setembro 2, 2004

E por fim, os Leões

Houve momentos em que achei que não íamos nos encontrar. Houve momentos em que pensei que a marca da pata na areia era tudo o que levaríamos de lembrança desses poderosos carnívoros. Existiram muitas dúvidas que realmente seria possível uma foto de algum leão, mesmo que à distância. Mas eis que a realeza surgiu aos súditos e pudemos nos curvar perante a dois reis:

Clique & Amplie

Kruger28.jpgKruger29.jpg

Tão cheios de auto-confiança, nem se importaram com o número de pobres seres humanos que se empilharam para admirar tanta beleza, nobreza e ostentação. Singelo, o leãozinho da esquerda virou a patinha como quem diz "What...?" e o da direita ainda tirou um breve cochilo para o nosso deleite.

Kruger30.jpgKruger31.jpg

Quando a noite caiu, nos encontramos novamente. Ambos tão parecidos, certamente devem ser irmãos, quase um espelho do outro. A juba ainda crescendo e os olhares já tão seguros de si. As cicatrizes nos jovens rostos (cinco, seis anos de idade apenas!) mostram que são guerreiros. Geralmente as leoas são responsáveis pela caça, mas no Kruger Park muitos leões são vistos em plena atividade. Quanto mais cicatrizes, mais ferozes e bravos são os felinos.

Kruger34_filtered.jpgKruger35_filtered.jpg

Na manhã chuvosa e fria do nosso penúltimo dia no Kruger Park, fomos novamente brindados com a agradável surpresa de encontrar mais dois leões no nosso caminho. Andavam pela estrada, vindo em nossa direção. Deixamos eles nos ultrapasserem e esse foi o momento em que estivemos mais próximos dos felinos, cerca de um metro de distância. O canto preto da imagem à direita é a porta da pick-up.

Kruger36.jpgKruger37.jpg

Seguimos as feras por bons minutos. Eles caminhando sem pressa, apenas parando de tempos em tempos para dar uma olhada nos seus seguidores e certificarem de que estávamos à respeitável distância. Quando eles entraram numa clareira, corremos e voltamos a ficar frente a frente. Pudemos vê-los bem próximos mais uma vez, antes que eles sumissem pela savana adentro.

Kruger38.jpgKruger39.jpg

Das nossas vistas eles se foram para fazer moradia permanente em nossas memórias. Nosso primeiro encontro a olhos nus, sem grade entre nós, sem armas, sem nada. Apenas eles, donos da terra no topo da cadeia alimentícia, e nós. O respeito mútuo, a curiosidade mútua (um deles me olhou com uma carinha que posso jurar que dizia: "uia só, uma japonesa!"), o torpor único e o encantamento infinito. Momentos que jamais desbotarão da nossa memória, para o desespero das nossas futuras gerações que ouvirão a mesma história de novo e de novo.

Aos reis, nos curvamos e saudamos. Vida longa aos reis e rainhas da selva. Vida longa aos leões!

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 2:02 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (15)

setembro 1, 2004

Feras: Hipopótamos

Grandes, desengonçados e preguiçosos. Essa é a imagem que a maioria das pessoas têm dos hippos, graças aos zoológicos. Mas na verdade eles matam mais seres humanos do que qualquer outro mamífero, por ano. São violentos e agressivos quando ameaçados. E também se engana quem pensa que eles são lentos. Podem galopar em até 30km/h.

Clique & Amplie

Kruger32.jpgKruger33.jpg

Os hippos estão sempre em bando, dormem a manhã inteira e só saem da água à noite para se alimentar de grama. Mas em dias nublados e chuvosos eles caminham na terra quando bem entendem.

Escrito a mão pela Marcia às 8:32 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (3)

Feras: Hyenas Pintadas

Temos poucas fotos das hyenas, elas são só ativas no começo da noite e é difícil de fotografá-las nessas condições. Aqui não dá para ter idéia do tamanho, mas os machos chegam à 80cm, medidos dos pés aos ombros (cerca de 1m com a cabeça).

Clique & Amplie

Kruger24.jpgKruger25.jpg



Os filhotinhos são umas fofurinhas, brincalhões como qualquer cachorrinho novo. Dá vontade de pegar no colo, se não fosse o olhar prestativo dos pais.

Kruger26.jpg Kruger27.jpg
Escrito a mão pela Marcia às 8:11 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (4)

agosto 27, 2004

Penosos

Não são só os mamíferos que habitam o Kruger Park. Há mais de 500 espécies de pássaros voando livres por lá. Os mais impressionantes, na minha humilde opinião, são os Fish Eagles, que dançam graciosos no céu com suas cabeças brancas e asas pretas. São também considerados a Voz da África, pelo característico grito. A foto abaixo foi tirada da outra borda do lago, perdoem-me pela minusculosidade.

Click & Amplie

Kruger23.jpg

À esquerda o joão-grandão Goliath Heron, que mede 1m40! E o Bateleur Eagle, à direita.

Kruger21.jpgKruger22.jpg

E tem também o Southern Ground Hornbill, que chega a medir 1m de altura, andam pela grama em bandos e de perto parecem uma drag queen de cílios postiços! :o)

Kruger19.jpgKruger20.jpg
Escrito a mão pela Marcia às 12:32 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (10)

Pescoços e Penteados

Nosso primeiro safari com guia foi pela manhã, às 5:30am. Foi bom. Vimos essas girafas enormes, uma delas (esta à direita) tinha uma cicatriz bem grande no pescoço. Deve ter sido atacada por um carnívoro, que geralmente avança na jugular da presa. Uma sobrevivente.

Clique & Amplie:

Kruger13.jpgKruger14.jpg

O segundo Big Five a aparecer foi o búfalo. De todos, este era o que a gente fazia menos questão de ver. Como diz o Martin, uma vaca com um péssimo penteado ("a cow with a bad hair"). À direita, o blue wildebeest, que é um animal bem tímido e assustado apesar da aparência de touro. O wildebeest às vezes é visto entre hordas de zebras, de quem ele deve ter emprestado esse casaco listrado. :o)

Kruger17.jpgKruger18.jpg

Macacos também estão sempre em bandos e muitas vezes ficam nas margens da estrada. À esquerda, um macaco vervet e à direita, um chacma baboon. Baboons são animais perigosos e agressivos, com seus caninos longos e fortes braços. Este da foto estava particularmente mau-humorado porque a insistente chuva estava deixando seu pêlo bagunçado.

Kruger15.jpgKruger16.jpg
Escrito a mão pela Marcia às 12:03 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (4)

agosto 26, 2004

Rara, ágil e bela Cheetah

De todos os animais que provavelmente não veríamos, a cheetah estava no topo da lista. Por ser rara, por estar em perigoso risco de extinção, por existir apenas 200 em uma área tão vasta, nem passava pelas nossas mentes que teríamos a sorte de econtrar com uma. Mas aconteceu. Nosso primeiro felino, a mais ágil espécie de todos os animais.

Clique & Amplie (Recomendado)

Kruger09.jpgKruger10.jpg

Kruger11.jpgKruger12.jpg

A Cheetah chega a alcançar 100km por hora. Mas não é um animal agressivo, tem dentes e mandíbulas pequenas, precisa 'voar' no pescoço para sufocar a presa e se alimentar.

Estávamos a uma considerável distância dela, não havia como aproximar, nosso zoom estava no máximo. Ela estava tranqüila, deitadinha e assim ficou por vários minutos, enquanto assistíamos atônitos. Olhou para nós algumas vezes, espreguiçou e depois saiu da nossa vista, entre a savana.

Foi um dos nossos melhores momentos. E era apenas o segundo dia em Kruger.


Escrito a mão pela Marcia às 11:38 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (5)

Pesados

Este foi o primeiro elefante que vimos, no nosso primeiro dia. Solitário. O primeiro Big Five no Kruger. Ficamos horas assistindo ao pesadão comendo folhas e galhos. Foi a primeira grande emoção de ver um dos maiores animais da face da terra em seu ambiente natural.

Clique & Amplie

Kruger05.jpgKruger06.jpg

Mal sabíamos que logo outro atravessaria na frente do nosso carro. A foto tremida mostra exatamente a nossa surpresa, o susto, o fascínio de estar cara a cara com quem tem muitas toneladas a mais.

Kruger07.jpgKruger08.jpg


Escrito a mão pela Marcia às 11:18 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (2)

Chifrudos

Os primeiros animais que qualquer visitante avista assim que passa por um dos portões principais do parque são as impalas. Não é preciso ter sorte, nem é preciso esforço, não requer nenhuma habilidade. Avistar impalas é a única garantia. Porque não tem como não cruzar com elas. Os machos têm chifres em forma de S e brigam entre si para definir quem é o dominante. Cada macho dominante tem cerca de seis ou sete fêmeas, o que explica a determinação das brigas.

Click & Amplie

Kruger01.jpgKruger03.jpg

Outro chifrudo que encontramos foram os waterbuks, uma espécie de antílopes de chifres anelados bem longos e um círculo de pelos brancos na traseira, parecendo um alvo.

Kruger02.jpg

E também vimos alguns klipspringers, bem menores que as impalas, de chifres pequenos e pontudos, bastante tímidos e não tão fáceis de encontrar.

Kruger04.jpg


Escrito a mão pela Marcia às 10:56 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (1)

Mais sobre nossa visita ao Kruger National Park

O Kruger National Park fica na borda leste da África do Sul, fazendo fronteira com Moçambique e Zimbabwe. A área do parque se estende por cerca de 350km de comprimento e 90km de largura.

Com toda essa extensão, é preciso de tempo para conhecer todo o parque. E para isso, é preciso também ter um lugar para ficar. Pensando nisso, foram criados dentro do parque os rest camps, que recebem os visitantes em acomodações que vão desde tendas e trailers até resorts privados bem luxuosos.

O Kruger é dividido basicamente em três partes: sul e central, onde predominam as savanas; e norte, com florestas e suas árvores Baobás (pena que não vimos nenhuma).

O sul é chamado de 'Circus' por causa do número de visitantes e de animais. O centro é chamado de 'Zoo' por causa dos predadores e presas. E finalmente o norte é chamado de 'Wilderness' pela relativa ausência de ambos.

Nós nos concetramos no 'Circus', para aumentar nossa chance de ver os leões. Ficamos no rest camp chamado Skukuza, que é de longe o que tem a maior e melhor infra-estrutura de todo parque: restaurantes, lojas, correio, médicos, supermercado, tudo. Uma mini-completa-cidade.

A nossa acomodação foi num bangalô de luxo, mas não se impressione com a palavra 'luxo' dentro do Kruger Park (a não ser nos resorts). Os rest camps foram criados apenas para servir de área livre para você estender seu saco de dormir. Então 'luxo' é ter uma suíte com chuveiro de água quente, TV a cabo e ar condicionado. Mas luxo mesmo para nós foi ter o bangalô com vista para o Rio Sabie, onde recebemos a gentil visita de um búfalo, vários hipopótamos, um macaco vervet e alguns rascals. Perfect!

Há várias regras e deveres no parque. A primeira e mais importante é que em hipótese nenhuma e em nenhuma circunstância você deve sair do carro. Não importa se você está há horas rodando e precisando urgentemente usar o banheiro, não importa se o pneu furou ou se a câmera caiu pra fora da janela. Não pode sair do carro. Enquanto você está dentro, os animais geralmente não ligam ou preferem ficar longe. Mas basta um pé no terreno deles e chifres, dentes e garras se voltam contra você, estúpido, indefeso e ridículo ser humano.

A segunda regra é dirigir no máximo a 50km/h no asfalto e 40km/h nas estradas de terra. Isso é para evitar o atropelamento de espécies que têm todo o direito de atravessar as estradas quando bem entenderem. Quanto mais devagar, na verdade, maiores são suas chances de avistar algo interessante. No mais, pra quê ter pressa?

A terceira e não menos importante regra é respeitar o horários dos portões, que geralmente se abrem às seis da manhã e fecham às seis da noite. Nós sabíamos dessa regra, porém imaginávos que era só aplicável aos portões do parque, não dos rest camps. Qual não foi nossa surpresa quando estávamos voltando para Skukuza e uma barreira de guardas nos pararam, holofotes na nossa cara e interrogatório sobre o que diabos estávamos fazendo fora do rest camp àquela hora (6:20pm). Foi no finzinho daquela tarde que vimos a hiena caminhando diretamente na traseira do nosso carro. Valeu a pena mas levamos bronca, pedimos desculpas e ficamos de castigo na manhã seguinte para provar que estávamos mesmo acomodados em Skukuza.

Na recepção de cada rest camp é possível agendar seus passeios e pagar por eles. Agendamos uma caminhada e três safaris, todos com guias. Os outros safaris fizemos por conta própria. Todo o parque possui estradas asfaltadas e algumas outras estradas de terra. São fáceis e não exigem tração nas quatro rodas. Mas um veículo mais 'alto' ajuda para enxergar por cima da grama e dos arbustos. Você pode fazer a rota que quiser, é aí que a sorte ajuda ao escolher o lugar certo na hora certa.

Os rangers, esses sim, são essenciais. Eles lêem as pegadas, escutam os sinais, observam a folhagem mordida e vão atrás dos grandes predadores. Joseph foi o nosso brilhante ranger em Skukuza e foi ele que nos levou de encontro com os leões e a onça, a quem seremos eternamente gratos.

Dos equipamentos que levamos, sem dúvida nenhuma, o melhor deles além da câmera foram os binóculos. Absolutamente necessários e impossível pensar em ir ao Kruger sem eles. Com eles pudemos ver detalhes fantásticos dos animais que nem sempre querem ficar muito próximos. Além disso, uma lente zoom para a câmera. Usamos uma de 220mm, mas sentimos a falta de mais uns bons 100mm no mínimo. E com image stabilizer, se possível. Não tínhamos, mas estamos satisfeitos com as fotos que fizemos.

Em seguida, começo a postar finalmente as fotos. Um pequeno registro de parte das nossas mais fantásticas memórias. Entre as Pirâmides de Giza, Table Mountains e as cachoeiras de Victoria Falls, o Kruger National Park é um dos grandes magníficos tesouros que a África guarda em seu solo. Um delicado e frágil ecossistema que sobrevive sem nossa intervenção e que merece todo nosso respeito e proteção.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:36 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (2)

agosto 25, 2004

Ainda fora do ar

Tô tentado, tô tentando. Mas ainda estou bem atrapalhada em casa. E não sou a única. Mr.M pegou as chaves erradas outro dia e ficamos no estacionamento do centro da cidade sem ter como abrir a trava da direção do carro. Tivemos que voltar pra casa de taxi, pegar as chaves certas e voltar pro estacionamento. Can you believe it?

Aliás, nosso carro parece saído da casa da Família Adams, tamanha quantidade de teias de aranha do lado de fora!! Em todos os vãos tem teias e elas são tão bem projetadas que nenhum vento arranca-as de onde estão. Lavar o carro é algo fora de questão neste ano para Mr.M.

Quando chegamos passei hooooras tentando limpar meu blog dos spams. Horas. Estava tão cheio!! Três meses sem poder controlar, isto aqui virou um ninho de propaganda abusiva. Tsc. Instalei e atualizei o MT-BlackList e usei o de-spam do programa, que é muito bom. Desde então, até agora o blog tem sido spam-free, com pouquinhas excessões controláveis. Argh.

Mas o e-mail é mais complicado, né? Acho que vou ter que mudar de endereço de novo, me cansa a beleza ter que usar o webmail antes de baixar pelo Outlook. Me cansa.

E o Orkut, meu deus, esqueci tudo: senha, password, frase de lembrar, tudo. Aos que me incluiram, fico muito agradecida, assim que eu lembrar um desses acima, eu acesso a página novamente, ok?

Desfizemos as malas, até que enfim. Já lavei boa parte das roupas e tive um acesso de jogar um monte de roupa velha fora. Depois de passar três meses com os mesmos pares de roupas a gente percebe quanta roupa a gente não usa. Fiz três sacolas: uma para jogar no lixo, uma para caridade e uma para guardar por mais um ano antes de mandar embora. Preciso de espaço no armário.

Minhas plantinhas sobreviveram! Rob veio aqui aguá-las uma vez e eu também havia deixado garrafas de prástico cheias de água enterradas de ponta cabeça. Funcionou. Quando chegamos elas estavam todas caídas, aguei bem e logo elas voltaram à vida! Êba!

Que mais... Ah, andei cozinhando novamente. No domingo fiz salada de tomates, muzzarela e manjericão fresco, acompanhados de berinjela e pimentão amarelo grelhados. Na segunda fiz espigas de milho cozidas e mais salada de tomate-muzza-manjericão. Na terça Mr.M perguntou: "já podemos comer carne novamente?" Hohohohohoho. Daí nos esbaldamos com sanduíches de linguiça, nhaaam! hoje acho que vou fazer feijão, não sei ainda. Mas sei que vou fazer mais salada de tomates! (Compramos uns tomates fantásticos vindos da Holanda e eu deixo fora da geladeira para ficar bem vermelhinho, suculento e cheiroso...).

Fomos na minha consulta com o otorrino hoje de manhã e estou cadastrada para ter meu aparelho auditivo instalado, hooray! Tudo por conta do sistema de saúde público. Êba.

Assim que eu tiver mais tempo (leia-se, quando Mr.M voltar pro trabalho), vou escrever mais sobre o Kruger Park (que vale a pena) e postar as fotos que vocês tanto querem ver. Mas vou postando aos poucos, conforme for contando nossos passeios. Fotos dos leões vão ser as últimas! Huahuahua...

Vou ali fazer o almoço antes da gente sair de novo para Mr.M cortar suas longas madeixas de rapunzel perdida em Middelburg por noventa dias...


:o)

Escrito a mão pela Marcia às 11:57 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

agosto 23, 2004

Land of Hope and Glory

Estamos em casa!

Chegamos no sábado de manhã, depois de um vôo tranqüilo, quase sem turbulências, comida ótima e uma fileira de três assentos só pra nós dois!

Nosso apartamento está do mesmo jeitinho que deixamos três meses atrás. Nem estava empoeirado, nem nada. Abrimos as janelas, ligamos a energia e a água de volta. Fomos até o centro da cidade para comprar jornal e algo indiano para jantar. Às sete da noite eu já estava desmaiada no sofá, em sono pesado.

No domingo fomos fazer nossa grande compra de supermercado no Sainsbury's, meu preferido de todos. A compra foi imensa, nossa geladeira estava desligada e a dispensa completamente esvaziada. Fiquei tão feliz com tudo que compramos: frutas, verduras e legumes bem frescos, nenhuma comida pronta, nenhuma pizza, nem nada disso. Tudo fresco, tudo simples, tudo que sentimos tanta falta.

À noite fomos ao apartamento do Rob e da Linda, que moram no andar debaixo do nosso. Eles nos convidaram para um jantar e também para conhecer o Luke, o bebezinho recém-nascido deles. Levamos um vinho sul-africano e vários presentinhos que havíamos comprado para eles. Rob preparou um prato da Indonésia, delicioso!! Foi uma noite bem agradável, carreguei o Luke e ele riu e sorriu bastante olhando pra minha cara de pateta! :o)

Mr.M está de folga do trabalho até a quarta-feira e estamos aproveitando para nos adaptar de volta à nossa vidinha na Inglaterra. Por enquanto está sendo estranho, tudo estranho. Não sei mais o que tem dentro das gavetas, não sei mais se está tudo caro ou não, não lembro mais onde ficam algumas lojas. É estranho ter Internet (que rapidez é essa??) a qualquer hora, ter telefone, poder sair na rua sozinha.

É bom, é muito bom estar de volta. No domingo de manhã acordei confusa, tentando lembrar como foi que eu deitei do lado errado da cama. Só então me dei conta de que não estava mais na pousada e que estava na nossa cama, no nosso quarto. Suspirei e dormi de novo.

Ainda penso muito na África do Sul, em tudo o que vivemos lá, as saudades da Delia e de toda família da pousada, os cachorros, o gato, as feras todas. É bom recordar, é bom rir de novo com as palhaçadas que fizemos lá, é bom guardar tudo isso na nossa memória.

É tão bom olhar para trás, daqui de tão longe, e termos orgulho do que vivemos.

"(...) Thy fame is ancient as the days,
As Ocean large and wide:
A pride that dares, and heeds not praise,
A stern and silent pride:
Not that false joy that dreams content
With what our sires have won;
The blood a hero sire hath spent
Still nerves a hero son."

- Land of Hope and Glory, British Patriotic Song


Escrito a mão pela Marcia às 10:10 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (19)

agosto 18, 2004

Quarto Dia

Ontem a noite choveu bastante e hoje de manhã fizemos o nosso último safari guiado sob chuva, em carro aberto. Apesar de sermos providos de cobertores e ponchos impermeáveis, com o movimento do carro é impossível não se molhar.

Logo no começo encontramos com um grupo de elefantes, tinha um bebezinho entre eles, bem pequeno. Assistimos ao macho dominante do grupo arrancar uma árvore usando a trompa e as patas. Elefantes se alimentam basicamente de folhas, gramas, lascas de tronco e raízes. Por isso é importante controlar a população deles, para evitar a destruição total da mata. Foi bem legal ficamos bem perto deles, a poucos palmos de distância!

O resto do safari foi tranqüilo, hiena, girafas, búfalos e macacos baboons foram alguns dos animais que vimos.

Quase no final, a gente já estava guardando a câmera e o binóculos e já nem estávamos mais procurando animais intensamente. Numa curva, demos de cara com dois leões vindo em nossa direção. HOORAY! Desta vez era um leão e uma leoa, andando no asfalto. Segundo o guia (que aliás aqui são chamados de rangers, por causa do grande conhecimento que eles têm em perseguir os animais), os leões não gostam de andar na grama molhada e preferem usar as estradas. Eles passaram bem do ladinho do carro, Joseph (nosso ranger) pediu para todos manterem os braços e as cabeças dentro do carro enquanto eles passavam. O macho fingiu que não estava nem aí, mas a leoa deu uma boa olhanda em nós (uau, emocionante!) e depois apressou o passo dela. Seguimos atrás deles por quase cinco minutos, depois nosso ranger dirigiu até ficar de frente para eles novamente e os dois entraram na mata. Foi inesperado esse encontro com os leões nesta manhã, uma agradável surpresa que coroou nosso último dia de safari aqui no Kruger National Park.

Chegamos de volta no rest camp ensopados de chuva e encharcados de brilhantes momentos.

Amanhã deixaremos o parque pelo caminho mais longo e demoraremos cerca de 3 ou 4 horas até a saída. Não faremos um safari, mas dirigiremos devagar, parando conforme encontrarmos algum animal. Assim que alcançarmos o portão Crocodile Bridge, pegaremos a estrada que nos leva de volta a Middelburg, onde a Delia nos espera para um churrasco de despedida (tão legal ela).

