro orgânicos da fazenda local, compro frangos e ovos só free-range, preparo refeições simples mas sem fritura, sem molhos de saladas prontos (arghhh x2!), sem queijos processados ou temperos artificiais. Não incentivo ninguém a fazer o mesmo, é uma coisa minha mesmo.

Escrito a mão pela Marcia às 5:23 AM | mais em An ordinary life

outubro 8, 2005

...and She's Dangerous

Este post não tem intenção de ser revival, mas vamlá. Vai ficar enorme.

Duas pessoas em minha vida foram meus grandes influenciadores no que diz respeito ao meu gosto musical. Meus dois irmãos, Júlio e Claudinei. Eles são respectivamente sete e seis anos mais velhos que eu.

Quando eu era uma pequena garotinha de 12 anos que -- god forgive me -- gostava de dançar Não Se Reprima, mesmo quando não estava vestida de colant rosa pós-aula de jazz (que segundo a Clau, era super cool, sub-zero, fazer Jazz na década de 80). Mesmo com essas tendências doentias, me juntava aos meus irmãos pra assistir Som Pop, na Band e FM TV, na Manchete (somos anciões ou o que??) todos-os-dias-sem-falta. E eu assistia tudo de olhão enorme, sem ter a menor idéia do que estavam cantando. E achava graça aquele moço de cabelão cantando "Mamma Mia, Mamma Mia, Mamma Mia let me go..." Hahaha, era engraçado e eu ficava repetindo "Mamma Mia, Mamma Mia" porque era o único trecho que eu sabia cantar. Na verdade acho que até hoje não sei cantar mais que isso em Bohemian Rhapsody.

No meu aniversário de 13 anos, porém, ganhei do Júlio uma fita cassete original. Kiss - I Love it Loud. Eu estava salva para sempre.

Meus pais, queridos que são, perceberam que os filhos eram mesmo fãs de música, seja lá o que andavam ouvindo, e compraram nosso primeiro aparelho estéreo Gradiente. E então abriram-se as portas para uma avalanche de diferentes ruídos em nossa casa.

Júlio começou a comprar álbuns que eu jamais tinha ouvido falar. The Smiths, foram um dos primeiros, se não me engano. Não lembro qual foi exatamente o primeirão que chegou em casa, mas The Queen is Dead foi certamente um dos primeiros. Echo & The Bunnymen não tardou a chegar com seu Songs to Learn and Sing. Jesus & the Mary Chain e sua microfonia inacreditavelmente doce em Just Like Honey. Desses, tivemos toda a coleção completa. Joy Division, U2, Everything But The Girl, The Police, Felt, entraram timidamente pela nossa porta da frente. Todos, se você ainda não notou, britânicos.

E então Claudinei um dia voltou pra casa com um álbum de The Cure - The Head on the Door. Lembro todos nós em casa ouvindo ao álbum quietos, de boca aberta. O que era aquilo? Nos tornamos grandes fãs e marcamos na memória quando fomos os quatro juntos ao show deles em São Paulo, o primeiro show que fui, aliás, ainda aos meus 14 anos. Já sabia as letras de cor e de trás pra frente. Sabia também a tradução, porque já tinha traduzido todas as letras com um dicionário de bolso (tempo abundava na época), que aliás explicam meu atual vocabulário e pronúncia em inglês.

A partir de Head on the Door, meus irmãos começaram a ter gostos distintos de música. Claudinei começou a me apresentar bandas, digamos, um tanto que condizentes ao meu então momento teenager. Em pouco tempo meu repertório preferido consistia em Never Mind the Bollocks (Sex Pistols), Pleasant Dreams (The Ramones), The Story of The Clash e principalmente infinitas doses de Dead Kennedys. Toquei tantas vezes o vinil branco de Fresh Fruit for Rotting Vegetables, que até hoje consigo cantar California Übber Ales. Aos quinze, não era tão fácil decorar tal letra:

"Knock knock at your front door
It’s the suede denim secret police
They have come for your uncool niece
Come quietly to the camp
You’d look nice as a drawstring lamp
Don’t you worry, it’s only a shower
For your clothes here’s a pretty flower
DIE on organic poison gas
Serpent’s egg’s already hatched
You will croak, you little clown
When you mess with President Brown
(...)"

Ahhh lovely little girl I was... Jackie, minha cunhada, que foi punk na hora certa e no lugar certo e fez careta de nojo pra Rainha Elizabeth II quando o pai deles foi condecorado, dá risada e não acredita quando canto Kill the Poor ou quando conto que eu e Claudinei fomos ao show the Toy Dolls.

Mais de vinte anos se passaram desde a época em que eu era ricamente influenciada pelo bom gosto dos meus irmãos, cada um com sua característica. Claudinei seguiu para o lado do punk-surf-rock, depois pro surf-rock, depois pro surf-surf (ele é excelente surfista, se é que não ficou claro) e eu não o acompanhei porque, well, no mar só sei catar conchinha. Júlio continuou por muito tempo a me apresentar bandas interessantíssimas, de Kraftwerk e Nick Cave à REM e Lou Reed. Ainda sinto muitas saudades dos álbuns dele e tento comprá-los em CD agora, mas não tem a mesma graça dos idos tempos das descobertas.

No entanto comecei a andar com minhas próprias pernas, com a vantagem que tinha o conhecimento suficiente para distinguir o que realmente me agradava ou o que era passageiro. Ou o que era total rubbish.

Todo esse discurso enorme surgiu de uma só vez em minha cabeça quando ontem Martin me deu de presente o American Idiot, a ópera de Green Day. Banda que eu gosto desde 1996, época do álbum Dookie. Banda que nenhum dos meus irmãos me apresentou, mas que de uma certa forma me faz lembrar dos dois, seus antigos álbuns, todos os shows assistidos, todas as revistas Bizz lidas em turnos, as noites ouvindo Lado B na 89FM, todos os arcordes que acostumei a gostar.

Na época em que morávamos juntos, meus irmãos eram minha MTV, meus iTunes. Da melhor qualidade. Um legado riquíssimo que carrego, que importa só a mim, que faz sentido só pra mim. Ouvir CDs para mim é como abrir um álbum de fotografias. Bons tempos, boas memórias, velhas histórias e cabelos ridículos.

Enfim, nas décadas que se passaram e eu e meus irmãos tomamos diferentes rumos na vida, muitas novas bandas vieram e passaram, outras ficaram. Mas apesar de ter experimentado novos sons, uma vez ou outra, continuo com o mesmo gosto pungente para o bom rock'n'roll e o expressivo punk-rock. Quem lê esse blog aqui pensa que eu curto música de elevador ou -- god forbid -- pop music, erra tão feio quanto imagina que essa é minha personalidade. Porque boazinha é a puta que pariu.


"She's a rebel
She's a saint
She's the salt of the earth
And she's dangerous..."


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She's a Rebel - Green Day
Segundo Martin, my song.



Escrito a mão pela Marcia às 11:24 AM | mais em An ordinary life

setembro 25, 2005

Had a Nice Time

Acabei dormindo bem ontem a noite. Havia feito um pouco de Yoga, dormi rapidinho e acordei me sentindo beeeem melhor.

Ontem fomos ao centro resolver o de sempre e fomos surpreendidos com um encontro dos motoqueiros Harley Davidson. Havia cerca de umas duzentas motos Harley, uma diferentona da outra, todas lindas. Algumas American Choppers também, para o delírio de Mr.M. E para completar, uma banda ótima tocando rock'n'roll e blues! E eu que reclamo que nunca tem nenhum róquenrou acontecendo nesta cidade, prestigiei de pertinho e amei quando tocaram Roadhouse Blues, de The Doors.

"Ah keep your eyes on the road, your hands upon the wheel..."

E hoje, ah que delícia. Fomos passar o dia com nossos amigos, como havia dito antes. E a filhinha deles, Eleanor, nos recebeu na porta com um sorrisão de orelha a orelha. Um amorzico de menina, veio brincar com a gente logo que entramos e trouxe tooooodos os bichinhos e livros pra nos mostrar. Demos muitas risadas com ela. Caminhamos com eles pelo esplendoroso bairro que eles moram, com vista linda para a baía de Poole. Almoçamos sunday roast na casa deles, papeamos mais um pouco e voltamos pra casa comentando que dia mais bacana que tivemos hoje!

Assistimos a F1 em Interlagos, jantamos pasta ao sugo e agora um chazinho de jasmim nos aguarda.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 7:30 PM | mais em An ordinary life

setembro 20, 2005

To Love and Hold

E mais um casamento foi celebrado. Adoro casamentos. Adoro também reencontrar os colegas do Martin, que são gente boa, down to earth todos eles. Principalmente Monkeyman, que ficou fazendo as mesmas brincadeiras bestas que fazíamos na África do Sul e eu morria de rir, de bobeira e de saudades também.

O casamento foi no Town Hall daqui mesmo, bonito, bem clássico. Foi tudo sem religiosidade, um alívio pra grande maioria que não gosta de ficar cantando musiquinhas sem fim. Ao invés disso, teve músicas bacanas, amigos lendo poemas, lágrimas das famílias, sorrisos e olhos molhados dos noivos.

