janeiro 29, 2007

The Tale of Beatrix Potter

Fomos ao cinema ontem e assistimos a Miss Potter. Estávamos animados para conferir o filme que é baseado na vida de Beatrix Potter, a autora de diversos personagens de histórias infantis, incluindo o famoso Peter Rabbit. Mais que isso, Potter viveu parte de sua idade adulta em Lake District, na região de Cumbria onde Mr.M morou durante sua infância e adolescência. Não tínhamos muitas expectativas porque não havíamos lido nada a respeito, estávamos apenas curiosos em ver imagens de Lake District e também saber um pouco mais da biografia tão pouco conhecida da autora.

Adoramos. Renée Zellweger ficou bem convincente como Beatrix Potter. E Ewan McGregor, nem é preciso muito esforço para se afeiçoar ao seu personagem, excelente. E as imagens, ahh, festa para os olhos. Cada detalhe, mesmo que distante e fora de foco foi bem pensado e pesquisado. Principalmente quando as cenas são da época Vitoriana, em Kensington, Londres. Sem contar com as paisagem de Lake District e da reconstrução da fazenda Hill Top, onde Potter viveu os últimos anos de sua vida se dedicando a preservar o patrimônio rural da Inglaterra.

O filme todo é bem charmoso, harmonioso e delicado, assim como as ilustrações da autora. Mas não é um filme infantil, já aviso. É um drama, uma biografia, apesar da presença de Jemina Puddleduck, Benjamin Bunny e Mrs. Tiggy-Winkle, entre outros personagens fofos. Os fatos principais são todos verídicos. Desde sua próspera infância, sua opressiva mãe que nunca incentivou ou sequer reconheceu seu precoce talento, sua triste tragédia pessoal, o sucesso do primeiro conto infantil.

Depois de sua morte, em 1943, Potter doou à National Trust quase toda sua propriedade, que inclui 4000 acres de terra, cottages e 15 fazendas, incluindo a belíssima Hill Top, que ainda é preservada com muito do que a autora possuía. Até a horta continua sendo cultivada com os mesmos legumes e vegetais que ela um dia plantou e que foi fonte de inspiração para suas inúmeras ilustrações.


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Num Natal frio, cheio de gelo e pouca neve, ganhei de Mr.M a coleção completa dos contos de Beatrix Potter, numa edição comemorativa do centenário de Peter Rabbit. Considero-a um tesouro, é um fascínio ler as obras em ordem cronológica que foram publicados, bem como ler sobre os eventos da vida da autora na respectiva época de cada conto, o que explica a personalidade pitoresca de muito de seus personagens. Mr.M teve toda a coleção também quando criança, mas a edição dele era dos livrinhos pequeninos, que Beatrix Potter insistiu que fossem feitos para caber nas mãos pequenas das crianças. E por muitas vezes nós lemos os contos juntos, sob o edredon quentinho e à luz fraca do abajour; eu conhecendo muitas estórias pela primeira vez, Mr.M relembrando de seus personagens preferidos. E nós dois rindo, talvez porque os animais eram engraçados, talvez porque aquele momento pra nós era tão único e divertido. Ou talvez porque o frio e as dificuldades desta vida ficavam pra fora da janela fechada, atrás da cortina.

Meus contos favoritos? O delicioso The Tale of Pie and the Patty-Pan (patty-pan é uma forminha de empada, que antigamente era colocada dentro de uma torta grande, por baixo da massa que a cobria, para evitar que o centro da mesma afundasse); o comovente The Tale of the Tailor of Gloucester; e também The Tale of Ginger and Pickles, que reúne vários dos personagens mais famosos. E The Tale of Peter Rabbit, claro, esse coelho sem-vergonha e guloso.

Escrito a mão pela Marcia às 12:22 AM | mais em Little Britain | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (5)

setembro 6, 2006

Radio, Someone still Loves You

Radio
I'd sit alone and watch your light
My only friend through teenage nights
And everything I had to know
I heard it on my radio

Algumas canções só começam a fazer sentido muito mais tarde em sua vida. Amadurecimento e vivência trazem esclarecimentos dantes nunca sonhados. Estava pensando nisso a respeito da tão aclamada Radio Ga Ga, do Queen. Quantas vezes cantarolei essa canção, quantas vezes bati palmas entre "radio ga ga, radio goo goo", quantas vezes ouvi e ouvi novamente os mesmos versos. Porém, pouco ou quase nada entendia a respeito de seu verdadeiro significado.

Somente agora, após próxima convivência com minha família britânica é que entendo melhor a canção. Somente quando entendi o imenso papel que o rádio ainda tem na vida dos britânicos, principalmente ingleses, é que essa belíssima canção se apresentou a mim, novamente, como um grande manifesto.

Para quem chega em solo britânico agora e liga o rádio acha chato e que tem muita conversa, muito blablabla e pouca música. Mas é exatamente essa a essência das rádios britânicas: informar, emitir opiniões, criar discussões, instigar idéias, além de, inclusive, proporcionar entretenimento. De ser mais que um barulho de fundo, mais que uma vitrola. E essa essência vem de muito tempo atrás.

Outros tempos. Tempos em que comediantes, comentaristas, artistas e apresentadores eram responsáveis por criticar, educar, encorajar e entreter uma nação, livre de interferências políticas ou comerciais. Tempos em que a obra War of Worlds (sobre marcianos invadindo a Terra), de H.G.Wells, era dramatizada na rádio por Orson Welles, causando pânico nos EUA, tamanha era a força do meio de comunicação. Tempos em que igualmente a narração das Aventuras de Superman atingiam níveis tão altos de audiência, que nos fazia acreditar que o homem podia mesmo voar.

You gave them all those old time stars
Through wars of worlds, invaded by Mars
You made 'em laugh, you made 'em cry
You made us feel like we could fly
Radio...

Tempo em que a BBC Radio informava boletins diários sobre a Segunda Guerra Mundial, monitorava transmissões de outras nações para identificar propagandas nazistas e usava sua tecnologia para combater o avanço de Hitler.
Especialmente, tempo em que, quando os aliados estavam prestes a perder a Segunda Guerra Mundial para Hitler, o então Primeiro Ministro britânico Winston Churchill transmitiu, via ondas de rádio, seu discurso "Their Finest Hour" à nação:

"(...) Hitler sabe que terá que nos arrasar nesta Ilha ou perder a guerra. Se pudermos confrontá-lo, toda a Europa estará livre e a vida do mundo poderá se mover para a frente em amplos e iluminados solos. Mas se nós falharmos, então o mundo inteiro, incluindo os Estados Unidos, incluindo tudo que nós conhecemos e nos importamos, vai se afundar num abismo de uma nova Era de Escuridão, talvez ainda mais sinistra pelas luzes da ciência pervertida. Vamos portanto nos firmar em nossos deveres e ter em mente que se o Império Britânico e sua comunidade durarem por mil anos, então homens ainda dirão: 'este foi o mais grandioso momento deles' ('this was their finest hour')."

Com todo esse passado, toda essa história, com toda essa influência positiva, para a geração de Freddie Mercury e para os que hoje têm mais de 40 anos, foi com grande pesar testemunhar a tão fiel rádio se transformar em uma caixa de música ruim, sem nenhuma mensagem, sem nenhum objetivo. Feito para molecada rebolar, sem saber o que acontece mundo afora e muito pior, sem se importar minimamente com isso.

So don't become some background noise
A backdrop for the girls and boys
Who just don't know or just don't care
And just complain when you're not there
You had your time, you had the power
You've yet to have your finest hour
Radio...

Para completar, a chegada da MTV e afins, apesar de grande impacto e importância, teve também sua parte na alienação, na inércia dos espectadores que, abismados com todo visual, pouco dão atenção ao que importa. E tão bem descreve Roger Taylor, autor de Radio Ga Ga, "nós dificilmente precisamos usar nossos ouvidos". As imagens já estão ali prontas e mastigadas, pouco dos ouvidos e menos ainda do cérebro é exigido. "Como a música muda através dos tempos", conclui Taylor sabiamente.

We watch the shows - we watch the stars
On videos for hours and hours
We hardly need to use our ears
How music changes through the years

Mas ao menos por enquanto, ao menos para os britânicos, a Rádio ainda tem seu lugar privilegiadíssimo e insubstituível na vida deles. Ao menos em nossa família, o pai do Martin jamais pode começar seu dia sem ligar na Radio Five Live e saber tudo o que aconteceu nos esportes enquanto ele dormia. A mãe e a irmã do Martin não perdem nenhum capítulo da rádio-novela The Archers, as duas acompanhando tudo olhando para o rádio, como se de lá saíssem as imagens da trama. Martin aqui em Taiwan chega no escritório e conecta-se a BBC Radio 2 pela Internet, assim como absolutamente todos os colegas deles. Há ainda muitos bons programas, excelentes apresentadores e umas poucas bandas que ainda valem a pena. Eu, que ainda engatinho nesse costume, que venho de outra cultura, acostumada a ouvir à rádio mas com outros interesses, também agora sinto falta dos meus comentaristas favoritos Jonathan Ross, Mark Lamarr e Dermot O'Leary, sinto saudades dos tempos em que tinha que ficar acordada até tarde para ouvir Fábio Massari no Lado B da 89FM contar sobre as bandas da longínqua Europa.

Let's hope you never leave old friend
Like all good things on you we depend
So stick around 'cos we might miss you
When we grow tired of all this visual

Só então toda a letra de Radio Ga Ga passou a ter um completo e intenso novo significado pra mim. Houve um tempo de glória e poder da rádio. Houve um tempo de racionamento de papel, de energia elétrica e de informação. Houve um tempo em que a rádio era o único meio de se conectar ao mundo, o único meio capaz de desafiar censura e guerras, mobilizar massas e nações. A rádio criou por mérito próprio uma confiança que ainda, apesar de tudo, tem seu público, tem seu alvo. Que o manifesto Radio Ga Ga persista por anos e esteja sempre na mente de quem a faz mais que uma radio blah blah.

You had your time - you had the power

You've yet to have your finest hour
Radio...