Como havia falado para o Martin, geralmente quando estamos no final das férias a gente fica um pouquinho triste de voltar pra casa. Mas não desta vez. Só de nos dar conta do final das nossas férias uma onda de alegria nos enche a alma: estamos indo de volta pra casa!

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 7:23 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (9)

agosto 17, 2004

Terceiro Dia

Morning Game Drive

Nosso primeiro safari guiado desta manhã foi razoável, rodamos muito para poder ver os animais. Encontramos um casal de jackal, que é uma espécie de cão selvagem. Eles não quiseram ficar perto de nós por muito tempo e saíram correndo. Vimos mais girafas, três juntas, elas andaram bem na frente da pick-up. Depois vimos hipopótamos fora d’água, macacos baboons, antílopes waterbuck e algumas águias lindas.

Na volta, encontramos o terceiro Big Five: o Búfalo! Os chifres deles me lembra um penteado de cabelo bem ultrapassado. São grandes e impressionantes. E tão fortes que são necessários cerca de seis ou sete leões para matar um deles!

Quando chegamos ao rest camp de volta, perguntei ao guia o quão difícil é encontrar um leão. E ele me respondeu: MUITO difícil. Não tem como seguir, não há nada que garanta que você possa encontrá-los e eles também não gostam de ser encontrados. Então depende mais da sorte mesmo. Vimos algumas pegadas deles na areia hoje de manhã, a marca de uma patona! É frustante saber que eles estão por aqui, mas ainda não nos encontramos...


M&M Drive

Tomamos um café da manhã super simples e voltamos para a estrada, com nosso próprio carro. Desta vez não vimos muita coisa de diferente, apenas wildebeest, falcões e águias. Mas o que mais nos impressionou foi ter visto um elefante furioso. Havia uma família ao lado de uma das estradas e vários carros parados. Um deles tentou ultrapassar o tráfego e uma das elefoas ficou extremamente irritada e ameaçou o carro, urrou e levantou as duas patas dianteiras e jogou a tromba para o alto. O carro apressadinho, em pânico, deu ré e a elefoa se acalmou. Nós estávamos mais distante, estacionados num banco de areia, assistindo ao circo todo. Depois entramos em várias estradas de terra, vimos mais algumas girafas e voltamos. Nada de felinos.


Afternoon/Night Drive – Success HOORAY!!

Sim, nós encontramos o LEÃO!! The Lion King!! E não foi só um, foram dois!! DOIS LEÕÕÕES!!

Mal tínhamos começado o safari guiado da noite, eram umas 5:10pm e ainda estava bem claro, quando vários carros nos pararam para dizer que haviam visto dois leões parados ao lado da estrada. Até chegarmos lá fomos torcendo com todos os dedos cruzados para que eles continuassem lá paradinhos, até a gente chegar.

E os Leões ficaram nos esperando, deitadinhos, olhando para a estrada, cabeça erguida e toda auto confiança do mundo. MAGNÍFICOS. A emoção de vê-los é difícil de colocar em palavras. Um misto de incredulidade, de felicidade, de alívio e de conquista tão grande e tão inesquecível! Eram dois machos ainda jovens, de uns cinco ou seis anos, mais ou menos. A juba deles ainda está começando a se formar. Tivemos uma vista muito privilegiada, estávamos há meros 10 metros de distância e o momento em que os nossos olhares se cruzaram é algo que sempre vou guardar comigo daqui pra frente.

Seguimos a diante em nosso safari e encontramos um grupo enorme de elefantes, contei 20 deles! Quando o carro estava manobrando para voltar para uma outra estrada, eis que surgem novamente os dois leões na nossa frente. Eles tinham saído de onde estavam e foram para perto do rio, aproveitando para dar uma olhadinha em nós outra vez.

Encontramos com uns búfalos e hipopótamos mais adiante.

Rodamos mais alguns quilômetros e depois de vários contatos pelo rádio e holofotes procurando como loucos, encontramos o mais inesperado animal dos Big Five: a Onça Pintada!! Ela estava caminhando por trás de arbustos bem densos e pensamos que o relance mínimo da sua pele pintada seria o máximo que veríamos. Mas logo ela deu o ar de sua graça e veio para a estrada, tirando todo nosso fôlego. Ela caminhou a diante e fomos seguindo atrás por mais ou menos um minuto, até ela voltar para a mata e desaparecer da nossa vista. ESPETACULAR.

Talvez eu não consiga descrever aqui toda a emoção que foi esse safari noturno. Estou bem cansada de novo e amanhã mais uma vez acordaremos às 4h45 da madrugada. Fiquei feliz por não ter visto os grandes felinos logo de cara. Foi mais saboroso conquistar esse presente depois de termos nos esforçado tanto e ter praticamente nos conformado de não vê-los. Foi encantador, foi comovente, foi absolutamente, imensuravelmente, inesquecivelmente fantástico. Vimos todos os Big Five + a cheetah, acabei ganhando a aposta. Na volta brindamos ao nosso sucesso, à nossa sorte e às nossas mais maravilhosas memórias que levaremos daqui da África do Sul.

Escrito a mão pela Marcia às 9:25 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

agosto 16, 2004

Segundo Dia

Hoje não vou escrever muito porque estou muito cansada depois da caminhada guiada que fizemos hoje a tarde. E também porque amanhã nós vamos acordar às 4:45am para fazer nosso primeiro safari guiado.

Mas tenho que registrar aqui que hoje vimos um animal que vale por todos os Big Fives juntos: a Cheetah, o felino mais ágil que existe. Um casal muito simpático parou nosso carro para dizer que eles haviam visto uma cheetah numa estradinha de terra próxima de onde estávamos. Seguimos as indicações e lá estava ela, deitadinha na terra. Ficamos um bom tempo admirando, incrédulos da nossa boa sorte. Existem apenas 200 cheetas em todo Kruger Park, contra os 1500 leões e 150.000 impalas. Ela levatou, sentou, espreguiçou, olhou para nós, sentou de novo e depois foi embora, nos deixando abismados com sua beleza.

E mais tarde vimos o segundo Big Five: o Rinoceronte. Mas ele estava dormindo e nem queria se levantar para tirar uma foto.

Entre outros, vimos novamente vários elefantes e girafas. Na volta da nossa caminhada vimos também um casal de Hyenas com três filhotinhos bem fofos (e perigosos).

Jantamos muito bem, encontramos um restaurante aqui no rest camp que serve em buffet e a comida é ótima. Até que enfim algo decente em nossos pobres estômagos (contei que passei mal por quatro dias seguidos? Pois.).

Amanhã não sei o que esperar. Temos dois safaris guiados, um de madrugada e outro no começo da noite. Se a boa sorte ainda estiver do nosso lado, contarei aqui.

Escrito a mão pela Marcia às 7:05 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

agosto 15, 2004

M&M in Kruger National Park

Chegamos hoje, por volta das 12:30 no tão esperado, tão sonhado e tão querido Kruger National Park!

Entramos pelo Numbi Gate e dirigimos com calma por mais ou menos 50km, até alcançarmos o bangalô onde estamos hospedados. Durante o percurso vimos vários animais: impalas (os bambis, estes são como pombos, aparecem em todo canto!), kudus, waterbucks (espécies de antílopes) e pássaros das mais diversas espécies.

Demos entrada no nosso bangalô, fizemos um almoço super rápido e fomos fazer nosso primeiro safari por conta própria, com nosso carro. Logo no começo vimos um casal de Warthogs. Depois paramos onde uma pick-up do parque estava parada. Eles haviam visto uma onça, mas nós não conseguims ver, apesar de termos tentado.

Rodamos mais um pouquinho e tcharam! Vimos nosso primeiro Big Five do Kruger: o Elefante! Um sozinho, comendo folhas perto do rio. Mais pra frente, um susto: outro enooooorme elefante vindo em nossa direção no meio da estrada!! Gigantesco, um macho bem seguro de si. Martin parou o carro, mas foi dando ré sempre que ele se aproximava demais. Foi lindo! Logo ele entrou uns passos para dentro da mata e num segundo não se via nenhum sinal dele, impressionante. Paramos o carro perto do rio e ouvimos um urro bem alto. Uma família de sete elefantes, um casal e vários filhotes estavam fazendo a refeição por lá.

Depois de mais alguns metros pra frente, uma Girafa literalmente pulou na estrada, atravessou e sumiu entre as árvores, linda, pescoçuda e coloridona! O sol já havia se posto e estava começando a escurecer

Já estávamos no caminho de volta, faróis acesos e não dava pra ver quase nada na mata. Quase chegando no nosso rest camp, passamos sobre uma ponte e vimos um certo movimento no rio. Martin parou e deu ré devagar, a ponte é estreitinha e só cabe um carro. A estrada estava vazia e aproveitamos para checar quem é que estava se movimentando no rio. A princípio pensamos que eram jacarés, mas não! Eram Hipopótamos! Vários, vários, mergulhando e voltando para a superfície. Enormes, mas com vários filhotinhos também.

Eu estava curtindo os hipos, quando percebi algo movimentando atrás do carro. Chamei a atenção do Martin.

“Tem alguma coisa vindo atrás do carro”

Martin olhou pra trás mas não conseguiu distinguir.

“Aonde? O que é?”

Daí eu vi de novo algo vindo em direção à traseira do carro.

“Atrás, tem algo vindo em nossa direção”

Martin apertou o freio.

“O que será que é?”

E eu pude ver no meio da luz vermelha.

“Um felino! É um felino vindo!”

Por um segundo achei que era uma leoa. Martin manteve o pé no freio e logo pudemos ver o que era: uma Hiena Pintada! Andando calmamente, olhos fixos no carro, sem mudar o rumo. Ficamos olhando para ela imóveis, sem respirar. Eu sempre pensei que hienas fossem pequenas, do tamanho de um cachorro no máximo, até menor que um pastor alemão, eu achava. Que surpresa ver aquela hiena de quase um metro de altura!! Ela passou bem perto do carro, a cabeça na altura do retrovisor, depois correu para dentro da mata. Hienas têm as mandíbulas mais poderosas do reino animal e são os únicos capazes de digerir ossos. Absolutamente incrível!! Meus olhos se encheram d’água, que emoção ver um animal tão potente, tão forte, nos respeitando, nos deixando ali atônitos e maravilhados. Foi a melhor parte do nosso dia, sem dúvida nenhuma, por tudo o que envolveu: surpresa, apreensão, encantamento.

Amanhã faremos mais safaris sozinhos porque infelizmente não conseguimos vagas nos safaris com guias. Então a gente realmente não sabe o que esperar. Antes de chegar no parque nós fizemos uma aposta. Martin apostou que veremos quatro dos Big Five. Eu, que sou boa otimista, apostei nos cinco (leão, onça, elefante, búfalo e rinoceronte). Mas o dia de hoje nos mostrou o quanto essa tarefa é difícil. Um elefante com todo seu corpão simplesmente desaparece em segundos atrás da mata, é algo realmente inacreditável.

Agora tenho grandes dúvidas que veremos mais Big Fives. Mas também não tem problema, estamos curtindo um pouco de tudo que o parque oferece, além dos peludos e chifrudos. Muitos pássaros magníficos (vimos um que parecia uma garça gigante de 1m44, quase minha altura!!), insetos esquisitíssimos (inclusive uma largatixa de rabo azul neon!) e vários outros mamíferos lindos (que eu não sei o nome)!

Enfim, nosso primeiro dia foi fantástico! Estamos torcendo para que a gente ainda possa contar aqui mais e mais momentos marcantes!!

Um beijo a todos vocês com muita saudade!

Escrito a mão pela Marcia às 9:44 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

agosto 13, 2004

Últimos dias em Middelburg

Estamos no final da nossa saga em Middelburg. Hoje é o último dia em que o Martin vai trabalhar aqui. O último dia em que estamos aqui por dever.

Foram dias intensos nesta cidade. Dias de choque cultural, dias de apreensão, dias de boas surpresas, dias de sustos, dias de risadas, dias de cansaço, dias de paciência.

Martin sobreviveu bravamente aos desastres e aos inúmeros outros horrores nas mãos desse cliente. Trabalhou mais do que em qualquer outro momento da carreira dele, se dedicou por inteiro e por completo em tudo. Dos oitenta dias de trabalho, ele teve apenas três dias de folga. Acordou de madrugada por dias a fio sem reclamar, sem fazer corpo mole. Resolveu problemas, encontrou soluções que ninguém estava enxergando e hoje é um dos que olham para o equipamento funcionando como deve com a satisfação do trabalho bem feito. Well done, Martin. I’m really proud of you, my love.

Para mim, os dias em Middelburg foram agridoces, a bittersweet symphony. Quando me lembro do dia em que cheguei aqui na pousada, mal reconheço quem era. Vivemos tantas coisas aqui, fomos tão testados, tanta coisa foi mexida dentro de nós.

Dos doces momentos posso listar facilmente sem hesitar:

· a amizade com a Delia
· a companhia infinita do Bruno, da Phoebe e do Sylvester
· os safaris e trekkings em Botshabelo
· o encontro com o meu primeiro Big Five, rinoceronte, e também com as girafas, em Loskop
· as manhãs tomando cappuccinos nos cafés privados e reservados
· o céu azul intenso e o sol brilhando todos os dias
· as tempestades cheias de trovões e raios magníficos
· a convivência, as risadas, as brincadeiras e palhaçadas com o Chris
· os almoços com o Martin quando ele deveria estar trabalhando
· os jantares com todos os outros colegas dele, que me faziam todas as gentilezas por ser a única mulher entre um bando de engenheiros
· o vinho sul-africano a preço de banana


E dos momentos azedos, que logo serão esquecidos, os principais foram:

· Racismo exacerbado e explícito em todos os cantos
· Assaltos acontecendo a cada instante nas pousadas
· Não poder sair sozinha nem para ir até o final da rua
· Cliente-jumento fazendo a vida de toda equipe britânica um pesadelo sem fim
· Comida extremamente mal-preparada e o mesmo menu em todos os restaurantes
· Falta de linha telefônica, internet e comunicação em geral


Antes de partir, Chris havia me perguntado se eu faria tudo de novo, caso tivesse uma chance de escolher. E eu respondi que sim, faria sim tudo de novo, viria sim para Middelburg. Porque sempre no final a gente aprende. Queira ou não, a gente aprende. A experiência aqui foi muito importante, muito enriquecedora, algo que vou guardar pela minha vida. Se eu tivesse ficado na Inglaterra teria perdido tudo isso.

Agora estamos de passagem marcada para voltar pra casa e há em mim um misto de saudades da minha vida aqui e um estranhamento da minha vida lá. Porque não dá para simplesmente continuar a vida de onde havíamos parado. Não é uma continuação, não é uma ‘volta ao normal’. Porque não somos mais os mesmos de quando saímos. Martin, que já viveu isso várias vezes na carreira dele, me disse que é mesmo bem difícil tentar “retomar” a vida de volta à Inglaterra. Tudo é estranho, tudo está fora do lugar, as coisas que já davamos como certas aqui na África do Sul não existirão mais lá na Inglaterra. A vida correu adiante por lá também enquanto estávamos aqui. É estranho, muito estranho.

Mas não preciso nem dizer o quanto também estamos loucos para voltar para casa. Só de imaginar o avião pousando em Heathrow me enche os olhos d’água. Estamos ambos muito esgotados, por diferentes razões, mas ambos bem cansados depois desses três meses vivendo aqui.

Antes de embarcar, porém, nós vamos aproveitar nossas tão merecidas férias!! Vamos passar cinco dias hospedados em um dos bungalôs dentro do Kruger National Park. O quarto tem vista para o Sabie River, onde várias espécies de animais vão tomar sua água fresca. Acho que vamos ter dias bem especiais por lá. Quero poder relaxar com o Martin, fazer nossos passeios, caminhar de mãos dadas, respirar no meio da natureza selvagem. Depois a gente volta para esta pousada da Delia, passa uma noite aqui e no dia seguinte seguimos para o Aeroporto de Johannesburg em direção à Heathrow!

Enfim, no balanço geral, valeu muito a pena conhecer Middelburg sim, apesar de todos os problemas que enfrentamos. Foi uma excelente decisão ter vindo para a África do Sul juntos.

O Chris acredita que assim que a gente passar uma ou duas semanas de volta à Inglaterra a gente vai olhar para trás e pensar, “não foi tão ruim assim”. E acho que ele tem mesmo razão. Tudo o que aconteceu de ruim vai acabar desbotando e as coisas boas vão continuar colorindo nossas memórias daqui. Assim espero. Por hora, a gente quer é dizer byebye, Middelburg!

Escrito a mão pela Marcia às 6:46 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (11)

agosto 10, 2004

Farewell, Chris!

Amanhã é o dia em que Mr. Chris, também conhecido como MonkeyMan, vai finalmente voltar para a Inglaterra. Como ele disse uma vez que adorou ter tido seus quinze minutos de fama no meu blog, este post é para torná-lo então uma celebridade. Desculpem-me aos que não lêem inglês, mas não vou traduzir senão o post vai ficar imenso e também o google pode fazer isso para quem realmente fizer questão de ler nosso byebye ao Chris.

Tomorrow is the day when Mr. Chris, also known as MonkeyMan, is going back to England for good. He once told me that he enjoyed his fifteen minutes of fame in my blog, so this post is dedicated to make him a celebrity.

I still remember so well of his first day here. We went to the Ginelli’s restaurant (or “Umpa’s” as we call it because that place has nothing Italian whatsoever) and I asked him when he was planning to go back to England. He replied: “Tomorrow if I could. But I’m staying for two weeks.” Well, he stayed for a month and went through a fire, a breakdown, client’s tantrums and thousand of others miseries. A real survivor.

But let’s not forget that for days and days I was a poor victim of all toothpicks, bottle caps, paper airplanes, wet wipes and mint sweets thrown at me merciless by this gentleman. Not to mention my blindness caused by the water & lemon war, and also my injuries from the endless pushes and falls.

He is the one who made my own presence in Middelburg possible when Mr.M told him about the loss we’ve been through, just before this trip. Although I was hugely grateful for him in the beginning now I’m not sure if I should prosecute him for human cruelty. But it’s not Chris’ fault that Middelburg is like this, so I want to say a BIG THANK YOU for helping us when we most needed.

Now let’s get serious for a change.

Chris, I don’t think we need to tell you this but in case you are too slow to figure it out I want you to know that it was really great to have you with us during all those rough weeks. Martin and me truly enjoyed getting to know you better and getting on your nerves too. We’ll miss the little silly things we used to do together, but we won’t miss you knocking at our door at five in the morning and neither we’ll miss you singing Another Brick in the Wall at the King’s Head pub.

We wish you a good and safe journey back home and a wonderful return to your sweet beautiful family.

Cheers good old Chris!

Márcia & Martin

Escrito a mão pela Marcia às 8:10 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (9)

agosto 7, 2004

Olé!

Como previu minha amiga Cristina, o time bretão deu seu olé digno de salva de palmas e chuva de rosas na arena. No mesmo dia que o breguete despencou da parede, todos eles foram para a indústria às seis da manhã, ouviram palavrões, ficaram de castigo, foram mandado para todos os lugares menos nobres, mas não perderam a determinação: fazer o troço funcionar de novo. Às onze da noite do mesmo dia, eles voltaram para a pousada absurdamente exaustos, mas com a satisfação no pouco brilho que ainda resta no olhar deles de uma certeza: missão cumprida.

Em um dia, eles desmontaram, encomendaram partes, apressaram a entrega, montaram tudo outra vez e testaram. O equipamentro ficou em teste a noite inteira, e está funcionando as good as new. Nem quando o nosso radinho de pilha vai pro conserto fica pronto no mesmo dia. O que dirá de uma máquina de cem metros de comprimento que produz toneladas de aço inoxidável por hora.

Martin voltou com as mãos, o rosto e os braços cobertos de graxa, de pó e de fuligem, assim como todos os outros que não quiseram esperar nenhum peão para fazer por eles e colocaram as mãos, o corpo e a alma na tarefa. A noite, estávamos famintos e não tinha mais nenhum lugar aberto e todo mundo da pousada já estava dormindo. Dividimos meio pacote de batata frita em três. Além da fome, Martin respirava pesadamente quando me contava que tinha sido o pior dia de toda a carreira dele, tadinho.

Mas a resposta que vêm desses ingleses tem sempre o mesmo tom que as comédias de sua terra natal: simples, sarcástica, sutil e precisamente direta ao ponto. Não só todo o time foi brilhante consertando tudo no mesmo dia, como também eles foram ontem a noite resolver um problema que nem era deles, cheios de toda deliciosa ironia que só os ingleses conseguem, como quem diz “deixa que eu faço, provavelmente você iria quebrar mesmo”. Hohoho.

Sobre a hipótese de sabotagem, essa foi a minha primeira suspeita também. Essa idéia foi levada em conta com muita seriedade, principalmente quando o fogo envolveu bombeiros e tal. Mas a causa foi clara e o cliente assumiu a culpa de tudo. Quanto segunda quebra, é algo difícil de se fazer criminalmente. São cabos enormes, de diâmetro gigantesco, presos na parede de concreto. Não dá para simplesmente ‘afroxar um parafuso’ e fazer tudo cair.

A sede da empresa na Inglaterra está a par de tudo o que anda acontecendo por aqui. Não há muito que eles possam fazer, pricipalmente porque o imbecil daquele sulafricano que está lá e fica mandando notinhas inúteis pra cá é amigo íntimo de um dos big bosses. E também o único interesse que a empresa tem é de terminar esse projeto e esquecer de vez esse cliente. Falta tão pouco que ninguém quer criar caso, muito pelo contrário, muito da dedicação de todos é motivada pela vontade de sair daqui.

Anyway, está basicamente tudo pronto para que a equipe toda deixe Middelburg na semana que vem. Nós dois seremos um dos últimos a sair. Claro que nós ainda não podemos dar como certa a data da nossa partida, mas estamos torcendo para que até lá nenhum problema mais aconteça.

Estamos até pensando em fazer uma plaquinha escrita “GET LOST” para colocar na nossa porta e evitar que Mr.Chris venha nos acordar com mais tragédias de novo.

Eu estou com grandes esperanças que tudo dê certo daqui para frente. Já estou me despedindo aos poucos das coisas boas que vou deixar aqui: aproveitando mais da companhia da Delia, do Bruno, da Phoebe e do Sylvester, além de aproveitar mais um pouco desse azul celeste incrível, desse sol dourado todo dia e também das risadas dos nossos fins de noite.

Já estamos pensando nas nossas férias, fazendo planos e programando os dias. Teremos poucos dias porque todos esses problemas acabaram consumindo os dias em que a gente estava reservando para as férias, antes de vencer nosso visto. Estamos numa tal exaustão mental que já nem me importo tanto com o leão quanto antes. Mas nesses poucos dias de férias, iremos certamente em busca deles. Mesmo que a gente não os encontre também não faz mal. Agora a gente quer mesmo é ir pra casa...

Escrito a mão pela Marcia às 3:10 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (5)

agosto 5, 2004

When it rains, it pours...


Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start...”