Depois da sessão de fotos partimos para Poole e nos reunimos com a turma toda no velho Hogshead onde sempre nos encontrávamos antes do escritório mudar, para brindar que estávamos ali novamente. Qualquer desculpa pra encher a cara.

Ao pôr do sol, embarcamos e levantamos âncora. O mar estava um lençol, vento zero e navegamos tranqüilamente. Enquanto isso a festa começava, champagne e blinis com caviar. Nham. E então lá pelas tantas o churrasqueiro começou a preparar o jantar. Maldito. Mulambento. Miserável.

Veja só você, leitor, que eu havia me aprontado em 50 minutos. Um record. Eu estava preguiçosa depois de um almoço bacaninha quando Mr.M anunciou: vamos sair em 50 minutos. Só então percebi que já tava atrasada pra me aprontar, maquiar, fazer a cabeleira. Joguei o controle remoto pro alto, corri, fiz tudo que precisava e saímos no horário. Então, perceba você, tá acompanhado ainda? Pois. Euzinha me arrumei, usei base Lancôme pra ficar com pele de pêsgo, mousse e spray Tony & Guy na cabeleira, gotas de Dolce & Gabbana atrás da orelha e uma coisica de nada nos pulsos. Tava pronta, japonesa e loira e perfumada. E tudo isso pra quê, forgoodnesssake?

Em cinco minutos o churrasqueiro tacou fogo no carvão e cobriu o barco todo inteirinho de fumaça por muitos minutos. Todo mundo se abanando e procurando um arzinho pra não morrer ali mesmo sem comer o bolo (minha preocupação no momento). Enfim, em cinco minutos contra os meus cinqüenta minutos me arrumando, em cinco míseros minutos adquiri da cabeça aos pés a fragância eau de saucisse grillée. Damn.

Mas enfim, como estávamos todos no mesmo barco, relaxamos, comemos, brindamos, curtimos o passeio e nos divertimos a noite toda. Voltamos ao pier já na segunda-feira, exaustos e ainda cantando:

Young man, Young man, there's no need to feel down
Young man, Young man, pick yourself off the ground

Ah, a falta do senso de ridículo...

Mas antes disso ainda preciso descrever aqui nosso momento balão de hélio novamente, já que haviam dois fotógrafos no evento. Eles pediram para tirar fotos só de nós dois cinco vezes! Duas na cerimônia e três durante a festa. What the heck? E na última, como já estava ficando meio que esquisito, ouvi de uma das esposas "your hair used to be very short". Mêda, pavôra, horrôra. Vou ficar careca, escrevam aí.

Depois mais tarde fui tirar uma dúvida e perguntei pra um dos fotógrafos qual era o nome dele. Ele respodeu e eu revelei a ele: "você foi o fotógrafo do nosso casamento!" Daí ele falou que bem que tinha reconhecido o Martin, mas não sabia de onde e não conseguia lembrar. "Three years ago, wasn't it?" ele perguntou e ainda lembrava da recepção no Haven Hotel, das fotos na praia. E nós brincamos dizendo que sim e que ainda estávamos casados. E ele acrescentou: "and you look great!"

Os noivos tiveram sua dança, cortaram o bolo e não houve discurso, só agradecimentos gerais e mais música. Assim que o barco aportou, nos despedimos e voltamos pra casa. Ainda tive que tirar toda a maquiagem e a fragância recém-adquirida, antes de cair na cama e desmaiar. Foi uma linda festa, que os noivos vão certamente lembrar com alegria. To love and hold.

Escrito a mão pela Marcia às 3:34 PM | mais em An ordinary life

julho 6, 2005

A Casca da Laranja

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Estava eu confabulando com o querido Cido sobre as propriedades laranjísticas do Holiday Skin e lembrei de mais um incidente envolvendo minha particular pele e o tal hidratante auto-bronzeante.

Me (eu): Haha, you see I'm tanned. (Cê vê, tô bronze)
Mr.M: yeah right. (ah tá)
Me (eu): Nice and tanned all over you can s... (toda bronzeada, cê pode v...)
Mr.M interrupting me (Mr.M me interrompendo): What.. Let me have a look. WHAT is that??? (O que.. Deixa eu ver. Que diabo é isso???)
Me (eu): Oh I... erm... I...
Mr.M: Hahahahahahuahauhuahauahua
Me (eu): No, It's just...
Mr.M: Hahahahahahuahauhuahauahua
Me (eu): You see, I applied the cream last night and forgot to wash my hands, now my palms are in this colour... (Cê vê, eu passei o creme ontem a noite e esqueci de lavar a mão, agora minha palma está dessa cor aqui...)
Mr.M: HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA...
Me (eu): Mean...

Oh well, com o tempo minhas palmas voltaram a ficar brancas novamente. Tenho esquecido de usar o produto esses dias e estou ficando cor de açucar refinado novamente, preciso voltar a usa-lo. Assim minha pele ganha mais alguns tons interessantes e também aumentam as chances de ter novos posts por aqui.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:46 PM | mais em An ordinary life

junho 28, 2005

Ziiiizzzziiióóóinnnnnnnnn!!

Acabei de levar um baita de um choque elétrico! Nada de tão grave, claro, senão não estaria aqui contando a história.

Estava eu usando o laptop, ligado na tomada, com os dedos da mão direita no touchpad. Tempestade lá fora vinha se formando há horas e eu já estava para fechar a tela e ir descansar um pouco. De repente, não menos que repentinamente, vejo um clarão entre meus dedos e uma forte fisgada no músculo da mão.

Na mesma hora, o raio pela janela. E bruuoooooooooom, trovão. Puta choque maldito fio duma égua, pardon my french. Ooouuch. Laptop parece salvo, só eu mesmo que tomei toda a carga. E, com Mr.M viajando pela zooropa, pensei mesmo que iria morrer laranja e seca e seria encontrada só duas semanas depois. Ouuuch.

Tô chocada...

Escrito a mão pela Marcia às 5:17 PM | mais em An ordinary life

junho 25, 2005

My 32th Birthday

32th.jpg

32 anos
Um marido
Um lugar para chamar de lar
Nenhuma dívida
Um diploma
Duas línguas
Um dom
Uma dúzia de bons amigos
Uma amiga sueca querida
Meia dúzia de bons familiares
Dois pais queridos
Dois aparelhos pink
Uma festa de casamento linda
Três árvores plantadas
Um bebê no céu
Duas cãzinhas lá também
Cinco minutos de fama na TV
Uma viagem dos sonhos realizada
Dois olhos de um leão olhando nos meus em plena savana
Um boneco de neve do meu tamanho (uau!) construído a oito mãos
Uma certificação de mergulhadora PADI
Um mergulho por dentro de um navio naufragado (spooky)
Um mergulho a noite (scary)
Dez outros mergulhos autônomos belíssimos
Uma arte de fazer pão aprendida
Um musical dos meus sonhos assistido
Uns bons shows de bandas britânicas assistidas
Dois livros de autores que eu gosto autografados
Dez letras de música de Carmina Burana decoradas, em latim
Uma dezena de crônicas publicadas
Uma centena de crônicas na gaveta
Um diário rabiscado
Uma porção de outras coisas conquistadas
Nenhum arrependimento

Trinta e dois anos.

Escrito a mão pela Marcia às 10:39 AM | mais em An ordinary life

junho 24, 2005

Pressies

Smiles.jpg

Hooray! Hooray!

Já ganhei meus primeiros presentes! Chegaram os presentes que meus pais mandaram, os que os pais do Martin mandaram e os que a irmã do Martin mandou. Eba! Eba! Já dei uma espiada por dentro dos pacotes, mas ainda não os abri oficialmente, hoho.

E ontem Mr.M voltou pra casa com pacotes que eu não pude ver. E também não sei onde ele escondeu. Eba! Eba! O que será? Não pareceu grande, mas sei que ele foi numa loja que tinha um supermercado Sainsbury's por perto, hoho, porque ele trouxe o jantar de ontem de lá, além de sobremesas de chocolate Gü, nhaaaaam.

Já coloquei todos os cartões para enfeitar nossa sala.

Amanhã é o grande dia de ver tudo o que ganhei, oba! Ganhar presente é muito bom, muito bom!

:o)

E o Holiday Skin está funcionando que é uma belezura. Duas aplicações e já me sinto um gingerbread man!

Me: You see, I'm tanned!
Mr.M: You're not tanned, you need a shower.
Me: Mean...

:-p

Escrito a mão pela Marcia às 11:44 AM | mais em An ordinary life

junho 23, 2005

A Laranja

HolidaySkin.jpg

Estava conversando com Judi, minha amiga inglesa, e comentei que nunca fui tão branca como agora. E então ela me perguntou se eu não conhecia o tal do Holiday Skin. Ãhn? Por um segundo imaginei uma pele sobressalente para vestir na praia, mas ela me explicou que trata-se desse produto da foto acima. Creme hidratante da Johnson's com um tico de bronzeador artificial.