All we hear is radio ga ga
Radio goo goo
Radio ga ga
All we hear is radio ga ga
Radio goo goo
Radio ga ga
All we hear is radio ga ga
Radio blah blah
Radio what's new ?
Radio, someone still loves you

Queria que Freddie Mercury soubesse que a rádio ainda existe, quinze anos após sua morte, que ela ainda é parte tão cotidiana de muitos, como foi na vida dele em Londres. Ontem pensava em tudo isso quando fomos dar uma espiada na loja de DVDs aqui perto. Entre os muitos títulos que estavam arrumados na vertical feito biblioteca, eis que meus dedos puxaram um título aleatório da prateleira. São todos com sobrecapa em chinês, então não sei que título é até ver a capa. Era Red Hot Chilli Peppers. Coloquei-o de volta e o DVD do lado tombou um pouquinho. Fui ajeitá-lo e para minha total surpresa qual DVD era? Queen Live at Wembley Stadium! Fiquei tão encantada com a coincidência, que imediatamente comprei. Quando chegamos em casa, estava pesquisando sobre o show desse DVD, que aconteceu em 1986, no auge da carreira do Queen, logo após a memorável performance deles no Live Aid. E então descobri que ontem, além de todas as coincidências, seria também o aniversário de 60 anos de Freddie Mercury. Senti uma certa presença nos moldes "I can see dead people"....

"Thunderbolt and lightning
Very very frightening me..."

Escrito a mão pela Marcia às 6:13 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (9)

janeiro 22, 2006

The Whale's Statement

Acho que a maioria de vocês acompanhou o triste desfecho da tentativa de devolver ao mar a baleia que estava perdida no centro de Londres. Aqui, a Sky News estava transmitindo imagens do transporte em tempo real durante o dia todo e obviamente toda a nação estava torcendo para o nosso querido visitante ser salvo e reencontrar sua família.

E corações se quebraram às sete da noite com a notícia que a baleia havia morrido a caminho do Atlântico. A embarcação que a carregava apagou todas as luzes, veterinários, biólogos e marinheiros não esconderam as lágrimas de desapontamento e tristeza.

"Quando você está diante de um animal daquele tamanho e ele está olhando diretamente nos seus olhos, você se pergunta no que ele está pensando, se sabe o esforço imenso que todos estávamos fazendo por ele. Havia muitas muitas lágrimas", descreveu o membro da brilhante British Divers Marine Life Rescue.

Triste fim, mas sinceramente acredito que a baleia deixou sua declaração pública pro mundo inteiro bem ali na frente do Parlamento de que há algo muito errado em nosso oceano. Não apenas na quantidade absurda de lixo que jogamos, mas também na poluição sonora com a quantidade excessiva de sonares que desorientam a fauna marinha tragicamente. Mesmo que por acidente, mesmo que sem propósito heróico algum, sua visita desencadeou investigações profundas do desequilíbrio que a trouxe nas águas do Tâmisa. Mais que isso, fomos espectadores de algo incomum nos dias de hoje. Num mundo onde não há mais escrúpulos ou limites para a crueldade contra animais, num mundo onde baleias são nada menos que fonte de renda, assistir a voluntários de várias áreas unindo esforços para resgatar aquela única criatura desorientada e fraca, ouvir a multidão nas margens do rio aplaudindo e fazendo coro "go, boy, go!" torcendo para sua sobreviência, nos faz no mínimo ainda ter esperanças na humanidade.

"Go, boy, go..."

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Escrito a mão pela Marcia às 9:40 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (9)

novembro 25, 2005

One never knows...

Esta é a previsão do tempo para o sábado de acordo com o site da BBC:

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Como o ícone mostra, tudo pode acontecer.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 11:40 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (11)

outubro 15, 2005

We Shall Not Panic. We Shall Not Panic. AAAAAAAAHHHHH!!!

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Acho que muitos de vocês acompanharam a notícia que o depósito da Aardman Animations em Avon foi totalmente destruído por um incêndio que reduziu às cinzas toda a criação de 30 anos da companhia.

Triste, sem dúvida, muitos storyboards originais, curta-metragens raros, cenários e principalmente personagens foram perdidos. Pedaços da história da Aardman que são irrecuperáveis.

No entanto, Nick Park, criador dos personagens que estava em turnê para promover o filme Wallace & Gromit: The Curse of Were-Rabbit quando o incêndio aconteceu, deu uma declaração muito sensível e filosófica à imprensa:

"É uma notícia terrível pra nossa companhia, mas em vista às atuais tragédias [terremoto no Paquistão e tornado Katrina], não foi na verdade grande coisa. Nós temos que olhar pra frente, continuar filmando e não ficarmos presos no passado."

Porém, obviamente nem todos são desapegados e coerentes como Nick Park e muitos não conseguem aceitar o curso dos acontecimentos. Ontem, assistindo a um dos meus programas favoritos Have I Got News For You, que comenta as principais manchetes da semana com bastante humor e sarcasmo, fiquei sabendo que o The Sun publicou várias fotos, na versão impressa do jornal, dos personagens da Aardman com o carimbo: morto. Morri de rir. Rocky & Ginger (Chicken Run): dead. Pickles Guide Dog (Creature Comforts): dead. Morphy & Chaz: dead. Terry the Octopus: dead.

Não se pode mesmo levar a sério um jornal desses. O dramalhão, o pânico, o horror. Como bem disse o apresentador do programa: "Sim, morreram e farão muita falta. Mas também podem ser refeitos num instante, so GET OVER IT!!"

Porém, ninguém tem dúvida de que o responsável pelo incêndio pode ser apenas ele: Evil Penguin, sempre ele.

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Escrito a mão pela Marcia às 10:39 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (10)

setembro 30, 2005

Make Coffee, Change a Life

Hoje é o dia do evento World's Biggest Coffee Morning aqui na Inglaterra, promovido pela McMillan Cancer Relief, e centenas de empresas, entidades, escolas e comunidades pararam por algumas horas para tomar café da manhã juntos e ao mesmo tempo fazer doações para apoiar estudos e pesquisas para combater o câncer.

E foi com muita satisfação que participei do evento preparando com a maior dedicação que já tive os docinhos pro café da manhã da nossa cidade. O que fiz? French macaroons, naturellement.

Algumas fotos da produção em massa (nas fotos apenas metade da produção):

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Não me importa se vão gostar ou não dos meus macaroons, o importante é que quem estiver no evento faça a doação. É só isso que importa. Eu não vou ao evento porque é só entre empresas e fornecedores, mas Mr.M está lá e depois vai me contar como foi. Fiz minha parte e estou muito contente com isso. É sempre uma honra participar de um evento que tem como meta salvar vidas. Mesmo que não imediatamente, mas num futuro no qual famílias e indivíduos poderão ser poupados de sofrimento, dor e saudade.



Escrito a mão pela Marcia às 11:35 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (21)

setembro 15, 2005

Life is Sweet

Cor blimey! Recebi um convite inesperado e inusitado para participar de um projeto bem bacana que me deixou bastante entusiasmada. Inusitado porque desta vez meus modestos dotes culinários é que estarão arrecadando fundos para o Cancer Research UK e McMillan Cancer Relief, para ajudar em suas pesquisas e apoio no combate ao câncer. O evento vai acontecer no final do mês e vai reunir alguns empresários, diretores e gerentes de nossa cidade e Christchurch. Quem quiser provar dos meus quitutes (e de outros bolos, tortinhas e tais, feitos por outras mãos mais competentes e experientes que as minhas) vai ter que fazer uma doação às instituições de caridade. Bacana, né?

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Não vou contar ainda o que vou preparar para que evitar que a massa tenha um colapso, sole, desande e dê dor de barriga. Mas prometo fotos mais tarde.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 8:58 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (14)

setembro 12, 2005

England Regain the Ashes

O jogo, que começou em meados de Julho, teve seu triunfante desfecho hoje a tarde, com a vitória da Inglaterra em 2 a 1.

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O troféu é a réplica da pequena urna de cerâmica que contêm as cinzas dos stumps e bails que foram cremados quando a Austrália fez o que na época, 123 anos atrás, era considerado o impossível: bater o invicto time inglês. Após a trágica partida em 1882, foi publicado nos jornais um anúncio na seção obituária, declarando a morte do críquete inglês.

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Durante esses longos meses e partidas absolutamente eletrizantes, aprendi bastante sobre a história do Ashes, os jogadores, as regras. O pai de Mr.M foi jogador de críquete da liga de Cumbria quando jovem (e por coincidência meu papis Seu Jorge também jogava baseball pra cidade dele) e me ajudou a entender como os arremessos e rebatidas são feitos para causar o efeito desejado. Mas além dos detalhes técnicos, também me divirto com os breaks durante as partidas pros jogadores tomarem água e comer banana, fazerem pausa pro almoço e chá da tarde (!!). E também gosto de ver os jogadores de ambos times sendo solidários quando alguém se machuca, dos aplausos da platéia para os australianos quando eles merecem, dos trejeitos dos juízes, das dancinhas com as mãos quando o time faz 4 ou 6 pontos, das sinceras risadas e abraços entre jogadores rivais, que na verdade são amigos bem próximos fora do campo.

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Enfim, agora sou fã. Também não tinha como ser diferente depois de acompanhar entusiasmadamente cada dia de partida em três meses. Mesmo quando saíamos para nossas caminhadas cada vez mais longas, que agora chegam a 15km, dávamos um jeito de perguntar prum sorveteiro quanto estava o placar. Durante este último test, Hugh Grant (acima) também estava prestigiando na platéia do Oval, em Londres. Bom saber que nós dois temos tempo de sobra pra torcer pro time inglês. Se alguém tem que fazer essa tarefa árdua, que sejamos nós não vocês.

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E entre os momentos emocionantes da partida de hoje, uma imagem marcou o dia: o australiano Shane Warne (acima), que é considerado o melhor jogador de críquete dos últimos tempos, se despediu do campo, da platéia e do Ashes, agora que chegou a hora de se aposentar. Well done, Warne.

Mas nem Shane Warne, nem Brett Lee foram suficientes para segurar os três leões ferozes. Merecida vitória do time de Vaughan, que realmente jogou fenomenalmente bem e revelou grandes heróis como Flintoff, Jones e Pietersen. Até a Rainha, Dona Beth, enviou uma mensagem congratulando a atuação do grupo neste verão: "My warmest congratulations to you, the England cricket team and all in the squad for the magnificent achievement of regaining the Ashes."

As cinzas voltaram para casa depois de humilhantes 18 anos sem vencer os rivais australianos e delas renasce o velho e bom críquete inglês. Oh jolly good day!

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Escrito a mão pela Marcia às 9:37 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (5)

agosto 23, 2005

The Piano Man - The Epilogue

Encerrou-se o mistério que envolvia aquele que se tornou conhecido como o Piano Man. Ele quebrou o silêncio pela primeira vez em quatro meses e revelou que é alemão, que seu nome é Andreas Grassl e que foi encontrado na praia de Kent logo após ter tentando cometer suicídio no mar. Recebeu alta do hospital e foi enviado à Bavaria, onde vivem seus familiares.

