junho 3, 2008

The Little House Around the Corner




Em Março encontramos uma pequena casa naquele vilarejo que gostamos, há meia hora de Sheffield. A primeira impressão foi de descaso, haviam outras casas maiores em que estávamos interessados. Muitos tropeços, frustrações e decepções depois, eis que o folheto da pequena casa voltou às nossas mãos. Marcamos uma visita e fomos recebidos pela dona da casa e seu cão. E a pequena casa enfim nos escolheu, nos mostrou que apesar de ser petite, tem tudo o que precisamos e um pouco mais.

Desde Março até agora estivemos mergulhados no processo da acquisição. A pequena casa passou por meses de rigorosas investigações. Não só da estrutura da casa em si e da legalização do imóvel, mas também foram investigados os riscos de enchente, de contaminação do solo, água e ar; risco de ter antigos túneis de minas de carvão no subsolo, risco da Igreja ainda ter posse do terreno (resquícios da Era Medieval). Além de um levantamento de todas as obras a serem feitas na vizinhança, autorizadas pelo Council, para não correr o risco de sermos repentinamente vizinhos do Tesco, godforbid.

Obviamente, é possível comprar uma casa sem nenhuma dessas investigações, mas decidimos por fazer todas elas. Foram muitas semanas de intenso contato com advogados de ambas as partes, além de muita papelada entre formulários gigantescos, resultado das investigações, financiamento, seguro da casa, seguro de vida, testamento, contratos e tudo mais.

Finalmente o processo chegou ao fim. Assinamos muitos papéis, entregamos um cheque com muitos números e recebemos as chaves. Somos então orgulhosos proprietários de uma pequena casa velha, num pequeno vilarejo.

Depois de consecutivos um ano e meio em Taiwan, dois meses em hotel em Sheffield, nove meses em apartamento alugado também em Sheffield, além de quatro meses com nossa mudança trancada num depósito, ninguém neste mundo tem a mais fraca idéia do quanto nós sonhamos pelo dia em que dormiremos em nossa própria cama outra vez, cercados de nossas coisinhas adoradas, sem ter planos de mudar pra nenhum outro lugar do planeta.

Escrito a mão pela Marcia às 3:25 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

fevereiro 29, 2008

"The Last Night on Maudlin Street

Goodbye house, goodbye stairs..."

Finalizamos a venda do apartamento em Bournemouth. E fizemos a grande mudança nesta semana que se passou. Eu planejei fazer fotos de cada etapa, do monte de caixas, dos móveis desmontados. Ha-ha. Não houve tempo nem energia para sequer piscar. A equipe de mudança levou quatro horas para empacotar e organizar tudo dentro do caminhão, numa velocidade frenética, considerando que moramos no topo do prédio com muitas escadas para subir e descer. E a única foto que consegui tirar foi do caminhão deixando o prédio com tudo o que é nosso dentro, a caminho de um depósito em Yorkshire.

Limpamos tudo, fechamos a porta pela última vez e entegamos as chaves pro nosso advogado. Não fiquei tão triste quanto pensei que ficaria. Era nosso primeiro lar, gostamos muito dele enquanto durou, mas é hora de seguir em frente. Deixamos o prédio, a rua, a cidade. Para sempre.


"I'm packed
I am moving house
A half-life disappears today
With every slag waves me on
(secretly wishing me gone)
well, I will be soon
oh - I will be soon
I will be soon..."

Escrito a mão pela Marcia às 5:06 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

fevereiro 22, 2008

Slipping Through our Fingers

Perdemos mais uma casa.
Desta vez foi uma que eu realmente, REALMENTE, gostei. Mas uma outra oferta maior nos derrubou da disputa. No atual momento não há mais nenhuma casa disponível à venda que me agrade na cidadezinha.
*sigh*.....

Mais uma frustração para a coleção, que fica cada vez maior.