Fiquei curiosíssima, procurei na Boots e nada. Depois procurei novamente e só tinha em estoque para tipo de pele normal para escura. Não é meu caso. Fui ontem no dentista e na saída acabei encontrando o tal "Holiday Skin Body Lotion - Normal to Fair Skin". Yay! Comprei e paguei com pontos do meu cartão Boots.

Tô agora toda feliz usando! :o)
Por enquanto, nada muito além de cor de pêssego.

Me: Look, I'm gonna get tanned!
Mr.M: You're not gonna get tanned, you'll be orange.
Me: I will not! You just wait and see.
Mr.M: (laughs)
Me: You're just jealous because I'll be all nice and tanned and you'll be white as a ghost.
Mr.M: And you'll be orange as an orange ghost.
Me: Mean.

:op

Escrito a mão pela Marcia às 5:02 PM | mais em An ordinary life

junho 15, 2005

Say AAAHH

Fui ao dentista hoje de manhã. Check-up geral.
Exame dos dentes e gengivas, teste de câncer bucal (!!), raios-X e fotografias intra-orais. O saldo foi de dois dentes para obturar e uma visita ao higienista para limpeza geral.

O dentista foi muito simpático, disse que meu quadro geral está bom, que tenho feito bom uso do fio dental mesmo com os dentes tão apertados um no outro. Fiquei contente, odeio ter que ir ao dentista. Não tenho medo, agüento bem a dor (quem já teve que usar aparelho fixo sabe que nada mais pode ser pior), mas odeio nonetheless.

Esta é a primeira vez que vou a um dentista inglês, na Boots. Fiquei impressionada com o consultório ultra-moderno. Logo que entrei, sentei e tinha um monitor em tela plana bem na minha frente. Pensei "whoa, Internet!!", mas não, não era pra eu navegar nas webs, a tela ia mostrando o que a assistente do dentista ia registrando na minha ficha e também imagens da câmera. Além dos cuidados básicos de higiene como luvas, máscaras, objetos descartáveis e instrumentos em autoclave, absolutamente tudo o que o dentista tocava estava envolto de uma larga fita adesiva descartável: puxadores, manivelas, maçanetas, tudo. Assim que entrei para minha consulta a assistente estava colando os adesivos novinhos em tudo quanto era coisa e achei que ela era um pouco obsessiva compulsiva, mas depois entendi.

Começo meu tratamento na semana que vem. Fora isso, o dentista me recomendou mais "gentileza" para escover meus dentes porque aparentemente ando exagerando na esfregação e empurrando a gengiva. Fez também um orçamento extra para um extreme makeover nos dentes da frente, com porcelana. Mas as cifras são um pouco exorbitantes para o momento. Oh well, mais tarde penso nisso.

Say cheese!

Escrito a mão pela Marcia às 1:27 PM | mais em An ordinary life

junho 5, 2005

E a idade avança...

Você sabe que já está ficando pra lá de gagá quando no meio do preparo de um molho de tomate com pimentão assado vê que o marido bretão deixou um quarto de um tomate sobrando na tábua. Com dó de jogar fora, você coloca o pedaço de tomate na sua boca e começa a tirar a pele do pimentão assado com muito cuidado. E então quando o último pedacinho de pele do pimentão se solta você percebe que ainda não mastigou o tomate que está na sua boca!

Uma coisa de cada vez, se me faz o favor.

Pelo menos eu ainda consigo digitar sem babar. Apenas uma questão de tempo, eu sei.

Escrito a mão pela Marcia às 8:31 PM | mais em An ordinary life

maio 28, 2005

Pretty in Pink, isn't She?

Depois de longa espera, a Siemens finalmente entregou meus queridíssimos aparelhos, os primeiros pinkies do mundo! Hooray! São perfeitos, moderníssimos e alegres. Hoje de manhã abri a caixinha onde eles passam a noite e na hora me deu uma vontade de sorrir de vê-los ali tão coloridos! Mr.M tirou essas fotos abaixo especialmente para eu colocar aqui no blog. Ei-los:

Pinkies2.jpg
A concha é feita em plástico transparente e fosco, só o compartimento da bateria não pôde ser pink, mas gostei bastante do acabamento. Estava apreensiva de que fosse tudo feito às pressas e de má-vontade mas está tudo perfeitinho e a Siemens fez mesmo um grande trabalho!


Pinkies.jpg
Minhas amadas pequenas jóias. Tão preciosas que vão entrar numa das apólices do seguro da nossa casa.


Pinkies3.jpg
Nenhum piercing ou brinco me faria mais feliz!

Fizemos alguns ajustes e o médico diminuiu o volume de todas as freqüências do lado direito, que eu estava achando muito alto. E também adicionamos um programa especial para ouvir à TV e outras formas de sons artificiais e estou adorando. Preciso testar durante esta semana e ver se continuo ouvindo às vozes com o volume agora mais baixo. Se não, vou ter que voltar e ajustar as freqüências altas e baixas uma por uma, até acertar. É um processo normal, até que eu encontre o nível certo para minha necessidade. Mas pelo menos agora, já percebo uma grande diferença. Não mais tenho vontade de chorar cada vez que uma mulher de salto alto anda perto de mim com os sapatos martelando no chão e nos meus pobres ouvidos. E também assisto à TV naturalmente com Martin ao meu lado. Só preciso mesmo testar com vozes de outras pessoas. E como o Martin vai estar de mini-férias até quara-feira, vamos passar o máximo de tempo fora de casa para eu poder testar e perturbar todo mundo com perguntas para ver se eu as entendo. E também, obviamente, para desfilar com meus novíssimos pinkies! I'm so happy!

"Caroline laughs and
It's raining all day
She loves to be one of the girls
She lives in the place
In the side of our lives
Where nothing is
Ever put straight
She turns herself round
And she smiles and she says
'This is it'

'That's the end of the joke'
And loses herself
In her dreaming and sleep
And her lovers walk
Through in their coats

Pretty in pink
Isn't she?
Pretty in pink
Isn't she...?"

Pretty in Pink - Psychedelic Furs

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 12:08 PM | mais em An ordinary life

maio 11, 2005

Diet Posts

Meus posts andam muito longos e grandes ultimamente. Então hoje teremos apenas aperitivos como prato principal.

quadrado_verde.gif Devo ser a única mais uma vez, mas adorei o Código DaVinci. Gostei mesmo, me divertiu deveras, os personagens foram bem construídos, a trama convincente e todas as teorias sobre Maria Madalena muito bem desenvolvidas. Gostei do final também, que deixou muitos decepcionados, mas eu gostei. E fiquei morrendo de vontade de visitar o Louvre.

quadrado_verde.gif Li no suplemento Body & Soul do jornal The Times uma coluna que dizia que com o decorrer das décadas, as mulheres passaram a se exigir demais para manter a casa em ordem, num masoquismo sem tamanho. E que o melhor mesmo era aprender com os homens a viver na bagunça. Então há alguns dias estou aprendendo com o moço que mora aqui que o melhor lugar para guardar suas roupas é mesmo o carpete.

quadrado_verde.gif Ontem Mr.M foi reconhecido na cerimônia anual da empresa pelo bom desempenho na África do Sul no ano passado e ganhou uma garrafa de champagne de verdade (nada de Cidra Cereser). Perguntei se a gente ia guardar a garrafa para abrir no Ano Novo e ele me respondeu: "that's crazy talk". Binge drinking aqui vamos nós.

quadrado_verde.gif Falando em África do Sul, eu também deveria ter recebido uma champagne e uma placa de honra ao mérito por todos os trash food e toffee sauces que fui obrigada a comer durante mais de 80 dias. Urgh, posso nem lembrar.

quadrado_verde.gif Instalamos persianas no studio e agora o sol não queima mais a mão dos nerds aqui quando estes usam o mouse.

quadrado_verde.gif Tsc. Acabei de carbonizar a tortinha de legumes que estava esquentando no microondas. Malditas programações inúteis. O forno tem um botãozinho "pastry" e pela primeira vez usei, programei o peso e deixei a tortinha congelada lá. Em dois minutos senti um cheiro de carvão e a torta estava completamente torrada. Tsc. Pelo menos não disparou o alarme de incêndio outro vez.

quadrado_verde.gif Se um dia tiver um incêndio aqui no apartamento nenhum vizinho vai vir me acudir porque vão pensar "ihhh, é aquela louca do segundo andar de novo", de tanto que esse alarme de incêndio dispara. E eu vou ser encontrada duas semanas depois, carbonizada com minhas pantufas de coelhos nos pés. :o(

Escrito a mão pela Marcia às 12:40 PM | mais em An ordinary life

maio 7, 2005

I Can Hear You

Ufa...

Eu ia escrever ontem, mas estava tão confusa e cansada que nem consegui juntar minhas palavras em ordem.