Sua identidade e outros detalhes não foram revelados à impressa logo de início para preservar o sigilo do paciente. Porém, mais do que depressa, os tablóides já começaram a encher suas páginas dizendo que o tal Piano Man enganou a todos, que fingiu o tempo todo, que nem sabe tocar nenhuma nota no piano. E conseqüentemente, já existe uma porção da população que faz dos tablóides suas próprias opiniões, condenando-o a pagar de volta todo o dinheiro gasto em seu tratamento.

Que mundo mais mesquinho, este. Então alguém tentou se matar, foi encontrado em estado de choque, depressivo e assustado, passou por baterias de exames, os psiquiatras indicaram o internamento por tempo indeterminado. Não é pra isso que o sistema de saúde existe? Não é isso que se espera que um paciente tenha, sejam lá quais forem suas razões?

Agora a mesma mídia que criou toda a fantasia ao redor dele está puta porque o final cinematográfico não aconteceu? Quando desde o começo todo mundo sabia, ou deveria saber, que tudo a respeito dele não podia ser mais do que especulações porque não havia fontes para confirmar absolutamente nada da vida dele. Já está mais do que muito tarde para as pessoas entenderem que notícias não são novelas. Ninguém sabe e ninguém nunca saberá o que é ou o que foi estar na pele do Piano Man. Julgar é muito fácil num mundo no qual se aprende apenas o que passa na TV. Get a life.


"(...)
No you don't know what it's like
When nothing feels all right
You don't know what it's like
To be like me
To be hurt
To feel lost
To be left out in the dark
To be kicked when you're down
To feel like you've been pushed around
To be on the edge of breaking down
And no one's there to save you
No you don't know what it's like
Welcome to my life"

Escrito a mão pela Marcia às 5:40 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (12)

agosto 8, 2005

A Gentlemen's Game

Eu nunca liguei, nem nunca me importei e muitas vezes até tirei o barato daqueles moços com seus coletes de lã. Mas ontem a partida de cricket England vs Australia estava tão emocionante e tão tensa que não deu para ignorar mais. A mesma partida já durava quatro dias e podia terminar em cinco minutos, como podia demorar mais um dia inteiro. Martin me explicou o básico e ficamos esperando pelo desfecho da partida. Até que finalmente, quando a vitória já parecia encaminhar para os australianos, num lance perfeito vencemos!

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Cricket não tem absolutamente nada a ver com baseball, como uma vez pensei. Nada de gente mascando chiclete no campo, nem cuspindo na areia, nada de lucky socks, nada de luvas feito cestas, nada de coaches berrando, nada de hot dogs na torcida, nada disso. É um esporte centenário e que condena qualquer incidente de violência. Porque cricket é sobretudo um esporte de cavalheiros.

E o cavalheirismo do cricket inclui também vencedores consolando os perdedores logo no final de uma partida, como o inglês Andrew Flintoff fez com o australiano Brett Lee, contratulando-o 'You have got to be proud of what you have done there', na foto acima.

A partida de ontem, aliás, faz parte de um campeonato chamado The Ashes e existe desde 1882 quando a Austrália venceu a Inglaterra em casa, levando embora "as cinzas do cricket inglês". Desde então a Inglaterra pede revanche para recuperar "suas cinzas". As partidas são, portanto, somente entre esses dois países. Vence o país que ganhar 3 das 5 partidas, sendo que cada partida dura em média quatro dias. A de ontem foi a segunda e a Inglaterra está empatada com a Austrália. Há dezoito anos a Inglaterra não vence seus rivais e está mais que na hora das cinzas voltarem pra casa.

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Mais tarde, Martin me explicou mais detalhadamente as regras e os nomes de cada item que compõe o cricket. Eu fiz os desenhos e ele se encarregou das explicações. Agora que estou entendendo melhor, estou até gostando de assistir e principalmente de torcer! Tem um campo de cricket aqui perto de nossa casa e qualquer dia levo minhas pipocas por lá com uma garrafa de Pimms.

Escrito a mão pela Marcia às 2:16 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (11)

julho 30, 2005

Newspapers' Headlines

Manchetes de alguns dos principais e mais populares jornais do Reino Unido, na data de hoje. Não é preciso muito esforço pra advinhar qual deles é tablóide sensacionalista.

The Telegraph: "Bombing suspects seized"

The Guardian: "Entire alleged bomb ring held after raids in London and Rome"

Financial Times: "Four London bomb suspects in custody"

The Times: "All 21/7 suspects captured"

The Sun: "Got the bastards"


Some things never change.

Escrito a mão pela Marcia às 2:38 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (10)

julho 16, 2005

London United in Grief

Então estivemos em Londres por dois dias para comemorar o aniversário da Mary, como havíamos combinado semanas antes do atentado. Ficamos hospedados justamente em King's Cross, centro de toda confusão e em nenhum momento pensamos em desistir ou cancelar nossos planos.

Visitamos grande parte dos principais pontos turísticos, andamos pelas ruas mais famosas, vimos a maioria dos ícones da cidade, num bom tour que, espero, tenha agradado muito aos dois. Londres dificilmente decepciona. Logo a Mary deve contar por onde andamos e o que fizemos.

Para mim, esta visita à Londres porém, teve um gosto diferente. A cidade continua tão maravilhosa e intensa como sempre foi, mas andando por suas ruas, usando o metrô, olhando para os londrinos, senti um imenso pesar pairando no ar, de uma cicatriz ainda sangrando e derramando lágrimas.

Não senti medo em nenhum momento, não desconfiei de ninguém nos metrôs, não entrei em pânico com nada. Nem mesmo quando ouvimos ao anúncio no metrô: "por medida de segurança, a linha Metropolitan vai ser fechada em ambos sentidos" seguida de "por medida de segurança, a linha Central vai ser fechada". Nem mesmo vendo a rua que ia para a Tavistock Square fechada e evacuada, ainda com velhos respingos de sangue seco nas calçadas.

Senti mesmo só uma grande tristeza pelas vítimas, pelas famílias delas, pelos londrinos que precisam conviver com tudo isso dia após dia e por toda nação.

As inúmeras flores na estação King's Cross fazem tudo parecer muito mais real e dolorido do que acompanhar noticiários. Não foram apenas "52 pessoas mortas", mas foram James, Anne, David, Phil, Adrian, Shahara, Jennifer, Laura, e tantos, tantos outros que eram pais ou mães, que eram filhos e filhas, que eram maridos e esposas, que eram sobretudo, inocentes. Se eu me engasguei vendo as flores, Martin me contou que sentiu o mesmo nó na garganta ao ver os apelos das famílias grudadas nas paredes da estação, desesperadamente à procura dos seus parentes desaparecidos. Pessoas que ainda não foram encontradas e que talvez nunca serão, dependendo de sua proximidade no momento da explosão.

Nos dois minutos de silêncio que foram feitos em todo Reino Unido ao meio-dia da quinta-feira, estávamos na frente do Palácio de Buckinham. E no meio de toda aquela enorme multidão que se aglomera para ver a Troca da Guarda, no meio do tráfego intenso e barulhento com seus taxistas impacientes, no meio disso tudo, o silêncio foi feito. Os policiais tiraram seus chapéus e capacetes, a população baixou a cabeça, os turistas mostraram sua solidariedade, os carros pararam e desligaram os motores. E o silêncio se instalou. Apertei a mão de um inglês que sente muito pelo seu povo, que viu sua terra sofrer similares ataques com o IRA e que agora assiste a mais esta tragédia atingindo aos seus. Durante todo o longo minuto, segurei na mão do Martin e fizemos nosso silêncio.

Estranho mundo, este em que vivemos.


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Escrito a mão pela Marcia às 7:58 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (7)

julho 9, 2005

The Day After

Estamos todos bem aqui.

Maria, Stefan, Mr.M e eu, colocando conversas em dia, contando novas e velhas histórias, rindo, passeando, comendo, vendo TV e nos divertindo.

A vida continua em toda Inglaterra, inclusive em Londres. Principalmente em Londres. Um ataque daquelas proporções nunca é apenas regional. Quando os terroristas explodiram as sete bombas levando a vida de mais de 50 pessoas, não atacaram apenas Londres, mas toda uma nação, se não toda uma civilização moderna. E Tony Blair pode ter seus defeitos e ter feito seus erros, mas não há que discorde de que sempre foi e ainda é um grande estadista. Em seu discurso à população, Blair pediu a todos a não se sucumbirem ao terrorismo.

Mas antes disso já era possível ver nas ruas de Londres e no resto do país uma certa calma, apesar de tudo. Não havia aquele pânico generalizado, aquele corre-corre de gente comprando galões de água para levar para seus bunkers. Não havia gente gritando, protestando, jurando vingança. Havia sim um silêncio. Não um silêncio permissivo. Mas um silêncio no meio da indignação, no meio do pesar pelas vítimas e misturada no meio de uma imensa força interior dentro de cada cidadão de não deixar os terroristas nos aterrorizarem.

Eu me orgulhei deste povo como nunca. Pela solidarierade, pela ajuda voluntária, pelas flores nos pontos de ataque, pela determinação de erguer a cabeça.

Eu me orgulhei de ver tantos trabalhadores voltando a pé, caminhando por horas, no mesmo silêncio, por um momento dava para adivinhar o pensamento de cada um em seus passos surdos: "Até quando?"

Eu me orgulhei também dos barqueiros, que lucram nas margens do Rio Tâmisa fazendo passeios turísticos, oferecerem viagens de graça para a população se locomover e voltar para casa.

Eu me orgulhei de, no dia seguinte, ver as manchetes nos jornais tablóides ou não, dizendo "We won't let them win", "They won't take charge of our lives".

We shall not be terrorized. We won't.

Escrito a mão pela Marcia às 5:59 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (9)

julho 7, 2005

London 7/7


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We shall not be terrorized


Escrito a mão pela Marcia às 7:45 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (9)

... and The Hell Broke Lose


8h50 - Série de explosões em Londres deixam vários feridos.

9h30 - Toda a linha de transporte público foi interrompida depois das primeiras explosões, a policia já avisou que vai haver várias "explosões controladas" nos próximos minutos.

Não há pânico em Londres. A equipe de emergência, que tem sido extensivamente treinada desde 9/11, agiu rapidamente e está no momento vasculhando a cidade e atendendo às casualidades. As vítimas estão sendo levadas aos hospitais e outras em estado de choque estão sendo levadas aos hotéis mais próximos para receber atendimento médico, usar o telefone, banheiro etc.

10h30- O comissário da Polícia Metropolitana acredita que trata-se de atentados terrorista pelo número de sucessivas explosões, na mesma área da cidade, durante a reunião do G8. Mas são apenas especulações, por enquanto.

