outubro 19, 2006

M&M in Kyoto: Day 4

O sábado era o último dia inteiramente livre que nos restava no Japão. Tínhamos a opção de viajarmos até Nara ou Himeiji, mas para sermos francos, preferimos abrir mão dessas viagens e ficar mais um dia em Kyoto porque estávamos tão encantados com a cidade e queríamos passear por ela um pouco mais. Começamos cedo nosso dia, oito da manhã já estávamos na porta do templo Sanjusangendo, que era literalmente vizinho do hotel. Era uma das atrações que eu nem estava muito animada para ir porque os guias falam muito pouco dele, não tem muita informação na Internet. Martin insistiu pra que fôssemos já que era só atravesar a rua do hotel e fico feliz por termos feito isso. Que surpresa! Que grande surpresa, que templo magnífico, injustamente pouco divulgado. Foi um dos templos que mais nos surpreendeu e nos impressionou durante toda a viagem.

Sanjusangendo é composto de um imenso hall com arquitetura absolutamente fantástica, datada dos séculos 12 e 13, e é considerada a mais longa estrutura de madeira do Japão (100m). Em alguns pontos, é possível ainda ver a sombra de uma antiga rebuscada pintura que antes decorava o teto com cores vibrantes. As paredes externas são feitas de papel de arroz, que filtra a luz e ilumina o interior de forma espetacular.

Em seu interior, 1000 estátuas da Deusa Kannon em tamanho natural (1m54) ficam dispostas em várias filas, 500 de cada lado. No meio das 1000 estátuas, há uma gigantesca estátua de Kannon, sentada com as palmas juntas em oração. Na frente desta estátua há um incensário, onde acendi um insenso em memória a todos os ancestrais da minha família no Japão. Todas as estátuas foram esculpidas em madeira e cobertas por folhas de ouro. Cada uma delas tem 40 braços, simbolizando os 1000 braços da Deusa Kannon e também a sua habilidade de abraçar a Terra e retirar o peso do sofrimento das pessoas.

Protegendo as 1001 estátuas, encontramos os 28 deuses guardiães, que têm suas origens no budismo indiano. Além dos guardiães, há também as raras estátuas do Deus do Vento e do Deus do Trovão, que são parte do Tesouro Nacional do Japão. Todas essas 30 estátuas são absolutamente impressionantes pelo realismo, pela cor dos dentes expostos e pelos olhos feitos de cristal, cujas pupilas ficam voltadas diretamente aos seus olhos, trazendo frio na sua espinha dorsal. Não é permitido fotografar o interior do templo, mas como somos bacanas, tiramos esta foto de um dos postais que compramos na saída.

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A área externa do templo também é popular. Na varanda do templo, acontece a anual competição de arco e flecha, onde os melhores arqueiros do japão vêm em trajes tradicionais para atirar suas flechas em uma distância de 118 metros. Além disso, no jardim, há uma fonte de água pura e cristalina, oferecida aos visitantes para curar de suas preocupações. Antes de deixarmos Sanjusangendo, Martin me deu de presente um minúsculo talismã cor de rosa.

Nossa próxima parada foi a estação de trem de Kyoto, onde fomos reservar assentos no trem Shinkansen pro dia seguinte. Toda vez que fizemos as reservas, levamos um papel com todas as informações escritas bem claras: número de passageiros, cidade de destino, linha do trem, horário, não-fumante. Todas as vezes que entregamos esse papel, fomos muito bem atendidos, as reservas foram feitas em dois minutos, tudo certinho.

Reservas organizadas, pegamos um ônibus e partimos para Nijo Castle. Este foi o primeiro castelo japonês que visitamos. Construído pelo mais famoso shogun (general do exército) japonês chamado Tokugawa Ieyasu, o castelo Nijo foi totalmente dedicado a se tornar uma relíquia histórica, mostrando a riqueza, poder e autoridade de seus habitantes. Apesar do castelo estar vazio de qualquer mobília, é possível ainda ver as magníficas pinturas nas paredes e portas de correr, produzidas por grandes artistas da era Kano. Há vários painéis de madeira esculpida, ricos em detalhes quase inacreditáveis. E a grande atração do castelo é sem dúvida o Piso de Rouxinol. Um inteligente alarme de segurança, onde as tábuas de madeira do corredor fazem os pregos deslizarem nas juntas, produzindo um ruído feito o canto de um pássaro rouxinol. Proteção extra contra ataques-surpresas de assassinos. Como o castelo estava praticamente calmo no dia que visitamos, tentamos andar bem devagar, pisando bem de leve, mas mesmo assim as madeiras rangiam e denunciavam nossa presença. Neste castelo também não é permitido tirar fotos e desta vez não compramos nenhum postal.

O jardim do castelo também era impressionante, com lagos e cisnes, árvores em topiaria, muros enormes feitos somente com grandes pedras sem cimento nenhum, árvores imensas, cascatas e carpas. Gostamos bastante do castelo Nijo, moraria lá sem reclamar.

Nosso último evento do dia foi visitar o Kinkakuji, o templo zen coberto de ouro, também listado pela UNESCO como patrimônio da humanidade. Não há muito o que falar do templo, além do que as fotos mostram. É bonito, dá para tirar fotos feito cartão postal. Guarda relíquias budistas e não é permitido entrar em seu interior. O único fato que achei interessante do Kinkakuji foi que em 1950 um monge fanático colocou o lugar em chamas porque odiava o fato do templo ser tão perfeito e lindo.

A caminhada até a saída é bem bacana, por entre lagos com cascatas, várias carpas, jardins, muitas árvores, tudo numa atmosfera bem calma apesar da multidão de turistas. Terminamos nosso passeio turístico e pegamos um ônibus até Gion. Ahh, como gostamos de Gion... O hotel era perto (escolhido justamente por isso mesmo) e íamos lá todos os dias, sempre que tivemos chance. Nunca nos cansamos de andar por aquelas antigas ruazinhas preservadas de Gion, sem pressa, sem destino, admirando cada casa, restaurante, okiya e casa de chá que encontrávamos pelo caminho.

Andamos muitas vezes pela Hanamikoji-dori, onde tantas vezes encontramos com Maikos caminhando apressadas, surgindo de repente, sem nos dar tempo sequer de preparar a câmera. Esta Maiko (sênior, já não usa mais o ramo de flores caindo pelo rosto) estava acompanhada de uma shikomi, que a ajudava carregando sua bolsa.


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Por ser nossa última noite em Kyoto, e no Japão, tivemos um jantar especial num dos restaurantes de Gion. Bem tradicional, tiramos nossos sapatos, fomos atendidos gentilmente por mulheres em lindos kimonos, sentamos nas mesinhas baixas sobre o tatame, uma atmosfera muito bacana. Nossos pratos foram de uma variação do wagyu beef, que são filés de bovinos que vivem soltos em pasto, recebem massagem diária e alimentação especial que inclui uma cerveja por semana. De acompanhamento tivemos sopa missô, arroz muito bom, salada, pickles diversos e o mais fantástico tofu que jamais provamos, cremoso, textura levíssima e delicioso. Martin, que não vê graça em tofu, distribuiu elogios. Ainda tivemos sobremesa de sorvete de limão. Na saída uma das atendentes trouxe nossos sapatos, pagamos, fizemos uma confusão com o troco e acabamos deixando mais gorjeta do que pretendíamos, oh well.

Continuamos nosso passeio por Gion e vimos várias Geikos, desta vez ao final de seus eventos, se despedindo de seus clientes, que certamente pareciam pessoas bastante influentes, talvez presidentes de empresas, talvez políticos, certamente personalidades de prestígio que contrataram não uma, mas três Geikos e uma Maiko. Uma uma noite de apresentação artística com uma Geiko pode custar entre 2,200 a 3,600 Libras. Quanto mais popular e requisitada, maior é o valor de sua presença.

Não sei se dá para perceber nas fotos, mas as Geikos, ao contrário das Maikos, usam kimonos bem mais discretos, porém de alto bom gosto, suas mangas são mais curtas também. A maquiagem é muito mais simples porque nesta fase elas podem confiar totalmente em sua beleza natural, agora são belas como as mulheres maduras são. Nem mesmo os adornos no cabelo são necessários. Aliás, elas têm o direito de usar perucas para voltar a dormir em travesseiros normais feito qualquer mortal. A grande diferença, no entanto, é o comportamento. As Geikos são muito mais confiantes e seguras de si, em todos os aspectos. Sorriem mais que as Maikos, inspiram mais respeito.