Então fomos no audiologista buscar meus aparelhinhos digitais ontem. Minhas jóias pink não ficaram prontas, ainda vai demorar duas semanas. A Siemens me enviou expressas desculpas pela demora e disse que o fornecedor de matéria prima para meu aparelho pink foi repreendido por não ter entregue no prazo. Completaram dizendo que o primeiro pedido mundial de aparelhos na cor pink não deveria sofrer nenhum contratempo de nenhuma espécie, uma vez que a empresa oferece essa opção e deveria cumprir com o desejo do consumidor e por isso pediam muitas desculpas.

I beg your pardon? Perguntei eu ao audiologista. E ele confirmou que sim, este foi o primeiro pedido de aparelhos pink que a Siemens recebeu em todo universo. Hahaha, eu vou ser mesmo the only gay in the village*!!

Enfim, não estão prontos ainda e eu havia ficado um tico decepcionada. Mas a Siemens me enviou um outro, cor de pele (argh!), para usar neste período de adaptação. Ficamos cerca de meia hora aprendendo a colocar, mudar os programas, limpar, trocar baterias, armazenar. E então finalmente pude ligá-los e testá-los pela primeira vez.

E por mais que minhas expectativas estivessem confusas, o choque foi enorme. Acho que essa foi minha primeira impressão: estarrecimento. Achei o volume muito alto. Mas o médico me explicou que há muito tempo eu não ouço várias freqüências e de repente volto a ouvi-las e isso realmente choca inicialmente. Nesses dias de adaptação eu uso e tento perceber o máximo de sensações possíveis. O médico disse que os aparelhos nunca devem ser uma tortura, então eu devo tirar quando achar que devo. Daqui duas semanas vou discutir com ele minhas impressões e faremos ajustes nas freqüências altas e baixas se for preciso.

O som é um pouco artificial, mas isso eu já esperava. O que eu não esperava era ser completamente sobrecarregada de sons vindos de todas as partes. Tudo chama a minha atenção, tudo.

Nas ruas eu agora ouço todo mundo falando ao mesmo tempo, os saltos dos sapatos batendo no chão, crianças chorando, músicas tocando, celulares tocando, carros passando, sinais de pedestre apitando, avião sobrevoando, passarinhos cantando, meu cabelo no vento, o tecido da minha calça, tudo tudo tudo ao mesmo tempo agora. E instintivamente minha cabeça gira em diração aos sons o tempo todo. E isso me dá um cansaço enorme no final do dia. Meu cérebro agora precisa reaprender a ignorar sons de fundo e sons que não me interessam, mas por enquanto ainda é muito cedo para esperar por essas mudanças.

Não me entendam errado, estou simplesmente AMANDO os aparelhos. Fantásticos, me dão real sensação de profundidade e me fazem entender 100% melhor o que as pessoas falam. Martin fez vários testes comigo, em vários ambientes e consigo agora entender praticamente tudo. E estou imensamente feliz com isso, ele está feliz por não precisar mais repetir o que diz. Aliás ele percebeu que agora estou falando muito baixo e ele não consegue me ouvir, hohoho.

Televisão, rádio e telefone ainda não são possíveis de ouvir bem com os aparelhos. Para isso preciso de um transformador em Telecoil, mas não vou pensar nisso agora.

Por fim, o que mais tem passado pela minha cabeça nesses dois dias de adaptação é o quanto nosso ouvido e nosso cérebro funcionam bem naturalmente, ajustando de acordo com nossas necessidades e nossos interesses. E o quanto é difícil e complicado reproduzir isso tecnologicamente, o quanto custa para a gente ter de volta o que antes era natural. Porém estou muito feliz e me sinto muito privilegiada por ter a chance de ter acesso a esse tipo de tecnologia. A comunicação sem fio entre os dois aparelhos funciona de forma incrível e os ajustes são todos feitos automaticamente em pouquíssimo tempo.

Só falta mesmo, mesmo, serem pink!

Desde ontem, 06 de Maio de 2005, voltei a ouvir.

Little Britain

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 5:36 PM | mais em An ordinary life

abril 16, 2005

Cuide da sua audição

Pessoas amigas, muito obrigada pelas mensagens no post abaixo, pelo incentivo todo de vocês. Eu não vejo a hora de testar e tentar me adaptar bem com eles. É um novo grande passo na minha vida. Se antes eu tentava ignorar que tinha um problema e depois eu tentei arranjar subterfúgios para driblá-lo, hoje recebo o problema de frente, ofereço chá e biscoitos. A vida têm ficado mais leve e simples.

E para todos vocês que têm boa audição, gostaria de recomendar muito muito cuidado com ela. Não fiquem expostos a barulhos excessivos. Muitos dos aparelhos domésticos respeitam o limite de decibéis, mas mesmo assim o uso contínuo deles causam muitos danos aos nervos que, inexoravelmente, vão envelhecendo e enfraquecendo com o tempo. Compre um tapa-ouvidos que seja confortável para você, os da 3M são bons e baratos. Tem de espuma, de gel, de borracha, tem uns que cobrem toda a orelha.

Aqui em casa, os mais barulhentos são o aspirador Dyson, o exaustor da cozinha e o processador de alimentos (food processor, como chama em português?). Eu coloco os protetores quando uso um deles, sempre. O Stefan, urso polar da Mary, nos deu de presente dois protetores de ouvido muito bons, quando fomos brincar de bang-bang com os rifles do exército na neve. E hoje são eles que eu uso, são bastante úteis aqui em casa (tak, Stefan!). Preciso cuidar bem da audição que ainda me resta.

No Brasil, imagino que o que mais desgastou minha audição foram os ônibus. Ficava nos pontos às vezes por meia hora, quarenta minutos, uma hora, dependendo se o ônibus não parava, não passava ou tava muito lotado. E isso era todo dia, duas vezes por dia, com centenas de ônibus acelerando e freando a cada minuto enquanto eu esperava. Sem contar com o barulho dentro do ônibus também, motor, portas, janelas bambas. Se por um acaso alguém de vocês têm que passar pelo mesmo, use algum tipo de proteção.

Shows, concertos e festivais com música ao vivo geralmente têm um nível de decibéis bem alto para o que estamos acostumados. Como minha amiga Samara lembrou nos comentários, uma vez ela e o marido Milton me levaram para uma grande festa maravilhosa, com uma banda tocando ao vivo, Beatles4Ever. Nós duas dançamos durante toda a festa e ficamos bem perto do palco gritando AAAAHHH LINDOOOOOO pro "John Lennon" e pro "Paul McCartney" da banda, descabelando feito duas beatlemaníacas. E eles nem tchums pra nós duas, sequer dedicaram Hey Jude pra nós... Na manhã seguinte, pumba! Eu não conseguia ouvir quase nada. A Samara teve que me chacoalhar para me acordar porque eu não a ouvi batendo na porta ou me chamando. Senti que tinha algo estranho. Procurei um otorrino, que me explicou que é bastante normal ter essa "perda auditiva temporária" depois de uma exposição excessiva, mas que logo isso iria voltar ao normal (viu Sammy, não precisava se sentir culpada, queridoca). E realmente na segunda audiologia a curva melhorou, mas foi num outro exame dos meus nervos que vão pro cérebro que o médico percebeu que a minha audição já estava caminhando de "leve" perda para "moderada". Foi quando meu tinnitus começou também.

Então, se vocês puderem, num show ou concerto, procurem escolher lugares que não fiquem tão próximos às caixas de som. Mr.M que é expert em hi-fi e aparelhos de som diz é preciso ficar a uma certa distância das caixas para que os sons possam convergir e você possa ouvir as músicas em seu melhor. Ficar muito perto de uma delas não adianta nada.

E por fim, se você sente algum incômodo em um dos ouvidos, se você se sente meio bloqueado ou com tontura, se você percebe que precisa pedir para os outros repetirem com muita freqüência, procure um médico. Às vezes só vai ser preciso um remédio. Às vezes, como eu, você pode se beneficiar de um aparelho auditivo. Mas não deixe de investigar. A ressonância magnética que fiz da minha cabeça foi para investigar se havia possíveis tumores que poderiam afetar os nervos da audição. Não havia, thank God (segundo Martin é porque eu não tenho massa encefálica também). Mas quanto mais cedo detectado, mais efetiva a cura.

Então cuide-se. Previna-se. Você não percebe a importância de seus sentidos até perdê-los, mesmo que seja parcialmente.

Escrito a mão pela Marcia às 11:13 AM | mais em An ordinary life

abril 14, 2005

The Voice I Hear

Ontem foi um dia bastante importante para mim.

Desde 2003, quando resolvi que precisava procurar um médico para me ajudar com a perda auditiva que tenho, estou pacientemente esperando para que o NHS providencie os aparelhos auditivos que preciso.

Primeiro enfreitei uma longa espera para fazer a ressonância magnética da minha cabeça no hospital. Depois esperei mais um bom tempo até que o otorrino pudesse me ver novamente e dar o resultado. Tudo normal. Passei finalmente para a fila mais esperada: a que me leva a uma consulta com um audiólogo para finalmente poder discutir as opções de aparelhos que o NHS pode me prover.