12h00 - Tony Blair acabou de anunciar e confirmar os ataques terroristas. Ele volta para Londres enquanto os outros dirigentes continuam com a reunião do G8.

12h57 - Um grupo entitulado "Secret Organisation al Qaeda in Europe" assumiu o ataque.

E da mesma forma que ontem chorei ao ver a população em Londres vibrando de alegria, hoje me solidarizo com eles e choro ao ver inocentes feridos e sangrando.

:(

Escrito a mão pela Marcia às 10:55 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (18)

julho 6, 2005

THE GAMES ARE COMING!

160_london_2012_050704.jpg
est-ce des indigestions, monsieur Chirac?


HOORAY!!

Fantástica vitória de Sebastian Coe e de toda equipe olímpica britânica que contrariaram todas as probablilidades e trouxeram os Jogos para cá.

E eu preciso dizer que chorei, chorei quando o presidente do Comitê Olímpico anunciou que a cidade a hospedar as Olimpíadas de 2012 era Londres e toda a Trafalgar Square explodiu em gritos, aplausos e confetes e toda vibração inesperada. Porque existe uma nação dentro de mim que é aquela onde eu nasci. E existe uma outra nação em mim que é aquele que eu adotei.

Oh jolly good news!


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Clique aqui para assistir ao vídeo da reação popular no Trafalgar Square.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 12:53 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (9)

London vs Paris

Estamos na final.

Refiro-me à final da votação da próxima cidade a hospedar os Jogos Olímpicos de 2012.

Daqui a pouco será anunciada a cidade que recebeu mais votos do membros do comitê olímpico. De todos os países participantes, Londres está concorrendo com nada menos que Paris.

E com todo o fuss causado por Chirac esses dias, vencer ou perder de Paris não vai ser fácil.

tectectectectec...

Escrito a mão pela Marcia às 12:02 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (1)

julho 5, 2005

How dare you, Chirac?

O pouquíssimo popular presidente francês Jaques Chirac, fez piadas com seus vizinhos ingleses.

"You can't trust people who cook as badly as that. After Finland, it's the country with the worst food"

"Não se pode confiar em um povo que cozinha tão mal como aquele. Depois da Finlândia, é o país com a pior comida"

How DARE him?! Vem aqui, enche a pança em jantares oficiais, arrota salmão, rosbife e yorkshire pudding e depois cospe no prato que comeu. Haggis nele, black pudding nele, Marmite nele!

A piadinha velha e sem graça podia ter ficado só por aí mas Chirac foi mais além e acrescentou:

"The only thing they (the English) have ever done for European agriculture is mad cow"

"A única coisa que eles (os ingleses) fizeram pela agricultura européia foi a doença da vaca louca"

O que definitivamente tocou em um ponto bastante delicado e dolorido da história da Inglaterra. Se você estiver visitando este país, jamais, NUNCA, em hipótese alguma faça piada sobre a mad cow disease ou principalmente foot and mouth disease. Foi um desastre de proporções gigantescas, que devastou famílias honestas, que perderam não apenas toda sua produção, mas também suas terras, que ficaram contaminadas e improdutivas; suas casas, que perderam valor; seus empregados, que não podem mais trabalhar na mesma terra; seu sustento e seu amor pela profissão.

"(...) Well I'm afraid
it doesn't make me smile
I wish I could laugh
but that joke isn't funny anymore
it's too close to home
and it's too near the bone
it's too close to home
and it's too near the bone
more than you'll ever know..."

- That Joke isn't Funny Anymore, The Smiths

:-/

Escrito a mão pela Marcia às 1:14 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (9)

julho 2, 2005

Live 8 - Justice, not Charity

É hoje! 14h00 aqui na Inglaterra, 10h00 aí no Brasil, 15h00 pro resto da Europa. Stay tunned!

live8.jpg

E M&M estarão lá!

Well, na verdade não estaremos em Hyde Park, mas assistiremos em nossa cidade num dos oito únicos gigantes telões instalados na Inglaterra! Woohoo!!

Nem pude acreditar quando Mr.M anunciou nesta manhã "We're going". Já estou prontinha, daqui a pouco vamos comprar água e nos instalar no Meyrick Park com o povo de nossa região.

Live 8 é um projeto liderado por Sir Bob Geldof para exigir dos governantes do G8, que se reúnem dia 06 de Julho em Endinburgh, atitudes para acabar com a miséria na África, e também exigir maior apoio ao Fair Trade, que ajuda na subsistência de muitos países pobres.

Às 15h00 horário da Europa, haverá um minuto de silêncio para a população miserável da África, onde a cada 3 segundos um ser humano morre.

Quer fazer parte também de alguma forma? Acesse o site do Live 8, clique em Sign The Live 8 List e dê seu nome para o abaixo-assinado aos líderes do G8.

Com a palavra, Sir Bob:

"This is without doubt a moment in history where ordinary people can grasp the chance to achieve something truly monumental and demand from the 8 world leaders at G8 an end to poverty.

The G8 leaders have it within their power to alter history. They will only have the will to do so if tens of thousands of people show them that enough is enough.

By doubling aid, fully cancelling debt, and delivering trade justice for Africa, the G8 could change the future for millions of men, women and children."

Rock'n'Roll all around the world...

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:42 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (4)

maio 17, 2005

The Piano Man

Pianoman.jpg

Como a Bia Badaud havia pedido maiores informações sobre o caso, aqui vai a história deste pobre moço da foto acima. Ele foi encontrado vagando pela praia de Kent, com roupas bem alinhadas, terno preto, camisa branca, gravara, todas ensopadas, e um maço de partituras nas mãos. A polícia e o serviço social recolheram a pobre alma e tentaram descobrir quem ele era. Mas o moço, aparentemente em estado de choque, não pronuncia nenhuma palavra e permanece em silêncio catatônico.

Ele foi levado para o Medway Maritime Hospital para fazer exames e lá recebeu papel e caneta para tentar se comunicar, caso fosse estrangeiro ou surdo ou mudo. E para a surpresa dos médicos e enfermeiros, o moço que não diz nenhuma palavra produziu este desenho:

Pianoman2.jpg

Espantados, os médicos então o levaram para a capela do hospital e colocaram-no de frente a um velho piano. E então, mais inesperadamente ainda, o silencioso paciente deu um verdadeiro espetáculo, tocando música clássica ao piano magnificamente por várias horas seguidas.

Até o presente momento, ninguém tem nenhuma pista de quem ele é ou de onde vem. Alguns intérpretes da Europa Oriental foram chamados para tentar falar com ele, mas o silêncio continua sendo sua linguagem quando não está ao piano. Ele parece, no entanto, entender inglês e talvez seja um britânico mesmo e não um refugiado, como foi a primeira suspeita.

Orquestras do mundo todo estão sendo contactadas para ver se alguém conhece este cidadão. E também a National Missing Persons Helpline está fazendo um apelo para que qualquer pessoa que o reconheça traga alguma luz ao caso.

Os psiquiatras que estão tratando do Piano Man, como ele está sendo chamado, disseram que ele está muito assustado, muito estressado e traumatizado. Vai ficar sob custódia da clínica psiquiátrica até quando for necessário.

Segundo o serviço social, há a possibilidade de que o próprio pianista deseje ser um anônimo para sempre. Suas roupas tiveram as etiquetas cortadas e seus sapatos também não têm marcas. Resta saber se isso foi sua vontade própria ou por alguma razão fizeram isso a ele. Mas se ninguém reconhecê-lo e confirmar seus dados, corre-se o risco de jamais sabermos o seu nome ou de onde ele vem.

Seja por um trauma, por amnésia ou mesmo por vontade própria, a história do Piano Man não deixa de ser muito, muito triste.

:-|

Update 18/05: um polonês que mora em Roma reconheceu o Piano Man e alega que ele é um músico de rua francês. A polícia diz que é uma possibilidade, mas até que se prove, isso continua sendo apenas uma possibilidade. Os médicos acreditam que ele sofre de algum grau de autismo. Austistas têm a capacidade de desenvolver habilidades de forma espantosa, ao mesmo tempo que não conseguem interagir com o mundo. Arrancar etiquetas das roupas também é um indício de comportamento obsessivo comum aos autistas. Mas nada disso ainda foi provado no caso do Piano Man, que simplesmente se esconde visivelmente aterrorizado embaixo do edredon ou se recolhe encolhido num canto da sala quando alguém tenta falar com ele.

Update 18/05: a irmã do músico de rua francês negou a informação e eu tirei o suposto nome do update acima porque o pobre coitado não tem nada a ver com a história. Estaca zero novamente para o Piano Man.

Escrito a mão pela Marcia às 10:55 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (17)

maio 6, 2005

Labour Wins!

Labour venceu as eleiçõs inglesas e vão manter o poder por mais quatro anos, o terceiro e último mandato de Tony Blair como Primeiro Ministro.

Estou muito satisfeita de ver o Labour ganhar.

Eleições parlamentares são um pouquinho diferentes das que temos no Brasil. Aqui não se vota diretamente para Tony Blair ou Michael Howard ou Charles Kennedy. Eles são os líderes dos partidos, mas os eleitores votam na verdade para os Membros do Parlamento (MP's). O Casa do Parlamento (Parliament's House of Commons) possui 646 assentos que devem ser preenchidos por MPs. Cada 'constituency', cada uma das 646 regiões geográficas do Reino Unido, vota para colocar seu MP num dos assentos do Parlamento. Quando a maioria dos assentos é preenchida por determinado partido, então declara-se a vitória de seu líder como Primeiro Ministro.

A nossa cidade por exemplo, para o meu desespero mas não para minha surpresa, elegeu um MP do partido Conservador. Então, não há exatamente perdedores. O Parlamento é sempre uma mistura em desiguais proporções entre Labours (Trabalhadores), Lib Dems (Liberais Democratas) e Torries (Conservadores).

Na eleição passada, em 2001, o Labour Party tinha uma maioria esmagadora nos assentos do Parlamento. Nesta eleição, apesar de ganharem a maioria, o Labour perdeu muitos assentos para os Torries e um dos grandes desafios de Tony Blair vai ser governar com cerca de 33% dos MPs fervorosamente contra ele, o que na verdade muitas vezes faz bem.