Escrito a mão pela Marcia às 2:41 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

fevereiro 19, 2008

All is White

Depois de meses de um inverno irritantemente quente, com temperaturas de 12ºC em pleno mês de Janeiro, agora finalmente o frio chegou aqui no norte. Nesta semana a mínima está na casa dos -7ºC. Hoje amanheceu um dia congelado, -6ºC, com fog e neve, combinação terrível pra quem precisa dirigir. E tudo está branco, quieto, quase imóvel.

Acho que encontramos o lugar que queremos morar. Uma cidadezinha minúscula, semi-rural, que fica a meia hora, de carro, de Sheffield. Em três semanas estivemos lá seis vezes. E gostamos. Acho que é um bom sinal. Tem correio, banco, supermercado Co-op que vende produtos locais e fairtrade, dois pubs, farmácia, médico, dentista e farmers market uma vez por mês. E tem também várias trilhas de caminhadas e muitos pastos ao redor.

No entanto, não encontramos nenhuma casa por lá ainda. Visitamos algumas que não nos agradaram. Uma outra surgiu e parecia boa, mas foi vendida antes que pudessemos negociar o preço. Até demos uma segunda chance para os blocos de casas novas. Avaliamos um bloco em construção de uma construtora escocesa e quase decidimos por uma casa. Mas numa segunda visita mais rigorosa, desistimos.

E continuamos em nossa busca. Vasculhando embaixo de todas as pedras.

Escrito a mão pela Marcia às 10:01 AM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

fevereiro 4, 2008

House Hunting

A procura pela nova casa dos M&M está sendo, até agora, uma sucessão de frustrações. Obviamente que não esperávamos que tudo ia ser facinho ou super empolgante, ou que encontraríamos oh-a-casa-dos-sonhos!

Estamos a procura de um lugar bacana, seja bairro, vilarejo ou cidade, mais do que uma casa bacana. A casa a gente pode ir mudando aos poucos, já a vizinhança precisa ser boa desde o começo (location, location, location, don't ya know?). O lugar precisa também ter um correio, um médico e um mercadinho qualquer (pra quando faltar leite, arroz, farinha ou, god forbid, chocolate). Só isso. A casa precisa ter lugar pra estacionar fora da rua, cozinha e sala de estar de tamanhos decentes. Só isso.

E até agora nada.

Peregrinamos dezenas de bairros em Sheffield. Dezenas. Os bairros que a gente gosta têm preços muito altos. E quando encontramos alguma casa do nosso gosto, o bairro deixa a desejar. Já cansamos de morar no centro; muito barulho, muito trânsito, muita gente. Começamos então a visitar cidades e vilarejos ao redor de Sheffield. Já visitamos uma dúzia delas.

Consideramos blocos de casas novas em construção. Não gosto da idéia, a qualidade não é boa, as casas são construídas muito apertadas uma nas outras e no final das contas há sempre áreas comunitárias e eu não gosto de nada comunitário. Não gosto porque tem sempre um folgado que vai deixar o lixo na frente da minha casa, estacionar em lugar errado, empilhar tralha. Sei que isso pode acontecer mesmo em qualquer lugar, mas as chances são maiores de acontecer nesses blocos de casas novas. Eu quero morar no topo de uma montanha sem vizinhos. Mas os topos de montanhas pelo jeito não estão à venda. Rats.

Enfim, sei que neste exato momentos estamos nos sentindo na estaca zero. Não apenas visitamos inúmeros lugares, mas também temos feito um batalhão de pesquisas, desde risco de enchentes até contaminação de solo, criminalidade, futuros empreendimentos nas áreas, tudo mais que possa ajudar em nossa decisão. E também estivemos em contato constante com imobiliárias, sempre tentando ler nas entrelinhas dos muitos adjetivos enganosos que eles usam para descrever uma casa e omitar os defeitos. Já sabemos de cor o mapa da região, graças ao fabuloso Live Maps. Gastei meus dedos clicando no Rightmove.

E até agora nada. Not a sausage.

Escrito a mão pela Marcia às 5:19 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

janeiro 2, 2008

Happy Brand New 2008

Voltamos de Lake District.