E nessa fila estou desde agosto do ano passado. Recebi uma carta do hospital dizendo que logo vou ser chamada, mas que ainda não há previsão de data. Na semana retrasada Martin ligou pra clínica e informaram que talvez no final deste ano serei chamada, mas que se eu quiser dois aparelhos vou ter que convencer o NHS para tal.

Martin perdeu a paciência e me propôs rasparmos as nossas economias e irmos a um audiologista particular e pagar do nosso bolso dois aparelhos, os melhores que o dinheiro pudesse comprar.

Em duas semanas fomos juntos em dois audiologistas particulares, ambos excelentes, que passaram uma hora inteira conversando comigo, cada um. Fiz a audiometria no mesmo dia, recebi explicações minuciosas do meu quadro, inclusive do tinnitus, o zumbido. Aprendi que por causa da minha perda auditiva, alguns nervos e neurônios que cuidam da audição começaram a trabalhar horas extras para compensar a perda e por isso acabo ouvindo o zumbido. Talvez, apenas talvez, os aparelhos ajudem. Aprendi também que eu tenho muita dificuldade de ouvir as consoantes nasais de cada palavra e as frases ficam muitas vezes sem sentido pra mim por causa disso. É como ler uma sentença cheia de buracos no meio. Meu cérebro, treinado há sete anos, acostumou-se em advinhar o que as pessoas estão falando, mas é sempre frustrante e triste.

Ambos audiólogos me mostraram quais aparelhos o NHS oferece (apenas os mais básicos) e quais os disponíveis no mercado. Falaram sobre as diferenças, os preços, as vantagens, sem empurrar nenhuma venda pra gente. E também foram bastante honestos comigo, avisando que eu nunca mais vou ter a audição natural e boa que tive antes, mas que os aparelhos vão me ajudar bastante a recuperar minha liberdade e minha confiança.

Voltamos pra casa cheios de informações, folhetos, catálogos. Pesquisamos opiniões, modelos, tecnologias. E finalmente nos decidimos por um.

Então ontem foi o dia que passamos mais uma hora conversando com o audiólogo e finalmente decidimos ir em frente. Fiz dois moldes de cada lado do meu ouvido, muito estranho mas nem um pouco desagradável. Parece um grande chicletão macio entrando no ouvido.

E decidi também pelo modelo dos meus aparelhos. Há atualmente modelos minúsculos e imperceptíveis. Mas eu decidi por aqueles que ficam atrás da orelha. Todos custam o mesmo preço, você é que escolhe o tamanho de acordo com o seu gosto. Mas há uma grande diferença: quanto menor o aparelho, menor o espaço para colocar tecnologia. Quanto maior, mais tecnologia e programas são possíveis. Então decidi que queria os que tivessem mais tecnologia. Afinal, não vou ter vergonha nenhuma de usá-los, não há razão para escondê-los.

O aparelho vai ser da Siemens, modelo Acuris S, que é o state-of-art, o mais avançado dos aparelhos atuais. É digital, completamente automático, tem dois microfones (os aparelhos pequenos só têm um) e com wireless comunication! Se eu estiver em um lugar barulhento (restaurantes, pubs, concertos) e alguém estiver falando comigo, o aparelho diminui o barulho ambiente e amplia o som da voz em primeiro plano. Se alguém estiver falando comigo do lado esquerdo, o aparelho do lado direito ajusta, em milésimos de segundo, automaticamente para me dar a sensação de espaço, para saber de onde vem o som. Fora isso vai ter Telecoil que funciona através de freqüências de rádio. Bancos, correios e outros órgãos públicos têm telecoil nos caixas e as vozes dos atendentes vão direto pro meu aparelho. E tudo vai ser programado de acordo com minha audiometria, então o aparelho vai automaticamente ampliar os sons de acordo com a minha própria necessidade.

E não pára por aí! O mais importante de tudo -- e que vocês nem vão crer -- é que eu pude escolher a cor! Sim, nada daquelas coisas cor de pele ou cinza, tudo sem graça e austero demais pra mim. Nãonãonãonão. Os meus, dos dois lados, lindos e queridos, vão ser pink! Oh yes, pink. Mais pra vermelho do que pink, na verdade, e transparentes. Causei furor na sala de consulta, com Martin e o médico repetindo "Are you sure?!? Are you sure?!?". Depois ambos caíram na risada fazendo piada que vai ser o acontecimento do ano na fábrica da Siemens ("Somebody ordered a pink one! What?! Pink?!"). Mas nem liguei, são meus e se eu vou ter que usar dia após dia após dia de todos os dias da minha vida, que eles sejam pelo menos alegres e divertidos. Por fim o médico disse "why not, you're totally right".

E, mesmo sendo os maiores da linha, o aparelho é tão pequeno e leve, bem menor do que eu imaginava, nada que lembre aqueles gomos de mexerica de antes. Então em pink vão ficar umas coisinhas bem bonitinhas, parecendo umas jóias. Depois eu mostro aqui. Vou ter 30 dias para decidir se quero mudar de modelo ou se quero meu dinheiro de volta, o que nos dá bastante tranquilidade. Ah sim, compramos dois pelo preço de um, porque estava em promoção, viva! (Não que tenha ficado barato, longe disso)

Enfim, estou ansiosíssima para receber meus aparelhos, que vai ser no dia 6 de Maio. Felicíssima da nossa decisão. Felicíssima com a cor pink. Felicíssima com os aparelhos que custaram boa parte das nossas economias, mas que para mim vai ter um valor incalculável.

Hooray!! Hooray!!

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 2:44 PM | mais em An ordinary life

janeiro 25, 2005

Dude, where's my chocolate?

driedfruits.jpg

Com tanto pão sendo assado neste lar ultimamente, alguma dieta tinha que logo ser implantada para o bem-estar geral de seus residentes.

E como o The Times anda nos bombardeando com a idéia do GI Diet, resolvemos seguir pra ver no que dá. Na verdade não é uma dieta, é apenas uma maneira de controlar sua insulina no sangue, escolhendo alimentos baixos em Índice Glicêmico (GI). Não há contagem de calorias, nem privações, nem fome. Só bom senso e por isso que gostamos.

Aos pouquinhos começamos a fazer algumas substituições. E entre nossos "snacks", que sempre tinha um chocolatezinho e chips, agora temos frutas secas sem açúcar e pistachios sem sal. De início achei que aquelas coisinhas secas iam durar a vida toda. Mas o que? Uma delícia. E eu nem como panetone nem christmas pudding porque não gosto de uva passa. Mas agora estamos viciados em frutinhas secas, meus preferidos são damascos e cranberries secos, nham!! E pistachios são paixões antigas, aquelas esmeraldinhas dentro das conchinhas, coisas mais delicadas.

No mais, precisamos nos mexer mais este ano. Estamos nos forçando a pelo menos caminhar um pouco todo dia e bastantão no final de semana. Assim posso assar meus pãezinhos e criar minhas sobremesas miniaturas sem neuras nem crises.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 2:01 PM | mais em An ordinary life

novembro 25, 2004

Comprando sentada

Hooray! Acabei de receber minha encomenda, minha roupinha de festa! Em Janeiro, nós vamos ao casamento de Dave & Helen.

Eu já estava descabeladíssima preocupada com a roupa para usar no evento. Não queria gastar muito, afinal além dos noivos a gente não conhece quase ninguém e a festa vai ser enorme porque a irmã da Helen vai casar com eles também (e o noivo dela também se chama Dave, espero que não confundam os "I Do", hehe). Decidi que vou usar minha saia looooonga preta e meu casaco areia para não morrer de frio em pleno invernão. Mas ainda me faltava o primordial: a blusa. Queria algo com cor, nada de preto ou cinza ou azul marinho. Procurava algo ameixa, vinho ou algo assim.

Enfim, revirei as lojas procurando algo que me agradasse. Como já disse um bilhão de vezes aqui, eu sou uma lilliputiana nessa terra de gigantes e não encontro meu número com facilidade. Ainda mais nesta cidade que não tem nada. As vezes encontrava um modelo bacana, mas só em tamanho grande. E sem contar que isso aqui já virou um formigueiro cheio de pessoas ávidas pelas compras de Natal, não dá nem para escolher com sossego.

Quando compro roupas aqui sempre vou na NEXT, que tem modelos que eu acho bem bacana e sempre encontro meu número. Acessei o website deles para dar uma conferida no que eles tem além do estoque da loja e voilá! Encontrei uma blusa bem bacana, cor ameixa, em duas peças: uma businha interna de alça espaguete e a blusa principal com mangas transparentes e gola toda esplendorosa que se alonga até o fim. Amei na hora.

Comprei online e pude até escolher o horário da entrega. Escolhi para entregarem no dia seguinte antes das 13 horas e até soltei um risinho. Não imaginava que fosse possível. Mas foi e antes do meio-dia, recebi minha blusinha que é até mais lindinha ao vivo, pendurada num cabide, tudo perfeitinho. Ah, sim! E ainda não paguei. Tenho 14 dias para experimentar e ver se tá tudo ok. Se eu quiser, posso mandar de volta, sem pagar nadica de nada, nem postagem, nada. Mas não vai ser preciso não. Adorei, serviu direitinho e estou bem feliz!! Agora preciso esperar eles me enviarem o invoice para pagar no banco, pelo telefone ou pela Internet. Bem seguro para quem não confia em passar dados pela web.

