julho 12, 2013

These days in our garden


Quando nos mudamos para esta casa, cinco anos atrás, nosso jardim estava completo com tudo o que a antiga dona da casa queria, gostava e tinha tempo para cuidar. Para nós, recém-saídos de apartamentos em cidades grandes, tudo parecia lindo e florido. E no início tentamos manter tudo o que estava plantado.

Aos poucos fomos percebendo que muitas plantas consumiam energia, tempo e paciência para manter. Rosas trepadeiras, Ivy trepadeiras, Clematis trepadeiras, Virgina Creeper trepadeiras, Honeysuckle trepadeiras. Todas elas podem ir com seus hábitos libidinosos pro diabo que as carregue. Basta um pouco de descuido e elas invadem, tomam conta, sobrecarregam e matam plantas vizinhas. Ficam bonitinhas cheias de flores na primavera, mas o tanto de trabalho que dão posteriormente só causam ressentimento e dedos espetados. Todo meu amor para quem gosta de podar galhinhos, amarrar galhinhos, treinar galhinhos. Mas é uma dedicação que eu reservo para plantas que nos alimentam.

Quando Miss S nasceu o jardim ficou num estado terrível por dois anos. Mal tínhamos energia para limpar a casa, o que dirá o jardim. Quando ela começou a brincar no jardim percebemos o quanto queríamos muda-lo. Precisávamos de um lugar com sombra pra sentar, ler, jantar ao ar livre. Precisávamos de uma hortinha para Miss S aprender a plantar e cultivar. Precisávamos de um jardim nosso, com as nossas escolhas, com o nosso gosto, com o nosso novo ritmo.

O trabalho imenso de reestruturação começou assim que a neve derreteu. Eu fui colecionando fotos de cantos de jardins que me agradavam. Mr.M desenhou:





Ele e o pai dele (aka Grandpa) limparam a área, quebraram o antigo pátio de piso desnivelado, cortaram árvores cheias de fungos, escavaram e prepararam o solo. Mr.M desenhou o decking, comprou madeira, cortou, instalou (com ajuda de Grandpa), lixou, encerou.













Nesse tempo todo eu peneirei, peneirei, peneirei uma montanha da terra escavada cheia de pedras e rochas de um solo que nunca foi cultivado. Toneladas de terra. Toneladas de pedras.Trabalho escravo, I tell you. Eis a foto da montanha de terra finamente peneirada (com Miss S photobombing):





Numa manhã de sábado Mr.M comprou mais madeira, cortou e montou nosso "raised bed", nossa tão desejada hortinha. Ele ensinou Miss S a checar o nivelamento, trabalho que ela levou muito a sério. Uma vez tudo nivelado, enchemos com a terra peneirada.





Então agora temos esse canto privado, longe dos olhos vizinhos. Ainda está meio alien, ainda há muito para fazer. Quando comparo as fotos do jardim antes com as de agora obviamente o jardim atual parece pior, vazio, urbano. Mas estamos apenas no começo. Um dia as arvores novas vão crescer, um dia vamos entrar num consenso sobre que tipo de cadeiras comprar, um dia vamos encher o decking de vasos e plantas. Um dia.










Por hora, Miss S e eu plantamos abobrinha, ervilhas, feijões, french radishes (pro Peter Rabbit, segundo ela), pepinos, Swiss Chard e Cavolo Nero na horta nova. E regamos todos os dias, juntas. Nem sempre tudo é um conto saído das paginas de Beatrix Potter, no entanto. Miss S pouco se interessa com as verduras crescendo. Muitas vezes ela escava as sementes que plantei. Ou arranca o tomate verde da planta. Outro dia ela trouxe a tesourinha dela e cortou todas as folhas dos brotos recém-nascidos.

E falando em Little Miss Sophie, oh my... neste verão quente e ensolarado, ela com seus dois anos e meio tem aproveitado tanto, tanto do jardim! Acorda cedo, oito da manhã já está de botas (roupas são opcionais) e vasculhando o jardim à procura de criaturas. Demos a ela uma lente de aumento e uma caixa de acrílico com tampo perfurado para examinar as tais criaturas do jardim. E um livro sobre as mesmas criaturas (My First Book of Minibeasts); livro este que ela coloca debaixo do braço e sai com caneta em punho para marcar os que ela encontra. Melhores £10 que já gastamos.
















fevereiro 1, 2013

January Cure - The Final Sweep

Chegamos ao final do projeto January Cure 2013 do site Apartment Therapy.

E eu serei eternamente grata. A maior diferença, porém, não foi na casa, mas em mim.

Tem horas, principalmente quando sua criança lhe acorda pela terceira vez na noite, que parece que só a sua casa é que está bagunçada, só os seus lençóis perderam as esperanças de serem trocados, só o seu banheiro tem sido palco para bactérias fazerem E.Colipalooza.