Nos últimos anos, estávamos criando uma certa tradição de Natal: ir para Keswick, comer Fish & Chips na Old Keswickian; visitar a loja Peter Rabbit and Friends que também vende tudo de Wallace & Grommit, Snoopy e Pingu; e degustar as melhores tortas artesanais do açougue Michael's.

Pois então. Chegamos em Keswick e:

1) A Old Keswickian havia sofrido um incêndio uma semana antes;
b) A loja Peter Rabbit and Friends faliu;
III) O açougueiro fechou.

Então tá. Um dia a Inglaterra inteira vai virar um grande Tesco e a vida vai ser um grandíssimo tédio. Ao menos ainda estavam lá a magnífica doceria Ye Olde Friars, o farmers market e a padaria Bryson que faz o melhor Lakeland Plum Bread da região.

O tempo estava bom nos primeiros dias, o lago estava congelado, as caminhadas foram longas e bem agradáveis. Mas depois do Natal a temperatura subiu e começou a chover sem parar. O lago descongelou, transbordou, alagou tudo em volta, subiu até cobrir totalmente o pier da casa em que estávamos hospedados.

Aproveitamos esse tempo ruim para visitar os charmosos vilarejos de Cumbria, que eu não conhecia antes. Adorei Ambleside, mesmo embaixo de muita chuva.

Nos poucos momentos em que ficamos na casa, recebemos a visita de vários patos, um heron, um cisne, um faisão macho e três faisões fêmeas, alguns robins e também um querido coelho. Todos selvagens, todos aversos à câmera. Também vi uma coruja enorme voando pelo nosso caminho.

Foram bons dias. Voltamos pra Sheffield satisfeitos, passamos o Ano Novo só nós dois no sofá, assistindo The Most Annoying Celebrities of 2007, ouvindo os fogos de artifício pipocando lá fora. E começamos o ano sem resoluções, sem planos, como sempre. Come as it may.

Happy New Year.


Escrito a mão pela Marcia às 8:54 AM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

dezembro 21, 2007

Silent Night

Último post do ano e sem tempo para escrever nada muito elaborado.

Meus sogros estão aqui no apartamento de Sheffield pela primeira vez. Amanhã de manhã temos um brunch programado, com pão siciliano feito em casa, mini-quiches de tomates secos feitos em casa, chá e café feitos em casa, além de iogurte de maracujá, geléia de blueberries, manteiga, queijo holandês, feitos fora de minha casa. E logo em seguida partimos todos para Lake District onde passaremos o Natal e mais alguns dias caminhando, caminhando e congelando os traseiros.

O ano está acabando e olhar para trás não é lá muito fácil. Foi um ano terrivelmente difícil para nós, cheios de dificuldades, frustrações e desapontamentos. Mas também foi o ano em que duas grandes amigas, Adriana e Fal, passaram por perdas imensas, que nos dão a perspectiva de que nossos problemas são pequenos, insignificantes e completamente suportáveis.

Foi o ano também em que muitas mudanças aconteceram, o que nos ajudou a caminhar pra frente ao invés de em círculos. E as mudanças continuam pelo próximo ano, assim como a lista de coisas dando erradas que continuam firmemente agarradas em mim.

Mas no final das contas, todo ano é assim mesmo, uns mais difíceis que outros. Vida mole só da gelatina mesmo. Enfim, quero desejar a todos um Natal cheio de risadas sinceras, abraços apertados, comidinha bem feita, etílicos gelados e tudo mais que você desejar. Obrigada por mais um ano de companhia, lendo meus rabiscos quase ilegíveis.

Feliz Natal e um 2008 mais simples. Porque simples é bom.

Escrito a mão pela Marcia às 8:24 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

dezembro 7, 2007

Troubles Abound

Outubro e Novembro foram meses deploráveis, onde absolutamente tudo o que começamos deu errado e bem errado. E em todos os casos os problemas aconteceram porque alguém não prestou atenção ao seu trabalho. Pura falta de cuidado que nos custou dias de dores de cabeça e noites insones, sem contar que também nos custou tempo e dinheiro para resolver o descuido alheio. Finalmente em Dezembro estamos terminando de resolver os últimos problemas e escrevendo as últimas cartas de reclamação formal.