Quando estiver vestida e produzida pro casamento eu publico as fotos. Agora estou cadastrada na NEXT para fazer futuras compras. É um sistema bem confiável, li várias avaliações positivas a respeito dela e realmente funcionou bem comigo. Agora vou poder fazer minhas comprinhas de roupas aqui de casa, tenho o direito de experimentar antes de comprar, encontro meu tamanho e além de tudo isso ainda conto com a infinita e impagável maravilha de conseguir escolher sem ter alguém do meu lado perguntando: "já escolheu? vai levar esse aí? decidiu? vai pagar? pronto? vamos?".

Ahhh, a liberdade de escolha...

:o)

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novembro 1, 2004

THE HORMONE WARNING

muito gripada ainda pra traduzir, minhas apologias...

There are days in the month when all a man has to do is open his mouth and he takes his life in his own hands! This is a handy guide that should be as common as a driver's license in the wallet of every husband, boyfriend, or significant other!

DANGEROUS: What's for dinner?
SAFER: Can I help you with dinner
SAFEST: Where would you like to go for dinner?
ULTRASAFE: Have some chocolate

DANGEROUS: Are you wearing that?
SAFER: Wow, you look good in brown.
SAFEST: WOW! Look at you!
ULTRASAFE: Have some chocolate

DANGEROUS: What are you so worked up about?
SAFER: Could we be overreacting?
SAFEST: Here's my paycheck.
ULTRASAFE: Have some chocolate

DANGEROUS: Should you be eating that?
SAFER: You know, there are a lot of apples left.
SAFEST: Can I get you a glass of wine with that?
ULTRASAFE: Have some chocolate

DANGEROUS: What did you do all day?
SAFER: I hope you didn't over-do it today.
SAFEST: I've always loved you in that robe!
ULTRASAFE: Have some more chocolate.

Escrito a mão pela Marcia às 9:49 PM | mais em An ordinary life

outubro 15, 2004

Tesouradas

Cortei meu cabelim hoje, hooray! Fazia muito tempo que não punha meus pés no cabelereiro, a última vez foi antes da viagem pra África do Sul. Eu andava tendo uma aversão de ir cortar meu cabelo porque não tinha um profissional que chegasse nem perto da qualidade dos que temos em São Paulo. Um pouco por falta de opção, resolvi deixar meu cabelo crescer. Mas eu precisava cortar um pouco, deixar os fios arrumadinhos pelo menos.

Daí hoje fui cortar com o moço Anthony e minha desconfiança se confirmou. Preciso mesmo ir cortar com um cabelereiro do sexo masculino (seja lá qual for a opção sexual do mesmo). Porque a maioria das mulheres que cortaram meu cabelim liso-sem-chapinha, liso-até-a-morte, devem certamente descontar toda a frustração e inveja na minha cabeça, armadas de instrumentos afiadíssimos, fazendo repicados hediondos que na hora até fica bonitinho, mas depois parece um telhado de sapé.

Então hoje, pela primeira vez em anos, saí do salão muito satisfeita com o corte e com o profissional. Não mudou muito, mas está bem mais arrumado e com aparência mais 'saudável'. Ufa, que alívio.

Mas eu até entendo o lado dessas cabelereiras. Como toda mulher, eu também sonho em ter um cabelo totalmente diferente, cheio de cachinhos naturais em longos anéis rolando pelos ombros. Se eu fosse cabelereira e Cachinhos Dourados viesse cortar comigo, eu ia passar a máquina na cabeça dela, bem joãozinho, nem os Três Ursos iam mais querer saber dela, ah se ia. Huahuahua.

Em tempo: isso tudo aí em cima é brincadeira, ok? Não acho sequer que eu tenha um cabelo pra invejar. E também não rasparia a cabeça de Cachinhos Dourados. E por que é que eu tô aqui me explicando?? :-/

Minha cabeça está certamente mais leve, mas deve ser por conta do encolhimento cerebral.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 6:19 PM | mais em An ordinary life

outubro 1, 2004

Relendo e Relembrando

Aos pouquinhos estou arrumando os arquivos do blog. A maior parte fiz enquanto estive em Middelburg/SA, que foi limpar todo o conteúdo de imagens perdidas que estavam no sapo.pt. Ontem finalmente importei os arquivos limpos pro blog. Agora estou passando um pente fino nos posts para rearranjar os links quebrados e apagando outros links que nem existem mais.

O processo é lento porque eu não resisto a dar uma lidinha no que andei escrevendo anos atrás. Algumas vezes me emociono, quando leio sobre a Bianca, por exemplo, ou quando lembro do dia do nosso casamento. Outras vezes dou risada das minhas próprias bobeiras passadas.

E é interessante para mim perceber como eu escrevia diferente, como me comunicava cheia de dedos. Aquele medo bobo de não querer falar das coisas que a Inglaterra tem de melhor do que o Brasil para não ser considerada esnobe. Meu cuidado para não dar a idéia errada de mim mesma. A necessidade de provar que fiz a escolha certa, que fiz por merecer.

E céus, como eu escrevia!! Uma multidão de posts por dia. Hoje mal consigo escrever duas vezes por semana.

Mas enfim, quem é que não gosta de reler diários passados, não é mesmo? Mesmo para se achar ridícula depois, mesmo que seja para rir do que antes parecia tão sério. E diários são pra isso mesmo. Reler e relembrar. Olhar para trás e enxergar sua própria história.

Ainda falta muito a arrumar no blog. E na minha vida também.

Alguém ainda se lembra quando eu usava esses gifs aqui: ??
E que o layout era vermelho com uma ilustração do Snoopy no cabeçalho??

Hehehe...

Escrito a mão pela Marcia às 7:16 PM | mais em An ordinary life

setembro 25, 2004

Pequenas Delícias do Outono

Estamos definitivamente em outra estação.

Ontem tivemos um dia lindo, com sol, céu azul e camisetas de manga curta. Acho que foi o último dia quente deste ano. Passamos a tarde toda no centro da cidade, passeando e aproveitando o restinho do sol.

As árvores já estão mudando de cor, os esquilos trabalhando duro para estocar nozes pro inverno, todo mundo já se preparando para os dias de frio que vem pela frente.

Eu sinceramente estou bem contente com a mudança da estação. Tivemos a sorte e o privilégio de ter sol intenso e diário na África do Sul como há muito tempo não víamos. E agora estou mais que feliz de entrar no outono e não vejo a hora de poder ver neve, muita neve neste inverno (né Mary?).

E para rechear nosso outono de conforto, a Amazon nos entregou hoje de manhã a caixa com a segunda série de Sm@llville (preciso colocar esse @ no lugar do "a" porque da última vez que falei dessa série, o blog recebeu uma cascata de comentários de adolescentes enlouquecidas)!!

Já começamos a assistir aos primeiros episódios logo depois do café da manhã. Lá fora está friozinho e nublado e a gente se afofou no sofá com meu cobertor do Stegosaurus, além de todos os ursos e canecas gigantes de chá com leite também. Mmmmmm.

A segunda série é mesmo catalizadora para uma avalanche de evoluções tanto para a história como para os personagens, principalmente para Lex Luthor. E culmina com a belíssima e emocionante participação de Christopher Reeve no final, como o único mentor que pode ajudar Cl@rk Kent a entender sua origem.

Daqui a pouco vamos sair porque Mr.M não me deixa ficar quieta aqui assistindo Sm@llville e jogando The Sims 2 o dia todo. Não me deixa. Mas hoje eu quero sair, ir almoçar fora, respirar ares diferentes. E amanhã estamos pensando em ir andar de bicicleta em New Forest porque já faz taaanto tempo que a gente não usa as bikes...

Boa mudança de estação pra todos vocês, seja qual for.

Escrito a mão pela Marcia às 12:43 PM | mais em An ordinary life

setembro 11, 2004

Vidinha Ordinária

Hoje de manhã fomos ao Castlepoint, que é o novo centro comercial aqui perto de casa.

Na verdade a gente ia só no Sainsbury's que fica lá, mas a gente nunca resiste de ir dar uma olhadinha nas outras lojonas tentadoras que têm por lá. Em Castlepoint tudo é grande. Tudo é megashop. Uma perdição.

Entramos na Robert Dyas e compramos o Kilrock, que é um líquido de cheiro azedo para tirar o calcário dos nossos utensílios domésticos. E como ontem eu havia jogado fora duas das minhas formas vagabundas que se enferrujaram enquanto estávamos fora, fui dar uma conferida na seção de cozinha. Meus dedos coçaram para comprar toda coleção da T-Fal, mas acabei escolhendo duas formas mais baratas, da GoodHousekeeping. Uma para fazer assados e outra retangular mais baixinha. Bem grossas, três camadas anti-aderentes e dez anos de garantia. E o melhor de tudo é que elas podem ir na lava-louças e no fogão também (as vagabonds que eu tinha não podiam). Adorei!