The Scientist - Coldplay


Eu juro que pensei que não poderia acontecer nada pior que um incêndio e que tudo fosse correr bem melhor desde o desastre. How näive I was...

Talvez este post fique muito, mas muito parecido com um outro anterior, mas assim foi como aconteceu. Ontem tivemos um jantar de confraternização com todo time bretão: Brian, Mike, Ray, Malcomn, Simon, James, Les, Chris, Martin e eu. Comemos, bebemos, rimos e brindamos ao esforço, a paciência e a dedicação inesgotável de todos eles que estão aqui. “We’re getting there”, foi como saudamos a proximidade dos últimos dias em Middelburg. Voltamos por volta das onze da noite, cansados mas satisfeitos por tudo estar correndo bem depois do grande incêndio.

Exatamente como no outro dia, fomos mais uma vez acordados com o Chris batendo à nossa porta. Não dava para acreditar que era sério. Mas era. Ainda é. Um dos cabos que sustenta parte do equipamento soltou-se da parede de concreto. Falando assim parece algo simples, mas na verdade é muito pior que o incêndio. Se antes o cliente assumiu a completa culpa pelo fogo, agora é o momento em que a equipe britânica tem que assumir pelo estrago porque esse tipo de problema é um erro no design, na medição de resistência. Este projeto foi desenhado por vários engenheiros, mas o único engenheiro-desenhista que está aqui é o Martin e eu não posso nem imaginar toda a pressão que ele está vivendo hoje.

Desde muito cedo toda equipe foi para a indústria para resolver o problema e fazer novos cálculos e reparos. Mas como estamos num lugar que não deve ser levado a sério, assim que o cliente-bundão chegou já foi berrando todos os palavrões possíveis, culminando num verbal “get the fucking out of my site”. Percebam a situação que o sujeito criou: o fulano mandou toda a equipe ir para o escritório e não sair de lá até serem chamados. Todo mundo de castigo. Já dá pra ter uma idéia?

E não é porque Martin é o moço que mora comigo nem nada, mas tanto ele quanto os outros membros da equipe não são ‘café pequeno’, não. A experiência e o nível de profissionalismo deles todos são impressionantes, não é algo para ser ignorado e colocado atrás da porta. Mas o machão do cliente que mal sabe falar direito botou de castigo toda essa gente que já havia assumido o erro e já estava de mangas arregaçadas para trabalhar e solucionar o problema. Tá lá um bando de adultos de excelente formação de braços cruzados porque o fedidão tá com pirraça. Quem perde é o próprio cliente, claro. Que benefício isso vai trazer? Eu sempre falei isso e repito: trabalhar com gente burra é a pior coisa do mundo. E não falo de formação, não, porque tem muita gente competente sem diploma. Falo de burrice mesmo, antice, jumentice, i-óin. O horror.

Enfim, este é o cenário que nos encontramos nesta manhã. Perguntei pro Martin se o problema é solucionável, se dava para reparar o estrago. E ele respondeu: “easily”. E é isso que mais frusta. Se dá para resolver tão facilmente, deixa a equipe trabalhar, consertar, fazer tudo funcionar como deve o quanto antes. Eles já assumiram o erro, a empresa vai pagar, já sabem o que fazer para reparar, o que mais que o cliente quer? Que a Rainha Elizabeth venha aqui pedir perdão? Ah, pro inferno!

Esta vida é realmente árdua. Talvez por isso que cachorrinhos e gatos são tão fofinhos. Eles já sentiram que não tô boa hoje e me cercaram de focinhos carinhos e ronrons amigos. Queria levá-los para confortar Mr.M hoje...

Temos duas garrafas de vinho ainda fechadas aqui no quarto. Sinto que não vai ser o suficiente esta noite, considerando obviamente que eles não façam plantão noturno hoje também. Assim que a gente realmente sair desta cidade, das duas uma: ou a gente sai mais forte, ou sai alcóolatra. Uff...

Escrito a mão pela Marcia às 11:37 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (10)

agosto 2, 2004

Moving On

Passado o grande choque, agora temos mais idéia da real extensão do incêndio. Foi grave, foi imenso, mas nem tanto quanto à primeira vista parecia. O equipamento todo mede mais de cem metros de comprimento. Uma das partes foi completamente destruída e vai ser preciso montar outra vez. Mas o restante foi salvo.

Vi as fotos ontem, realmente impressionante, tudo derretido, aço retorcido, concreto corroído, paredes negras pela fumaça. Foi uma sorte que ninguém tenha se machucado.

O cliente não se pronunciou para apontar a culpa em ninguém. Não é oficial ainda, mas a causa do incêndio foi por negligência deles, havia material inflamável onde não deveria.

No entanto já veio do Reino Unido uma nota de um sujeito sul-africano que antes morava em Middelburg e agora mora na Inglaterra e acha que tem a Rainha na barriga, que a equipe britânica não sabe o que está fazendo e por isso que o incêndio aconteceu. Fácil falar assim quando a sua própria bunda está sentada na Inglaterra e não ralando aqui em Middelburg por todos esses meses, longe da família, longe da vida em si. Gente assim me irrita profundamente. A resposta uníssona de todos que estão aqui foi uma só: F**K OFF!

Mas enfim, enquanto uns perdem tempo escrevendo notinhas extremamente desnecessárias e completamente inúteis, quem está aqui parte para a ação. Ontem mesmo eles iniciaram o processo de avaliação, desmontagem e substituição de tudo o que é preciso. Toda a equipe britânica está preocupada em solucionar o problema, ao invés de caçar um culpado. Hoje nem parece que faz pouco mais de 24 horas do incêndio e as coisas já progrediram bastante. Se isso não é saber o que está fazendo, então não sei o que pode ser.

Não sei que implicações esse incidente vai trazer para a nossa estadia aqui. Pelo o que percebi, o incêndio e suas conseqüências são problemas únicos e tão somente do cliente. Martin e seus comparsas continuam com o trabalho deles, fazendo os testes e medições que precisam no restante do equipamento que não foi afetado.

Aliás, ontem a gente pensou ‘ah quer saber, foda-se’ e fomos jantar no pub King’s Head, que se esforça para ter um ‘ar inglês’, mas é um desastre. Mas pelo menos o garçom já nos conhece e traz cerveja de graça e no domingo tem uma banda ao vivo que toca umas músicas bem velhinhas para a alegria do idoso Chris, que fica cantando Pink Floyd e afins.

Fizemos bagunça pra variar e fingi que não ouvi a banda tocando Tears in Heaven. Daí eu me virei por um minuto e quando vi, minha taça de vinho ainda cheia tinha um avião de papel, duas balas e uma flor dentro! Como pode? Coloquei sal na cerveja do Martin e joguei água no Chris. O garçom nos vê entrando e já vai colocando uma montanha de guardanapos na nossa mesa, só agora entendi porquê...

Daí a banda começou a tocar “I see your red door and I want to paint it in black...” Uau, não é que estou também ficando idosa? Cantei junto e bati palma. Eu vi mais alguns copos chegarem na nossa mesa, mas a partir daí tudo parece meio embaçado na minha memória. Só me recordo de ter chegado na pousada somehow e os dois tentando me empurrar no laguinho dos peixes. E daí entramos na pousada e eu não conseguia mais parar de rir e os cachorros acordaram e pensaram que eu queria brincar e latiram e pularam excitadíssimos e me derrubaram e me lamberam o rosto e eu não conseguia me livrar deles e ficar de pé. Martin quase teve um ataque cardíaco de tanto rir, mas conseguiu me puxar até o quarto, para minha dignidade.

Ufa. Se é para ser assim a cada vez que um incêndio acontece, então burn it, babe, burn, hohohoho. Ai, é o vinho.

Escrito a mão pela Marcia às 9:11 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (15)

agosto 1, 2004

A Hell of Day...

Na sexta-feira saí com a Delia para visitar um café novo que foi inaugurado aqui perto. O lugar era lindo, decoração fantástica, mesas cobertas de veludo e com pilhas de livros abertos no centro, rosas frescas perfumando o ambiente. Tudo bem bacana, bolos e tortas maravilhosas e um cappuccino delicioso. Tivemos uma manhã bem agradável.

A tarde porém, foi bem diferente. Assaltaram a pousada vizinha, agora já são três pousadas assaltadas em menos de duas semanas. A polícia veio, mas não pôde fazer muito. Os muros da pousada em que estamos começaram a ser erguidos, mais cercas elétricas serão instaladas. O número de gente desempregada na cidade é tão grande que não é nenhuma surpresa que essas coisas aconteçam.

A noite, Martin e Chris voltaram do trabalho às nove e meia da noite, cansados e extremamente mau-humorados com os clientes que passaram o dia todo apontando o dedo para eles e berrando a todos os pulmões. Tivemos um jantar sem muita conversa e sem muito ânimo. Eu pensei comigo “amanhã tudo vai ser diferente”.

E assim foi. No sábado Martin fez uma porção de novos cálculos e provou por A + B que tudo foi feito estritamente dentro do planejado e que todos os problemas que os clientes estavam apontando estavam vindo da própria incompetência da empresa deles. Os clientes então se calaram, enfiaram o rabo entre as pernas e a equipe inglesa pôde saborear o doce sabor da vingança.

Foi excelente para a moral deles todos, que estão comendo o pão que o diabo pisou com esse cliente. Todos eles voltaram para casa antes das quatro da tarde e nós três pudemos nos divertir bastante. Saímos para jantar, pedimos uma garrafa de vinho Pinotage para comemorar e brindamos “ao bom dia e por melhores dias a frente” (“for the good day and for better days ahead”). Fizemos um monte de palhaçadas no restaurante, com direito a guerra de balas e de lenços umedecidos que viraram chicotes. Rimos tanto que mal conseguíamos respirar. Voltamos para a pousada e continuamos brincando e rindo e rindo e rindo, até a hora de dormir.

Hoje, domingo, o único compromisso deles seria ir para uma reunião de manhã e voltar antes do almoço. Estávamos combinando de passar o resto do dia em Botshabelo.

Porém, o desastre desabou.

Acordamos com alguém batendo em nossa porta às cinco da manhã. Eu estava certa de que era o Bruno querendo brincar, nem me mexi. Mas Martin acendeu a luz e foi atender. Era o Chris. Ele estava nos acordando para avisar que havia recebido um telefonema da empresa com a notícia de que o equipamento que eles acabaram de instalar estava em chamas. Eles saíram daqui às pressas e Martin já me ligou de lá dizendo que o estrago foi enorme. Boa parte do equipamento está perdida. O prejuízo é gigantesco e obviamente que o cliente está com unhas e dentes querendo culpar a equipe inglesa. Chris está neste momento em reunião na boca dos leões enquanto Martin está com outros engenheiros investigando a causa do incêndio.

Eu estou aqui sem saber o que pensar ou o que esperar. It’s just SO unfair. E não estou dizendo isso porque quero ir pra casa, nem nada. Estou mesmo é muito TRISTE por toda equipe que trabalhou durante todo esse tempo sem descanço, sou tesmemunha do trabalho árduo que eles vêm fazendo, em plantão constante, se entregando completamente ao projeto.

Para eles, ver o equipamento se transformar praticamente em cinzas está sendo devastador para se dizer o mínimo. F***ing hell.

Martin and Chris, I’m really sorry for you and all the UK team... May the ‘better days’ we toasted for last night still come to us...

:-(

Escrito a mão pela Marcia às 7:34 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (11)

julho 30, 2004

Looking for Trouble

As promised, here are the most recent pictures of that one who must not be named. All pictures were taken in Botshabelo.

Conforme o prometido, aqui vão algumas fotos daquele que não deve ser nominado. Todas as fotos foram tiradas em Botshabelo.

Click here to see him having his cup of tea

Click here to see him checking a SMS message in his mobile phone

Hohohoho, I think I'd better go to the court now.

Escrito a mão pela Marcia às 8:10 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

julho 29, 2004

Bad days, bad dinner, bad mood

Estamos na reta final. Finalmente o equipamento foi instalado e testado. Tudo está funcionando absolutamente como deve. E sejamos muito justos aqui: foi graças a dedicação, esforço e comprometimento sério e inesgotável de toda equipe inglesa que este projeto finalmente alcançou esse resultado.

Martin e Chris voltaram a ter horários mais civilizados desde ontem. Mesmo assim ainda é nítido o cansaço físico e o esgotamento emocional deles.

Quanto a mim, estou absolutamente impaciente agora. Cansei de repetir pra mim mesma que falta pouco e blablabla. Quero ir pra casa, mas também não quero deixar aqui as coisas boas que já fazem parte da nossa vida: as conversas com a Delia, a companhia deliciosa do Bruno, da Phoebe e do Sylvester, a proximidade divertida com todos os colegas do Martin.

Sei que assim que a gente colocar os pés na Inglaterra, vai ser difícil reencontrá-los, cada um segue sua vida, nunca mais se vê. E não estou exagerando.

Passei tanto tempo me acostumando a ficar sozinha na nossa casa, agora que a gente veio pra cá e teve essa convivência saudável e bem-humorada com eles todos, vou sentir muita falta.

Mas quero ir pra casa agora. Andaram acontecendo algumas coisas bem desagradáveis por aqui. Uma delas é que roubaram dinheiro, cartões de crédito e o celular da Delia, aqui dentro da pousada. A outra é que o marido dela teve um acidente com a pickup 4x4, ele está bem mas o carro foi bem atingido e está no conserto. Então o ambiente não está um dos melhores.

Para completar meu humor, ontem no jantar tivemos a infelicidade de ter escolhido o mesmo restaurante que os clientes-chatérrimos da empresa (cidade pequena é mesmo uma m*rda). Eles acabaram insistindo em juntar as mesas e tivemos uma noite horrível com gente burra, invejosa no pior sentido e desagradável. E como se não fosse o bastante, ainda tive que ouvir de um deles: “Márcia, now tell me: what about kids? When are you going to have a baby?” não consegui responder nada, Martin que se prontificou a falar “Soon” e pronto. De volta ao nosso quarto, claro, desabei em lágrimas. M*rda.

Hoje também não estou lá muito feliz principalmente com tudo isso na cabeça.

Amanhã é sexta-feira, dia que eu e Delia vamos tomar cappuccino em algum lugar bacana que não lembre que estamos em Middelburg. Quem sabe meu humor não muda um pouco.

Quero agradecer mais uma vez pelos recados aqui, pelo apoio e pelo gentil oferecimento de ajuda de muitos de vocês, muito obrigada, fico bastante feliz!! Martin e Chris também leram todos os recados cheering them up e se divertiram bastante. Thanks a bunch!

Escrito a mão pela Marcia às 10:04 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (5)

julho 25, 2004

Poor Things...

Hoje é domingo, mas faz muito tempo que não sei mais a diferença.

Desde a segunda-feira passada, entende-se segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e hoje Martin e Chris estão trabalhando desde às 5h30 da madrugada (leia-se cinco e meia da manhã) até as 7h30 da noite (sete e meia da noite), poor things. Sete dias consecutivos despertando muito antes do sol, longos dias de trabalho sem almoço e retorno de corpos exaustos e enfraquecidos ao anoitecer, poor things.

A gente sai para jantar, conversa por mais ou menos uma hora e meia e o dia se encerra para eles. Eles estão a pura imagem da escravidão impiedosa, expondo as marcas das chibatas em cortes profundos. Desolação e desesperança penduradas nas olheiras, poor things.

Para melhorar a situação, eles haviam pedido para uns peões cortarem o excesso de um cabo (de 5cm de diametro), só a ponta que estava sobrando. Eles cortaram. 16 metros. Como alguém pode achar que 16 metros é sobra? Daí o cabo tá curto, tem que pedir outro, produção da insdústria parada, querem cortar os cabos dos peões agora. E nóis continua por aqui, sem saber quando ou se um dia vamos voltar a ver a luz da civilização. Poor things


Public Appeal:

Martin and Chris think I’ve been unfair and unsympathetic with them just because I said they’d better be in a rest home than a guesthouse as they do little but say “oh dear, I’m tired”. They told me off last night (particularly one of them who must not be named but it’s not Martin) until reduce me to tears. So here I am trying to make up with them.

I AM TRULY HONESTLY MADDLY SORRY FOR YOU BOTH AND I HOPE THINGS GET BETTER IN NO TIME AND WE ALL CAN LEAVE MIDDELBUGGAR AND GO BACK TO OUR SWEET HOME ENGLAND.

If you have time, please leave a sympathy message for Martin and Chris too. They are SO desperately in need! Any message to cheer them up or just to say “oh poor things, poor things” will be very appreciated. Cheers!

-----

last update 26/07/04: this post was the talk of our dinner tonight. That one who-must-not-be-named is threating to sue me for slander and to keep me in Middelburg for the rest of my life. I'll soon post a petition here and you people can send e-mails to him (he LOVES e-mails!!) to plead against his decision.

Name: Chris ******* (surname to be updated soon)
e-mail: hisemailaddress@whatever.co.uk (to be updated soon)
telephone: +44 000 000 (to be updated soon)
picture: (to be posted soon, hohohoho)


Chris: Whatever! :-p

Escrito a mão pela Marcia às 5:19 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (16)

julho 21, 2004

Quase Dois Meses

Uff. Estamos completando quase dois meses vivendo em Middelburg. Praticamente um ato heróico. Chris, o engenheiro-chefe do projeto em que Mr.M está trabalhando chegou da Inglaterra na sexta-feira passada e está hospedado aqui na pousada.

Eu já falei dele aqui, foi ele quem fez de tudo para que eu pudesse vir acompanhar Mr.M nesta viagem. E tem sido bem divertido, Chris é super bem-humorado e simpático, nós três damos muitas risadas e fazemos todas as piadas possíveis sobre a vida aqui em Middelburg. Ele conhece bastante de São Paulo, já comentou comigo sobre o Ibirapuera, o litoral de Santos, os restaurantes Familia Mancini, Barbacoa, Ganesh, até do Simba Safari ele falou. E ele fala do Brasil com absoluta paixão, diz que ama o Brasil, que adora o povo brasileiro e morre de saudades da comida de lá. Para o Martin a presença dele tem sido também um alívio porque toda a burocracia e politicagem agora sai das mãos dele e ele pode se concentrar melhor no trabalho que precisa fazer.

Esta semana e a semana que vem são as mais críticas de todo o projeto em que eles estão trabalhando. O equipamento está sendo instalado e a produção da indústria está parada especialmente para isso. Então tudo tem que funcionar direitinho e todos os engenheiros estão de plantão.

Recebemos algumas notícias vindas do Reino Unido. A primeira é que provavelmente ficaremos aqui até que o nosso visto se encerre, em meados de Agosto, para que Mr.M possa cuidar de eventuais ajustes no equipamento instalado. A outra é que vamos poder enviar uma parte da nossa bagagem pela DHL para a Inglaterra.Vai ser fantástico porque a gente veio com as bagagens no limite do peso (ridículos 23kg por pessoa) e precisamos voltar com tudo aquilo e mais o que andamos comprando aqui.

Fiz alguns passeios com a Delia na semana passada. Fomos à Witbank e também a Dullstrom, para almoçar, tomar um cappuccino e ver lojas. Não comprei nada, mas adorei as lojas em Dullstrom, impressionante encontrar uma cidade no meio do nada (bem, na verdade a região é popular pela pesca de Truta) cheia de lojas de decoração, móveis de design assinado, uma porção de coisinhas bem bacanas e chiques, restaurantes finos e bistrôs bem aconchegantes.

No domingo passado levamos Chris à Botshabelo e vimos antílopes, impalas, avestruzes, baboons e macaquinhos. Fizemos uma pequena caminhada, vimos o pôr-do-sol e nos encantamos com a cor do céu, azul, rosa e laranja. Acho que ele gostou.

Que mais que eu tenho pra contar... Nossa geladeirinha vai bem, ando comendo sanduíche de atum e maionese, nham! E temos Ice Tea geladinho, queijo Babybel, leite.

Brunoviski, Phoebster e Sillyvester estão bem também. Phoebe não caçou mais nenhum passarinho, apesar das tentativas. Minha amiga Marcia Aguiar me explicou que os daschunds são excelentes cães de caça, por isso esse instinto tão forte na Phoebe. Bruno porém não vê necessidade de caçar já que seu pratinho tem sempre ração e toda quinta-feira tem churrasco na pousada e garantia de t-bones gentilmente doados pelos hóspedes. Melhor então usar os dentes pra morder a Márcia até ela ficar com a mão toda furada e falar: “Bruno-NO”. Ah sim, a quem tinha perguntado, eu falo com eles em inglês, mas eles só entendem Afrikaans, de modo que as vezes eles me olham sem compreender. Syl continua blasé, mas é super querido. Já não me morde mais quando eu faço fussy-fussy-cute-cute na barriga dele de surpresa. Quando a gente precisa sair e colocar ele para fora do quarto ele se transforma numa gelatina, uma massa amorfa que escorrega entre os dedos, o preguiçoso.

Terminei de ler o quarto e último livro. Gostei muito, Joanne Harris é bastante competente para criar personagens cheios de personalidade, adorei. Para a minha salvação, Chris me emprestou um livro que ele comprou no aeroporto e vou começar a ler hoje. Chama-se Land of Fire, de Chris Ryan. O gênero do livro (guerra das Malvinas) não é lá meu cup of tea, mas vou ler.

Agora que sei que vamos poder enviar coisas pela DHL vou poder comprar mais livros, de mais páginas. Oh sim, da outra vez tive que escolher livros que não fossem muito pesados, ficava comparando o peso nas duas mãos. Realmente quem deve ter me visto escolhendo os livros assim não teve uma boa impressão dos meus critérios literários. Da póxima vez vou tentar comprar alguma novela de 800 páginas, assim dura mais tempo. Imensas saudades da Borders...

Estou sem créditos no celular e, portanto, não posso acessar a Internet. Espero que Mr.M se lembre de comprar mais créditos e me tirar desta miséria implacável, esta seca cruel e desumana...

Ah! Colori meu cabelo novamente! Usando a mesma marca, L’Oreal Excellence, na mesma cor castanho mogno. Não ficou perfeito porque eu não apliquei muito com medo de manchar as toalhas da pousada. Mas ficou ok, tô contente.

É isso. Temos mais quatro semanas pela frente aqui na África do Sul. Meu chazinho de camomila está quase acabando, no wonder. Vou ali sentar no sol, respirar ar fresco e brincar com o Bruno. Só mais um mês. Uff.


Escrito a mão pela Marcia às 9:11 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (13)

julho 14, 2004

Improvements

YAY! Nós temos uma geladeira, hoooray!!
A Delia colocou um frigobar no nosso quarto e eu estou tão, tão feliz!
Vai fazer a maior diferença para nós.

Eu colocava uma coisinha ou outra na geladeirona da pousada, mas não ficava muito à vontade. Tem uma geladeira lá na cozinha só para bebidas, que a gente se serve e marca o que pegou para pagar depois. E outra com todos os mantimentos da pousada. Ambas são supercheias e organizadas e eu não me sentia muito bem colocando minhas coisinhas lá, a cada dia elas apareciam num lugar diferente e eu tinha que ficar fuçando tudo.