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Satisfeitos com nossa noite, estávamos caminhando de volta à avenida principal, quando duas Geikos surgiram caminhando em nossa direção, na mesma calçada. Uma delas era mais velha, não estava maquiada como geisha, mas era elegantíssima. Ambas conversavam animadas e achamos que poderíamos nos aproximar delas. Nós paramos, reverenciamos e perguntei em japonês se elas se importavam que tirássemos uma foto. Elas sorriram e concordaram, a mais velha veio pro meu lado e deixou apenas a Geiko maquiada e produzida ser fotografada. Martin tirou apenas esta foto e ela nos presenteou com este singelo sorriso. Reverenciamos e agradecemos bastante. Sem dúvida nenhuma foi a mais bela Geiko que tivemos o prazer de encontrar.

E assim encerramos nossas férias no Japão. Depois de dias ensolarados, o dia seguinte amanheceu chovendo, mas pouco nos importamos porque passamos o dia todo viajando de Kyoto a Tokyo (3 horas), Tokyo a Narita (2 horas), Narita a Kaohsiung (4 horas). Arranha-céus, templos, altares, animais selvagens, rios, lagos, geishas, castelos, montanhas, tudo o que a gente queria para essa viagem. Foi uma experiência muito marcante para nós dois e certamente um país que sempre vai ter um lugar muito especial em nossas vidas.

Dewa mata, Nihon!


Escrito a mão pela Marcia às 4:52 AM | mais em M&M in Japan

outubro 17, 2006

M&M in Kyoto: Day 3

No terceiro dia em Kyoto fizemos um programa diferente. Pegamos o trem, viajamos por menos de uma hora até a cidade vizinha Arashiyama e passamos o dia lá. Foi um passeio bastante tranqüilo, ensolarado e agradável. Andamos por todos os cantos da cidade a pé e de mãos dadas. Nosso principal destino era o Monkey Park, área florestal onde macacos da neve (Japanese Snow Macaques) vivem livres e selvagens.

É uma caminhada íngrime, por entre a floresta, que deixa tudo mais especial. No topo do monte Iwatayama existe um campo de observação, um abrigo onde os turistas encontram água, banheiro e alguns snacks. Funcionários do parque ficam vigiando de lá todo o comportamento dos macacos (e dos turistas também), aplacam eventuais brigas, dão assistência veterinária, estudam os primatas. Lá também é possível comprar pacotes de maçãs em cubinhos e amendoins para alimentar os muitos macacos que ficam por ali.

Alcançamos o campo de observação em meia hora e ficamos surpresos com o número de macacos nos esperando ali. Grandes, pequenos, filhotinhos, velhinhos, toda a família reunida. E a vista do topo da Iwatayama era bem bacana, só então que nos demos conta de quão alto estávamos.

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Ficamos observando os macacos ali em volta de nós, soltos e livres. Depois fomos pro abrigo, que tem todas as suas janelas cercadas de tela para os macacos não entrarem. Então não se engane nas fotos: eles estão do lado de fora da tela e nós é que estavamos "enjaulados", para variar. Eles ficam na janela e esticam o bração para dentro da casa, pedindo comida. Nós compramos três pacotes de maçã e um pacote de amendoim. Ah, como amei ficar ali alimentando os bichinhos, coisa que nenhum zoológico permite, obviamente. Mas ali os macacos são bem controlados, há várias regras, todos eles têm nomes, todos têm acompanhamento nutricional.

E ficamos tão encantados de perceber que se você oferecer um pedaço de maçã segurando-o entre seus dedos, os macacos puxam o pedaço com força. Ao invés disso, se você colocar o pedaço de maçã na palma da sua mão e oferecer, eles colocavam a mãozinha sobre a sua e pegam o pedaço com a maior delicadeza.

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Alimentamos vários deles, mas um ganhou minha atenção e fiquei sentada ao lado dele por muito tempo. Daí ele começou a fazer uma careta: arregar os olhos e abrir a boca em formato de "O", sem emitir nenhum som. Eu dei um pedaço de maçã. Daí eu fiz "O" com a boca e ele imitou. Dei outro pedaço. Fiz "O" de novo, ele imitou de novo, ganhou outro pedaço. Um outro macaco que estava assistindo veio correndo na janela, ficou do lado do outro, esticou a mão pra mim e fez "O". Morremos de rir. Em pouco tempo os dois ficavam fazendo "O" pra mim para ganhar mais comida. Encheram a pança de maçã e amendoim até nosso estoque acabar. Fofinhos.

Deixamos o abrigo e fomos explorar as áreas da floresta. Sentamos num canto e ficamos observando uma confusão que aconteceu entre um macho alfa e um outro coitadinho que todos pareciam querer atacar. Acho que ele era de outra família. Depois de muita gritaria, muita correria, muita comoção, os funcionários do parque intervieram e mandaram a macacada parar com a briga.

De barrigas cheias, logo os macacos saíram a procura de uma sombrinha para um cochilo da tarde. Uns pegavam um parceiro para examinar o pêlo a procura de pulgas ou afins, outros subiam em árvores para ter mais sossego, outros simplesmente dormiam onde estavam, com a cabeça caindo. Filhotinhos eram os únicos que não estavam interessados na siesta.

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E no meio desta calmaria aconteceu nosso incidente. Havia um macaco dormindo todo largado no chão. Martin se aproximou para tirar uma foto do rosto dele dormindo. O macaco acordou e assustou com a lente enfiada no focinho dele. Em um segundo ele levantou, mostrou os dentes e gritou como se fosse morder. Martin rapidamente levantou, virou de costas e se afastou. Vi o macaco ainda jogar o braço pra frente para dar um tapa na perna do Martin, mas não alcançou. Eu estava bem atrás do macaco e ele olhou pra mim e fez cara feia cheia de raiva. I haven't done nuffink!! Mais calmo, o macaco deitou e voltou a dormir em dois segundos. Tadinho, animais selvagens em sua maioria atacam porque estão amedrontados, não porque são violentos. A gente leva mesmo uma vida perigosa.

Descemos a montanha mais um pouco e descobrimos alguns macacos brincando no laguinho artificial. Nosso sonho era ver os macacos da neve no invernão, cobertos de neve, tomando banho nas piscinas aquecidas naturais. Mas macacos da neve brincando no lago em pleno calor do começo de outono deu pro gasto também.

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Deixamos o Monkey Park, almoçamos num restaurante de Udon (noodles grossos), compramos sorvetes de casquinha e passamos o resto da tarde perambulando pela charmosa Arashiyama. Caminhamos em volta do rio, depois pegamos um belíssimo caminho por entre o bambuzal, que aparece numa das cenas do filme Memórias de uma Gueixa (Sim, vi o filme, li o livro. O filme vale a pena se você tiver em mente que trata-se de uma ficção; a produção é de Spielberg, imagens caprichadas. Já o livro, well... li melhores).

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Pegamos o trem de volta a Kyoto, passeamos pelo centro e voltamos pro hotel, onde havíamos recebido um convite para participar de um coquetel em comemoração dos 6 meses da inauguração. Bebemos vinhos fantásticos, comemos mini sanduíches diversos e uma porção de outros aperitivos. Nhams!

Escrito a mão pela Marcia às 5:09 PM | mais em M&M in Japan

outubro 14, 2006

Geikos and Maikos

Atendendo a pedidos (1), vou fazer uma breve pausa na infinita narração de nossas férias e dedicar espaço para esclarecer algumas idéias sobre as Gueixa.

A primeira e principal questão que a maioria das pessoas fazem é: são Gueixas prostitutas de luxo?

A resposta é clara e simples: Não. Absoluta e certamente que não são e historicamente nunca foram.

Mas a confusão tem sua razão de ser. No século 17, muito antes das Gueixas existirem, havia no Japão o que era chamado de "distrito do prazer", glamorosas áreas de entretenimento onde cortesãs eram pagas para animar festas com suas danças, músicas e também sexo. Essas cortesãs, no entanto, não eram simples prostitutas de rua, muito pelo contrário. Com a queda da clã Toyotomi, filhas e esposas de samurais da alta hierarquia social tiveram pouca opção além de voltarem-se para a prostituição. Elas eram então cortesãs com alto nível de educação, cultura e elegância. Os "distritos do prazer" não era um lugar obscuro, escondido e de luz vermelha, não. Eram áreas onde a atmosfera refletia o alto nível de cultura tanto dos que frequentavam quanto daquelas que os entretiam. Os clientes se divertiam comendo, bebendo, assistindo a danças e conversando animadamente. Se tivessem sorte e se fosse do consentimento das cortesãs, a noite poderia até terminar em sexo. Mas nem sempre.

Entre as cortesãs, existia também uma hierarquia e o mais alto nívei que uma cortesã poderia alcançar era chamado Tayuu. As Tayuu eram mulheres que brilhavam pela sua excepcional beleza, talento e nível cultural. Eram tratadas como membros da realeza, andavam sempre acompanhada de dois ou mais serventes. Eram mulheres poderosas, davam-se ao luxo de recusar clientes que não as atraíam. Se vestiam de forma ricamente extravagante, com kimonos caríssimos bordados em ouro e prata, vários pentes e os mais finos adornos na cabeça, maquiagem formal branca e nos pés, as mais altas e impressionantes sandálias de plataforma jamais vistas. Elas andavam com os pés desenhando um 8 no chão, sem meias por baixo de tamanha indumentária, provocando fascínio e sensualidade. E outro detalhe importante na vestimenta das Tayuu era o obi amarrado na frente (ao invés de ser amarrado nas costas), uma explícita forma de mostrar que seu kimono era fácil de abrir.