No final de semana passado fomos mais uma vez a Bournemouth para resolver um dos mais irritantes deles, que já vinha se arrastando desde que chegamos de Taiwan. Enquanto estávamos fora do país, a síndica resolveu trocar o sistema de segurança do nosso prédio. E para isso precisou trocar também os handsets de cada apartamento, menos o nosso porque, well, nós não estávamos lá para abrir a porta. E nesse tempo também foi trocada a empresa que cuidava da manutenção dos prédios. Então vivemos um inferno de empurra-empurra porque nenhuma das empresas de manutenção (nem a antiga e nem a nova) queriam fazer o maldito serviço. Finalmente conseguimos uma solução e resolvemos o problema com um eletricista.

Aproveitamos a visita a Bournemouth para dar os últimos retoques no apartamento, já que da última vez não tivemos muito tempo. Limpamos tudo, guardamos as caixas com a nossa mudança em armários, arejamos os quartos. Vender o apartamento é o último problema da lista, que não chega a ser um problema, apenas mais uma tarefa a ser feita. Nesta época do ano quase ninguém compra imóvel. Natal, Ano Novo e tal. Em todo caso o apartamento está lá, prontinho para ser passado para outras mãos.

Numa rápida visita ao centro da cidade, fomos dar tchau ao mar da costa de Dorset. O mar e eu não gostamos de despedidas longas, então foi um curto adeus, passar bem. Agora a gente espera só voltar para Bournemouth quando tivermos que organizar a grande mudança dos móveis.

Voltamos com o carro carregadíssimo mais uma vez. Entre as prioridades, vieram minhas cassarolas LeCreuset, o computador, livros de culinária e nossa pesadíssima TV. Carregá-la três andares escadaria abaixo em Bournemouth foi uma tarefa árdua e quase hércula. A TV é daquelas de tubo de raios catódicos, pesada, grande, disforme. Mas conseguimos. E agora estamos satisfeitos pelo esforço e pela Sky box que veio junto também. Porque antes de ter nossa TV aqui em Sheffield, nossa única diversão era fazer carinhas em conchas de pistachios:



A dull life, indeed.

E como problemas nunca são demais, agora nosso carro resolveu que quer morrer de múltipla falência de órgãos. A cada dia ele nos apresenta um problema e pede para ser aposentado dignamente. Carros hipocondríacos são insanamente cansativos. Tsc...

Escrito a mão pela Marcia às 8:49 AM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

novembro 7, 2007

One of Those Days

Têm dias, ou semanas, em que nada dá certo, nada se resolve, nada entra nos eixos, nada, absolutamente nada, deixa de ser um problema. Nesses dias, não há sopa que conforte. Só mesmo recém-assados muffins de cacau com pedaços grandes de chocolate amargo para acalentar a humilde alma faminta do meu ser.



A receita é dos Oatmeal Muffins da Ana, na qual troquei a canela pelo cacau Green & Blacks e adicionei pedaços de chocolate 70%, da fairtrade Divine.

Escrito a mão pela Marcia às 2:56 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

novembro 1, 2007

Sugar and Spice and Everything Nice

Uma das coisas que me agrada aqui no norte é que ainda é possível encontrar pequenas lojas independentes pelas ruas. Aquelas lojas que não fazem parte de nenhuma cadeia de grandes conglomerados, aquelas pequenas, de uma só porta, aquelas que não tem igual em nenhum outro lugar. Foi numa dessas lojinhas que encontrei esse par de saleiro e pimenteiro cheio de boas intenções.


Houve apenas um porém: não costumo pôr sal à mesa. A não ser que receba visita, mesmo assim sempre esqueço. Mas no dia-a-dia uso pouquísimmo sal e nunca, jamais acrescentamos mais sal no prato. Então os pobres coitados estavam praticamente fadados a virarem objetos inúteis e puramente decorativos.


