setembro 2, 2004
E por fim, os Leões
Houve momentos em que achei que não íamos nos encontrar. Houve momentos em que pensei que a marca da pata na areia era tudo o que levaríamos de lembrança desses poderosos carnívoros. Existiram muitas dúvidas que realmente seria possível uma foto de algum leão, mesmo que à distância. Mas eis que a realeza surgiu aos súditos e pudemos nos curvar perante a dois reis:
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Tão cheios de auto-confiança, nem se importaram com o número de pobres seres humanos que se empilharam para admirar tanta beleza, nobreza e ostentação. Singelo, o leãozinho da esquerda virou a patinha como quem diz "What...?" e o da direita ainda tirou um breve cochilo para o nosso deleite.
Quando a noite caiu, nos encontramos novamente. Ambos tão parecidos, certamente devem ser irmãos, quase um espelho do outro. A juba ainda crescendo e os olhares já tão seguros de si. As cicatrizes nos jovens rostos (cinco, seis anos de idade apenas!) mostram que são guerreiros. Geralmente as leoas são responsáveis pela caça, mas no Kruger Park muitos leões são vistos em plena atividade. Quanto mais cicatrizes, mais ferozes e bravos são os felinos.
Na manhã chuvosa e fria do nosso penúltimo dia no Kruger Park, fomos novamente brindados com a agradável surpresa de encontrar mais dois leões no nosso caminho. Andavam pela estrada, vindo em nossa direção. Deixamos eles nos ultrapasserem e esse foi o momento em que estivemos mais próximos dos felinos, cerca de um metro de distância. O canto preto da imagem à direita é a porta da pick-up.
Seguimos as feras por bons minutos. Eles caminhando sem pressa, apenas parando de tempos em tempos para dar uma olhada nos seus seguidores e certificarem de que estávamos à respeitável distância. Quando eles entraram numa clareira, corremos e voltamos a ficar frente a frente. Pudemos vê-los bem próximos mais uma vez, antes que eles sumissem pela savana adentro.
Das nossas vistas eles se foram para fazer moradia permanente em nossas memórias. Nosso primeiro encontro a olhos nus, sem grade entre nós, sem armas, sem nada. Apenas eles, donos da terra no topo da cadeia alimentícia, e nós. O respeito mútuo, a curiosidade mútua (um deles me olhou com uma carinha que posso jurar que dizia: "uia só, uma japonesa!"), o torpor único e o encantamento infinito. Momentos que jamais desbotarão da nossa memória, para o desespero das nossas futuras gerações que ouvirão a mesma história de novo e de novo.
Aos reis, nos curvamos e saudamos. Vida longa aos reis e rainhas da selva. Vida longa aos leões!
:o)
setembro 1, 2004
Feras: Hipopótamos
Grandes, desengonçados e preguiçosos. Essa é a imagem que a maioria das pessoas têm dos hippos, graças aos zoológicos. Mas na verdade eles matam mais seres humanos do que qualquer outro mamífero, por ano. São violentos e agressivos quando ameaçados. E também se engana quem pensa que eles são lentos. Podem galopar em até 30km/h.
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Os hippos estão sempre em bando, dormem a manhã inteira e só saem da água à noite para se alimentar de grama. Mas em dias nublados e chuvosos eles caminham na terra quando bem entendem.
Feras: Hyenas Pintadas
Temos poucas fotos das hyenas, elas são só ativas no começo da noite e é difícil de fotografá-las nessas condições. Aqui não dá para ter idéia do tamanho, mas os machos chegam à 80cm, medidos dos pés aos ombros (cerca de 1m com a cabeça).
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Os filhotinhos são umas fofurinhas, brincalhões como qualquer cachorrinho novo. Dá vontade de pegar no colo, se não fosse o olhar prestativo dos pais.
agosto 27, 2004
Penosos
Não são só os mamíferos que habitam o Kruger Park. Há mais de 500 espécies de pássaros voando livres por lá. Os mais impressionantes, na minha humilde opinião, são os Fish Eagles, que dançam graciosos no céu com suas cabeças brancas e asas pretas. São também considerados a Voz da África, pelo característico grito. A foto abaixo foi tirada da outra borda do lago, perdoem-me pela minusculosidade.
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À esquerda o joão-grandão Goliath Heron, que mede 1m40! E o Bateleur Eagle, à direita.
E tem também o Southern Ground Hornbill, que chega a medir 1m de altura, andam pela grama em bandos e de perto parecem uma drag queen de cílios postiços! :o)
Pescoços e Penteados
Nosso primeiro safari com guia foi pela manhã, às 5:30am. Foi bom. Vimos essas girafas enormes, uma delas (esta à direita) tinha uma cicatriz bem grande no pescoço. Deve ter sido atacada por um carnívoro, que geralmente avança na jugular da presa. Uma sobrevivente.
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O segundo Big Five a aparecer foi o búfalo. De todos, este era o que a gente fazia menos questão de ver. Como diz o Martin, uma vaca com um péssimo penteado ("a cow with a bad hair"). À direita, o blue wildebeest, que é um animal bem tímido e assustado apesar da aparência de touro. O wildebeest às vezes é visto entre hordas de zebras, de quem ele deve ter emprestado esse casaco listrado. :o)
Macacos também estão sempre em bandos e muitas vezes ficam nas margens da estrada. À esquerda, um macaco vervet e à direita, um chacma baboon. Baboons são animais perigosos e agressivos, com seus caninos longos e fortes braços. Este da foto estava particularmente mau-humorado porque a insistente chuva estava deixando seu pêlo bagunçado.
agosto 26, 2004
Rara, ágil e bela Cheetah
De todos os animais que provavelmente não veríamos, a cheetah estava no topo da lista. Por ser rara, por estar em perigoso risco de extinção, por existir apenas 200 em uma área tão vasta, nem passava pelas nossas mentes que teríamos a sorte de econtrar com uma. Mas aconteceu. Nosso primeiro felino, a mais ágil espécie de todos os animais.
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A Cheetah chega a alcançar 100km por hora. Mas não é um animal agressivo, tem dentes e mandíbulas pequenas, precisa 'voar' no pescoço para sufocar a presa e se alimentar.
Estávamos a uma considerável distância dela, não havia como aproximar, nosso zoom estava no máximo. Ela estava tranqüila, deitadinha e assim ficou por vários minutos, enquanto assistíamos atônitos. Olhou para nós algumas vezes, espreguiçou e depois saiu da nossa vista, entre a savana.
Foi um dos nossos melhores momentos. E era apenas o segundo dia em Kruger.
Pesados
Este foi o primeiro elefante que vimos, no nosso primeiro dia. Solitário. O primeiro Big Five no Kruger. Ficamos horas assistindo ao pesadão comendo folhas e galhos. Foi a primeira grande emoção de ver um dos maiores animais da face da terra em seu ambiente natural.
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Mal sabíamos que logo outro atravessaria na frente do nosso carro. A foto tremida mostra exatamente a nossa surpresa, o susto, o fascínio de estar cara a cara com quem tem muitas toneladas a mais.
Chifrudos
Os primeiros animais que qualquer visitante avista assim que passa por um dos portões principais do parque são as impalas. Não é preciso ter sorte, nem é preciso esforço, não requer nenhuma habilidade. Avistar impalas é a única garantia. Porque não tem como não cruzar com elas. Os machos têm chifres em forma de S e brigam entre si para definir quem é o dominante. Cada macho dominante tem cerca de seis ou sete fêmeas, o que explica a determinação das brigas.
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Outro chifrudo que encontramos foram os waterbuks, uma espécie de antílopes de chifres anelados bem longos e um círculo de pelos brancos na traseira, parecendo um alvo.
E também vimos alguns klipspringers, bem menores que as impalas, de chifres pequenos e pontudos, bastante tímidos e não tão fáceis de encontrar.
Mais sobre nossa visita ao Kruger National Park
O Kruger National Park fica na borda leste da África do Sul, fazendo fronteira com Moçambique e Zimbabwe. A área do parque se estende por cerca de 350km de comprimento e 90km de largura.
Com toda essa extensão, é preciso de tempo para conhecer todo o parque. E para isso, é preciso também ter um lugar para ficar. Pensando nisso, foram criados dentro do parque os rest camps, que recebem os visitantes em acomodações que vão desde tendas e trailers até resorts privados bem luxuosos.
O Kruger é dividido basicamente em três partes: sul e central, onde predominam as savanas; e norte, com florestas e suas árvores Baobás (pena que não vimos nenhuma).
O sul é chamado de 'Circus' por causa do número de visitantes e de animais. O centro é chamado de 'Zoo' por causa dos predadores e presas. E finalmente o norte é chamado de 'Wilderness' pela relativa ausência de ambos.
Nós nos concetramos no 'Circus', para aumentar nossa chance de ver os leões. Ficamos no rest camp chamado Skukuza, que é de longe o que tem a maior e melhor infra-estrutura de todo parque: restaurantes, lojas, correio, médicos, supermercado, tudo. Uma mini-completa-cidade.
A nossa acomodação foi num bangalô de luxo, mas não se impressione com a palavra 'luxo' dentro do Kruger Park (a não ser nos resorts). Os rest camps foram criados apenas para servir de área livre para você estender seu saco de dormir. Então 'luxo' é ter uma suíte com chuveiro de água quente, TV a cabo e ar condicionado. Mas luxo mesmo para nós foi ter o bangalô com vista para o Rio Sabie, onde recebemos a gentil visita de um búfalo, vários hipopótamos, um macaco vervet e alguns rascals. Perfect!
Há várias regras e deveres no parque. A primeira e mais importante é que em hipótese nenhuma e em nenhuma circunstância você deve sair do carro. Não importa se você está há horas rodando e precisando urgentemente usar o banheiro, não importa se o pneu furou ou se a câmera caiu pra fora da janela. Não pode sair do carro. Enquanto você está dentro, os animais geralmente não ligam ou preferem ficar longe. Mas basta um pé no terreno deles e chifres, dentes e garras se voltam contra você, estúpido, indefeso e ridículo ser humano.
A segunda regra é dirigir no máximo a 50km/h no asfalto e 40km/h nas estradas de terra. Isso é para evitar o atropelamento de espécies que têm todo o direito de atravessar as estradas quando bem entenderem. Quanto mais devagar, na verdade, maiores são suas chances de avistar algo interessante. No mais, pra quê ter pressa?
A terceira e não menos importante regra é respeitar o horários dos portões, que geralmente se abrem às seis da manhã e fecham às seis da noite. Nós sabíamos dessa regra, porém imaginávos que era só aplicável aos portões do parque, não dos rest camps. Qual não foi nossa surpresa quando estávamos voltando para Skukuza e uma barreira de guardas nos pararam, holofotes na nossa cara e interrogatório sobre o que diabos estávamos fazendo fora do rest camp àquela hora (6:20pm). Foi no finzinho daquela tarde que vimos a hiena caminhando diretamente na traseira do nosso carro. Valeu a pena mas levamos bronca, pedimos desculpas e ficamos de castigo na manhã seguinte para provar que estávamos mesmo acomodados em Skukuza.
Na recepção de cada rest camp é possível agendar seus passeios e pagar por eles. Agendamos uma caminhada e três safaris, todos com guias. Os outros safaris fizemos por conta própria. Todo o parque possui estradas asfaltadas e algumas outras estradas de terra. São fáceis e não exigem tração nas quatro rodas. Mas um veículo mais 'alto' ajuda para enxergar por cima da grama e dos arbustos. Você pode fazer a rota que quiser, é aí que a sorte ajuda ao escolher o lugar certo na hora certa.
Os rangers, esses sim, são essenciais. Eles lêem as pegadas, escutam os sinais, observam a folhagem mordida e vão atrás dos grandes predadores. Joseph foi o nosso brilhante ranger em Skukuza e foi ele que nos levou de encontro com os leões e a onça, a quem seremos eternamente gratos.
Dos equipamentos que levamos, sem dúvida nenhuma, o melhor deles além da câmera foram os binóculos. Absolutamente necessários e impossível pensar em ir ao Kruger sem eles. Com eles pudemos ver detalhes fantásticos dos animais que nem sempre querem ficar muito próximos. Além disso, uma lente zoom para a câmera. Usamos uma de 220mm, mas sentimos a falta de mais uns bons 100mm no mínimo. E com image stabilizer, se possível. Não tínhamos, mas estamos satisfeitos com as fotos que fizemos.