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Modelo representando uma Tayuu. Fotos de Philibert Ono, durante o festival Tokyo Jidai, no desfile das tradicionais épocas históricas do Japão


No início do século 18 as prostitutas comuns e baratas proliferaram e logo a era das Tayuu começou a decair. O ano de 1761 foi o último em que as Tayuu exerceram sua profissão. Na mesma época, uma nova classe de artistas começou a surgir no "distrito do prazer". Geikos eram originariamente somente homens, vindos do teatro e famosos por suas danças e músicas tocadas em um instrumento de cordas chamado shamisen. Logo as mulheres se juntaram a eles e foram tão bem sucedidas que a demanda por elas começou a crescer de certa forma que tirou os homens de cena. Elas também vestiam kimonos de forma provocante, com a nuca exposta, mas não tão extravagante como as Tayuu, e usavam uma maquiagem similar, rosto pálido e lábios cor de cereja. Provavelmente daí é que veio a confusão, acrescentado ao fato que elas dividiam o mesmo espaço no "distrito do prazer".

Em 1873 o mesmo "distrito do prazer" foi fechado e a prostituição foi proibida no Japão. As Geikos foram o único grupo que teve liberdade de continuar exercendo sua profissão porque o trabalho delas não envolvia nada de origem sexual. E para evitar que isso mudasse, o governo japonês instituiu regras e leis para a profissão, que são regidas até hoje. Uma delas diz que se uma Gueixa for suspeita de ter um relacionamento muito íntimo com seus clientes em seu trabalho, ela seria investigada e suspensa de suas atividades.

Com isso, as Geikos passaram a se organizar em uma própria comunidade, criando rígidos treinamentos de comportamento, disciplina, dança, música, literatura e cultura. Criaram também sua própria hieraquia de acordo com a experiência das aprendizes, chamadas de Maikos:

Shikomi, primeiro estágio para quem quer se tornar geisha. Elas atentem à diversas aulas e ajudam as Maikos a se vestirem.
Minarai, segundo estágio, quando as Shikomi passam pelo teste e começam a praticar lições de conversação, vestimentas e maquiagem.
Musume-bun, terceiro estágio, caso a Minarai seja aceita por uma Geiko para ser sua "irmã mais nova". Ela agora passa a ser apresentada nas festas como uma própria Maiko e recebe um novo nome. De acordo com sua experiência, ela é considerada Maiko Júnior ou Maiko Sênior.

Geiko, último estágio. Antes de chegar a esta fase ela já deve ser uma Maiko bastante popular e bem sucedida, pode escolher entre viver em seu próprio apartamento ou continuar na okiya (casa das geishas) até se aposentar. Clientes podem agora se oferecer para serem seus patrocinadores. Em Tokyo elas passaram a se chamar "Geisha", no dialeto local.

Com toda essa preparação, ao mesmo tempo em que começaram a ficar ainda mais especializadas em artes tradicionais, passaram também a capturar a atenção das mais influentes e poderosas personalidades do Japão. Políticos, empresários, membros da realeza e Primeiro-Ministros passaram a prestigiar a arte das Geikos, contratando suas apresentações performáticas em eventos de suma importância.

Portanto, ao contrário das Tayuu, em nenhum momento da história do Japão as Geikos venderam nada além que sua arte de dança, música e cultura tradicional. A própria palavra Geiko significa "artista": Gei = arte, ko = pessoa que faz. Muitas, obviamente, envolveram-se com clientes, casaram, tiveram um relacionamento como qualquer outro mortal teria mesmo que trabalhasse em um banco ou num escritório qualquer. São enfim, artistas e atrizes que vivem de sua arte, não de seus corpos. Elas são contratadas para criar uma atmosfera de animação e cultura em eventos com sua beleza, inteligência, música e dança. O que acontece entre elas e seus clientes além disso depende apenas de cada uma delas, como indivíduos. Mas isso não é, em nenhuma instância, parte do trabalho de uma Geiko ou Maiko.

E para o desgosto das Geikos modernas, o livro Memórias de uma Gueixa, de Arthur Golden, surgiu para colocá-las sob holofotes do mundo ocidental com fatos completamente errados. Golden se defende dizendo que é uma obra de ficção e que ninguém deveria tomar a leitura como fato concreto. I beg to differ. Acho que ele foi preguiçoso na pesquisa do assunto de seu livro, sabendo que haveria uma grande curiosidade dos seus leitores de saber a verdade. Poderia ter escrito uma obra prima, mas caiu na tentação de levar para o lado do conhecimento popular, de que a vida delas gira em torno de sexo. Golden ganhou livro, filme, fama, fortuna e um belo processo judicial da ex-Geiko Mineko Iwasaki, que o ajudou fornecendo informações para o livro e viu, horrorizada, que tudo fora distorcido.

Então, para quem aprendeu sobre Gueixas apenas pelo livro ou filme Memórias de uma Gueixa, é preciso esclarecer alguns pontos:

- Mizuage: não, maikos (aprendizes de geikos) não vendem suas virginidades, se é que ainda não ficou claro que elas não são prostitutas e portanto não vendem nenhuma parte de seus corpos. Mizuage entre maikos é rito de passagem de uma idade para outra, mais adulta e feminina, nada a ver com virgindade ou sexo. E esse rito de passagem geralmente custa bem caro porque elas mudam todos seus kimonos e adornos. Alguns clientes oferecem ajuda para pagar os custos dos novos kimonos e acessórios, nada mais que isso.

- Danna: assim como alguns clientes oferecem ajuda para pagar pelos custos do Mizuage, outros vão mais além e oferecem para serem Danna, fornecendo ajuda financeira para manter uma Geiko pelo resto de sua carreira, provendo casa, kimonos, aulas de dança e mesada regular. Isso não implica, no entanto, que a Geiko passa a ser dependente de seu Danna, ela apenas ganha um patrocinador. Para as Gueixas modernas, a carreira em si é o centro de suas vidas, é seu veículo para conquistar a posição que desejam. Ao contrário do que o livro sugere, Gueixas são mulheres independentes e poderosas financeiramente, com ou sem Danna, jamais subservientes ou submissas a ninguém.

- Piscinas naturais: Geikos e Maikos atentem à festas, jantares e banquetes em casas de chá privadas e particulares, que trabalham em parceria com as geishas. É preciso marcar horário num órgão oficial chamado Kenban e definir por quanto tempo elas permanecerão no evento. É preciso também que o cliente seja bem conhecido pela casa de chá onde o evento vai acontecer. Portanto, essa idéia ser cercado de Gueixas peladas numa piscina natural simplesmente não acontece na realidade. O autor provavelmente tirou essa idéia das "Onsen Gueixas", prostitutas das pousadas com piscinas naturais que se intitulam "Gueixas" para atrair turistas ocidentais.

No mais, nenhuma menina é vendida para ser Geiko. Atualmente muitas adolescentes sonham com a carreira de Gueixas assim como muitas sonham ser Top Models no ocidente. Elas podem terminar o colegial ou até a faculdade antes de começar a carreira de Gueixa. E também podem abandonar a carreira quando bem entendem, ninguém é prisioneira, ninguém precisa tentar fugir da okiya.

Se você quiser mesmo se aprofundar no conhecimento de Gueixas, se quiser ficar livre desse estereótipo hollywoodiano que a maioria tenta empurrar abaixo de sua goela, procure fontes mais precisas, respeitáveis e verdadeiras. Alguns bons livros são:

Geisha : A Living Tradition, de Kyoko Aihara
Women of the Pleasure Quarters, de Lesley Downer, uma das poucas ocidentais aceitas em uma okiya para fazer suas pesquisas (o mesmo livro é também encontrado sob o título Geisha: The Secret History of a Vanishing World).
Geisha, A Life, de Mineko Iwasaki

Como disse Roger Ebert, expert em cultura japonesa "eu imagino que quanto mais você aprende sobre o Japão, menos você gosta de Memórias de uma Gueixa." Assino embaixo. Espero que este post traga a quem lê uma nova luz sobre o que as Geikos e Maikos são: artistas talentosas, respeitáveis e dignas de reverências.

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Foto: Dick Harris

São vivos patrimônios do tesouro nacional do Japão.

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outubro 13, 2006

M&M in Kyoto: Day 2 - Part 2

Oh dear, oh dear. Alguém ainda vivo? Já vai fazer duas semanas que voltamos do Japão e eu ainda estou aqui contando sobre nossas férias. Daqui a pouco a Coréia do Norte implode nós tudo e nem vai existir mais Japão, nem Taiwan, nem China e eu ainda vou estar aqui escrevendo "m&m in kyoto day 2 - part 4..." Mas eu vou em frente. Depois disso tudo não vou ter muito pra contar mesmo, então ficaremos quites.

