agosto 24, 2007

Fallen Rocks

*blows the dust*

Então, alguns meses se passaram.
O caminho que tomamos muitas eras atrás deu mesmo num precipício. E caímos. Duas vezes. Mas não é sobre isso que quero escrever. O que quero anotar aqui é que em poucas horas deixaremos esta pequena ilha chamada Taiwan pra sempre, depois de dezessete meses vivendo aqui.

Há algumas semanas estamos morando de volta ao hotel Hi-Lai. E quando olho pela janela lembro que, um ano e cinco meses atrás, admirava a mesma vista, sem saber o que esperar deste lugar, sem saber quanto tempo ficaríamos aqui. Hoje olho para as ruas, os prédios, o rio, o mar, o cais, as montanhas que agora me são tão familiares e é estranho saber que em breve tudo isso vai ficar para trás e talvez eu nunca volte a vê-los novamente.

Viver na Ásia foi uma experiência magnífica por tudo o que aprendemos, pelas pessoas que conhecemos, pela barreira de linguagem que ultrapassamos, pelos recursos limitados, pela natureza inédita, pela arte, cultura, culinária e diferentes formas de entretenimento que absorvermos tão rapidamente. Houve dias difíceis, houve momentos de dor, houve vontade de ir pra casa, mas suportamos a tudo até o final, até concluirmos o que precisava ser feito, muito bem feito.

Agora vamos pra casa com a sensação de dever cumprido. E, dear lord, tantas mudanças já nos aguardam na Inglaterra, tantos planejamentos, tantas organizações, tantas caixas de papelão. Assim que desembarcarmos já vamos começar a pular de cidade em cidade, casa em casa, hotel em hotel. Na verdade não vejo a hora. Enquanto tenho minha mala colorida numa mão, a mão de Mr.M na outra, i'm ready to rock.


"Where taxi drivers never stop talking
Under slate gray Victorian sky
Here you'll find, my heart and I
And still we say come back
Come back to Camden"

Escrito a mão pela Marcia às 2:55 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (45)

abril 4, 2007

The RoadRunner

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Eu sei, eu sei. O blog está abandonado, cheio de tumbleweeds voando de um lado pro outro e só o vento quebrando o silêncio. Temo, porém, que essa situação vai persistir. Martin e eu estamos com os quatro pés numa estrada longa, desconhecida, literalmente esburacada e não sabemos ainda aonde este caminho vai dar. Talvez dê num precipício tão imenso que vamos demorar para cair e bater no fundo, levantando um círculo de poeira feito Wile E. Coyote nos desenhos do Papaléguas. Ou talvez não.

Talvez um dia eu volte aqui para contar aonde chegamos, talvez eu fique lá no precipício mesmo, tentando entrar em contato com a Acme.

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Bye for now.

Escrito a mão pela Marcia às 5:28 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (16)

março 29, 2007

Only You

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You
...are my partner in all the silliest, funniest and most absurd moments
...are my rock upon which I stand
...are this clever, witty and cheerful friend of mine
...are this incredible caring, thoughtful and beautiful human being.

You, Martin, are just wonderful.
Happy Birthday, my beloved.

Escrito a mão pela Marcia às 1:33 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (2)

março 7, 2007

Back "Home" from Home

Voltamos. Estivemos na velha Inglaterra por alguns dias. Não foram férias propriamente falando, mas algo como uma folga paga pela empresa para a gente checar se ainda temos teto e paredes no país de residência. Ainda temos teto e parede. E o bonus de uma colônia de mofo no canto do teto da suíte. Mas providenciamos a imediata ação de despejos dos invasores. E fizemos uma limpeza geral, trocamos o ar, deixamos a água correr das torneiras. Também tive que jogar algumas plantas fora, inclusive minha querida ficus tree, que morava conosco desde que nos mudamos.

Uma vez instalados de volta ao nosso lar, foi uma delícia redescobrir tudo o que temos lá. Pequenas coisinhas que já havia esquecido completamente que possuía. A todo instante abríamos um armário ou uma gaveta e nos maravilhávamos ao encontrar cada utensílio mais fantástico! Pratos branquíssimos! Talheres! Amassador de batatas! Concha de sorvete! Espátula de silicone! Sem contar os eletrodomésticos. Forno, my god, forno, forno, que saudades, forno, forno!! Lava-louças, kiss, kiss, love, love, kiss, kiss, I heart dishwasher!!

E nesses momentos de reencontro e êxtase percebi como aqui em Taiwan vivemos com rigidamente o mínimo necessário. E como temos sorte de termos tudo o que temos em nosso verdadeiro lar. Não apenas bens materiais, mas também natureza, quietude, ar puro de Dorset, privacidade, acesso.

Demos um rápido passeio pelo centro de Bournemouth, dormimos fantasticamente bem em nossa querida cama e depois de alguns dias seguimos para Leicestershire onde passamos boa parte do tempo na casa dos pais de Mr.M. A empresa havia alugado um carro para usarmos durante nossa estadia: um coupé conversível (??). Lá fora, frio de 8 graus, chuva, vento e um pouco de geada. O teto do carro ficou onde estava.

O tempo continuou fechado e chuvoso, a desculpa perfeita para passarmos os dias comendo tudo o que sentíamos saudades. Foi um deleite ir ao supermercado e às feiras livres e encontrar tanta verdura, tantos legumes orgânicos, ovos free-range, um mundo de sucos frescos (adorei um de romã, blueberries e framboesa do Waitrose). Comprei favo de mel orgânico, queijos brie, port-salute e cheddar maduro inglês, muita rúcula, muita lamb's lettuce (não sei como traduzir essas folhinhas arredondadas e macias, que parecem um buquêzinho na salada), muita aveia para fazer mingau de manhã.

Nos últimos dois dias de nossa folga fomos à beloved Londres para um curto passeio, sem pretensões. Primeiro fomo ao aeroporto, devolvemos o carro alugado, deixamos nossa mala no depósito. Pegamos o trem expresso até Paddington de onde andamos até o Hyde Park, passeamos pelo parque e almoçamos no Wagamama, onde dividimos a mesa comunitária com o apresentador da BBC, Ben Fogle, que sentou ao lado do Martin, enquanto a esposa dele sentou ao meu lado. Te contar, viu? A gente cuidando da nossa própria vida e essas celebridades ficam o tempo todo querendo dividir a mesa conosco... O tal apresentador é bonitão, famoso e tal, mas tinha um papo de fazer boi dormir. Na verdade tivemos a impressão de que ele queria ser reconhecido, queria dar autógrafo ou sei lá, porque só se ouvia "quando eu fiz tal e tal programa/ quando eu apresentei isso e aquilo..." e um blablabla vazio de comprar uma casa maior, de um milhão de libras pra cima (casas na região central de Londres, custam mesmo mais de um milhão). Yaaawn. Mr.M disse que sentiu vontade de falar: "oi, are you the bloke off the telly? I know you from X-Factor" só pra irritar, hehe. ("Oi, cê é o moço da tevê? Te conheço do X-Factor" -- X-Factor é programa popular da ITV e o apresentador também chama-se Ben, mas é Ben Sheppard, hohoho).

De barriga cheia, caminhamos até Knightsbridge, demos uma passada na Harvey Nichols Food Hall, que não nos impressionou em nada. Passamos pela Harrods, onde havia um comitê do PETA pedindo ao público boicotar a loja pela venda de pele de animais. Duvido que quem compre pele tenha ficado um centímetro abalado com o protesto. Caminhamos então até South Kensington, onde ficava nosso hotel. Percebeu que não tomamos o metrô nenhuma vez? Passamos o dia todo usando nossas pernas apenas, foi excelente, não fazíamos isso há muito tempo. Jantamos num restaurante italiano divino, especialisado em pizza em forno de lenha. Massa divina, molho de tomate divino, tudo na divina medida certa, sem exageros.

O dia seguinte amanheceu com chuva, tomamos um maravilhoso café da manhã na patisserie Paul e visitamos mais uma vez a exposição Wildlife Photographer of The Year, que acontece todo ano no belíssimo Natural History Museum. Este ano a exibição está fantástica.

Ainda nesse museu, seguindo a dica da minha amiga Samara, testamos o simulador de terremoto Great Hanshin, de Kobe, no Japão. Queríamos comparar com o terremoto que sentimos no dia 26 de Dezembro, em Kaohsiung. Mas nos decepcionamos. Não é de forma nenhuma uma simulação da potência real de um terremoto de escala 7.3 Richter. No way. O que o simulador faz no museu é apenas balançar de um lado pro outro horizontalmente, fraquinho, talvez pra não causar acidente mesmo. A vibração do chão, o ruído do metal sendo torcido, a força de ser jogado no chão contra sua vontade, não estão presentes. Mas as imagens do vídeo que mostra o real terremoto acontecendo em Kobe, essas sim são de arrepiar e impressionar.

E na saído do museu, passamos pela obrigatória área de dinossauros e dei muitas risadas com os banners da exposição Dino Jaws, que explica os hábitos alimentares das diversas espécies de dinos. Um deles tem um dino herbívoro dizendo: "Meat? It's soooooooo not me..." ("Carne? Não é a minha meeeeesmo..."). Outro tem um T-Rex dizendo: "I've tried leaves once. It gave me wind..." ("Eu provei folhas uma vez. Me deu gases..."). E outro herbívoro: "What? Rotten meat? You mean meat, like, left to rot? Eeeeeewww..." ("O quê? Carne em decomposição? Você quer dizer carne, tipo, apodrecida? Ecaaa").

Deixamos o museu, fomos até a Selfridge para almoçar sanduíche de salt beef no Brass Rail. Atendimento horroroso, preço ridículo de caro, mas o sanduba estava bom. De lá caminhamos mais um pouco, mas com a chuva tudo ficou mais difícil e desconfortável. Logo rumamos pro aeroporto, para recolhemos nossa mala e pegarmos o vôo para Hong Kong. Aliás, Heathrow está insuportável. Na área de embarque agora é necessário:

- ter apenas 01 (um) item como bagagem de mão. Laptop e bolsa? Não. Câmera e maleta? Não. Um item, escolha quem vai, quem fica. Ou coloque um dentro do outro, se couber.
- separar o laptop e colocá-lo em saco plástico fornecido pelo aeroporto
- separar suas toiletries como mini-pasta de dente, mini-shampoo, mini-cremes hidratantes e qualquer outro mini-produto líquido e colocá-lo num saco plástico zip, também fornecido pelo aeroporto. Produtos não-mini? Pro Lixo.
- garrafa de água? Lixo.
- mamadeiras só com leite em pó. Leite materno? Abra e dê um gole na frente dos agentes.
- tirar os sapatos e colocá-los na esteira de raio-X, junto com seu único item de bagagem de mão.

Nossa sorte é que cada vez mais estamos nos esforçando na concepção "travel light". Viajamos com uma única mala, um item de bagagem de mão cada, sendo que a de Mr.M era só a câmera, a minha só uma bolsa. Usamos três diferentes companhias aéreas nessa viagem e, de todas, a British Airways foi a pior. Atendimento pouco prestativo (quando atendem), aeronave desconfortável, refeição meia-boca, lista de filmes velhos (o mais recente era 007 Cassino Royale). A Cathay Pacific (de Hong Kong), porém, tem todos nossos elogios, atendimento fantástico, refeição agradável, filmes ótimos (assistimos a The Queen). E a pequena Dragon Air também, não podemos ser injustos, já que o vôo estava quase vazio e nos colocaram na business class, êba.

Passamos uma noite em Hong Kong, tiramos novos vistos e voltamos ontem a noite a Kaohsiung. Ainda estamos sofrendo bastante com o jet-lag porque é sempre pior voando a leste, mas estamos nos sentindo bem por estarmos de volta. O recepcionista do prédio nos saudou e quis saber como foram nossas férias, perguntou do frio e tudo mais. Dizem que a melhor parte de uma viagem é sempre a volta. Desta vez viajamos de volta ao nosso lar, que foi bom, depois viajamos de volta ao outro lar temporário, que também é bom. Então voltamos e voltamos. E essa deve ser a melhor parte. Ainda temos bons meses pela frente aqui em Taiwan. Bring 'em on.

Escrito a mão pela Marcia às 7:24 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (15)

fevereiro 17, 2007

Xinnián Kuàilè

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Happy Year of the Pig!

Sei que estou adiantada, o ano novo chinês começa no dia 18, mas antecipo a felicitação porque quando o ano mudar de cão para javali, estaremos há algumas milhas do território chinês. Duas semanas de folga e logo estaremos de volta a Taiwan, com baterias alcalinas renovadas. Até a volta.

Escrito a mão pela Marcia às 9:13 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (14)

fevereiro 5, 2007

Let the Memory Live Again

Toda a peregrinação e determinação para encontrar o Kaohsiung Cultural Center duas semanas atrás tinha uma grande razão de ser: comprar os ingressos para a apresentação do musical Cats, de Andrew Lloyd Webber e T.S.Eliot. O grupo está em tour mundial e aqui na Ásia, entre todas as cidades além de Tokyo, Kaohsiung foi escolhida para exclusivas performances, tamanha nossa sorte. Eu mal pude acreditar quando vi um anúncio do espetáculo na rua aqui perto, todo em chinês, anúncio no qual fiquei em frente por muitos minutos, em meu desespero de tentar entender quando e onde. A princípio achei que seria em Taipei e estava pronta para viajar até a capital de Taiwan. Quando consegui traduzir que o teatro era aqui, meu esforço em encontrar o lugar e conseguir comprar os ingressos foi redobrado de empolgação.

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Ontem foi a grande noite. Foi a segunda vez que assistimos a Cats ao vivo. A primeira vez, em Drury Lane (New London Theatre), foi magnífica mas ao mesmo tempo difícil de absorver tudo do muito que acontece no palco (e fora dele). Desta vez, pelo menos para mim, foi uma apresentação mais emotiva e comovente. De uma certa forma nossa atenção conseguiu se fixar mais à atuação e às personalidades de cada personagem.

Assistir a uma performance tão ocidental em Taiwan foi bacana. A platéia começou tímida, sem saber direito se podia aplaudir ou não. Em Londres, onde levas de fãs iam ao espetáculo várias vezes, os aplausos eram mais frequentes e muito mais barulhentos. Mas entendo que aqui não é assim tão fácil porque além do espetáculo acontecer em passo acelerado e cheio de detalhes, muitos precisavam ler as legendas volumosas que traduziam para o chinês tradicional. A timidez porém foi sendo quebrada pouco a pouco, primeiro com a presença dos gatos andando por entre a platéia. Sentamos na ponta de uma das fileiras e para nosso êxtase, um dos gatos, Mungojerrie, parou ao nosso lado e recitou The Name of the Cats olhando fixamente para nós, enquanto outros gatos faziam o mesmo com outros espectadores. Mais tarde, Old Deuteronomy, o ancião e líder dos Jellicle Cats, passeou pela escadria ao nosso lado, sorrindo para uns e outros. Ao passar ao nosso lado, dei uma acenadinha bem discreta e ele acenou de volta, que gentil ele é.

O segundo quebra-gelo veio com a chegada de Rum Tum Tugger, o gato que se acha Don Juan felino do bairro e que rebola e requebra exageradamente, arrancando gargalhadas da platéia. Ele é sempre o personagem mais popular das apresentações. Cheio de carisma, bom humor e ego infladíssimo, está sempre no palco fazendo gracinha pra chamar atenção, com um bando de gatas seguindo os movimentos do quadril em lycra dele.

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Quase no final do primeiro ato, Jemina, que acompanha Grizabella na versão mais curta de Memory, começa a cantar em chinês! My God, a platéia chacoalhou em aplausos e gritos assim que ela iniciou os primeiros versos. Ao final da canção, Jemina recebeu outra ovação.

Antes de começar o segundo ato, os gatos voltaram e andaram por entre a platéia novamente. Outro gato (não sei quem era esse, não é o da foto abaixo, que é o Munkustrap, mas era um parecido) veio se enroscar na nossa fileira e coçou a cabeça no braço do meu assento. Depois ficou olhando fixamente pra mim por segundos que pareciam eternidades ("que maquiagem linda", foi o que fiquei pensando o tempo todo). Em seguida ele olhou pro Martin e fez uma cara de surpresa porque, sem a menor dúvida, ele era o único caucasiano em toda a platéia.

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O gato nos deixou e foi bisbilhotar a próxima fileira. Ele então pegou a bolsa de uma menina e saiu correndo. Outra gata se juntou a ele e os dois sentaram e abriram a bolsa e começaram a tirar tudo pra fora, cheirando e fazendo caretas. A menina dona da bolsa tava desesperada, gritando e rindo, tentando pegar a bolsa de volta. Ela tentava colocar alguma coisa de volta na bolsa e enquanto ela tentava pegar outra, eles tiravam pra fora da bolsa algo que ela tinha acabado de pôr e ficavam olhando pra ela com inocente cara felina. Foi bem engraçado. Em vários lugares da platéia outros gatos estavam fazendo similares estipulias ou acrobacias.

De volta ao palco e com o segundo ato em ação, o grupo já se sentia em casa, com a platéia muito mais relaxada e participando de cada cena. E esse ato é realmente o mais teatral, cheio de coreografias fantásticas, mudanças de cenários, personagens interessantes. É também a parte do drama, do conflito e do desfecho de toda a história. É quando sinto uma pontada de tristeza porque não sei quando ou se um dia vou ver o espetáculo novamente nesta vida. É quando os meus olhos desesperadamente tentam memorizar cada instante, passo, nota, gesto de cada um do grupo, porque sei que logo vai terminar.

E foi pensando em tudo isso que assisti à Grizabella, a gata velha, mal-tratada, rejeitada por todos os outros gatos, cantar a versão original de Memory, sozinha, sob uma única luz da lua. Mancando e sem forças, ela relembra dos bons tempos, quando ela sabia o que era felicidade. Hoje, maltrapilha e esquecida, ela sonha com um recomeço, uma segunda chance para reviver suas memórias, hoje tão distantes. E do chão em que ela havia caído, ela se levanta, abre os braços e implora a todo pulmão, numa voz não mais que perfeita: "TOUCH ME! It's so easy to leave... all alone with the memories... of my days in the sun..." E meus olhos se encheram de lágrimas. Pelo drama, pelo sofrimento de Grizabella. E talvez porque a música reverbera dentro de nós dois, Martin e eu, neste particular momento de nossas vidas que têm sido pouco fácil. Ao menos temos um ao outro, ao menos pudemos ver Cats mais uma vez. Então por tudo isso e pela belíssima voz de Grizabella, eu deixei que elas caíssem.

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O espetáculo terminou com o grupo sendo aplaudido de pé, com bastante barulho da platéia. Fiquei muito contente pelo grupo, por esse reconhecimento caloroso do público de Taiwan. Também fiquei feliz pelo povo taiwanês, por ter tido a rara chance de ver um musical de West End, coisa que para muitos não vai acontecer novamente. E fiquei imensamente emocionada ao perceber que, entre a primeira vez que assistimos a Cats e esta vez, já se passaram cinco anos. Eu nem sequer havia mudado para a Inglaterra ainda, naquela época. E hoje, neste canto do mundo que jamais imaginei que um dia visitaria, prestigiamos a Cats mais uma vez juntos. Agora carregados de memórias que antes não existiam.