Em seguida, começo a postar finalmente as fotos. Um pequeno registro de parte das nossas mais fantásticas memórias. Entre as Pirâmides de Giza, Table Mountains e as cachoeiras de Victoria Falls, o Kruger National Park é um dos grandes magníficos tesouros que a África guarda em seu solo. Um delicado e frágil ecossistema que sobrevive sem nossa intervenção e que merece todo nosso respeito e proteção.
:o)
agosto 25, 2004
Ainda fora do ar
Tô tentado, tô tentando. Mas ainda estou bem atrapalhada em casa. E não sou a única. Mr.M pegou as chaves erradas outro dia e ficamos no estacionamento do centro da cidade sem ter como abrir a trava da direção do carro. Tivemos que voltar pra casa de taxi, pegar as chaves certas e voltar pro estacionamento. Can you believe it?
Aliás, nosso carro parece saído da casa da Família Adams, tamanha quantidade de teias de aranha do lado de fora!! Em todos os vãos tem teias e elas são tão bem projetadas que nenhum vento arranca-as de onde estão. Lavar o carro é algo fora de questão neste ano para Mr.M.
Quando chegamos passei hooooras tentando limpar meu blog dos spams. Horas. Estava tão cheio!! Três meses sem poder controlar, isto aqui virou um ninho de propaganda abusiva. Tsc. Instalei e atualizei o MT-BlackList e usei o de-spam do programa, que é muito bom. Desde então, até agora o blog tem sido spam-free, com pouquinhas excessões controláveis. Argh.
Mas o e-mail é mais complicado, né? Acho que vou ter que mudar de endereço de novo, me cansa a beleza ter que usar o webmail antes de baixar pelo Outlook. Me cansa.
E o Orkut, meu deus, esqueci tudo: senha, password, frase de lembrar, tudo. Aos que me incluiram, fico muito agradecida, assim que eu lembrar um desses acima, eu acesso a página novamente, ok?
Desfizemos as malas, até que enfim. Já lavei boa parte das roupas e tive um acesso de jogar um monte de roupa velha fora. Depois de passar três meses com os mesmos pares de roupas a gente percebe quanta roupa a gente não usa. Fiz três sacolas: uma para jogar no lixo, uma para caridade e uma para guardar por mais um ano antes de mandar embora. Preciso de espaço no armário.
Minhas plantinhas sobreviveram! Rob veio aqui aguá-las uma vez e eu também havia deixado garrafas de prástico cheias de água enterradas de ponta cabeça. Funcionou. Quando chegamos elas estavam todas caídas, aguei bem e logo elas voltaram à vida! Êba!
Que mais... Ah, andei cozinhando novamente. No domingo fiz salada de tomates, muzzarela e manjericão fresco, acompanhados de berinjela e pimentão amarelo grelhados. Na segunda fiz espigas de milho cozidas e mais salada de tomate-muzza-manjericão. Na terça Mr.M perguntou: "já podemos comer carne novamente?" Hohohohohoho. Daí nos esbaldamos com sanduíches de linguiça, nhaaam! hoje acho que vou fazer feijão, não sei ainda. Mas sei que vou fazer mais salada de tomates! (Compramos uns tomates fantásticos vindos da Holanda e eu deixo fora da geladeira para ficar bem vermelhinho, suculento e cheiroso...).
Fomos na minha consulta com o otorrino hoje de manhã e estou cadastrada para ter meu aparelho auditivo instalado, hooray! Tudo por conta do sistema de saúde público. Êba.
Assim que eu tiver mais tempo (leia-se, quando Mr.M voltar pro trabalho), vou escrever mais sobre o Kruger Park (que vale a pena) e postar as fotos que vocês tanto querem ver. Mas vou postando aos poucos, conforme for contando nossos passeios. Fotos dos leões vão ser as últimas! Huahuahua...
Vou ali fazer o almoço antes da gente sair de novo para Mr.M cortar suas longas madeixas de rapunzel perdida em Middelburg por noventa dias...
:o)
agosto 23, 2004
Land of Hope and Glory
Estamos em casa!
Chegamos no sábado de manhã, depois de um vôo tranqüilo, quase sem turbulências, comida ótima e uma fileira de três assentos só pra nós dois!
Nosso apartamento está do mesmo jeitinho que deixamos três meses atrás. Nem estava empoeirado, nem nada. Abrimos as janelas, ligamos a energia e a água de volta. Fomos até o centro da cidade para comprar jornal e algo indiano para jantar. Às sete da noite eu já estava desmaiada no sofá, em sono pesado.
No domingo fomos fazer nossa grande compra de supermercado no Sainsbury's, meu preferido de todos. A compra foi imensa, nossa geladeira estava desligada e a dispensa completamente esvaziada. Fiquei tão feliz com tudo que compramos: frutas, verduras e legumes bem frescos, nenhuma comida pronta, nenhuma pizza, nem nada disso. Tudo fresco, tudo simples, tudo que sentimos tanta falta.
À noite fomos ao apartamento do Rob e da Linda, que moram no andar debaixo do nosso. Eles nos convidaram para um jantar e também para conhecer o Luke, o bebezinho recém-nascido deles. Levamos um vinho sul-africano e vários presentinhos que havíamos comprado para eles. Rob preparou um prato da Indonésia, delicioso!! Foi uma noite bem agradável, carreguei o Luke e ele riu e sorriu bastante olhando pra minha cara de pateta! :o)
Mr.M está de folga do trabalho até a quarta-feira e estamos aproveitando para nos adaptar de volta à nossa vidinha na Inglaterra. Por enquanto está sendo estranho, tudo estranho. Não sei mais o que tem dentro das gavetas, não sei mais se está tudo caro ou não, não lembro mais onde ficam algumas lojas. É estranho ter Internet (que rapidez é essa??) a qualquer hora, ter telefone, poder sair na rua sozinha.
É bom, é muito bom estar de volta. No domingo de manhã acordei confusa, tentando lembrar como foi que eu deitei do lado errado da cama. Só então me dei conta de que não estava mais na pousada e que estava na nossa cama, no nosso quarto. Suspirei e dormi de novo.
Ainda penso muito na África do Sul, em tudo o que vivemos lá, as saudades da Delia e de toda família da pousada, os cachorros, o gato, as feras todas. É bom recordar, é bom rir de novo com as palhaçadas que fizemos lá, é bom guardar tudo isso na nossa memória.
É tão bom olhar para trás, daqui de tão longe, e termos orgulho do que vivemos.
"(...) Thy fame is ancient as the days,
As Ocean large and wide:
A pride that dares, and heeds not praise,
A stern and silent pride:
Not that false joy that dreams content
With what our sires have won;
The blood a hero sire hath spent
Still nerves a hero son."
- Land of Hope and Glory, British Patriotic Song
agosto 18, 2004
Quarto Dia
Ontem a noite choveu bastante e hoje de manhã fizemos o nosso último safari guiado sob chuva, em carro aberto. Apesar de sermos providos de cobertores e ponchos impermeáveis, com o movimento do carro é impossível não se molhar.
Logo no começo encontramos com um grupo de elefantes, tinha um bebezinho entre eles, bem pequeno. Assistimos ao macho dominante do grupo arrancar uma árvore usando a trompa e as patas. Elefantes se alimentam basicamente de folhas, gramas, lascas de tronco e raízes. Por isso é importante controlar a população deles, para evitar a destruição total da mata. Foi bem legal ficamos bem perto deles, a poucos palmos de distância!
O resto do safari foi tranqüilo, hiena, girafas, búfalos e macacos baboons foram alguns dos animais que vimos.
Quase no final, a gente já estava guardando a câmera e o binóculos e já nem estávamos mais procurando animais intensamente. Numa curva, demos de cara com dois leões vindo em nossa direção. HOORAY! Desta vez era um leão e uma leoa, andando no asfalto. Segundo o guia (que aliás aqui são chamados de rangers, por causa do grande conhecimento que eles têm em perseguir os animais), os leões não gostam de andar na grama molhada e preferem usar as estradas. Eles passaram bem do ladinho do carro, Joseph (nosso ranger) pediu para todos manterem os braços e as cabeças dentro do carro enquanto eles passavam. O macho fingiu que não estava nem aí, mas a leoa deu uma boa olhanda em nós (uau, emocionante!) e depois apressou o passo dela. Seguimos atrás deles por quase cinco minutos, depois nosso ranger dirigiu até ficar de frente para eles novamente e os dois entraram na mata. Foi inesperado esse encontro com os leões nesta manhã, uma agradável surpresa que coroou nosso último dia de safari aqui no Kruger National Park.
Chegamos de volta no rest camp ensopados de chuva e encharcados de brilhantes momentos.
Amanhã deixaremos o parque pelo caminho mais longo e demoraremos cerca de 3 ou 4 horas até a saída. Não faremos um safari, mas dirigiremos devagar, parando conforme encontrarmos algum animal. Assim que alcançarmos o portão Crocodile Bridge, pegaremos a estrada que nos leva de volta a Middelburg, onde a Delia nos espera para um churrasco de despedida (tão legal ela).
Como havia falado para o Martin, geralmente quando estamos no final das férias a gente fica um pouquinho triste de voltar pra casa. Mas não desta vez. Só de nos dar conta do final das nossas férias uma onda de alegria nos enche a alma: estamos indo de volta pra casa!
:o)
agosto 17, 2004
Terceiro Dia
Morning Game Drive
Nosso primeiro safari guiado desta manhã foi razoável, rodamos muito para poder ver os animais. Encontramos um casal de jackal, que é uma espécie de cão selvagem. Eles não quiseram ficar perto de nós por muito tempo e saíram correndo. Vimos mais girafas, três juntas, elas andaram bem na frente da pick-up. Depois vimos hipopótamos fora d’água, macacos baboons, antílopes waterbuck e algumas águias lindas.
Na volta, encontramos o terceiro Big Five: o Búfalo! Os chifres deles me lembra um penteado de cabelo bem ultrapassado. São grandes e impressionantes. E tão fortes que são necessários cerca de seis ou sete leões para matar um deles!
Quando chegamos ao rest camp de volta, perguntei ao guia o quão difícil é encontrar um leão. E ele me respondeu: MUITO difícil. Não tem como seguir, não há nada que garanta que você possa encontrá-los e eles também não gostam de ser encontrados. Então depende mais da sorte mesmo. Vimos algumas pegadas deles na areia hoje de manhã, a marca de uma patona! É frustante saber que eles estão por aqui, mas ainda não nos encontramos...
M&M Drive
Tomamos um café da manhã super simples e voltamos para a estrada, com nosso próprio carro. Desta vez não vimos muita coisa de diferente, apenas wildebeest, falcões e águias. Mas o que mais nos impressionou foi ter visto um elefante furioso. Havia uma família ao lado de uma das estradas e vários carros parados. Um deles tentou ultrapassar o tráfego e uma das elefoas ficou extremamente irritada e ameaçou o carro, urrou e levantou as duas patas dianteiras e jogou a tromba para o alto. O carro apressadinho, em pânico, deu ré e a elefoa se acalmou. Nós estávamos mais distante, estacionados num banco de areia, assistindo ao circo todo. Depois entramos em várias estradas de terra, vimos mais algumas girafas e voltamos. Nada de felinos.
Afternoon/Night Drive – Success HOORAY!!
Sim, nós encontramos o LEÃO!! The Lion King!! E não foi só um, foram dois!! DOIS LEÕÕÕES!!
Mal tínhamos começado o safari guiado da noite, eram umas 5:10pm e ainda estava bem claro, quando vários carros nos pararam para dizer que haviam visto dois leões parados ao lado da estrada. Até chegarmos lá fomos torcendo com todos os dedos cruzados para que eles continuassem lá paradinhos, até a gente chegar.
E os Leões ficaram nos esperando, deitadinhos, olhando para a estrada, cabeça erguida e toda auto confiança do mundo. MAGNÍFICOS. A emoção de vê-los é difícil de colocar em palavras. Um misto de incredulidade, de felicidade, de alívio e de conquista tão grande e tão inesquecível! Eram dois machos ainda jovens, de uns cinco ou seis anos, mais ou menos. A juba deles ainda está começando a se formar. Tivemos uma vista muito privilegiada, estávamos há meros 10 metros de distância e o momento em que os nossos olhares se cruzaram é algo que sempre vou guardar comigo daqui pra frente.