Aonde paramos? Ah, Fushimi Inari. Terminamos então a trilha, almoçamos um soba (noodles integral) fantástico, delicioso, vimos o moço preparar o macarrão na hora. O soba veio acompanhado de arroz, pickles e tempura. Deleite após duas horas subindo e descendo montanhas. Primeiro você pega uma porçãozinha de soba, mergulha no potinho com molho e manda pra dentro fazendo todo barulho que quiser. Uma diversão, mas não vista sua camisa branca para ir a um soba-ya.

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De barrigas felizes, nos mandamos para Heian Shrine, dedicado aos imperadores Kammu e Komei. Esta deve ser uma atração fantástica na época da primavera por conta de seus belíssimos pés de cerejeiras choronas. Pós-verão, pré-outono, não é assim tããoo atraente. Estava cheia de grupos turísticos, daqueles com guias segurando bandeirinha na frente. Passamos grande parte do tempo só sentados, vendo a multidão ir e vir, o sol estava bem forte. Depois fomos conferir o jardim, que é maravilhoso. Na ponte coberta havia bancos em toda sua extensão. Ficamos relaxando por lá, vendo as enormes carpas subirem à superfície para pedir comida. Gulosos.

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De lá fomos ao Nishiki Market, no centro de Kyoto. A região central de Kyoto é bastante moderna, várias grandes lojas de departamentos, muitos prédios comerciais, bastante gente, bastante tráfego. E Nishiki Market é uma galeria comprida e estreita, mercado de diversos legumes, pickles, frutas, doces, peixes e verduras. Visitamos a loja de facas, mas não ficamos tão impressionados como em Kappabashi Street. Havia facas de marcas japonesas bem famosas, todas artesanais. O cheirinho de bolinhos de polvo sendo assados por este senhor estava tentador. Ao lado dele, havia uma banca com vários barris cheios de legumes e verduras em conserva. Pareciam ótimos. Compramos apenas uma garrafinha pequena de sake. É, eu sei.

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Voltamos pro hotel e logo saímos para Gion, que ficava bem perto. Estávamos para atravessar a rua quando esta Maiko juntou-se a nós. Agora verdadeira, original, autêntica. Ela estava a caminho de seu compromisso. Note a diferença entre ela e as outras falsas: esta usa seu próprio cabelo, seus adornos no cabelo mostram que ela é maiko júnior e por essa mesma razão ela pinta apenas uma porção do lábio inferior. Além do mais, o kimono dela é estonteante, delicado, de bom gosto e, de perto, dá pra perceber que a seda é finamente bem pintada, o obi (o "cinto" amarrado à cintura e preso nas costas) é ricamente bordado. E ela também é bastante graciosa. Martin pediu em inglês se podia tirar uma foto dela e ela concordou e nos presenteou com esse belo retrato.

E já que falei do kimono, não custa lembrar: quando vocês visitarem o Japão e encontrarem uma maiko ou geiko pela frente, jamais, em hipótese alguma toque no kimono delas. Tire milhares de fotos, converse com elas, mas não toque no kimono. Esses kimonos custam mais de dez mil libras e não podem ser simplesmente lavados na Laundromat da esquina. E sua mão, por mais limpa que esteja, tem oleosidade, tem suor, tem sal, tudo que danifica a seda. Vimos muitos turistas puxando, segurando, abraçando as maikos pelo kimono para tirar fotos. Elas não se opõem, não reclamam, mas certamente devem odiar. Então, por boa educação, não faça o mesmo, respeite o patrimônio delas. No mais, japoneses em geral também não gostam de contato físico com estranhos, então puxar pelo braço ou cutucar ou dar tapinha no ombro é para eles bastante grosseiro, estejam de kimono ou não.

Depois de caminhar próximo do rio Kamogawa, fomos jantar num restaurante bem bacana especializado em katsu (empanados e fritos em óleos insaturáveis), numa das lojas de departamento. Não me lembro se foi no Hankyu ou Takashimaya... Enfim, era um restaurante bonito, elegante, decoração minimalista e tals. A mesa era quadrada e enorme, ficamos bem distantes um do outro ("passa o sal. hein? o sal, passa o saaaaal. hein?").

Fomos atendidos, falei que só sabia falar um pouco de japonês, mas o moço desembestou em falar japonês explicando cada potinho que ia colocando na nossa frente. Ele nos entregou os menus e apontou prum aparelhinho redondinho de acrílico na mesa. Nós não entendemos nada. Escolhemos nossos pratos e o Martin pegou o aparelhinho. Nenhuma luz acendeu, nada mudou, não era apertável, não tinha botão nenhum. O garçom pegou nossos pedidos. Continuamos encucados com o aparelho redondo de acrílico, tentando decifrar pra quê servia. Martin ficou apertando e dizendo "não acontece nada". Mas daí eu percebi todo mundo da cozinha (que era aberta, linda, ficava atrás de uma vidraça) olhando pra nossa mesa e um garçom veio correndo nos trazer uma sopa.

Só então que eu percebi que a cada vez que Martin tocava no aparelho, lá na cozinha uma campainha soava, mostrando o número da mesa que os chamava. E já fazia uns bons minutos que estávamos fazendo ding-dong-ding-dong-ding-dong-ding-dong-ding-dong feito famintos desesperados à beira da morte por inanição... Ohohohoho... Quando percebemos começamos a rir e o povo da cozinha relaxou e começou a rir também. Largamos o brinquedinho e recebemos nossos pratos. De acompanhamento recebemos uma infinidade de tigelinhas com pickles diversos. Uau, comemos bem, o empanado de camarão foi o maior que jamais vi, imagine uma lagosta empanada, foi quase isso, enorme! Nos comportamos até o final da refeição.

Passeamos por Gion vimos mais geikos e maikos indo e vindo. Voltamos pro hotel, abrimos o sake e zzZzzZzz...

Escrito a mão pela Marcia às 9:30 AM | mais em M&M in Japan

outubro 12, 2006

M&M in Kyoto: Day 2

Desde quando estávamos ainda planejando estas férias, colocamos Fushimi Inari Shrine no alto da lista. Além de seus famosos incontáveis portais vermelhos Torii, também não víamos a hora de fazer algo que não fazíamos desde que deixamos a Inglaterra: caminhar ao ar livre, respirando ar puro. E em nosso segundo dia em Kyoto estávamos animadíssimos para conhecer esta trilha. Este mapa mostra a rota dos portais Torii que cobrem grande parte da trilha florestal do Monte Inarisan. Clique no mapa para ampliar e ver os detalhes:

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Fizemos a trilha completa, do início ao fim e ainda subindo e descendo as escadas mais que uma vez para fotografar. Foi fácil, belíssima e extremamente agradável. Inari é o deus do arroz, que para os japoneses significa fartura e prosperidade. Os portais Torii são oferendas de devotos, de famílias e também de empresas. Os nomes de quem os doou aparecem entalhados na lateral. O deus Inari tem como seus mensageiros as raposas e é comum encontrarmos estátuas das mesmas por toda a trilha.


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Nem todos os devotos têm condições de doar um dos Torii, alguns doam barris de sake (humm) por ser feito de arroz, outros doam pequeninos Torii, que também são expostos na trilha, igualmente. As plaquetas em formato de raposa levam os desejos para o deus Inari.

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Parte final da subida, estávamos próximos ao topo de Inarisan, sempre com a Raposa olhando por nós. Que simpática que ela é. A esta altura eu já estava coberta de picadas de pernilongos, nenhum guia turístico avisa, então eu lhes forneço o conselho de aplicar um repelente antes de começar a trilha. Doei quase todo meu sangue, mas a caminhada estava tão bonita que nem liguei, nem me importei.

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O cume. "We are the champions, my friend..." Subi até o altar, fiz *CLANG* no sino pendurado no telhado para chamar a atenção dos céus e agradeci ao deus Inari e suas raposas mensageiras.

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E começamos a descida de volta à base de Inarisan. Foi sem dúvida um dos cenários ao ar livre mais belos que visitamos em Kyoto.

Escrito a mão pela Marcia às 3:43 AM | mais em M&M in Japan

outubro 9, 2006

M&M in Kyoto: Day 1

Com o tempo nublado e um pouco chuvoso, deixamos Tokyo e embarcamos no Shinkansen Tokaido Hikari a caminho de Kyoto. O interior do trem é bem espaçoso e as poltronas são largas. E como a maioria do transporte público no Japão (fora da época de feriados), tudo é limpíssimo, organizado e extremamente silencioso.