Agora vamos aguardar para ver como serão estes próximos quatro anos. Da minha parte, já peguei o nome do MP da nossa região. O conservador John Butterfill. Mal sabe o coitado que entre sua 'constituency' estou eu aqui. Medo, muito medo eu teria, se fosse ele. Huahua.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 12:08 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (3)

maio 5, 2005

Election Day

Hoje foi o dia de eleição aqui na Inglaterra. A primeira eleição que presencio, porém ainda sem direito a participar. As urnas foram abertas às sete e meia da manhã e ficaram assim até agora a pouco, às dez da noite. Isso porque o voto aqui não é obrigatório e todos devem ter o direito a votar no horário que puder. E não, não existe urna eletrônica aqui ainda. Só um xis no papelzinho mesmo.

Martin dormiu duas horas, acordou e se arrastou até o posto de votação, completamente bêbado de cansaço. Mas exerceu seu papel de cidadão e votou. Eu fui com ele, vi ele entregar o cartão, pegar a cédula, votar, dobrar e depositar na urna. Mas fiquei láaaa da porta... Do lado de fora, segurando o batente, olhando com cara de cachorro com fome, vendo todo mundo entrando, votando e indo embora dando risadinha.

Setter.jpg

Eu queria também... ah pôuxa... :o(

Escrito a mão pela Marcia às 10:28 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (3)

abril 12, 2005

Eleições no Império Britânico

Está marcada para 5 de Maio a data para escolher o Primeiro Ministro do Parlamento.

A disputa vai ser, como sempre, entre dois partidos: Conservative (de Michael Howard) e Labour (do qual Tony Blair faz parte). Há outros partidos menores como o Liberal Democrats e o controverso Sinn Féin, partido irlandês que esteve envolvido em violentos ataques para a libertação da Irlanda do Norte durante os anos 80.

Mas a grande corrida mesmo vai ser entre Howard e Blair.

Na minha humilde opinião de quem nem pode votar ainda, eu espero que entre esses dois, Tony Blair vença. Ou que aconteça algum milagre e dêem uma chance aos liberais democratas, mas não aposto meu dinheiro nisso. Apesar da grande besteira que foi se envolver com a invasão do Iraque e arcar com suas conseqüências, o governo de Blair foi uma enorme revolução política e econômica para o Reino Unido, depois do conservadorismo ferrenho de Margareth Tatcher.

Mas o que me faz querer que o Labour vença é que não quero ver o país de volta às rédeas do Convervative, que espera fazer uma "Inglaterra para os ingleses". Só nesse slogan já dá para perceber que a principal meta para os conservadores vai ser atacar a imigração. Segundo as palavras de Howard, seu partido pretende "criar quotas anuais de refugiados que podem entrar no país, controlar os imigrantes que entram e criar um novo work permit". Palavras que fazem tudo parecer organizado e certo, mas que por trás vem carregada de rascismo, discriminação, ignorância e preconceito. Fechar as fronteiras só vai fazer crescer o número de imigrantes ilegais e tornar a população ainda mais xenófoba do que já é.

E ao que refiro imigrantes, não estou falando de brasileiros que se casam com ingleses ou de brasileiros que vêm trabalhar aqui legalmente. Falo de perseguidos políticos, refugiados de guerra, exilados das mais diversas e cruéis razões. Esse tipo de gente que perdeu total confiança de viver em seu próprio país, ameaçados de morte por severas leis religiosas, e que espera receber de um outro país mais rico e mais democrático ajuda para sobreviver. E some-se a isso a real e indiscutível necessidade que o Reino Unido tem de adquirir mais mão-de-obra, especializada ou não, para fazer o país continuar crescendo. Um precisa do outro. Nick Hardwick, atual membro do Refugee Council no governo de Blair, sabe da importância dos imigrantes para o país e tem lutado para regularizar a situação de quem pede asilo aqui.

Agora o que o Conservative quer é aumentar ainda mais o medo do desconhecido que a população tem a respeito da imigração. Há obviamente casos em que os refugiados são largados num canto e como não falam a língua, não podem trabalhar, nem nada, acabam enchendo a cara e entrando pro mundo do crime. É essa a única imagem que vêm a cabeça de quem é pouco informado a respeito e é também a única imagem que os conservadores querem que a população tenha. Imagem extremamente injusta porque nem todo imigrante é problema, nem todo refugiado é criminoso, nem todo exilado é lixo. Muitos dos que imigram pra cá trazem com eles força de trabalho, dedicação, respeito, cultura e divisas.

E por fim, para um partido que séculos atrás invadiu e conquistou territórios na África do Sul, Hong Kong, India, Austrália e Falklands (?), fazer discurso de que cada um deve ficar em seu lugar é no mínimo hipocrisia. Muitos dos que aqui pedem asilo vêm de países cuja própria política invasiva dos países ricos tornou o lugar insuportável de se viver.

É isso.

Escrito a mão pela Marcia às 11:55 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (10)

abril 9, 2005

Who Cares?

Hoje realiza-se um casamento real no Reino Unido. O príncipe herdeiro da coroa real une laços matrimoniais.

And who cares?!?

Quase ninguém aqui no solo britânico está interessado no que acontece hoje. Muitos sequer sabem do acontecimento. A BBC tem o direito à transmissão, mas nem fez grandes alardes. A Rainha Elizabeth II também nem vai atender à cerimônia civil.

E a bem verdade mesmo, mesmo é que Charles, o noivo, é extremamente mal visto e pouco querido em seu próprio reino. E ninguém vê os noivos como pombinhos ou coisa que valha.

Se era pra ficar juntos, por que não casaram antes de fazer da vida de Diana um inferno? Se a rainha não aceitava antes, por que aceitar agora? Existe esse gosto amargo na boca da maioria dos plebeus. E também a lembrança do suntuoso casamento de Charles & Diana, os affairs intermináceis de Charles & Camila PB, as declarações horripilantes de Diana sobre sua depressão, bulimia e tentativas de suicídio. Sua estranha e inexplicada morte em Paris. E finalmente os soluços e lágrimas de William e Harris.

Tudo isso ficou para trás, claro. Charles e Camila têm o direito de ficarem juntos, claro. Eles não precisam da aprovação do público para casarem, claro. Vai ter uma porção de gente acenando bandeirinhas durante o cortejo, claro.

Mas está longe, muito loge de ser um evento que vai manter a população na frente da TV como há 23 anos atrás.

Update: Acabamos de chegar de uma longuíssima caminhada e o casamento acabou de começar. Então deixei a TV ligada porque não se pode perder nenhuma oportunidade de ver William vestido em fraque completo!

Ing, ing, ing Will is our King!
Ing, ing, ing Will is our King!
Ing, ing, ing Will is our King!

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 9:54 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (21)

fevereiro 21, 2005

Food Alert

Estamos vivendo um dos maiores recalls de alimentos da história do comércio do Reino Unido. Uma substância para coloração artificial, chamada Sudan I e possível causadora de câncer, foi encontrada em centenas de produtos britânicos. A maioria dos supermercados já tirou os produtos das prateleiras e a FSA - Food Standards Agency está investigando mais potenciais alimentos que possam ter sido contaminados.

A lista vai desde um pacotinho de batata frita, até noodles, pizzas e comidas prontas, de supermercados simples e também dos mais populares e sofisticados. Asda, Tesco, Iceland, Sainsbury's e Waitrose estão na lista, bem como muitos outros.

Essa lista pode ser acessada pelo site da FSA ou no site da BBC.

A FSA já divulgou à população que "o consumo de Sudan I não traz riscos imediatos de doença e a exposição à substância que pode contribuir para o desenvolvimento de um câncer não quer dizer que necessariamente vá acontecer".

Escrito a mão pela Marcia às 5:30 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (10)

dezembro 18, 2004

3 ANOS NA INGLATERRA

3Years.jpg

Hoje comemoro 3 anos vivendo feliz na Inglaterra. Três anos domando emoções que sempre são cavalos selvagens. Não tenho muito discurso a fazer, apenas posso dizer que foram os três anos mais intensos e mais felizes da minha vida.

Escrito a mão pela Marcia às 11:41 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (8)

novembro 21, 2004

Enquanto isso na rua de trás

As janelas dos quartos do nosso apartamento dão de frente para o condomínio de casas vizinho. Hoje de manhã levantei e abri a cortina e vi algo diferente na frente de uma das casas. Achei que fosse decoração de Natal brega, mas assim que puxei o véu, pude ver melhor e o ar até me faltou. A casa havia sido completamente vandalizada com tinta branca em palavras nada amigáveis, slut, whore -- que o analfabeto escreveu duas vezes "hore", não sabe nem xingar direito --, prostitute, HIV, etc. Tudo escrito em letronas para ler de longe. A polícia já estava lá falando com a dona da casa, que é novinha e estava revolta, tremendo e fumando feito louca. Tiraram várias fotos e depois a moça limpou o que conseguiu das janelas e da porta. As paredes continuam escritas. Não é a primeira vez que a polícia aparece por lá, o ex dessa mulher vive esmurrando a porta, fazendo escândalos no meio da madrugada, um horror. Baixaria bretã. Eu, hein?


Escrito a mão pela Marcia às 8:58 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (8)

novembro 18, 2004

Band Aid 20

"Twenty years ago I performed at Live Aid. You saw me and my generation demanding a change. Once again, here we are 20 years later and more people die of hunger in Africa than war and Aids put together. In a world of plenty, it is hard to imagine that there are African children going to bed tonight hungry. Bob Geldof and his friends are here to remind you that none of us can forget. Not ever. Feed the world. I am honoured to introduce Band Aid 20."

Foi assim que Madonna apresentou a estréia mundial do projeto Band Aid 20, hoje a noite. Novos rostos, novos artistas, mesma música e mesmo objetivo: ajudar aos miseráveis na África que morrem de fome em números mais gritantes que as guerras e a AIDS juntas.

Quando a música começou a tocar, foi impossível não comparar com a versão anterior. Lá pelas tantas eu pensei "ihhh vou sentir falta da voz do Bono". E eis que quando a estrofe chegou, ele e seus óculos azuis apareceram para cantar o mesmíssimo trecho "well tonight thank God is them instead of yoooouuuu...", acompanhado de Paul McCartney na guitarra.

Achei bacana esse remake para as gerações que nunca ouviram falar de Bob Geldof. Não sei se para essa geração está sendo tão emocionante de ver seus ídolos como Robbie Williams, Kate Melua, Sugarbabes, Coldplay, Jamelia, Busted, entre outros, quanto foi para nossa geração com Duran Duran, U2 e George Michael. Os velhacos da minha geração já estão criticando bastante a nova versão. Mas não tem jeito, como eu disse antes, música naquele tempo era música. Mas hey, ainda assim é bacana para arrecadar fundos para o Sudão, entre outros países africanos em estado de calamidade humana.

O projeto espera vender 500.000 cópias na primeira semana.

Feed the world.