Seguimos a diante em nosso safari e encontramos um grupo enorme de elefantes, contei 20 deles! Quando o carro estava manobrando para voltar para uma outra estrada, eis que surgem novamente os dois leões na nossa frente. Eles tinham saído de onde estavam e foram para perto do rio, aproveitando para dar uma olhadinha em nós outra vez.
Encontramos com uns búfalos e hipopótamos mais adiante.
Rodamos mais alguns quilômetros e depois de vários contatos pelo rádio e holofotes procurando como loucos, encontramos o mais inesperado animal dos Big Five: a Onça Pintada!! Ela estava caminhando por trás de arbustos bem densos e pensamos que o relance mínimo da sua pele pintada seria o máximo que veríamos. Mas logo ela deu o ar de sua graça e veio para a estrada, tirando todo nosso fôlego. Ela caminhou a diante e fomos seguindo atrás por mais ou menos um minuto, até ela voltar para a mata e desaparecer da nossa vista. ESPETACULAR.
Talvez eu não consiga descrever aqui toda a emoção que foi esse safari noturno. Estou bem cansada de novo e amanhã mais uma vez acordaremos às 4h45 da madrugada. Fiquei feliz por não ter visto os grandes felinos logo de cara. Foi mais saboroso conquistar esse presente depois de termos nos esforçado tanto e ter praticamente nos conformado de não vê-los. Foi encantador, foi comovente, foi absolutamente, imensuravelmente, inesquecivelmente fantástico. Vimos todos os Big Five + a cheetah, acabei ganhando a aposta. Na volta brindamos ao nosso sucesso, à nossa sorte e às nossas mais maravilhosas memórias que levaremos daqui da África do Sul.
agosto 16, 2004
Segundo Dia
Hoje não vou escrever muito porque estou muito cansada depois da caminhada guiada que fizemos hoje a tarde. E também porque amanhã nós vamos acordar às 4:45am para fazer nosso primeiro safari guiado.
Mas tenho que registrar aqui que hoje vimos um animal que vale por todos os Big Fives juntos: a Cheetah, o felino mais ágil que existe. Um casal muito simpático parou nosso carro para dizer que eles haviam visto uma cheetah numa estradinha de terra próxima de onde estávamos. Seguimos as indicações e lá estava ela, deitadinha na terra. Ficamos um bom tempo admirando, incrédulos da nossa boa sorte. Existem apenas 200 cheetas em todo Kruger Park, contra os 1500 leões e 150.000 impalas. Ela levatou, sentou, espreguiçou, olhou para nós, sentou de novo e depois foi embora, nos deixando abismados com sua beleza.
E mais tarde vimos o segundo Big Five: o Rinoceronte. Mas ele estava dormindo e nem queria se levantar para tirar uma foto.
Entre outros, vimos novamente vários elefantes e girafas. Na volta da nossa caminhada vimos também um casal de Hyenas com três filhotinhos bem fofos (e perigosos).
Jantamos muito bem, encontramos um restaurante aqui no rest camp que serve em buffet e a comida é ótima. Até que enfim algo decente em nossos pobres estômagos (contei que passei mal por quatro dias seguidos? Pois.).
Amanhã não sei o que esperar. Temos dois safaris guiados, um de madrugada e outro no começo da noite. Se a boa sorte ainda estiver do nosso lado, contarei aqui.
agosto 15, 2004
M&M in Kruger National Park
Chegamos hoje, por volta das 12:30 no tão esperado, tão sonhado e tão querido Kruger National Park!
Entramos pelo Numbi Gate e dirigimos com calma por mais ou menos 50km, até alcançarmos o bangalô onde estamos hospedados. Durante o percurso vimos vários animais: impalas (os bambis, estes são como pombos, aparecem em todo canto!), kudus, waterbucks (espécies de antílopes) e pássaros das mais diversas espécies.
Demos entrada no nosso bangalô, fizemos um almoço super rápido e fomos fazer nosso primeiro safari por conta própria, com nosso carro. Logo no começo vimos um casal de Warthogs. Depois paramos onde uma pick-up do parque estava parada. Eles haviam visto uma onça, mas nós não conseguims ver, apesar de termos tentado.
Rodamos mais um pouquinho e tcharam! Vimos nosso primeiro Big Five do Kruger: o Elefante! Um sozinho, comendo folhas perto do rio. Mais pra frente, um susto: outro enooooorme elefante vindo em nossa direção no meio da estrada!! Gigantesco, um macho bem seguro de si. Martin parou o carro, mas foi dando ré sempre que ele se aproximava demais. Foi lindo! Logo ele entrou uns passos para dentro da mata e num segundo não se via nenhum sinal dele, impressionante. Paramos o carro perto do rio e ouvimos um urro bem alto. Uma família de sete elefantes, um casal e vários filhotes estavam fazendo a refeição por lá.
Depois de mais alguns metros pra frente, uma Girafa literalmente pulou na estrada, atravessou e sumiu entre as árvores, linda, pescoçuda e coloridona! O sol já havia se posto e estava começando a escurecer
Já estávamos no caminho de volta, faróis acesos e não dava pra ver quase nada na mata. Quase chegando no nosso rest camp, passamos sobre uma ponte e vimos um certo movimento no rio. Martin parou e deu ré devagar, a ponte é estreitinha e só cabe um carro. A estrada estava vazia e aproveitamos para checar quem é que estava se movimentando no rio. A princípio pensamos que eram jacarés, mas não! Eram Hipopótamos! Vários, vários, mergulhando e voltando para a superfície. Enormes, mas com vários filhotinhos também.
Eu estava curtindo os hipos, quando percebi algo movimentando atrás do carro. Chamei a atenção do Martin.
“Tem alguma coisa vindo atrás do carro”
Martin olhou pra trás mas não conseguiu distinguir.
“Aonde? O que é?”
Daí eu vi de novo algo vindo em direção à traseira do carro.
“Atrás, tem algo vindo em nossa direção”
Martin apertou o freio.
“O que será que é?”
E eu pude ver no meio da luz vermelha.
“Um felino! É um felino vindo!”
Por um segundo achei que era uma leoa. Martin manteve o pé no freio e logo pudemos ver o que era: uma Hiena Pintada! Andando calmamente, olhos fixos no carro, sem mudar o rumo. Ficamos olhando para ela imóveis, sem respirar. Eu sempre pensei que hienas fossem pequenas, do tamanho de um cachorro no máximo, até menor que um pastor alemão, eu achava. Que surpresa ver aquela hiena de quase um metro de altura!! Ela passou bem perto do carro, a cabeça na altura do retrovisor, depois correu para dentro da mata. Hienas têm as mandíbulas mais poderosas do reino animal e são os únicos capazes de digerir ossos. Absolutamente incrível!! Meus olhos se encheram d’água, que emoção ver um animal tão potente, tão forte, nos respeitando, nos deixando ali atônitos e maravilhados. Foi a melhor parte do nosso dia, sem dúvida nenhuma, por tudo o que envolveu: surpresa, apreensão, encantamento.
Amanhã faremos mais safaris sozinhos porque infelizmente não conseguimos vagas nos safaris com guias. Então a gente realmente não sabe o que esperar. Antes de chegar no parque nós fizemos uma aposta. Martin apostou que veremos quatro dos Big Five. Eu, que sou boa otimista, apostei nos cinco (leão, onça, elefante, búfalo e rinoceronte). Mas o dia de hoje nos mostrou o quanto essa tarefa é difícil. Um elefante com todo seu corpão simplesmente desaparece em segundos atrás da mata, é algo realmente inacreditável.
Agora tenho grandes dúvidas que veremos mais Big Fives. Mas também não tem problema, estamos curtindo um pouco de tudo que o parque oferece, além dos peludos e chifrudos. Muitos pássaros magníficos (vimos um que parecia uma garça gigante de 1m44, quase minha altura!!), insetos esquisitíssimos (inclusive uma largatixa de rabo azul neon!) e vários outros mamíferos lindos (que eu não sei o nome)!
Enfim, nosso primeiro dia foi fantástico! Estamos torcendo para que a gente ainda possa contar aqui mais e mais momentos marcantes!!
Um beijo a todos vocês com muita saudade!
agosto 13, 2004
Últimos dias em Middelburg
Estamos no final da nossa saga em Middelburg. Hoje é o último dia em que o Martin vai trabalhar aqui. O último dia em que estamos aqui por dever.
Foram dias intensos nesta cidade. Dias de choque cultural, dias de apreensão, dias de boas surpresas, dias de sustos, dias de risadas, dias de cansaço, dias de paciência.
Martin sobreviveu bravamente aos desastres e aos inúmeros outros horrores nas mãos desse cliente. Trabalhou mais do que em qualquer outro momento da carreira dele, se dedicou por inteiro e por completo em tudo. Dos oitenta dias de trabalho, ele teve apenas três dias de folga. Acordou de madrugada por dias a fio sem reclamar, sem fazer corpo mole. Resolveu problemas, encontrou soluções que ninguém estava enxergando e hoje é um dos que olham para o equipamento funcionando como deve com a satisfação do trabalho bem feito. Well done, Martin. I’m really proud of you, my love.
Para mim, os dias em Middelburg foram agridoces, a bittersweet symphony. Quando me lembro do dia em que cheguei aqui na pousada, mal reconheço quem era. Vivemos tantas coisas aqui, fomos tão testados, tanta coisa foi mexida dentro de nós.
Dos doces momentos posso listar facilmente sem hesitar:
· a amizade com a Delia
· a companhia infinita do Bruno, da Phoebe e do Sylvester
· os safaris e trekkings em Botshabelo
· o encontro com o meu primeiro Big Five, rinoceronte, e também com as girafas, em Loskop
· as manhãs tomando cappuccinos nos cafés privados e reservados
· o céu azul intenso e o sol brilhando todos os dias
· as tempestades cheias de trovões e raios magníficos
· a convivência, as risadas, as brincadeiras e palhaçadas com o Chris
· os almoços com o Martin quando ele deveria estar trabalhando
· os jantares com todos os outros colegas dele, que me faziam todas as gentilezas por ser a única mulher entre um bando de engenheiros
· o vinho sul-africano a preço de banana
E dos momentos azedos, que logo serão esquecidos, os principais foram:
· Racismo exacerbado e explícito em todos os cantos
· Assaltos acontecendo a cada instante nas pousadas
· Não poder sair sozinha nem para ir até o final da rua
· Cliente-jumento fazendo a vida de toda equipe britânica um pesadelo sem fim
· Comida extremamente mal-preparada e o mesmo menu em todos os restaurantes
· Falta de linha telefônica, internet e comunicação em geral
Antes de partir, Chris havia me perguntado se eu faria tudo de novo, caso tivesse uma chance de escolher. E eu respondi que sim, faria sim tudo de novo, viria sim para Middelburg. Porque sempre no final a gente aprende. Queira ou não, a gente aprende. A experiência aqui foi muito importante, muito enriquecedora, algo que vou guardar pela minha vida. Se eu tivesse ficado na Inglaterra teria perdido tudo isso.
Agora estamos de passagem marcada para voltar pra casa e há em mim um misto de saudades da minha vida aqui e um estranhamento da minha vida lá. Porque não dá para simplesmente continuar a vida de onde havíamos parado. Não é uma continuação, não é uma ‘volta ao normal’. Porque não somos mais os mesmos de quando saímos. Martin, que já viveu isso várias vezes na carreira dele, me disse que é mesmo bem difícil tentar “retomar” a vida de volta à Inglaterra. Tudo é estranho, tudo está fora do lugar, as coisas que já davamos como certas aqui na África do Sul não existirão mais lá na Inglaterra. A vida correu adiante por lá também enquanto estávamos aqui. É estranho, muito estranho.
Mas não preciso nem dizer o quanto também estamos loucos para voltar para casa. Só de imaginar o avião pousando em Heathrow me enche os olhos d’água. Estamos ambos muito esgotados, por diferentes razões, mas ambos bem cansados depois desses três meses vivendo aqui.