No meu caso, quando a casa inteira está desarrumada, eu me sinto mentalmente sobrecarregada, começo a pensar em tudo o que precisa ser feito, em tudo o que está fora do lugar, em toda sujeira que precisa ser eliminada. Em minha mente vou precisar de várias horas, vários dias até, para colocar tudo em ordem. E porque tempo é algo escasso e precioso, acabo desanimando/emburrando/procrastinando, achando que nunca vou ter oportunidade para arrumar como devo.

Foi aí que o January Cure me ajudou. Com o projeto percebi que eu não preciso limpar e arrumar a casa inteira de uma só vez. Uma tarefa por dia, um só foco para se concentrar. Cada passo parece mais fácil e realizável. E finalmente minha mente encontrou um certo otimismo: "hey, I can do that!"

Além disso, ler nos comentários do Apartment Therapy uma leva de gente (inclusive os próprios editores) contando como certos cantos da casa estavam pela hora da morte traz um certo acalento porque você percebe que não é a única que não consegue encontrar um abridor de latas na segunda gaveta (toda cozinha tem uma "segunda gaveta", não? Aquela onde vai tudo o que não é garfo-faca-colher que coube na primeira gaveta).

No começo é difícil acreditar que tudo vai estar mesmo arrumado e limpo em um mês, mas na metade do projeto você já começa a perceber enormes progressos. Eu não segui todas as tarefas religiosamente. Algumas eu não fiz, outras ainda não terminei. E mesmo assim o resultado foi visível.

Enfim, eis alguns pontos do projeto que fizeram grande diferença no funcionamento da nossa pequena casa:

Chão limpo:

Óbvio mas fácil de negligenciar. Os editores do Apartment Therapy dizem que mesmo quando a sua casa está um caos, assim que você limpa o chão percebe que não está tão ruim. Pesquisei e encontrei um produto excelente da Method pro nosso chão de madeira, fácil de segurar e esguichar, não precisa diluir nem nada. Uso com o mop de microfibra. As vezes delego para minha gerente.






Potes de armazenagem:

Demorei para encontrar potes que me agradassem, mas agora não queremos nenhuma outra marca: Oxo Pop. Aperta um botão, abre; aperta de novo, fecha. Descomplicado e eficiente. Transparentes, dá pra ver quando algo está acabando e preciso repor.






Coat hanger para Sophie:

Instalamos esses ganchos para pendurar casacos (não sei como chama em português?), na altura dela. Ela já tem seus próprios casacos, luvas e acessórios para pendurar e acabava sobrecarregando os nossos e ninguém encontrava nada. Logo ela vai usar para pendurar mochila, uniformes e afins.





Organização dos cabos:

Ainda é um processo em andamento. Atualmente existem umas opções bem bacanas, inteligentes e coloridas para organizar cabos, recarregadores, tomadas, extensões. Estamos ainda pesquisando quais os melhores para as nossas necessidades. Mas eu já colei esses Cabledrops (BlueLounge) nos criados-mudos pra gente ter sempre os plugs na mesa ao invés de no chão. E também gostei desses Adaptors Wraps, para enrolar os cabos USB e recarregadores evitanto, assim, que eles se enrosquem e se desentendam nas gavetas.








Organizador de gaveta:

A supracitada segunda gaveta ganhou divisórias e agora encontro o que preciso quase sempre.





Flores:

Todo sábado tínhamos como tarefa comprar flores novas pra casa. Essa foi minha tarefa favorita e um hábito que pretendo seguir daqui pra frente. A importância delas foi fundamental; eu passava a semana toda pensando em quais flores compraria no sábado (I lead a dull life). E elas me davam o incentivo que eu precisava quando estava arrumando, na expectativa de exibi-las assim que terminasse. Sem contar que quando você está escolhendo as flores pra comprar você sabe que é para a sua casa, que você tem orgulho dela, que você quer vê-la bonita, saudável, feliz. E que você as merece também.





E assim chegamos ao fim do projeto.

Mas não se engane, caro leitor, achando que agora minha casa está brilhando de limpa, organizada, decorada, cheirando a jasmim. Não está. Muito longe disso. A intenção do Jan Cure nunca foi alcançar a perfeição. A intenção foi revitalizar. E isso certamente aconteceu, nossa casa está melhor hoje do que um mês atrás.

Desde que nos mudamos, quatro anos atrás, esta é a primeira vez que sinto orgulho do lar que criamos. Com suas obras a terminar, paredes rabiscadas de giz de cera, gavetas transbordando, sapatos espalhados, com tudo imperfeito. O que o Jan Cure trouxe foi um novo relacionamento meu com a pequena casa. Hoje eu vejo a limpeza não mais como uma carga, obrigação, punição, maldição. Mas como algo fragmentado, pequenas atenções todos os dias, pequenos carinhos com a casa (flores, flores!), pequenas organizações pra viver melhor.