Procuramos um álbum de fotografia para nossas fotos da África mas não encontramos.

Daí finalmente fomos fazer a compra no supermercado. Eu sempre falo que o Sainsbury's é o meu favorito, etc e tal a todo instante. Mas preciso explicar aqui que nem todos Sainsbury's daqui da Inglaterra são bons. Alguns deles, principalemente em Londres são pequenos demais, cheios demais, bagunçados demais, um horror. Mas este em Castlepoint que a gente sempre vai é imenso, com espaço bem amplo entre as gôndolas, tudo organizadinho de uma forma que eu gosto de comprar: primeiro os legumes, depois as frutas, carnes, laticínos, chocolates, produtos de limpeza e congelados. Nessa ordem, nesta minha vidinha ordinária.

Enfim, compramos um montão de comida para a quinzena, bastante frutas (melão, uva, laranjas, maçã) e legumes já que ainda não reativamos a nossa entrega da cesta de orgânicos.

Mas fiquei mais satisfeita mesmo é de ter comprado o super-dupper-top-of-the-pops Easy Mop, que é uma versão modernista do velho pano de chão! Vem com uma garrafinha de desinfetante antibactericida dentro e usa lenços descartáveis. Mr.M morreu de rir com a minha alegria e meu sorriso imenso limpando o chão da cozinha com tal instrumento. Maravilha! Não preciso mais do balde e do pano de chão.

dettol.jpg

Aliás eu sou um alvo facinho para a Dettol, a empresa que produz o Easy Mop. Tudo o que eles lançam dizendo que mata 99,9% das bactérias eu tô ali comprando. Eles criam em mim uma necessidade que eu não tinha e eu acabo acreditando em tudo.

Hoje a noite temos banquete indiano preparado por Mr.M, que está louco para cozinhar um curry. Eu normalmente gosto de curries suaves ou médios. Mas hoje pedi para ele fazer algo mais spicy. Talvez para animar mais minha vidinha, hohoho. Nhaaaam, não vejo a hora.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 3:54 PM | mais em An ordinary life

setembro 5, 2004

Rotina para quem precisa

Ai, ai.

Desde que chegamos da África do Sul meus dias aqui têm sido agitados demais. Antes mesmo de sair de Middelburg nós sabíamos que os pais do Martin viriam nos visitar e ficar por alguns dias.

Então na mesma semana foi uma correria para desfazer as malas, ir à minha consulta, arrumar tudo e tornar o apartamento transitável. Daí eles vieram e passamos dias excelentes, passeando, conversando, cozinhando e rindo. Na quinta eles voltaram para Leicester. Os outros dois dias foram de faxina mais pesada, bilhões de roupas pra lavar e fingir que o ferro de passar ainda não foi inventado.

Ontem, sábado, foi dia de ir encontrar com os colegas do Martin que vieram de Sheffield, juntos com os outros colegas daqui. Jantamos, papeamos e depois fomos num pub. Voltamos à meia-noite.

Hoje, domingo, meu corpo se sente tão, mas tão relaxado... Todos os 'compromissos' foram feitos e estou feliz de poder finalmente dedicar meu tempo a mim, ao Mr.M e ao nosso apartamento. Coisas que eu queria TANTO fazer desde que pousamos em Heathrow!

Agora estamos só nós dois aqui para curtir o resto do verão. Hoje está um sol tão forte, a temperatura está pr volta dos 26-27 graus. Amanhã finalmente entraremos na nossa velha, pacata e adorável rotina. Ufa. Êba.

Comprei uns lírios em Poole com todos os botões ainda fechados. Agora as flores se abriram e elas são tããão perfumadas e grandes!! Lindas, não me canso de olhar .

Daqui a pouco vamos sair. Não sei pra onde ainda. Eu quero ir pra praia, molhar meus pés no mar. Mr.M quer ir caminhar na floresta. As aulas já começaram e a maioria dos turistas já deixaram nossa cidade. Agora é o melhor momento para aproveitar a região que moramos. Ainda está quente, não tem tanta gente e os dias de luz são longos e agradáveis.

Off we go!

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 11:50 AM | mais em An ordinary life

abril 7, 2004

Um novo hobby

Patches.JPG

Agora tenho um novo hobby, que tem me divertido deveras. Eu digo, um tanto. Good Lord.

E o hobby não é nem de seda, tá? :p

Escrito a mão pela Marcia às 3:52 PM | mais em An ordinary life

março 11, 2004

Cabelos Mogno

Tralalalalala... Colori meu cabelo pela primeiríssima vez, na terça-feira passada, tralalalala... Usei aquela L'Oreal Excellence, na cor mahogany brown ou castanho mogno. Não tenho mais fios albinos, mas também a cor ficou a mesmíssima que já era. Queria que tivesse ficado um pouquinho mais avermelhado. Mr.M acha que já está avermelhado. Devo estar (mais) míope, então. Adorei a experiência! Tem uns outros produtos em duas tonalidades, que parecem maravilhosos, mas só para quando eu tiver mais experiença no assunto. Por hora, tá bom demais.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 11:10 AM | mais em An ordinary life

março 5, 2004

De tudo que já foi escrito

Então, o que eu queria comentar há algum tempo é o seguinte. Senta que lá vem história. Desde que criei este blog, em 2001, a minha intenção era de escrever mesmo um diário, daqueles que se colam fotos, ingressos, papel de bala e informação inútil. Principalmente porque eu estava vindo para a Inglaterra pela primeira vez e queria registrar tudo em papel passado.

Os anos se passaram, as mudanças vieram e muita coisa hoje está diferente. Eu não sou mais a mesma, minha vida não é mais a mesma. E nem o endereço do blog não é mais o mesmo. Mas enfim, passei a amar escrever aqui. É aonde coloco um pouco do que estou vivendo a cada dia e é um privilégio poder clicar em tempos passados e ver o que mudou, o que superei, o que fiz ou o que ainda continua igual. É onde escrevo e releio minha vida.

Porém, este blog é umbigalista. E qual diário não é? Falo de mim, da minha vida, das minhas sensações, minhas emoções. Colo fotos minhas e de tudo ao meu redor. Não escrevo para chamar atenção, não escrevo para fazer regras de "como viver fora do seu país", não escrevo para provar nada, absolutamente nada a ninguém.

Apenas vivo e escrevo. E escrevo muito, às vezes. Mas todo essa escrita se enriquece e toma forma quando recebo comentários. É tão gratificante saber que existe um outro lado que está lendo e que, de certa forma, está participando um pouco da minha própria vida. É um retorno sensasional.

E é sobre este retorno que este post se destina. Há algum tempo venho recebendo recados aqui e também muitos e-mails maravilhosos de pessoas me contando que acharam meu blog por acaso e que começaram a ler e gostaram. Daí passaram a ler meus arquivos desde o início até os dias atuais.

Saber disso é para mim extremamente louco e ao mesmo tempo fantástico, vocês não fazem idéia. É incrível perceber que o que eu escrevo aqui causa um certo estímulo positivo que faz essas pessoas lerem tanto do muito que já foi escrito, e são mais de mil posts. Meu ego se infla e minha auto-estima pega carona e vai à estratosfera.

E eu me emociono quando alguém me manda um e-mail dizendo que choraram ao ler sobre a morte da Bianca e de quando tive que me despedir dos meus pais no aeroporto, no dia da minha mudança para cá. Isso é tão doce, tão gentil, saber que minhas próprias emoções tocaram alguém é simplesmente encantador.

Muitas vezes eu não tenho idéia do quanto o que eu escrevo aqui pode afetar ou influenciar quem lê. E é sempre com muito espanto que recebo recadinhos contando o quanto inspirei e fiz refletir sobre determinados assuntos, principalmente quanto a decisão de morar fora para viver um amor (violinos, por favor). Faço uma cara de interrogação enorme, jamais tive qualquer intenção de chegar a ser uma inspiração. Talvez a forma como coloco os acontecimentos aqui pareça tudo cor-de-rosa, mas a grande verdade é que deixar seu país para trás é algo extremamente complexo, muitas vezes dolorido, difícil e frustrante.

Não me arrependo em nenhum instante em ter tomado essa decisão de vir morar aqui. Estou mais feliz do que jamais fui em qualquer outra época da minha vida adulta. Mas foi uma decisão tomada com ajuda de terapia, apoio, coragem e claro, comprometimento com o sentimento mútuo entre nós dois.

Eu jamais poderia incentivar ou desestimular que alguém faça o mesmo. Porque só você é capaz de saber o que é o melhor para a sua vida e o que você é capaz de suportar para ter isso. Por isso este blog jamais vai passar a ser um site de sobrevivência fora do país, com dicas, esquemas, planejamentos e afins. Não. Este blog vai continuar sendo o mesmo diarinho de sempre, com minhas crises, receitas, fotas e reclamações sobre o céu nublado.

No entanto, jamais vou deixar de ficar extremamente feliz -- e surpresa -- ao receber comentários e e-mails como esses que venho recebendo ultimamente. Muito obrigada por terem reservado um tempinho para me contar tudo isso, por terem uma paciência enorme de ler meus arquivos com fotos e links quebrados, por terem feito meus dias muito mais ensolarados (volta dos violinos, por favor).