Antes de embarcar, porém, nós vamos aproveitar nossas tão merecidas férias!! Vamos passar cinco dias hospedados em um dos bungalôs dentro do Kruger National Park. O quarto tem vista para o Sabie River, onde várias espécies de animais vão tomar sua água fresca. Acho que vamos ter dias bem especiais por lá. Quero poder relaxar com o Martin, fazer nossos passeios, caminhar de mãos dadas, respirar no meio da natureza selvagem. Depois a gente volta para esta pousada da Delia, passa uma noite aqui e no dia seguinte seguimos para o Aeroporto de Johannesburg em direção à Heathrow!
Enfim, no balanço geral, valeu muito a pena conhecer Middelburg sim, apesar de todos os problemas que enfrentamos. Foi uma excelente decisão ter vindo para a África do Sul juntos.
O Chris acredita que assim que a gente passar uma ou duas semanas de volta à Inglaterra a gente vai olhar para trás e pensar, “não foi tão ruim assim”. E acho que ele tem mesmo razão. Tudo o que aconteceu de ruim vai acabar desbotando e as coisas boas vão continuar colorindo nossas memórias daqui. Assim espero. Por hora, a gente quer é dizer byebye, Middelburg!
agosto 10, 2004
Farewell, Chris!
Amanhã é o dia em que Mr. Chris, também conhecido como MonkeyMan, vai finalmente voltar para a Inglaterra. Como ele disse uma vez que adorou ter tido seus quinze minutos de fama no meu blog, este post é para torná-lo então uma celebridade. Desculpem-me aos que não lêem inglês, mas não vou traduzir senão o post vai ficar imenso e também o google pode fazer isso para quem realmente fizer questão de ler nosso byebye ao Chris.
Tomorrow is the day when Mr. Chris, also known as MonkeyMan, is going back to England for good. He once told me that he enjoyed his fifteen minutes of fame in my blog, so this post is dedicated to make him a celebrity.
I still remember so well of his first day here. We went to the Ginelli’s restaurant (or “Umpa’s” as we call it because that place has nothing Italian whatsoever) and I asked him when he was planning to go back to England. He replied: “Tomorrow if I could. But I’m staying for two weeks.” Well, he stayed for a month and went through a fire, a breakdown, client’s tantrums and thousand of others miseries. A real survivor.
But let’s not forget that for days and days I was a poor victim of all toothpicks, bottle caps, paper airplanes, wet wipes and mint sweets thrown at me merciless by this gentleman. Not to mention my blindness caused by the water & lemon war, and also my injuries from the endless pushes and falls.
He is the one who made my own presence in Middelburg possible when Mr.M told him about the loss we’ve been through, just before this trip. Although I was hugely grateful for him in the beginning now I’m not sure if I should prosecute him for human cruelty. But it’s not Chris’ fault that Middelburg is like this, so I want to say a BIG THANK YOU for helping us when we most needed.
Now let’s get serious for a change.
Chris, I don’t think we need to tell you this but in case you are too slow to figure it out I want you to know that it was really great to have you with us during all those rough weeks. Martin and me truly enjoyed getting to know you better and getting on your nerves too. We’ll miss the little silly things we used to do together, but we won’t miss you knocking at our door at five in the morning and neither we’ll miss you singing Another Brick in the Wall at the King’s Head pub.
We wish you a good and safe journey back home and a wonderful return to your sweet beautiful family.
Cheers good old Chris!
Márcia & Martin
agosto 7, 2004
Olé!
Como previu minha amiga Cristina, o time bretão deu seu olé digno de salva de palmas e chuva de rosas na arena. No mesmo dia que o breguete despencou da parede, todos eles foram para a indústria às seis da manhã, ouviram palavrões, ficaram de castigo, foram mandado para todos os lugares menos nobres, mas não perderam a determinação: fazer o troço funcionar de novo. Às onze da noite do mesmo dia, eles voltaram para a pousada absurdamente exaustos, mas com a satisfação no pouco brilho que ainda resta no olhar deles de uma certeza: missão cumprida.
Em um dia, eles desmontaram, encomendaram partes, apressaram a entrega, montaram tudo outra vez e testaram. O equipamentro ficou em teste a noite inteira, e está funcionando as good as new. Nem quando o nosso radinho de pilha vai pro conserto fica pronto no mesmo dia. O que dirá de uma máquina de cem metros de comprimento que produz toneladas de aço inoxidável por hora.
Martin voltou com as mãos, o rosto e os braços cobertos de graxa, de pó e de fuligem, assim como todos os outros que não quiseram esperar nenhum peão para fazer por eles e colocaram as mãos, o corpo e a alma na tarefa. A noite, estávamos famintos e não tinha mais nenhum lugar aberto e todo mundo da pousada já estava dormindo. Dividimos meio pacote de batata frita em três. Além da fome, Martin respirava pesadamente quando me contava que tinha sido o pior dia de toda a carreira dele, tadinho.
Mas a resposta que vêm desses ingleses tem sempre o mesmo tom que as comédias de sua terra natal: simples, sarcástica, sutil e precisamente direta ao ponto. Não só todo o time foi brilhante consertando tudo no mesmo dia, como também eles foram ontem a noite resolver um problema que nem era deles, cheios de toda deliciosa ironia que só os ingleses conseguem, como quem diz “deixa que eu faço, provavelmente você iria quebrar mesmo”. Hohoho.
Sobre a hipótese de sabotagem, essa foi a minha primeira suspeita também. Essa idéia foi levada em conta com muita seriedade, principalmente quando o fogo envolveu bombeiros e tal. Mas a causa foi clara e o cliente assumiu a culpa de tudo. Quanto segunda quebra, é algo difícil de se fazer criminalmente. São cabos enormes, de diâmetro gigantesco, presos na parede de concreto. Não dá para simplesmente ‘afroxar um parafuso’ e fazer tudo cair.
A sede da empresa na Inglaterra está a par de tudo o que anda acontecendo por aqui. Não há muito que eles possam fazer, pricipalmente porque o imbecil daquele sulafricano que está lá e fica mandando notinhas inúteis pra cá é amigo íntimo de um dos big bosses. E também o único interesse que a empresa tem é de terminar esse projeto e esquecer de vez esse cliente. Falta tão pouco que ninguém quer criar caso, muito pelo contrário, muito da dedicação de todos é motivada pela vontade de sair daqui.
Anyway, está basicamente tudo pronto para que a equipe toda deixe Middelburg na semana que vem. Nós dois seremos um dos últimos a sair. Claro que nós ainda não podemos dar como certa a data da nossa partida, mas estamos torcendo para que até lá nenhum problema mais aconteça.
Estamos até pensando em fazer uma plaquinha escrita “GET LOST” para colocar na nossa porta e evitar que Mr.Chris venha nos acordar com mais tragédias de novo.
Eu estou com grandes esperanças que tudo dê certo daqui para frente. Já estou me despedindo aos poucos das coisas boas que vou deixar aqui: aproveitando mais da companhia da Delia, do Bruno, da Phoebe e do Sylvester, além de aproveitar mais um pouco desse azul celeste incrível, desse sol dourado todo dia e também das risadas dos nossos fins de noite.
Já estamos pensando nas nossas férias, fazendo planos e programando os dias. Teremos poucos dias porque todos esses problemas acabaram consumindo os dias em que a gente estava reservando para as férias, antes de vencer nosso visto. Estamos numa tal exaustão mental que já nem me importo tanto com o leão quanto antes. Mas nesses poucos dias de férias, iremos certamente em busca deles. Mesmo que a gente não os encontre também não faz mal. Agora a gente quer mesmo é ir pra casa...
agosto 5, 2004
When it rains, it pours...
Nobody said it was easy
No one ever said it would be this hard
Oh take me back to the start...”
The Scientist - Coldplay
Eu juro que pensei que não poderia acontecer nada pior que um incêndio e que tudo fosse correr bem melhor desde o desastre. How näive I was...
Talvez este post fique muito, mas muito parecido com um outro anterior, mas assim foi como aconteceu. Ontem tivemos um jantar de confraternização com todo time bretão: Brian, Mike, Ray, Malcomn, Simon, James, Les, Chris, Martin e eu. Comemos, bebemos, rimos e brindamos ao esforço, a paciência e a dedicação inesgotável de todos eles que estão aqui. “We’re getting there”, foi como saudamos a proximidade dos últimos dias em Middelburg. Voltamos por volta das onze da noite, cansados mas satisfeitos por tudo estar correndo bem depois do grande incêndio.
Exatamente como no outro dia, fomos mais uma vez acordados com o Chris batendo à nossa porta. Não dava para acreditar que era sério. Mas era. Ainda é. Um dos cabos que sustenta parte do equipamento soltou-se da parede de concreto. Falando assim parece algo simples, mas na verdade é muito pior que o incêndio. Se antes o cliente assumiu a completa culpa pelo fogo, agora é o momento em que a equipe britânica tem que assumir pelo estrago porque esse tipo de problema é um erro no design, na medição de resistência. Este projeto foi desenhado por vários engenheiros, mas o único engenheiro-desenhista que está aqui é o Martin e eu não posso nem imaginar toda a pressão que ele está vivendo hoje.
Desde muito cedo toda equipe foi para a indústria para resolver o problema e fazer novos cálculos e reparos. Mas como estamos num lugar que não deve ser levado a sério, assim que o cliente-bundão chegou já foi berrando todos os palavrões possíveis, culminando num verbal “get the fucking out of my site”. Percebam a situação que o sujeito criou: o fulano mandou toda a equipe ir para o escritório e não sair de lá até serem chamados. Todo mundo de castigo. Já dá pra ter uma idéia?
E não é porque Martin é o moço que mora comigo nem nada, mas tanto ele quanto os outros membros da equipe não são ‘café pequeno’, não. A experiência e o nível de profissionalismo deles todos são impressionantes, não é algo para ser ignorado e colocado atrás da porta. Mas o machão do cliente que mal sabe falar direito botou de castigo toda essa gente que já havia assumido o erro e já estava de mangas arregaçadas para trabalhar e solucionar o problema. Tá lá um bando de adultos de excelente formação de braços cruzados porque o fedidão tá com pirraça. Quem perde é o próprio cliente, claro. Que benefício isso vai trazer? Eu sempre falei isso e repito: trabalhar com gente burra é a pior coisa do mundo. E não falo de formação, não, porque tem muita gente competente sem diploma. Falo de burrice mesmo, antice, jumentice, i-óin. O horror.
Enfim, este é o cenário que nos encontramos nesta manhã. Perguntei pro Martin se o problema é solucionável, se dava para reparar o estrago. E ele respondeu: “easily”. E é isso que mais frusta. Se dá para resolver tão facilmente, deixa a equipe trabalhar, consertar, fazer tudo funcionar como deve o quanto antes. Eles já assumiram o erro, a empresa vai pagar, já sabem o que fazer para reparar, o que mais que o cliente quer? Que a Rainha Elizabeth venha aqui pedir perdão? Ah, pro inferno!
Esta vida é realmente árdua. Talvez por isso que cachorrinhos e gatos são tão fofinhos. Eles já sentiram que não tô boa hoje e me cercaram de focinhos carinhos e ronrons amigos. Queria levá-los para confortar Mr.M hoje...
Temos duas garrafas de vinho ainda fechadas aqui no quarto. Sinto que não vai ser o suficiente esta noite, considerando obviamente que eles não façam plantão noturno hoje também. Assim que a gente realmente sair desta cidade, das duas uma: ou a gente sai mais forte, ou sai alcóolatra. Uff...
agosto 2, 2004
Moving On
Passado o grande choque, agora temos mais idéia da real extensão do incêndio. Foi grave, foi imenso, mas nem tanto quanto à primeira vista parecia. O equipamento todo mede mais de cem metros de comprimento. Uma das partes foi completamente destruída e vai ser preciso montar outra vez. Mas o restante foi salvo.
Vi as fotos ontem, realmente impressionante, tudo derretido, aço retorcido, concreto corroído, paredes negras pela fumaça. Foi uma sorte que ninguém tenha se machucado.
O cliente não se pronunciou para apontar a culpa em ninguém. Não é oficial ainda, mas a causa do incêndio foi por negligência deles, havia material inflamável onde não deveria.