Foi quando então, olhando para eles, me surgiu a idéia: açúcar e canela! Pro cappuccino, pra banana amassada, pra canjica, pros bolinhos de chuva. E felizes eles ficaram e pularam e se abraçaram. Salvos!



Escrito a mão pela Marcia às 12:20 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

outubro 23, 2007

Such Little Thing

Se há algo que aprendi durante a estadia no apartamento em Kaohsiung é que às vezes a gente nem se dá conta de que a falta de pequenas coisinhas faz da nossa vida uma pequena miséria. Mudar é sempre um stress porque o lugar novo não tem nenhum apelo sentimental ainda, tudo é novo e estranho. E junte-se a isso a falta das suas tais coisinhas e nada mais parece confortável, seguro, quentinho, macio.

Por essa razão, quando deixamos nosso apartamento em Bournemouth, carregamos o carro com tudo o que pudesse caber em cada centímetro cúbido do veículo. Nada foi poupado, nenhum espaço ficou vazio. O carro quase que nem saiu do lugar de tão pesado. Mas assim viemos para Sheffield, com todas as coisonas possíveis. Lembra que eu havia comprado edredon, travesseiros e roupa de cama tudo novinho e baratinho na Primark? Pois então, hoje tudo isso está no quarto de hóspedes porque agora a gente usa nosso próprio edredon e travesseiros queridos, com as roupas de cama amigas que são tão familiares (até passei tudinho, veja só o desespero).

E trouxe quase todos meus instrumentos de cozinha, minhas panelas, minhas facas afiadas, nossos pratos com desenhos de pimenta, nossas canecas e xícaras favoritas, talheres, hashis, a indispensável kettle, torradeira, formas. Trouxemos também mais roupas quentes pro inverno do norte, cada um de nós trouxe calças "de ficar em casa" (leia-se: cintura de elástico), abajour, câmeras, telefones, ferramentas, ferro de passar.

Enchemos a geladeira e os armários de muita comida, adotei um vaso de flor (Christmas Cactus), instalamos linha telefônica e intertelecibernética, cozinhei todos os dias e todas as noite.

Ainda não nos sentimos em casa, muita coisa ainda ficou lá no sul, todos os móveis obviamente, mas também nossa TV (e não temos nenhuma outra aqui), livros, cassarolas de ferro, sapatos. Mas tudo o que trouxemos têm feito uma enorme diferença no conforto e no bem estar da população que habita este recinto temporário. A gente dá mais risada, come muito mais, dorme muito melhor. Talvez porque quando a gente abre uma gaveta ou uma porta de armário a gente encontra o que procura e não precisa mais ficar fazendo planos mirabolantes para contornar a falta de algo não temos (exemplo: abrir uma lata sem abridor de latas). Ou talvez, mais provável, porque dentre tudo o que veio de Bournemouth, incluimos Pickles, Ted, Slackajack e Picklezinho para dividir o sofá e o chá conosco, no meu mais que favorito cobertor de Stegossaurus. Ah, the ol' good life...


Escrito a mão pela Marcia às 4:25 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

outubro 9, 2007

Seeking Home

Uff. Cansada é uma palavra que nem começa a descrever meu calamitoso estado físico, psíquico e alimentício. Continuamos com a nossa vida nômade e sem-teto durante essas semanas que se passaram. Voltamos para Bournemouth no domingo, onde finalmente tenho acesso novamente à vida cibernética (ainda se usa essa palavra ou obsoleta é meu segundo nome?) ainda que discada.

Finalmente deixamos o Hotel Meia-Boca para sempre. Encontramos um apartamento bacaninha para alugar e nos mudamos pra lá sem absolutamente nada a não ser nossas roupas, lençóis, edredon e toalhas da Primark, papel higiênico e duas canecas. Minha cunhada foi ao nosso resgate no dia seguinte a nossa mudança e nos providenciou duas panelas, uma faca afiada, um abridor de vinho. E assim sobrevivemos até agora.