Escrito a mão pela Marcia às 6:23 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (5)

outubro 13, 2004

Chuvas de Outono

Hoje choveu muito. Bastante mesmo. E eu precisava ir ao correio sem falta hoje para despachar uns documentos. Mas com a chuva e o vento forte, fiquei presa em casa comendo meu novo mingau de aveia e chocolate, que apesar do nome CocoPops, é muito bom. A chuva parou um pouquinho, mas o céu ainda estava negro. Esperei mais um pouco, almocei, papeei com a Mary (desculpa o atraso, viu queridoca?) e choveu de novo.

Agora a tarde as nuvens foram todas embora, o sol brilhou e o céu azulou. Fui correndo pro correio, que fica a uma distância de quinze minutos andando no meu passo apressado. Peguei fila lenta, despachei tudo e quando saí o céu já estava com algumas nuvens ameaçadoras de novo. Voltei correndo para não ser pega na chuva no meio do caminho. Ufa, consegui.

Outono é assim mesmo nestas terras, até aonde sei. Chove um pouco, pára, chove mais um pouco, pára. Até chegar o inverno quando então não pára de chover nunca mais até maio. Oh dear.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 3:23 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (6)

setembro 15, 2004

Caça aos Caçadores de Raposa

Há tempos que a Inglaterra não via uma manifestação tão violenta.

O Parlamento inglês hoje viveu dias de confusão, revolta e fúria. Hoje foi o dia da primeira votação entre os ministros para banir a caça à raposa como "esporte". Centenas de protestantes, a maioria vindos das áreas rurais (e nobres) do país encheram as ruas de Londres para mostrar sua indignação contra a votação. De outro lado, mais uma outra centena de manifestantes a favor do fim da caça também se fizeram presente.

Os mais enfurecidos, claro, eram os que estavam lá para defender a caça, já que a única alegria da vida deles é vestir um fraque vermelho, colocar a bunda em cima de um cavalo e ir matar animais indefesos. Em um momento vários tentaram invadir o Parlamento e a polícia desceu o cacete neles, como há muito tempo não se via. Vieram reforços, uns loucos conseguiram invadir, mas felizmente não estavam armados e logo foram controlados.

Um dos pró-caça falou pra BBC que independente da lei ser aprovada ou não, eles vão continuar caçando semanalmente e não estão nem aí pra Tony Blair. E ainda complementou: "Existe coisa melhor do que você passar o seu final de semana com as crianças caçando?!?"

Eu assisti a isso e pensei: "Peraí. Perdi o caminho ou esse infeliz tá dizendo que num tem coisa melhor do que ensinar suas crianças a matar um animal à toa, cruelmente, debilmente???" Ah, vá pros quintos que te carregue de cavalo e fraque vermelhinho pro inferno. Perdi a finesse, pronto. Bando de gente ostentadora, esnobe, cruel, nojenta. E como diria Golum, murdererssss!!

Não há desculpa que justifique essa ação elitista e cruel, não há. Raposas não são pragas, não são superpopulosas, não matam indiscriminadamente. Se fosse assim bem que eles poderiam ir caçar ratos, que tal? Caçar ratazanas em áreas pobres e sem saneamento básico vestindo seus casaquinhos de merda??

Raposas ou qualquer animal que seja têm o direito à vida, têm o direito a um controle populacional correto, têm direito à ir e vir em terras que sempre pertenceram à eles, mutualmente com outros tantos.

Agora vem esse bando de gente encher as ruas de Londres com cartazes dizendo "Freedom", "No Prejudice" (O que? Ser contra a matança agora é preconceito??) e "No Ban". A faça me o favor.

Ban sim. Ban. Ban. Ban. Bem na cabeça deles. Ban.

A primeira votação foi hoje. A maioria do Parlamento votou A FAVOR DO FIM DA CAÇA À RAPOSA. Vai haver uma segunda votação, com os Lords. Mas já estamos na frente. Yeah.

Pronto, falei.

Escrito a mão pela Marcia às 10:51 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (11)

abril 3, 2004

Grand National

GrandNational.jpg

Hoje acontece um dos mais tradicionais eventos da Inglaterra: a anual corrida de cavalos chamada Grand National. Eu me lembro que de vez em quando a TV no Brasil mostrava uma notícia ou outra sobre o evento, sempre destacando o glamour das mulheres e seus chapéus exóticos.

GrandNational2.jpg

E hoje de manhã um comentarista da BBC fez o seguinte esclarecimento para o benefício da humanidade: "a grande maioria das pessoas acha que o público do Grand National é composta basicamente por elegantes membros da aristocracia. Mas na verdade, são um bando de gente comum usando roupas ridículas".

HOHOHOHOHOHOHOHOHOHOHO!

:p

Escrito a mão pela Marcia às 9:08 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (4)

abril 1, 2004

House of Lords

Algo que me surpreende e me enche de admiração aqui no Reino Unido é ver como o Parlamento, ou House of Lords, funciona. E como funciona bem, na maiorida das vezes. Obviamente que, como todo governo de qualquer parte do mundo, está longe de ser perfeito ou de ter políticos perfeitos. E longe de mim querer comparar o sistema parlamentar inglês com o sistema republicano brasileiro. São dois mundos diferentes, duas realidades distintas.

Porém, me enche os olhos quando assisto aos inflamados confrontos na House of Lords, chamados de Starred Questions, onde o partido do governo fica frente a frente com a oposição para responder à quatro questões na segunda e na quinta, e cinco questões na terça e na quarta de cada semana.

Todos os ministros do atual partido governista sentam de um lado e os ministros da oposição sentam do outro. Então um dos minitros da oposição fica em pé e exige respostas e justificativas de uma determinada ação feita pelo governo, sobre um determinado assunto. O ministro governamental responsável pela questão então se levanta para responder, enquanto que o da oposição deve se sentar e ficar calado até que o outro ministro termine de falar e volte a sentar. É então a vez do ministro da oposição ficar em pé novamente e rebater as justificativas do governo. E assim sucessivamente. A cada parte é dado o direito à resposta, respeitosamente.

Dessa forma, a todo instante, todas as ações do governo são revistas, debatidas, criticadas ou examinadas. Não importa se Tony Blair é o Primeiro Ministro porque na House of Lords ele não é o rei da cocada preta. Deve justificar e explicar aos ministros e principalmente à nação o porquê de seus atos, mostrar evidências, provar quando necessário, ser julgado se for preciso.

Além de ser o lugar dos mais importantes debates políticos do Reino Unido, o House of Lords funciona também como corte judicial, a Suprema Corte de Apelação. Cabe à Casa praticar também as votações contra ou a favor que dê poderes ao atual governo para agir em questões polêmicas, como foi a invasão ao Iraque.

E esse é um bom exemplo para mostrar que nem sempre a House of Lords age de acordo com a vontade da nação. Nem sempre funciona bem, nem sempre suas ações tem o desfecho desejado ou esperado.

Mas de uma certa forma, é impossível deixar de admirar a seriedade de alguns políticos que lutam diariamente para fazer o Parlamento funcionar como se deve, de forma democrática, respeitosa e civilizada. É óbvio que não fazem mais que a obrigação, mas não deixa de ser admirável.

Notem que em nenhum momento fiz qualquer referência ou comparação com outra forma de governo de qualquer outro país. Há prós e contras de cada forma de governar, levando em conta a realidade de cada sociedade. Esta é a forma que funciona no Reino Unido desde o século 14, muito antes do Brasil sequer ser descoberto. A House of Lords é parte da mais velha democracia parlamentar do mundo. Neste aspecto, há muito o que se aprender com os ingleses.

Escrito a mão pela Marcia às 12:17 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (17)

fevereiro 27, 2004

Neve, neve, neve

Quando neva aqui no sul geralmente dura meia horinha, no máximo uma hora. E eu fico pulando de janela em janela para não perder nadinha. Ontem porém, começou a nevar no comecinho da tarde e nevou, nevou, nevou, nevou por hoooooras a fio. Quando fomos dormir ainda nevava forte, com flocos grandões e eu ainda estava na janela, espiando tudo. Hoje de manhã estava tudo branquinho, telhados, carros, árvores, jardins, tudo. Lindo! Agora o sol voltou e está derretendo tudinho. A temperatura está entre 0ºC e 1ºC. Mas nem me importo com o frio, pelo menos o sol está por aqui! :o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:46 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (14)

janeiro 29, 2004

Blizzard

Ontem a noite vivi meu primeiro blizzard, ou tempestade de neve, na Inglaterra. Lindo e assustador ao mesmo tempo. Trovões, relâmpagos, ventos violentos assobiando alto e muita neve. Demorou mais ou menos uma hora e, por sorte, Mr.M havia acabado de chegar em casa quando começou. A neve acumulou um pouco, não muito a ponto de enterrar os passos. Porém, quando o blizzard parou, a neve derreteu e o frio intenso (chegamos a uma sensação térmica de -8ºC) acabou condensando e as ruas ficaram lisinhas de gelo. Hoje de manhã ainda está tudo branquinho. Parece neve, mas não é. É puro gelo solidificado.

Blizzard1.JPGBlizzard2.JPG

Os pais dos Martin, que estavam trabalhando na casa da irmã dele, não conseguiram voltar para casa e preferiram dormir por lá mesmo para não ter que dirigir em pleno gelo.

Hoje amanhecemos com temperatura de -3ºC e com sensação térmica de -7ºC. A prefeitura está jogando sal nas estradas e nas ruas principais e tentando limpar o gelo. Estamos na expectativa de que a temperatura se eleve e derreta tudo pelo bem da segurança de todos. Ufa.

Escrito a mão pela Marcia às 9:27 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (9)

janeiro 9, 2004

Fluência, where art thou?

Para quem acha que eu já deveria estar completamente fluente na língua inglesa por morar aqui por mais de dois anos e estar casada com um espécime britânico, sinto muito decepcionar, mas ainda não cheguei lá (seja "lá" onde quer que seja).

Devo confessar que tenho completa pânica-pavora-horrora de falar no telefone em inglês. Não, na verdade não é de falar, mas sim de ouvir em inglês. Por telefone não há expressão corporal, não há lábios para ler, não há nenhuma dica para facilitar as coisas. Alguns telefonemas eu entendo bem, outros são completos e totais fiascos. Quando eu posso, passo o telefone para Mr.M decifrar, mas geralmente tento decodificar por mim mesma.