No entanto já veio do Reino Unido uma nota de um sujeito sul-africano que antes morava em Middelburg e agora mora na Inglaterra e acha que tem a Rainha na barriga, que a equipe britânica não sabe o que está fazendo e por isso que o incêndio aconteceu. Fácil falar assim quando a sua própria bunda está sentada na Inglaterra e não ralando aqui em Middelburg por todos esses meses, longe da família, longe da vida em si. Gente assim me irrita profundamente. A resposta uníssona de todos que estão aqui foi uma só: F**K OFF!
Mas enfim, enquanto uns perdem tempo escrevendo notinhas extremamente desnecessárias e completamente inúteis, quem está aqui parte para a ação. Ontem mesmo eles iniciaram o processo de avaliação, desmontagem e substituição de tudo o que é preciso. Toda a equipe britânica está preocupada em solucionar o problema, ao invés de caçar um culpado. Hoje nem parece que faz pouco mais de 24 horas do incêndio e as coisas já progrediram bastante. Se isso não é saber o que está fazendo, então não sei o que pode ser.
Não sei que implicações esse incidente vai trazer para a nossa estadia aqui. Pelo o que percebi, o incêndio e suas conseqüências são problemas únicos e tão somente do cliente. Martin e seus comparsas continuam com o trabalho deles, fazendo os testes e medições que precisam no restante do equipamento que não foi afetado.
Aliás, ontem a gente pensou ‘ah quer saber, foda-se’ e fomos jantar no pub King’s Head, que se esforça para ter um ‘ar inglês’, mas é um desastre. Mas pelo menos o garçom já nos conhece e traz cerveja de graça e no domingo tem uma banda ao vivo que toca umas músicas bem velhinhas para a alegria do idoso Chris, que fica cantando Pink Floyd e afins.
Fizemos bagunça pra variar e fingi que não ouvi a banda tocando Tears in Heaven. Daí eu me virei por um minuto e quando vi, minha taça de vinho ainda cheia tinha um avião de papel, duas balas e uma flor dentro! Como pode? Coloquei sal na cerveja do Martin e joguei água no Chris. O garçom nos vê entrando e já vai colocando uma montanha de guardanapos na nossa mesa, só agora entendi porquê...
Daí a banda começou a tocar “I see your red door and I want to paint it in black...” Uau, não é que estou também ficando idosa? Cantei junto e bati palma. Eu vi mais alguns copos chegarem na nossa mesa, mas a partir daí tudo parece meio embaçado na minha memória. Só me recordo de ter chegado na pousada somehow e os dois tentando me empurrar no laguinho dos peixes. E daí entramos na pousada e eu não conseguia mais parar de rir e os cachorros acordaram e pensaram que eu queria brincar e latiram e pularam excitadíssimos e me derrubaram e me lamberam o rosto e eu não conseguia me livrar deles e ficar de pé. Martin quase teve um ataque cardíaco de tanto rir, mas conseguiu me puxar até o quarto, para minha dignidade.
Ufa. Se é para ser assim a cada vez que um incêndio acontece, então burn it, babe, burn, hohohoho. Ai, é o vinho.
agosto 1, 2004
A Hell of Day...
Na sexta-feira saí com a Delia para visitar um café novo que foi inaugurado aqui perto. O lugar era lindo, decoração fantástica, mesas cobertas de veludo e com pilhas de livros abertos no centro, rosas frescas perfumando o ambiente. Tudo bem bacana, bolos e tortas maravilhosas e um cappuccino delicioso. Tivemos uma manhã bem agradável.
A tarde porém, foi bem diferente. Assaltaram a pousada vizinha, agora já são três pousadas assaltadas em menos de duas semanas. A polícia veio, mas não pôde fazer muito. Os muros da pousada em que estamos começaram a ser erguidos, mais cercas elétricas serão instaladas. O número de gente desempregada na cidade é tão grande que não é nenhuma surpresa que essas coisas aconteçam.
A noite, Martin e Chris voltaram do trabalho às nove e meia da noite, cansados e extremamente mau-humorados com os clientes que passaram o dia todo apontando o dedo para eles e berrando a todos os pulmões. Tivemos um jantar sem muita conversa e sem muito ânimo. Eu pensei comigo “amanhã tudo vai ser diferente”.
E assim foi. No sábado Martin fez uma porção de novos cálculos e provou por A + B que tudo foi feito estritamente dentro do planejado e que todos os problemas que os clientes estavam apontando estavam vindo da própria incompetência da empresa deles. Os clientes então se calaram, enfiaram o rabo entre as pernas e a equipe inglesa pôde saborear o doce sabor da vingança.
Foi excelente para a moral deles todos, que estão comendo o pão que o diabo pisou com esse cliente. Todos eles voltaram para casa antes das quatro da tarde e nós três pudemos nos divertir bastante. Saímos para jantar, pedimos uma garrafa de vinho Pinotage para comemorar e brindamos “ao bom dia e por melhores dias a frente” (“for the good day and for better days ahead”). Fizemos um monte de palhaçadas no restaurante, com direito a guerra de balas e de lenços umedecidos que viraram chicotes. Rimos tanto que mal conseguíamos respirar. Voltamos para a pousada e continuamos brincando e rindo e rindo e rindo, até a hora de dormir.
Hoje, domingo, o único compromisso deles seria ir para uma reunião de manhã e voltar antes do almoço. Estávamos combinando de passar o resto do dia em Botshabelo.
Porém, o desastre desabou.
Acordamos com alguém batendo em nossa porta às cinco da manhã. Eu estava certa de que era o Bruno querendo brincar, nem me mexi. Mas Martin acendeu a luz e foi atender. Era o Chris. Ele estava nos acordando para avisar que havia recebido um telefonema da empresa com a notícia de que o equipamento que eles acabaram de instalar estava em chamas. Eles saíram daqui às pressas e Martin já me ligou de lá dizendo que o estrago foi enorme. Boa parte do equipamento está perdida. O prejuízo é gigantesco e obviamente que o cliente está com unhas e dentes querendo culpar a equipe inglesa. Chris está neste momento em reunião na boca dos leões enquanto Martin está com outros engenheiros investigando a causa do incêndio.
Eu estou aqui sem saber o que pensar ou o que esperar. It’s just SO unfair. E não estou dizendo isso porque quero ir pra casa, nem nada. Estou mesmo é muito TRISTE por toda equipe que trabalhou durante todo esse tempo sem descanço, sou tesmemunha do trabalho árduo que eles vêm fazendo, em plantão constante, se entregando completamente ao projeto.
Para eles, ver o equipamento se transformar praticamente em cinzas está sendo devastador para se dizer o mínimo. F***ing hell.
Martin and Chris, I’m really sorry for you and all the UK team... May the ‘better days’ we toasted for last night still come to us...
:-(
julho 30, 2004
Looking for Trouble
As promised, here are the most recent pictures of that one who must not be named. All pictures were taken in Botshabelo.
Conforme o prometido, aqui vão algumas fotos daquele que não deve ser nominado. Todas as fotos foram tiradas em Botshabelo.
Click here to see him having his cup of tea
Click here to see him checking a SMS message in his mobile phone
Hohohoho, I think I'd better go to the court now.
julho 29, 2004
Bad days, bad dinner, bad mood
Estamos na reta final. Finalmente o equipamento foi instalado e testado. Tudo está funcionando absolutamente como deve. E sejamos muito justos aqui: foi graças a dedicação, esforço e comprometimento sério e inesgotável de toda equipe inglesa que este projeto finalmente alcançou esse resultado.
Martin e Chris voltaram a ter horários mais civilizados desde ontem. Mesmo assim ainda é nítido o cansaço físico e o esgotamento emocional deles.
Quanto a mim, estou absolutamente impaciente agora. Cansei de repetir pra mim mesma que falta pouco e blablabla. Quero ir pra casa, mas também não quero deixar aqui as coisas boas que já fazem parte da nossa vida: as conversas com a Delia, a companhia deliciosa do Bruno, da Phoebe e do Sylvester, a proximidade divertida com todos os colegas do Martin.
Sei que assim que a gente colocar os pés na Inglaterra, vai ser difícil reencontrá-los, cada um segue sua vida, nunca mais se vê. E não estou exagerando.
Passei tanto tempo me acostumando a ficar sozinha na nossa casa, agora que a gente veio pra cá e teve essa convivência saudável e bem-humorada com eles todos, vou sentir muita falta.
Mas quero ir pra casa agora. Andaram acontecendo algumas coisas bem desagradáveis por aqui. Uma delas é que roubaram dinheiro, cartões de crédito e o celular da Delia, aqui dentro da pousada. A outra é que o marido dela teve um acidente com a pickup 4x4, ele está bem mas o carro foi bem atingido e está no conserto. Então o ambiente não está um dos melhores.
Para completar meu humor, ontem no jantar tivemos a infelicidade de ter escolhido o mesmo restaurante que os clientes-chatérrimos da empresa (cidade pequena é mesmo uma m*rda). Eles acabaram insistindo em juntar as mesas e tivemos uma noite horrível com gente burra, invejosa no pior sentido e desagradável. E como se não fosse o bastante, ainda tive que ouvir de um deles: “Márcia, now tell me: what about kids? When are you going to have a baby?” não consegui responder nada, Martin que se prontificou a falar “Soon” e pronto. De volta ao nosso quarto, claro, desabei em lágrimas. M*rda.
Hoje também não estou lá muito feliz principalmente com tudo isso na cabeça.
Amanhã é sexta-feira, dia que eu e Delia vamos tomar cappuccino em algum lugar bacana que não lembre que estamos em Middelburg. Quem sabe meu humor não muda um pouco.
Quero agradecer mais uma vez pelos recados aqui, pelo apoio e pelo gentil oferecimento de ajuda de muitos de vocês, muito obrigada, fico bastante feliz!! Martin e Chris também leram todos os recados cheering them up e se divertiram bastante. Thanks a bunch!
julho 25, 2004
Poor Things...
Hoje é domingo, mas faz muito tempo que não sei mais a diferença.
Desde a segunda-feira passada, entende-se segunda, terça, quarta, quinta, sexta, sábado e hoje Martin e Chris estão trabalhando desde às 5h30 da madrugada (leia-se cinco e meia da manhã) até as 7h30 da noite (sete e meia da noite), poor things. Sete dias consecutivos despertando muito antes do sol, longos dias de trabalho sem almoço e retorno de corpos exaustos e enfraquecidos ao anoitecer, poor things.
A gente sai para jantar, conversa por mais ou menos uma hora e meia e o dia se encerra para eles. Eles estão a pura imagem da escravidão impiedosa, expondo as marcas das chibatas em cortes profundos. Desolação e desesperança penduradas nas olheiras, poor things.
Para melhorar a situação, eles haviam pedido para uns peões cortarem o excesso de um cabo (de 5cm de diametro), só a ponta que estava sobrando. Eles cortaram. 16 metros. Como alguém pode achar que 16 metros é sobra? Daí o cabo tá curto, tem que pedir outro, produção da insdústria parada, querem cortar os cabos dos peões agora. E nóis continua por aqui, sem saber quando ou se um dia vamos voltar a ver a luz da civilização. Poor things
Public Appeal:
Martin and Chris think I’ve been unfair and unsympathetic with them just because I said they’d better be in a rest home than a guesthouse as they do little but say “oh dear, I’m tired”. They told me off last night (particularly one of them who must not be named but it’s not Martin) until reduce me to tears. So here I am trying to make up with them.
I AM TRULY HONESTLY MADDLY SORRY FOR YOU BOTH AND I HOPE THINGS GET BETTER IN NO TIME AND WE ALL CAN LEAVE MIDDELBUGGAR AND GO BACK TO OUR SWEET HOME ENGLAND.
If you have time, please leave a sympathy message for Martin and Chris too. They are SO desperately in need! Any message to cheer them up or just to say “oh poor things, poor things” will be very appreciated. Cheers!
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last update 26/07/04: this post was the talk of our dinner tonight. That one who-must-not-be-named is threating to sue me for slander and to keep me in Middelburg for the rest of my life. I'll soon post a petition here and you people can send e-mails to him (he LOVES e-mails!!) to plead against his decision.