Encontramos nossos assentos e logo uma atendente apareceu com seu carrinho cheio de comidinhas. Compramos dois obentô e dois sucos para nossa viagem, que duraria quase três horas. Partimos e ficamos admirando as últimas imagens de Tokyo, seus prédios e sua modernidade. Depois de algum tempo a paisagem mudou para campos de arroz e montanhas. Ainda chovia e não conseguimos ver o Monte Fuji; a pálida silhueta que vimos dele da janela do hotel seria o máximo que veríamos até o fim das férias. Logo o Shinkansen alcançou sua velocidade máxima e viajamos a quase 300km/h. Passamos do meio dia e resolvemos abrir nosso obentô:

O do Martin era o da esquerda, mas quando ele viu que havia konnyaku (um tipo de gelatina com gosto de alga) e uma criatura na concha, pediu pra trocar comigo, já que o meu era bem simples com salmão, legumes e arroz. Trocamos, mas pedi meu umeboshi (cereja azeda em conserva, minha paixão) de volta. A criatura na concha não era escargot, mas um fruto do mar apenas, tava até bom. O konnyaku eu não comi, também não gosto. O que eu mais gostei foi o Sekihan, arroz com feijão azuki, que eu adoro e fazia muito tempo que não comia (minha mamis faz um delicioso). Depois do almoço, recolhemos tudo e levamos para a área das lixeiras recicláveis, tudo limpinho e bem sinalizado. Comemos mais alguns Pockys e ficamos apreciando as pequenas cidades que devem refletir a verdadeira imagem do Japão. A chuva já tinha ficado para trás e antes mesmo de passarmos por Nagoya o sol já estava brilhando e o céu estava bem azul.

Desembarcamos em Kyoto e tomamos um taxi até o hotel. A minha primeira impressão de Kyoto foi confusa. Esperava casinhas típicas, ruas estreitas, algo que lembrasse a antiga e tradicional capital do Japão. Mas o que vi foram casas normais e prédios altos, concreto, avenidas largas, muito trânsito. Kyoto é grande, cidade moderna e urbanizada. Mas mal sabia eu que ainda estava para encontrar o grande tesouro intocado que esta cidade ainda tinha para me mostrar. No hotel, nossa mala despachada já estava esperando em nosso quarto, ganhei um bouquet com duas rosas frescas na recepção e ficamos apaixonados pela decoração ultra moderna e delicada do quarto. O hotel tem apenas seis meses desde que inaugurou e tudo estava novinho. Achei magnífico o painel com tecidos de seda na cabeceira.

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Saímos para visitar o belíssimo Kiyomizudera, o Templo da Água Pura, listado pela Unesco como patrimônio da humanidade. O templo budista fica no topo de uma colina no meio da floresta. Ficava bem perto do hotel, mas pegamos o ônibus para aprendermos a usá-lo. O caminho que leva o templo é por uma ruazinha estreita, pavimentada por pedras, rodeada de casinhas de madeira e suas cortinas de palha. A imensa pagoda no topo indicava o caminho a seguir. Agora sim, começava a me sentir em Kyoto!

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Pelo caminho, passamos por várias lojinhas de artesanato, de souvenirs e também pelos populares estúdios que fazem makeovers para turistas que desejam se vestir e se maquiar como uma gueisha (ou geikos, como elas preferem ser chamadas em Kyoto). E falando nelas, encontramos com estas duas Maikos (aprendizes de gueikos).

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Perguntei pra uma delas se importaria que tirássemos fotos ("sumimassen, anata no shashin o totemoi deska?") e ambas concordaram e posam sob a luz perfeita do final da tarde. E como elas continuaram paradinhas, tiramos alguns retratos, pro caso delas precisarem de fotos pro passaporte, hoho. Mas... são elas verdadeiras Maikos ou falsas?

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A resposta é: embora vezes ou outras algumas maikos passem por Kiyomizudera, estas das fotos acima são turistas vestidas de maikos pelos estudios, são falsas. Ambas estão usando perucas e verdadeiras Maikos devem usar seus próprios cabelos, que são penteados com cera e são mantidos assim por vários dias, obrigando as aprendizes a dormir usando um takamakura, um apoio de madeira para suportar a nuca e suspender a cabeça. Só quando se graduam como Gueikos elas ganham o privilégio de usar perucas e voltam a deitar suas cabeças em travesseiros para dormir como qualquer mortal. Além da peruca, há outra inconsistência nestas fake maikos: os enfeites de cabeça com flores penduradas no rosto e um pente de prata do outro lado indicam que elas são Maikos Júniores. No entanto, a maquiagem com os lábios totalmente pintados indicam que são Maikos Sêniores, um erro que jamais seria cometido por verdadeiras Maikos porque mostra desrespeito à sua posição. Os estúdios que fazem a produção oferecem no pacote um passeio a pé por Kiyomizudera, então as chances são de que a maioria das maikos vistas ao redor do templo são falsas. Maikos e Geikos se produzem para atender a eventos; quando estão apenas visitando templos ou indo e vindo de suas aulas, elas não usam toda a maquiagem e arranjos nos cabelos.

Deixamos as "maikos" para trás e subimos as escadarias que nos levaram à pagoda símbolo de Kyoto e ao Jishu Shrine, dedicado ao deus do amor.

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Continuamos caminhando e alcançamos o belíssimo terraço do Kiyomizudera. Pena que o outono ainda estava começando e as árvores ainda não estavam coloridas de vermelho, dourado e amarelo. Mas mesmo assim a vista era encantadora.

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Pegamos um caminho de terra, um passeio delicioso no meio da floresta, com o sol entrando por entre os galhos e folhas. Chegamos então a uma casa de chá com tatame e mesinhas baixas, ao ar livre. Tiramos os sapatos, sentamos, Martin pediu uma Sapporo e eu pedi sake. A dona da casa nos trouxe uma garrafa de Sapporo grande, dois copos, além de uma garrafinha pequena de sake e mais dois copos. Duas garrafas e quatro copos numa mesa de duas pessoas. Bebuns desavergonhados. Ao nosso redor, todo mundo tomando sorvete e chá verde. Tsc. Enquanto relaxávamos, podíamos ver a fonte de água pura, que dá o nome ao templo, além da floresta e da escadaria que leva ao terraço. Outras três fake maikos (fake-os) surgiram.

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Deixamos a casa de chá e fomos nos purificar na fonte de água pura, que dizem, é capaz de curar de todas suas dores. Todas as canecas ficam numa esterilizadora e mesmo assim todo mundo dá uma lavadinha depois de usá-las, como cortesia ao próximo, tudo organizadinho e bonitinho. Martin estava a postos para me fotografar caindo no lago da fonte, depois de tomar sake. Mas eu me equilibrei direitinho e não caí, nem molhei a câmera.

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Purificados e felizes, encerramos nossa visita ao Kiyomizudera. Saímos da intensa e gigantesca Tokyo para entrarmos numa tradicional velha cidade. Mais natureza, mais histórias e mais cultura. Eram as primeiras horas e já estávamos completamente e perdidamente apaixonados por Kyoto.

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Escrito a mão pela Marcia às 5:07 AM | mais em M&M in Japan

outubro 7, 2006

M&M in Tokyo: Day 3

Último dia em Tokyo. Já pela manhã pedimos pro hotel enviar uma de nossas malas para o outro hotel da mesma rede, onde ficaríamos para a próxima etapa das nossas férias. Saímos sob nuvens escuras, fomos ao showroom da Canon vizinha ao hotel, deixamos lá uma das câmeras para limpar o sensor e fomos para a estação Shinjuku. Esta estação é enorme. Digo, gigantesca, imensa. Vários andares, várias asas, várias saídas. Acredito que é possível passar o resto de sua vida ali tentando encontrar a saída certa. Nada menos que três milhões de pessoas passam por ali diariamente.

Procuramos pelo escritório da Japan Rail Pass para trocarmos nossos vouchers pelos passes de trem e também para reservarmos assentos no Shinkansen pro dia seguinte. Mais uma vez um senhor japonês apareceu para nos ajudar e caminhou conosco escadarias acima até nos deixar na porta do escritório da JR. Agradecemos e reverenciamos até não podermos mais, que super gentil que ele foi.

Resolvemos tudo, pegamos nossa câmera e bruuum! Chuva. Ou melhor, typhoon. Este typhoon estava o tempo todo ameaçando nossas férias. Fez curva e não atingiu o país, mas em seu último dia avançou um pouco e trouxe muita chuva e vento para a capital. Choveu torrencialmente então, durante o resto de todo o dia.

Compramos um guarda-chuva descartável e partimos para Shibuya. Tentamos caminhar, ficamos ensopados. Almoçamos mal num restaurante coreano. Tentamos caminhar de novo, nos ensopamos de novo, vimos a estátua do cão Hachiko, que esperava fielmente pelo seu dono na porta da estação, todos os dias, e continuou a esperar por muitos anos depois que seu dono faleceu. Atravessamos o tão famoso cruzamento de Shibuya, onde verdadeiras multidões atravessam. Naquele dia porém, não estava tão cheio, talvez por conta da chuva. Mas foi interessante de ver que uma multidão daquelas vindo em direções opostas, consegue ser extremamente organizada. Cada um move um tiquinho de lado pro outro passar e pronto, todos atravessam sem esbarrões, sem problema.