Hoje precisei ligar para o hospital para confirmar meu exame de ressonância magnética. Ensaiei mil vezes, pedi para Mr.M me explicar exaustivamente tudo o que poderia ser perguntado para mim. Já havia ligado antes mas não consegui ter certeza de ter confirmado. Fiascão. Então desta vez não queria errar, precisava confirmar o exame, principalmente porque o dia do exame já está se aproximando, depois de ter esperado desde junho o hospital marcar a data. Talk about pressure? Daí hoje de manhã liguei. A atendente perguntou meu nome, número de referência do exame, tipo do exame, hora e data marcada. Respondi tudo certinho e ela agradeceu. Mas antes que ela desligasse ainda perguntei se estava tudo mesmo confirmado. Ela disse que sim, que estava. Pheeeeeew. Passou. Consegui.

Obs: A ressonância magnética é parte dos exames de audiologia que estou fazendo. Finalmente vou poder saber o que há dentro da minha cabeça além do vento.

Escrito a mão pela Marcia às 9:38 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (19)

dezembro 23, 2003

The English Way

Natal é quase o mesmo na maioria dos países ocidentais. Mas alguns detalhes são bem característicos de certos países. A Inglaterra, que está se tornando a cada dia mais um país multicultural, ainda preserva várias tradições no seu dia-a-dia e não poderia deixar de ser diferente quando o assunto é o Natal. A maioria de vocês já deve ter visto em filmes ou lido em livros, então vou descrever aqui só os costumes mais peculiares.

Mistletoe.jpg A começar pela decoração da casa. Além da tão previsível árvore de Natal e das guirlandas na porta, é muito comum encontrar pendurado na porta de entrada, um ramo de galhos de folhinhas verdes e pequenas flores branquinhas. É o mistletoe. Diz a tradição anglo-saxônica, que um homem deve beijar uma garota que, sem ter idéia, se encontrar acidentalmente embaixo de um ramo de mistletoe pendurado no teto. Na verdade este costume vem da época dos druidas, que acreditavam que o beijo trocado embaixo da árvore mistletoe era sinal de amizade e boa vontade.

É comum também expor todos os cartões recebidos dos amigos e parentes. Não há regra. Eles podem ficar no parapeito da janela ou embaixo da árvore na Natal. Mas é bem comum estender um longo barbante na parede e colocar todos os cartões pendurados nele.

Xmascards.jpg

Do lado de fora, Christmas Carols batem na sua porta e oferecem um coro de músicas natalinas em troca de alguns pencies para instituições de caridade.

Na véspera de Natal, o Christmas Eve, não há ceia, mas há ótimos filmes na TV, hehehehe. A celebração fica para o dia seguinte. A manhã do Natal é reservada para abrir os presentes (oohh, you shouldn't have!), abraçar as pessoas queridas e desejar Feliz Natal. Panetone ainda não é um costume natalino. É possível comprar o panetone, mas os britânicos não sabem ao certo o que fazer com ele, então preferem fazer um chá com torradas mesmo para o café da manhã.

Mincepie.jpg E então, para acompanhar o chá e começar a comilança, entram em cena os mincepies, extremamente apreciados pelos bretões. São tortinhas doces recheadas de frutas secas embebidas em rum, imitando tortas salgadas de carne moída, daí o nome. Porém, eu passo bem longe deles já que não gosto de frutas secas. E já que a comilança começou, melhor mesmo abrir uma garrafa de vinho. Ainda não chegamos ao meio dia, mas em muitos lares o vinho já reina absoluto, enquanto o almoço está sendo preparado. Até o final do dia, vários litros serão ingeridos.

Turkey.jpg Há muito tempo, o prato principal do Natal britânico nunca fora o peru. O ganso era o prato de centro da mesa. Mas com a influência americana, hoje o peru é o rei e quanto maior, melhor. Turkey and all trimmings é o tema da celebração natalina britânica, que inclui: peru assado e recheado com carne de linguiça, batatas assadas, cenouras cozidas, repolho roxo refogado, couve de bruxelas, Yorkshire puddings, tudo regado com o gravy, que é o molho feito do caldo que sobrou na forma em que o peru foi assado.

Crackers.jpg Mas antes que todos sejam servidos, um singelo presentinho descansa sobre os pratos. Parece uma bala em tamanho gigante, feito de papel brilhate. São so famosos crackers! E devem ser aberto por duas pessoas. Cada um segura uma ponta do cracker e puxam em direção oposta. O cracker então se abre, fazendo um pequenino estouro quando a tira explosiva se rompe. Todos os convidados têm direito a um cracker. Dentro de cada cracker há um chapéu de papel, um brinquedo e uma piada ou um ditado.

Começa então o tão esperado almoço de Natal, com toda fartura de comida e bebida possível, que dura até o entardecer. Uma pausa para a digestão, uma longa caminhada no frio de inverno, assistir ao pronunciamento de Natal da Rainha Lilibeth e logo todos estão novamente de volta a mesa, mas com outro objetivo. Começam então os jogos! Trívia, um jogo de perguntas e respostas, é também a tradição entre as famílias britânicas, aficcionadas por esse tipo de desafio.

Xmaspudding.jpg E quando você pensa que não pode comer mais nada, as luzes são apagadas e da cozinha você vê alguém trazendo algo em chamas, fumegando. É o tão esperado Christmas Pudding!! Um bolo muito rico e compacto, feito de especiarias e frutas secas, regado de brandy e aceso em chamas para causar impacto. Hey! E não é que ainda cabe mais um pedaço desse bolo no seu tão estufado estômago? Uma fatia de de Christmas Pudding e muito creme custard em volta. Sempre levo outra opção de Christmas Pudding para a festa, na versão chocolate, para os aversos às uvas passas como eu. Para acompanhar? Vinho, claro!

Ao final da comilança, chega a hora de assistir ao capítulo especial da novela EastEnders, que tradicionalmente tem um casamento acontecendo no dia de Natal, bem como diversos outros desastres, um dramalhão enorme para um dia feliz.

E o dia termina com mais conversas, mais vinhos e algumas taças de vinho do Porto para celebrar dignamente. Nessa hora do vinho do Porto, que já avança para o dia 26, eu já me retiro para colocar meu pijama quentinho e me esticar para hibernar e digerir tudo até o Boxing Day, que é comemorado no dia 26. Muitos sanduíches de peru com molho de cranberry ainda nos aguardam no dia seguinte. E o Ano novo já está então quase chegando e outro almoço especial está por vir, junto com os fogos de artifício, a champagne, os abraços e os desejos de um ano muito melhor.

E tudo isso que escrevi aqui é para dizer que tenho muitas saudades dos Natais com minha família, dos amigos-secretos, do monte de risadas, da confraternização, dos amigos telefonando, das crianças pulando com os presentes, de tudo.

Para mim tudo aqui ainda é novo, diferente, estranho. Mas não reclamo, curto bastante o Natal com as tradições desse povo tão tímido e ao mesmo tempo tão bem-humorado. Aproveito o Natal ao lado do meu marido e é por ele também (além de mim) que me sinto feliz no Natal comemorado aqui. Entro na mesma dança, faço parte da família, me divirto com eles. Não me sinto culpada de não estar no Brasil, não me sinto triste de forma alguma. Porque na verdade estão todos presentes na minha vida, estão todos aqui comigo, para onde quer que eu for.

E para vocês todos, pai, mãe, meus irmãos, meus cunhados e meus sobrinhos, para vocês todos meus amigos, para vocês todos leitores, desejo de todo meu coração que vocês tenham um Natal encantador, seja lá como for, seja lá qual sua tradição, seja qual for sua crença, mas que seja recheado de sentimentos bons, de sorrisos sinceros e de coração leve.

E um Ano Novo de 2004 de muitas coisas boas acontecendo em nossas vidas, de mudanças positivas, de crescimento pessoal e principalmente de muita paz no coração e de muito amor para fora dele.

Xmasbaby.jpg

Um grande beijo a todos, e nos "vemos" novamente nas palavras escritas em 2004.

FELIZ NATAL E JOLLY GOOD 2004!!

Márcia & Mr.M

Escrito a mão pela Marcia às 12:06 PM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (28)

setembro 11, 2003

Chelsea

Eu não sei por que a gente perde tempo, viu. Tsc. Ontem a gente poderia muito bem ter desligado a TV e ido ler um livro, conversado sobre uma coisa qualquer, ter jogado Scrabbles ou simplesmente ter dormido.

Mas não, ficamos na sala assistindo pela BBC um programa sobre o bairro londrino chamado Chelsea. Absolutamente deplorável, desprezível (toda vez que uso essa palavra me lembro do Patolino falando pro Pernalonga "você é desprezível"; só quando assisti ao desenho aqui que percebi que em inglês ele tenta dizer you're disgusting, com sua língua presa! Por que que eu tô falando disso, meu deus??).

Chelsea não pode ser chamado de um bairro rico. Não pode porque muitos bairros em Londres são ricos. Chelsea é um bairro milionário, de gente que tem muitos zeros à direita na conta bancária. Os apartamentos valem em torno de £5mi a £8mi e não há nem tradução desse dinheiro em português.

Se o programa se limitasse a mostrar a riqueza, ou melhor, a milionardeza do bairro, dos prédios, das lojas e dos carros, tudo bem. Mas não, eles focaram os holofotes diretamente nos milionários.

Gente que não consegue formular uma frase sem fazer referência a uma marca famosa. Cartier, Gucci, Lamborguine, Chanel. Chega a ser patético. Gente que precisa mostrar que merece o status de viver em Chelsea. Gente extremamente, tristemente desinformada, completamente fora da realidade.

Argh. Daí veio a melhor parte. Uma americana que se mudou para a Inglaterra exclusivamente para que seu filho estudasse em Chelsea. Ela sofreu de um câncer que hoje está controlado, ela está no final do tratamento. Nessa hora, nós pobres mortais, estávamos angustiados em nosso sofá sem marca, assistindo à nossa TV que não é de plasma, esperando que ela finalmente nos dissesse que na verdade a prioridade das nossas vidas não é o dinheiro e que o câncer ensinou a ela a enxergar a vida com outra perspectiva. Você havia pensado isso também? Ah, pobre de ti, tsc... sabe de nada. A lady vai diretamente na Harrods, pega uma bolsa e diz: "Quem é que conhece alguém que não tem uma bolsa Chanel? Não existe. TODO MUNDO tem uma bolsa Chanel". Aaaargh.

E obviamente não parou por aí. A lady e a amiga vão a um restaurante e começam uma conversa "intelectual", para mostrar às câmeras que há algo por baixo da cabeleira cheia de adornos. O programa foi gravado na época da invasão ao Iraque e as ladies estavam pra lá de preocupadas.