Agora nós podemos colocar o que bem entendermos na nossa geladeirinha no quarto!! Ontem fomos ao supermercado Spar para nos abastecer. Compramos presunto, queijo, atum, leite fresco, salsichas de hot-dog e cervejas. Tá tudo arrumadinho no frigobar. Compramos também pão, biscoito de chocolate, Kit-kat, mexericas e Ice Tea. Bons almoços daqui pra frente! EBA! Miojos nunca mais!

Outro dia eu fui à loja Woolworths, que tem um mini-supermercado dentro bem chique, e vi que tinha uma seção especial chamada “Italy Festival”. Fui lá dar uma espiada e o que eu encontro?? Um potinho de Pesto importado de Roma, hooooray!! Comprei um vidrinho e um pacote de espaguete. Eu não costumo comprar pesto em potinho, adoro fazer em casa fresquinho (facílimo de fazer, a receita taí do lado), mas aqui estamos num estado de calamidade pública. Então o potinho de pesto pronto é mais que bem-vindo!! Hummmm... acho que vou fazer no final de semana.

Ah, para quem havia perguntado quem era na foto do post Wild Wild Life, quero esclarecer que é a Phoebe. O Bruno viu ela caçando, depois foi lá cheirar a presa, fez cara de nojo e foi dando ré até ficar bem longe, o medrosinho. A Phoebe é mais quieta mas também a mais corajosa. Eu fiquei impressionada, daschounds são pequenos, perninhas curtas, não são feitos para serem cães de caça. Mas a Phoebe tem certeza que ela é um Husky Siberiano, deixa ela. No dia que ela comeu o pobre pássaro ela dormiu o resto do dia todo, foi como se tivesse comido um peru de Natal sozinha, a gulosa. Lety, não precisa ter medo da foto não porque não tem nada de muito nojento, não tem sangue nem órgãos saindo pra fora não. Mas agora cê já imaginou tudo isso, né...?

De resto tudo continua bem por aqui, na medida do possível. Continuo de bag full de Middelbuggar, mas estou mais paciente agora. Decidi não mais sair da pousada sozinha, pronto. Só saio com a família da pousada ou com o Martin. Temos mais um mês pela frente. Nosso visto dura até 21 de Agosto e espero (i hope, i hope, i hope) estarmos em casa antes disso. Estou na metade do último livro, estou quase acabando o jogo Tomb Raider The Angel of Darkness. Estou quase perdendo os sentidos também. Uff.

Mas sei que vai valer a pena quando a gente sair de férias e eu puder finalmente ver um leão!! Can’t wait.

Escrito a mão pela Marcia às 7:21 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (18)

AIDS na África

A África é ainda o continente campeão de índices de HIV positivo e AIDS. Outro dia vi na TV uma propaganda bastante tocante, mostrando casas de bingo vazias, asilos sem ninguém, um funcionário raspando da placa “desconto para idosos”. Depois uma criança de uns quatro anos pergunta para mãe: “Mãe, o que são vovô e vovó?” Daí a campanha se encerra explicando que em 2010, se a AIDS não for controlada, o continente africano não vai ter população acima dos 40 anos de idade. Uau.

Escrito a mão pela Marcia às 7:20 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (9)

Artesanato Útil

Gentem, que esqueci de contar. Quando fomos à Jo’burg eu fui dar uma olhadinha no artesanato africano e encontrei algo inusitado. Ainda existem muitas tribos neste continente. E a grande maioria são bem selvagens, vivem todos pelados. Daí que eu estava olhando o artesanato, achando tudo lindo e me deparei com um negocinho parecendo uma mini-peneirinha de palha. Enquanto eu estava tentando decifrar o que era o negócio, Mr.M surge ao meu lado e pergunta:

“Cê sabe onde é que vai isso aí?”

e vira a embalagem para me mostrar a foto explicativa. Tinha um homem e uma mulher de uma tribo. A mulher peladona, com umas penas aqui e ali. O homem peladão a não ser pela tal peneirinha de palha bem posicionada no instrumento reprodutivo dele para proteger de arranhões, ô moço precavido!!!

GAAAHHHHHHahahahahahaha...


:-p

Escrito a mão pela Marcia às 7:19 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

julho 13, 2004

Blyde River

O passeio do final de semana foi muito bom!

Desde a escolha da pousada às paisagens magníficas.

A gente não percebe, mas Middelburg fica num altiplano de mais de dois mil metros de altura. E para chegar a região de Sabie, fomos descendo a serra. Só então é possível ver as montanhas. Engraçado ter que descer para ver as montanhas. A diferença no relevo é espantosa, as formações rochosas formam ondas e tudo parece macio.

Ficamos num dos chalés da pousada, lá tínhamos três camas, uma cozinha completa, banheiro, varanda com churrasqueira e uma lareira bem legal, que acendemos e dormimos com o barulhinho da lenha estourando.

Jantamos na pousada mesmo e para a nossa total alegria o restaurante tinha um menu predominantemente britânico! Meu prato foi um clássico bretão chamado Steak & Ale Pie, que é uma torta recheada de carne assada, cebolas e molho de cerveja Guinness, acompanhada de purê de batata. Bliss! Martin escolheu um Lamb Indian Curry, curry de cordeiro, de tanta vontade que ele estava de comer um prato indiano que ele tanto adora. Comemos bem, vou te falar. Estava tudo divino.

No dia seguinte, o café da manhã seguiu a boa qualidade também. Mr.M atacou um full house, ovos, bacon, salsicha, tomates, torradas, aquela coisa toda. E eu me esbaldei com Poached Eggs Benedict, que são ovos pochê delicadamente deitados sobre fatias bacon, folhas de espinafre e metades de muffins ingleses. E um tiquinho de molho holandês cobrindo. Café, suco e fruta também. Ainda bem que a gente tinha o dia todo para queimar as calorias!

A primeira atração do dia foi visitar o God’s Window. Eu esperava bem mais por causa do nome presunçoso e tal. Gostei de ver a imensidão do vale que se avista do alto, mas acho que já fiquei mais impressionada com as vistas da Serra da Bocaina, entre SP-MG-RJ. Vai ver era só a janela do Vosso quintal ou coisa assim.

Depois fomos à um lugar bem especial chamado Bourke’s Luck Pot Holes. Lá as rochas foram naturalmente escavadas pelo rio, formando esculturas magníficas, imagens de realmente impressionar. E as cachoeiras também são fantásticas, a espuma da água braquinha nas rochas absolutamente negras, lindas!

Em seguida visitamos o canyon em si, Blyde River Canyon. Imenso, as montanhas em curvas sinuosas, o rio plácido correndo sem pressa no vale, uma vista que dava vontade de ficar sentada o dia todo, só admirando, sem dizer nada, sem pensar nada.


Cada estação tem seus prós e contras. No inverno é mais fácil avistar animais porque a vegetação está seca, as árvores estão peladas. No entanto, as cachoeiras estão mais magras e o rio também está mais baixo. E não há tanto verde e flores decorando as montanhas. Mesmo assim, as paisagens que vimos foram muito impressionantes.

Depois do canyon começamos nosso caminho de volta. Foi cansativo, é preciso rodar bastante de carro para ver tudo. Mas foi um ótimo passeio para nós.

E como as imagens podem falar mais do que eu possa descrever, aqui vão algumas. Infelizmente não posso publicar muitas porque demora muito para fazer o upload, mesmo em baixa resolução, e meus créditos vão simbora. O horário que visitamos não era o melhor para se tirar fotos, a luz estava impedosa e a leve névoa da manhã de inverno ainda estava na superfície, atrapalhando a nitidez da imagem.

Eu sentada no parapeito da janela do Homi

GodsWindow.jpg


As rochas esculpidas de Bourke’s Luck Pot Holes

PotHoles.jpg
PotHoles2.jpg


Blyde River Canyon, o terceiro maior canyon do mundo

BlydeCanyon2.jpg


:o)

Escrito a mão pela Marcia às 7:29 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (8)

julho 10, 2004

M&M in Blyde River Canyon

Eba! Desde que fomos à Jo’burg Mr.M trabalhou sem parar, sem folga nem no final de semana. E neste final de semana finalmente ele vai poder ter um dia e meio livre, começando no sábado depois do almoço e o dia todo do domingo, hooooray!! A gente quer fazer o máximo porque este deve ser uns únicos finais de semana que ele vai ter de folga até a gente voltar para a Inglaterra. A parte mais importante do projeto em que ele está trabalhando começa na outro domingo, então provavelmente ele vai estar de plantão o tempo todo.

E para comemorar e aproveitar bastante todo esse merecido tempo livre, nós vamos nos mandar de Middelbuggar, HOORAY!!!

Vamos visitar um lugar bem lindo, chamado Blyde River Canyon Nature Reserve. Não é uma área de fauna predominante (apesar de ser possível avistar alguns animais), mas sim de estonteantes paisagens, cachoeiras, lagos e formações rochosas. Martin já esteve lá uma vez e ele diz que é um dos lugares mais bonitos que ele já foi. E lá se encontra também o terceiro maior canyon do mundo, eu estou louca para ver.

Nos hospedaremos por uma noite no vilarejo de Sabie, numa pousada chamada Misty Mountain, bem lindinha, com vista para as montanhas. Entre os lugares que queremos visitar, além do canyon, está um chamado God’s Window (Janela de Deus). Se a gente tiver sorte quem sabe o dono da janela num vai estar por lá passando um paninho no parapeito, num é mesmo?

Então até a volta!

“On the road again...”

Escrito a mão pela Marcia às 9:44 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (8)

Wild Wild Life

Na foto abaixo é possivel ver a cena de um animal selvagem devorando sua presa, uma imagem que testemunhei há poucos dias atrás.

Aviso: NÃO clique no link se você não gostar de fotos do gênero ou se você não tem estômago forte ou se você estiver almoçando no momento.

Clique aqui para ver a foto

Pelo visto, aqui neste continente cada um caça o seu pão de todo dia...

Escrito a mão pela Marcia às 9:43 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (4)

Oh my G...


Outro dia estávamos assistindo à TV aberta. A gente não costuma ver TV aberta aqui no quarto porque a maioria dos canais não são lá muito interessantes. Quando a gente quer ver TV via Satélite temos que ir na sala de estar da pousada. Eu geralmente assisto um pouco às tardes porque daí eu posso ver o Discovery, NatGeo, Animal Planet, BBCFood, BBCPrime, etc.

Mas voltando, estavamos assistindo à um filme na TV aberta. Era o filme Sweet Home Alabama. O filme em si não me chamou atenção nenhuma, mas um infeliz detalhe me deixou indignada.

Toda vez que no filme algum personagem dizia “Oh My God”, o “god” era censurado pela TV. Então ficava “Oh my G...”. E assim sucessivamente com todas as outras palavras do gênero:
“for h... sake!” (for heaven’s sake);
“h… smokes” (holy smokes);
“what a h…?” (what a hell?);
“h... forbid!” (heavens forbid);
oh J… C… (oh Jesus Christ).

Enfim, qualquer palavra que tivesse conotação religiosa era cortada do áudio. Martin me explicou que isso é norma da tv sul-africana, ninguém pode transmitir filmes ou programas com palavras religiosas sem que essas sejam cortadas. Uns dizem que é para respeitar as diferentes culturas religiosas que o país têm e não ofender a nenhum credo. Outros dizem que os próprios católicos do país é que não gostam de ouvir tais palavras serem usadas em vão.

Eu não gostei. É certo que existem diferentes credos aqui, mas isso não impede ninguém de aceitar que outras culturas usam expressões religiosas nas interjeições. Pra quê tirar o áudio quando o que foi dito é tão óbvio? Qualquer cultura deve ter sua liberdade para se comunicar do jeito que está acostumada a fazer. E cabe a qualquer outra cultura entender e respeitar essa diferença, mesmo que não concorde.

Então vamos dizer que eu sou hippie e que acredito na Paz e no Amor. Então não quero saber de americano falando “love” em vão nos filmes hollywoodianos. Pronto. Paz todo mundo já fala em vão mesmo, mas Amor tá banido. Não quero, tá banido pra vida toda. Sem i love you, sem oh my love, sem do you love me. Tudo censurado, não aceito, corta tudo fora. É a mesma lógica.

Ah cansei.

Só pra terminar e resumir minha opnião, vou copiar aqui um trecho do livro que minha amiga Mary leu, Terrorismo Cultural, do antropólogo social Thomas Hylland Eriksen:

"(...) fascismo é ter amigos íntimos, uma cidade natal e uma família, mas não ter capacidade de entender que outras pessoas, em outros locais, possam ter amigos, uma cidade natal e família - e ter uma vida rica e interessante, mesmo sendo diferente."

Pronto, falei.

Escrito a mão pela Marcia às 9:37 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (3)

julho 5, 2004

O Primeiro dos Big Five!

Loskop – O Retorno

Eu vi! Eu vi! Eu vi! Eu vi o primeiro dos Big Five*, HOORAY!!!
Não foi o leão ainda.
Mas foi o senhor tonelada, o fortão, o mais pesado, o feroz, o que parece saído da época jurássica, o destemido e temido RINOCERONTEEEE!!

Eu vi, eu vi! E tirei fotos, muitas fotos.

Ontem Martin teve que trabalhar e eu estava entediada até a alma de ficar na pousada em pleno domingão ensolarado e quente. Não era nem dez da manhã quando a Delia veio bater na porta do quarto. Eu e Sylvester fomos atender. E ela me convidou para ir com ela e com o outro hóspede alemão (que não era o Gehard, mas eu não sei o nome deste moço) à Loskop. Aceitei (não sou silly nem nada), corri pro chuveiro, troquei de roupa e desci para encontrar com eles, na pick-up 4x4 (e fui a primeirona a estar pronta, a apressada).

Eu não fui com grandes expectativas desta vez porque sabia o quanto foi difícil ver qualquer animal lá em Loskop quando fomos na primeira vez. E no começo, quando começamos o safari, não me empolguei muito. Vimos alguns kudus, algumas impalas e tal. E rodamos, rodamos, rodamos. Daí a Delia começou a entrar num caminhos mais ousados, que só os 4x4 conseguem e a gente começou a ver outros animais, entre eles uma família de macacos babuínos e também black beest, que são parecem o Fera, da Bela e a Fera.

Mas nada de rinoceronte. Seguimos os cocôs deles novamente, parando para analisar o frescor do mesmo. Se ainda estiver molhadinho, com moscas e ainda mantendo o formato original, então quer dizer que eles estão por perto. Se já estiver meio seco, sem moscas e esfarelando, sinal que já faz umas horas que eles foram no banheiro. Eu achei muito simpático da parte deles de fazer cocô no meio da estrada, assim a gente pode parar para analisar.

Rodamos mais e mais e a Delia começou a parar uns carros para perguntar se eles haviam encontrado algum rinoceronte. A maioria dos turistas estavam mais pedidos que nós e ninguém tinha visto. Até que cruzamos com um carro de um casal que mora nas localidades e eles foram bem simpáticos dizendo que haviam visto um nas margens do lago, mas para chegar até lá era preciso pegar uma outra estradinha quase invisível por causa da grama alta.

Ficamos todos empolgados e prestando atenção no solo para ver se encontrávamos a tal estradinha. Encontramos e seguimos por alguns metros, sem ver nada na frente a não ser mais e mais grama que chegava na altura da pick-up. Até que... tcharam! Alcançamos a borda do lago, onde a grama é bem mais rasteira e lá estava ele, enorme, gigantesco, comendo tranqüilo sua graminha, sem se preocupar conosco. Horray! O primeiro dos Big Five que eu vejo em seu habitat natural, yaaaaayyy!!!

Chegamos muito muito perto dele, ele não se incomodou com a nossa presença, pude tirar bastante fotos! Dava até pra ver as marcas da pele dele. E aquele chifrão duplo no focinho, maravilhoso! A Delia explicou que aquele era o white rhino e que o black rhino tem a boca completamente diferente, como se fosse bicudo. Esse que vimos é mais comum.

Ficamos um bom tempo ao lado do belezinha e ele continuou comendo sem pressa, às vezes olhava pra gente, depois voltava a comer grama. Só quando viramos o carro para passar pelo lado direito dele que ele se mostrou ameaçado. Balançou a cabeça pra cima e pra baixo e chutou a areia. Daí a Delia entendeu e deu ré e foi pelo lado esquerdo dele. E ele balançou o rabinho e voltou a comer sossegado.

Deixamos o belezinha em paz e fomos para outras áreas, parando os carros para avisar onde havíamos encontrado o rinoceronte.

Mais ainda estava por vir.

Demos a volta no lago e, numa subida, vimos uns cocôs bem fresquinhos. Paramos o carro para olhar em volta e sem precisar de nenhum esforço, vimos outros rinocerontes no alto do morro, uma mãe e um filhotinho. Mas eles estavam longe, meio escondidos entre as árvores e de costa para nós, então não tirei fotos. Mas foi legal ser finalmente recompensados pelo tanto de exames fecais que fizemos!!

Pouco depois, no mesmo lugar onde Martin e eu ficamos maravilhados ao ver uma família imensa de impalas bebendo água no grande lago outro dia, viramos à esquerda para procurar mais animais.

Logo vimos o Pumba, o javali warthog. Mas este era um cinza bem clarinho. Acho o warthog bem engraçado, talvez porque me lembre o Pumba, e ele anda todo apressadinho, tem um cabeção e uma bundinha minúscula, é hilário. Daí vimos uma espécie de lagarto enorme, escorregando entre a grama e então mais para frente... surprise, surprise!!

Algo que eu definitivamente não estava esperando ver tão cedo e que me deixou completamente estarrecida, mais do que o rinoceronte. GIRAFAS!! Três girafas surgiram no horizonte, longas, elegantes, coloridas, magníficas!! Eu fiquei completamente sem palavras, tão feliz de ter visto as girafas!!! Na verdade eu nem sabia que era possível vê-as em Loskop foi uma total e fantástica surpresa!!! Era um casal e um filhote e eles estavam comendo folhinhas de uma árvore e descansando. Também chegamos bem perto delas, mas bem mais devagar para não assustá-las.

Foi fenomenal. Uma pena que Mr.M não pôde estar conosco, mas ele já viu boa parte dos Big Five quando morava aqui.

Depois das girafas, tomamos o caminho de volta, sem precisar ficar olhando em volta, a gente nem ia ligar de atropelar uma ou outra impala, hohohohoho, de tão satisfeitos que estávamos!! O dia que tivemos em Loskop vai ser um daqueles que vão ficar pra sempre na memória e no hard disk.

Clique & Amplie
Todas as fotos foram tiradas com uma lente de 210mm, eu não estava tão perto quanto parece

Eis o primeiro dos Big Five que vi, o Rinoceronte Branco:

Loskop-Rhino1.jpg
Loskop-Rhino2.jpg


E a grande e agradável surpresa do dia, as Girafas. Elas me dão aquela intensa sensação de que sim, estou na África.

Loskop-Girafes.jpg


E o querido warthog. Notem que este warthog tem a mesma cor que o tronco da árvore. Assim, se ele deitar quietinho, o predador pensa que é só um tronco de árvore caído.

Loskop-Warthog.jpg


*Big Five: leão, onça, búfalo, rinoceronte e elefante

Escrito a mão pela Marcia às 7:58 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (21)

E os Dias Passam


Já estamos em Julho, o clima aqui está mais imprevisível que antes. Às vezes faz sol e muito calor, às vezes fica tudo nublado e venta bastante. Tivemos chuvas nesses últimos dias, o que foi um alívio porque o ar estava muito seco e cheirando à fumaça das queimadas.

A família da Delia voltou das férias em Moçambique. Pelo que eles nos contaram, não foi lá uma boa experiência. É a terceira vez que eles vão para lá, mas foi a primeira vez depois da guerra civil que durou 20 anos. Eles disseram que o nível de miséria lá está um absurdo, muita gente esmolando nas ruas, falta de saneamento básico, violência, aquilo tudo qua a gente conhece. Então eles aproveitaram muito pouco, fizeram alguns passeios, viram vários animais bem bacanas, mas estavam loucos para voltar para casa. Nós ficamos felizes com a volta deles, a landlady que estava aqui era super boazinha, levou até bolo de chocolate no nosso quarto, uma beleza! Mas nada como ter os próprios donos da casa aqui, tudo funciona melhor e a gente se sente mais segura.

Na sexta-feira passada tivemos uma boa tempestade com raios e trovões, com queda de energia e muita água. Estávamos todos os hóspedes juntos na pousada, jantando um informal espaguete a bolognesa que a Delia havia preparado para nós como pura cortesia. E tivemos uma noite ótima ao redor da mesa da cozinha, conversando sobre um monte de coisas, nós, a família da pousada, Gehard, um alemão bem simpático que está aqui há dois anos, dando aulas de computação para negros que vão entrar nas indústrias. E também um outro hóspede que veio de Cape Town. Depois do jantar nos divertimos mostrando as nossas fotos para a Delia e o Ian, marido dela. Eles morreram de rir com as fotos dos cães e do Sylvester.

Eu tenho saído muito pouco da pousada. Quando muito vou até o supermercado e volto. Estou almoçando aqui, mas meu cardápio não é mais miojo. Comprei presunto, queijo, salame e pão, e a cada dia faço um sanduíche diferente. A noite jantamos juntos e aí sim consigo me alimentar melhor, principalmente quando a gente janta na pousada, que sempre serve carne, saladas, legumes e arrozinho, apesar da montanha de molho que vem acompanhando tudo. E eu continuo tomando um comprimido de multi-vitaminas todos os dias, então acho que sobrevivo.

Ando sentindo muitas saudades da nossa casinha, das nossas coisinhas, da nossa cidade, do mundo pós-idade-média, aiai... Tem muita coisa legal para se ver por aqui, mas eu não passeio todos os dias, não tenho sequer para onde ir durante a semana. Por mais que muita gente pense que estou vivendo um sonho de turismo, isto aqui está longe de ser um mar de rosas. Muito longe. Não vejo a hora que o Martin finalmente termine o projeto e a gente possa sair de férias e conhecer realmente o que há de melhor nesta região. Enquanto essa hora não chega eu fico pacientemente enchendo meus dias de coisas que me fazem bem, mas não posso negar que há dias em que eu preferia estar na nossa casa.

Quando voltarmos, certamente eu vou sentir saudades de muita coisa daqui, como o solão e céu azul quase diário, os animais, a família da Delia, as empregadas fazendo tudo pra nós, os passeios magníficos. Mas de Middelburg em si, da cidade propriamente dita, eu vou ter pouquíssima coisa a sentir falta.