"Daylight, I must wait for the sunrise
I must think of a new life
And I mustn't give in
When the dawn comes tonight will be a memory too
And a new day will begin...
"

Escrito a mão pela Marcia às 3:53 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (10)

fevereiro 2, 2007

The Striped Spread Snack

Então, fui à Ikea:

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Na verdade estava indo no Carrefour, que é vizinho, mas dei uma passada rápida no Food Hall da Ikea. Havia três tipos de Kalles e felizmente nosso preferido estava entre eles. Não encontrei aquele pão macio e redondo, que parece base de pizza. Comprei umas torradinhas suecas como prêmio de consolação. E ainda comprei uma baguette no Carrefour. Nham. Fome.

Escrito a mão pela Marcia às 9:23 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (3)

janeiro 29, 2007

The Tale of Beatrix Potter

Fomos ao cinema ontem e assistimos a Miss Potter. Estávamos animados para conferir o filme que é baseado na vida de Beatrix Potter, a autora de diversos personagens de histórias infantis, incluindo o famoso Peter Rabbit. Mais que isso, Potter viveu parte de sua idade adulta em Lake District, na região de Cumbria onde Mr.M morou durante sua infância e adolescência. Não tínhamos muitas expectativas porque não havíamos lido nada a respeito, estávamos apenas curiosos em ver imagens de Lake District e também saber um pouco mais da biografia tão pouco conhecida da autora.

Adoramos. Renée Zellweger ficou bem convincente como Beatrix Potter. E Ewan McGregor, nem é preciso muito esforço para se afeiçoar ao seu personagem, excelente. E as imagens, ahh, festa para os olhos. Cada detalhe, mesmo que distante e fora de foco foi bem pensado e pesquisado. Principalmente quando as cenas são da época Vitoriana, em Kensington, Londres. Sem contar com as paisagem de Lake District e da reconstrução da fazenda Hill Top, onde Potter viveu os últimos anos de sua vida se dedicando a preservar o patrimônio rural da Inglaterra.

O filme todo é bem charmoso, harmonioso e delicado, assim como as ilustrações da autora. Mas não é um filme infantil, já aviso. É um drama, uma biografia, apesar da presença de Jemina Puddleduck, Benjamin Bunny e Mrs. Tiggy-Winkle, entre outros personagens fofos. Os fatos principais são todos verídicos. Desde sua próspera infância, sua opressiva mãe que nunca incentivou ou sequer reconheceu seu precoce talento, sua triste tragédia pessoal, o sucesso do primeiro conto infantil.

Depois de sua morte, em 1943, Potter doou à National Trust quase toda sua propriedade, que inclui 4000 acres de terra, cottages e 15 fazendas, incluindo a belíssima Hill Top, que ainda é preservada com muito do que a autora possuía. Até a horta continua sendo cultivada com os mesmos legumes e vegetais que ela um dia plantou e que foi fonte de inspiração para suas inúmeras ilustrações.


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Num Natal frio, cheio de gelo e pouca neve, ganhei de Mr.M a coleção completa dos contos de Beatrix Potter, numa edição comemorativa do centenário de Peter Rabbit. Considero-a um tesouro, é um fascínio ler as obras em ordem cronológica que foram publicados, bem como ler sobre os eventos da vida da autora na respectiva época de cada conto, o que explica a personalidade pitoresca de muito de seus personagens. Mr.M teve toda a coleção também quando criança, mas a edição dele era dos livrinhos pequeninos, que Beatrix Potter insistiu que fossem feitos para caber nas mãos pequenas das crianças. E por muitas vezes nós lemos os contos juntos, sob o edredon quentinho e à luz fraca do abajour; eu conhecendo muitas estórias pela primeira vez, Mr.M relembrando de seus personagens preferidos. E nós dois rindo, talvez porque os animais eram engraçados, talvez porque aquele momento pra nós era tão único e divertido. Ou talvez porque o frio e as dificuldades desta vida ficavam pra fora da janela fechada, atrás da cortina.

Meus contos favoritos? O delicioso The Tale of Pie and the Patty-Pan (patty-pan é uma forminha de empada, que antigamente era colocada dentro de uma torta grande, por baixo da massa que a cobria, para evitar que o centro da mesma afundasse); o comovente The Tale of the Tailor of Gloucester; e também The Tale of Ginger and Pickles, que reúne vários dos personagens mais famosos. E The Tale of Peter Rabbit, claro, esse coelho sem-vergonha e guloso.

Escrito a mão pela Marcia às 12:22 AM | mais em Little Britain | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (5)

janeiro 25, 2007

And Yet Another Earthquake

Tivemos mais um terremoto ontem. Fraco, um pouco mais longo desta vez. Sentimos o apartamento chacoalhar, assistimos às luminárias do teto balançarem de lado a lado. Foi fraco. Mas o suficiente para nos trazer más memórias. Suficiente para trazer de volta a inconfortável sensação de que outro forte terremoto está para acontecer.


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Escrito a mão pela Marcia às 11:44 PM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (2)

janeiro 22, 2007

Accomplishments

Bom domingo, ontem. Mr.M de folga, um dia depois da chuva, com sol, mas ainda agradável para caminhar. Eu estava com uma missão a cumprir na minha cabeça: encontrar o Centro Cultural de Kaohsiung. Passei dias e dias vasculhando a Internet pelo endereço, mas em inglês a busca foi infrutífera. E em chinês eu não conseguia encontrar o endereço. No final, consegui saber que o tal Centro Cultural ficava perto de um restaurante, cujo endereço eu sabia onde era. Então logo de manhã, depois do café da manhã em pijamas, saímos para começarmos a expedição.

Caminhamos até uma rua que é o mercado das flores da cidade. Várias bancas de flores, plantas e arranjos. Nessa rua também há a nossa banca preferida de frutas. As frutas de lá são sempre frescas, maduras e muito mais baratas que no supermercado. Lá também encontro suco de laranja lima. Compramos mexiricas, maçãs, frutas do conde e uma garrafa do tal suco.

Continuamos no nosso caminho, parando aqui e ali para conhecer lugares que nunca tínhamos visto antes. Percebi que tinha esquecido o mapa no apartamento. Pegamos ruas diferentes só para ver se encontrávamos algo interessante e inédito. Continuamos andando, sem saber se estávamos no caminho certo, mas mentalmente me lembrava da localização.

E no meio das ruazinhas bagunçadas e sujas a que estamos já tão acostumados, eis que surgiu à nossa frente uma área cheia de árvores, algo extremamente raro na cidade. Antes de avançarmos, Mr.M sugeriu que a gente comprasse um lanche e sentássemos à sombra para almoçar. Grande idéia, compramos sandubas e nos dirigimos à área arborizada. E antes de cruzar o grande portal do "parque", eis que nos deparamos com a grande placa: "Kaohsiung Cultural Centre". Hooray!!

Lanchamos e bebemos nosso suco de laranja lima e ficamos apreciando a àrea e também a um grupo de adolescentes que estavam fazendo alguma atividade escolar por lá. Adolescentes aqui são tão gente boa, sempre em grupo, sempre se divertindo. Diferentes dos muitos delinqüentes e vândalos de Bournemouth. Terminamos nosso almoço, ficamos perambulando entre as árvores, mas eu ainda não estava satisfeita porque eu tinha um objetivo neste Centro Cultural, que era comprar ingressos para uma apresentação.

Pois bem, entramos no centro, que parecia tudo fechado. Achei estranho porque afinal domingo é um dia para se visitar um lugar desses, não? Já estava me conformando que teria que voltar um outro dia, quando Mr.M percebeu uma porta beeeem distante, que parecia aberta. Fomos até lá e encontramos uma atendente. Mostrei para ela o eu queria e ela foi muito gentil em nos indicar o caminho certo, que era no andar de baixo.

Lá chegando, mostrei o folheto novamente, juntamente com as anotações que havia feito em casa, para não ter erro do dia, horário e tipo de assentos que queríamos. A atendente também foi super gentil e tinha até um monitor disponível para a gente escolher os assentos. Escolhemos, tudo certo. Tirei meu cartão pra pagar e ela me comunicou: "cash only". Alright-o, perguntei onde havia um caixa eletrônico e ela nos indicou. Fomos até lá, caixa meio estranha, a transação não funcionou. Decidimos ir até a 7Eleven, onde sempre tudo funciona. Conseguimos sacar a quantia e voltamos para pegar nossos esperados tíquetes, hooray!

Missão cumprida! Atualmente, decidimos tentar fazer absolutamente tudo por nossa conta, sem a ajuda da Jo. Isso me força a fazer mais pesquisas, mais buscas, nos faz planejar, comunicar, sair, explorar, nos perder, nos encontrar. A satisfação de finalmente chegar ao resultado é infinitamente maior do que ter um favor atendido. A Jo ainda faz muito por nós, principalmente quando envolve algo burocrático. Mas desde alguns meses atrás já conseguimos andar com nossas próprias pernas e contatamos a Jo só para sair para jantar com a gente.

Depois de terminar a minha dança da felicidade da missão cumprida, entramos numa galeria do Centro Cultural para vermos uma exposição de fotografia e design. As fotos eram lindas paisagens da Nova Zelândia, que nos trouxe lembranças da bela Lake District, na Inglaterra. Montanhas, pastos verdinhos, céu azul e ar fresco. E nenhuma scooter à vista. Muitas saudades disso tudo.

Na saída encontramos uma lanchonete e sorveteria chamada BigTom. Escolhemos sorvetes de raspberries e chocolate, que vieram numa cestinha de waffle. Sentamos numa mesa com a vista pras árvores e lá ficamos preguiçosamente dando colherados no nosso sorvete, conversando e passando o tempo.

Voltamos pra casa depois dessa longa caminhada, visitamos a exposição da Sony que está acontecendo no shopping aqui da frente. Babamos nas TVs HD, nos Vaios e no Playstation 3.

Foi um domingo atípico e demos um grande passo. Quero frequentar mais o Centro Cultural, agora que sabemos onde fica. Por várias e várias vezes perguntamos pra um monte de taiwaneses onde é que a gente poderia ir, onde poderíamos visitar, o que poderíamos fazer em Kaohsiung. Ninguém jamais mencionou o Centro Cultural e foi uma pena porque há apresentações de ballet, teatro, sinfonias, óperas chinesas e muito mais. Mas antes tarde do que nunca, ainda temos um tempo pela frente.

Escrito a mão pela Marcia às 2:18 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (2)

janeiro 17, 2007

Bustin' Out

Neste tempo todo que estamos morando neste apartamento já quebrei quatro copos, duas tigelinhas, uma tigelona. No entanto, desafiando todas as minhas pragas, o Prato Horroroso Azul e o Prato Pavoroso Cor-de-Laranja continuam por aqui firme e fortes e sem nenhuma lasquinha.

Para combinar com eles, temos também canecas nas mesmas cores, que chegam a ser uma aberração do mau-gosto quando colocadas juntamente com seus respectivos pratos, num café da manhã de domingo.

Dia desses, cansamos. Já falei aqui que estamos cansados? Pois. Abriu uma Ikea há poucos passos daqui. Durante mais de um mês havia filas de mais de muitos metros para entrar na loja que estava um formigueiro. Finalmente quando o auê da novidade passou pudemos colocar nossos pés ali.

Posso não ser muito popular depois desta confissão, mas na verdade não gosto muito da Ikea. Gosto das coisinhas miúdas, das coisas de cozinha, das louças, de algumas idéias para armazenar quinquilharias. Disso eu gosto. Mas dos móveis, não. Não gosto do estilo, nem da qualidade. E nos deu um frio na espinha de ver móveis poucos comuns de se encontrar em Taiwan como guarda-roupas, gabinetes, beliches e estantes, tudo baratinho, tudo sem pregar na parede, tudo de madeira fraquinha, que num terremoto grave pode causar terríveis acidentes. E o povo todo comprando em massa, porque é baratinho, porque é europeu, olha que chique! Sem se dar conta que a realidade é diferente pra eles.

Mas enfim, visitamos a loja e nos divertimos. Adorei dar uma olhada em tudo, vasculhar tudo. E minha área preferida foi mesmo a de coisinhas pra cozinha. Lá encontramos pratos branquinhos mas a preços pouco convidativos. Pensei um pouco. Já temos quatro pratos e achei melhor não comprar mais nenhum, sendo que vamos deixar tudo aqui. Mas compramos umas canecas bem bacanas, porque é preciso um pouco de dignidade. Compramos também panos de pratos para substituir as tenebrosas toalhas taiwanesas. E por fim compramos também um escorredor de talheres. Três simples objetos que imediatamente fizeram toda a diferença, ninguém nem imagina o quanto.

No final de semana passado descobrimos que uma das livrarias aqui perto está fazendo uma queima de estoque de revistas americanas do ano passado. Fui lá e comprei um bom estoque de revistas de decoração Better Homes e Natural Homes, além de algumas da Martha Stewart, Living. São de dezembro/2005 ou janeiro/2006, mas novinhas, ainda no plástico e pouco me importa quando foram editadas.

Tendo dito tudo isso, não tenho do que reclamar da vida aqui em Kaohsiung. Fizemos grandes melhorias. O supermercado mais perto do apartamento era um que eu não gostava muito, vendia coisas estranhas, não tinha frutas nem verduras. Fechou, reestruturou e abriu um excelente, com absolutamente tudo que precisamos. Ao lado da Ikea também surgiu um Carrefour. Em poucas semanas vai ser inaugurada a primeira linha de metrô da cidade. E mês passado foi inaugurado um trem-bala, da mesma companhia de transportes do Japão, que liga o norte e o sul do país. No entanto, Martin está trabalhando praticamente sem folga e vai ficar ainda pior no decorrer dos próximos meses. Não dá para se ter tudo. Ao menos posso tomar meu chá e ler minhas revistas.


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Escrito a mão pela Marcia às 1:42 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (9)

janeiro 12, 2007

Kaohsiung at Night

Quando esta terra não está chacoalhando ou sendo levada por vendavais, há até algum atrativo aqui e ali. Completamos nove meses e uma semana em Taiwan e muito do que antes achávamos interessante e pitoresco hoje já foge do nosso olhar. Então ficam aqui algumas imagens daquele tempo, de uma primavera longínqua, quase esquecida. Kaohsiung é melhor vista à noite, quando a luz não ilumina tanto o que a gente já não agüenta mais ver. Estamos cansados, eu sei. Todas as fotos são de Mr.M, aquele meu fotógrafo preferido.


Love River e os arranha-céus de Kaohsiung



Artesãs de coisinhas de palha



Artistas fazendo retratos de crianças impacientes



Artesão de coisinhas de vidro



Cinema ao ar livre no melhor estilo Cinema Paradiso



Músicos talentosos em instrumentos incomuns



Olhar em tons pastéis



Escrito a mão pela Marcia às 2:12 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (6)

janeiro 1, 2007

2007

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FELIZ ANO NOVO!

Hoje é dia em que minha família se reúne para comer uma sopa especial com mochi, que minha mãe faz. Muitas saudades. Da sopa com mochi e da minha família.

Taiwan celebra o Ano Novo com fogos de artifício e festa, mas não chega a ser um grande evento. Comemoramos com os colegas do Martin novamente, mas não ficamos até a meia-noite porque hoje, apesar de ser feriado, todos eles estão trabalhando desde às sete da manhã.

O ano novo chinês começa só em 18 de Fevereiro.

Escrito a mão pela Marcia às 2:02 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (20)

dezembro 30, 2006

Our Christmas Do

Ok, chega de assuntos desastrosos.

Vou contar como foi nosso Natal. Martin trabalhou das sete às cinco, voltou pra casa com febre alta, tossindo, garganta pegando fogo. Jantamos sopa, ele foi dormir cheio de Paracetamol, eu assisti tevê e fui dormir em seguida. Tá, então esse Natal não conta.

Mas no sábado anterior, fizemos nossa festa de confraternização. Só entre nós aqui que estamos com contrato a longo termo. Foi bem bacana. Confraternização mesmo, no melhor sentido da palavra. Ao contrário daquelas festas forçadas das empresas, com discursos vazios, sorriso amarelos. Comemos bem, bebemos melhor ainda, demos risadas, brindamos várias vezes, por várias razões. Foi emocionante ver os colegas do Martin abraçando-o e dizendo "é um grande prazer trabalhar com você, Marty", sem estarem bêbados. Porque eles discutem todo dia, se desentendem, discordam um do outro, perdem a calma, brigam até por causa do chá que acabou e ninguém comprou. Mas no fundo, são competentes, pró-ativos, ninguém tem nada contra ninguém pessoalmente. E foi essa a essência da nossa festinha. Palavras sinceras, abraços, honestidade, nos sentimos tão bem!

Escolhemos o restaurante do hotel HiLai que costumávamos morar. Nós havíamos pesquisado antes e este era o que tinha o menu de Natal mais atraente. Além do que, os garçons já nos conhecem a um tempão, são sempre simpáticos e o lugar é agradável sem ser muito pomposo demais. Foi uma ótima escolha.

O primeiro curso foi de salmão norueguês marinado em dill, muito muito bom. Pãezinhos quentinhos assados na hora, irresistíveis. Eu estava faminta comi tudo e não tirei foto. O segundo curso foi de sopa de couve-flor com patê de fígado de ganso. Nhammm, cremosa, aveludada. Ainda estava faminta e comi tudo sem tirar foto outra vez. Rats.

Oh sim, a bebida, não esqueçamos. Ian, que é um gentleman, já havia organizado todas as bebidas e nos presenteou com uma garrafa de Moët & Chandon Brut Impèrial. Oh my good lord almighty! Que delícia, que coisa mais delicada, suave, elegante, fantástica. Fiquei apaixonadíssima. Amei, amei, amei. Pro resto do jantar foi servido um vinho branco um pouco maduro demais pro meu gosto, um leve cheiro de barril de carvalho. Ian disse que se eu quisesse poderia beber champagne com todos os cursos porque é uma ótima bebida que combina com tudo. E eu concordei e fui muito feliz. Mas meu vinho não foi desperdiçado, já que Mr.M se encarregou do sacrifício de esvaziar minha taça.


Enquanto esperávamos o próximo curso, uma grata surpresa. Um coral de meninas do primário entraram no restaurante e cantaram maravilhosamente afinadas várias canções de Natal. Terminaram desejando "Merry Christmas" com o melhor sorriso nos rostinhos. E eu fiquei com os olhos cheios d'água. Que graça.


O terceiro curso era salada de folhas verdes, nada especial, mas difícil de se ter em Taiwan. Chineses em geral gostam de verduras cozidas, quentinhas, saladas são raras. O quarto curso foi de scallops com molho de maracujá e cenoura ralada e frita por cima. Combinação ótima, scallops fritos na medida, molho delicado, texturas diferentes, mas o sous chef perdeu vários pontos por não ter limpado a borda do meu prato. O que custava passar um paninho, eh?


E finalmente o esperado prato principal: peru assado com molho de castanhas. A carne estava tenra e úmida, bem temperada. E o molho foi uma ótima surpresa, excelente combinação que agradou todo mundo. De sobremesa tivemos um triffle de morango e framboesas, com carinha do Papai Noel.


Falando nele, logo entrou um Papai Noel taiwanês restaurante adentro, com uma assistente balançando sinos de Natal, ho ho ho, aquela coisa. Eu pedi um Playstation 3 pro Santa Claus e tudo o que ele me trouxe foram essas balas de toffee. Passem a garrafa, sim? She's a boozer, she's a boozer.