Name: Chris ******* (surname to be updated soon)
e-mail: hisemailaddress@whatever.co.uk (to be updated soon)
telephone: +44 000 000 (to be updated soon)
picture: (to be posted soon, hohohoho)
Chris: Whatever! :-p
julho 21, 2004
Quase Dois Meses
Uff. Estamos completando quase dois meses vivendo em Middelburg. Praticamente um ato heróico. Chris, o engenheiro-chefe do projeto em que Mr.M está trabalhando chegou da Inglaterra na sexta-feira passada e está hospedado aqui na pousada.
Eu já falei dele aqui, foi ele quem fez de tudo para que eu pudesse vir acompanhar Mr.M nesta viagem. E tem sido bem divertido, Chris é super bem-humorado e simpático, nós três damos muitas risadas e fazemos todas as piadas possíveis sobre a vida aqui em Middelburg. Ele conhece bastante de São Paulo, já comentou comigo sobre o Ibirapuera, o litoral de Santos, os restaurantes Familia Mancini, Barbacoa, Ganesh, até do Simba Safari ele falou. E ele fala do Brasil com absoluta paixão, diz que ama o Brasil, que adora o povo brasileiro e morre de saudades da comida de lá. Para o Martin a presença dele tem sido também um alívio porque toda a burocracia e politicagem agora sai das mãos dele e ele pode se concentrar melhor no trabalho que precisa fazer.
Esta semana e a semana que vem são as mais críticas de todo o projeto em que eles estão trabalhando. O equipamento está sendo instalado e a produção da indústria está parada especialmente para isso. Então tudo tem que funcionar direitinho e todos os engenheiros estão de plantão.
Recebemos algumas notícias vindas do Reino Unido. A primeira é que provavelmente ficaremos aqui até que o nosso visto se encerre, em meados de Agosto, para que Mr.M possa cuidar de eventuais ajustes no equipamento instalado. A outra é que vamos poder enviar uma parte da nossa bagagem pela DHL para a Inglaterra.Vai ser fantástico porque a gente veio com as bagagens no limite do peso (ridículos 23kg por pessoa) e precisamos voltar com tudo aquilo e mais o que andamos comprando aqui.
Fiz alguns passeios com a Delia na semana passada. Fomos à Witbank e também a Dullstrom, para almoçar, tomar um cappuccino e ver lojas. Não comprei nada, mas adorei as lojas em Dullstrom, impressionante encontrar uma cidade no meio do nada (bem, na verdade a região é popular pela pesca de Truta) cheia de lojas de decoração, móveis de design assinado, uma porção de coisinhas bem bacanas e chiques, restaurantes finos e bistrôs bem aconchegantes.
No domingo passado levamos Chris à Botshabelo e vimos antílopes, impalas, avestruzes, baboons e macaquinhos. Fizemos uma pequena caminhada, vimos o pôr-do-sol e nos encantamos com a cor do céu, azul, rosa e laranja. Acho que ele gostou.
Que mais que eu tenho pra contar... Nossa geladeirinha vai bem, ando comendo sanduíche de atum e maionese, nham! E temos Ice Tea geladinho, queijo Babybel, leite.
Brunoviski, Phoebster e Sillyvester estão bem também. Phoebe não caçou mais nenhum passarinho, apesar das tentativas. Minha amiga Marcia Aguiar me explicou que os daschunds são excelentes cães de caça, por isso esse instinto tão forte na Phoebe. Bruno porém não vê necessidade de caçar já que seu pratinho tem sempre ração e toda quinta-feira tem churrasco na pousada e garantia de t-bones gentilmente doados pelos hóspedes. Melhor então usar os dentes pra morder a Márcia até ela ficar com a mão toda furada e falar: “Bruno-NO”. Ah sim, a quem tinha perguntado, eu falo com eles em inglês, mas eles só entendem Afrikaans, de modo que as vezes eles me olham sem compreender. Syl continua blasé, mas é super querido. Já não me morde mais quando eu faço fussy-fussy-cute-cute na barriga dele de surpresa. Quando a gente precisa sair e colocar ele para fora do quarto ele se transforma numa gelatina, uma massa amorfa que escorrega entre os dedos, o preguiçoso.
Terminei de ler o quarto e último livro. Gostei muito, Joanne Harris é bastante competente para criar personagens cheios de personalidade, adorei. Para a minha salvação, Chris me emprestou um livro que ele comprou no aeroporto e vou começar a ler hoje. Chama-se Land of Fire, de Chris Ryan. O gênero do livro (guerra das Malvinas) não é lá meu cup of tea, mas vou ler.
Agora que sei que vamos poder enviar coisas pela DHL vou poder comprar mais livros, de mais páginas. Oh sim, da outra vez tive que escolher livros que não fossem muito pesados, ficava comparando o peso nas duas mãos. Realmente quem deve ter me visto escolhendo os livros assim não teve uma boa impressão dos meus critérios literários. Da póxima vez vou tentar comprar alguma novela de 800 páginas, assim dura mais tempo. Imensas saudades da Borders...
Estou sem créditos no celular e, portanto, não posso acessar a Internet. Espero que Mr.M se lembre de comprar mais créditos e me tirar desta miséria implacável, esta seca cruel e desumana...
Ah! Colori meu cabelo novamente! Usando a mesma marca, L’Oreal Excellence, na mesma cor castanho mogno. Não ficou perfeito porque eu não apliquei muito com medo de manchar as toalhas da pousada. Mas ficou ok, tô contente.
É isso. Temos mais quatro semanas pela frente aqui na África do Sul. Meu chazinho de camomila está quase acabando, no wonder. Vou ali sentar no sol, respirar ar fresco e brincar com o Bruno. Só mais um mês. Uff.
julho 14, 2004
Improvements
YAY! Nós temos uma geladeira, hoooray!!
A Delia colocou um frigobar no nosso quarto e eu estou tão, tão feliz!
Vai fazer a maior diferença para nós.
Eu colocava uma coisinha ou outra na geladeirona da pousada, mas não ficava muito à vontade. Tem uma geladeira lá na cozinha só para bebidas, que a gente se serve e marca o que pegou para pagar depois. E outra com todos os mantimentos da pousada. Ambas são supercheias e organizadas e eu não me sentia muito bem colocando minhas coisinhas lá, a cada dia elas apareciam num lugar diferente e eu tinha que ficar fuçando tudo.
Agora nós podemos colocar o que bem entendermos na nossa geladeirinha no quarto!! Ontem fomos ao supermercado Spar para nos abastecer. Compramos presunto, queijo, atum, leite fresco, salsichas de hot-dog e cervejas. Tá tudo arrumadinho no frigobar. Compramos também pão, biscoito de chocolate, Kit-kat, mexericas e Ice Tea. Bons almoços daqui pra frente! EBA! Miojos nunca mais!
Outro dia eu fui à loja Woolworths, que tem um mini-supermercado dentro bem chique, e vi que tinha uma seção especial chamada “Italy Festival”. Fui lá dar uma espiada e o que eu encontro?? Um potinho de Pesto importado de Roma, hooooray!! Comprei um vidrinho e um pacote de espaguete. Eu não costumo comprar pesto em potinho, adoro fazer em casa fresquinho (facílimo de fazer, a receita taí do lado), mas aqui estamos num estado de calamidade pública. Então o potinho de pesto pronto é mais que bem-vindo!! Hummmm... acho que vou fazer no final de semana.
Ah, para quem havia perguntado quem era na foto do post Wild Wild Life, quero esclarecer que é a Phoebe. O Bruno viu ela caçando, depois foi lá cheirar a presa, fez cara de nojo e foi dando ré até ficar bem longe, o medrosinho. A Phoebe é mais quieta mas também a mais corajosa. Eu fiquei impressionada, daschounds são pequenos, perninhas curtas, não são feitos para serem cães de caça. Mas a Phoebe tem certeza que ela é um Husky Siberiano, deixa ela. No dia que ela comeu o pobre pássaro ela dormiu o resto do dia todo, foi como se tivesse comido um peru de Natal sozinha, a gulosa. Lety, não precisa ter medo da foto não porque não tem nada de muito nojento, não tem sangue nem órgãos saindo pra fora não. Mas agora cê já imaginou tudo isso, né...?
De resto tudo continua bem por aqui, na medida do possível. Continuo de bag full de Middelbuggar, mas estou mais paciente agora. Decidi não mais sair da pousada sozinha, pronto. Só saio com a família da pousada ou com o Martin. Temos mais um mês pela frente. Nosso visto dura até 21 de Agosto e espero (i hope, i hope, i hope) estarmos em casa antes disso. Estou na metade do último livro, estou quase acabando o jogo Tomb Raider The Angel of Darkness. Estou quase perdendo os sentidos também. Uff.
Mas sei que vai valer a pena quando a gente sair de férias e eu puder finalmente ver um leão!! Can’t wait.
AIDS na África
A África é ainda o continente campeão de índices de HIV positivo e AIDS. Outro dia vi na TV uma propaganda bastante tocante, mostrando casas de bingo vazias, asilos sem ninguém, um funcionário raspando da placa “desconto para idosos”. Depois uma criança de uns quatro anos pergunta para mãe: “Mãe, o que são vovô e vovó?” Daí a campanha se encerra explicando que em 2010, se a AIDS não for controlada, o continente africano não vai ter população acima dos 40 anos de idade. Uau.
Artesanato Útil
Gentem, que esqueci de contar. Quando fomos à Jo’burg eu fui dar uma olhadinha no artesanato africano e encontrei algo inusitado. Ainda existem muitas tribos neste continente. E a grande maioria são bem selvagens, vivem todos pelados. Daí que eu estava olhando o artesanato, achando tudo lindo e me deparei com um negocinho parecendo uma mini-peneirinha de palha. Enquanto eu estava tentando decifrar o que era o negócio, Mr.M surge ao meu lado e pergunta:
“Cê sabe onde é que vai isso aí?”
e vira a embalagem para me mostrar a foto explicativa. Tinha um homem e uma mulher de uma tribo. A mulher peladona, com umas penas aqui e ali. O homem peladão a não ser pela tal peneirinha de palha bem posicionada no instrumento reprodutivo dele para proteger de arranhões, ô moço precavido!!!
GAAAHHHHHHahahahahahaha...
:-p
julho 13, 2004
Blyde River
O passeio do final de semana foi muito bom!
Desde a escolha da pousada às paisagens magníficas.
A gente não percebe, mas Middelburg fica num altiplano de mais de dois mil metros de altura. E para chegar a região de Sabie, fomos descendo a serra. Só então é possível ver as montanhas. Engraçado ter que descer para ver as montanhas. A diferença no relevo é espantosa, as formações rochosas formam ondas e tudo parece macio.
Ficamos num dos chalés da pousada, lá tínhamos três camas, uma cozinha completa, banheiro, varanda com churrasqueira e uma lareira bem legal, que acendemos e dormimos com o barulhinho da lenha estourando.
Jantamos na pousada mesmo e para a nossa total alegria o restaurante tinha um menu predominantemente britânico! Meu prato foi um clássico bretão chamado Steak & Ale Pie, que é uma torta recheada de carne assada, cebolas e molho de cerveja Guinness, acompanhada de purê de batata. Bliss! Martin escolheu um Lamb Indian Curry, curry de cordeiro, de tanta vontade que ele estava de comer um prato indiano que ele tanto adora. Comemos bem, vou te falar. Estava tudo divino.
No dia seguinte, o café da manhã seguiu a boa qualidade também. Mr.M atacou um full house, ovos, bacon, salsicha, tomates, torradas, aquela coisa toda. E eu me esbaldei com Poached Eggs Benedict, que são ovos pochê delicadamente deitados sobre fatias bacon, folhas de espinafre e metades de muffins ingleses. E um tiquinho de molho holandês cobrindo. Café, suco e fruta também. Ainda bem que a gente tinha o dia todo para queimar as calorias!
A primeira atração do dia foi visitar o God’s Window. Eu esperava bem mais por causa do nome presunçoso e tal. Gostei de ver a imensidão do vale que se avista do alto, mas acho que já fiquei mais impressionada com as vistas da Serra da Bocaina, entre SP-MG-RJ. Vai ver era só a janela do Vosso quintal ou coisa assim.
Depois fomos à um lugar bem especial chamado Bourke’s Luck Pot Holes. Lá as rochas foram naturalmente escavadas pelo rio, formando esculturas magníficas, imagens de realmente impressionar. E as cachoeiras também são fantásticas, a espuma da água braquinha nas rochas absolutamente negras, lindas!