Ao contrário de qualquer outra cidade um pouco mais civilizada, em Middelburg não existe transporte público. Brancos sem excessão andam de carro, negros se viram, a maioria caminha ou andam de lotação. Não posso dar um pulinho na cidade vizinha, não posso nem sequer andar mais que um quarteirão por aqui, por segurança. Sem contar essa discórdia racial, a arrogância extrema de alguns brancos e a antipatia tenebrosa de alguns negros, nesta minúscula cidade parada no tempo. E dou graças a deus que a pousada seja tão aconchegante e simpática, senão já estaria nadando pelo Oceano Índico a caminho da Inglaterra, ou fazendo uma curva no sul e nadando no Atlântico para visitar o Brasil.

Obviamente que valorizo muito a chance de ver o que vejo aqui, viver o que vivo aqui, passar os dias com o Martin como passo aqui, conhecer boas pessoas como conheci aqui. Mas isso não me impede também de ficar de saco cheio de vez em quando. A indignação e o desconforto faz a gente questionar e aprender muito também. Mais do que ser Polyanna, mais do que fingir que tudo é lindo e maravilhoso o tempo todo. Porque não é, nunca é. A maioria dos colegas do Martin, além do próprio, sabe do que eu estou falando. Tem horas que dá vontade de viver na Àfrica do Sul pra sempre. Tem horas que dá vontade de sair correndo.

Hoje eu me permito reclamar. Quem for da opinião contrária, está convidadíssimo a passar seus dias em Middelburg. Não de passagem em férias, veja bem, mas umas boas seis semanas consecutivas. Give me a break today

Escrito a mão pela Marcia às 7:41 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (8)

junho 28, 2004

M&M in Johannesburg

Eu não poderia ter pedido por presente mais delicioso! Passar o dia em Johannesburg foi realmente bom para minha alma. A minha mais forte impressão da cidade é que é muito parecida com São Paulo: periferia com favelas e muita pobreza contrastando com bairros nobres, hotéis cinco estrelas, carros importados e casarões enormes.

Mas o bom em Johannesburg comparando com Middelburg (apesar que isso seria como comparar São Paulo com Piraporinha-Mirim-do-Bom-Jesus*) é que a globalização já chegou lá e nas ruas é possível ver pessoas das mais diversas nacionalidades e eu não preciso me sentir o ET-atração-da-cidade.

Outra coisa que nos chamou a atenção, como o Martin pontuou, foi que não há aquela tensão no ar, como em Middelburg. Em geral, não há aquela clara divisão entre brancos e negros em Johannesburg e é possível perceber que não há tanto daquele ressentimento racista tão marcante como estávamos acostumados em Middelburg, de brancos mal-tratando negros e vice-versa o tempo todo. A gente percebe em poucos segundos que a grande maioria das pessoas em Jo’burg está muito mais acostumada com a missigenação. E que alívio é poder sentir isso outra vez depois de um mês naquele Apartheid-não-declarado da pequena cidade.

Depois de rodar um pouco pela cidade – e encontrar uma placa alertando “Hijack Risk Area” – nos dirigimos ao shopping center Sandton City, onde passamos o resto da tarde. O shopping é maravilhoso, praticamente uma praia de água azul-piscina para esta paulista perdida no mato.

Fomos à loja Cape Union Mart e lá encontrei um casaco bem quentinho e bem bacana, por um preço muito mais em conta do que na Inglaterra, menos da metade do que eu pagaria lá, e o melhor, no meu tamanho, hooray!!!

É cinza claro com azul, à prova d’água (necessário 355 dias por ano na Inglaterra), breathable (como se traduz isso?! Respirável??), tem um casaco removível de fleece na parte de dentro, um capuz generoso que se fecha na frente da boca (mas não tanto para a sua respiração não congelar no frio, só para parar o vento) e também uma “saia” para colocar por dentro da calça e evitar que a umidade suba para sua camiseta, no caso de chuva. É bem legal, estou supercontente com ele, como dá pra notar. Depois de passar frio por dois anos e meio na Inglaterra a gente aprende o que um casaco deve ter.

Depois fomos comprar coisinhas para a câmera, um memory card de 512mb, um tripé e a cabeça do tripé. Deixamos na loja as calças, os olhos da cara, um rim e meio fígado, mas boas fotos nos aguardam! Valeu a pena ter comido miojo e bolacha salgada durante 35 dias. Devo continuar com essa dieta na Inglaterra e logo a gente compra uma casa!

E então passamos na livraria. Eu queria todos, muitos livros, mas comprei só dois: Holy Fools, de Joanne Harris e The Curious Incident of the Dog at Night-time, de Mark Haddon. O primeiro porque eu gosto da Joanne Harris, gosto como ela descreve texturas, cheiros, gostos e de como ela retrata a França de tempos atrás. E o segundo eu queria comprar desde que estava na Inglaterra. Já comecei a ler e não conseguia parar, tive que deixar o livro guardado senão terminava hoje mesmo. Preciso fazer racionamento de páginas.

Não encontrei de jeito nenhum em Johannesburg o livro Letters from Africa, de Karen Blixen, que o Cido havia recomendado. Acho que vou ter que ler esse só quando voltar pra casa. Quem sabe vai ser até mais legal já que tudo o que tenho vivido aqui vai ser memória quando voltarmos.

Cheios de sacolas e sorrisos enormes, fomos almoçar. Tinha vários, vários restaurantes para escolher e a gente queria algo bem diferente, algo que não lembrasse nem de longe o tanto de comida africana que temos ingerido esses dias. E escolhemos o Daruma, um restaurante japonês m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o! Nos sentimos tão bem, o restaurante era todo ambientado, bem decoradinho, chefs japoneses preparando sushis na hora, toalhinhas quentes para limpar as mãos, uma delícia!! Comemos sushis e asinhas de frango de entrada. Depois tivemos tempura de legumes fritos com perfeição e teriyaki como prato principal. Teriyaki são fatias finas de filé que vem num prato de ferro bem quente. Daí a garçonete despeja um molhinho de shoyu e cebolinha por cima e o prato faz tchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii e termina de cozinhar a carne e os vegetais que acompanha: broto de feijão, cenoura, nabo e repolho, tudo em tirinhas. E claro, muito arroz branco para acompanhar! Huuuummm, foi a melhor refeição em anos que tivemos (descontando, obviamente, as refeições na casa dos meus pais)!! E man, nós fizemos por merecer esta refeição divina, I tell you!

Depois de comer bem deu aquele sooooono, passamos na confeitaria para comprar pão fresco e salame pro jantar e voltamos pra Middelburg... oh dear.

Mas foi um dia espetacular, inesquecível, um dos melhores presentes de aniversário que tive. Johannesburg é imensa, tomando os mesmos devidos cuidados de quem vai a São Paulo, dá para ver que é uma linda e bem desenvolvida cidade. E é engraçado perceber que em menos de duas horas de distância o cenário social muda completamente, nem parece o mesmo país. Martin estava certo, bem certo, quando me disse para não tomar Middelburg como exemplo de toda África do Sul porque não é justo. Em apenas um dia na maior cidade do país pude perceber o quanto isso é verdadeiro. Navegar é realmente preciso.

*cidade fictícia só para dar idéia de um minúsculo lugar qualquer

Escrito a mão pela Marcia às 7:15 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (8)

Oh Yeah!

Quero agradecer a todos os recadinhos me felicitando pelo meu aniversário, muito obrigada, fiquei muito feliz de ler tanta coisa boa sendo desejada para mim! Eba! Adorei. Obrigada!

Escrito a mão pela Marcia às 7:14 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (1)

junho 25, 2004

It’s My Birthday!

Primeiras horas da manhã da sexta-feira, dia do meu aniversário!
HOORAY!

Hoje eu faço 31 anos bem vividos até aqui. E este é o primeiro aniversário que comemoro na África do Sul.

Com Martin trabalhando de sol a sol, nem esperava que ele me fizesse nenhuma surpresa, ainda mais sabendo que a gente vai pra Jo’burg (decidimos!) amanhã de manhã. Mas assim que acordei ele me deu os parabéns e fantásticos presentes: um cartãozinho fofinho, 180 Rands de crédito para o celular pra usar a Internet e o DVD do Rei Leão Edição Especial. HOOOOOORAY!!!

Fiquei tão FELIZ com esses presentes!!! São todos tão especiais para mim. Não vejo a hora de assistir ao Rei Leão e tentar reconhecer os animais que vimos aqui. Faz tantos anos que assisti pela primeira vez que nem me lembro mais. Acho que vamos assistir hoje a noite, quando voltarmos do jantar.

Hummm, vamos comer bacalhoada no restaurante português, espero que seja bom. Eba! Eba!

Feliz Aniversário pra Mim!

In the arms of an angel

Hoje também é o dia que lembro do nosso bebê que foi para o céu. Dois meses. Ainda é difícil de acreditar, ainda sentimos tantas saudades de Little M, ainda nos machuca tanto lembrar de tudo o que aconteceu...

Não há um dia que eu deixe de pensar naquele bebê tão querido. Não há um dia que eu deixe de me orgulhar de Little M. Every single day...

Escrito a mão pela Marcia às 7:02 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (39)

junho 24, 2004

Um Mês se Passou

Já faz um mês que estamos vivendo aqui na África do Sul. Passou rápido. Temos agora uma certa rotina e os dias acabam voando. Não é sempre que a gente passeia por aqui, principalmente porque Mr.M quase não tem tempo livre. Então quando todas as novidades começam a se tornar comum, às vezes sinto falta da nossa casinha na Inglaterra.

A família da Delia viajou hoje para Moçambique, de férias. Estamos com uma outra landlady cuidando da pousada até eles voltarem. Então amanhã vou passar meu aniversário só com Bruno, Phoebe e Silvester. Mas Mr.M vai voltar para almoçar comigo e a noite a gente deve ir ao restaurante português pra comer bacalhau. Hooray!

E o meu presente vai ficar pro sábado. Nós vamos até um shopping center em Pretoria ou em Johannesburg, ainda não decidimos. Vamos comprar livros pra mim, muitos livros, todos livros. Já li os dois que havia trazido pra cá nas primeiras semanas, comprei duas Marie Claire e estou atualmente lendo a caixa de pasta de dente e as informações nutricionais da bolacha salgada.

Também vamos dar uma olhada em bush clothes, que apesar do nome, não se trata de roupas com estampa de G.W.Bush, mas sim roupas que se confundem com a cor da vegetação pra quando a gente for visitar os parques. Precisamos de camisas de manga comprida para evitar picadas de mosquitos malarientos e também para evitar a desidratação. E eu quero ver se encontro um casaco quentinho pra mim (só trouxe o impermeável, que não esquenta e ainda por cima é vermelho).

Li naquela revista Getaway que aos olhos de um carnívoro do alto da cadeia alimentar você não passa de uma simples refeição. Então é melhor respeitar as recomendações dos parques, vestir sua roupinha cor cáqui e ficar na sua sem querer chamar a atenção de quem tem mais dentes que você.

Eu não vejo a hora de conhecer outra cidade sul-africana! Ainda mais essas duas que são tão grandes e desenvolvidas. Estou com grandes expectativas, principalmente de comer bem, nham!

Mas só de ir para uma dessas cidades e conhecer um pouquinho mais deste país já vai ser um presentão de bom tamanho!

Escrito a mão pela Marcia às 7:15 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

Sem Gosto

Esses dias tenho sentido falta principalmente de cozinhar. Argh, tô desnutrida, desidratada e desiludida. Outro dia estávamos comentando que aqui em Middelburg não há o prazer de servir boa comida. Não há. Diferente da Itália, onde qualquer vilarejozico, qualquer lugarzinho mínimo serve boa comida porque simplesmente os italianos tem paixão de comer bem. Ou na França. Ou em certos lugares no Brasil. Ou em Portugal. Ou até mesmo na boa e velha Inglaterra com seus religiosos Sunday Roasts.

Não aqui, não, não, não. Já comemos em praticamente todos os restaurantes desta cidade. Tudo o que servem tem gosto de tempero pronto e de molho em garrafa. Tudo o que for mais barato e der mais lucro e aos diabos com o sabor. De início você nem percebe, acha tudo ok, mas logo o sabor vai se repetindo de restaurante em restaurante e você não agüenta mais sentir o cheiro do mesmo tempero.

Martin me perguntou o que eu quero ganhar de aniversário e eu respondi em um segundo: linguine ao pesto. Buá. :-(

Escrito a mão pela Marcia às 7:14 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (5)

junho 20, 2004

Anfitriões que se prezam

Li numa excelente revista de turismo daqui, chamada Getaway, que existe uma região na costa sudeste da África do Sul chamada Pondoland. Lá habitam os Pondos, cujos ancestrais foram valentes guerreiros que arrancaram a cabeça do chefe da tribo quando o mesmo tentou dar as terras para os brancos. Desde então ninguém mais mexeu com eles. Os Pondos nunca ouviram falar de Apartheid. Colonização – e conseqüentemente desenvolvimento – foram aspectos que passaram longe da região. Nem as tropas britânicas durante a Frontier War se meteram a besta de querer conquistar as terras deles.

Hoje em dia, os Pondos são um pequeno povoado extremamente humilde e acolhedor (desde que você não queira tomar posse das terras deles), que recebe turistas que vão visitar a Reserva Natural Mkabati e a costa selvagem sul-africana.

As acomodações são nas próprias casas dos Pondos, cabanas feitas de barro e palha, construídas em terrenos muitas vezes arenosos ou pedregosos. Porém, para aumentar o confortos dos hóspedes, a única forma de fazer o chão ficar lisinho para os seus pés é esfregando uma fina camada de cocô de vaca até tudo ficar bem suave e aconchegante, praticamente um carpete.

Então, assim que você chega, uma anfitriã vai estar ajoelhada, esfregando uma generosa camada de cocô de vaca em círculos para mostrar que foi feito tudo ao alcance deles para que você tenha uma boa estadia.

Ahhhh, quanto os hotéis cinco estrelas ainda têm a aprender...


Escrito a mão pela Marcia às 7:37 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (13)

junho 18, 2004

Compradores de Enciclopédia

Definitivamente precisamos comprar uma daquelas enciclopédias de animais, com o nome e a categoria de todos os animais da face terrestre.

Toda vez que vou com a Delia à Botshabelo eu não sei nem um mísero décimo dos nomes dos animais que vejo. Só sei: avestruz, zebra e impala (esse último porque aprendi aqui e ainda assim confundo com cervo e antílope).

A cada vez que a Delia avista um animal ela diz: Look! A “zxybghwtz” there!!! (sendo “zxybghwtz” o nome correto do animal em questão). Toda vez que eu avisto um animal eu digo: A “guy” there! Look at those guys there! Wow, nice guy* that one!

Completamente deprimente.

*guy = cara, rapaz, carinha, moço, fulano, dito cujo

Escrito a mão pela Marcia às 8:04 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (10)

É féshion in Middelburgh

Aliás outra coisa que nos faz pensar que voltamos no tempo são os cabelos das maioria das mulheres aqui em Middelburg. Parecem todas saídas daquele seriado Dallas, sabe? Ou Dancing Days. Escovados com as pontas pra cima, formando rolinhos. Olhos pintados de sombras azuis, uma cousa, vou te dizer. Mas é féshion. Daqui a pouquinho vou comprar uns bóbis pra mim.

Escrito a mão pela Marcia às 8:03 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (5)

Tiro ao Alvo

Martin estava me contando que uma vez ele visitou um museu em Cape Town e havia lá uma área sobre os primórdios do Apartheid e seus horrores. Disse ele que por volta de 1800 havia uma lei que permitia a todos os homens brancos da África do Sul o direito de atirar em qualquer bushmen (negros nativos, como os índios no Brasil), livres de qualquer pena. E então atirar em bushmen passou a ser um “esporte” como qualquer outra caça. Homens brancos saíam para caçar os negros por simples prazer da caça, nem era para escravizar nem nada, só pra matar mesmo. Era possível agendar roteiros turísticos com “exciting bushmen hunt”. Não é nem um passado tão remoto assim, tendo em vista que em 1880 o Brasil estava abolindo a escravidão.

Por mais que o Brasil tenha vivido atrocidades durante o período de colonização e escravidão, os níveis de racismo na história deste país com as leis do Apartheid estrapolam todos os limites, não dá para comparar com nenhum lugar do mundo. Assim como o holocausto também não se compara com nenhum outro massacre na história da humanidade.

Todos os dias a gente se depara com algo que nos dá a sensação de que voltamos séculos atrás. Simples comentários, que para os sul-africanos é comum e corriqueiro, nos faz arregalar os olhos.

Outro dia estávamos num churrasco promovido na pousada, com vários hóspedes sul-africanos. Lá pelas tantas comentamos sobre a boa comida do restaurante português que fomos e um dos hóspedes perguntou onde ficava o restaurante. E logo outra hóspede emendou na pergunta: “é um restaurante misto?” Mixed place é como eles chamam lugares onde brancos e negros freqüentam. Há restaurantes e lojas aqui que são obvios, não há negros, como se fosse um acordo silencioso. Outros são “mistos”.

Quando no Brasil você ouviria algo assim? Quando no Brasil alguém iria deixar de ir a algum lugar só porque negros também freqüentam? Ou vice-versa? Aliás, para a grande maioria dos brasileiros isso nem sequer passa na cabeça. Você vai e se diverte e pronto, nem liga para quem está lá ou deixa de estar. Pode até ser que existam certas criaturas iguais no Brasil, mas não o suficiente para ser uma pergunta ou uma menção (“ah, tal supermercado é bom, mas é misto!”) tão freqüente e comum como ouvimos aqui tantas e tantas vezes.

Palavras nos faltaram na hora, não respondemos nem sim nem não, que diabos, o que isso importava? Falávamos da comida...

(“Não entendo de terrorismo, falávamos de amizade...” – Legião Urbana)

Mas enfim... essa é a realidade deles. E Martin me alerta várias e várias vezes que Middelburg não deve ser usada como o reflexo ou exemplo da África do Sul. Como eu disse antes, esta é uma das cidades mais atrasadas quanto ao fim da segregação e a maioria dos brancos parece se orgulhar disso. Martin está sempre me explicando que na região de Cape (Cidade do Cabo) existem pessoas fantásticas, parece um outro país, uma outra sociedade.

Então talvez haja mesmo salvação.

Talvez o tiroteio um dia tenha fim. Não por causa da lei, mas por consciência.

Escrito a mão pela Marcia às 8:02 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (6)

junho 17, 2004

As Feras

É possível encontrar onças na região de Loskop, naquele parque que fomos e não encontramos os rinocerontes. Onças são animais solitários e muito tímidos e não gostam de se expor muito. São ótimos escaladores de árvores dificultando ainda mais a tarefa de seus admiradores.

Leões porém são mais cheios de auto-confiança, auto-estima e autoridade. Vivem em bandos e são mais fáceis de localizar do que as onças. Porém, como muitos de vocês devem ter percebido, não há leões nas ruas de Middelburg.

Para ver leões é preciso ir aos parques naturais onde eles vivem e o mais próximo de nós é o maravilhoso Kruger National Park, famoso por conter na imensa área natural o que eles chamam de Big Five: leões, onças, rinocerontes, girafas bufalos e elefantes.

Então acredito que até que a gente vá para esse parque vai ser muito difícil dar de cara com algum leão, mas nunca se sabe, né? Vai que? Então.

Aliás, uma coisa que estou aprendendo aqui é que safari não é o mesmo que ir ao zoológico. Sei que parece óbvio, mas eu tive grandes dificuldades para entender. Porque a gente espera ver os animais da mesma forma que a gente vê no zoológico, mas no seguinte sentido: quando alguém diz para você que no zoo tem leão, você vai lá e vê o leão bonitão, fica feliz e volta pra casa satisfeito. Então aqui na África quando alguém diz que no parque existe leão você vai no parque com as mesmas expectativas de quando você vai ao zoológico, mas a grande diferença é que ninguém pode garantir que você vai ver o bonitão do leão, ou qualquer outro animal.

É um pouco de sorte, um pouco de conhecer os hábitos dos animais, um pouco de saber onde eles estão em determinados horários, um pouco do olhar acurado para distigui-los da vegetação, um pouco de ter um bom carro 4x4. E mesmo com tudo isso preparado muitas vezes você não os vê. E obviamente que você se sente frustrado, afinal você foi lá para vê-los, quer vê-los e não voltar pra casa sem nada. Essa é a diferença e foi difícil quando fomos a Loskop e não encontramos os rinoncerontes, que são a grande atração daquele parque.

Nem sempre os animais querem ser vistos e eles são extremamente eficientes na arte da camuflagem. E este também foi um enorme aprendizado que tivemos aqui. Por mais que a gente admire a beleza de um animal numa revista, num livro ou num zoológico, só estando no ambiente deles para perceber e entender por quê eles têm a cor que têm, os chifres que têm, a pelagem que têm.

Quando você vê a mata ao seu redor com tocos de arbustos secos e escuros, pode estar certo que logo você encontra um animal com chifre semelhante. Quando a vegetação muda e as árvores secas são mais altas e os galhos mais pontudos, ali estarão também os antílopes. E quando a pálida grama alta de quase um metro cobre o solo de areia escura formando listras, lá estarão as zebras. Até os leões têm a mesma cor da terra e da grama. Até as onças se confundem entre a cor das árvores secas com suas folhas arredondadas que na sombra ficam pretas. É a seleção natural, dizia Darwin. E não deixa de ser naturalmente, incrivelmente fascinante.

Escrito a mão pela Marcia às 8:06 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (6)

Limites


A conexão via telefone celular é bem legal, mas tem seus limites. Eu achava que comprando o cartãozinho com os créditos pré-pagos estava tudo certo, mas não é bem assim. Aqui existe o horário caro e o horário barato para usar o celular pré-pago. No horário caro (7h00 às 20h00) os créditos vão embora feito água no seco solo africano. No horário barato (20h00às 7h00) os créditos duram três vezes mais.

Eu não sabia disso até usar a Internet para fazer transferências e pagamentos em bancos, checar meus e-mails e tudo mais. Quando fui ver quantos créditos restavam levei um susto, toda nossa quota para esta semana já tinha ido embora em 30 minutos.... L

Fiquei tão triste e me senti tão anta! Eu tinha economizado todos os dias comendo miojo na pousada durante o almoço só pra poder comprar o cartão cheio de créditos (ser nerd e pobre definitivamente não é saudável) e eles foram embora assim, sem piedade.

Mas agora já sei como funciona e vou conectar apenas depois das 20h00 só para enviar dados escritos offline. Martin comprou novos créditos ontem para eu parar de chorar, mas eu quero economizá-los e fazer durar até a semana que vem. Muitos miojos me aguardam.

Escrito a mão pela Marcia às 8:05 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (2)

junho 16, 2004

Brasil no Sunday Times da África do Sul

O Sunday Times é o único jornal sul-africano que eu consigo ler porque é em inglês. E no jornal do domingo passado havia uma matéria de página inteira, escrita por Fernando de Freitas, sobre o rascismo no Brasil.