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dezembro 29, 2006

Speckle

As placas tectônicas que convergem por aqui parecem finalmente terem entrado num acordo. Houve um total de seis terremotos em dois dias. Sentimos todos eles. O saldo foi de duas vítimas fatais e 42 pessoas feridas. As linhas de telecomunicação submarinas foram bastante afetadas, ainda estamos tendo problemas com a Internet e telefone.

O terremoto principal, chamado de Hengchun, já foi adicionado na lista dos maiores terremotos do mundo, no Wikipedia. Um colega taiwanês do Martin, que tem seus mais de 40 anos, nos contou que este foi o segundo pior terremoto que ele já passou na vida. O primeiro dever ter sido certamente o de 1999, chamado Chi-Chi, que levou a vida de mais de 2 mil pessoas e destruiu mais de 44 mil residências. Até hoje encontramos rachaduras no solo em alguns pontos turísticos de Kaohsiung que se abriram durante esse terremoto.

Desde então, muito foi feito para proteger a população de uma tragédia natural como essa. Só depois de termos passado por este terremoto Hengchun é que compreendemos a razão de muita coisa que nos cerca. Moramos em dois apartamentos diferente aqui em Kaohsiung. Os dois eram apartamentos novos. E ambos tinham todas suas mobílias, como guarda-roupas, armários da cozinha, bancada de TV, estantes, espelhos e criados-mudos, tudo, tudo cimentado na parede e no chão. No começo achamos estranho esse layout, estranha essa forma fixa, essa impossibilidade de alterar a mobília de acordo com nosso gosto ou necessidade. Agora tudo faz sentido. Se nossa mobília não estivesse cimentada, o estrago certamente teria sido enorme, sem contar o risco de nos machucarmos, de algo cair sobre nós.

O prédio em si é à prova de terremotos e typhoons, todo em concreto e aço, com vidros temperados. O único grande risco é acontecer algum incidente no encanamento de gás. Foi por essa razão, entre outras, que precisamos ser evacuados dos apartamentos. Mas nada aconteceu e logo pudemos voltar.

Nessa hora, principalmente para quem nunca viveu uma situação como essa, a sensação é de total impotência contra a força da natureza. Por mais que a gente leia e decore os procedimentos de segurança, quando o tremor começa, não dá para planejar nada, pensar em nada. O tremor dura cerca de 20 segundos e, morando no décimo quarto andar, não dá pra fazer nada nesse tempo além de esperar. Não há como descer pro térreo em 20 segundos. Hell, não dá nem para andar até um lugar relativamente seguro dentro de um único quarto! O melhor mesmo é estar onde você acha que vai estar mais seguro e esperar.

Foi o que fizemos. Ficamos juntos, olhando um pro outro, sem saber o que poderia estar prestes a acontecer. "(...) to die by your side oh such a heavenly way to die..." Felizmente absolutamente nada aconteceu. No dia seguinte ainda estávamos mais traumatizados do que haviamos imaginado. O corpo dolorido pela tensão nos músculos e pelo sobe-e-desce nas escadas. A sensação estranha de que algo estava pra acontecer novamente. E essa sensação era tão forte, que no meio da manhã Martin me ligou e conversamos sobre como ambos estávamos nos sentindo esquisitos. E no meio do telefonema, outro tremor começou, um pouco mais fraco (5.9), mas ainda forte o suficiente para nos abalar. Não só os cães prevêem tremores, vejam só.

Agora já estamos nos sentindo melhores. Nada como um dia sem tremor para nos sentirmos com os pés no chão novamente. As vezes a gente perde a perspectiva do grão de areia que somos no universo. Desordeiros grãos de areia, mas grãos, ainda assim.

Escrito a mão pela Marcia às 5:08 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (7)

dezembro 26, 2006

Shaken

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Antes de mais nada: estamos bem.

Mr.M e eu estamos bem, nosso apartamento está inteiro, nada que é nosso quebrou.

Tudo bem. Just fucking terrified.

Para quem não sabe o que aconteceu, houve um fortíssimo terremoto em Taiwan. Mais especificamente, na península Hengchung, há meros 90km daqui de Kaohsiung. Segundo o U.S. Geological Survey, a magnitude do tremor de terra foi de 7.1 na escala Richter. A mesma magnitude do terremoto que destruiu a cidade de Kobe, no Japão, em 1995. A grande e importante diferença é que o epicentro desse tremor que tivemos aqui foi no fundo do mar, não na terra, como em Kobe.

Se esse tremor já havia nos assustado o suficiente, o pior para nós foi o aftershock, o segundo terremoto que aconteceu 10 minutos mais tarde, cujo o epicentro foi aqui, 27km ao sul de Kaohsiung, magnitude de 6.4 pontos. Scared the living shit out of us. Começou com uma vibração no chão como se um caminhão pesado estivesse passando no quarto ao lado. Ficou mais intenso e tudo que estava nas mesas e bancadas começou a andar e a fazer batuque. A sensação era de que estávamos dentro de um veículo rodando por uma estrada cheia de pedras e buracos. E então o prédio inteiro começou a mover. As luminárias do teto balançaram tanto que bateram suas bordas no teto. Ficamos de quatro no chão porque nem de pé conseguíamos ficar. Lá fora barulho de algo quebrando, se espatifando no chão. Tentamos engatinhar até o quarto e o apartamento chaoalhava tanto para frente e para trás que demoramos um tempo imenso (aparentemente) para avançarmos um metro. Colocamos travesseiros nas cabeças e nucas e esperamos. No chão, ajoelhados, peitos no colchão, cabeça abaixada, olhos esbugalhados um no outro. E esperamos. Miseráveis, longos, intermináveis, sonofabitch 20 freaking segundos.

Quando o tremor começou a ficar mais fraco, o comunicador de emergência do prédio convocou todos os moradores a evecuarem os apartamentos. Evacuamos. Descemos 14 anda

Shit! Neste exato momento, mais um tremor está acontecendo. Parece pequeno (update: foi 5.5). Shit. Shit. Shit.

Shit.
Sh...

Parou. Mas até quando?

Enfim, estava dizendo que tivemos que descer pelas escadas, 14 andares. E o que nos deixou ainda mais assustados foi ver que muitos taiwaneses estavam realmente preocupados. Ficamos todos no hall e o fato de não entendermos a língua nesta hora foi terrível porque seja lá o que o segurança falava para acalmar os moradores, a gente não entendia. Voltamos há pouco para o nosso apartamento. Tudo em ordem, mas estamos abalados, assustados, confusos. Como o Martin bem disse, para nós poucas coisas são mais sólidas do que o chão que a gente pisa. Quando a confiança nesse mesmo chão se perde, o que nos resta? Pra onde correr? Pra onde ir?

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Num dos corredores do nosso prédio, o painel de azulejo e madeira foi arrancado da parede, nem o interruptor da campainha foi poupado. A foto está ruim porque foi tirada com o celular e estava bem escuro. E eu estava tremendo.

Escrito a mão pela Marcia às 3:15 PM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (7)

dezembro 24, 2006

Jingle All the Way

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Merry Christmas! Feliz Natal!

E obrigada por mais um ano.


Escrito a mão pela Marcia às 6:49 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (6)

dezembro 14, 2006

Christmas is a Paper Crane

Não há muitas opções de decoração natalina de bom gosto neste país asiático; tudo de plástico, com purpurina e tinta dourada. Mas pelo conseguimos encontrar uma arvorezinha de Natal de uns 30 centímetros. De papel e plástico, totalmente environment unfriendly. Minhas tentativas de decorá-la, no entanto, foram bastante prazeirosas uma vez que tive que encontrar meus próprios recursos. Fiz uma porção de origami de tsurus com papéis de presente. Sim, os mesmos papéis que fiz o Advent Calendar. Pendurei-os na árvore e fiz até um ninho pra uma família deles, com papel picotado daqueles que vêm dentro de embalagens. Comprei fita e fiz uma laçarote grandão para enfeitar a ponta da árvore. O cordão vermelho que segura a fita usei de uma embalagem de bolo. Mr.M colocou luzinhas coloridas. E eis que agora estamos nos sentindo mais Christmasssy que nunca.

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Aliás, nosso Advent Calendar tem sido uma grande diversão. Toda manhã abrimos um envelopinho com muita expectativa de saber o que iremos fazer à noite. Já fomos jantar fora, jogar sinuca, jogar air hockey, já fizemos massagens nos pés, fizemos sushi juntos, saímos pra comprar revistas britânicas, uma porção de mini atividades que têm nos feito muito bem, principalmente quando incluem vinho. Faltam poucos envelopes na caixa, os dias passaram rápido.

Escrito a mão pela Marcia às 4:48 PM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (12)

dezembro 2, 2006

M&M's Advent Calendar with Activities

É Dezembro, finalmente. Jingle bells, Santa smells and all that. Não temos muito a esperar deste Natal de 2006. Taiwan é um país predominantemente taoísta e budista, então Natal é algo tão estranho para eles quanto comemorar Halloween é para os brasileiros. Para completar, Mr.M vai trabalhar normalmente no dia 25, o que significa que vou passar a maior parte do dia all by myseeeeelf... don't wanna be... aaall by myseeeeeeeelf... Óquei, parei.

Mas para que a gente não se enforque em tinsels (festão?), estamos fazendo de tudo para criar um clima natalino entre nós. Basta estar privada de algo para começar a desejar por isso intensamente. Eu estava desanimada com a história, mas Mr.M, que é mais doce que mince pie, começou a me incentivar, comprou umas decorações natalinas e me contagiou com a empolgação.

E então lembrei dos Advent Calendars, que conta os dias de dezembro até a chegada do Natal. Na Inglaterra esses calendários são geralmente associados com mini chocolates, como descobri há quatro anos. Porém, existem milhares de outras idéias sugar-free pelo mundo, bem mais criativas que chocolates de má qualidade numa caixa de papelão. Inspirada pela Claire, comecei a planejar um Advent Calendar with Activities.

Listei uma porção de atividades para tirarmos nossos traseiros deste apartamento e fazer uma coisinha bacana todo dia até a chegada do Natal. Comprei papéis de presente para recortar em retângulos, adesivinhos de Natal e uma caixa bonitinha. Em cada envelopinho escrevi uma atividade para fazermos em cada dia. Mr.M não sabe quais são. Mas as atividades são todas simples e fáceis de realizar; vão desde dar um passeio nas margens do rio, falar só em português o dia todo, até disputar Daytona Race ou abrir uma garrafa de vinho pro café da manhã, essas coisas que nos deixam felizes, vocês me entendem.

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Todas as manhãs antes de Mr.M sair pro trabalho ele me acorda, sorteia um envelope e nós abrimos e descobrimos o que temos que fazer no dia de hoje. E como ontem eu ainda estava ocupada com a produção dos envelopinhos, só começamos o Advent 'Calendar' hoje. E o primeiro envelopinho diz para irmos jantar no nosso restaurante japonês preferido, hooray! Mr.M riu e perguntou se todos os envelopes envolvem eu não cozinhar durante o mês todo, haha. Me espanta a rapidez dele descobrir as nuances do meu plano...

Escrito a mão pela Marcia às 12:22 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (12)

novembro 21, 2006

I Predict a Riot

Às vezes me pergunto por quê, neste mundo liderado pela infame guerra do Bem contra o Mal, nenhuma ação é feita a respeito do atual governo chinês. Mas esta pergunta dura apenas um segundo e meio porque a resposta é clara: a China não tem petróleo. E por essa simples razão, as atrocidades cometidas pelo partido comunista chinês continuam acontecendo explicitamente, sem que ninguém faça nenhum esforço para mudar a situação.

Em países ocidentais, raramente lemos ou ouvimos notícias sobre essa verdadeira crise asiática. O Ocidente, quando muito, se preocupa com a Gripe Aviária como se essa sim fosse uma ameaça asiática à humanidade. Muitos sequer tem idéia do que vem acontecendo neste canto do mundo.

Porém, em Taiwan, onde a população luta para ter sua soberania e liberdade, as notícias são mais intensas e constantes, mesmo sofrendo censura. Aqui, o tempo todo percebemos que o pior ainda está por vir e acontecer. Para quem não tem idéia do que eu estou falando, listarei aqui alguns fatos:

1. Censura e Tortura - Em país com governo comunista, nada é divulgado sem a aprovação do censo. Jornalistas, políticos, escritores, intelectuais e estudantes que ousam escrever sobre democracia e liberdade são perseguidos, presos, torturados e jogados em campos de concentração. Que ninguém se esqueça do massacre em Tiananmen Square, quando o povo chinês saiu às ruas para protestar contra o opressivo governo e o exército abriu fogo contra eles, utilizando atiradores automáticos e tanques de guerra. Que ninguém se esqueça do solitário protestante, conhecido como Unknown Rebel, que enfrentou sozinho o avanço dos tanques de guerra que estavam a caminho da praça. Segundo a Cruz Vermelha, mais de 2.600 civis morreram no massacre e mais de 10.000 ficaram seriamente feridos. O paradeiro do solitário protestante é desconhecido, uns dizem que ele foi executado poucos dias depois, outros, que ele atualmente mora em Taiwan.

Milhares de protestantes como esses foram confinados em condições similares a dos campos nazistas. São esses o tipo de presidiários chineses, os que ousaram a lutar pela democracia, não são criminosos ou assassinos. São os mesmos presidiários que são forçados a trabalhar de graça, produzindo todo tipo de bugiganga para exportação. Da próxima vez que você encontrar brinquedinhos fajutos e baratos Made in China, lembre-se deles. Nem tudo que é barato e chinês vem do trabalho de presidiários, mas sim da política de subsídios que deixa tudo a preços muito baixos, mas ainda assim muitos produtos vêm desse trabalho escravo, então lembre-se deles. Lembre-se dos presidiários de pele cinza, ossos à mostra, desesperança nos olhos, sacos de ossos à espera da dolorosa morte por tortura.

Ainda sobre a censura, sites como Yahoo e Google estão o tempo todo sob vigília e são proibidos de exibir qualquer resultado para busca de palavaras-chaves como "democracia", "Tiananmen Square", "Dalai Lama" e "Falun Gong" que incitem o povo a se manifestar contra o governo. O Google, aliás, foi duramente acusado de ajudar o governo chinês a perseguir sites e seus webmasters, shame on you.

Por último e não menos importante, Movable Type e Blogspot também são domínios bloqueados. Livros e filmes com idéias "subversivas" são também proibidos. DaVinci's Code? Brokeback Mountain? Memoirs of Geisha? Tomb Raider?!?! You must be joking, tudo banido dos cinemas.

2. Religião - Durante a visita do presidente Hu Jintao na Casa Branca, houve um incidente que saiu em todos os noticiários. Antes de executar o hino nacional, uma mulher, jornalista do The Epoch Times, subiu na área onde os cinegrafistas estavam e fez seu protesto em chinês dirigido aos presidentes que estavam a postos. Ela pedia para Bush fazer o presidente Jintao parar com a perseguição contra os religiosos da seita Falun Gong. Em Hong Kong, vimos um enorme grupo dessa seita fazendo um protesto com fotos dos presos religiosos sendo torturados, algo que jamais terei capacidade de descrever. Bush pediu desculpas à Jintao pelo incidente e a jornalista foi processada. Way to go... Da mesma forma, centenas de católicos, tibetanos, monges e freiras foram presos por causa de suas lealdades ao Papa ou Dalai Lama.

3. Tibet - A China invadiu, matou muitas centenas de civis e militares tibetanos, forçando o Dalai Lama Tenzin Gyatso a pedir asilo político à India para que seu povo fosse poupado. A China tomou posse do país, tirou os tibetanos de seus empregos, instituiu o chinês como língua oficial, proibiu que a bandeira do Tibet fosse usada, assim como seu hino nacional. Tibet agora é parte da China, que agora também elegeu seu próprio Dalai Lama, desrespeitando toda tradição sobre reencarnação que reje a escolha do mesmo.

4. Taiwan - Sobre isso eu já contei aqui. Taiwan luta por sua independência e liberdade de expressão, enquanto que a China insiste em lembrar que o país é parte de seu território. Para reforçar esse lembrete, mais de 800 mísseis estão voltados para Taiwan.

5. India - No momento o presidente chinês Hu Jintao está em visita à India, então é capaz de sair uma ou duas notas nos noticiários ocidentais. A China invadiu e entrou em guerra contra a India para ter o controle do estado Arunachal Pradesh, ferida aberta e dolorida na história dos indianos.

6. Arsenal Nuclear - A China mantém laços próximos com o Irã. E de lá que a China compra petróleo e é de lá também que vem o interesse do governo chinês em armas nucleares. Da mesma forma, a China também mantém laços com a Córeia do Norte e Paquistão. Se você achava até agora que nada disso que a China vem fazendo afeta seu rabo, agora você pode começar a se preocupar.

7. Aquecimento Global - A China é hoje o segundo maior poluidor do mundo, em emissão de CO2. E o governo planeja para os próximos anos, a abertura de centenas de usinas de energia que utilizam a queima de carvão. Mesmo que o Reino Unido inteiro pare completamente de produzir CO2, os níveis mundiais de poluentes continuarão aumentando por conta do progresso industrial chinês. Existem esforços na China para conter a poluição, mas como em qualquer país, mesmo o Brasil, os interesses pelo meio ambiente sempre são atropelados pelo interesse governamentais e financeiros.

Admiro o povo chinês, admiro sua cultura, sua história, sua arte, suas glórias. Admiro o senso de comunidade, de família, de hospitalidade. Há muitos outros aspectos admiráveis na China e principalmente entre chineses. Os fatos listados aqui não devem em nenhum momento mudar o conceito desse grande país. Porque os fatos listados são criados e executados por pequenos e poderosos grupos, que infelizmente estão no poder atualmente. E eles não são tão diferentes dos outros poderosos grupos que outrora fizeram as mesmas atrocidades em outras terras, EUA e Inglaterra incluídos. E eu não consigo imaginar nenhuma mudança, não consigo ver a história da China mudar de rumo. O incidente de Tiananmen Square aconteceu há vinte anos, desde então nada mudou no que diz respeito à liberdade e democracia. Talvez um dia isso mude, não sei como, não sei quando. Mas pelo povo chinês, tibetano, taiwanês e indiano, pelos meus amigos chineses que guardo no coração, eu espero que um dia a liberdade chegue.

Escrito a mão pela Marcia às 2:06 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (19)

novembro 6, 2006

Obentô

Alguns de vocês devem se lembrar quando falei aqui sobre o sistema de educação alimentar das escolas japoneses e taiwanesas, chamado de Kyushoku. Bacana, civilizado e tal. Porém, nem todas as escolas oferecem o mesmo sistema e muitas delas pedem para que os alunos tragam seus próprios lanches. E é nesta hora que entra o famoso obentô (ou bentô, mas é mais polido dizer obentô, i'm a lady), que nada mais é que uma refeição completa disposta dentro de um caixa. Apesar de ser usado nas refeições escolares, o obentô não é, no entanto, voltado exclusivamente para crianças, muito pelo contrário. A grande maioria dos adultos japoneses preparam e levam seus próprios obentôs para trabalhar, ir a escola, viajar, assistir a eventos esportivos.

Parece tão simples como fazer uma marmita e é, com a diferença de que no Japão, preparar um obentô é uma expressão artística.