Um dos posts mais significativos do Apartment Therapy pra mim foi um sobre fazer uma lista dos atributos da sua casa dos quais você é grato. Com tantos sites, revistas e programas de decoração bombardeando impecáveis e imaculadas casas e mansões é natural reclamar e encontrar defeitos da sua casa. E a sua talvez seja o sonho de muitos outros.

A minha lista de gratidão à nossa casa:

  • É num lugar silencioso, relativamente seguro, com bons, semi-não-intrometidos vizinhos.
  • Tem jardim de bom tamanho (eu não daria conta se fosse maior).
  • A cozinha tem tudo o que sempre quis.
  • Foi (está sendo) renovada por nossas próprias mãos.
  • É quentinha no inverno.
  • É nossa.
  • É a casa da infância de Miss Sophie. E um dia pode ser dela.

Agora preciso imprimir a lista de Como Limpar Sua Casa em 20 min por Dia por 30 dias. E tentar manter a rotina. Mas agora a gerência está me chamando para brincar de "ready-steady-go".

We're cured.

Escrito a mão pela Marcia às 3:56 PM | mais em Little House Around the Corner | Comente este fragmento(5)

janeiro 14, 2013

Jan Cure






Começo este post com um self-pity party, me dêem licensa, reclamando choramingando contando como está sendo fisicamente difícil manter todo o resto da rotina diária funcionando ao mesmo tempo em que cuido de Miss S todas as horas por dia, sem ajuda de absolutamente ninguém, nem por um final de semana, nem por um dia, nem por uma hora, nunca. Sem babá, sem faxineira, sem cozinheira, sem família, sem vinho gelado.

E se alguma parte acaba sendo negligenciada, essa parte tem sido a nossa casa. Entre limpar o chão ou comer/dormir, a última opção sempre acaba vencendo. Mr.M faz MUITO por aqui, mas ele também precisa brincar com Miss S, que não vai mais ser assim pequenininha por muito tempo. Só agora, depois de dois anos, é que estou conseguindo colocar minha cabeça pra fora do poço e voltando aos poucos a cuidar de partes essenciais da nossa vida.

Enfim, o que eu quero mesmo dizer é que nossa pequena casa precisava de um pouco de atenção. Eis que o site que eu adoro, Apartment Therapy, começou um projeto chamado January Cure. Serão 31 dias de pequenos (outros grandes) cuidados com a casa. Um email por dia com uma tarefa, a motivação que eu precisava. Me inscrevi.

A expectativa é que em Fevereiro a casa esteja funcional, limpa e mais fácil de manter. Uma das primeiras taferas foi comprar flores para a sua casa. O simples fato de precisar abrir espaço em algum lugar para colocar essas flores já foi um incentivo. E assim estamos caminhando, um passo por dia. E um grande salto por final de semana.

Nesse que passou a tarefa atacou a cozinha. Só a cozinha, mas em todos os cantos, superfíces, armários, geladeira, etc. O que mais me motivou foi uma frase simples no final do post do AT: "quando chegar a segunda-feira, estaremos tomando chá numa cozinha limpa". Essa idéia ficou marcada na minha cabeça e me dando ânimo para fazer a tarefa, mesmo com uma toddler espalhando iogurte pela casa. Não consegui terminar tudo, mas o que fiz tem feito uma diferença muito grande.

Foi uma surpresa jogar fora uma quantidade imensa de produtos com a validade vencida. Algo que em minha mente certamente não fazia mais que três meses que eu havia comprado, estava com a validade vencida desde Janeiro 2012!

Mandei pra reciclagem um monte de copos, canecas e taças que não gostamos e não usamos e ocupavam valioso espaço. Comprei produtos Ecover porque são eficientes e não me dão eczema. Encomendei potes para armazenagem. Limpei as prateleiras, as janelas. Mr.M limpou o fogão e o chão. E finalmente hoje, segunda-feira, fiz meu chá numa cozinha limpa. Talvez ainda longe de estar organizada e decorada como eu gostaria, mas já é um começo e fiz meu chá sorrindo.

De manhã, Miss S entrou na cozinha e falou: "oooh, Mummy tidoh up 'ere!" ("oooh, Mummy arrumou aqui"). ♥

Ainda há muito trabalho a ser feito, dentro e fora da casa. Um email por dia. Chegaremos lá. Eu conto aqui ao final do mês.

Escrito a mão pela Marcia às 2:25 PM | mais em Little House Around the Corner | Comente este fragmento(12)

novembro 27, 2010

The Nursery in the Little House

Nossa casa, para quem não sabe, é pequena. Todos os cômodos são pequenos. E, consequentemente, o quarto de Littlest One não poderia deixar de ser pequeno também. Não temos espaço para colocar um monte de móveis, trocadores, cadeiras de balanço, estantes de brinquedo e o que mais existe neste mundo para se pôr num quarto de criança.