Há muitos elogios sobre o fato do Brasil estar cada vez mais incluindo modelos e artistas negros e pardos em produtos, propagandas, filmes, novelas, como parte de sua sociedade, ao invés de apenas loiros europeus, que não condizia com a realidade do país.

A matéria foi muito bem escrita, envolvendo os três séculos de escravidão, a novela Da Cor do Pecado, o racismo codial, mas principalmente focalizando a grande polêmica da quota de vagas nas universidades para estudantes negros, que aliás eu nem sabia que estava acontecendo.

E muitos especialistas (sociólogos, antropólogos e historiólogos) comentam na matéria o caminho errado e perigoso que o Brasil está tomando com decisões como essa. Dizem eles que é nítido que o Brasil está copiando o mesmo sistema usado na África do Sul na época do fim do Apartheid, numa tentativa sem jeito de combater o problema do rascismo, mas há uma diferença muito grande que os governistas e ativistas não estão enxergando: o Brasil não é a África do Sul.

Na África do Sul sempre houve e ainda há essa grande e gritante diferença: brancos e negros. No Brasil não. No Brasil há brancos, há negros, há pardos, há vermelhos, há amarelos, há tudo isso misturado, filhos, netos e bisnetos de negros com brancos, negros com amarelos, vermelho com bancos, numa mistura sem fim, muitos mestiços de gerações diferentes, sem sequer ser possível de classificar. Na África do Sul há sul-africanos negros e brancos holandeses. No Brasil há grupos vindos da África, da Ásia e da Europa, numa missigenação única, como em nenhum lugar do mundo.

O inglês antropologista Peter Fry, que mora no Brasil, diz que os brasileiros têm mais de 300 diferentes categorias para se identificar. “E mesmo assim o governo agora está dizendo a todos os brasileiros que existe uma uma divisão entre a sociedade: brancos e negros. E isto é a base para atritos raciais. Eu não acho que este modelo é viável ao Brasil de forma nenhuma e me preocupo quando o governo tenta forçar as pessoas a se identificar nas bases dessa rígida categoria de raças”, diz ele.

E o jornalista Ali Kamel ainda complementa: “o maior problema do Brasil é a miséria, não o rascismo. E a resposta não está em culpar os brancos ou outros grupos, mas atacar o real problema da miséria. O que o governo está tentando fazer é tornar um fenomenal país multi-colorido e uma fantástica sociedade que sabe viver pacificamente junta, em um país bicolor cheio de mútuo ressentimento”, explica Kamel.

Fernando de Freitas também não deixa de fora os brasileiros de bom-senso: “Kamel expressa o ponto de vista de muitos brasileiros, que as autoridades deveriam focalizar na melhoria do ensino público e no sistema educacional, para dar condições a todos os brasileiros de entrar na universidade, sejam eles brancos, negros, pardos, amarelos, vermelhos, ricos, pobres, deficientes físicos ou o que for. Fazer estudantes se sujeitarem a exames extremamente difíceis só favorece candidatos que tiveram ensino de elite em escolas particulares”. E finaliza dizendo que é louvável que o Brasil esteja ciente e preocupado com o problema que os negros enfrentam na sociedade e no mercado de trabalho. Mas que nesta estrada tentando encontrar seu próprio caminho, o país se perde ao querer se reinventar.


Escrito a mão pela Marcia às 7:05 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (12)

junho 14, 2004

Recado de MR.M

Alguém além da Bia Badaud reparou no recadinho que Mr.M havia escrito pra vocês num dos post? Tá aqui (notem no português perfeito dele):

"Hello everybody,

I have printed off all your comments today for Marcia to read tonight!

I hope that Marcia will finally have an internet connection by the end of this week, muito dificil aqui na Africa da sul!!

tchau,
Mr. M
Posted by Mr M at junho 7, 2004 02:57 PM

E ele fez tudinho mesmo para que hoje a gente tivesse essa conexão maravilhosa! Dankie, Martin my love! :o)

Escrito a mão pela Marcia às 8:45 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (15)

Conectados

14/06/2004
Nerds Strikes Again

Chegou! Apesar do meu ceticismo, o birinaite para nos conectar à Internet chegou na sexta-feira! HOOOORAY!!! Demorou até domingo para a ente fazer tudo funcionar no laptop. A gente sabia que o laptop estava com um problema desde que o instalamos em rede com o PC lá de casa, então tivemos que restaurar o Windows desde a última modificação antes da rede para poder acessar a Internet. E para fazer isso, levou bastante tempo até a gente gravar tudo o que precisávamos, depois instalar tudo de novo para fazer tudo funcionar como antes.

Estamos usando o SIM card local do meu celular no adaptador Nokia D211, que é inserido no laptop. Estamos pagando com cartões pré-pagos, como se fosse uma chamada normal de celular mesmo. Quando finalmente resolvemos o problema da rede, os créditos do cartão pré-pago tinham se esgotado e tivemos que esperar até o dia seguinte para comprar outro e testar. E ficamos surpresos em perceber como os créditos acabam rapidamente quando se conecta várias vezes! É melhor conectar uma vez e ficar conectada por um bom tempo do que conectar várias vezes por curtos espaços de tempo.

Essa mordomia continua saindo bem caro, então vou continuar escrevendo tudo offline e provavelmente não vai ser possível publicar fotos por causa da lentidão da conexão, que é local e gratuita, para não gastar os créditos à toa. Nós não vamos assinar nenhum plano de provedor de Internet sabendo que logo estaremos de volta à Inglaterra, nossa nerdisse fica por aqui mesmo.

Mas ao menos agora a gente pode conectar à Internet em qualquer lugar do mundo que estivérmos, sempre que quisermos ou precisarmos, sabendo exatamente quanto estamos gastando.

Já está sendo infinitamente útil ter essa conexão no laptop, principalmente para controlar nossas contas bancárias (nem sempre você quer digitar sua senha num computador alheio), fazer pagamentos, entrar em contato com as nossas famílias, fazer pesquisas que a gente precisa, um mundo de outras coisas. E por tabela, manter o contato com meus amigos, meu blog, meus e-mails, continuar me comunicando, enfim. Tudo isso é tão importante, principalmente neste lugar tão remoto, que estamos bastante satisfeitos de termos adquirido mais essa tecnologia fenomenalmente priceless.


14/06/2004
Trekking in Botshabelo

Foram dois dias de trekking no parque natural de Botshabelo.

No Brasil quando eu fazia alguma viagem que incluía trekking, geralmente o que acontecia era só uma caminhada longa, às vezes com declives e nada mais difícil que isso. Já aqui quando se diz trekking é melhor levar a sério.

No primeiro dia fomos eu e a Delia numa área extremamente rochosa, pedregosa e arenosa. Quando meu pé não rolava com as pedras, se afundava na areia fofa vermelha ou então se equilibrava nas rochas balançantes. Nada de caminhada em relevo plano, em trilha aberta, nadinha. As decidas são sempre mais difíceis, exigem muito mais das coxas, dos joelhos e dos tornozelos. Já nas subidas são os braços, as mãos, as costas e as panturrilhas que trabalham mais. Foi cansativo, mas bem divertido, vimos ovos roubados, penas de pássaros predatores, toca de animais, plantas esquisitas, foi bem legal. Cansei um pouco, mas não cheguei nem a ficar dolorida. Acho que o mínimo de preparo físico que tive deve ter vindo da Yoga. Depois do trekking fomos fazer o safari com o 4x4, vimos lindos meerkats (o Timão do Rei Leão), vimos também uma família de wild boars (o Pumba do Rei Leão) com vários filhotinhos, vimos muitos impalas, antílopes, zebras e um outro chifrudo bem feio (que chega a ser bonito) que eu não sei o nome.

No segundo dia fomos eu e Martin, em seu tão precioso e merecido dia de folga! Antes de começar, visitamos o mini-museu para ver o artesanato local, depois fizemos um picnic no vilarejo de Botshabelo, estendemos a colcha, comemos sanduíches, frutas, tomamos Ice Tea e ficamos deitados apreciando os pássaros predatores voando com seu ar de dignidade.

Depois pegamos uma trilha que exigiu bastante de nós. Muitas vezes a gente tinha que escalar alguma pedra para poder enxergar por cima da vegetação onde é que a trilha continuava. E durante o percurso, vários vãos bem largos entre as rochas que a gente teve que de alguma forma ultrapassar, paredões para se segurar feito homem-aranha, árvores fazendo teias com seus galhos finíssimos cheios de espinhos, areia fofa cinza que segurava nossos pés, buracos escondidos nas palhas do chão, cocozinhos de impalas por todos os lados. Levei tombos, torci o tornozelo (o que estava bom, não o outro torcido), Mr.M torceu o tornozelo dele, nós dois tivemos espinhos encravados nos dedos, escorregamos algumas rochas de bunda, vários arranhões nos braços, voltamos com as mãos e os rostos completamente sujos e vermelhos, pés com bolhas, tênis cheios de areia, calças e unhas irreconhecíveis, but boy we had fun! Foram três horas de trekking seguindo o curso do rio, encontramos algumas áreas onde a grama estava toda amassada no chão, provavelmente onde alguma família de impalas costumam dormir a noite, foi bem especial. Às vezes Mr.M ouvia algum animal bufando, mas não vimos nenhum, mal dava para tirar os olhos do chão para não cair. Havia uma ponte pênsil no caminho, mas não nos atrevemos a atravessá-la, depois eu mostro as fotos e vocês vão entender o porquê.

Voltamos do trekking, pegamos o carro e fomos fazer um safarizinho para ver os animais. Mas como estávamos com o carro normal, não deu para chegar muito perto (por causa dos buracos e valetas imensas), só vimos à distância. Além dos animais que vi no sábado, vimos desta vez um casal de avestruz enorme, milhões de macaquinhos, renas orelhudas e um pôr do sol absolutamente magnífico!
A cada dia, a cada vez que vamos a Bostshabelo é completamente diferente. Não há um dia igual ao outro. Num dia você vê um animal diferente, no outro um pôr de sol diferente, no outro algo completamente inesperado. Não me canso de ir lá, não me canso nem se for ver os mesmos animais again and again. É sempre diferente, é sempre uma surpresa, é sempre inesquecível.

11/06/2004
A Bica

Ontem os donos da pousada nos recomendaram um restaurante português. Fiquei empolgadíssima e fomos lá jantar.

É um lugar bem simples, com mesinhas de alumínio, sem chiqueza nenhuma. Mas uma delícia de comida, huuummm!

Comi risoles de bacalhau com tanto gosto, estava tão bom!!!
Depois comemos frango assado com alho, nham!!

E o melhor da noite: estávamos jantando e a música ambiente era de umas canções típicas portuguesas. Daí contei pro Martin que no Brasil tem um cantor português chamado Roberto Leal que canta umas músicas daquele estilo e que tinha uma dança de bater palma dando pulinhos e tudo mais, tudo muito brega e muito engraçado. Lá pelas tantas eu ouço dos altofalantes:

“ai bate o pé, bate o pé, bate o pé
ai bate o pé faça assim como eu
ai bate o pé, bate o pé, bate o pé
foi assim que meu amor me prendeu...”

E eu: GAAAAAAAAAAAHHHHH!! É ele! É ele, Roberto Leaaaaal em Middelburg!!!

E eu fiquei cantando junto com a música e só não mostrei como dançava porque Mr.M me ameaçou me deixar sozinha no restaurante. Hoho.


11/06/2004
Feliz Aniversário!

Hoje é aniversário da minha cunhada Maristela, que é uma pessoa linda em vários sentidos.
Feliz Aniversário, Maristela!
Beijos com muitas saudades.

10/06/2004
Recados Amados, o post-respostão

Meus amores, Martin imprimiu mais uma vez os comentários daqui do blog. Ele gosta de chegar no quarto, fingir que tem uma surpresa dentro da mala do laptop dele e tirar lá de dentro -- dizendo tãrãm! -- umas folhinhas com todos os comentários impressos, só pra me ver abrir um sorriso que ultrapassa as orelhas e os cantos da minha boca dão um nó bem na altura da testa de tão feliz que eu fico!!

Eu leio e releio cada um, várias vezes, por vários tempos. É tão bom receber esse retorno, conversar com vocês todos, sentir esse monte de energia positiva vindo nessas palavrinhas escritas com tanto carinho. Eu simplesmente amo tudo isso.

Vou tentar escrever aqui um post-respostão incluindo alguns dos comentários, mas por favor ninguém se sinta ofendido se eu não respondi pessoalmente a algum recado. Li todos, amei todos, igualmente. As respostas aqui na verdade são para todos vocês.

Ontem antes de sair para o jantar, lembrei das aulas da Marcia-SP e falei para a Delia com meu sorriso cheio de dentes: tot straks! E ela perguntou se eu estava precisando de alguma coisa (?!?!?). Acho que ela pensou: “pronto, a menina endoidou de vez, num consegue nem falar direito mais”. :-/ Perguntei a ela se não era tot straks que se usa para dizer ‘até mais tarde’, mas ela não reconheceu esta palavra, nem soletrando. Daí o outro hóspede sul-africano que estava jantando (porque claro, eu tinha que passar mico com audiência e tudo), falou: “aaaah, ela quer dizer tot siens”. Daí ele ainda me explicou que o tot siens é que quer dizer ‘até a próxima vez que nos encontrarmos’. E eu pensei que tot siens era só pra quando você queria dizer goodbye, so long, farewell. Oh buggar. Não foi desta vez que impressionei com meu rico vocabulário em Afrikaans. Mesmo quando tivermos internet acho que vou continuar perguntando as coisas prôce, Márcia-SP, muito mais legal. :o)

A África do Sul é tão grande e tem cidades tão populosas como Johanessburg e Cape Town, que acredito que já houve sim casos de casamento entre brancos e negros, como a Maria Inês havia perguntado, dignos de romances com famílias contra e tal. Eu ainda não vi aqui em Middelburg e acho que nem vou ver, mas acho que existem casos sim.

Estou com muitas saudades de responder e enviar e-mails, ter os bate-papos casuais no messenger como os que eu estava tão mal-acostumada a ter com a Mary queridoca louca e desvairada, só pra falar bobagem, pra dizer o que comeu no almoço, o que passou na tv. Mary, cê viu o comentário da Anna da Dinamarca? Igualzinho ao que eu senti quando você se mudou de Böden para Umëa. Engraçado, né? Estamos todas separadas de qualquer forma (Anna, Mary, eu e todo mundo, aliás), mas a gente sente saudades, tantas saudades quando aquela pessoa que estava sempre “perto” vai para um outro lugar! Eu chego até a rir de vez em quando, pensando: que diabos, que diferença faz Böden ou Umëa, Inglaterra ou Middelburg, Dinamarca ou Suécia, estamos longe e separadas da mesma forma, hehehehe. Mas é bom, né? Shows that we care. Isso é muito bom.

Obviamente que fiquei completamente lisonjeada e totalmente sem jeito com a história do Cido meu querido com o “Marciaholic”. Cido, só você mesmo para vir com essa história tão bem-humorada e cheia de carinho, hohohoho. Amei, ri até dar dor de barriga, imaginando as reuniões do M.A. hohohohohoho. Muito obrigada, viu? Cê sabe que eu tenho várias dessas síndromes também, né? E ultimantente estou em abestinência de todos os meus blogs viciantes e ando tendo tremedeiras e calafrios só de imaginar a corzinha azul clara de um tal de Vilamarca, do lilás da Montanha-Russa, do colorido do... aaaargh, melhor parar!!! Você tem razão Cido, as experiências que tenho vivido aqui vão ser preciosamente guardadas pro resto da minha vida. Estou muito contente de ter o blog, de estar registrando tudo isso (e fazendo back-ups), de estar contando para vocês meus dias, minhas impressões, meus passeios, meus micos. E receber esse carinho todo faz tudo tudo ficar mais belo e feliz!

Hohoho, a bronca que o taxista deu na Bia Badaud até que faz sentido, mas que coisa, hein Biazita? Você não merecia isso não, o moço bem que poderia ser mais sutil contigo, ainda mais com passagem comprada e empolgação toda que envolve uma viagem dessas. A África do Sul é um país que vale a pena sim vir visitar. Eu nunca achei que sequer teria a chance de um dia estar aqui. Quando a gente pensa na África, logo vem na cabeça safaris no Quênia ou coisa assim. Mas no sul há muitos safaris fantásticos para se fazer e muito mais barato. Aliás, para os brasileiros realmente é uma excelente idéia de turismo já que o Real está mais valorizado que o Rand. Não é sempre que brasileiros têm a chance de viajar para um país e achar tudo mais barato. Quem sai do Brasil para a Europa já carrega o saldo negativo de R$5 para €1, no mínimo. E para a Inglaterra, R$6 para £1, mais ou menos. Já aqui na África do Sul, estamos com a diferença de 12 ou 13 Rands para cada Libra. Então acredito que o Real vale o dobro de Rands (façam as contas por mim, please, eu não me entendo com os números, nem em conta facinha, eu sempre uso o Yahoo! Currency Converter pra isso e no momento estamos em falta). Entã enfim, é sim uma rota turística a se levar em conta, para visitar um país de clima delicioso, conhecer essa gente amável e ver animais selvagens em ambiente natural como em nenhum outro lugar do mundo. E não pagar tanto durante a estadia. Bia Badaud, Luciana e Tereza de Bruxelas se vocês um dia fizerem isso e vierem para cá, tenho certeza que não vão se arrepender. À vista da primeira horda de antílopes, tudo parece valer a pena. Ah sim e mandem um postal pro taxista que ele vai ficar feliz da vida!

Eu não sei bem em que latitude estamos aqui em Middelburg, nosso Atlas tá lá em casa e só me resta minha amiga Samara para dizer com precisão. A Luciana Misura havia me perguntado se não era a mesma do Rio, mas até agora eu não sinto que estamos num país tropical não. Acho que estamos numa latitude mais ao sul, como a Argentina, mas não tenho certeza. Ao meu redor vejo vegetação muito seca, relevo de rochas vermelhas, muita poeira, ar muito seco. A noite faz um frio intenso, gelado. Luciana, acho que vocês vão se dar bem com a comida daqui, tem molho para todos os gostos! Nós estávamos acostumados com uma comidinha mais simples em casa, mesmo comendo carne, a gente sempre tinha um purezinho de batatas, legumes no vapor, linguine ao pesto, saladinha de rúcula e mozzarela de búfala, risoto de cogumelo, aquelas coisas divinas todas, aiai...

Como disseram a Joaninha Lu e a Andrea, estou ficando poliglota no que diz respeito ao obrigado. Quer dizer que em alemão é Danke? Que maravilha! Agora já sei falar Obrigado e Feliz Natal (por culpa dos cartões da Unicef) em várias línguas. Pelo menos não vou ser mal-educada globalmente. Danke, ladies.

E por fim, a Garota Urbana exemplificou bem como essa idéia da segregação ainda é intrínseca em uns e inexistente em outros. O que me espanta no caso dos amigos dela é que são da mesma família. Mas concordo contigo, Garota Urbana, há pessoas com boas e más intenções em todos os lugares. E há chatos e babacas no mundo todo também. Hehe.

Beijos a TODOS vocês, muito obrigada por todos os comentários, torcidas para o leão aparecer e desejos de bons momentos para nós. Desejo a vocês tudo isso em dobro (apesar de que o leão fica opcional), muita coisa boa para cada um de vocês, todas as porções de felicidade que todos nós merecemos na vida. E agora é melhor eu ir antes que todo meu repertório de mensagens de Natal se acabe neste único parágrafo. :o)

Tot siens!


10/06/2004
A passo de mula

O que era para ser hoje, quinta-feira, ficou para sexta, mas provavelmente só para a segunda mesmo. Então estou assumindo que vai ser só na outra semana mesmo.

Estou falando do nosso treco para conectar o laptop à Internet. O birinaite ainda não chegou de Jo’burg (é como eles chamam Johannesburg, o que eu acho uma pena porque é um lindo nome antes da abreviação).

Parece que a central em Jo precisa fazer o pedido pra Nokia, que vai enviar para a loja em Jo, que então vai enviar para Middelburg. E eu não sei ainda em que processo que o breguete tá enroscado.

É preciso ter paciência, as coisas não funcionam tão rápido quanto a gente gostaria, mas é bom saber que temos essa opção a caminho e se Zulu quiser, vai dar tudo certo.

10/06/2004
Churrascada entre Bretões

Ontem fomos à um churrasco com todos os colegas de trabalho do Martin, mas desta vez sem os big bosses, como naquele jantar anterior.

Foi na pousada onde Simon, James e Les estão hospedados, o Simon que organizou tudo.

Para a minha alegria, o churrasco foi feito ao ar livre pelos funcionários da pousada mas todos nós ficamos dentro do pub, com lareira e aquecimento acesos só esperando a comida chegar. Estava um frio incrível, muito gelado.

Os colegas do Martin estão espalhados em três pousadas: esta que fomos ontem se chama Selma’s Guesthouse, tem três cachorros grandes, sendo que um deles é um Husky Siberiano vermelho. A dona da pousada é portuguesa. Mas não gostei do lugar não. Fica muito distante do centro e não tem absolutamente nada de atraente no lugar. Só grama seca, uns quartos sem imaginação e só.

O outro lugar é um Country Club, com área de golf e quadra de tênis. Lá estão hospedados Ray, Mike e Brian. Também é longe do centro e o ambiente é de hotelzão mesmo. Mas lá tem linha telefônica nos quartos.

E finalmente nós dois estamos na pousada da Delia, que até onde vi, é o melhor lugar para se estar por tudo que inclui: boas pessoas, bons animais, bom serviço. Dave estava aqui conosco, mas ele já voltou ao UK, então só estamos nós por enquanto, até julho, quando mais funcionários da Inglaterra vão vir para cá para o encerramento do projeto.

Mas voltando ao churrasco. Eu adorei. Conversei bastante com o Les, uma simpatia de pessoa, bem legal. Ele pratica vários esportes outdoor, passou vários meses em Governador Valadares/MG fazendo paragliding. Recentemente ele fez um trekking em um lugar bem remoto do planeta, esqueci o nome... Logo o Brian se juntou a nossa conversa, ele é bem divertido, acho que ele é o mais velho de todos, também viveu no Brasil por dois anos, em Vitória/ES. Depois ele quis cantar Garota de Ipanema em inglês para um outro colega deles que disse que nunca ouviu falar em tal música, foi bem engraçado.

Conversamos também com o outro Brian e a esposa dele, Bridget. Ambos moram em Poole (a maioria dos funcionários aqui vêm de Sheffield, só o Martin e este Brian vêm de Dorset) e são também amigos do Trevor e da Ariete, que é minha amiga brasileira. Eles também viveram um tempo no Brasil, em Recife, por um ano. Visitaram também Manaus e o Rio de Janeiro e adoraram tudo.

O jantar estava bom, carne, borwoss (não sei se é assim que escreve, é aquela linguiça de carne), “pap” que parecia uma polenta branca e salada. Comi bem, bebi só um tiquinho de vinho Cape. E não tinha sobremesa. Humpf.