Muitos japoneses acordam bem cedo, antes do sol nascer, para preparar os obentôs para a família, filhos ou para si mesmos, sempre seguindo as regras que o obentô precisa ser apetitoso, saudável e... fofíssimo. Sim, precisa ser kawaii, cute, bonitinho, coisa fofa. E para isso hoje existe um mercado imenso de acessórios para criar os obentôs de deixar qualquer ocidental totalmente perdido. A começar pelas próprias "caixas de obentô", que podem ser desde um simples Tupperware retângular, passando por formatos de personagens como Hello Kitty, Snoopy, Shinkansen, UltraSeven, AmpanMan entre muitos outros; há "caixas de obentô" térmicas, há outras empilháveis, há umas luxuosas, com vários compartimentos. E então há um mundo inteiro de cortadores, moldes, furadores, além de divisores coloridos, bandeirinhas, tubos para molhos, tudo o que puder adicionar fofurice na refeição.

O resultado? Obras como estas tiradas dos bento-blogs Cooking Cute e E-obento:


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Fonte: Cooking Cute



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Fonte: e-obento



Note que o conteúdo de um obentô não precisa ser necessariamente elaborado. A razão de um obentô equilibrado é de uma porção de proteína para duas porções de vegetais ou frutas (fibras e vitaminas) e três poções de arroz (ou outro carboidrato) . E nem sempre é preciso acordar no raiar da manhã, como muitos japoneses, para fazer seu obentô. Há vários sites e blogs sobre o assunto dando dicas de como planejar e não gastar muito tempo preparando. Geralmente é possível usar o que restou no jantar e pronto. Basta fazer uma porçãozinha a mais quando fizer o jantar, além de ter na geladeira, na despensa e no freezer algo fácil para incrementar a refeição (tomates cerejas, ovos, frutas, sopas).

Eu, que adoro todas as coisinhas em miniatura, sempre achei o obentô o ápice da apresentação de uma refeição. Formatos diferentes, alimentos com sorrisos e carinhas, flores de legumes, cores, diversão. Quando voltamos do Japão, Mr.M decidiu que queria levar seu próprio obentô pro trabalho porque ele já estava cansado dos sanduíches comunitários que os colegas dele fazem (um rodízio de sanduba de queijo, bacon ou spam *argh*). Fizemos um mini planejamento, comprei uns acessórios no Japão (hooray!!), compramos um novo bento box (por alguma razão desconhecida, Mr.M se recusa a usar o meu do Snoopy).


Cortadores de sanduíches em formato de animais. E mini-garrafinhas para colocar vinagrete, shoyu ou outro molho qualquer.
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Um potinho "apertável", excelente para colocar mostarda ou sour cream. E meus queridos Egg Molds, que deixam o ovo cozido no formato de um ursinho ou um coelho.
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E então há mais de um mês Mr.M tem se alimentado melhor durante o almoço e eu tenho me divertido na cozinha (apesar das limitações de equipamentos e espaço). Eis algumas de minhas primeiras criações:

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No começo eu estava empolgada e procurava encher cada espacinho do bento box com alguma coisinha diferente. Mas logo nos primeiros dias Mr.M me avisou que era comida demais ("way too much food") e que ele não conseguia comer tudo durante o almoço. Também sugeriu que eu não fizesse muitos ursinhos, florzinhas e sorrisinhos na comida dele. Rats... Então hoje o bento box dele não é tão recheado assim como nas fotos acima, cortamos a quantidade pela metade. O que vai no bento box dele é geralmente o que tivemos pro jantar. Embalo, espero esfriar e coloco tudo na geladeira. No escritório ele tem microondas e esquenta tudo. Mas não preparo obentôs diariamente. Muitas vezes ele prefere levar sanduíche que ele mesmo escolhe como fazer. O nosso preferido é um pedaço de baguete recheado de pesto, mussarella de búfala e tomates. Nham. E quando estamos ambos com preguiça vai um sanduba de atum com cenoura mesmo.

Achei que fosse perder o interesse dos obentôs com o tempo, mas tem sido prazeroso e na verdade me ajuda a pensar no que fazer pro jantar também. Começo a pensar nos três potinhos e no que vou colocar em cada um deles. O mais fácil é o de vegetais ou frutas, então já começo escolhendo esses primeiro. Depois penso na proteína e aí decido se faço arroz ou pasta. E pronto.

Nos últimos anos os obentôs começaram a ficar mais populares e o interesse pelas caixinhas criativas começou a atrair adeptos de todo mundo. Tem até sua própria TV. Mania ou não, enquanto o conteúdo respeitar a proporção de carboidratos, vegetais e proteínas, o obentô sempre vai ser uma fonte de alimentação equilibrada e saudável, muitas vezes ridiculamente, desavergonhadamente fofa ou algumas vezes doentemente estranhas.

Escrito a mão pela Marcia às 6:34 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (21)

setembro 20, 2006

Futile Attraction

Então fui cortar meu cabelo. Evitei o quanto pude ir ao cabelereiro sem saber falar chinês, mas já estava tropeçando na minha juba, então resolvi que não dava mais para esperar. Fui. É aqui na esquina, todos os cabelereiros desse lugar são bem jovens e moderninhos. Bom sinal. Marquei horário, a menina falava um bocadinho de inglês. Fui na hora marcada, sentei e o cabelereiro veio conversar, em inglês. Eu só queria aparar as pontas, o mais simples possível para não ter erro.

O moço perguntou:

- Do... you... want... to... keep it... erm... long?

Eu olhei bem pra ele e respondi balançando a cabeça afirmativamente:

- YES.

O moço:

- OK.

Eu:

- OK.

De início ele até cortou as pontas na altura que eu queria, mas depois de um certo tempo, não sei bem se por tédio ou empolgação, o moço começou a usar a tesoura na vertical e foi arrancando grandes cachos de meus pobres cabelos que dantes foram longos. E o resultado é que agora estou praticamente máquina zero. Não, claro que não tô falando sério. Mas definitivamente deixei de ter cabelos longos e cacheados (hahaha) e agora tenho cabelos médios ali beirando pro curto.

Ficou bom, não posso negar, acho que foi um dos melhores cortes desde que me mudei de São Paulo. O moço tirou bastande do volume e fez várias camadas, minha cabeça está leve feito o vento que habita dentro dela. Mas ainda assim eu não estava preparada para mudar de estilo. Ainda não sei qual foi a parte do "YES" que ele não entendeu, mas deixa.

Daí quando o moço estava secando ele me explicou exatamente como segurar o secador, como puxar minhas pontas com os dedos, sempre trazendo as mechas para frente. Eu fiquei ali concordando com ele e não tive coragem de contar que eu não possuo um secador. E também não contei a ele que nem na Inglaterra, onde eu possuo um secador, não uso também. Paguei, voltei pra casa.

Martin ficou todo contente com meu novo corte. Isso foi anteontem. Hoje lavei -- e não sequei com secador -- e pareço o telhado de um cottage inglês. Mas deixa.

Não tenho fotos ainda do meu novo layout. Mas tenho esta foto que tirei hoje deste item de necessidade básica em tempos de crise capilar. Oh, como meu dia voltou a ficar ensolarado. Meu novíssimo exclusivo lipstick MAC Amplified Crème. Existem batons e batons. E existe MAC acima de todos. Este é novinho, polido, sem marca nenhuma, cheirando a baunilha. Não preciso dizer mais. Eu sei que muitas de vocês me entendem:


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Luxúria. Cobiça. Poder. Me deixa.

< /futile mode off >

Escrito a mão pela Marcia às 9:35 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (6)

setembro 15, 2006

The Most Cutest Thing

As coisas andam um pouco complicadas por aqui. Mas preciso, necessito urgentemente gastar meu tempo com coisas doces come esta: Komaneko. Animação japonesa mais delicada do planeta, que foi vencedor do 2003 Japan Media Arts Award, na categoria de curta-metragens. Komaneko é um talentoso gato que adora artesanato e principalmente artes cênicas, sabe fazer storyboard e tudo mais. Dica do delicioso craftblog Little Mochi.

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Confira estes vídeos e gaste todo seu tempo indisponível também:

Video 1
Video 2
Video 3
Video 4
Video 5

Vídeo 4 particularmente partiu meu coração. Awwww...

Escrito a mão pela Marcia às 6:59 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (9)

setembro 4, 2006

Easy like Sunday Mornings

Ontem tivemos um café da manhã bem especial e delicioso. Fiz panquecas com blueberries, maple syrup e, como já fazia 33ºC, um tantinho de sorvete de baunilha. Para acompanhar, café com leite feito na hora e uma porçãozinha de bananas e blueberries.

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Estava tudo muito bom e nos manteve bem alimentados para agüentar a caminhada de quase quatro horas. Não almoçamos e tivemos um jantar bem saboroso no restaurante japonês que costumamos freqüentar. Foi um bom domingo.

Ontem foi também aniversário do meu irmão artista e surfista. Parabéns, meu irmão!

Escrito a mão pela Marcia às 4:47 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (7)

agosto 28, 2006

Genesis

In the beginning there was nothing but soft darkness....

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Heaven and Earth...

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...and all things therein.

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Editado para acrescentar a legenda.

Na penúltima foto, da esquerda para a direita, atrás: azeite de oliva, a garrafinha cor-de-rosa de plástico é onde guardo uma pequena porção do azeite para usar mais fácil; fish sauce, óleo a base de peixe, bastante popular e imprescindível para fazer pratos tailandeses, nham; e molho de soja (shoyu) escuro. Na frente: men tsuyu, molho a base de shoyu, mirim e dashi, simplesmente a espinha dorsal da culinária japonesa, uso para fazer caldo de noodles, refogados de vegetais, cassarolas, para mergulhar gyozas e muito mais; pequeno vidro de óleo de gergelim, que eu gosto quando usado com moderação; linda fantástica garrafa de premium oyster sauce da tradicional marca Lee Kum Kee, um molho especialíssimo feito de suco de ostras defumadas, shoyu, vinho, açúcar, gengibre, cebolinha verde e feijão preto fermentado, usado em quase todos os refogados chineses; por último meu querido vidrinho de yuzu ponzu, molho de soja claro com suco de uma fruta cítrica chamada yuzu, cultivada somente no Japão, e produz um excelente aroma cítrico misturado com o sabor do shoyu para instigar qualquer paladar.

Na última foto, quase não é necessária nenhuma explicação: sal, pimenta, Worcestershire Sauce (molho inglês), Tabasco, vinagre de arroz, cardamon pods, páprica doce, canela, sementes de cumin e tumeric.

Notem ainda que o espaço total que tenho para cozinhar é o que aparece nas duas primeiras fotos. Um mínimo retângulo onde cabe apenas uma pequena tábua de uns 30cm de largura. É aí que tenho que descascar, picar, empilhar e me virar. Na frente desta bancada existe uma parede. Nunca mais reclamo da minha cozinha, na longínqua Inglaterra.


Escrito a mão pela Marcia às 7:42 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (5)

agosto 14, 2006

Kaohsiung from the Sky

O sábado começou com terremoto de 3.0 pontos e terminou com uma noite de jantar no TGIF + Pub + Outro Pub + Karaokê com nossos colegas mais animados que chegaram há uma semana. Rimos, bebemos, cantamos músicas velhas, dançamos e pulamos com um pouco de rock'n'roll e voltamos pra casa às três da manhã. Acordamos tarde no domingo, tomamos litros de água de café da manhã e depois nos arrastamos até nosso restaurante preferido de missô ramen. Recuperados, fomos até o Tuntex Sky Tower, que é o maior arranha-céu de Kaohsiung, com seus 85 andares.

A bordo de um dos elevadores mais velozes do mundo, visitamos o observatório do prédio, com ampla vista de toda cidade. A luz, porém, ainda estava bastante intensa para fotografar, então resolvemos ir até o bar panorâmico e lá relaxamos até o entardecer.

Clique e Amplie.

Kaohsiung, urbana com seus telhados anti-typhoon.
O prédio mais alto à esquerda, é o hotel HiLai, onde uma vez moramos.
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Vista do porto. Mais além, o mar chinês.
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Grolsch para Mr.M e chá com sorbet de morango, menta e limão para mim.
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Finalmente o sol se pôs, calmo e dourado.
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Nosso bairro, sob imenso céu de Kaohsiung.
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Mr.M, my favourite photographer.
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Escrito a mão pela Marcia às 8:40 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (5)

agosto 9, 2006

Typhoon Saomai

Para minha amiga Samara, que gosta dos meus boletins metereológicos.

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Mais um typhoon se aproximando, desta vez Catagoria 3, intensificando para 4. Para ter uma idéia do que isso significa, o ciclone Katrina que atingiu New Orleans foi Categoria 4 e intensificou para 5. Até agora, os muitos typhoons que passaram por aqui foram no máximo Categoria 2 e foram impressionantes. Este, chamado Saomai (e que a gente o apelidou de Saruman), deve atingir apenas o norte de Taiwan (estamos no sul), mas deve trazer muita chuva e ventos fortes em todo país. Pela foto do satélite dá pra ver o olho do typhoon, sinal de que os ventos ao redor dele estão ficando cada vez mais velozes e devastadores.

A rota deste typhoon Saomai está voltada para a província chinesa Fujian e parte da população costeira deve ser evacuada nos próximos dias. A destruição é sempre pior na China do que em Taiwan, parte porque as áreas perto da costa são mais pobres, de casas de madeiras e próximas a barrancos e sem nenhuma infra-estrutura que suporte typhoons.

Amanhã de manhã Saomai atinge Taiwan e à tarde, a China.

Update: O typhoon acabou de se intensificar para a categoria SuperTyphoon (Categoria 5). Nenhuma notícia sobre evacuação na China. Vão, pelo jeito, deixar novamente para a última hora. Que talvez seja mesmo, última. Tsc.

Escrito a mão pela Marcia às 12:47 PM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (7)

agosto 7, 2006

Banquet II - The Saga Continues

Fomos convidados a mais um banquete no sábado passado. Eu sei. Eu sei, eu posso lhe ver, sádico leitor, já se ajeitando melhor na cadeira para saber no que foi que eu me meti desta vez. Mas já adianto que nada mais será mais chocante do que a lagosta servida viva do banquete passado.

Mas vamos começar com os fatos: geralmente somos convidados pelos fornecedores de equipamentos pro projeto em que Mr.M está trabalhando. É um jantar formal, de socialização, as esposas são convidadas e tal. A principal razão de toda pompa é agradecer aos funcionários da empresa de Mr.M por terem escolhido os mesmos como fornecedores e também formar laços para que em subseqüentes projetos eles sejam escolhidos novamente. Em outras palavras, eles querem é puxar nossos digníssimos sacos mesmo. O anfitrião era um moço de 26 anos e com ele vieram o chefão dele e a esposa, mais dois funcionários e duas amigas do moço anfitrião.

Ao contrário do outro banquete que foi mais íntimo, em sala VIP e uma única mesa enorme, este foi no saguão do restaurante mesmo e nos dividimos a princípio em duas mesas. O chefão logo fechou a cara e começou a reclamar com o anfitrião e os garçons. Logo providenciaram uma terceira mesa, só para os "mais velhos", então da nossa mesa foram arrastados Mr.Monkeyman, M. e R., que saiu sobre protestos de "oh f* hell", haha, porque ele queria ficar conosco. Então na nossa mesa ficamos Mr.M, eu, nosso amigo D. e o trainee N., dois funcionários do fornecedor e as meninas amigas do anfitrião. Logo nos apresentamos, as meninas começaram a fazer milhões de perguntas e começamos a conversar e logo estávamos brincando, fazendo piadas e tirando sarro um dos outros. Os outros dois funcionários não falavam inglês mas mesmo assim foram supergentis o tempo todo, brindando e enchendo nossos copos, explicando os pratos servidos e rindo das nossas bobagens na mesa. Sem dúvida a mesa mais barulhenta.

O banquete foi num restaurante de culinária cantonesa, o que significa muita, muita carne, molhos elaborados, preparo impecável e ingredientes únicos e exclusivos. E eis que o banquete começa, sem aflições e sem circo, para o nosso alívio. Primeiro encheram nossos copos de suco, cerveja e vinho. E o primeiro curso veio com os aperitivos de carnes frias: frango branco cozido, fatias de pés de porco assadas, joelho de porco grelhado. Logo recebemos tigelinhas com sopa quentinha. Para mim, parecia simples sopa com frutos do mar. Reconheci camarões, pedaços de caranguejo e outra carne branca meio desfiada, mas não tinha como saber o que era. Muito boa, cheia de cebolinha verde por cima, a consistência da sopa era um tiquinho gelatinosa mas bem saborosa e achei que a carne branca deveria ser de algum peixe.

O próximo curso veio com broto de bambu cozido ao vapor e grelhado, com uma fina camada de maionese por cima. Os pedaços estavam bem tenros, como nunca havia experimentado antes. Uma bandeja enorme chegou à mesa com os mais maravilhoso camarões grelhados e depois mergulhados em vinagrete. Eles eram tão grandes, que a carne estava bem parecida com a de lagosta. Um peixão cozido no vapor foi o próximo prato, carne macia, molho cítrico divino, pak choi verdinha para acompanhar.

Outro prato chegou, no meio de um anel feito de motis fritos (bolinhos glutinosos de arroz), cubinhos de uma carne branca e outra mais escura, cogumelos e castanhas cozidas, em molho de shoyu. Peguei uma porção de cada e comi um pedaço da carne branca. Olhei pro Martin e perguntei "Monkfish?" (Peixe-diabo? Lophius piscatorius). Martin concordou mas não estava bem certo. Nossos outros colegas também acharam que era monkfish. Resolvemos então perguntar para as meninas mas elas não sabiam o nome em inglês.

E então a luz se fez. O moço taiwanês que estava sentado à minha frente fez uma imitação de que bicho que havíamos acabado de engolir. Ele colocou as duas mão abertas, uma de cada lado do rosto e fez a cabeça dele subir e descer, subir e descer bem devagar. Ohmyfuckinglord. Tartaruga. Carne de tartaruga ensopada. Olhamos um para outro e rimos. Já tinha ido mesmo. E pra falar a verdade a carne é bastante saborosa, a textura parece de camarão. Delicada, macia, agradável.

O próximo prato (vocês ainda estão contanto? este é o nono) foi de bolinhos fritos de carangueijo, que é auto-explicativo, agradou todo mundo. Os molhos picantes e de gengibre foram a atração. E o outro prato salgado a ser servido foi de costelas de porco grelhadas e glaceradas. Este eu não experimentei porque eu precisava de espaço para a sobremesa, uff. E para finalizar e ajudar a digestão, outra sopa, com sete cogumelos diferentes, um pedaço de carne de porco e um ovo de codorna. Tomei duas colheradas do caldo e não comi nada, uff.

Tortinhas de custard, melancia, melão, maçã e uva. Passaram todos por mim despercebidos, não me servi de nada. E enfim serviram uma sobremesa que chamou minha adocicada atenção. Em ramekins individuais, um pudim branco, branquíssimo, quase neve, coberto por uma boa camada de purê de manga. Ah, o aroma da manga madura, a cor laranja escura, ah! Peguei minha colher e mergulhei-a no pudim. Textura como nunca vira antes. Seda, essa é a sensação. Leve, lisa, lisa, lisa. A colher não corta, mas desliza. O caldo de manga entra nos reinos nunca dantes desvendados. Certamente cremoso, mas sem ser nem pudim, nem gelatina, nem flan. Algo entre esses três. E o sabor, ah o sabor. Coco, leite, manga, combinação divina. Fiz altos elogios, enalteci a sobremesa, estava visivelmente satisfeitíssima com o final elegante e delicioso do nosso banquete.