Nós temos espaço apenas para um berço (cotbed de 1.40m que depois vira uma cama infantil), uma cama de solteiro (para eu cochilar enquanto o bebê cochila durante o dia) e uma estante. Além do armário embutido. Só isso.

Eu não me incomodo, não reclamo. Nunca quis também fazer quartos temáticos, de personagens, não é do meu gosto. Prefiro quarto com cara de quarto pra dormir, um canto sossegado, decorado mas sem muitos estímulos visuais.

Há quem se preocupe em saber o sexo do bebê antes do nascimento para poder decorar tudo com as cores "certas". Cada um com seu cada qual. Sinceramente, para nós, a importância disso no contexto de nossa jornada é... zero. Dificilmente faria um quarto todo rosa ou todo azul. Talvez mais tarde, atendendo a pedidos do(a) dono(a) do quarto, mas por enquanto as paredes são da mesma cor de todos os outros quartos. E a decoração são nada mais que umas e outras coisas que nos agradam, que nos faz sorrir em vê-las.

Às vezes entro neste quarto e fico olhando para tudo por muito tempo.

Enfim, eis o pequeno, porém monumental para nós, quarto de Littlest One:



Um lugar para dormir





O adesivo da parede veio de um casal designer da França





Os quadrinhos vieram de uma ilustradora encontrada na Etsy





Hedgehog? Check.





Cortina com animais selvagens





Luminária com animais não-selvagens





Primeiros livros





Há cores além de branco e bege






Snowsuit com patas de urso? Check.



Escrito a mão pela Marcia às 3:49 PM | mais em Little House Around the Corner | mais em M&M Family

dezembro 15, 2009

Charlie Brown's Christmas Tree

Este ano nossa árvore de Natal foi inspirada num velho desenho animado de Peanuts. Em meados dos anos 60 Charlie Schulz já escrevia sobre a comercialização intensa e descontrolada da época natalina. Mas o que é para mim mais tocante sobre o desenho é que Charlie Brown, escalado para comprar a maior, mais moderna árvore de Natal para a peça teatral, escolhe comprar uma pobre e mirrada árvore natural, esquecida e rejeitada no meio de tantas árvores feitas de alumínio.

Todo o elenco do teatro reclama, briga e ri da escolha ridícula de Charlie Brown. Desolado, ele carrega a árvore para casa e coloca uma bola de Natal nela. O galho é fraquinho e se curva com o peso da bola. Charlie Brown acha que matou a árvore e sai correndo achando que ele arruina tudo que toca.

Seus amigos que o haviam seguido agora estão todos em volta da árvore. Linus coloca um suporte para a arvorezinha voltar a ficar de pé e diz: "Eu nunca achei que esta era uma árvore ruim. Na verdade ela não é nada má, só precisa de um pouco de cuidado". E todos começam a decorá-la. Charlie Brown retorna e mal pode acreditar em seus olhos quando vê a arvorezinha toda decorada e bonita. E todos gritam: "Feliz Natal, Charlie Brown!" e cantam christmas carols em volta dela.


Inspirados, fomos ao nosso garden center local procurar pela nossa arvorezinha. Procurávamos uma pequena, plantada, com as raízes intactas. Uma que cativasse nosso olhar e que tivesse potencial para sobreviver depois do Natal. Encontramos esta, que estava no meio de outras mais bonitas e caríssimas. Ela estava plantada torta, o tronco estava quase diagonal. Mas ela tinha cara de "Charlie Brown".

Em casa, plantei-a em outro vaso maior, desta vez corrigindo a postura dela e adicionando bastante terra adubada e água fresca.


Magricela, galhos raquíticos, formato desigual:
nossa árvore de Natal.




Poucos enfeites mas a maioria feita a mão.




Um camundongo no topo.




Gingerbread men rechonchudos




Cestinho de madeira e porcos curiosos




Velho Noel




E se ainda houver um hedgehog* fuçando na base,
oh well... a árvore está completa




*Muffin só estava acordada à luz do dia porque ela tinha que tomar o remédio e o quarto dela estava em reforma. Logo ela voltou pra casa dela, no quarto, para dormir outra vez até o anoitecer.

Escrito a mão pela Marcia às 11:20 AM | mais em Little House Around the Corner | Comente este fragmento(11)

novembro 27, 2009

The Bathroom's Extreme Makeover

This post is dedicated to Martin.


Update: Martin leu todos os comentários (com um pouco de ajuda) e pediu para agradecer a cada um de vocês. Ele ficou surpreso e feliz de ter ultrapassado o número de comentários que Charly the Donkey recebeu. Thanks a lot, everyone.