Mas onde estamos? Pra onde fomos? Algumas dicas: Michael Palin. Joanne Harris. Advinhou? Full Monty. Não? Humm, vejamos. Revolução Industrial. Aço Inoxidável. Ainda não? Ok, eu conto então...

Estamos na cidade de Sheffield, berço de tudo isso aí do parágrafo acima. E Sheffield fica no estado de Yorkshire, região famosa pelo chá e bolo do mesmo nome, além de paisagens bucólicas de Peak District.

Ainda estou me familiarizando com o novo lugar. Minha primeira impressão foi boa e mesmo agora, depois de três semanas, acho que ainda gosto de lá. Muito mais do que gosto de Bournemouth. Mr.M morou em Sheffield por muitos anos, antes de se mudar pro sul, onde vivemos por seis anos. E mesmo pra ele está sendo também um período de adaptação, já que a cidade está em pleno processo de modernização. Sheffield foi um dos centros da Revolução Industrial na Inglaterra no final da era Medieval, com inúmeras indústrias de mineração e engenharia. Depois de muitas décadas, Sheffield sofreu um declínio intenso, quando muitas fábricas entraram em crise e fecharam suas portas. Hoje, grandes áreas onde antes existiam apenas ruínas dessas indústrias foram demolidas e no lugar surgiram vários complexos de apartamentos modernos, teatros, museus, parques e centros comerciais.

Moramos atualmente perto do centro, numa área cercada de vários campi da conceituada Universidade de Sheffield. Ao nosso redor temos a faculdade de medicina, psicologia, arqueologia e paleontologia, artes cênicas, além de muitas outras. Nossos vizinhos são, portanto, basicamente estudantes, um tanto barulhentos, mas com uma certa quantidade de massa cinzenta entre as orelhas. Além disso, à curta distância, temos o maior supermercado Waitrose da história do mundo dos Waitroses e também um tranqüilo jardim botânico.

Este porém, não deve ser o lugar em que vamos morar futuramente. O contrato de aluguel do novo apartamento é de seis meses e durante esse período estaremos à procura do novo lar dos M&M. Estamos pensando em algum lugar fora de Sheffield, alguma cidade menorzinha com mais vacas e ovelhas. Mas por hora, nossa atenção está voltada ao apartamento aqui de Bournemouth, que vai ser colocado à venda nesta semana. Em geral, na Inglaterra, imóveis no mercado precisam estar em excelente estado de conservação para serem anunciados no preço mais rentável possível. Não é uma exigência tão rigorosa quanto nos EUA, mas ainda assim precisamos deixar tudo em ótima apresentação. Então estamos afundados em pinturas, consertos, limpeza, arrumação e decoração.

Todas essas mudanças, todas essas viagens e todas essas coisas pra fazer e pra pensar têm sido bastante estressantes. Minimos detalhes, grandes detalhes, tudo isso afeta o sono, o ânimo, a vontade de viver, a fé em Gandalf the Grey. Não seria tão difícil se não precisássemos viajar por quatro horas a cada vez que a gente tem que ir e vir de Sheffield. Mas é preciso. Logo estaremos deixando este nosso primeiro apartamento, onde colocamos cada lâmina do piso com nossas próprias mãos, onde muitos planos e bolos foram feitos, onde copos e sonhos foram quebrados, tudo, tudo sob o mesmo teto. Esta deve ser a última semana que passaremos aqui e há tanto, tanto a se despedir. E nada, nada a responder.


Escrito a mão pela Marcia às 8:06 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?

setembro 14, 2007

Homecoming

Desde que chegamos na ensolarada Inglaterra não tivemos sequer um dia de descanso. Nem. Um. Dia. Eu já não sei mais o que é ter a roupa guardada no mesmo lugar por mais de três dias. Vou entediá-los à morte, mas acompanhem a saga até agora.