E porque estávamos já cheios de etílicos e brincando há várias horas, e porque também tenho fama entre os colegas do Martin de dessert monster (a monstra verde de olhos esbugalhados devoradora de sobremesas), virei pro N., que tinha começado a sobremesa dele mais tarde porque tinha ido no banheiro antes, e perguntei "are you going to finish that or not?" ("cê vai comer isso aí tudo sozinho?") e ele riu e D. riu também fazendo mímica da monstra, Mr.M tentou me segurar para não avançar no prato alheio. E rimos e rimos. E eis que eu nem vi, mas o moço taiwanês que estava na miha frente se levantou e foi no buffet dos garçons e trouxe mais um pudim extra pra mim! Gaaaaaaaaaaaaaaaahh!! Era o que eu precisava para todo mundo tirar o barato da minha cara e rimos até não agüentar mais. E eu realmente, realmente não tinha condições de comer mais nada. Mas dei duas colheradas por educação, agradeci ao moço que me trouxe a porção extra e ele estava rindo de mim também, maldito.

Descobri mais tarde que esta sobremesa dos deuses chineses é chamada de Dofu-fah e sua base é feita com leite de soja e tofu, que explica a leveza e textura sem igual. Foi um dos pratos que mais me surpreendeu até agora, pela simplicidade e combinação de sabores.

Ah, em tempo, descobri também qual era a carne branca da tal sopa no começo do jantar: barbatanas de tubarão. Politicamente incorreto, eu sei, fiquei surpresa também, mas já não fico mais chocada com nada nesta vida. A gente sente até um certo alívio de saber que era algo assemelhado a um peixe do que saber que era alguma criatura gosmenta, repelente, com mais de oito pernas e três olhos ou coisa do tipo. Tubarão? Ah tá, no worries.

Escrito a mão pela Marcia às 6:08 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (7)

agosto 1, 2006

In Season - Kumquat


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Adoro estas pequenas frutinhas cítricas chamadas Kumquat. Parecidas com seus parentes limões, mas bem diferente no sabor porque são mais suaves e delicadas. Diferente das kumquats populares que têm formatos ovais, estas kumquats que encontramos aqui são da espécie Fortunella japonica e são redondinhas.

Taiwaneses adoram kumquats e fazem diversas sobremesas com elas, entre elas as compotas e marmeladas. Já eu adoro chá verde com kumquat e gelo que servem nos restaurantes. E aqui em casa fiz uma grande jarra de kumquatnada, esmagando as frutas com açúcar granulado não-refinado e adicionando água gelada.

A temperatura aqui continua nos insupertáveis 32-33ºC, umidade de 80%, e há quem diga que nada melhor do que um bom copo de limonada geladinha para refrescar. Well, depende. De acordo com a medicina chinesa, alimentos podem ser ying (frios) ou yang (quentes), dependendo da reação que causa em seu corpo. O limão amarelo, que é chamado de lemon na Inglaterra, é alimento yang e aquece o corpo. Já o limão verdão, que é chamado de lime na Inglaterra, é ying e refresca o corpo. Então, dizem os chineses, é preciso escolher a fruta certa, senão o tiro sai pela culatra.

Não sei exatamente aonde o kumquat se encaixa, mas o suco já está pronto e o ar-condicionado ligado.

Para finalizar, comentário de Mr.M: "You know what would be nice? Caipirinha de kumquat!"
He knows everything. :o)

Escrito a mão pela Marcia às 9:57 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (6)

julho 28, 2006

Kyushoku

Taiwan tem muitas influências de seus países vizinhos. Boas e más, mas outro dia falo das más porque preciso usar muitos neurônios e no momento o estoque está às moscas. E da parte boa, muita coisa vem da cultura japonesa, deixada aqui após a invasão nipônica que durou 51 anos (1894-1945).

Entre tantos aspectos intelectualmente e culturalmente fascinantes, meu cérebro só conseguiu registrar um, obviamente porque diz respeito à alimentação. Mais especificamente, diz respeito ao sistema de merenda escolar, que no Japão é chamada de kyushoku. E Taiwan adota o mesmo método em algumas de suas escolas.

Pois bem, mas o que existe de diferente nesse sistema, você leitor, que já não tem merenda escolar há pelo menos duas décadas, me pergunta. Então eu lhe respondo caro leitor ancião: é muito, mas muito diferente de qualquer sistema de refeição escolar ocidental. A filosofia que involve é totalmente diferente.

A começar pelo fato que eles não relacionam a merenda escolar como um "intervalo" para estudantes e professores se verem livres um dos outros e fazerem o que bem entendem. Não. E a comida não é para encher a barriga e aplacar a fome, encher o vazio. Não. A hora da refeição nas escolas é como qualquer outra atividade curricular e é levada com o mesmo respeito que qualquer outra disciplina. É a hora da educação alimentar, é a hora em que a escola se esmera para ensinar o que é uma alimentação balanceada. É um assunto tão sério, que cada cidade no Japão tem suas secretarias políticas que coordenam todo o processo, de nutrientes à procedência dos ingredientes.

Escolas que usam esse sistema kyushoku cobram taxas diárias (mais ou menos US$1.85) pelas refeições. Todas as crianças de cada cidade comem a mesma refeição, sejam ricos ou pobres. E todos os pais recebem uma cópia do menu que lista as quantidades, calorias, proteínas, ingredientes e formas de preparo de cada item. Crianças alérgicas recebem lanches sem o produto que causa reação ou então, em casos mais graves, podem levar seus próprios lanches feitos em casa. Vegetarianos também. Uma vez por ano os pais são convidados a experimentar uma amostra do que vai ser servido aos alunos e são também informados sobre como os menus são decididos, como as cozinhas funcionam e tudo mais.

Um exemplo de um menu típico de uma semana na cidade de Yokohama é:

SEGUNDA -- pão, leite, bolinho de peixe, ensopado com porco, batata, nabo, cenoura e espinafre, gelatina de pêssego e suco 100% natural.

TERÇA -- arroz branco, leite, tofu com porco, salada chinesa com broto de feijão, pepino, cenoura e amendoim, laranja de sobremesa.

QUARTA -- pão com passas, leite, macarrão bolognesa com cebola, cenoura, salsão e cogumelos, salada de nabo, pepino e cenoura, maçã de sobremesa.

QUINTA -- arroz branco, leite, sukiyaki com carne, tofu e vegetais, sobremesa de ougiage, que eu não sei o que é.

SEXTA -- leite, sanduíche de ovo com maionese, sopa de vegetais com porco, bacon, batata, repolho, cebola e cenoura, sorvete de sobremesa.

Daí vem a parte interessante. As crianças comem suas refeições na sala de aula, em suas próprias carteiras. Geralmente duas ou três crianças vão até o refeitório e trazem o carrinho com as merendas, as bandejas e talheres. As mesmas crianças, vestidas de aventais, luvas e máscaras, servem todos os seus colegas. E então quando todos foram servidos e estão em suas carteiras prontas para começarem a comer, as crianças juntam as palmas de suas mãos, fazem uma reverência e dizem bem alto "Itadakimasu", que em japonês quer dizer algo como "eu agradeço e aceito o que me foi servido". E comem. Crianças que geralmente não comem isto ou aquilo em casa, na escola, vendo os outros colegas comendo, acabam comendo também. A magia de se comer em grupo.

Elas não são obrigadas a comer tudo, comem o que querem, deixam o que não querem, ninguém força absolutamente nada, ao contrário do que acontecia no passado. Porém, as crianças mais novinhas do primário, se não comerem tudo, precisam levar suas bandejas para a professora ver se elas comeram o suficiente ou não. A professora então pode encorajar a criança a comer mais um ou dois items da refeição ou então decidir que sim, ela comeu o suficiente.

Quando todos terminam, as mesmas três crianças que trouxeram a refeição recolhem tudo e levam para o refeitório. Quando elas voltam pra sala de aulas, todos os colegas levantam e reverenciam dizendo bem alto "Gochisousama" que ao mesmo tempo quer dizer "foi uma grande fartura" pela refeição e também é uma forma de agradecer aos três coleguinhas que fizeram todo o trabalho de distribuição. No outro dia outras crianças são convocadas para fazer o mesmo trabalho, sucessivamente. Com isso, a escola busca ensinar que ninguém está acima desse tipo de serviço e que eles devem sempre, sempre ser muito agradecidos a quem lhe serve.

Mas ainda não terminou. As crianças agora partem para os lavatórios, todas escovam os dentes. E então chega o momento de limpar a escola. De lenço na cabeça, eles limpam desde os corredores aos banheiros (com exceção dos vasos sanitários que precisam usar desinfetantes considerados perigosos para crianças), com ajuda de todos os professores e alguns pais que queiram participar. É parte da mesma educação e disciplina de cuidar de seu ambiente e nunca esperar que alguém menos privilegiado faça por você.

Então aí estão todas as diferenças das merendas escolares que alguns países asiáticos adotam. Algumas escrevi explicitamente, outras você mesmo pode deduzir. O que as crianças aprendem nesse sistema vai muito além do que aparece em suas bandejas. Senso de comunidade, de nutrição, de gentileza, de gratidão, de cidadania. E muito, muito mais. Não se trata simplesmente de uma refeição e é isso que muitos países ocidentais sequer conseguem entender. A refeição é apenas o começo de toda a educação. Jamais consigo imaginar tal sistema ser aplicado em países como Inglaterra e EUA, onde um bando de pais estariam processando a escola (o quê? limpar o banheiro? meu filho, não!). Cada um com seu cada qual, não é um sistema para todas as culturas mesmo. Mas funciona e funciona muito bem para países como Japão e Taiwan. Chega a ser bem bonito de se ver, na verdade.

Neste link aqui você pode ver um dia típico de uma escola de ensino elementar. E neste outro link, as crianças sendo servidas pelos seus coleguinhas. Nem todas as escolas no Japão adotam o kyushoku, em muitas delas as crianças levam seus próprios almoços feitos em casa, mas nunca deixam de ser refeições balanceadas, chamadas de obentô. Mas isso é imenso assunto para outro post.

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julho 22, 2006

In Season

Acabou de passar a temporada das Lychees, comemos vários cachos dessa delicada frutinha por vários dias. Depois veio a temporada dos kiwis amarelos, tão diferente dos verdes, bem mais suculentos. E há outras frutas que estão sempre em temporada, como o abacaxi, que é vendido no supermercado e tem sempre uma atendente que descasca, corta em cubinhos e coloca num pacote para você poder levar pra casa. Banana, melancia e maçã também existem em abundância. Agora a temporada é de mamão papaya, fruta do conde (que o Martin chama de "a fruta que seu pai comprou pra mim no Brasil"), caqui, grapefruit, manga, pêssego.

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Obviamente, quando em estação, as frutas estão em seu melhor, maduras, mas ainda firmes e bastante suculentas. Em poucos dias elas passam a ficar supermaduras e o preço despenca. É quando percebemos que a estação está passando. É ótimo ter essa variedade, mesmo que a gente tenha que se despedir de alguma frutinha em tão pouco tempo, como as lychees. Mas outras vêm em seguida e animam o dia. Tão diferente da Inglaterra, onde temos praticamente os mesmos tipos de frutas o ano inteiro e todas com o mesmo gosto de nada, salvas algumas berries.

Sempre que corto uma fruta aqui em Taiwan admiro a cor viva, o suco escapando de fininho, o perfume doce que finalmente se liberta de seu interior. Às vezes dá vontade de tirar uma foto para guardar o momento. Outras vezes (a maioria das vezes) a gula é maior e não sobra nenhuma para posar para a câmera. A manga e o pêssego tiveram seus momentos porque havia bastante deles suficiente para fotografar e comê-los ao mesmo tempo.

Tentando focalizar a pele aveludada do pêssego, lembrei de uma entrevista que Gordon Ramsay havia dado a uma revista. O repórter havia perguntado se ele tinha algum truque para tirar a pêle do pêssego facilmente. E Ramsay respondeu: "Yes, buy a nectarine". Haha. Porquê alguém vai querer tirar o fino manto da única fruta vestida de veludo é algo que me escapa da compreensão.

As fotos não estão muito boas. Câmera nova, lente nova, Márcia velha. Treinando depth of field e saturação. Não fui feliz em nenhum dos dois treinos. E sim, além do Mr. Prato Horroroso Azul, também temos o Mr. Prato Pavoroso Cor de Laranja. Monstros marca Carrefour, comprados pela empresa porque eram os mais baratos do mundo. Não, não os defendam. Eles podem até sair decentes nas fotos (não por mérito deles, diga-se) mas odeio-os. Brancos sempre. No máximo um filete dourado na borda para dar a ilusão de que a comida é maior (ah-há, sabia dessa?). Mas brancos, elegantes, discretos, pano de fundo pra comida, que esta sim, precisa ser colorida. Pratos querendo chamar atenção para si mesmos me irritam. Profudamente. Pratocídio é a única solução.

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julho 17, 2006

Storm's Eye

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Teve de tudo um pouco. Muitas enchentes por todo país, alagamentos diversos, pontes destruídas, deslizamentos de terra. E não foi pra menos. Como mostra o quadro pluviométrico acima, choveu tanto que até saiu dos níveis máximos da tabela. Três dias de tempestades intermináveis. Pequenas pausas de uma meia hora ou menos entre elas. De resto, choveu torrencialmente por horas e horas, nos três dias. Ventos fortíssimos quebraram várias árvores do nosso bairro, arrancaram outdoors, levaram nossa paciência. E nosso apartamento não ficou ileso: por uma rachadura no canto da janela da sala de estar entrou água, muita água da chuva, que se espalhou pelo chão inteiro. A sorte é ter piso de cerâmica e sofá com pezinhos, só tivemos que dar conta dos panos-de-chão, mas não deu muito mais trabalho que isso.

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Enquanto isso, na longínqua São Paulo, onde a tempestade de violência e impunidade parece nunca ter fim, meu querido pai Seu Jorge, que voltava a pé de seu honesto trabalho, se chocou com uma moto (que sequer parou) e ficou machucado. Então fica aqui meu querido abraço a ele, cheio de carinho e afeto e muitos Band-Aids, com desejos de que ele se recupere bem. Beijos, pai.

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julho 13, 2006

Bilis

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Esta é a foto do satélite desta manhã, a tempestade tropical Bilis quase engolindo a pequena Taiwan. O país todo recebeu alerta do Central Weather Bureau para se preparar para severas tempestades. Mas pela previsão, não haverá ciclone, por isso o Typhoon mudou de nome para "severa tempestade tropical". Apenas forte vendaval, enchente, mar em ressaca e deslizamento de terra. Ah tá, então tudo certo.

No exato momento chove um pouco, troveja um pouco, venta bastamte. O Bilis está previsto para atingir com força total esta noite e na manhã da sexta-feira.

Escrito a mão pela Marcia às 3:31 AM | mais em M&M in Taiwan

julho 10, 2006

Random thoughts

Três meses e uma semana aqui em Kaohsiung, Taiwan. Neste mesmo tempo na África do Sul nós já tínhamos voltado pra casa exaustos. No entanto, em Taiwan ainda parece que acabamos de chegar. Talvez porque mudamos tantas vezes, só agora é que parece que finalmente estamos mais acomodados numa rotina. E talvez porque também não estamos sentindo a menor vontade de voltar pra casa. Ainda.

Quando mudamos para este apartamento, eu não estava muito satisfeita porque é bem menor do que o outro em que estávamos. Mas agora passadas algumas semanas, percebo que é muito, muito melhor. O chuveiro é decente, a água quente é constante e forte, o banheiro em si é muito mais espaçoso. O apartamento inteiro é bem iluminado, a vista daqui de cima é linda, os donos compraram um colchão excelente novinho pra nós. Compraram também nova cortina para deixar o quarto mais escuro e agora estamos dormindo com muito mais conforto e sossego. O andar inteiro é silencioso e acima de nós só a chuva faz barulho.

Descobrimos um canal que está passando Smallville (Season 5) e para o nosso delírio, encontramos esse canal no episódio que havíamos parado de ver na Inglaterra e agora estamos acompanhando na seqüência diariamente. Tem sido ótimo porque estávamos ansiosíssimos para saber o que havia acontecido depois do centésimo episódio da série.

Quase não vemos muita TV aqui, aliás. Além dos canais de filme que passam pouca coisa nova, temos só uns três ou quatro canais de variedades e notícias, que nem sempre são interessantes. O resto é tudo em chinês e a NHK em japonês.

Sinto falta dos programas ingleses, principalmente de dar risada com Catherine Tate, Have I Got News for You, Never Mind the Buzzcocks, Jonathan Ross, entre muitos outros. Se soubéssemos do Slingbox um pouco antes, teríamos comprado e configurado, mas no nosso apartamento na Inglaterra cancelamos todos os serviços de TV, telefone, internet, tudo.

Falando ainda em TV, não acompanhamos a nenhum jogo da Copa. Só lia as manchetes no dia seguinte e via quem ganhou, quem perdeu. Não que a gente não ligue (na verdade não ligamos mesmo, nenhum de nós dois gosta de futebol), mas a principal razão é que os jogos eram todos transmitidos depois da meia-noite aqui. E o país inteiro também parece que não estava muito interessado na Copa (Taiwan perdeu nas eliminatórias com 3 gols favoráveis e erm... 26 gols desfavoráveis), dificilmente se via alguma propaganda a respeito. Só nos bares, tentando atrair o bando de expats.

Mais um typhoon passou raspando por aqui, trazendo tempestades fortíssimas, mas sem destruição. Outro typhoon vêm se aproximando e a sua rota está voltada diretamente para Taiwan. A previsão é de atingir a ilha na quinta-feira. Ainda é cedo para saber a intensidade, precisamos acompanhar nos noticiários. Um dos colegas do Martin passou por um forte typhoon no ano passado aqui em Taiwan e teve que ficar em casa por três dias sem sair pra absolutamente nada, até tudo passar. Por isso que precisamos acompanhar a cada dia a evolução e a rota do typhoon. Se for certo que vai atingir o país inteiro e a força dos ventos é muito perigosa, então um dia antes precisamos estocar galões de água (água da torneira não é potável) e comida para não precisar sair de casa no meio do furacão. Pelo menos dá tempo de se preparar sem pânico.

Ah, antes que eu me esqueça: o blog está com os comentários fechados. Meu servidor avisou que há um buraco no script dos comentários e uns hackers estavam tentando explorar essa brecha para inundar com spam. Desabilitamos o script, instalei uns plugins mas por enquanto os comentários vão precisar ficar fora do ar. O tempo realmente pesa diferente nas mãos de uns do que de outros. Tsc.

Update: Comentários de volta agora com um bom plugin que verifica se você é humano ou idiot-robot, que deve resolver o problema.

Escrito a mão pela Marcia às 6:44 AM | mais em M&M in Taiwan

julho 4, 2006

Lo Bak Ko, the Turnip Cake

Para não dar a errada idéia de que aqui em Taiwan só tem comidas estranhas e rastejantes, apresento-lhes um dos pratos mais adorados em restaurantes de Dim Sum do mundo todo: Lo Bak Ko, o mais delicioso e delicado bolinho de nabo.

Comi pela primeira vez no restaurante que a Jo nos levou, mas nem sabia o que era, só sabia que tinha gostado bastante. A Jo havia dito o nome mas eu não tinha entendido e sequer sabia como soletrar em Chinês. Procurei e vasculhei toda a Internet e por dias não consegui encontrar. Mas finalmente minha busca foi recompensada e hoje sei o nome, a receita e título de eleitor do dito cujo.