O banheiro desta pequena casa foi um dos primeiros ambientes em que começamos a fazer a renovação. Ainda nem havíamos nos mudado definitivamente e já estávamos removendo os azulejos e carpetes velhos. A obra demorou dezessete meses para se concluir. Parte porque toda a renovação foi feita pelas mãos do Martin, que só tinha os finais de semana para se dedicar à obra. Ainda assim ele teve que interromper para passar um mês inteiro na China e outras tantas semanas em outras viagens neste ano. Outra parte foi por conta de milhões de problemas para se resolver numa casa de 20 anos de idade, construída com pouquíssimo cuidado. Nenhuma parede estava reta, nenhuma linha se alinhava, contrapiso e plasterboards da mais barata e inferior qualidade deste universo, textura Artex no teto com risco de conter asbestos, encanamentos a serem refeitos e muitos outros etecéteras. Finalmente podemos dizer que chegamos ao fim. Ainda falta a decoração em si, umas corezinhas, um pouco de vida. Mas a obra em si terminou. E Martin está orgulhoso, mas não mais que eu.

As fotos não estão boas porque o espaço é pequeno, a lente distorce um pouco, o sensor da câmera está imundo e a fotógrafa tem neurônios deficientes.

Comecemos, porém, do começo e da razão pela qual o banheiro precisava ser renovado:



Banheiro cor-de-rosa. Say no more.




Banheira rosa, louças rosas, azulejos rosas,
pintura rosa, persianas rosas, Valium azul.




Mas a cor não era o único desgosto. Todo o resto estava desalinhado, espaços estavam mal-aproveitados, canos de esgoto estavam expostos. E não preciso nem mencionar o carpete com vinte anos hospedando bactérias, E.Coli e parentes próximos.



Espelho de um lado, pia do outro, como se estivesse de mal.




Chuveiro elétrico sem pressão, banho de pingos.



E então a demolição começou. Esta foi uma das poucas partes em que colaborei, tirando todos os azulejos. Martin removeu todo o resto. Por sorte ainda morávamos em Sheffield, onde podíamos ir tomar banho.



Banheira no lixão, paredes a serem reconstruídas.




Esta parede da janela ficou assim até o mês passado.



A próxima fase foi de encanamento. Martin nunca tinha feito esse tipo de trabalho antes e apesar das dificuldades iniciais, ele fez um trabalho admirável, sozinho. Eu jamais saberia por onde começar ou o que comprar.


Martin at work, the cleverest plumber.




Obra de arte em cobre. By Mr.M.



Há ainda muito trabalho de encanamento em que não tirei fotos. Martin passou muitos dias trabalhando no sótão onde a caixa d'água mora e muito mais ainda foi feito no tanque de água quente, na bomba de pressão nova e no boiler. E também trocamos todo o encanamento de esgoto e da banheira por pura precaução.



Bomba de pressão para o chuveiro.




Encanamentos sob o piso.




O novo conjunto para o banheiro foi entregue mas ainda estávamos muito longe de instalá-los. Na foto abaixo dá para perceber que a parede da cozinha ainda está no layout antigo, o que significa que toda a obra da cozinha foi feita com tudo isso no caminho. A pia, a torneira e o gabinete foram encomendados e importados da Alemanha e já estavam conosco há muitos milênios antes do resto chegar, por isso não aparecem na foto junto com o conjunto.



Conjunto do banheiro, menos essa mangueira intrometida.




Chuveirão, radiator, box de vidro da banheira



A reconstrução da parede começou e contratamos uma equipe para tirar a textura do teto e cobrir com gesso. Outra equipe veio para selar o encanamento que vai pro telhado. Essas foram as únicas parte que não pudemos fazer nós mesmos. Assim que o gesso secou pude pintar o teto, agora lisinho.



Banheira removida outra vez, paredes sendo reconstruídas



O processo seguinte foi o mais demorado, mais bagunçado, mais irritante e cansativo de todos: o assentamento dos azulejos. Infelizmente não tenho fotos passo-a-passo de todo o transtorno que foi. Os azulejos são enormes e pesadíssimos, então não dava para cortá-los com diamante simplesmente. Alguns davam para ser cortados com a máquina com água, outros só com uma serra mais precisa. E cortar azulejos produz uma poeira tão fina e tão numerosa que cobre tudo em volta e se espalha por lugares que ninguém nunca imaginaria. Passamos meses nesse ambiente insalubre, respirando esse pó terrível que por mais que a gente use o aspirador e pano úmido, não há como evitar. Era tanta bagunça e tanta poeira que nem tive ânimo de tirar fotos.

E por causa das paredes em desnível, quase todos os azulejos precisaram ser cortados, de uma forma ou de outra. Deveria ter guardado o calhamaço de papéis com vários cálculos feitos pelo Martin. Todos os espaçamentos foram milimetricamente calculados para nivelar tudo com a precisão exigida por Mr.M. O último dos azulejos foram instalados na semana passada e depois do rejunte e limpeza geral pudemos suspirar aliviados e admirar o quanto de esforço e determinação foi preciso para terminar mais esta obra.