Em seguida visitamos o canyon em si, Blyde River Canyon. Imenso, as montanhas em curvas sinuosas, o rio plácido correndo sem pressa no vale, uma vista que dava vontade de ficar sentada o dia todo, só admirando, sem dizer nada, sem pensar nada.
Cada estação tem seus prós e contras. No inverno é mais fácil avistar animais porque a vegetação está seca, as árvores estão peladas. No entanto, as cachoeiras estão mais magras e o rio também está mais baixo. E não há tanto verde e flores decorando as montanhas. Mesmo assim, as paisagens que vimos foram muito impressionantes.
Depois do canyon começamos nosso caminho de volta. Foi cansativo, é preciso rodar bastante de carro para ver tudo. Mas foi um ótimo passeio para nós.
E como as imagens podem falar mais do que eu possa descrever, aqui vão algumas. Infelizmente não posso publicar muitas porque demora muito para fazer o upload, mesmo em baixa resolução, e meus créditos vão simbora. O horário que visitamos não era o melhor para se tirar fotos, a luz estava impedosa e a leve névoa da manhã de inverno ainda estava na superfície, atrapalhando a nitidez da imagem.
Eu sentada no parapeito da janela do Homi
As rochas esculpidas de Bourke’s Luck Pot Holes
Blyde River Canyon, o terceiro maior canyon do mundo
:o)
julho 10, 2004
M&M in Blyde River Canyon
Eba! Desde que fomos à Jo’burg Mr.M trabalhou sem parar, sem folga nem no final de semana. E neste final de semana finalmente ele vai poder ter um dia e meio livre, começando no sábado depois do almoço e o dia todo do domingo, hooooray!! A gente quer fazer o máximo porque este deve ser uns únicos finais de semana que ele vai ter de folga até a gente voltar para a Inglaterra. A parte mais importante do projeto em que ele está trabalhando começa na outro domingo, então provavelmente ele vai estar de plantão o tempo todo.
E para comemorar e aproveitar bastante todo esse merecido tempo livre, nós vamos nos mandar de Middelbuggar, HOORAY!!!
Vamos visitar um lugar bem lindo, chamado Blyde River Canyon Nature Reserve. Não é uma área de fauna predominante (apesar de ser possível avistar alguns animais), mas sim de estonteantes paisagens, cachoeiras, lagos e formações rochosas. Martin já esteve lá uma vez e ele diz que é um dos lugares mais bonitos que ele já foi. E lá se encontra também o terceiro maior canyon do mundo, eu estou louca para ver.
Nos hospedaremos por uma noite no vilarejo de Sabie, numa pousada chamada Misty Mountain, bem lindinha, com vista para as montanhas. Entre os lugares que queremos visitar, além do canyon, está um chamado God’s Window (Janela de Deus). Se a gente tiver sorte quem sabe o dono da janela num vai estar por lá passando um paninho no parapeito, num é mesmo?
Então até a volta!
“On the road again...”
Wild Wild Life
Na foto abaixo é possivel ver a cena de um animal selvagem devorando sua presa, uma imagem que testemunhei há poucos dias atrás.
Aviso: NÃO clique no link se você não gostar de fotos do gênero ou se você não tem estômago forte ou se você estiver almoçando no momento.
Pelo visto, aqui neste continente cada um caça o seu pão de todo dia...
Oh my G...
Outro dia estávamos assistindo à TV aberta. A gente não costuma ver TV aberta aqui no quarto porque a maioria dos canais não são lá muito interessantes. Quando a gente quer ver TV via Satélite temos que ir na sala de estar da pousada. Eu geralmente assisto um pouco às tardes porque daí eu posso ver o Discovery, NatGeo, Animal Planet, BBCFood, BBCPrime, etc.
Mas voltando, estavamos assistindo à um filme na TV aberta. Era o filme Sweet Home Alabama. O filme em si não me chamou atenção nenhuma, mas um infeliz detalhe me deixou indignada.
Toda vez que no filme algum personagem dizia “Oh My God”, o “god” era censurado pela TV. Então ficava “Oh my G...”. E assim sucessivamente com todas as outras palavras do gênero:
“for h... sake!” (for heaven’s sake);
“h… smokes” (holy smokes);
“what a h…?” (what a hell?);
“h... forbid!” (heavens forbid);
oh J… C… (oh Jesus Christ).
Enfim, qualquer palavra que tivesse conotação religiosa era cortada do áudio. Martin me explicou que isso é norma da tv sul-africana, ninguém pode transmitir filmes ou programas com palavras religiosas sem que essas sejam cortadas. Uns dizem que é para respeitar as diferentes culturas religiosas que o país têm e não ofender a nenhum credo. Outros dizem que os próprios católicos do país é que não gostam de ouvir tais palavras serem usadas em vão.
Eu não gostei. É certo que existem diferentes credos aqui, mas isso não impede ninguém de aceitar que outras culturas usam expressões religiosas nas interjeições. Pra quê tirar o áudio quando o que foi dito é tão óbvio? Qualquer cultura deve ter sua liberdade para se comunicar do jeito que está acostumada a fazer. E cabe a qualquer outra cultura entender e respeitar essa diferença, mesmo que não concorde.
Então vamos dizer que eu sou hippie e que acredito na Paz e no Amor. Então não quero saber de americano falando “love” em vão nos filmes hollywoodianos. Pronto. Paz todo mundo já fala em vão mesmo, mas Amor tá banido. Não quero, tá banido pra vida toda. Sem i love you, sem oh my love, sem do you love me. Tudo censurado, não aceito, corta tudo fora. É a mesma lógica.
Ah cansei.
Só pra terminar e resumir minha opnião, vou copiar aqui um trecho do livro que minha amiga Mary leu, Terrorismo Cultural, do antropólogo social Thomas Hylland Eriksen:
"(...) fascismo é ter amigos íntimos, uma cidade natal e uma família, mas não ter capacidade de entender que outras pessoas, em outros locais, possam ter amigos, uma cidade natal e família - e ter uma vida rica e interessante, mesmo sendo diferente."
Pronto, falei.
julho 5, 2004
O Primeiro dos Big Five!
Loskop – O Retorno
Eu vi! Eu vi! Eu vi! Eu vi o primeiro dos Big Five*, HOORAY!!!
Não foi o leão ainda.
Mas foi o senhor tonelada, o fortão, o mais pesado, o feroz, o que parece saído da época jurássica, o destemido e temido RINOCERONTEEEE!!
Eu vi, eu vi! E tirei fotos, muitas fotos.
Ontem Martin teve que trabalhar e eu estava entediada até a alma de ficar na pousada em pleno domingão ensolarado e quente. Não era nem dez da manhã quando a Delia veio bater na porta do quarto. Eu e Sylvester fomos atender. E ela me convidou para ir com ela e com o outro hóspede alemão (que não era o Gehard, mas eu não sei o nome deste moço) à Loskop. Aceitei (não sou silly nem nada), corri pro chuveiro, troquei de roupa e desci para encontrar com eles, na pick-up 4x4 (e fui a primeirona a estar pronta, a apressada).
Eu não fui com grandes expectativas desta vez porque sabia o quanto foi difícil ver qualquer animal lá em Loskop quando fomos na primeira vez. E no começo, quando começamos o safari, não me empolguei muito. Vimos alguns kudus, algumas impalas e tal. E rodamos, rodamos, rodamos. Daí a Delia começou a entrar num caminhos mais ousados, que só os 4x4 conseguem e a gente começou a ver outros animais, entre eles uma família de macacos babuínos e também black beest, que são parecem o Fera, da Bela e a Fera.
Mas nada de rinoceronte. Seguimos os cocôs deles novamente, parando para analisar o frescor do mesmo. Se ainda estiver molhadinho, com moscas e ainda mantendo o formato original, então quer dizer que eles estão por perto. Se já estiver meio seco, sem moscas e esfarelando, sinal que já faz umas horas que eles foram no banheiro. Eu achei muito simpático da parte deles de fazer cocô no meio da estrada, assim a gente pode parar para analisar.
Rodamos mais e mais e a Delia começou a parar uns carros para perguntar se eles haviam encontrado algum rinoceronte. A maioria dos turistas estavam mais pedidos que nós e ninguém tinha visto. Até que cruzamos com um carro de um casal que mora nas localidades e eles foram bem simpáticos dizendo que haviam visto um nas margens do lago, mas para chegar até lá era preciso pegar uma outra estradinha quase invisível por causa da grama alta.
Ficamos todos empolgados e prestando atenção no solo para ver se encontrávamos a tal estradinha. Encontramos e seguimos por alguns metros, sem ver nada na frente a não ser mais e mais grama que chegava na altura da pick-up. Até que... tcharam! Alcançamos a borda do lago, onde a grama é bem mais rasteira e lá estava ele, enorme, gigantesco, comendo tranqüilo sua graminha, sem se preocupar conosco. Horray! O primeiro dos Big Five que eu vejo em seu habitat natural, yaaaaayyy!!!
Chegamos muito muito perto dele, ele não se incomodou com a nossa presença, pude tirar bastante fotos! Dava até pra ver as marcas da pele dele. E aquele chifrão duplo no focinho, maravilhoso! A Delia explicou que aquele era o white rhino e que o black rhino tem a boca completamente diferente, como se fosse bicudo. Esse que vimos é mais comum.
Ficamos um bom tempo ao lado do belezinha e ele continuou comendo sem pressa, às vezes olhava pra gente, depois voltava a comer grama. Só quando viramos o carro para passar pelo lado direito dele que ele se mostrou ameaçado. Balançou a cabeça pra cima e pra baixo e chutou a areia. Daí a Delia entendeu e deu ré e foi pelo lado esquerdo dele. E ele balançou o rabinho e voltou a comer sossegado.
Deixamos o belezinha em paz e fomos para outras áreas, parando os carros para avisar onde havíamos encontrado o rinoceronte.
Mais ainda estava por vir.
Demos a volta no lago e, numa subida, vimos uns cocôs bem fresquinhos. Paramos o carro para olhar em volta e sem precisar de nenhum esforço, vimos outros rinocerontes no alto do morro, uma mãe e um filhotinho. Mas eles estavam longe, meio escondidos entre as árvores e de costa para nós, então não tirei fotos. Mas foi legal ser finalmente recompensados pelo tanto de exames fecais que fizemos!!
Pouco depois, no mesmo lugar onde Martin e eu ficamos maravilhados ao ver uma família imensa de impalas bebendo água no grande lago outro dia, viramos à esquerda para procurar mais animais.
Logo vimos o Pumba, o javali warthog. Mas este era um cinza bem clarinho. Acho o warthog bem engraçado, talvez porque me lembre o Pumba, e ele anda todo apressadinho, tem um cabeção e uma bundinha minúscula, é hilário. Daí vimos uma espécie de lagarto enorme, escorregando entre a grama e então mais para frente... surprise, surprise!!
Algo que eu definitivamente não estava esperando ver tão cedo e que me deixou completamente estarrecida, mais do que o rinoceronte. GIRAFAS!! Três girafas surgiram no horizonte, longas, elegantes, coloridas, magníficas!! Eu fiquei completamente sem palavras, tão feliz de ter visto as girafas!!! Na verdade eu nem sabia que era possível vê-as em Loskop foi uma total e fantástica surpresa!!! Era um casal e um filhote e eles estavam comendo folhinhas de uma árvore e descansando. Também chegamos bem perto delas, mas bem mais devagar para não assustá-las.
Foi fenomenal. Uma pena que Mr.M não pôde estar conosco, mas ele já viu boa parte dos Big Five quando morava aqui.
Depois das girafas, tomamos o caminho de volta, sem precisar ficar olhando em volta, a gente nem ia ligar de atropelar uma ou outra impala, hohohohoho, de tão satisfeitos que estávamos!! O dia que tivemos em Loskop vai ser um daqueles que vão ficar pra sempre na memória e no hard disk.
Eis o primeiro dos Big Five que vi, o Rinoceronte Branco:
E a grande e agradável surpresa do dia, as Girafas. Elas me dão aquela intensa sensação de que sim, estou na África.
E o querido warthog. Notem que este warthog tem a mesma cor que o tronco da árvore. Assim, se ele deitar quietinho, o predador pensa que é só um tronco de árvore caído.