A chuva pelo menos permitiu que a gente tirasse uma foto menos comum do cruzamento. Desta vez os guarda-chuvas fizeram um gracioso mar de cores e formatos.

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A chuva piorou e entramos na Loft, onde me deliciei com as coisinhas para fazer obentô, moldes, cortadores e mini-garrafinhas. Passeamos pelos outros andares, inclusive o de brinquedos e fantasias. Experimentei uma fantasia (só de cabeça) de uma berinjela! I mean, how great is that?! Adoro berinjela, o chapéu-fantasia era daqueles que você bota a cabeça no legume e fica só o rosto pra fora, imaginou? E a berinjela era lindinha, escura, cabinho bem verdadeiro. Não teve fotos, obviamente.


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Saímos da Loft e percebemos que a chuva tinha piorado e o vento agora estava ficando muito forte. Fomos até Harajuku novamente para tentar visitar Meiji Shrine e Yoyogi Park. Mas ao chegarmos lá, desistimos. Não havia como passear numa chuva e num vento daquele. Já estávamos ensopados, não podíamos nem tirar a câmera pra fora da bolsa pra fotografar nada. Só para não perder a viagem, passamos na Snoopy Town. Comprei um chaveiro com um Snoopy minúsculo carregando uma tigela de noodles que tem até um ovo dentro. E um guarda-chuva com alguns quadrinhos do cão. Só isso.

Resolvemos voltar para Shinjuku para nossa então diária visita em uma das magníficas patisseries das lojas de departamento. Desta vez não foi francesa, mas a alemã Juchheim e seus Baumkuchen. Bolos interessantíssimos que são assados em um espeto, camada por camada. O chef primeiro dá uma pincelada com a massa e assa. Daí pincela mais uma camada de massa por cima e assa novamente. Assim sucessivamente até alcancar a espessura desejada. Nós vimos um gigantesco no mostruário da confeitaria, mas me contentei em comprar um pequenininho só para experimentar. Delicioso, fofinho, delicado e aroma inesquecível.

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Jantamos no prédio da Subaru, que estava cheio cheio cheio de gente que tinha acabado de deixar o trabalho. Pedimos tonkatsu (filé de porco empanado frito numa mistura de cinco óleos não-saturados). Estava divino e a sopa de missô não poderia ter sido mais bem-vinda num dia tão chuvoso como aquele. Voltamos pro hotel, tomamos banho, colocamos roupas secas e demos um pulo num dos bares japonses do hotel para degustar sake. Humm, agora somos grandes fãs. Martin gostou mais dos secos e eu gostei mais dos fragantes e meu preferido foi Dewazakura. De alguma forma, encontramos o caminho de volta pro nosso quarto, conseguimos virar a chave (sim chave, nada de cartõezinhos neste andar) na fechadura e entrar quarto adentro para finalmente descansar os esqueletos, neste dia um pouco frustrado pela chuva, mas igualmente interessante.

No dia seguinte estaríamos partindo para Kyoto, deixando Tokyo e toda a chuva para trás.

Escrito a mão pela Marcia às 2:19 AM | mais em M&M in Japan

outubro 6, 2006

M&M in Tokyo: Day 2 - Part 2

Após a visita ao Tsukiji Fish Market, rumamos para Asakusa. Tentamos fazer um caminho alternativo para não precisar tomar outro metrô e para conhecer algumas ruas pouco turísticas de Tokyo, mas como nosso mapa de ruas não era detalhado (mapa grátis do hotel), chegou um momento em que a gente não sabia mais que caminho tomar num cruzamento de várias saídas. Ficamos na calçada analisando o mapa e os prédios ao redor por um bom tempo. Até que um senhor japonês atravessou a avenida e veio diretamente até nós e perguntou em inglês se podia nos ajudar. Agradecemos e dissemos a ele que estávamos a caminho de Asakusa. Ele também ficou na dúvida de como partir dali de onde estávamos e sugeriu que pegassemos o metrô mesmo. Nos informou até mesmo quanto custaria o tíquete de metrô e quanto custaria ir de táxi também. Caminhou conosco até perto da porta do metrô, onde agradecemos profusamente e ele voltou pro caminho que estava seguindo antes. Supergentil e simpático.

Chegamos a Asakusa, enfim. Vimos o prédio da Asahi Beer com sua Flemme d'Or, projetado por Phillipe Starck. E logo a grande lanterna do templo Sensoji estava à nossa frente. Vou lhes contar uma verdade agora. Não ficamos nenhum pouco animados com esta atração. Não somos religiosos, é certo. Mas há templos que nos atrai por sua história e importância e há outros que não. Sensoji foi um que certamente não nos causou impacto. A rua que leva ao templo, Nakamise Street, é alinhada com mais de 50 lojinhas de souvenirs. E, pelo menos no dia e horário que fomos, estava abarrotada de turistas. Não vi nada naquelas lojinhas que me atraiu, além dos sembei (bolachas de arroz) e manjus, todos feitos na hora (eu sou uma gulosa, eu sei). E que ninguém acredite, por favor, que aqueles robes de poliéster vendidos nas banquinhas são kimonos.

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As ruas perpendiculares à Nakamise Street são mais interessantes. Lá as casinhas de madeira da antiga Tokyo ainda são preservadas, as ruas são charmosas e ali sim alguns alfaiates fazem verdadeiros kimonos por encomenda. Foi numa dessas ruazinhas antigas que almoçamos. Entramos numa casinha pequena que vendia ramen. Perguntei se havia menu com fotos e o moço apontou para a parede dois tipos de ramen, acho que por dia eles fazem apenas duas de suas especialidades. Escolhemos, apontei "kore, futatsu, onegaishimas" (este, dois, por favor). Sentamos assistimos aos cozinheiros prepararem tudo e fomos servidos de tigelas fumegantes de ramen com caldo de shoyu (pronuncia-se sho-yú, não shôyu, please). Os noodles estavam perfeitos, al dente, vários vegetais por cima, cogumelos, fatias de lombo, tudo muito bom mas acho que meu preferido ainda é missô ramen. A casa estava cheia de locais e velhinhos que entravam e olhavam pra nós com ar confuso; até terminarmos, fomos os únicos turistas comendo ali.

Visitamos o templo Sensoji. Foi o primeiro templo que vimos desde que chegamos no Japão então muitas coisas chamaram nossa atenção, como o poço de água com as conchinhas para lavar as mãos e a boca, o incensário onde todos traziam a fumaça para si para purificar a alma, os detalhes dos telhados, as lanternas imensas, tudo. Havia uma missa acontecendo, acho que era de Obon, para os finados. A oração entoada na missa era a mesma do templo em que meus pais freqüentam, na Vila Mariana.

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Tentei minha sorte. Do lado de fora do templo, há uma espécie de Fortune Teller. E funciona assim: você deposita 100 Yens e tira de uma lata uma varetinha. A varetinha contém um número (em japonês). Você então vai até um armário cheio de gavetinhas e abre a correspondente ao número da varetinha. Lá você encontra um folheto que diz sobre seu destino em japonês e inglês. O meu: "Bad Fortune: your wish is hard to come true" (Má fortuna: seu desejo é difícil de ser realizado). Quando eu já estava praticamente a caminho de me jogar do quinto andar da pagoda de Sensoji, descobri que você pode amarrar essa má fortuna num dos racks disponíveis para devolver aos deuses seu mal agouro. Numa cerimônia especial, esses folhetos são incinerados e sua má sorte se transforma em boa. Everything is not lost.

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De Asakusa, caminhamos até Kappabashi Street, que é uma rua especializada em artigos para restaurantes: mesas, cadeiras, menus, comidas de plástico para vitrines (super utilizados no Japão), lanternas, letreiros, panelas e utensílios diversos. Fomos lá com um grande objetivo: visitar a Kamata Knives e comprar nossa faca. No nosso apartamento em Bournemouth temos duas facas japonesas da Japanese Knife Company, que são boas. Aposentei todas as outras facas e só uso essas duas, uma é carving e a outra é para vegetais. E eu queria uma chef's knife, uma multi-uso curvada na ponta, mas não tão grande, nem tão pesada. E principalmente, eu queria algo artesanal. Martin adora facas também e estava animadíssimo para conhecer esta loja tão especial.