Ta-daa




Os azulejos imensos dão o ar que buscávamos.




Ordem e alinhamento, finalmente.
As persianas são da mesma marca e modelo das da cozinha.




Our Vain Vanity Unit.
A porta e o batente vão ser trocados em breve.




Todos os controles ficam nesta parede.
Inclusive para encher a banheira.




Esta torneira foi o começo de tudo.
O primeiro item comprado e pelo qual todo o resto se inspirou.




Cordinha do interruptor de luz "Dead Harry".
Quem nos visita há de ter senso de humor.




Well done, Martin. I love our bathroom not only because it looks stunning but because I can see your enormous effort and dedication in very corner, in every grouting line, in every single drop from the shower. For someone with no previous experience in plumbing or tiling your achievement is remarkable. And your commitment to make this house a lovely place for us to live is the one I treasure the most.

Layout: M&M
Execução: Mr.M
Pisos: Porcelanosa Osaka Antracita
Azulejos: Porcelanosa Jakarta
Vanity Unit e Torneira: Kholer
Chuveiro, banheira, privada, assento, radiator, box e espelho: Bath Store
Persianas: Luxaflex Ondulette
Interruptor de luz: Dead Hary by SuckUK Design

Escrito a mão pela Marcia às 11:06 AM | mais em Little House Around the Corner | Comente este fragmento(48)

janeiro 15, 2009

The Making Of...

Quero agradecer aos muitos elogios que vocês deixaram nos comentários do post da nossa nova cozinha. Mr.M ficava o tempo todo checando se havia chegado comentário novo, lia, relia e depois me contava. Perceba que ele não pediu para traduzir nenhum deles, praticamente fluente que ele é - pelo menos em leitura. E agora também, graças a vocês, ele aprendeu o significado do elogio "de revista".


lotsocoffee.gifAchei curioso que muitos de vocês acharam nossa geladeira (quase escrevi frigideira, mas apaguei e corrigi a tempo, ufa) bacanosa e grande. A geladeira é na verdade o único eletrodoméstico que está nos incomodando. Ela é de tamanho normal (60cm de largura), está bem riscada dos dois lados e e há rachaduras internas também, tudo resultado das mudanças. Então ela já está na fila para entrar com o pedido de aposentadoria.


lotsocoffee.gif Pena que não dá pra ver nas fotos a cor exata das paredes; é bem mais escura do que parece. Na foto dos testes de cor, a cor definitiva é a primeira de cima pra baixo, nem parece, né? Estou completamente apaixonada por essa cor cinza azulada, principalmente com o contraste da cor do piso. Acho que vamos usar a mesma tinta na sala de estar.


lotsocoffee.gif O piso é o mesmo em todo andar de baixo. A madeira é da espécie Jatobá, vinda da Venezuela. No andar de cima o piso vai ser da mesma marca, mas de madeira Jatobá vinda do Brasil, hoorray! Tudo legalizado, certificado e de áreas de florestamento sustentável, da rigorosa empresa sueca Kahrs. Investimos no melhor piso possível porque os custos foram pagos no processo da nossa relocação do sul pro norte. E também porque eu odeio carpetes.


lotsocoffee.gif Os puxadores foram escolhidos com muito cuidado porque queríamos algo semelhante aos puxadores do fogão (coerência, coerência). Durante a instalação dos armários o montador anunciou que não dava para abrir a lava-louças e que a gente teria que escolher um puxador menor. Alguém esqueceu de avisá-lo que isso não era opção. Não abrimos mão, mudamos um pouco o layout, resolvemos a questão e os puxadores ficaram.


lotsocoffee.gif Aliás Mr.M fica indignadíssimo quando os montadores dão a desculpa de que não dá para calcular se tudo vai se encaixar direitinho até a hora da montagem. Porque ele, Mr.M, faz projetos monstruosíssimos de muitos quilômetros de comprimento e calcula cada milímetro para a montagem ser precisa, sem sobras nem apertos, mas exata. Então essa desculpa não é engolida nem por toda cerveja do mundo.


lotsocoffee.gif Apesar da determinação quanto aos puxadores, abrimos mão de muitas outras coisas. Eu queria que a torneira fosse do mesmo design da torneira do banheiro (coerência, coerência), mas ia fica muito caro. Martin queria a bancada em granito, mas ia ficar mais caro que toda a cozinha montada. Paramos para pensar no que realmente era importante para nós e decidimos pelo fogão. Todo o resto então ficou menos importante. No final acho que encontramos um equilíbrio.


lotsocoffee.gif A princípio nossa idéia era de montar nós mesmo a cozinha toda. Havíamos pesquisado e encontrado fornecedores de armários, portas, mecanismos internos. Mas chegamos à conclusão de que ia demorar muito. Foi uma boa decisão, foi um trabalho para vários profissionais e mesmo assim a reforma durou mais de um mês. Sem contar com a nossa parte no acabamento.