A preparação dele é simples: nabo ralado misturado com farinha de arroz, caldo de cogumelos, de porco ou de camarão, temperos e tal. É cozido por uma hora no vapor até endurecer e depois de frio é cortado em quadradinhos e fritos na grelha. E o resto é história. Crocante por fora, muito cremoso por dentro, sabor bem suave, nem bem se sente o gosto do nabo, na verdade. Se você, leitor faminto, tiver a oportunidade de ir a um dos milhares restaurantes Dim Sum verdadeiros espalhados no mundo, não perca a chance de pedir uma porção de Lo Bak Ko. Este eu recomendo sem hesitar porque é o dim sum mais popular entre ocidentais e crianças.

Como eu não tenho instrumentos suficientes nesta minha micro-cozinha para fazer a receita, comprei um pacote de Lo Bak Ko no supermercado mesmo, pronto para fritar. Não é tão bom como os preparados na hora, mas ainda assim... mmmm!

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Oh sim, não fui eu quem comprou esse prato nessa cor horrorosa, pavorosa, que assusta qualquer comida. Preciso ir comprar pratos brancos urgentemente.

Escrito a mão pela Marcia às 5:37 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (6)

junho 30, 2006

A Thousand Years in One Hundred Days

Minha lista de iguarias que nunca passarão pela minha boca esta a cada dia ficando menor. Quando chegamos aqui já havia lido no guia Lonely Planet sobre o tal Thousand-year Egg, extensamente popular em Taiwan, que produz um dos melhores do mundo. Achava que era algo bastante raro de se encontrar, mas para minha surpresa qualquer supermercado vende uma caixa com quatro unidades. Até o 7Eleven ("SebenEleben" como eu e Mr.M chamamos, hihi) daqui da esquina vende. Comum, popular e adorado por toda a nação.

Mas o que vem a ser então Thousand-year Egg, você ávido leitor se pergunta, já sabendo que poucas iguarias podem me causar estranhamento e também, com uma certa estranha razão sádica, já torcendo para que eu me meta mesmo nessas comidas arrepiantes. Então lhe explico, caro leitor sádico: Thousand-year Egg ou Century Egg ou Pídàn é nada mais que ovo de pato preservado. Ou conservado. Ou, mais precisamente, fossilizado.

Para prepará-lo a receita é muito simples. Primeiro é feito um chá preto bem forte, no qual se adiciona óxido de cálcio, que é elemento de decomposição da pedra calcária. Em seguida, são acrescentados sal marinho e bastante cinzas de madeira de carvalho até formar uma pasta que se assemelha à argila. Cada ovo de pato cru é então envolvido nesta pasta e coberto por casca de arroz, para não grudar um no outro. Os ovos são então guardados em jarros de barro e cobertos por um tecido. E assim descansam por não menos que 100 dias.

Durante esse tempo, a mistura de sal, cálcio e cinzas aumenta os níveis de pH e sódio e formam componentes naturais bastante alcalinos, que impedem os ovos de serem estragados. Passados os 100 dias, os ovos são curtidos, a clara endurece como se tivesse sido cozida e adquire uma coloração âmbar, transparente e brilhante. Já a gema ganha uma coloração e consistência parecida com petróleo, um caledoscópio de cores preta, verde e azul, conforme a luz. E o gosto (diziam) é bastante pungente, semelhante ao queijo gorgonzola bem maduro, mas com gosto de terra. E não é recomendado simplesmente dar um dentada neste ovo porque (diziam) o sabor está muito concentrado e é (diziam) desagradável.

Pela descrição que havia lido no Lonely Planet, já tinha colocado o Thousand-year Egg na lista dos no-no (e nunca mais faço isso, principalmente porque o autor colocou no guia um fato sobre este prato que é na verdade um grande mito). No entanto, conversando com meus fellows gourmet enthusiasts, muitos deles me encorajaram a ao menos provar, já que é uma iguaria incomum e Taiwan tem os melhores do mundo. Me disseram também que o mesmo ovo servido em Congee (um mingau de arroz, caldo de carne de porco, tofu frito e cebolinha, delicioso!) é muito mais suave e saboroso. Muitos outros se juntaram a nossa conversa e cada um contou de que forma preferem preparar e servir seus ovos cor de âmbar, todos bastante entusiasmados e com boas lembranças do Congee com Thousand-year Egg. Passado algum tempo, fiquei com tudo isso na cabeça e minha curiosidade só cresceu e cresceu.

Nesta semana a Jo veio aqui no apartamento para esperar o Cable Guy vir instalar nossa TV a cabo. E o moço sumiu por três horas e nesse período papeamos sem parar, mostramos fotos pelo Yahoo! Fotos uma para outra, contamos sobre nossas vidas e acabamos fatidicamente conversando sobre comida. Perguntei a ela sobre o Thousand-year Egg e na hora ela ficou super animada de me fazer experimentar, mesmo porque ela já sabe que eu e o Martin somos muito muito receptivos a provar coisas novas (diferente, aliás, de todos os outros britânicos que estão aqui no momento). E ontem a noite ela marcou um jantar como todos nós num restaurante especializado em Dim Sum na China Trust.

Nós nunca tínhamos ido neste lugar e ficamos impressionados. Bem legal, mesas amplas e carrinhos de comida bem quente circulando, tudo preparado na hora e você escolhe o que lhe atrai e a garçonete tira do carrinho e coloca na mesa, sem demora. Jo escolheu todos os pratos para que a gente pudesse experimentar os mais famosos. Mas ela foi bem cuidadosa em escolher os mais "ocidentalizados" pra ninguém ficar sem comer. E logo em seguida ela chamou a garçonete e cochicou algum pedido.

Em pouquissimo tempo, a garçonete voltou com uma tigela quentinha de Congee com Thousand-year Egg e colocou bem na minha frente! Aaaawww, não é um doce essa Jo? Parei imediatamente o que estava comendo (hard task) e me concentrei no tal congee. O ovo estava perfeito, clara cor de coca-cola em consistência de gelatina dura, gema brilhante e escura, tudo cortado em cubinhos e misturado na brancura límpida do mingau de arroz. Peguei uma porção do Congee e um pedaço grande de ovo. Tentei sentir o aroma do ovo, mas o cheiro do Congee estava mais forte. E experimentei. Jo esperava ansiosa pela minha reação. E realmente eu me surpreendi:

"But it tastes like egg!!" eu exclamei, porque a textura e o gosto não eram muito diferente de um ovo, simplesmente. Comi bastante do congee, que estava divino, e testei e testei e continuei achando que o Thousand-year Egg tinha gosto de ovo.

E Jo fez uma expressão de quem diz "Óbvio, duh".

Daí perguntei a ela onde estavam o cheiro pungente de terra, sabor amônia-gorgonzola, que tanto li a respeito. E ela me explicou que Thousand-year Egg cozido em congee perde quase todo o cheiro forte e retém o sabor fresco do ovo e é essa a intenção de se preservar o mesmo. Já muitos gostam do sabor e aroma forte e a melhor maneira de prová-lo assim, disse Jo, é em forma de salada de tofu. Ovo e tofu cortados em cubos, regados com shoyu e depois polvilhado com cebolinha verde. Mas ela me recomendou a experimentar o congee primeiro, se eu gostasse, tentar a salada numa outra vez.

Well, bring it on then, i'm ready! Pra falar a verdade, adorei. Foi uma excelente oportunidade para experimentar, com a Jo ali para dar seu selo de autenticidade, e aproveitei bastante minha chance. Perdi meu receio a respeito do ovo de pato preservado e quero provar novamente.

O que mais me fascina a respeito do Thousand-year Egg é a inteligência deste povo asiático de aprender a conservar um alimento. Há muito tempo atrás, numa época sem eletricidade, conservar comida era uma opção entre viver ou morrer nas épocas de escassez. Estudos e testes sobre níveis pH, bactérias e condições ambientais nessa mesma época eram tarefas difíceis, se não quase inimagináveis. Mesmo assim este povo aprendeu a ler o que acontecia ao seu redor, aprendeu a driblar a reação química, aprendeu a sobreviver. Não me espanta que taiwaneses sejam tão orgulhosos de sua produção de Thousand-year Egg, é mesmo admirável, de uma cultura muito mais antiga e milenar que a nossa e espero que muitas gerações continuem a produzí-los e a saboreá-los com o mesmo gosto.

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Escrito a mão pela Marcia às 3:40 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (8)

junho 26, 2006

33 and counting

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Este foi o bolo do meu aniversário ontem. Um mini-bolo de chocolate com mousse de chocolate e coberto de calda de framboesa. No topo, uma fita de chocolate branco e uma framboesa com -- notem, notem, notem -- um mínimo de fragmento de ouro. Sim, ouro. Minhas vísceras são as mais chiques.

No segundo plano, o crème brûlée de manga, escolhido por Mr.M.

Tivemos um dia excelente, ganhei os pesentes mais kawai do planeta e fomos jantar num restaurante japonês do hotel em que antes fora nosso lar. Bacaníssimo lugar, toalhinhas quentes, diversas porcelanas, chá verde a toda hora, comemos o sushi (hand roll de camarão e pepino) mais fresco e delicioso do mundo e tempura de legumes perfeitos, entre eles um de cogumelo recheado fantástico. Depois tivemos nossas sobremesas, os bolos mais chiques do universo.

E mudamos. Já estamos instalados no novo apartamento. Há malas e caixas abertas espalhadas. Sacolas e pacotes também. Ontem colocamos bastante coisa no lugar, principalmente para tornar o apartamento funcional. Toalhas, papel higiênico, copos, roupa de cama, escovas de dente, microondas, aquela coisa toda. O único inconveniente foi que a geladeira foi deixada fechada por muito tempo com umidade dentro. E tinha traços de bolor. Passei quase duas horas do meu dia especial tirando e lavando todas as prateleiras; esfregando todas as paredes internas, desinfetando cada milímetro de tudo com o mais poderosos dos desinfetantes (hospital grade). Talvez sejamos intoxicados de Benzalkonium Chloride e Cationic Surrfactant, mas hell não há mais bactérias.

No primeiro jantar neste apartamento tivemos Cornish Pasties (hooray, hooray!), aspargos e vinho tinto Jacob's Creek.

Hoje tenho muito a fazer, todos os armários e guarda-roupas me aguardam ansiosos e famintos.

Escrito a mão pela Marcia às 2:53 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (12)

junho 24, 2006

Moving Out (Again)

Estamos de mudança novamente.

Pela terceira vez em muito pouco tempo estou empacotando nossos pertences. E agora além das malas, temos todos estes eletrodomésticos e parafernalha interminável.

Estamos nos mudando para um outro apartamento, mas aqui no mesmo condomínio. Sairemos do terceiro andar e nos mudaremos para o topo de outro prédio. A causa da mudança é o barulho em horários não-civis e a falta de pressão da água. O outro apartamento é menorzinho e menos charmoso, mas vamos ver se agora pelo menos a gente pode tomar banho e dormir decentemente.

Não sei quando vai ser instalada a Internet por lá, talvez demore um pouco.

Esta vida nômade me cansa, às vezes.

Escrito a mão pela Marcia às 4:02 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (3)

junho 20, 2006

Air Raid Drill

Hoje aconteceu em todo país o Air Raid Drill, mais ou menos como um toque de recolher, para testar as sirenes de emergência.

Às duas horas da tarde as sirenes de Kaohsiung começaram a tocar, alertando à população a permanecer dentro de casa (ou qualquer outro estabelecimento) até segunda ordem. As ruas ficaram completamente vazias, sem carros, sem pedestres. Só policiais patrulhando, uma vez que o treinamento é militar e quem desobedece recebe multa. Fiquei na janela só admirando algo que dificilmente se vê pelas ruas de Taiwan: vazio e silêncio. Às duas e meia outra sirene soou, indicando o fim do treinamento.

Soube do Air Raid Drill pouco antes de começar. Um dos colegas do Martin havia recebido um aviso do hotel e avisou os colegas. Martin me ligou quinze minutos antes para me avisar. Como não lemos Chinês, não sabíamos que tal treinamento iria acontecer e certamente teríamos ficado alarmados, nestes tempos de guerra, principalmente se estivéssemos nas ruas, com todo mundo correndo para dentro. Ninguém da empresa nem para nos informar. Um anúncio em qualquer 7Eleven também teria sido bem simples e útil, mas nada. Mas tudo correu bem, a amizade é a mesma. Méi shén me (never mind).

Escrito a mão pela Marcia às 7:45 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (3)

The Time Travelers

Trouxe alguns livros da Inglaterra para ler aqui. Livros que demorei para escolher na querida Borders porque queria bons parceiros de viagem, boas estórias, boa escrita. Entre eles, The Time Traveler's Wife (Audrey Niffenegger), que terminei de ler quando ainda estávamos no hotel. E quando Martin viu o livro, logo me mostrou a data em seu crachá: 1995. E me explicou que em Taiwan o calendário está 11 anos atrás do ocidental. Então estamos vivendo o ano de 1995, outra vez e pela primeira vez.

Estava satisfeita com esse primeiro livro, de situações convincentes e bem construídas, de espera, de ausências, de presente. Mal sabia como os outros dois que trouxe me levariam por viagens tão mais fascinantes:Shadow of the Wind (Carloz Ruiz Zafon), pela Barcelona da época de reino fascista de Franco; e The Kite Runner (Khaled Hosseini), pelo Afghanistão pré-invasão Russa, pré-Taliban, quando crianças tinham infância. Este último, um dos melhores que li em muito tempo.

Agora sem livros estou. E como na livraria aqui da frente do prédio vende muitos da coleção dos clássicos em inglês, é com eles que vou colocar minha leitura em dia. Livros que sempre pensei em ler, mas no final, entre os tantos lançamentos disponíveis nas livrarias inglesas, sempre acabava escolhendo um mais contemporâneo. O primeiro que comprei aqui é Great Expectations (Charles Dickens) e estou prestes a embarcar no século 19.

Escrito a mão pela Marcia às 4:34 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (5)

junho 14, 2006

Indiana Jones and The Temple of Doom -ish Banquet

Eu nem sei por onde começar.
Eu nem bem queria escrever nada para evitar pedras e longas lições de moral e veganismo e isso e aquilo. Porque poucos entendem que estamos em outra cultura, outro mundo. Mas não há como não registrar aqui uma experiência única que vivemos, gastronomicamente falando. Para minha família, pros meus amigos queridos e pra aqueles que entendem.

Então. Fomos convidados a um banquete. Sabíamos que aconteceria cedo ou tarde. Se comer é um prazer para os taiwaneses, um banquete é a manifestação mais pura desse deleite. É com um banquete que eles selam acordos de amizade, negociações de paz, contratos de negócios. E como todo banquete, há regras de etiqueta. E em Taiwan essas regras se estendem em vários sentidos, que não involvem usar talheres corretos, mas sim mostrar gratidão, generosidade, polidez.

O anfitrião geralmente oferece 10 ou mais pratos em seqüência para os convidados. A idéia é servir muito mais comida do que todos nós podemos comer. É o gesto de generosidade dele. Da parte dos convidados é esperado que se prove ao menos um minúsculo pedaço de tudo o que é servido. É o seu gesto de gratidão. É possivel, claro, recusar. Mas recusar às vezes é mais complicado do que engolir um mísero pedaço de seja lá o que for oferecido. Porque ao recusar, logo o anfitrião pede sinceras desculpas por ter escolhido um prato que lhe desagrada, pergunta se você prefere que o chef lhe traga algo diferente, do jeito que você gosta. Isso tudo na frente de todos os outros convidados do banquete, enquanto o evento pára. Em outras palavras, chega sim a ser uma ofensa não aceitar o que é considerado pelo anfitrião tudo o de melhor e mais caro que ele pôde lhe oferecer. Tenham tudo isso em mente quando estiver lendo o restante deste post.

No banquete que fomos estávamos em 13 pessoas: seis britânicos, seis taiwaneses e uma brasileira-nipo-britânica perdida. Os anfitriões eram CEOs da empresa fornecedora de equipamentos para o projeto em que a equipe do Martin está trabalhando. O restaurante era especializado em frutos do mar e ainda mais especializado em banquetes privados. A mesa era redonda, imensa, com outra mesa giratória no centro. Quando todos estavam sentados e com seus copos cheios de cerveja, pratinho cheio de shoyu, hashis, prato, tigela e guardanapos a postos, o banquete começou.

Primeiro, obviamente, um brinde de boas vindas a todos os presentes. E com um sinal o anfitrião pediu que fosse servido o primeiro prato, que geralmente é frio e esperávamos alguma salada, umas porções de suhi ou algo parecido. Mas o que foi servido marcou o resto da nossa noite, senão das nossas vidas.

Uma escultura de gelo, que tinha o formato e detalhes de um navio pesqueiro. Orquídeas frescas decoravam a borda. Dentro, a maior lagosta jamais vista por meus olhos. Uma única lagosta enorme o suficiente para servir uma mesa de treze adultos. A lagosta fora disposta como se estivesse deitada de barriga pra baixo dentro do navio, cabeça na proa olhando pro infinito, rabo na popa, pernas pra fora do navio. Finas fatias de sashimi da lagosta no meio, no que antes fora a calda da mesma. Esse era o prato.

Com um mero detalhe: a lagosta, que há poucos minutos havia sido fatiada em sashimi, ainda estava viva. Sua carne branca transparente, em tiras, estava disposta em suas costas. Suas garras, olhos, braços e pernas ainda mexiam, contorciam, clicavam, sem sair da pose dentro do barco. O prato, a escultura, a lagosta semi-viva, rodava na mesa giratória, nossos olhos arregalados, os queixos caídos. O silêncio desconfortável, durou muitos segundos. Finalmente o anfitrião explicou que era sua forma de nos oferecer algo fresco, o mais fresco possível, a melhor qualidade do melhor crustáceo que jamais poderiamos ter. "Please do try it", nos encorajou. A lagosta deu mais uma volta completa na mesa sem que ninguém tivesse coragem de tocá-la. É esperado que os convidados sejam sempre os primeiros a se servirem e todos os outros taiwaneses esperavam pela vez deles. Mike finalmente pegou um pequeno pedaço. "Please Martin, Marcia, try it", ouvimos. Eu segurei meu hashi e falei em pensamento pra lagosta: "você morreu por nós e nos deu sua carne; para que você não morra em vão, eu aceito, obrigada". Peguei minha fatia, molhei no pratinho com shoyu e comi. Martin fez o mesmo. E todo mundo seguiu. E ninguém conseguia falar nenhuma palavra, o que era um tormento porque podíamos ouvir a lagosta fazer clic, clic, clic com as patas. Logo o clic-clic parou e eu quis chorar. Como somos hipócritas. Nem bem senti o gosto do sashimi, o sabor é muito leve e pouco distinto, nada que justificasse tal espetáculo circense.

Não durou muito tempo, logo a garçonete retirou a agonizante criatura e trouxe um prato cheio de sashimis de salmão, dourado e atum, esses todos bem mortos, para nossa conveniência. Outros pratos seguiram: bifum, que estava uma delícia; pepino amargo em molho de gergelim, broto de bambu cozido; sopa de ostras, divina; peixe grelhado e peixe no vapor; lula marinada em thai basil e chilli peper, muito saborosa; manjubas fritas; camarões fritos; costelas de porco assadas e mais um monte de outros pratos que não me lembro. E como em toda refeição taiwanesa, logo chegou em nossa mesa, sobre o fogareiro, outra sopa, mais leve, para ajudar a digestão. E quem é que não retornou à mesa se não nossa conhecida lagosta? Sim, agora dentro da sopa e eu dei risada porque já não sabia mais o que fazer ou pensar nessa altura.