Pois bem, entramos na loja Kamata e ficamos maravilhados. As facas são dispostas num mostruário na parede, por trás do vidro. E as escolhas são infinitas. Todos os tipos, espessuras, formatos e tamanhos. Uma senhora muito simpática veio nos atender em inglês e perguntou qual era a nossa necessidade. Expliquei o que queria e a partir daí me senti como Harry Potter comprando sua primeira vareta mágica. Ela observou meu tamanho, o tamanho do meu antebraço, pensou um pouco, pegou uma faca, pediu para eu segurá-la. Tirou a faca da minha mão, balançando a cabeça negativamente. E proclamou: "pra você acredito que o melhor tamanho seja a de 18 centímetros." E trouxe algumas opções no tamanho ideal. E hey, exatamente o tamanho que eu tinha em mente, parece simplesmente a extensão do meu braço, ao contrário das grandes facas européias que eu não consigo ter controle. Difícil foi decidir entre as várias opções. Optamos por uma de aço inoxidável forjada à mão (como todas as da Kamata), feita através de um processo que faz um sanduíche de camadas de aço duras com camadas de aço mole no meio, e as mesmas são aquecidas, unidas, forjadas, marteladas, moldadas e finalmente afiadas. Todas as camadas do aço aparecem na lâmina e a faca é levíssima e ao mesmo tempo bem resistente.

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Voltamos para Shinjuku e lá ficamos testando lentes na fantástica Yodobashi Camera, mas não compramos nada. Depois fomos procurar algum lugar para jantar. Encontramos um restaurante italiano e ficamos animadíssimos porque em Kaohsiung não existe pizza e estávamos há seis meses sem ver uma pizza decente. Entramos e tivemos uma grata surpresa de provar uma pizza muito boa, massa excelente, elástica e crocante, recheio de muzza, alcachofras e parma. Nham, comemos com muito gosto. Antes de voltar ao hotel, fizemos uma parada no Isetan para uma das mais esperadas visitas do dia. Como não temos planos de irmos tão cedo a Paris, visitamos uma das lojas de Pierre Hermé em Tokyo! Hermé é o grande responsável pelo meu enorme carinho e paixão por macaroons e não pude deixar de comprar alguns dos seus mais famosos sabores: dois de chocolate, um Ispahan (pétalas de rosas), um de pistachio, um de baunilha (apesar de parecer simples, um dos melhores!) e um de caramelo au fleur de sel.

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E o melhor comentário que o Martin poderia ter feito foi: "Estes macaroons [de chocolate] não são nem um pouco melhores dos que você faz." Hehe, fiquei contente sim de provar os de chocolate e ver que estou fazendo certinho. Os outros sabores são magníficos, só o de caramelo é que não gostei muito porque não sou fã de buttercream. Final perfeito de um dia muito, muito longo.

Escrito a mão pela Marcia às 1:57 AM | mais em M&M in Japan

outubro 5, 2006

M&M in Tokyo: Day 2

Acordamos bem cedinho na segunda-feira, nos arrumamos, pedimos informações pro concierge (outra grande vantagem de ter ficado num hotel) e saímos pouco antes das sete da manhã. Nosso destino: Tsukiji Fish Market.

Não, não é um lugar turístico. Mas um paraíso para foodies e amantes de tudo o que se relaciona a comida. Tsukiji Fish Market é um dos maiores mercados atacadistas de peixes e frutos do mar de todo mundo, comercializando mais de 2.000 toneladas de produtos marinos por dia. É de lá que vem os produtos mais frescos e de melhor qualidade para os restaurantes mais consagrados de Tokyo. Às cinco da manhã acontece o famoso leilão de atum, onde cada peixe é minuciosamente analisado, depois disputado em lances altíssimos e futuramente vendidos a restaurantes de grande prestígio. Nós não assistimos ao leilão porque agora é área restrita, turistas atrapalham na negociação que não demora mais que cinco minutos.

Tsukiji Fish Market & Tuna Fishes (Atum) from the auction
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O primeiro detalhe que nos impressionou assim que chegamos em Tsukiji Fish Market foi a ausência do cheiro forte de peixe. Estávamos num mercado de peixes, esperávamos sentir o cheiro de longe, mas incrivelmente o mercado tem apenas um leve aroma de frutos do mar. E a explicação é simples: mesmo com todo o comércio frenético que acontece nos galpões, tudo é lavado a cada instante. O chão do mercado é todo molhado (não vá com seu melhor sapato) por conta das centenas de bancas lavando seus utensílios, facas, bancadas e chão o tempo todo. Nada fica sujo, nada fica exposto fora do gelo. E principalmente, tudo é vendido rapidamente e o mercado fecha às nove da manhã, antes que o sol comece a esquentar.

Vimos várias espécies de frutos do mar que jamais tínhamos visto na vida. E aqui em Taiwan é comum ver muitos frutos estranhíssimos nos supermercados. Vários tipos de ostras e outros seres que vivem em conchas, carangueijos diversos, peixes de todos os tamanhos e cores possíveis, muita lula e polvo de diferentes espécies. O mercado tem também um tráfego intenso de empilhadoras, motocicletas e mini-caminhonetes que carregam caixas e caixas de produtos por todo canto. É infinitamente impressindível que turistas não atrapalhem o trânsito e o tempo todo ficávamos alerta olhando para trás e pros lados para ver se não estávamos no meio do caminho. Ficamos absolutamente surpresos de ver tanta variedade, tantas cores, tantos novos animais marinhos, tanto comércio acontecendo nas horas mais calmas da capital.

Octopus (Polvo) & Unknown Shelled Creature (Criatura Desconhecida)
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Big Eyed Red Fishes (Peixe vermelho de olhão) & Mr.King Crab (Super gigantes carangueijos)
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Em uma das bancas que vendia atum, ficamos num canto e assistimos à negociacão entre vendedores, dois chefs e um dono de restaurante. Eles mostavam pedaços enormes de atum (nunca imaginei que atum fosse tão tão grande, são imensos, parecem tubarões), explicando vários detalhes. Quando finalmente os chefs decidiram por tal e tal pedaço, os vendedores então começaram um coreografado plano de ação. Dois deles trouxeram o pedaço inteiro para a tábua, um deles chegou com uma faca tão longa que a lâmina tinha pelo menos um metro de comprimeito. O peixe estava fresco e bem gelado, mas não congelado. Dois vendedores seguravam cada ponta do pedação de atum, enquanto outros dois estudavam aonde seria feito o corte. A faca sobe ao ar e num movimento suave e único, a faca desliza pra frente, desde a ponta da lâmina até o meio da faca. Então a ponta da faca aponta para cima e o moço coloca toda sua força com os braços tremendo para baixar o resto da lâmina até a tábua. E o pedaço desejado é cortado, sem machucar ou rasgar nenhum canto, nenhuma fibra do peixe. O corte é tão perfeito que parece ter sido feito a laser. Outros dois funcionários entram em cena para guardar o pedaço que não foi vendido e outros três vêm cuidar do pedaço vendido com o maior cuidado do mundo: usam lenços para limpar a umidade, transferem para a balança, conferem com o cliente, depois mudam para outra mesa onde embalam o pedaço de atum, não sem antes colocar camadas de espuma nos cantos para proteger contra eventuais amassos. Embalam feito presente, amarram com fita de palha, envolvem tudo num saco plástico e literalmente sugam todo o ar para fora antes de lacrar o pacote. Finalmente entregam o produto ao cliente com várias grandes reverências e agradecimentos.

Fish sellers taking great care while handling the tuna pieces (Vendedores tomando o maior cuidado para manusear os pedaços de atum)
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E só então percebemos porque os melhores sushis e sashimis da cidade custam o preço que custam. Só em Tsukiji Market é que damos conta da procedência dos peixes, da qualidade rigidamente controlada, do cuidado com a carne, da experiência no corte, de tudo o que envolve para prover o melhor e e mais fino produto que um restaurante que preza sua reputação pode desejar. E quem é que não tem curiosidade, depois de assistir a esse maravilhoso espetáculo, de provar o que há de tão especial nesses peixes disputados a caríssimos lances, antes mesmo do sol nascer? Certamente nós éramos dois deles que estávam mais do que ansiosos para experimentar fatias desse atum. É uma tradição dos foodies que vão ao Tsukiji Market terminar a visita com um café da manhã num dos celebrados sushi bars ao redor do mercado. Não, não é para fracos. São pequeninas casas bem apertadas, com um balcão, umas oito cadeiras na frente desse balcão e uma parede bem atrás dessas cadeiras. Nada mais. Filas se formam para entrar, todos esperam pacientes do lado de fora pela sua vez.

Queue to get into a sushi bar (Fila para entrar num dos sushi bars)
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Escolhemos o Daiwa Sushi, que junto com o Sushi Dai é um dos mais famosos de Tsukuji. Ficamos na fila por uns 20 minutos e a toda hora a obaasan vestida de avental vinha "dar bronca" porque a fila estava torta. Quando estávamos perto de sermos atendidos ela pediu para as duas mulheres na nossa frente entrarem. As mulheres disseram que precisavam que quatro lugares porque os maridos estavam perambulando pelo mercado e iriam vir logo. Oooohhh, big mistake. A obaasan deu a maior bronca, mandou elas irem embora, apontou pro aviso que dizia que não era permitido guardar lugar na fila. Todo mundo na fila deu risada com a irritação da obaasan. Nós éramos os próximos, ela nos chamou e eu falei: "futari teburu de onegaishimas" (mesa pra dois, por favor). Ela logo sorriu e disse "Hay, dozo".