lotsocoffee.gif Todas as portas e gavetas têm soft-close. Não importa o quão forte a gente tente fechá-las, o soft-close desacelera e fecha tudo suavemente. Parece algo superchique, mas esse mecanismo é mínimo, custa umas £3 cada um e é só encaixar na dobradiça. E porque havíamos pesquisado isso antes, ficávamos irritadíssimos quando vendedores das lojas de cozinha justificativam o preço alto só porque todas as portas tinham soft-close. Era o suficiente para nos fazer virar as costas.


lotsocoffee.gif Lojas de cozinhas (e também cozinhas de revista) aliás são glamorosas e totalmente irreais. Nessas cozinhas ninguém usa lata de lixo, nem pendura pano de prato, nem tem que guardar uma porção de Tupperware.


lotsocoffee.gif A parte mais difícil de ficar sem a cozinha durante a reforma nem foi ficar sem o fogão. Mas foi ficar sem a pia. Coisas simples como lavar a mão quando ela ficava melada, ou enxaguar uma colher não era possível sem ter que subir as escadas e lavar na pia do banheiro. E nem vou contar como foi ter que lavar a louça todos os dias no banheiro.


lotsocoffee.gif E aqui na Inglaterra ficar sem a cozinha é ficar sem a "lavanderia" também. Nossa situação estava ficando tão gritante que teve um dia que pedi pro montador deixar um cano pendurado para poder encaixar a mangueira da máquina de lavar roupas, enquanto a conectávamos à água e puxávamos uma extensão para ligá-la. Foram dias difíceis, mas já nem me lembro mais.


lotsocoffee.gif O grande teste da cozinha foi no Natal, quando quatro cozinheiros (Martin, a mãe e a irmã dele e eu) trabalhamos ocupadíssimos, cada um fazendo um prato, tudo ao mesmo tempo mas sem atropelar um ao outro e sem acidentes. Tudo funcionou bem, apesar do tamanho petite da cozinha.


lotsocoffee.gif Por fim, não se enganem, caros leitores, ao pensar que nossa cozinha fica assim limpa e arrumada todos os dias. O fogão está imundo da água do arroz que transbordou, de caldo de feijão que respingou, de pedaços de couve. A bancada está cheia de migalha de pão, farinha, galho de mexerica, tampa de cerveja, recibo de compra. No chão tem garrafas de leite e suco vazias, sacola de compras, caixa vazia dos orgânicos, tripé e líquido de limpar pára-brisas (?!).

Escrito a mão pela Marcia às 2:51 PM | mais em Little House Around the Corner

janeiro 9, 2009

The Kitchen's Extreme Makeover



A cozinha original, com azulejos todos tortos, vinil no piso, armários mal-aproveitados.
E com uma parede inconveniente separando-a da sala de jantar:




A demolição:




A reconstrução:




A chegada dos gabinetes:




Depois que os construtores se foram, começou a nossa parte -
pintura do teto e das paredes, instalação dos azulejos e do piso de madeira:


A precisão do trabalho de Mr.M com os azulejos (na foto ainda sem o rejunte).
E os primeiros testes para escolher a cor da parede:




Ta-daa:




Lado do fogão




Lado dos "escondidos":
gabinete pull out




Lavanderia:




Mecanismo Le Mans, que aproveita o canto que antes estava inútil:




A cozinha era minúscula e ainda continua pequena, apesar da ilusão que a lente grande angular dá nas fotos. Por isso cada centímetro quadrado foi amplamente planejado, milimetricamente medido. Ainda não está completamente pronta. Falta escolher a luminária, colocar o rodapé, dar os retoques finais, decorar. Foram meses de muito trabalho, stress e inconveniências múltiplas durante a renovação. Nenhuma xícara de chá é feita nesta cozinha sem reconhecer o longo caminho que peregrinamos até chegar a ela.

Projeto: M&M
Execução: montador local do vilarejo
Piso: Kahrs Jatoba Caracas
Pintura: Farrow & Ball Blackened 2011
Azulejos: Porcelanosa Bari Matt Cream

Escrito a mão pela Marcia às 3:11 PM | mais em Little House Around the Corner

novembro 22, 2008

The Reason Why Birds Are Not Decorators

Eu tinha umas fotos lindas pra mostrar aqui. Tinha. Não tenho mais porque deletei por engano do memory card e não havia feito cópia para nenhum computador. Uma pena. Eram fotos de um girassol bastante especial que nasceu no jardim. Especial porque não fui eu, não foi Mr.M, nem foi a antiga dona desta casa quem o plantou. Quem acidentalmente semeou a bela flor foi algum passarinho que derrubou uma semente de girassol inteira no solo enquanto se esbaldava na comedouro cheio de sementes variadas. A semente em questão germinou e dela se desenvolveu um girassol lindo, no finalzinho do verão.