E como todo bom banquete asiático, tudo terminou em karaokê, mas não foi tão divertido quanto o primeiro que fomos porque não pudemos ser bestas e ridículos na frente dos anfitriões. Mesmo assim Martin levantou e saiu correndo para pegar o microfone e cantar Yesterday (Paul MacCartney) e Hello (Lionel Ritche). Eu quase que não reconheço esse moço que canta em karaokê com essa empolgação toda. Os taiwaneses cantaram várias em chinês, depois alguns deles (uns velhinhos bem gracinhas, uns amores), cantaram em inglês com a gente. Foi divertido.

Durante todo o jantar, são feitos pequenos brindes individuais, que eles chamam de "ganbei". Qualquer um pode erguer um brinde a qualquer outro e ambos devem secar o copo de uma vez. O copo era bem pequeno, então era fácil. E os "ganbei" acontecem a todo instante, tem sempre alguém erguendo um brinde, várias vezes e aí sim não se deve recusar. Mas todos os brindes a mim não precisavam ser esvaziados, porque eu não bebo (muito). Aliás todo mundo me chamava de Lady, porque ninguém consegue pronunciar meu nome aqui. Então eu era Lady, posh or what?

Logo o "ganbei" passou a ser brincadeira e os taiwaneses caíram na bobeira de tentar deixar os britânicos bêbados. Hohohohohohohoho... eles não caíram do cavalo? Depois de vários "ganbei" eles perceberam que nenhum dos britânicos estavam minimamente abalados e pararam. Mas aí os britânicos é que começaram a levantar os "ganbei" e os taiwaneses não tinham como recusar e saíram de lá pra lá de Peru (Baghdá é perto).

No final do jantar, relembrando, tivemos uma ótima noite, conversa animada, boa comida, experiências únicas que jamais teríamos se não tivéssemos sido convidados. Ficamos chocados com o incidente da lagosta, mas hey, vamos ter do falar por muitos anos pela frente. Pelo menos não foi algo extremamente repugnante como o banquete em Indiana Jones e o Templo da Perdição (que não é totalmente ficção, os pratos que aparecem no filme são iguarias em vários países deste canto), mas chegamos perto e não queremos ir mais além que isso.Acho que ainda teremos outros jantares assim para atender até o final do projeto. Sabe-se lá o que vem pela frente. Não reclamo, jamais reclamo, na verdade me sinto privilegiada de ver e vivenciar tudo isso. O mundo é realmente um lugar estranho.

Escrito a mão pela Marcia às 6:37 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (21)

junho 12, 2006

Downpour

Não sei se as notícias chegam ao oeste do mundo, mas por aqui na Ásia-Pacifico o mundo está se acabando em água. Eu, paulista acostumada com enchentes e enxurradas daquelas que carregam carros rio abaixo, me assusto com as tempestades daqui. Porque parecem não ter fim. O céu fica escuro durante todo o dia, como se estivéssemos num dos pólos extremos da Terra, distante do sol. O céu negro não passa, nem depois que a tempestade começa, indicando que a chuva vai cair por todo o dia. Estranho, muito estranho.

A água que cai é intensa, muita água, muita muita chuva, trovões retumbam agressivos, raios chovem também. Mas não como as chuvas fortes que costumamos ver. Tudo acontece intermitentemente, sem fim, sem parada. No sábado choveu e acumulou 106 milimetros, como há muito tempo não se via no país. Em Kaohsiung houve enchentes, deslizamento de terra e descarrilhamento de trens, aquele caos. Na China há centenas de desabrigados. No Japão houve terremoto também, como se já não bastassem as tempestades.

Hoje acordei e a escuridão persistia, sinal de mais um dia de tempestades. Sonhei com minhas cachorras Sasha e Bianca, um sonho triste porque senti o calor do corpo delas, porque não pude mantê-las comigo, porque elas precisavam ir com pressa, para algum outro lugar que eu não podia seguir. Um amanhecer ainda mais triste porque elas já não estão mais aqui por tanto tempo.

E eu preciso ir comprar um guarda-chuva novo. O meu já era velho e se quebrou. Guarda-chuvas são duplamente úteis em Taiwan porque protegem contra chuva e principalmente do sol forte. Ontem caminhamos na vizinhança o dia todo para descobrir novos lugares e percebemos como é muito mais fácil andar embaixo de chuva do que do sol impiedoso desta terra. Então logo vou numa dessas lojas que vendem três milhões de guarda-chuvas e sombrinhas coloridas em tons pastéis para escolher um para mim.

Porque quero continuar pelas ruas, mesmo que chova, mesmo que o sol queime, mesmo que meus sonhos me inundem e me afoguem.

Escrito a mão pela Marcia às 4:26 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (2)

junho 7, 2006

Wor gwài-èr ler!*

Eu sei que estou devendo um post ou uns doze posts sobre a culinária taiwanesa. Pensei em várias coisinhas diferentes, mas nada que me inspirasse a escrever. Decidi então ir com calma, escrever um pouquinho por vez, mesmo porque é difícil classificar em um só post que a comida de Taiwan é assim ou assado, preto no branco, porque cada região têm seus pratos típicos, suas influências externas, seus costumes de preparar. As minhas impressões descritas aqui, retalhadas e picadas e sob a ótica de uma estrangeira perdida, serão portanto apenas um pálido reflexo (talvez errôneo) da culinária daqui de Kaohsiung City e não de todo o país, mesmo que eu inicie um parágrafo dizendo "Aqui em Taiwan...".

Pois bem. Aqui em Taiwan, comer é um hobby. Dos mais populares e abrangentes. Ande pelas ruas estreitas e no mesmo segundo você entende. Qualquer rua, por minúscula e sem saída que seja, tem pelo menos uma banca de comida. Quanto maior a rua, mais bancas de comida, mais restaurantes, mais feiras. E nos horários das refeições, as ruas fervem. Um misto de Five Spices, peixe, frango frito, alho, shoyu e óleo de gergelim perfumam o ar. Impossível não sentir fome quando o burburinho começa. Woks superquentes sobre o fogareiro de chama única, caldeirões com caldos diversos fervendo, patos defumados pendurados pela cabeça, um mundo de pequenos espetáculos de mãos habilidosas preparando noodles, panquecas de arrroz, gyozas, espetinhos, tudo ali na sua frente.

A grande maioria da população parece preferir comer fora de casa, o que deve explicar o tamanho mínimo da cozinha e a falta de um precioso forno. Na verdade, é muito mais barato comprar alguns dos pratos típicos nas bancas de rua do que preparar em casa. Mas o fato é que comer é um acontecimento social em Taiwan. Os melhores restaurantes sãos os mais barulhentos. Gente conversando animada é sinal de boa comida sendo servida. "Siga o barulho", é a dica que sempre recebemos. E aqui encontramos uma grande diferença.

Em países ocidentais, ser levado a um bom restaurante significa ser levado num lugar bem decorado, com atendimento rápido e discreto, culinária criativa, três ou quatro pratos, vinhos de boa safra, vários talheres, porcelana branca, guardanapo de linho. Em Taiwan, como na maioria dos países asiáticos, ser levado ao um bom restaurante significa muitas vezes ser levado a um fundo de quintal ou a uma porta de garagem com mesas de fórmica, cadeiras dobráveis, calendários de cinco anos atrás nas paredes, mas que serve o melhor prato da região. Porque para os ocidentais, é importante ver o valor do dinheiro gasto, sentir que a conta pagou pelo ambiente, pelo serviço, pela atmosfera. Já para os asiáticos bons restaurantes ganham reputação pela qualidade da comida, única e tão somente, não importa se a decoração é pós-moderna ou decadente.

Não quer dizer que Taiwan não tenha restaurantes bacanas, existem inúmeros, em cada esquina. Também não quero dizer que exista nada de errado com a forma que apreciamos um bom restaurante no Ocidente. Por mim, se Gordon Ramsay fosse um homem pobre e tivesse uma banquinha na rua ao invés do restaurante no Claridge's, eu estaria almoçando lá todos os dias. Mas como ele não é, ainda sonho em um dia juntar minhas moedas e ir gastar todas elas num jantar com tudo que tiver direito e deixá-lo ainda mais rico.

Enfim, o importante de tudo isso é perceber que comer bem aqui em Taiwan não é um privilégio, mas é preciso ter a mente aberta, entender que uma refeição aqui está desassociada ao status. E ter também um pouco de coragem para experimentar o novo, fechar os olhos para certas condições higiênicas, mais ou menos como quando compramos os "churrasquinhos de gato" em São Paulo, como bem me lembrou o Mauro.

A Jo nos sugeriu duas bancas de ruas famosíssimas em Kaohsiung para experimentarmos. E armados com o dicionário fomos imediatamente. A primeira, foi para apreciar o prato mais popular de Taiwan, niúròu mián, que são noodles grossos do tipo udon, com caldo de shoyu, bastante verduras e carne assada no vapor. Abolutamente simples e delicioso, tudo bem preparado e temperado suavemente, a carne simplesmente desmancha na boca. A segunda banca foi a favorita, de Beijing káo-yá, ou Peking Duck, como é chamado na Inglaterra, que são fatias de pato marinado em especiarias, assado e defumado, depois fatiado finamente e servido dentro de panquecas, com molho de ameixa e pepino em tiras. O moço fatia o pato na sua frente, com uma machete capaz de cortar uma rocha, coloca tudo num prato descartável, embala, ainda corta todos os ossos do pato, joga numa wok, adiciona um caldo maravilhoso e muitos ramos de thai basil, despeja tudo num saco plástico e lhe entrega. Depois de comer as panquecas, a melhor parte é ficar pescando os ossos com alguma carne e comer com as mãos, saboreando o caldo fantástico que impregnou os pedacinhos. Indigno, eu sei, mas absolutamente delicioso. Essa banca de patos é muito famosa, bem barata e forma uma fila imensa e fecha antes das oito da noite porque acaba todo o estoque. E isso acontece todos os dias da semana, sempre lotados, sempre vendendo tudo. Espero que eles nunca entrem em contato com Gordon Ramsay.

Essas duas bancas nos marcaram por serem as primeiras que tentamos e viramos fregueses. Já faz tanto tempo desde que as visitamos nas primeiras semanas que chegamos aqui. Hoje tanta comida diferente já passou pelas nossas bocas, principalmente porque moramos muito tempo no hotel e nossa única opção era comer fora. Mas sinto que ainda há um mundo inteiro de comidas me esperando, muito além de tudo o que já provamos. Só de visitar o mercado de comidas eu vejo o quanto ainda não experimentei e o quanto ainda não faço idéia se é doce ou salgado, pra comer ou pra lavar roupa.

Logo conto sobre o Lado B da culinária taiwanesa, aquelas comidas de arrepiar e se indignar, que jamais passarão minha goela abaixo, God willing. Não temos fotos de quase nada porque nossa câmera ficou muito tempo no conserto, vou ver se logo saio para um tour fotográfico pelo mercado de rua. Cheers!


*Estou morrendo de fome!

Escrito a mão pela Marcia às 5:57 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (5)

maio 24, 2006

Our Sweet Non-Permanet Home

Finalmente nos mudamos para um apartamento no último domingo. E é difícil descrever como estamos imensamente mais felizes e à vontade aqui.

Temos mais espaço, mais conforto, mais privacidade, mais liberdade. Foi bacana morar sete semanas em um hotel cinco estrelas, mas confesso que entramos aqui sem olhar para trás. E é tão bom ver que temos nossas coisinhas agora pelos cantos, nossa própria forma de transformar este imóvel em um lar, sem interferências ou intrusões, só nós dois, do nosso jeito.

E maravilhas das maravilhas: agora temos uma cozinha! Pequena, é verdade. Nem forno convencional tem. Mas é funcional, a empresa equipou com tudo o que a gente queria e já fizemos muitas agradáveis refeições aqui. Agora posso tomar meu café da manhã de pijama, assistindo TV, no horário que bem entendo. No hotel eu precisava me trocar e me vestir decentemente, ir pro 43º andar no restaurante com vista panorâmica e esperar a garçonete me mostrar onde eu poderia sentar. Depois de responder "não, obrigada" a uma lista de ofertas, eu finalmente poderia me servir no buffet. E uma vez sentada eu seria vigiada por garçonetes ávidas a retirar meu prato usado, encher minha xícara, trocar meu copo. Bacana no começo, mas depois de certo tempo tudo o que você quer é ser deixada em paz com seu livro e sua xícara e seu pedaço de pão.

E é essa paz que temos agora. Para nós isso é mais que cinco estrelas.

Outro aspecto importante desta mudança é que saímos da asa da equipe do hotel que era fluente em inglês. Agora tudo é por nossa própria conta, sem concierges, sem recepcionistas. Mas não tem sido tão difícil porque mesmo no hotel a gente preferia não pedir muita ajuda. Já tomo taxi sozinha para vários cantos, sempre me preparo antes de sair, sempre coleto folhetos ou cartões dos lugares que quero voltar, assim basta eu mostrar pro motorista aonde quero ir. Aprendi também a dar direções como "à direita", "em frente" etc.

Na verdade, taiwaneses em geral são muito amigáveis quando percebem que somos estrangeiros e estão prontos para ajudar, como nunca vi em nenhum dos outros países que já visitei. Ontem por exemplo eu queria comprar sopa com noodles num lugar que eu gosto, mas queria trazer pro apartamento porque estou bastante resfriada e febril e queria voltar pra casa e não comer na praça de alimentação. Eu não sei como diz "pra levar pra casa" em Mandarim, mas perguntei se poderia ter o noodles "na sacola" e a atendente me entendeu, mostrou os potes descartáveis e a sacola de plástico e eu concordei com a cabeça e tudo deu certo. A atendente ainda deu um imenso sorriso e acenou falando "bye bye! bye bye", pequeno gesto que fez meu dia. Outro dia numa lanchonete fiz a mesma coisa quando quis comprar um sanduíche e o atendente foi bem legal e respondeu em inglês "sure, one minute" e voltou com um copo de chá com limão bem gelado e fresquinho enquanto eu esperava meu lanche pra viagem ficar pronto. São uns doces, em geral.

E estou muito satisfeita de ter saído do casulo protegido do hotel e estar agora mais pé no chão, entre eles. Com eles.

Escrito a mão pela Marcia às 5:33 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (14)

maio 18, 2006

The Chanchu Typhoon

O mesmo Typhoon Chanchu, que fez 41 vítimas fatais nas Filipinas e que eu achei que já estava indo embora, retomou força e ontem a noite alcançou a costa oeste de Taiwan (onde estamos). Nunca em minha vida vi algo semelhante. Tempestade forte com algo que não se pode chamar simplesmente de "vento" ou sequer "vendaval". Uma força espetacular, movendo o ar em várias direções, potente e impiedosa. E o mais assustador é o som, o uivo aterrorizante, intimidante, fantasmagórico, que durou a noite toda. E a chuva sendo literalmente atirada nas janelas, espatifando suas gotas com urgência e agressividade.

O centro do Typhoon aterrissou na China, onde 600.000 habitantes foram previamente evecuados. Só sua borda é que atingiu Taiwan. Em Kaohsiung, um navio petroleiro imenso foi arrastado com a força do vento, tombou e encalhou na costa. A tripulação foi resgatada por helicópteros.

Hoje de manhã a tempestade passou mas os ventos continuam fortes. Martin e seus colegas foram trabalhar mas a indústria comunicou que eles devem ficar só no escritório e não nas instalações ao ar livre, por medida de segurança. Não há estado de alerta, parece que o pior passou ontem a noite mesmo, mas nunca se sabe. Uma vez aterrissado, o typhoon pode mudar sua rota a qualquer instante.

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Escrito a mão pela Marcia às 3:12 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (9)

maio 13, 2006

Moving On

Os dias voam. Seis semanas em Taiwan. Às vezes parece que chegamos ontem, outras vezes quando pensamos em nosso apartamento em Bournemouth ou todo o resto que ficou para trás, parece que estamos aqui há décadas.

Um typhoon passou raspando por aqui, mas desviou e perdeu força a caminho de Hong Kong. A calmaria, porém, está longe daqui. Estivemos bastante ocupados ultimamente. Em poucos dias estaremos finalmente nos mudando para um apartamento nos mesmos padrões que este hotel, mas com mais espaço e liberdade. Por isso estivemos bastante envolvidos com a procura do novo lar e também pensando em tudo o que precisamos comprar, de toalhas a microondas, de talheres a chuveiro. Está sendo como começar uma casa do zero para nós, novamente. O apartamento tem dois quartos, uma pequena cozinha, lavanderia, varanda, sala de estar, um banheiro com chuveiro e banheira jacuzzi. Assim como o Japão, Taiwan sofre o mesmo problema de falta de espaço e encontrar um apartamento com esse layout foi bastante dificil. Encontrar três (pros outros colegas também), foi tarefa hércula.

Já estive no local várias vezes para procurar por supermercados, feiras, farmácias, tudo o que a gente vai precisar ter por perto. Teremos três shopping centers bem na frente do prédio, um complexo de cinemas Warner Village, três supermercados, dois 7Eleven, um mundaréu de lojas de rua vendendo absolutamente tudo e a maior e mais fantástica livraria que eu jamais vi em toda minha vida, chamada Eslite.

O prédio também tem piscina e não vou precisar interromper minha natação diária que está indo tão bem. No começo eu dava umas braçadas, parava no meio da piscina (que é semi-olímpica, 25 metros) para recuperar o fôlego. Agora vou e volto, vou e volto 10 (déééis) vezes antes de fazer uma pausa. Tenho feito 22 a 24 distâncias por dia, o que em metros já dava para eu ter voltado pra Inglaterra a nado, mas não quero. Na verdade nadar é o único exercício possível nesta terra cuja temperatura média agora está nos 34ºC.

Esses dias estivemos muito mais em contato com a Jo, secretária taiwanesa mais competente que este mundo já viu. Jo é o carisma em pessoa, atenciosíssima e super divertida. Na semana que vem vamos nós duas às compras, para tornar os apartamentos habitáveis e ela tem restritas ordens do gerente de projeto para dizer "Márcia, não!" toda vez que eu mencionar as palavras "Laura Ashley" ou "Calvin Klein Home". Humpf.

No mais, estamos asiáticos. Muito mais asiáticos, precisamente. A grande prova aconteceu na quinta-feira, quando para fazer a noite de despedida pro gerente de projeto MonkeyMan, fomos todos a um karaokê! Típico karaokê nos moldes japoneses, uma sala privada, toda fechada e sigilosa, só nós a sós, com uma TV em tela plana imensa, videokê, dois microfones e um banheiro. Pedimos dois barris de chopp e a festa começou. E eu não me lembro de ter me divertido tanto em muito tempo.