No Daiwa havia três sushimen, sentamos na ponta e um deles sorriu e perguntou o que queríamos. Não havia menu com fotos, nem muito menos em inglês, aliás não havia menu nenhum. Falei que sabia falar só um pouquinho de japonês e perguntei o que ele sugeria ("nihongo ga sukoshi hanasemas, doko ga o susumedeska?"). E ele respondeu que sugeria "sushi seto" (sushi set, um de cada sushi). Concordamos. Recebemos chá quentinho, sopa missô, wasabi e genbibre. E o chef começou a preparar nossos sushis e a nos servir. O primeiro foi de nigiri sushi (arroz com uma fatia de peixe por cima) de atum. Oh Lord. Oh my. Nunca na minha vida havia provado sushi como aquele. Imediatamente nós dois suspiramos "Hummmm..." de tão boa era a sensação do atum dissolvendo na língua e fizemos o chef dar risada. Newbies...

Daiwa Sushi Bar, photo from Wikitravel
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Outros igualmente deliciosos nigiri sushis seguiram: atum toro (parte da barriga), salmão, mackerel, camarão, enguia, polvo. Em seguida fomos servidos de gunkansushis (pequenos "copos" de alga por fora, arroz no fundo e ovas por cima) de ikura (ovas de salmão), de uni (ovas de ouriço), e dois tekkamaki (mini sushis) de ainda mais atum e dois de ikura. No final eu não consegui comer tudo. Deixei o omelete, dois tekkamakis de ikura (não gostei desses...) e um mini sushi de atum. Martin também deixou os de ovas e o omelete e nem tocou na sopa de missô. Agradecemos ao gentilíssimo sushiman, que deu uma olhada no que deixamos de comer, apontou pros nossos restos e disse "Ah! Ah!" com ar de desaprovação como se fosse dar bronca. Eu apontei pra minha barriga e enchi minhas bochechas de ar pra mostrar pra ele que estava estufadíssima (eu sei falar "onaka ga ipai" mas fiquei com vergonha de falar porque é gíria). Ele riu e abriu um sorriso mostrando que estava brincando, reverenciou e agradeceu. Reverenciamos de volta, pagamos (aliás foi uma das refeições mais caras que fizemos, uma das melhores também), agradecemos à obaasan e deixamos o Tsukiji Fish Market. Ainda eram dez e meia da manhã.

Pheew... chegarei eu ao final do relato das férias?

Escrito a mão pela Marcia às 12:32 AM | mais em M&M in Japan

outubro 4, 2006

M&M in Tokyo: Day 1

Ahh... Finalmente um tempinho para escrever aqui. Mr.M voltou hoje ao trabalho (booo), as roupas de viagem foram lavadas, nossa geladeira foi reabastecida.

Nem sei por onde começar, na verdade. Tentei fazer pequenas anotações no Japão, mas logo desisti porque o tempo era tão escasso e chegávamos no hotel tão exaustos. Talvez eu comece então falando do hotel. Em todo guia de viagem há a menção de se hospedar num Ryokan (pousadas típicas japonesas, com tatame, ofurô e futon) para se sentir num verdadeiro lar japonês. Depois de bastante leitura e conversa, decidimos que Ryokan não era nossa praia. Os melhores Ryokans em cidades como Tokyo e Kyoto podem custar grandes fortunas e os de médio-padrão pra baixo não nos agradaram. Além do mais, quando eu quiser ficar num "verdadeiro lar japonês" vou pra casa dos meus pais, hoho.

Enfim, escolhemos ficar em um hotel. E foi uma das melhores escolhas que fizemos! Depois de acordar às seis da manhã, caminhar por todo lado, subir e descer escadarias infinitas das estações de metrô, voltar semi-sóbrios quase à meia-noite, como era bom entrar em nosso querido quarto. A vista da nossa janela dava para o Shinjuku Central Park e para a cidade toda de Tokyo, além de uma leve silhueta do Monte Fuji no horizonte. A área, Nishi-Shinjuku, é chamada de "distrito de arranha-céus" e é basicamente uma área financeira, então a noite o silêncio imperava e dormíamos sem distúrbios. A arrumadeira deixava sempre um pequeno tsuru colorido em nosso travesseiro. E o vaso sanitário totalmente eletrônico com diversas funções nos proveu horas e horas de diversão e gargalhadas.


A room with a view
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with an origami of a tsuru
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and with excelent toiletries
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Chegamos em Tokyo no domingo no final da tarde e depois de despejar nossa bagagem no quarto saímos para Harajuku, distrito das várias tribos cosplayers, garotas adolescentes vestidas de dolls, punks, vamps, personagens de anime ou uma mistura disso tudo. Já era um pouco tarde e vimos algumas delas mas não tiramos fotos. Muita gente, pouca luz.

Perambulando por outras ruas, demos de cara com o restaurante Barbacoa Grill, com uma grande bandeira do Brasil ao vento, mas não entramos. Caminhamos em Omotesando, por entre as boutiques mas não ficamos por lá muito tempo. Visitei a loja Snoopy Town e amei cada item que havia lá, mas não comprei nada. Seguimos de volta a Shinjuku, vasculhamos as vastíssimas lojas de câmeras fotográficas com toda linha de lentes e acessórios de todas as marcas possíveis.


Dress for sale in Harajuku
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The cute Snoopy Town
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Já estava ficando tarde e ainda não havíamos jantado. Escolhemos um Izakaya (pub) bem bacana, cheio de locais, e tivemos nossa primeira refeição japonesa: yakitori. Pedimos dois sets diferentes e cada espetinho estava delicioso. Para acompanhar tivemos edamame e tofu. E algumas Sapporos. Os dois chefs do pub gritavam os pedidos o tempo todo e foi bem divertido. Quando nos levantamos os dois começaram a gritar "thank you", "thank you" bem gentis.


Yakitoris at an Izakaya in Shinjuku
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My green smile
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Voltamos pro hotel e apreciamos a vista da cidade a noite antes de caírmos de cansaço na cama mais confortável que poderíamos desejar. Primeiro dia no Japão. Poucas fotos, uma imensidão de sensações e impressões. E nossas férias estavam apenas começando.

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Evening Tea overlooking Tokyo city
Escrito a mão pela Marcia às 1:15 AM | mais em M&M in Japan

outubro 2, 2006

Back to Japan

Voltamos!

Estamos bem, tivemos inesquecíveis férias no Japão, caímos de amores pelo país e foi difícil embarcar de volta a Taiwan. O tempo foi curto para fazer tudo o que pretendíamos, mas vivemos tudo o que fizemos intensamente. Magnífico país, povo amabilíssimo e uma cultura fenomenal. No último dia, acendi um incenso num templo budista para todos os ancestrais da minha família que estão naquela terra que nos acolheu tão graciosamente.

Havia um tempo em que eu queria ser reconhecida como brasileira numa terra em que só se referiam a mim como "a japonesa", "a japa", "olhos puxados". Havia um tempo em que ficou ainda mais complicado explicar de onde eu vinha e porquê não aparentava minha nacionalidade. Lá no Japão, finalmente, finalmente, não precisava explicar mais nada, não era apontada como "a diferente" mesmo quando falava apenas em inglês. Porque simplesmente eles entendem, sabem que japoneses estão espalhados em várias partes do mundo. Enfim, eu estava de volta ao Japão pela primeira vez. And it was great.

Logo volto para contar mais.

Escrito a mão pela Marcia às 3:33 AM | mais em M&M in Japan

setembro 24, 2006

M&M in Japan

Hay Domo, domo!

Férias! Uma semana no Japão. Chegamos hoje a tarde em Tóquio e o país dos meus avós e meus antepassados nos recebeu de céu azul e sol dourado de outono. Já caminhamos por várias horas por entre as ruas de Shinjuku e Harajuku. Até agora nossa impressão é a melhor possível: ordem nas ruas, civilidade nos trens, gentileza delicadíssima de todos os japoneses que tivemos contato até agora.

Não devo atualizar a blog com fotos porque meu espaço no servidor está praticamente esgotado e vou pensar em resolver isso mais tarde, quando voltarmos. Aliás, depois destas férias voltamos para Taiwan, porque nossa temporada por lá ainda não terminou.

Agora já são altas horas nesta terra onde o sol nasce primeiro, então oyasuminasai (descobri hoje que sei falar mais japonês do que jamais imaginei).

Escrito a mão pela Marcia às 3:29 PM | mais em M&M in Japan