É isso, só queria dizer obrigada!

Aos meus velhos leitores, fiés de guerra, eu não preciso dizer, mas eles sabem que sou também muito grata a eles todos, muitos dos quais hoje são meus queridos amigos.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:24 AM | mais em An ordinary life

fevereiro 26, 2004

Leitura Compenetrada

Geralmente quando estou lendo algo interessante ou que chame muito minha atenção, leio bastante concentrada, usando toda a potência daquele neurônio que eu tenho. Com isso, faço uma cara de brava mas na verdade estou apenas compenetrada na leitura. Muitas vezes quando estou lendo algo assim, Mr.M acaba me perguntando o que há de errado, certo de que estou para dar uma bronca no primeiro que encontrar. Mas estou somente lendo com atenção, mais nada. E em Leicester, Mr.M capturou um desses raros momentos dessa espécie imprevisível, de cabelo cortado, lendo um artigo na revista feminina sobre agregar valor ao seu imóvel (!!!).

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Escrito a mão pela Marcia às 9:05 AM | mais em An ordinary life

fevereiro 17, 2004

Yoga

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Faz tempo que não falo sobre isso (mesmo porque já falei muito anteriormente), mas continuo fazendo minhas aulas de Yoga e estou simplesmente adorando! Sinto que estou bem mais flexível do que quando comecei, sinto prazer em dar mais atenção a respiração e meus músculos já não carregam mais aquela tensão de antes.

Esta animação de cima é a minha seqüência favorita, chamada Sun Salute. É cansativa, mas excelente para melhorar o humor.

Já consigo também fazer a pose da árvore (da animação abaixo), por 10 calmas respirações consecutivas.

Apesar de saber que Yoga não é uma prática competitiva, é ótimo constatar que meu corpo já consegue ficar em equilíbrio, assim como minha mente, consequentemente.

Namastê.

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Escrito a mão pela Marcia às 2:47 PM | mais em An ordinary life

fevereiro 12, 2004

Grumpy Old Lady

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Grumpy é uma palavra difícil de traduzir para o português mas muito fácil de entender o significado. É a palavra perfeita para quando você se sente mau-humorado sem razão, irritável e não vê graça em nada.

Geralmente quem não é daqui acham que ingleses são frios e a maioria são um bando de grumpy old men. Não entendem nada. Conte comigo: outubro, novembro, dezembro, janeiro e fevereiro. Cinco meses de céu cinza, de chuva, de frio e de gelo pelas manhãs. Tá certo que de vez em nunca aparece um solzinho para espantar os ácaros. Os restantes dos dias escuros se arrastam e se arrastam feitos lesmas deixando rastros. Céu cinza hoje, céu cinza amanhã e depois e depois e depois e depois.

Tem mais graça não. Não está mais tão frio, mas o céu cinza persiste a todo vapor, literalmente. Mínima graça. Não dá vontade de sair de casa. Não dá vontade de ficar em casa. Reclamar vira o passatempo predileto. Sorrir torna-se patético e não combina com o clima lá fora, então melhor mesmo guardar junto com o guarda-sol colorido lá no fundo da garagem.

Assim que eu parar de tomar banho, vou pro Marks & Spencer comprar leite pro meu chá, vou reclamar com o motorista do ônibus que ele estacionou longe da calçada, vou mandar a mulher do caixa me dar o troco em moedas de £2 para não carregar peso na carteira, vou empurrar quem estiver na minha frente na fila, vou querer sacolas extras para a garrafa de leite não molhar minha roupa suja, vou demorar horas para entrar dentro do ônibus, vou reclamar com o motorista de novo, vou xingar as escadas do prédio, vou assistir a EastEnders e vou mandar e-mails pros produtores daquela porcaria reclamando da falta de assunto. Ahh, eu vou.

E até o céu ficar azul novamente, mais ou menos em maio, vou ignorar qualquer comentário sobre o sol, a praia e o carnaval nos trópicos. Porque eu, grumpy ol' lady, não tô mais achando graça ninhuma.

Alguém aumenta a temperatura desse termostado aí, ãhn? Humpf...

Escrito a mão pela Marcia às 12:53 PM | mais em An ordinary life

janeiro 19, 2004

Preguiça e Rotina

No final de semana não fizemos nada de mais além de dar uma voltinha na cidade e tirar fotos de esquilos. Foi um final de semana de muito frio, apesar do sol e do céu azul lindíssimo. No domingo fiz pão de queijo para comer com goiabada e dedicamos o dia à preguiça. Só saimos para postar uma carta, comprar uma revista pra mim (Marie Claire) e cerveja para Mr.M.

Esta semana começou bem nublada e fria, já tenho minha outra listinha pronta, com minha rotina de dia-a-dia. Às vezes é bom ter uma rotina, um ritual diário. Vou ali fazer Yoga, então.

Escrito a mão pela Marcia às 11:53 AM | mais em An ordinary life

setembro 6, 2003

New Visú

Cortei meu cabelo, tralalalalala...

Depois de meses descabelada, ontem finalmente aparei minha juba. Eu gostei, agora está quase na altura dos ombros, um pouco mais curto. Fiquei impressionada de ver no chão pedaços enormes dos meus cabelos. Tava muito longo e muito pesado. Levantou meu espírito! Minha cabeça está mais leve e minha auto-estima, mais lustrada. :o)

Ainda estou usando o mesmo estilo de corte "acabei-de-acordar-não-me-enche".

Escrito a mão pela Marcia às 9:48 AM | mais em An ordinary life

março 3, 2003

Resultado da Enquete

• 90% dos entrevistados trouxeram suas Havaianas do Brasil, com todo orgulho
• 1% dos entrevistados preferiram trazer a sandália Ralph Lauren, mas no entanto, se arrependem daescolha quando precisam dar uma chinelada nas aranhas polares que eventualmente aparecem no lar
• 60% dos entrevistados têm como sonho de consumo, um par de Havaianas que tem a bandeirinha do Brasil nas tiras (que não se
soltam)
• 20% dos entrevistados preferem as que têm miçangas e canutilhos enfeitando as tiras
• 1% dos entrevistados já tiveram seu par de Havaianas furtados por estrangeiros sem noção
• 15% dos entrevistados trouxeram as legítimas para os respectivos cônjuges
• 103% dos entrevistados acham que eu não sei fazer conta

Escrito a mão pela Marcia às 10:01 AM | mais em An ordinary life

fevereiro 28, 2003

:::Enquete:::

Você, leitor(a) brasileiro(a) que está morando no exterior, seja lá por qual razão, responda if you please:

Você trouxe suas chinelas Havaianas do Brasil?
Escrito a mão pela Marcia às 11:18 AM | mais em An ordinary life

*Plaft*

Ontem apareceu uma aranha andando na nossa sala de estar! Pernonas compridas, se equilibrando no carpete buclê, quase sem pressa e sem muita pretenção. Foi Mr.M que se deu conta da presença da aracnídea no recinto. E ela caminhava lentamente em nossa direção, grande e pernuda com seus oito olhares ameaçadores. Ficamos por um tempo atônitos, pensando no que iríamos fazer, já que não temos nenhum inseticida. A solução óbvia veio na minha mente e em dois segundos...

*****PLAFT******

Tasquei minha Havaianas rosa-pink na aranha bretã, que não teve nem chance de dizer: "i beg your pardon?"

Mr.M por sua vez descambou a rir com meu singelo gesto, completamente inesperado para um cidadão de um país onde as baratas não proliferam. Foi um triunfo, realmente. Só então Mr.M percebeu a extrema importância das chinelas Havaianas na vida saudável e sã de um brasileiro.

Escrito a mão pela Marcia às 10:59 AM | mais em An ordinary life

maio 25, 2002

Português-Inglês

Fiquei passada com essa do almond! Como pude esquecer?

Eu me recuso a perder meu português.

Mas não sei o que acontece com meu pobre neurônio filho único. Estou confundindo e misturando muita coisa.

Dia desses tive que ligar para a MasterCard para cancelar um cartão e tive que falar em português. E duas vezes dei uma bela escorregada. A primeira foi quando eu não tinha entendido o que a moça estava falando e ao invés de perguntar tão facilmente "como?" ou então "o que?" ou até mesmo "oi?", eu perguntei "Sorry, pode repetir?". E para confirmar uns dados, ao invés de falar "acho que sim" falei "I think sim". GAAAAAAHHH! "I think sim"??? Alguém me interne urgente!

E se meu inglês melhorasse na mesma proporção tava bom. Mas não. Ultimamente não consiiiiiiiigo falar kitchen (cozinha). Só sai chicken (galinha)! Eu vivo dizendo que preciso arrumar a galinha, que vou comprar coisas para limpar a galinha, que vou na galinha pegar um copo d'água. Assim não dá. Não dá. Preciso pagar hora extra pro neurônio. :o)

Escrito a mão pela Marcia às 6:25 PM | mais em An ordinary life