Ninguém queria ir, a princípio. MonkeyMan e Jo insistiram e disseram pra irmos só assistir a eles e dar risada. Todo mundo então topou e fomos. Silly nem nada, MonkeyMan tascou a primeira música: YMCA (Village People). Pergunta se havia vivalma que não pulou e começou a cantar e fazer a coreografia? E logo os hinos nacionais seguiram: Hard Days Night (The Beatles), Hey Jude (The Beatles), Yellow Submarine (yep, you guessed, Beatles). Microfone disputado a tapa, foi o que aconteceu. Sofás só serviam para a gente ficar mais alto e berrar com mais força, ninguém conseguia ficar sentado.

Os melhores momentos ficaram para os rapazes cantando Like a Virgin (Maddona) com caras e bocas e gestos pouco familiares; Danny e eu, a única dupla roquenróu, fazendo Michael Stipe se encher de orgulho com nossa interpretação de Losing My Religion (REM); Martin estraçalhando corações em Purple Rain (Prince) e fazendo voz de locutor sexy em Hello (Lionel Ritchie); MonkeyMan em sua versão "perca-toda-sua-voz-em-dois-minutos" em Paradise City (Guns'n'Roses) enquanto fazíamos a parte dos headbangers; o garçom desavisado que entrou com um desentupidor de privada na nossa sala e nos fez cair no chão de tanto rir; e finalmente todo mundo fazendo coro pro MonkeyMan em Leaving on a Jet Plane (John Denver):

"...'Cause I'm leaving on a jet plane
Don't know when I'll be back again -
Oh Babe, I hate to go..."

Voltamos de manhã, fizemos uma parada no pub BlackDog e dali pro hotel, bando de bêbados ainda cantando e fazendo eco no hall imenso e vazio. Such an incredible night. Não levamos nossa câmera, que está no conserto novamente, mas mesmo que estivesse boa não iríamos mostrar evidências. Porque a gente somos ridículos mas a gente não somos ingnorantes.


Escrito a mão pela Marcia às 9:53 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (10)

maio 2, 2006

Far Far East

Faz calor. 32ºC. Já não estou mais acostumada. E a grande vilã é a umidade. Calor úmido, sensação térmica desconfortável, dez passos e a idéia de ter uma morte por derretimento não é mais absurda. Talvez por isso poucos caminham aqui nesta cidade. É fácil perceber isso pela total inexistências de calçadas livres e desempedidas. Por outro lado, scooters são os pés taiwaneses. Por todos os cantos, por todas as frestas, por todos os mínimos espaços. Scooters se empilham, estacionadas nas calçadas. Scooters carregando até quatro passageiros, geralmente um adulto, três crianças. Ou dois adultos e duas crianças. Já vi uma com um adulto, duas crianças, a maior atrás da mãe, a menor na frente, segurando no guidão. E um cachorro no assoalho da motocicleta. Ninguém parece atento ao perigo, mas principalmente, muitos não têm outra opção. Transporte público é quase inexistente, carros são caros, taxis também. Insano, porém este é um trânsito sem violência, sem agressividade. É uma bagunça generalizada, mas é uma bagunça em que eles se entendem e os estrangeiros se perdem.

Atravessar uma rua é um ato de fé em reencarnação. Semáforo, ao que me parece, é opcional, principalmente para as Scooters e taxis. Fazer contorno em U é permitido a cada vez que um motorista mudar de idéia. Andar na contra-mão é aceitável. Antes eu me sobressaltava a cada passo, mas aos poucos fui aprendendo com os locais a seguir em frente, literalmente. No final das contas, as scooters que não pararam no vermelho acabam desviando, os carros reduzem até que você termine de atravessar, ninguém quer atropelar ninguém. E assim sigo.

Não há muito o que se ver ou fotografar por aqui. Kaohsiung não é turística, ao contrário, é bastante industrial, urbanizada, poluída. Mas tem seus pequenos cantos cheios de charme. Love River é o rio que corta a cidade. Rio que já foi um shit hole tempos atrás, como o Tietê. Mas que hoje está 100% recuperado, com peixes pulando, flores e plantas, e logo vai ser palco para o tão esperado Dragon Boat Race. Suas margens foram modernizadas e é um dos poucos lugares para se caminhar calmamente, por toda sua extensão. É lá que faço minhas caminhadas, lá que sento para ver o rio passar, lá que a noite vamos prestigiar os artistas de rua.

Há também a única área verde remanescente, Monkey Mountain, a grande montanha com trilhas entre a floresta e escadarias que levam até o topo. Lá há templos encrustados na mata, carregados em adornos vermelhos ou amarelos, imagens, Buddah, dragões, incensos, lanternas. Há macacos também, obviamente, mas difíceis de serem vistos.

Não, não há muito o que se ver aqui. No entanto, de alguma forma, por alguma razão, este lugar me encanta e me acolhe. E tenho quase toda a certeza de que a atração principal não está em nenhum guia turístico. Invisível aos olhos e presente em cada um dos nossos dias. Por mais que MacDonalds proliferem por aqui, a essência asiática em Taiwan ainda é muito mais pungente, abrangente, envolvente. A idéia de ser gentil para receber gentileza é prática constante, quase religiosa. A população taiwanesa é mesmo sua principal riqueza. Em geral, simpáticos sem serem falsos, solícitos sem serem grudentos, amigáveis sem fazer esforço.

Ao contrário da maioria britânica e americana que vive aqui e acha que o mundo todo deve entender inglês, sempre que possível, falamos em Mandarim. Obviamente tudo errado e sofrível, mas o suficiente para ganharmos o respeito de quem nos atente. Quando sei de antemão que vou precisar pedir isso ou aquilo, ainda no hotel escrevo os caracteres em chinês num papel (copiando do dicionário) e levo pra loja/lavanderia/farmácia/mercado ou o que for. Primeiro tentamos falar, depois mostramos meus hieróglifos e por último apelamos para a linguagem de sinais, movimentos, desenhos. Mas jamais exigimos que alguém fale em inglês conosco. Estamos na terra deles e se há alguém que precisa se esforçar para se comunicar, somos nós não eles.

E sempre compensa muito mais do que jamais imaginamos. De meros compradores, logo somos presenteados com chá verde, água gelada, balas de menta, sorrisos e vamos embora sob reverências respeitosas que sempre retribuímos com muito respeito também. Outros, vendo as feições ocidentais do Martin, pedem para a gente esperar e saem correndo em busca de algum adolescente que fale inglês para conversar com a gente (quanto mais jovens, melhor a pronúncia e o entendimento em inglês, graças à Hollywood, Internet e MTV). Os adolescentes adoram a chance de praticar inglês e fazem todo tipo de pergunta pro Martin, as meninas sempre perguntam se ele é casado, vejam só. E alguns, simplesmente falam todo o repertório em inglês que sabem, como um senhor que estacionou na nossa frente sua motocicleta com três botijões de gás na traseira, abriu os braços e nos saudou "Hello! Happy Sundaaaay!!!" cheio de sorriso de dentes faltando. Enfim, às vezes uma simples ida no mercado pode trazer acontecimentos pitorescos e inusitados.

Mas nem sempre é assim, claro. Taiwaneses são bastante reservados, jamais se intrometem ou tentam ser inconvenientes. E são muito mais do jamais eu vou poder entender, perceber e descrever aqui. Há babacas, há folgados, há chatos e imbecis também, claro que há. Nenhuma sociedade é só flores e açúcar. Mas por ser um país tão pequeno e ao mesmo tempo tão densamente populoso (o décimo país do mundo com maior índice de densidade populacional), Taiwan têm uma sociedade única, diferente de seus vizinhos chineses, coreanos, japoneses. Nenhum homem aqui consegue ser uma ilha.

Hwáy tó jyèn!
(See you later! Até mais!)

PS: tenho me conectado à Internet raramente e por pouquíssimo tempo (muito cara aqui no hotel, muito o que fazer lá fora).

Escrito a mão pela Marcia às 4:28 PM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (13)

abril 28, 2006

Cuteness

Neste canto do mundo há este inexplicável fanatismo por tudo o que é considerado cute. E Taiwan não é diferente, em todos os cantos, por todos os lados, milhares de personagens fofos e cabeçudos enfeitam todos os tipos de anúncios, sinais importantes, avisos desimportantes, produtos para adultos, serviços para idosos e tudo mais que for possível.

No hotel em que estamos há o extremo exemplo de cuteness overdose: o quarto Hello Kitty. O quarto é inteiro decorado com a personagem, não apenas nas cortinas, roupas de cama e papéis de parede, mas nos sabonetes, shampoos, chinelos, escovas e pastas de dente, copos, xícaras, abajures, telefone e – tcharam! – papel higiênico. Tudo rosa, tudo Hello Kitty. O café da manhã também é todo feito de torradas, bolos e outras guloseimas cheias de açúcar, todas com formato da cabeça da gata.

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Pena que Snoopy não é tão popular aqui como é no Japão. Quisera eu me hospedar num quarto decorado de Joe Cool, com sabonetes da cabeça do Charlie Brown, luminária do Woodstock, a cama em formato do telhado da casa do Snoopy, shower cap do Às da Aviação, telefone na banca da Lucy onde se lê “The Psychologist is Out”. Muito mais divertido do que essa gata enjoada. Mas ninguém presta atenção nas minhas fabulosas idéias, então tenho eu que sair em buscas dos meus próprios Peanuts.

Recentemente encontrei furikake do Snoopy no supermercado. Furikake é um farelinho muito popular no Japão, feito de várias coisinhas, que podem ser: alga marinha, semente de gergelim, gema de ovo, camarão, peixe, tudo seco e triturado, uma porçãozinha mínima para jogar por cima do arroz branco e dar textura e um tico de sabor. Eu adoro e comprei um pacote com várias porçõezinhas de diferentes sabores pro meu arroz na hora do almoço. E qual não foi minha supresa ao ver que cada um dos pacotinhos vem com mini-cabecinhas comestíveis do amado cão!

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How cute is that?

Escrito a mão pela Marcia às 4:58 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (8)

abril 27, 2006

4th Wedding Anniversary



"This is where I have always been coming to. Since my time began. And when I go away from here, this will be the mid-point, to which everything ran, before, and from which everything will run. But now, my love, we are here, we are now, and those other times are running elsewhere." -- A.S. Byatt


Happy Anniversary, my beloved Martin.

Escrito a mão pela Marcia às 4:34 AM | mais em M&M in Taiwan

abril 25, 2006

2



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"Here comes the rain again

Falling from the stars

Drenching in my pain again

Becoming who we are

As my memory rests

But never forget what I've lost..."

Escrito a mão pela Marcia às 2:45 AM | mais em M&M in Taiwan

abril 22, 2006

Sandstorm

A população da costa oeste de Taiwan recebeu a recomendação de evitar ficar ao ar livre nos próximos dois dias. A tempestade de areia vinda do deserto da China começou a atigir o país ontem e a qualidade do ar está bastante prejudicada.

Porém, a grande areia nos olhos não vem do deserto, mas da White House, onde George W. Bush recebe o presidente da China, Hu Jintao. Obivamente os olhos taiwaneses estavam todos voltados para esse encontro e nada de novo foi dito, além do mesmo vendaval de ameaças.

Enquanto Bush pede que Beijing e Taipei evitem confrontos ou atos provocativos, Jintao insiste em afirmar que vai trabalhar com seus “compatriotas taiwaneses” em defesa dos "interesses da população", mas que jamais vai permitir que Taiwan se torne independente da China totalmente, por ser parte “inseparável” do território chinês.

A China tem hoje 800 mísseis voltados diretamente para Taiwan e seu arsenal militar contra a Ilha Formosa aumenta a cada ano. Compatriots my arse.

Escrito a mão pela Marcia às 12:52 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (4)

abril 16, 2006

Earthquake

Acordamos às 6h40 da manhã com o quarto balançando para frente e para trás.

O primeiro de nossas vidas. 3.6 na escala Richter, o epicentro na costa leste alcancou 6.2 pontos. Poucos segundos, quase um minuto de tremor. O prédio, que não chega a ser um arranha-céu como é comum na vizinha Hong Kong, mas que ocupa um quarteirão inteiro de largura, balançou de um lado pro outro.

Impressiona. Mas não chega a assustar, pelo menos não desta vez.

E assim como as tempestades, também preciso me acostumar com a freqüência dos terremotos e dos Typhoons. Acostumar com esta natureza urgente, dinâmica e poderosa. Nada de errado. Quem é que de vez em quando não precisa sacudir um pouco a poeira?

Escrito a mão pela Marcia às 3:47 AM | mais em M&M in Taiwan

abril 15, 2006

Thunderstorm

As nuvens cinzas se aglomeram umas sobre as outras, trovões retumbam no ar e relâmpagos sobem e descem a cada minuto. É a primeira tempestade que acontece desde que chegamos a Taiwan. Tempestades são muito comuns aqui, quase diárias. Tão comuns quanto o calor intenso, úmido e constante. Faz mais de uma semana e os dias passam tão rápidos. Bom sinal.

A cada dia uma novidade, algo para se ver, sentir, experimentar, espantar, admirar, rir, comparar, entender, aprender ou simplesmente assistir. Hoje é a tempestade quem veio se apresentar. Sento de frente para a ampla janela do hotel onde Kaohsiung Harbour se estende e se mescla com o Mar Chinês. A tempestade cai lenta e silenciosa, contrariando o barulho e a ameaça que a antecedeu. Daqui de cima, vejo guarda-chuvas de múltiplas cores, predominantes círculos de cores pastéis dançando na chuva.

Vejo também um templo budista de chão verde e paredes vermelhas, com um simbolo que se assemelha a uma swastica amarela no topo de sua torre. Atrás do templo, um imenso outdoor da Honda que ocupa seis andares de um prédio vazio. “New Honda. New Civic. New Story”, é o que diz o anúncio. Mais além, Monkey Mountain se ergue, alta, verde e misteriosa.

A tempestade finalmente ganha força. Adoro tempestades, adoro os relâmpagos e mais ainda os trovões. Gosto da água lavando o ar e as ruas. Gosto da potência, da intermitência, da impiedade. Gosto do drama, do ápice e do epílogo. Gosto do momento, único e inédito, irreversível.

Drama que contrasta com meu espírito, que nunca esteve tão alerta, fascinado, livre, alegre e bem-disposto. Talvez seja a natação diária, talvez seja a alimentação saudável e prazeirosa, talvez sejam os galões de água bebidos, talvez sejam minhas pequenas expedições e mini-desafios numa língua tão difícil de pronunciar, talvez seja a convivência com este povo genuinamente sorridente, agradável e amigável.

Talvez seja simplesmente o fato de que nada mais importa. Talvez seja o fato de que agora, aqui, exatamente neste instante, chove. E nada mais importa.

Escrito a mão pela Marcia às 3:42 AM | mais em M&M in Taiwan | Comente este capítulo (1)

março 29, 2006

Strangeways, Here We Come



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Se há algo que mais eleva meus espíritos, sem dúvida é o fato de poder viajar ao lado do Martin. Repartir experiências e trazer para casa mútuas lembranças é encher um álbum imenso de imagens que existem só dentro de nós dois. E mais uma vez temos diante de nós a oportunidade de pisar em outras terras, conhecer pessoas diferentes, com costumes distintos, sob o mesmo céu.

Estamos partindo para uma extensa temporada em Taiwan. Ao contrário do que foi nossa inesquecível e fantástica experiência na África do Sul, desta vez não há animais selvagens, mas há um mundo de grandes novidades a serem exploradas, numa cultura asiática admirável, histórias de guerreiros, templos, dragões, espadas e dim sum.

Já estávamos organizando essa mudança há muito tempo e nesse período aprendi algumas palavras e frases soltas em mandarim e li um bom livro Lonely Planet sobre o país, para aprender um pouco do que será nosso lugar por um bom tempo. E para minha surpresa, a história de Taiwan tem muitas coisas em comum com a história do Brasil.

Para começar, a ilha foi descoberta por portugueses, que a batizaram Ilha Formosa (portugueses não são lá muito chegados a diversificação de nomes, como se percebe). E então os holandeses foram atrás invadir em massa. E os espanhóis também invadiram, mas a malária matou a grande maioria e eles voltaram pra ensolarada Espanha. Daí então os chineses decidiram acabar com a festa européia, entraram em guerra, expulsaram os holandeses e tomaram conta do país. E os taiwaneses, nesta história toda? Taiwaneses eram originariamente vindos de tribos aborígenes, que logo receberam imigrantes de Fuji e desta mistura compuseram o que era considerado os verdadeiros habitantes taiwaneses. Sem tecnologia ou força militar, foram expectadores das invasões contínuas e exploração de suas férteis terras. Após a expulsão dos holandeses, Taiwan viveu sob a dinastia de governantes chineses e em 1949 o partido comunista chinês KMT tomou posse da terra, trazendo censura, repressão e opressão militar, na intenção de criar a política One China. Entre os vários conflitos contra os chineses, mais de 30.000 taiwaneses morreram em luta pela democracia. E somente no ano de 2000 Taiwan finalmente viu seu primeiro presidente do partido democrático tomar posse. Há dois anos, o mesmo presidente, Chen Shuibian, se elegeu a re-eleição e sofreu uma séria tentativa de homicídio que até agora não foi explicada, mas as acusações apontam todas para a China. O presidente, porém, sobreviveu e foi re-eleito. Mas a democracia taiwanesa, tão duramente e tão recentemente conquistada ainda continua extremamente frágil. Os EUA, obedecendo ao comando de George W. Bullshit, anunciaram que vão defender Taiwan a todo custo e em 2001 trouxeram a Taipei um pacote de armamento militar no valor de U$6 bilhões. Com essa atitude, a resposta da China veio em forma de uma lei aprovada que autoriza o uso de toda e qualquer força militar contra Taiwan, sem que isso seja considerado crime, aumentando ainda mais a tensão e o ressentimento entre as duas nações. Thanks a bunch, guys.


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E é esse o cenário político que encontraremos quando pisarmos em Taiwan. Porém, no contraste desses problemas, está um povo que segundo o editor do Lonely Planet, é um dos mais amigáveis de todos os lugares que ele já visitou no mundo. Os taiwaneses se orgulham de serem haokè, ou bons anfitriões, e fazem absolutamente tudo para receber bem visitantes estrangeiros. Nem bem chegamos e esse haokè já chegou até nós, por meio da nossa anfitriã local, Jo. Uma pessoa adorável que vai nos acompanhar durante todo o tempo, servindo de intérprete, guia, pau-pra-toda-obra e companheira. Ela já providenciou um mundo inteiro de organizações para que a nossa chegada seja a melhor possível a Taiwan. Ela vai ser para mim o que a Delia foi na Africa do Sul e eu não vejo a hora de encontrá-la pessoalmente.

E no que diz respeito a minha incessante fome, não podíamos estar melhor: comida farta, fresca e muito barata. Frutas frescas e maduras, que não quebram a conta bancária. Os melhores petistos, já me informei, são vendidos nos mercados de rua, que ficam abertos até muito tarde da noite. Sushi, noodles, dim sum, gyoza, curries e tudo mais que eu conseguir segurar entre meu hashi. E principalmente arroz. Arroz cozido em vapor, arroz grudadinho, fofinho, sem tempero, só o arroz branquinho, igual da minha mãe, que eu tenho tantas saudades (da minha mãe também, claro). Nham. Espero encontrar furikake por lá pra espalhar por cima do meu arroz. E nori picadinho. Nhaaam. Fome.

Enfim, estamos partindo. Sem planos, sem expectativas. Mas com a mente aberta, coração entusiasmado e curiosidade nos olhos. Nossa aventura começa exatamente agora.

Dragões vistos até o momento: 0 (no such luck)


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