Once upon a time, nós estávamos ainda em Taiwan, morando num apartamento. Passado um ano e mais um pouco, o contrato de aluguel venceu e precisamos devolver o imóvel. Empacotei tudo, fiz as malas, separei o que ia pra Inglaterra via DHL, o que ia ficar conosco, o que ia ficar pra empresa (eletrodomésticos, utensílios, louças laranjas e azuis, tudo). Mudamos pro hotel. O quarto que havíamos reservado estava em reformas e nos colocaram num quarto executivo. Óquei, desempacotei nossas roupas, DVD player, livros, todas toiletries, tudo. Duas semanas depois, o hotel comunicou que o quarto executivo em que estávamos seria reformado, mas que o outro quarto que havíamos reservado previamente estava finalmente pronto e que mudáriamos para lá assim que possível. Rats. Empacotei tudo novamente. Mudamos. Desempacotei todas as coisas.

Daí recebemos um telefonema da Inglaterra dizendo que deveríamos voltar pra Inglaterra um mês antes do previsto. Na época, tínhamos apenas duas semanas restando em Taiwan. Eis que comecei a empacotar todas as tralhas. Duas malas de viagem, duas caixas de 25kg, duas bagagens de mão, um porquinho cor-de-rosa-quase-cinza. Despachamos as caixas. Nos despedimos emocionados da querida Jo. Voamos, chegamos. Desempacotei algumas coisas para sobreviver por três dias no apartamento.

Nesse breve período nos curamos do jet-lag e nos preparamos para viajar novamente. Empacotei bagagens para duas semanas, além de colchão inflável, roupa de cama. Em Leicester ficamos por três dias, mas não foi descanso propriamente dito, uma vez que o pai do Martin foi operado e estavamos indo e vindo do hospital pra ter certeza que ele estava bem. Então empacotamos nossas tranqueiras todas e viajamos até outra cidade, onde Mr.M teve reuniões a semana toda.

Ficamos num hotel meia-boca (como todo hotel agora vai ser depois de morar no Grand Hi-Lai). E advinhem. Isso mesmo, desempacotei e empacotei as malditas malas depois de uma semana. E chegamos em casa.

Acabou? Não! Porque ao pisar meus pés cansados em nosso lar, comecei a empacotar a mala de viagem de Mr.M que no momento está de volta à Ásia. E fiquei por aqui com nada mais do que o apartamento inteiro pra empacotar. I kid you not. O apartamento vai entrar no mercado em poucas semanas. E embora toda nossa mudança vai ser feita por uma empresa que vem e empacota tudo, eu preciso checar cada coisinha e decidir se é preciso jogar fora, doar, reciclar ou manter. Outras coisas só confio em mim mesma pra empacotar. Algo muito frágil ou muito querido recebe o cuidado e o dobro de plástico-bolha que jamais teria de outros. Até aqui você, leitor amargurado e perdendo a razão de viver com esse relato, já percebeu que a função de empacotar cabe a mim. Isso mesmo, um dos meus neurônios é control freak e adora malas e caixas de papelão. O outro neurônio restante, porém, só sabe estourar plástico-bolha. *plec*

Encurto a história, tá bem? Estamos deixando o Sul e indo pro Norte da Inglaterra. Subimos na vida, pelo menos geograficamente. Não sei ainda em que cidade vamos morar, precisamos visitar vários lugares, pesquisar imóveis disponíveis, vizinhança, risco de enchentes pós-degelo das calotas polares, aquelas coisas todas. Até a gente decidir, vamos morar numa casa alugada, que também não sei onde vai ser.

A única coisa que eu sei é que estamos bastante animados com essas mudanças todas. Foi bom viver em Dorset durante esses cinco anos, foi bacana descobrir pequenos tesouros aqui e ali, conhecer a costa, dar tchau pro povo do outro lado do English Channel. Mas viver no norte sempre foi uma idéia bastante atraente, principalmente porque as raízes da metade da nossa família estão lá. E espero que essa mudança seja mesmo uma volta pra casa. Pra nossa casa.

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Escrito a mão pela Marcia às 8:55 PM | mais em M&M Homeless - Big Issue, Sir?