Lady: "...então, Fulana, esse negócio de guerra me preocupa intensamente. Sabe que Chelsea é um bairro muito eclético, onde vivem muitos americanos como eu, não é? Pois então, meu medo é que os terroristas escolham justamente nosso bairro como alvo! Eles são bem capazes de fazer isso, não são??"
Amiga da Lady: "...por isso meus filhos nunca vão usar transporte público aqui. Nunca, muito arriscado, eu não deixo".

AAAAAAARRRGGGGGHHHHH!!!! Alguém jogue uma bomba lá na mesa delas imediatamenteeeee!!!

Mr.M ficou gritando pra TV: "e desde quando algum terrorista tá preocupado com a *piiiiii* de Chelsea?!?" Hahahahahahaha

Completamente sem noção de nada. Depois teve outra garota mais novinha, que trabalha com promoção de desfiles de moda. Fez questão de tocar ao piano e mostrar a marca Steinway estampada. E ainda comentou: "Uma vez contei numa classe que tinha um Steinway e as pessoas não acreditaram!! Eu tenho um, tenho sim, olha aqui". E ainda completou dizendo que num jantar na Suíça, com um grupo de alemães e suiços, a professora teve que ensinar algumas meninas a como segurar os talheres. "Mas ela não falou nada para mim porque mami me ensinou boas maneiras desde pequena".

Oh God... Não tenho absolutamente nada contra quem tem milhões na conta bancária, nadinha contra. Algumas pessoas descendem de empreendedores que um dia acertaram na vida. Mas é totalmente deprimente ver que alguns vivem fora da realidade, num conto de fadas ridículo, sem sentido. De certa forma, é muito bom não fazer parte dessa elite.

Escrito a mão pela Marcia às 9:36 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (7)

setembro 3, 2003

Cozinha Maravilhosa de Delia

Os ingleses também têm a Ofélia deles. Ela se chama Delia, seus livros estão sempre no topo de vendas. Em seu programa televisivo How To Cook, ela explica desde para que serve um liqüidificador até como usar um maçarico. Anteontem ela ensinou em detalhes a extrema arte de como cozinhar um ovo (!!).

Escrito a mão pela Marcia às 8:43 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (7)

agosto 14, 2003

MC Blair, Yo!

Recebi esta notícia da minha querida amiga Samara, que é, assim como o marido Milton, bípede de estimação do Tamuz e da Cassy. A primeira-dama Cherrie Blair é a rainha dos micos aqui na Inglaterra, impressionante. Paga cada gorilão! A mais recente novidade é que numa viagem que ela fez acompanhando Tony Orelhudo na China, ela desatou a cantar num karaokê. Daí para um DJ fazer uma versão remix foi um pulo. E agora esse é o hit do verão europeu! Cada uma... O Channel 4 conseguiu as imagens dela cantando desafinada no karaokê, so embarassing...

Escrito a mão pela Marcia às 9:52 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (5)

julho 21, 2003

BBC e Dr. David Kelly

Foi um almoço informal.

Dr. David Kelly era um cientista renomado, consultor do Ministério da Defesa Britânico. Passou várias semanas no Iraque na época em que o dossiê sobre as armas de destruição em massa foi elaborado.

Um jornalista da BBC, Andrew Gilligan, o procurou e pediu a Kelly que o encontrasse para um almoço informal porque precisava da ajuda dele para se preparar antes de partir para uma reportagem em Bagdá.

Dr. Kelly já conhecia Gilligan e concordou em recebê-lo e dar instruções sobre o Iraque. No almoço, conversa vai, conversa vem, Gilligan tocou no assunto do dossiê. E Dr. Kelly acabou vazando a informação que o dossiê foi "transformado" de maneira exagerada, tornando possível levar a invasão ao Iraque a diante.

Com esse dossiê "transformado", Tony Blair fez seu discurso inflamado no Parlamento, onde explicou que Saddam Hussein poderia mobilizar armas de extermínio em massa 'em apenas 45 minutos'.

De volta à BBC, Gilligan detona a bomba. No dia seguinte, a manchete nos telejornais explode: "Funcionário de alto escalão da inteligência britânica reconhece que dossiê das armas de destruição em massa foi manipulado".

Começa então a investigação no Parlamento para saber quem é o tal funcionário. Jornalistas se transformam em detetives. Toda a mídia investiga todos os passos dos principais membros da defesa.

Gilligan informa o dia, o horário e o local do encontro com o "funcionário da inteligência britânica", mas não o nome. Não muito tarde, cruzando os dados com as agendas dos membros da defesa, o provável nome do Dr. Kelly está em todos os jornais.

O parlamento interroga Dr. Kelly duramente, exigindo explicações pela entrevista não-autorizada, colocando-o como alvo de todas as acusações. Dr. Kelly entrou em choque quando os parlamentares o colocaram à frente de oficiais de alto escalão para eximi-los de culpa. Dr. Kelly era um cientista, afinal. Não era o Primeiro Ministro (Blair), nem chefe de comunicações (Campbell), nem o responsável por escrever o dossiê. Mas a implacável mídia britânica acendeu seus holofotes intensamente no cientista, a polícia lacrou sua casa, o Parlamento o escolheu como Cristo.

Dois dias depois de seu depoimento no inquérito do Parlamento, Dr. Kelly foi encontrado morto, em um bosque perto de sua casa em Oxfordshire, com o pulso cortado e pílulas analgésicas no bolso.

A investigação sobre o dossiê continua, assim como o da morte do cientista. Mas a repercussão agora está na ética da mídia britânica e o seu preço. O que mais se ouve aqui é que jornalismo precisa ser revisto. Porque uma coisa é investigação jornalística, a outra é exterminar uma vida. O público tem direito a informação, mas quem em sua sã consciente ainda achava que o Iraque tinha mesmo armas de destruição em massa, quando nada foi provado? A declaração de Dr. Kelly não trouxe nenhuma surpresa.

Um chefe de estado e um Primeiro Ministro continuaram suas rotinas livres, leves e soltos. Enquanto isso, um cientista foi acusado. Forçado a lembrar das mortes, dos ataques, das famílias destruídas, das criancinhas retalhadas.

E outra vida se foi. Era um almoço informal, a princípio. Uma declaração, um 'furo de reportagem', um suicídio, talvez um homicídio.

No final de seu depoimento, os parlamentares perguntaram a Dr. David Kelly o que ele havia aprendido como lição neste caso. E Dr. Kelly respondeu: "nunca confie num jornalista". Mais uma mancha para marcar as páginas não tão limpas da mídia britância.

Escrito a mão pela Marcia às 10:04 AM | mais em Little Britain | Comente este capítulo (4)

abril 9, 2003

Jeitinho Inglês

O programa Who Wants to Be a Millionaire, que deu origem ao Show do Milhão do Seu Sílvio, teve seu dia de podridão aqui na Inglaterra. O mesmo formato do programa é produzido em diversos países e até hoje, apenas 50 pessoas no mundo conseguiram a façanha de ganhar o prêmio de um milhão.

Em Setembro de 2001, no entanto, o major das Forças Armadas Britânica, Charles Ingram, foi um dos competidores que alcançou o
prêmio maior aqui na Inglaterra. Porém, a equipe do programa desconfiou de maracutaia. O engraçadinho do major combinou com seu amigo e sua esposa o seguinte esquema: quando ele ou o apresentador Chris Tarant falasse a resposta certa, dentre as outras de múltipla escolha, eles deveriam "tossir" para dar a dica de que aquela era a resposta certa. A façanha deu certo, o major foi muito aplaudido pela platéia e congratulado pelo apresentador. Mas a equipe do programa desconfiou de armação, chamou a polícia e suspendeu o cheque. Este programa nunca foi ao ar, desde então.

O caso foi para os tribunais, os acusados alegaram ser inocentes, mas foi provado que houve mesmo fraude. A última questão, valendo um milhão, foi a decisiva para o encerramento do caso. A questão era:

O número 1 seguido por 100 zeros é conhecido por que nome?
a) Googol
b) Megatron
c) Gigabit
d) Nanomol

O major, chegou a comentar "hmmm, eu acho que é Nanomol, mas poderia ser Gibabit também... nunca ouvi falar em Googol". E, assim que ele mencionou a palavra Googol, cofffcaufcaufcof, uma tosse clara e forte foi ouvida. E o major escolheu a resposta certa (Googol), sem pestanejar. Elementar, meu caro!

Ontem saiu a sentença da justiça: o casal, que obviamente não ganhou milhão nenhum, foi multado em 30.000 Libras e o amigo que os ajudou, em 10.000 Libras. Eles também haviam sido condenados à 12 meses de prisão, mas o juiz suspendeu a pena.

Que pôca vergonha!

Escrito a mão pela Marcia às 8:20 AM | mais em Little Britain

março 15, 2003

Not in My Name

Hoje lá no centro da cidade teve uma passeata enorme com o pessoal da Bournemouth and Poole College (a universidade local), protestando contra a guerra iminente. Fizeram muito barulho, muitos cartazes bacanas, muitos gritos de guerra em alto e bom tom. Nada como uma juventude para protestar com mais ânimo, força e voz. A maioria dos protestos que acontecem aqui na Inglaterra carregam o tema "Not in My Name" ("não em meu nome"), para deixar muito claro ao mundo que a decisão de Tony O Orelhudo não reflete a opinião de uma nação.

Escrito a mão pela Marcia às 8:55 PM | mais em Little Britain

fevereiro 18, 2003

Marmite

E há tempos eu queria comentar sobre o Marmite, mas simplesmente não consigo. Toda casa tem uma. Toda família inglesa tem um pote de Marmite na geladeira. Trata-se de uma pasta fermentada de cor marrom-cocô, cheiro quase idem, que eles espalham em suas bolachas cream cracker junto com uma camada de manteiga. Ainda não entendi qual é a finalidade do produto, que não seja auto-flagelo. Preciso confabular com minha vizinha do leste, a Leticia de Canterbury, para saber se ela já entendeu o que é o Marmite.

Esses bretões são mesmo loucos.

Escrito a mão pela Marcia às 4:12 PM | mais em Little Britain

Marmelada de Banana, Bananada de Goiaba...

Um café da manhã típico inglês inclui, entre outras coisas estranhas, uma geléia muito inusitada. Eles chamam de Marmalade, porém, ao contrário do que o nome possa sugerir, é feita de laranjas. Desde a primeira vez que vi um potinho de Marmalade, fiquei pensando: "como pode uma marmelada ser feita de outro fruto que não seja o marmelo?" Inútil perguntar a Mr.M ou a qualquer outro inglês, já que o mais certo para eles é ter uma marmelada de laranja por cima de suas delicadas torradas matinais.

Esses Bretões são loucos.

Escrito a mão pela Marcia às 4:04 PM | mais em Little Britain