*Big Five: leão, onça, búfalo, rinoceronte e elefante
E os Dias Passam
Já estamos em Julho, o clima aqui está mais imprevisível que antes. Às vezes faz sol e muito calor, às vezes fica tudo nublado e venta bastante. Tivemos chuvas nesses últimos dias, o que foi um alívio porque o ar estava muito seco e cheirando à fumaça das queimadas.
A família da Delia voltou das férias em Moçambique. Pelo que eles nos contaram, não foi lá uma boa experiência. É a terceira vez que eles vão para lá, mas foi a primeira vez depois da guerra civil que durou 20 anos. Eles disseram que o nível de miséria lá está um absurdo, muita gente esmolando nas ruas, falta de saneamento básico, violência, aquilo tudo qua a gente conhece. Então eles aproveitaram muito pouco, fizeram alguns passeios, viram vários animais bem bacanas, mas estavam loucos para voltar para casa. Nós ficamos felizes com a volta deles, a landlady que estava aqui era super boazinha, levou até bolo de chocolate no nosso quarto, uma beleza! Mas nada como ter os próprios donos da casa aqui, tudo funciona melhor e a gente se sente mais segura.
Na sexta-feira passada tivemos uma boa tempestade com raios e trovões, com queda de energia e muita água. Estávamos todos os hóspedes juntos na pousada, jantando um informal espaguete a bolognesa que a Delia havia preparado para nós como pura cortesia. E tivemos uma noite ótima ao redor da mesa da cozinha, conversando sobre um monte de coisas, nós, a família da pousada, Gehard, um alemão bem simpático que está aqui há dois anos, dando aulas de computação para negros que vão entrar nas indústrias. E também um outro hóspede que veio de Cape Town. Depois do jantar nos divertimos mostrando as nossas fotos para a Delia e o Ian, marido dela. Eles morreram de rir com as fotos dos cães e do Sylvester.
Eu tenho saído muito pouco da pousada. Quando muito vou até o supermercado e volto. Estou almoçando aqui, mas meu cardápio não é mais miojo. Comprei presunto, queijo, salame e pão, e a cada dia faço um sanduíche diferente. A noite jantamos juntos e aí sim consigo me alimentar melhor, principalmente quando a gente janta na pousada, que sempre serve carne, saladas, legumes e arrozinho, apesar da montanha de molho que vem acompanhando tudo. E eu continuo tomando um comprimido de multi-vitaminas todos os dias, então acho que sobrevivo.
Ando sentindo muitas saudades da nossa casinha, das nossas coisinhas, da nossa cidade, do mundo pós-idade-média, aiai... Tem muita coisa legal para se ver por aqui, mas eu não passeio todos os dias, não tenho sequer para onde ir durante a semana. Por mais que muita gente pense que estou vivendo um sonho de turismo, isto aqui está longe de ser um mar de rosas. Muito longe. Não vejo a hora que o Martin finalmente termine o projeto e a gente possa sair de férias e conhecer realmente o que há de melhor nesta região. Enquanto essa hora não chega eu fico pacientemente enchendo meus dias de coisas que me fazem bem, mas não posso negar que há dias em que eu preferia estar na nossa casa.
Quando voltarmos, certamente eu vou sentir saudades de muita coisa daqui, como o solão e céu azul quase diário, os animais, a família da Delia, as empregadas fazendo tudo pra nós, os passeios magníficos. Mas de Middelburg em si, da cidade propriamente dita, eu vou ter pouquíssima coisa a sentir falta.
Ao contrário de qualquer outra cidade um pouco mais civilizada, em Middelburg não existe transporte público. Brancos sem excessão andam de carro, negros se viram, a maioria caminha ou andam de lotação. Não posso dar um pulinho na cidade vizinha, não posso nem sequer andar mais que um quarteirão por aqui, por segurança. Sem contar essa discórdia racial, a arrogância extrema de alguns brancos e a antipatia tenebrosa de alguns negros, nesta minúscula cidade parada no tempo. E dou graças a deus que a pousada seja tão aconchegante e simpática, senão já estaria nadando pelo Oceano Índico a caminho da Inglaterra, ou fazendo uma curva no sul e nadando no Atlântico para visitar o Brasil.
Obviamente que valorizo muito a chance de ver o que vejo aqui, viver o que vivo aqui, passar os dias com o Martin como passo aqui, conhecer boas pessoas como conheci aqui. Mas isso não me impede também de ficar de saco cheio de vez em quando. A indignação e o desconforto faz a gente questionar e aprender muito também. Mais do que ser Polyanna, mais do que fingir que tudo é lindo e maravilhoso o tempo todo. Porque não é, nunca é. A maioria dos colegas do Martin, além do próprio, sabe do que eu estou falando. Tem horas que dá vontade de viver na Àfrica do Sul pra sempre. Tem horas que dá vontade de sair correndo.
Hoje eu me permito reclamar. Quem for da opinião contrária, está convidadíssimo a passar seus dias em Middelburg. Não de passagem em férias, veja bem, mas umas boas seis semanas consecutivas. Give me a break today…
junho 28, 2004
M&M in Johannesburg
Eu não poderia ter pedido por presente mais delicioso! Passar o dia em Johannesburg foi realmente bom para minha alma. A minha mais forte impressão da cidade é que é muito parecida com São Paulo: periferia com favelas e muita pobreza contrastando com bairros nobres, hotéis cinco estrelas, carros importados e casarões enormes.
Mas o bom em Johannesburg comparando com Middelburg (apesar que isso seria como comparar São Paulo com Piraporinha-Mirim-do-Bom-Jesus*) é que a globalização já chegou lá e nas ruas é possível ver pessoas das mais diversas nacionalidades e eu não preciso me sentir o ET-atração-da-cidade.
Outra coisa que nos chamou a atenção, como o Martin pontuou, foi que não há aquela tensão no ar, como em Middelburg. Em geral, não há aquela clara divisão entre brancos e negros em Johannesburg e é possível perceber que não há tanto daquele ressentimento racista tão marcante como estávamos acostumados em Middelburg, de brancos mal-tratando negros e vice-versa o tempo todo. A gente percebe em poucos segundos que a grande maioria das pessoas em Jo’burg está muito mais acostumada com a missigenação. E que alívio é poder sentir isso outra vez depois de um mês naquele Apartheid-não-declarado da pequena cidade.
Depois de rodar um pouco pela cidade – e encontrar uma placa alertando “Hijack Risk Area” – nos dirigimos ao shopping center Sandton City, onde passamos o resto da tarde. O shopping é maravilhoso, praticamente uma praia de água azul-piscina para esta paulista perdida no mato.
Fomos à loja Cape Union Mart e lá encontrei um casaco bem quentinho e bem bacana, por um preço muito mais em conta do que na Inglaterra, menos da metade do que eu pagaria lá, e o melhor, no meu tamanho, hooray!!!
É cinza claro com azul, à prova d’água (necessário 355 dias por ano na Inglaterra), breathable (como se traduz isso?! Respirável??), tem um casaco removível de fleece na parte de dentro, um capuz generoso que se fecha na frente da boca (mas não tanto para a sua respiração não congelar no frio, só para parar o vento) e também uma “saia” para colocar por dentro da calça e evitar que a umidade suba para sua camiseta, no caso de chuva. É bem legal, estou supercontente com ele, como dá pra notar. Depois de passar frio por dois anos e meio na Inglaterra a gente aprende o que um casaco deve ter.
Depois fomos comprar coisinhas para a câmera, um memory card de 512mb, um tripé e a cabeça do tripé. Deixamos na loja as calças, os olhos da cara, um rim e meio fígado, mas boas fotos nos aguardam! Valeu a pena ter comido miojo e bolacha salgada durante 35 dias. Devo continuar com essa dieta na Inglaterra e logo a gente compra uma casa!
E então passamos na livraria. Eu queria todos, muitos livros, mas comprei só dois: Holy Fools, de Joanne Harris e The Curious Incident of the Dog at Night-time, de Mark Haddon. O primeiro porque eu gosto da Joanne Harris, gosto como ela descreve texturas, cheiros, gostos e de como ela retrata a França de tempos atrás. E o segundo eu queria comprar desde que estava na Inglaterra. Já comecei a ler e não conseguia parar, tive que deixar o livro guardado senão terminava hoje mesmo. Preciso fazer racionamento de páginas.
Não encontrei de jeito nenhum em Johannesburg o livro Letters from Africa, de Karen Blixen, que o Cido havia recomendado. Acho que vou ter que ler esse só quando voltar pra casa. Quem sabe vai ser até mais legal já que tudo o que tenho vivido aqui vai ser memória quando voltarmos.
Cheios de sacolas e sorrisos enormes, fomos almoçar. Tinha vários, vários restaurantes para escolher e a gente queria algo bem diferente, algo que não lembrasse nem de longe o tanto de comida africana que temos ingerido esses dias. E escolhemos o Daruma, um restaurante japonês m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o! Nos sentimos tão bem, o restaurante era todo ambientado, bem decoradinho, chefs japoneses preparando sushis na hora, toalhinhas quentes para limpar as mãos, uma delícia!! Comemos sushis e asinhas de frango de entrada. Depois tivemos tempura de legumes fritos com perfeição e teriyaki como prato principal. Teriyaki são fatias finas de filé que vem num prato de ferro bem quente. Daí a garçonete despeja um molhinho de shoyu e cebolinha por cima e o prato faz tchiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii e termina de cozinhar a carne e os vegetais que acompanha: broto de feijão, cenoura, nabo e repolho, tudo em tirinhas. E claro, muito arroz branco para acompanhar! Huuuummm, foi a melhor refeição em anos que tivemos (descontando, obviamente, as refeições na casa dos meus pais)!! E man, nós fizemos por merecer esta refeição divina, I tell you!
Depois de comer bem deu aquele sooooono, passamos na confeitaria para comprar pão fresco e salame pro jantar e voltamos pra Middelburg... oh dear.
Mas foi um dia espetacular, inesquecível, um dos melhores presentes de aniversário que tive. Johannesburg é imensa, tomando os mesmos devidos cuidados de quem vai a São Paulo, dá para ver que é uma linda e bem desenvolvida cidade. E é engraçado perceber que em menos de duas horas de distância o cenário social muda completamente, nem parece o mesmo país. Martin estava certo, bem certo, quando me disse para não tomar Middelburg como exemplo de toda África do Sul porque não é justo. Em apenas um dia na maior cidade do país pude perceber o quanto isso é verdadeiro. Navegar é realmente preciso.
*cidade fictícia só para dar idéia de um minúsculo lugar qualquer
Oh Yeah!
Quero agradecer a todos os recadinhos me felicitando pelo meu aniversário, muito obrigada, fiquei muito feliz de ler tanta coisa boa sendo desejada para mim! Eba! Adorei. Obrigada!
junho 25, 2004
It’s My Birthday!
Primeiras horas da manhã da sexta-feira, dia do meu aniversário!
HOORAY!
Hoje eu faço 31 anos bem vividos até aqui. E este é o primeiro aniversário que comemoro na África do Sul.
Com Martin trabalhando de sol a sol, nem esperava que ele me fizesse nenhuma surpresa, ainda mais sabendo que a gente vai pra Jo’burg (decidimos!) amanhã de manhã. Mas assim que acordei ele me deu os parabéns e fantásticos presentes: um cartãozinho fofinho, 180 Rands de crédito para o celular pra usar a Internet e o DVD do Rei Leão Edição Especial. HOOOOOORAY!!!
Fiquei tão FELIZ com esses presentes!!! São todos tão especiais para mim. Não vejo a hora de assistir ao Rei Leão e tentar reconhecer os animais que vimos aqui. Faz tantos anos que assisti pela primeira vez que nem me lembro mais. Acho que vamos assistir hoje a noite, quando voltarmos do jantar.
Hummm, vamos comer bacalhoada no restaurante português, espero que seja bom. Eba! Eba!
Feliz Aniversário pra Mim!
In the arms of an angel
Hoje também é o dia que lembro do nosso bebê que foi para o céu. Dois meses. Ainda é difícil de acreditar, ainda sentimos tantas saudades de Little M, ainda nos machuca tanto lembrar de tudo o que aconteceu...
Não há um dia que eu deixe de pensar naquele bebê tão querido. Não há um dia que eu deixe de me orgulhar de Little M. Every single day...