Foi uma ótima noite, adorei entender as pessoas falando em inglês comigo. Já estava achando que era algum fusível queimado no meu cérebro (ou fusil queimado no célebro) porque eu não entendo os sul-africanos falando em inglês. Repentinamente o inglês da Inglaterra têm soado como música em meus pobres ouvidos, muito mais fácil, limpo e claro de se entender. Oh Goodness gracious me!


Escrito a mão pela Marcia às 8:34 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (7)

junho 7, 2004

Outra Janela para Africa

07/06/2004
Mais presentes

Mr.M imprimiu e trouxe mais comentários para eu ler!!

ÊÊêÊêêêÊÊÊêê!!!
Viva tanãnã! Viva tanãnã! Viva tanãnã!

Vou tentar publicar mais posts hoje a noite!
Beijos a todos vocês com IMENSAS saudades!!


07/06/2004
Keep on Movin’

(wheeeeeeze… pufff... pufff....)

Mr.M tem trabalhado todos os dias, inclusive de final de semana, por mais de 10 horas por dia. Tem sido bem cansativo pra ele e a gente não vê diferença quando chega sexta ou sábado ou domingo. (pufff... pufff...)

E como eu tenho ficado sozinha a maior parte do tempo, os donos da pousada me levam com eles para todos os cantos: no banco, na vizinha, no vilarejo de Botshabelo, na academia. (wheeeze..)

No final de semana passado a dona da pousada me intimou a caminhar com ela todos os dias, às cinco da tarde (horário do pôr do sol) por meia hora. E hoje fomos caminhar juntas. Eu com minhas pernas curtas e ela com suas pernas holandesas longas em ritmo acelerado, em ladeiras, escadas, ruas, pontes e tudo mais. (wheeeeze... wheeze.. wheeeeze....)

Eu (puff… puff…) cansei (puff…) tanto… Mas estou me sentindo bem. Trouxe o DVD de Yoga mas até agora não tinha feito nenhuma série, pura preguiça. Então meu corpo estava acostumadíssimo com a vida boa. Agora meu coração acha que as pernas tão di sacanagi e meu pulmão ameaça greve. (wheeeeze....)

Amanhã tem mais caminhada. E depois e depois também. Vou voltar pra Inglaterra pronta para a Maratona de Londres. (huuuffff pufff.....)

Ah sim, comecei também a limpar a piscina. Como estamos no outono e tem um árvore imensa derrubando 3 bilhões de folhas por hora na piscina, eu fico com a redinha com seu cabo longo e pesado pescando e jogando as folhas num canto do jardim. É um bom passatempo e exercício para os braços, já que a cada minuto a árvore joga mais e mais folhas pra pateta catar. Vou começar a cobrar R2 por cada vez que limpo a piscina, que nem o moço que cobra para olhar o carro.

Meu branco-fantasma já sumiu e agora exibo uma bela cor magnólia-clara-esbanquiçada. Mais ou menos como um copo de leite com meia colher de chá de nescau.

Eu não aguento mais comer fast-food. Acho que nunca mais vou colocar um hamburger na minha boca outra vez. Argh. Hoje almocei vento, simplesmente porque não queria ver comida na minha frente. Agora estou morrendo de fome com esses exercícios todos. A gente vai jantar na pousada hoje, dankie God, não aguento mais comida de restaurantes também. A Delia cozinha uma comidinha caseira muito boa e uma sobremesa divina! Nham. Acho que vamos passar a jantar todos os dias aqui e em restaurantes só no final de semana, quando a pousada não serve jantares.

Saudades da minha cestinha de legumes querida, nhaaaaaam....
Por hoje é só, vou lá descansar.. pheeeeeew....

Ah sim, número de leões vistos até o momento: 0

06/06/2004
Paying it Forward

No sábado fui no McDonald’s almoçar. Pedi um quarteirão e um suco de laranja. O moço me deu o suco e disse que eu podia ir sentar que ele levaria o sanduba pra mim.

Mas daí a escola do lado havia terminado a educação física e num instante o lugar estava lotadíssimo de adolescentes comprando Big-Macs. Esperei, esperei, esperei e como meu sanduba não vinha, fui lá no caixa outra vez.

O moço me viu e fez aquela cara de espanto de quem esqueceu completamente do meu pedido. Ele me entregou o quateirão e pediu desculpas. Eu disse que não tinha problema, sorri e fui sentar para comer. Logo ele veio até a minha mesa me trazendo um outro copo de suco de laranja. Eu disse que não precisava que estava tudo bem, mas ele insistiu por causa da demora.

Daí eu já estava estufadíssima com meu sanduba e o suco que já havia tomado porque eu não costumo beber muito durante a refeição. E eu não queria nem ver mais suco na minha frente. Nem coloquei o canudinho. Pensei: vou levar o copo de suco pra pousada e tomo a tarde, sei lá.

Saí do Mac carregando meu copo extra de suco e o canudinho ainda embalado no papel. Eu tinha que andar vários passos e conforme eu ia caminhando o suco ia vazando e pingando na minha calça. Por um milésíssimo de segundo pensei: tomo o suco? Jogo fora no lixo? Continuo carregando o copo pinguelento?

E enquanto eu pensava o que fazer com o copo extra de suco, olho para o meu redor e vejo duas mulheres sentadas no gramado, com um bebezinho pequeno e uma menina maiorzinha. Fiquei olhando aquela família por um tempo, me aproximei delas e perguntei em inglês se elas queriam ficar com o suco. E por um outro milésíssimo de segundo fiquei constrangida de talvez estar ofendendo uma família que estava lá no gramado só tomando um solzinho. Mas logo a mulher segurando o bebê arregalou os olhos e abriu um sorriso imenso vendo o copo de suco na minha mão e fez sim com a cabeça urgentemente. Eu entreguei o copo e o canudinho para a menina maior, que também estava de olhos arregalados para o copo com o Ronald McDonald estampado.

Daí a mulher com o bebê sorriu olhando para mim e disse “Thanks, Dankie”, acho que ela não conseguiu reconecer se eu falava mal-inglês ou mal-afrikaans. E a mulher mais velha ao lado dela também balançou a cabeça e disse “Dankie” timidamente.

E eu me senti um monstro por ter pensado por um instante em jogar fora o suco só porque estava pingando na minha calça. Mas me senti aliviada porque não fiz isso e porque doei aquele suco doado para alguém que dificilmente teria condições de comprar. Queria poder ter dado todo aquele sanduíche também porque nem com muita fome eu estava.

Queria poder ajudar mais do que está ao meu alcance.

Eu não vou mais esquecer os sorrisos e os olhares e os “dankies” que recebi hoje.


05/04/2004
Fingers Crossed

Estamos com todos nossos dedos cruzados para que dê certo.

Na semana que vem, num ataque de nerdisse extrema, vamos ver se conseguimos um adaptador da Nokia para nos conectar à Internet, HOORAY!!!

Espero que dê tudo certo e que funcione. Não vejo a hora de poder ter Internet sem precisar depender de ninguém. E também ganhar um crachá de nerd senior. Aliás há dias que não sei o que acontece no mundo, não encontro jornal em inglês aqui, só em Afrikaans. Foi um susto saber que o Regan morreu. Estou completamente defasada. Preciso de um meio de comunicação com o mundo, com minha família, meus amigos. Enfim, preciso de uma interneta, preciso.

Tomara que dê certo, tomara, tomara.

Temos que esperar até a semana que vem. *sigh*


05/04/2004
Invernos

Só porque eu reclamei pelas orelhas sobre o inverno na Inglaterra, este ano excepcionalmente vou viver dois invernos seguidos, posteriormente seguido de um outono e depois de um terceiro inverno.

Tinha acabado de sair do frio nublado e chuvoso do inverno sem fim da Inglaterra, estávamos no começo da primavera quando viemos para cá. Na Inglaterra as árvores estavam desabrochando em folhas novas, flores viçosas, muita vida. Chegando aqui na África do Sul vi as árvores em cor mate, folhas caindo, noites mais frias.

Agora o inverno já está entre nós definitivamente. De noite e de manhãzinha o gelo cobre o gramado e os telhados, num frio impressionante, chegando a – 5C. Impressionante porque de dia o sol continua brilhando firme e forte e quente, chegando a marcar 23-25C. Então a queda é muito mais acentuada e drástica.

Mas a África do Sul é um país seco. Muito seco. A sensação térmica não é tão má, basta se agasalhar. Não chove no inverno, a vegetação tá uma palha só e os incêndios ocorrem facilmente. Outro dia acordamos no meio da madrugada com um cheiro forte de fumaça no quarto, entramos em pânico e achamos que estava tudo pegando fogo. Mas os donos da pousada também haviam acordado e nos informaram que era provavelmente a grama pegando fogo em algum lugar. No dia seguinte vimos que o fogo aconteceu num campo até bem distante da pousada, mas a fumaça tinha chegado até lá no nosso quarto.

O clima é realmente de deserto, mas deste inverno eu não tenho do que reclamar. Porque aqui faz sol todos os dias. Dia sim, dia sim também. Todos os dias. Sol, sol, sol. E eu precisava muito desta luz quente, deste céu azul royal intenso. E deste calorzinho no coração depois das tempestades que passamos.

04/04/2004
Botshabelo, o retorno

Estava eu calma e tranqüila, sentada na frente da pousada, onde sempre fico para assistir o espetacular pôr do sol africano, com cão Bruno dormindo no meu colo, quando a Delia me convidou para dar uma volta com a pick-up, só nós, sem os meninos. Só tive tempo de fechar nosso quarto e entrar no carro.

Pra minha surpresa ela me levou para Botshabelo de novo para ver os animais. Mas desta vez era com a luz do dia, ao contráro daquela vez que fizemos o safari noturno. Eu fiquei estonteada com a beleza que vi. Absolutamente encantador ver as zebras, os búfalos e impalas olhando para nós e atrás deles um cenário magnífico de pedras vermelhas, grama seca e o céu tingido de azul intenso, cor de laranja e vermelho, pós pôr-do-sol.

Depois de mais ou menos meia hora, começou a escurecer um pouco, mas o céu continuava com o laranja intenso em todo horizonte e é indescritível a emoção de ver apenas a silhueta preta dos animais e seus grandes chifres contrastando com o céu colorido.

Eu não havia levado a câmera, mas acho que o mais importante foi ter registrado tudo isso na minha memória, na minha experiência de vida. Jamais imaginei que um dia estaria com os pés na África, muito menos tendo a chance de ver esses animais selvagens em seu ambiente natural. Já está valendo muito a pena estar aqui.


2/06/2004
Headless Chicken in Middelburg

O nome correto da cidade onde estamos é Middelburg. Escrevi várias vezes no post anterior e todas as vezes escrevi errado. Aliás, estava lendo novamente aquele post imenso (quando eu voltar pra Inglaterra vou quebrá-lo em pedacinhos) e percebi um montão de erros, i appologize.

Estou indo para o “centro” da cidade a cada dois dias apenas. Não gosto muito de andar sozinha por lá. Isso porque eu sou “a japonesa” daqui do noroeste sul-africano. Nenhuma outra viva alma de olhos puxados aqui. Só moi. Todo mundo pára pra me ver. Ou me segue. Ou anda ao meu lado. E muito longe de me achar uma celebridade, eu morro de medo. Porque eu não sei se me olham por curiosidade ou outras intencões.

Então, vou andar sozinha só pela manhã por algumas horas, quando é mais calmo, passo no cybercafé, vou ao Woolworth comprar um lanchinho e volto pra pousada. Believe me, não existe mais nada pra fazer na cidade. É como andar no Largo 13, em São Paulo, só que 10 vezes menor: cheio de camelôs vendendo coisas no chão, várias lotações (que eles chamam de taxi, hohoho), churrasquinho, moço fazendo truque de mágica, uma bagunça. Depois de uma semana fazendo o mesmo todos os dias, não tem muita graça ir sempre.

Teve também o incidente do meu tornozelo, fiquei sem andar por uns dias, mas agora já sarei, nenhum sinal da torção, estou caminhando normalmente.

E outra razão que me faz sentir perdida da silva xavier é atravessar a rua. A mão aqui é a mesma da Inglaterra (como diria o Martin, o lado “certo”: left is right). Mas nos faróis não têm aquele homenzinho verde para atravessar e os carros vêm de todos os lados. Agora tô mais esperta, assim que o farol fecha de um lado eu atravesso antes que os carros que vão virar acelerem. Mas já fiquei um bom tempo parada no farol e olhando, olhando, olhando, num entendendo nada.


02/06/2004
Uma esmola pra a desplugada

Os moços dos cybercafé já estão mais acostumados comigo. Nos primeiros dias eles achavam que eu era um tipo de ET, mas agora estamos nos dando bem. Nos últimos dois dias eles me deixaram usar o computador deles (que não é o mesmo dos clientes), mais rápido e com mais memória. Mesmo assim é caro passar meia hora conectada.

Delia ofereceu a linha telefônica dela, disse que a gente pode usar quando quiser. Fizemos o acordo de que usaremos pelo menos uma vez por semana a noite e pagaremos pelo uso. No laptop do Martin existe a conexão global da AT&T, basta plugar a linha. E como a conexão é em Johannesburg, fica mais fácil para a Delia encontrar na conta telefônica quanto gastamos. A gente precisa apenas anotar os horários em que usamos. De qualquer forma, não vamos abusar também e deixar a única linha dela ocupada por muito tempo. Pequenas barganhas que a gente precisa fazer para ter Internet nesta terra esquecida pela chuva.

Mas a gente não pode ter tudo, não é mesmo? Ou eu ficava na Inglaterra com conexão de banda larga, ou vinha prá cá com conexão via sinal de fumaça. E estou certa que fizemos a melhor escolha.


02/06/2004

A Luciana havia me perguntado qual é o prato típico daqui, mas ainda não sei responder. Na verdade eu perguntei pra Delia uma vez e ela falou os nomes de dois pratos típicos em Afrikaans e eu não entendi. Mas lembro que na descrição dela tudo inclui carne vermelha. E molho, como já disse antes. Assim que eu souber com mais certeza, eu conto aqui.

Ah sim, e o Biltong não é usado para fazer feijoada, como eu havia pensado antes (o que pode provar que a origem da feijoada veio mesmo dos europeus – portugueses e espanhóis – que faziam o pork stew e levaram a receita para o Brasil, ao contrário da lenda que diz que a feijoada era um prato feito pelos escravos).

Mas voltando ao Biltong. Eles comem aquela carne seca em pedaços com – advinhem – molho por cima. E os molhos daqui não são brincadeira, bem pesados, bem ricos. Tem molho branco (muito queijo), molho de queijo (bastante queijo), molho de cogumelos (só um pouco de queijo), molho de frango (que é molho branco com frango – notem que isso vai por cima de uma carne!), molho peri-peri (de pimenta dedo-de-moça) e por aí afora.

Nos restaurantes de Middelburg os pratos principais são sempre os steaks. Bifões. São o centro do menu. Para quem não come carne vermelha, há a opção do peixe: Kingklip ou Sole. É impressionante como todos os restaurantes servem a mesma coisa aqui. Só muda o restaurante, mas sempre carne (rump ou fillet) ou peixe (kingklip ou sole), os mesmos em todos os lugares. Para quem gosta de frango há somente os fast-foods Nando’s e o KFC. Para quem gosta de pizza, tem várias opções, todas com uma generosa camada de queijo por cima, capaz de fornecer toda quantidade de cálcio que você precisa pro resto de sua vida. E finalmente, para quem gosta de linguine ao pesto, fica chupando o dedo, imaginando que vai ser o primeiro prato a cozinhar assim que colocar os pés de volta à Inglaterra. Talvez em Johannesburg e em Pretoria, respectivamente a maior cidade e a capital da África do Sul, os restaurantes sejam diferentes e mais variados. Mas por aqui é assim.

Ah! Falando em restaurantes, o costume das garçonetes daqui da África do Sul é de escrever uma pequena mensagenzinha na sua conta. Geralmente agradecendo e desejando um ótimo fim de noite ou coisa assim. Daí você dá a gorjeta, que é de 10%. E mais 2 Rands pro moço que “olha” seu carro no estacionamento.

Agora lembrei! Existe uma sobremesa típica da África do Sul. Chama-se Dom Pedro, deve ter vindo de Portugal, ora pois. Vem numa taça de vinho. As bordas e o fundo da taça são regadas de licor da sua escolha (Amarula, Tia Maria, Fragelico, Cointreau etc) e depois é cheia de um milkshake de sorvete de baunilha. Um pouquinho de chantili por cima e polvilhado de chocolate em pó. Você toma de canudinho. Supersimples, dá pra fazer em casa. Mas é igual caipirinha na beira da praia, só tem graça tomando aqui. Hehe.

:o)

02/06/2004
Primeiras palavras

Aprendi minha primeira palavra em Afrikaans.

Dankie.

Que quer dizer Obrigado.

(deve ter 465 leitores pensando agora: “aaah, eu já sabia disso”, nem ligo ó)

E como a Marcia-SP me explicou que o Afrikaans é na verdade o holandês arcaico (porque ela sim é globalizada e morou no UK, na França, na Holanda, e tudo mais), então por tabela já sei falar obrigado em holandês também. Maravilha. Me sinto poliglota.

Dankie. Obrigada. Thank you. Ou como diz Mr.M, “obrigado você”.

Hoho.


02/06/2004
O Caminho de Volta

Ontem a noite ficamos batendo papo com a Delia e ela nos contou coisas bastante interessantes. Ela é branca, mas nunca concordou com o Apartheid, assim como muitos outros sul-africanos. A gente tem o costume de generalizar tudo e achar que todos os brancos ou negros aqui pensam da mesma forma. Não é verdade. Há excessões, sempre há.

Estávamos falando sobre as diversas línguas que são faladas aqui, como é difícil para nós ouvir várias pessoas falando várias línguas diferentes num mesmo lugar. E a Delia nos contou que com o fim do Apartheid a grande dificuldade do país foi adaptar uma linguagem única. No início, os brancos queriam que o Afrikaans fosse a lingua oficial e queriam passar longe do Zulu. Os negros se negaram a deixar de falar o Zulu e se negavam a aprender o Afrikaans. O inglês é o meio termo, mas nem todos falam inglês. Mais ou menos como no Brasil, o inglês aprendido nas escolas não é suficiente para se comunicar bem. Então por um tempo ficou esse samba do crioulo doido.

Mas de ambos os lados, foi preciso abrir mão e aprender uma outra língua. Brancos aprenderam o Zulu para poder trabalhar com os negros. Negros aprenderam Afrikaans para conseguir melhores empregos. Não há uma única língua oficial, mas atualmente brancos e negros se comunicam melhores que nunca.

E dessa conversa sobre a linguagem, a Delia acabou falando do problema racial. Ela nos contou que Middelburg é uma das cidades mais atrasadas da África do Sul quanto ao fim da segregação. Ela diz que aqui a maioria dos brancos tem mesmo essa repulsa de negros, não podem sequer imaginar negros de outra forma senão uma sociedade de segunda classe usada para mão de obra. E, de uma certa forma, os negros desta pequena cidade têm essa baixa auto-estima também, acreditando que são melhores mesmo servindo aos brancos, sem ambição, sem vontade de mudar.

Ela nos disse também que no começo toda a África do Sul era assim. Mas aos poucos os negros passaram a ir às aulas, passaram a ser letrados, informados e graduados. Hoje muitos têm cargos de responsabilidade que antes eram exclusivos dos brancos. Por sua vez, os brancos também aprenderam muito, absorveram novas idéias, se envolveram mais com essa parte da sociedade que antes era tão discriminada. Novos vínculos foram criados, velhos preconceitos foram quebrados.

Porém, é impossível exigir que uma inteira sociedade mude da noite pro dia. Vão ser gerações e gerações para que isso aconteça. E infelizmente, esse novo horizonte tão promissor, essa convivência enriquecedora entre brancos e negros até agora foi mínima, escassa e pulverizada. A grande verdade é que boa parte dos brancos odiaram com todas as suas forças o fim do Apartheid. E quando viram que a nova lei era inevitável, quando viram que a democracia seria a regra, muitos, mas muitos mesmo, um grande número, fizeram suas malas e partiram para a Holanda, Austrália, Alemanha e Reino Unido. Tristemente a maioria dos brancos se recusaram a viver entre negros, trabalhar entre negros, ver seus filhos entre negros, correndo o risco de -- god forbid -- ter um membro da família negro. E partiram.

E continuam partindo. Em massa. Segundo a Delia, os novos censos já indicaram uma queda acentuada de brancos na Áfica do Sul, que antes eram a maioria. Curiosamente, assim que os colonizados ganharam direitos, os colonizadores içaram âncora e aos poucos estão voltando para seus continentes de origem. E aos poucos, a África do Sul está voltando a ser um país de negros como na época da sua descoberta.

Há razões e razões para se deixar um país, muitas delas são louváveis e outras nem tanto. Cada um sabe o que é melhor para si e sua família. Não cabe a nós que nunca vivemos na situação deles julgar. Mas eu admiro aqueles que ficam aqui. A família da Delia são um deles. Aqueles que ficam e lutam por uma África do Sul de dias melhores. Não por falta de opção, mas ficam porque acreditam no país e nesta nova sociedade que está se formando.


Escrito a mão pela Marcia às 6:17 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (32)

maio 31, 2004

Hakuna Matata (o maior post de todos os tempos)

31/05/2004
Tentando publicar

Vamos tentar novamente. Gravei os post que havia escrito off line num CD-Rewritable. Agora vou tentar ir no cybercafé para copiar, colar e publicar. Se você estiver lendo este post é sinal de que deu certo.

Para qum gosta de ler na seqüência cronológica, o começo, desde a nossa chegada, está lá embaixo, começa no dia 23 de Maio.


31/05/2004
Loskop

Visitamos um parque natural chamado Loskop. A grande atração do parque são os rinocerontes, mas não conseguimos avistá-los. A vegetação estava alta, ultrapassando a altura do nosso carro e foi difícil encontrá-los. Seguimos todos os cocôs deles, mas mesmo assim isso foi o mais perto que chegamos deles.

Vimos dois macacos babuínos, duas famílias de javalis iguais ao que Asterix e Obeliz costumavam caçar, vários impalas e antílopes. No meio do parque existe um lago imenso, de azul intenso, contrastando com as montanhas vermelhas que o cerca e combinando com o azul do céu. Lá encontramos um grupo enorme de cervos bebendo água, uma vista fantástica!

Foi uma pena não ter visto nenhum rinoceronte. Nem leão.


31/05/2004
Tecnologia no deserto

Eu bem que tento usar o cybercafé (se é que se pode chamar aquele lugar de tirar fotocópias de tal). A conexão é discada e cobrada por minuto. Daí tem um reloginho digital do lado do monitor, contando quanto você precisa pagar.

Mas a conexão é tão lenta que desanima até a nerd aqui. Para carregar a página do Yahoo!, o browser fica pensando, pensando, pensando e o reloginho vai marcando mais e mais Rands (a moeda sul-africana) para pagar, por minutos a fio, te juro. Então eu fico ali sentada na frente de uma tela em branco que não carrega nunca e vendo o reloginho aumentando o valor cada vez mais rápido.

Pra dizer a verdade, achei um roubo. Mas não temos muita escolha. Na pousada só tem uma linha telefônica e eles usam para fax e e-mails também e eu não quero ficar ocupando a linha deles quando eles precisam cuidar dos negócios.

Então por enquanto uso a Internet só uma vez por semana. *sigh*

No sábado, Mr.M voltou do trabalho e disse que tinha um presente pra mim. Ele tirou do bolso uma folha de papel dobrada e me entregou. Ele havia imprimido os comentários do meu blog no escritório para eu ler! Não podia existir presente melhor!

:o)


30/05/2004
Cadê o Penalti?

Lembra quando eu comentei sobre a diferença de tratamento entre as raças? Pois é, acontece dos dois lados, dependendo em que grupo você se encontra. Eu trato todo mundo igual, não sou branca nem negra, nem azul, nem cor de rosa. No entanto, aos olhos de todos aqui, sou branca. Mais uma vez quero tomar o cuidado de dizer que não tomo partido de nenhum dos lados aqui ou em qualquer outro lugar, nem dos brancos, nem dos negros. Sou a favor da educação dos filhos para a consciência de que ninguém deve ser julgado pela cor da pele.

Mas como disse antes, a sociedade aqui – principalmente nesta pequena cidade de Middleburgh – viveu por anos e anos, senão centenas de anos, num regime de segregação. Hoje alguns discriminados de ontem querem de certa forma dar um troco, numa guerra entre raças sem fim.

E pela primeira vez senti essa diferença de tratamento, mas de forma sutil, que dava até para se confundir com um engano. Estava eu no KFC para fazer meu almoço e fiquei no fim da fila para fazer meu pedido. Além de mim, havia apenas mais umas três pessoas branquelas no lugar, na hora do almoço. A grande maioria era de negros. Quase chegando na minha vez, percebi que um moço negro olhou pra mim e entrou na minha frente na fila. O atendente, que também era negro, viu e atendeu ao moço primeiro. Eu não me importei muito. Mas daí veio uma mulher e fez o mesmo. E o atendente serviu a ela antes de mim. Daí pela terceira vez, um outro moço negro saiu da fila que estava e entrou na minha frente para ser servido primeiro.

E então eu entendi. Negros ali têm preferência. Porque quem atende lá são todos negros e se alguém tem que esperar para ser servido, que sejam os brancos. Mudei de fila, consegui fazer meu pedido, comi e saí. Eu não me atrevo em fazer barraco nenhum. Mais ou menos como ser a única torcedora vestindo a camisa do time de futebol no meio da torcida do time rival. Ali, eu fazia parte do outro time e eu não iria gritar pênalti.

É claro que este é um caso banal, entre muitos outros casos verdadeiramente sérios que ocorrem aqui. E é claro que foi apenas uma bobagezinha, frente às atrocidades que muitos negros sofreram na história deste país. Mas foi algo realmente interessante de ver e viver, apesar de não ser agradável, obviamente. Eu nem achei ruim, nem nada. Apenas percebi, quase na verdade não acreditei. Enquanto comia meu pedaço de frango com suco de maçã, fiquei pensando e me perguntando: “isso aconteceu mesmo?” e fiquei imaginando a que ponto esse problema cultural deve chegar, em outros aspectos da vida.


30/05/2004
Uma semana

Nossa primeira semana na África do Sul passou voando.

Estou com a vida feita mansa na pousada. Delia, a dona da pousada, tem feito de tudo para que eu me sinta bem aqui, já me levou para fazer compras com ela e também passamos uma manhã num café bem bonitinho (para os padrões de Middleburg) tomando cappuccino e lendo revistas. Ela é sul-africana, descendentes de holandeses e a primeira língua dela é Afrikaans, a segunda é inglês. Com a Delia aprendi onde encontrar bons produtos, onde ficam os lugares mais bacanas, onde é melhor evitar andar sozinha a qualquer custo.

A pousada tem cerca de cinco empregadas para dar conta de toda limpeza. Então temos quarto limpo e cama feita por elas todos os dias e também o pivilégio de ter nossas roupas lavadas e secas ao solão forte do meio-dia e passadas com o maior capricho por uma senhora muito eficiente. Até o cordãozinho da minha calça foi passado! Mr.M e eu temos até underwears passadas a ferro! Um luxo.

Eu também não cozinho aqui, mesmo que quisesse não dá. A pousada serve refeições, todas preparadas pela Delia. Estamos sobrevivendo apenas com as comidas de restaurante. Ontem encontramos um restaurante italiano bem bacana, com lareira, vinhos excelentes e comida um pouco mais européia.

A comida africana não é má, mas a base é sempre carne vermelha e tudo servido com muito molho. Molho pra tudo, molho demais, mesmo quando não indica no menu.

Vi lá no centro uns tipos de açougues só para carne seca e defumada, chamados de Biltong. Tenho uma leve impressão que eles fazem feijoada aqui, mas ainda não vi nenhum sinal dela. Outro dia também dei uma volta sem pressa nenhuma pelo supermercado daqui só pra ver o que eles têm. Fiquei surpresa ao encontrar os mesmos bons produtos e marcas do que temos no Brasil: sabão Omo, produtos Parmalat, absorventes Sempre Livre e Intimus Gel (hoooray!!), biscoito Oreo (que eu adoro comer com leite, bem no estilo americano), feijão carioquinha, além de muita goiaba, manga, mamão. Tudo o que não encontro no Velho Mundo.

Bruno aprendeu a subir as escadas que vai pro nosso quarto, mas precisa de carona para descer, o coitadinho morre de medo de descer aquelas escadas. Agora temos dois cães e um gato hospedados com a gente aqui neste quarto superpopuloso.

Ah sim, e ontem também dei meu espetáculo na rua, com o Martin. Num desnível do asfalto onde o nosso carro estava estacionado, meu pé esquerdo virou e se arrastou pela valeta e a canela bateu na guia, torcendo ainda mais meu pé. Caí na calçada jogando a sacola que carregava pro alto, tudo espalhado, aterrissei de bunda e de mãos, um horror. A dor foi tanta que por uns segundos meu pé ficou completamente insensível. Chorei na calçada enquanto o Martin tentava ver se tinha quebrado algo. Mas foi só uma torção mesmo. Estou mancando, mas logo melhoro. Ui.


27/05/2004
Internet à Vista

A pousada em que estamos é ótima, bem simples e aconchegante. Porém o único defeito é que não há telefone em nenhum dos quartos. E com isso nossos planos de conectar à Internet com o laptop foi por água abaixo.

Numa das minhas andanças pela cidade, encontrei um cybercafé. Entrei cheia de entusiasmo, mas o servidor não estava funcionando. Damn. Vou tentar novamente hoje a tarde.


27/05/2004
Confraternizando

Dois dos chefes do Martin, Chris e Tony, chegaram da Inglaterra ontem, aqui em Middleburg. E todo o grupo foi convidado para um jantar especial de confraternização. Martin ainda recebeu a gentil recomendacão de me avisar que eu seria muito bem-vinda para participar do jantar também.

Eu estava meio ansiosa porque eu seria a única mulher no meio de um monte de blokes engenheiros. Mas fui. Principalmente porque eu deveria beijar o chão de Chris, que fez de tudo, tudo, tudo para que hoje eu estivesse aqui na África do Sul com o Martin. Essa viagem para cá já estava programada bem antes de eu ficar grávida, mas só o Martin viria, eu não. Eu sabia que não viria mesmo depois de saber da gravidez e estava me preparando para ficar longe do Martin por um bom tempo.

Quando perdemos o bebê, Martin se ausentou no trabalho por vários dias enquanto eu estava no hospital e teve que contar a Chris sobre a nossa situação. Chris tem dois filhos pequenos e foi bastante solidário com o Martin. E então ele fez a proposta, se o Martin não desistisse de vir para a Àfrica do Sul, mesmo nessas circunstâncias, então ele cuidaria de tudo para que eu pudesse vir junto. Nas palavras de Chris, quem estava fazendo o favor era o Martin e isso era o mínimo que ele poderia fazer para ajudar.

Então ontem foi com muita satisfação que conheci e apertei a mão de Chris. E de todos os outros colegas do Martin também. Estávamos em dez pessoas, sendo eu a única do sexo feminino.

No fim, adorei conversar com todo mundo. A grande maioria dos engenheiros já trabalharam por dois, três anos no Brasil (em Espírito Santo e em Minas Gerais) e todo mundo queria contar as experiências, as coisas engraçadas que aconteceram no Brasil. Acabei me divertindo bastante.

Tony é o big boss todo poderoso desse projeto em que eles todos estão trabalhando. Mas é o típico chefe que gosta de discursos aprendidos nos cursos de gerenciamento e qualidade total. Pelo que parece, ninguém tava muito feliz com a presença dele por aqui, poor soul. E enquanto ele estava fazendo o discurso agradecendo a todos pelo envolvimento, esforço, blablabla, ele olhava para todos, inclusive para mim, hahahahaha. E eu, tontona, ficava balançando a cabeça afirmativamente, concordando com tudo, hohohoho. E claro, brindei com toda a equipe também. Martin disse que daqui a pouco vou estar assinando os projetos e dando ordem aos peões. Me aguardem.

Depois Tony conversou um pouco comigo, foi bastante simpático, perguntou sobre a minha adaptação no Reino Unido. Ele é grego, morou 16 anos aqui em Middleburg e está morando há 6 anos na Inglaterra. Temos as mesmas dificuldades, os mesmos estranhamentos de viver entre ingleses, foi interessante bater papo sobre isso. Mas Martin não queria ficar muito de papo com o big boss e logo me puxou pra perto de Dave e Mike e demos bastante risadas com eles. Mike me ensinou a nunca mais pedir rump steak em restaurantes porque é diferente da Inglaterra, muito dura e cheia de nervos. É melhor pedir sempre fillet, nunca rump. Obviamente ele só me disse isso depois que meu prato já havia chegado, com o rump steak.

Mas enfim, a noite foi bem gostosa, adorei conhecer melhor alguns colegas do Martin, coisa que não acontece quando estamos na Inglaterra. Me senti bem confraternizada!


26/05/2004
Botshabelo

Ontem os donos da pousada nos convidaram para um passeio noturno delicioso, numa reserva natural perto da cidade, chamada Botshabelo. Fomos eu, Martin e Dave, que é inglês e colega de trabalho de Mr.M, além do casal donos da pousada, que empacotaram, entre outras coisas, duas garrafas de bom vinho tinto sul-africano.

Não tiramos nenhuma foto porque era praticamente impossível com a falta de luminosidade suficiente para fotografar animais em movimento. Mas registramos tudo na memória e foi um passeio maravilhoso.

Usamos uma pick-up 4x4, com refletores e lanternas especiais e adentramos uma área de vegetação bem seca e cheia de pedras vermelhas. Lá avistamos bem de perto grupos de zebras, impalas, veados, antílopes, entre muitos outros animais chifrudos que eu não sei o nome.

Fizemos duas paradas no alto da reserva para apreciar a imensidão do céu exageradamente estrelado e também a vista noturna da região de Middleburg, brindando com o bom vinho.

De volta ao carro, continuamos nosso passeio e vimos também uns pássaros bem engraçados, que parecem uma miniatura de avestruz, vimos uma lebre e um “ant-eater”, comedor de formigas, mas bem diferente do nosso tamanduá. Este parecia um tatu, mas sem pêlo, sem casco, peladinho feito porco e com narigão. Dizem que é extremamente raro ver um anteater, então acho que tivemos muita sorte!

Leões porém, nenhum. Ainda.

25/05/2004
Novas Companhias

Os cães se chamam Bruno e Phoebe. O gato se chama Silvester.

Bruno é o típico cão que adora uma festa, abana o rabo pra tudo, pula animado, morde minha mão pra brincar. Vem correndo ao meu encontro todo vez que me vê, deita no meu colo para dormir e esconde o focinho entre meu braço e minhas costelas, do mesmo jeitinho que a Bianca costumava fazer quando era filhote.

Phoebe é mais recatada, não faz festa nenhuma, mas gosta de um carinho também e é a única dos dois cães que é valente para subir todas as escadas que dá para o nosso quarto. Silenciosa, ela vem me visitar, ou visitar Silvester, quando estamos na varanda. Aliás, a única coisa que faz Phoebe abanar o rabo enlouquecidamente é o gato Silvester. Ela ama o gato, lambe seu pêlo e brinca com ele, dá mil cheirinhos na orelha dele.

E finalmente, Silvester é o ancião da casa. Martin diz que ele parece o Old Deteuronomy. Só dá as caras de manhã depois que o sol esquenta, mais ou menos como eu. E vem sempre na varanda do nosso quarto tomar sol e por aqui fica, apenas mudando de posição quando o darn sol insiste em se mover. Pelo o que entendi com o seu olhar, este quarto é na verdade dele. Silvester está apenas gentilmente nos cedendo o lugar por uma temporada de longo prazo.

Eu sei que eu não deveria, mas já criamos laços, eu, Bruno, Phoebe e Sil. Sei que vou morrer de saudades quando chegar a hora de partir, mas é simplesmente impossível não amar a presença deles nos meus dias por aqui.


25/04/2004
Há bem pouco tempo atrás

Hoje também faz um mês que perdemos nosso bebê. Um mês. Os dias passaram rápido, é quase difícil de acreditar que há um pouco mais de um mês eu estava grávida. Foi a maior e a mais rápida felicidade que tive.

Antes eu sempre dizia ao Martin que preferia não engravidar do que engravidar e perder. Mas agora que tudo isso aconteceu, eu mudei completamente de idéia. Eu amei estar grávida, mesmo que por um curto espaço de tempo. Amei sentir um serzinho crescendo dentro de mim, com seu coraçãzinho tão minúsculo batendo apressado. Amei conversar com a minha barriga, amei as mudanças que via no meu corpo, amei tudo intensamente, verdadeiramente.

Mesmo sofrendo tanto com a nossa perda, sinto que aquela gravidez foi muito valiosa e amada. E valeu a pena sim estar grávida, mesmo com a perda, mesmo com a dor, mesmo com o vazio que agora toma conta.


25/04/2004
Primeiras Impressões

Terceiro dia na África do Sul. Ainda não vi nenhum leão.

Estamos no outono, mas o clima é de um deserto: sol e calor de dia e noites frias e com geada. Estou simplesmente amando todo esse solão que há anos não via. Usando protetor solar 30, posso aproveitar para deixar meu branco-fantasma um pouco mais corado, vestindo camiseta regata e shorts. Quando o sol se põe preciso colocar blusas de fleece e casaco.

Já dei umas voltas pela cidade, não ha muito o que ver por aqui, mas dá para reparar em muita coisa interessante. A grande maioria da população aqui é de negros, cerca de uns 90% pelo menos. Brancos em sua maioria são descendentes de holandeses. As línguas faladas aqui são: inglês (a mais comum, falada por todos), afrikaans (a língua usada pelos holandeses), swahili (a língua sul-africana) e zulu (usada pelos negros).

O inglês usado aqui porém é extremamente complicado para mim (e até para o Martin também). A pronúncia é completamente diferente, o “a” vira “o” e eu preciso pedir para as pessoas repetirem 435 vezes até eu entender. Sem contar com as palavras que a gente não usa na Inglaterra, mais ou menos como a diferença entre o inglês americano e britânico. Tem sido como aprender inglês tudo de novo.

Mas mais do que a língua, claro, há outro aspecto da África do Sul que não dá para deixar de reparar: a segregação. Hoje a África do Sul vive com os frutos do fim do Apartheid, com Nelson Mandela governando, com a democracia instituída. Há 20 anos eu jamais poderia ter visto as imagens que vejo hoje quando vou ao restaurante, com negros e brancos almoçando lado a lado, pacificamente.

O fim do Apartheid trouxe sem dúvida um certo nível de igualdade das raças, acabou com a injustiça absurda daquela sociedade repartida entre brancos-reis-da-cocada e negros-sem-direito-a-nada.

Porém, bastam poucos segundos observando ao seu redor para entender que o fim do Apartheid não significa o fim da segregação racial. Claramente, a maioria dos brancos não se misturam com negros e muito menos se acham iguais a eles. E de uma certa forma, o fim do Apatheid trouxe sérias complicações sociais, intensificando a discórdia. Por lei, hoje todas as empresas precisam ter um número mínimo de funcionários negros. Isso significa que boa parte dos brancos foram demitidos de seus empregos para dar lugar aos negros. E nas escolas, o ensino que antes era um direito exclusivo dos brancos, hoje atende a todos. No entanto, para que os alunos negros acompanhem às aulas o ensino passou a ser mais lento e menos exigente.

Para os negros, o fim do Apartheid trouxe a esperança de avanço, de evolução, de igualdade, de justiça. Para os brancos, trouxe desemprego e qualidade de ensino inferior, divisão do que antes era exclusivo. E não é preciso ser Einstein para entender o tipo de problema que essas mudanças andam causando numa sociedade que viveu por anos e anos num sistema de racismo extremo.

E que fique bem claro aqui que não há algo que eu mais abomine do que discriminação e racismo. As minhas impressões que escrevo aqui são baseadas no que vejo e percebo, sem querer fazer apologias de certo e errado, vítimas e mal-feitores, nem nada. Estou apenas escrevendo aqui o que têm me chamado a atenção ao viver na realidade deles ao invés de apenas imaginar, como fazia antes.

O Apartheid era uma vergonha, mas seu fim não trouxe todas mudanças esperadas. Porque simplesmente não se pode mudar um ser humano culturalmente marinado de pre-conceitos com uma simples nova lei no papel. E o que se percebe aqui é que, apesar dos novos direitos e deveres, a sociedade continua dividida, ressentida e desigual.

Por mais que a gente esteja acostumado com os problemas de racismo no Brasil, na Europa ou onde for, é impressionante perceber aqui na África como é intenso o sentimento de desigualdade que ambos os lados, brancos e negros, têm por aquele cuja diferença está apenas na cor da pele. Tão real, tão explícito e tão triste.


23/05/2004
Hakuna Matata!

Com os pés em solo africano!

Depois de um longo e cansativo vôo, de muitas turbulências, comida horrével e assentos que não reclinavam porque eram encostadas com a parede do banheiro, chegamos na África do Sul na manhã do domingo. É engraçado perceber que na verdade a Inglaterra é muito próxima da África, porém alcançar a África do Sul são outros quinhentos. Ou melhor, outras 10.000 milhas. O tempo de vôo partindo de Londres é o mesmo que ir para o Brasil, cerca de 11 horas.

No momento em que o avião pousou, pouco antes das seis da manhã, o horizonte estava azul com uma faixa avermelhada em toda sua extensão. Assim que o avião estacionou para o desembarque, o sol grande e vermelho surgiu, dando as melhores boas-vindas que podíamos esperar.

Pegamos o carro alugado e partimos para Middleburg. Minha primeira impressão, observando a região próxima ao aeroporto de Johannesburg e também durante todo o percurso até Middleburg, é uma só: como este país lembra o Brasil! O clima, os meninos limpando pára-brisas nos faróis, flanelinhas nos estacionamentos, vendedores de laranja pela estrada.

Chegamos na pousada onde estamos hospedados completamente exaustos, desgastados ao extremo porque nenhum dos dois conseguiu dormir uma hora sequer durante o vôo.

A pousada é lindinha, os donos são uns amorecos supersimpáticos. E atenção. Prestenção aqui: a pousada tem dois cachorros e um gato!! Dois daqueles salcichas pretinhos. E um gato que parece mais maduro, tem a boca meio deformada, mas é bem amistoso e bonzinho.

Tomamos um banho e dormimos por mais ou menos duas horas. Acordamos com fome e fomos fazer um tour pela cidade. Eu já contei aqui que o Martin morou aqui por quase um ano? Pois. Ele conhece bem a cidade, apesar de não vir aqui desde 1996. Mas também não é preciso muito esforço para conhecer bem a cidade. É minúscula. Eu nem sei direito por quê existem pousadas aqui. Parece que é por causa dos parques nacionais da região e das indústrias que recebem business people.

Middleburg é bem pequena. Tem uma rua principal de comércio básico e muitos, muitos fast-foods: McDonalds, KFC, Nando’s, pizzarias, burgers, burgers e mais burgers. Ontem almoçamos no Nando’s, que é um fast-food português de frango grelhado e molho peri-peri. Uma delícia, mas como todo fast-food, muita gordura e calorias pro meu gosto. Martin já havia me alertado que alimentação saudável e low-fat aqui é um conceito que ainda não foi assimilado.

Demos uma volta pela cidade, assistimos à Formula 1 na TV de um pub, Martin me mostrou onde ele vai trabalhar e também me levou para ver onde ele morou da outra vez.

À noite fomos jantar com dois colegas dele, Ray e Dave, num restaurante afro-mexicano, especializado em steaks, bifão. Tava bom, pedi um “slimmer’s steak”, que nada mais é que um pedaço de alcatra marinado e grelhado, mas sem batata frita, nem anéis de cebola fritos. Extremamente slimmer. E eu podia me servir no buffet de saladas. A maioria das saladas, para o meu desespero, estava temperada com maionese. Mas lá num canto havia também alface, pepino e tomates sem tempero nenhum. Ufa. E havia azeite, vinagre e sal a disposição. E, claro, toda a seleção de molhos para a salada cujo ingrediente pricipal é a maionese. Acho que estou perdida. Vou voltar para a Inglaterra cantando “Umpa Lumpa, Umpa dee doo...

Voltamos para a pousada e nos arrumamos para dormir, éram nove da noite. Dormimos bem, a cama é muito parecida com a nossa e tivemos um sono pesado e merecidamente relaxante.

Este foi nosso primeiro dia na África do Sul. Não avistei nenhum leão ainda, no such luck. Mas sinto que bons momentos nos aguardam aqui.

Escrito a mão pela Marcia às 11:35 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (35)

maio 28, 2004

Pe na Africa

Hello! Estamos com todos os pes na Africa do Sul.
Chegamos bem, esta tudo bem, a nao ser pelo fato de nao ter Internet para nos ainda! Um horror. Estou num cybercafe, depois conto detalhes.

Estou escrevendo online, queria trazer tudo pra ca, mas nao deu, a conexao eh pessima, to pagando horrores soh para esperar a conexao discada carregar uma pagina.

Mas enfim, estamos bem!
Um beijo para todos voces.


Escrito a mão pela Marcia às 1:45 PM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (16)

maio 22, 2004

Próxima Parada


O próximo post vai ser escrito daqui:

South Africa.jpg

Estamos partindo. Bye for now, England!
Até lá!

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 9:59 AM | mais em M&M in South Africa | Comente este capítulo (19)