Fiquei encantada, levei a câmera e o tripé lá pra fora, tirei as fotos e tal. O tal passarinho que plantou o girassol deve então ter ficado empolgadíssimo e estufadíssimo de orgulho. O digno ser alado resolveu então que sua arte não deveria mais ficar confinada em um tedioso jardinzinho qualquer. That's sooooo last season... E abriu suas asas para alçar vôos mais ousados.

E da sua ousadia e infinita visão expressionista, o tal penoso -- vamos chamá-lo de Vincent -- plantou uma semente de girassol na calha mais alta de nossa singela moradia. Calha esta que sem dúvida deve estar entupida de folhas e outros materiais orgânicos esbanjando fertilidade. Porque desde então, temos no topo de nosso telhado, um girassol gigante, amarelão, extravagante, descabelado, a expressão mais alta da breguice anos 70. E nem os ventos de 80km/h que tivemos na semana passada, que arrancaram todas as plantas trepadeiras da minha parede, abalaram a imponência do pavoroso girassol. O amarelão flower-power continua lá firme e forte e forever.

A gente percebe pela janela da cozinha, que os vizinhos passam e viram o pescoço pra cima e depois continuam a caminhada com a expressão no rosto que diz claramente "What the frigging hell?!". E eu só balanço a cabeça concordando. I know, I know...

Temo a imaginar, porém, que a obra de Vincent não pára por aí. Assim que o girassol secar, suas muitas sementes vão cair calha adentro e logo uns doze ou quinze girassóis estarão dando o ar de sua graça carnavalesca. Oh dear, oh dear, oh dear...

Então, como se já não tivéssemos obras o suficiente acontecendo por aqui, agora também precisamos contratar alguém para vir com andaimes e apetrechos para limpar a calha. Ou então deixamos tudo como está e ganharemos o título The Tackiest House of The Year e teremos paredes cheias de infiltração. Thanks a lot, Vincent orelhudo.



Escrito a mão pela Marcia às 5:19 PM | mais em Little House Around the Corner

novembro 5, 2008

Between Heaven and Hell

Desde a segunda-feira, não tenho mais cozinha. No lugar há uma ruína. E poeira, muita poeira. Até tentei cozinhar usando o microondas e equilibrando uma tábua na pilha de azulejos. Desisti. Sod it. Sem pia, sem fogão, sem bancada não é dignamente possível. Sod the hell of it. Estamos engolindo caixas de comida pronta todos os dias, o que é decididamente o caminho mais curto para a prisão de ventre. Vou bater de casa em casa pedindo minhas uvas passas de volta. No dia mais frio em 11 anos, trocamos o boiler. Tivemos pedreiros, eletricistas e encanadores das 8:30h às 18:30h. E não funcionou. E nevou, nevou e nevou em pleno Outubro. Depois Mr.M consertou o que os eletricistas não conseguiram. E voltamos a sentir as pernas novamente.


General Hell

Sem uma Velha Parede

Com uma Nova Parede

Central Heating:
We Haz It!

Pierce. Heat. Eat.

Mas como nem tudo nesta vida é só desgraça, houve também o dia mais esperado de muitos anos: a entrega do nosso novo fogãozinho tão amado (e do exaustor e splashback também). Mr.M enfatizou que era a primeira, a única e a última vez que eu viria um caminhão da Britannia na frente de nossa casa, descarregando eletrodomésticos para este lar. Então corri lá pra fora e tirei uma foto para registrar a ocasião única de uma existência ordinária.

"Come on baby, light my fire..."

Escrito a mão pela Marcia às 2:29 PM | mais em Little House Around the Corner

julho 14, 2008

At Last, Home

Estamos finalmente, definitivamente instalados em nossa casa. Depois de dois anos e meio vivendo sem endereço fixo, agora temos todos nossos pertences num só lugar.

Nossa mudança do apartamento foi um tanto estressante, carregamos muito peso, fizemos duas viagens para trazer tudo pra cá, corremos para limpar tudo e entregar as chaves. Por outro lado, nossa mudança do deposito chegou tranquila e de prejuízo só a lateral da geladeira que sofreu um arranhão. De resto tudo chegou em ordem.

Abrir as caixas está sendo uma experiência similar à manhã de Natal. Já havia esquecido o conteúdo de cada uma delas e sempre me surpreendo ao encontrar algo que nem sequer sabia que possuía.

No meio de todo o tumulto e caixas de papelão, reservamos alguns momentos para brindar e celebrar o novo lar e também comemorar meu aniversário.








A reforma está parada no momento porque Mr.M, meu único construtor-pedreiro-encanador-eletricista, está viajando de novo. Mas ao menos ele terminou todo o encanamento em cobre que ficou uma obra de arte, instalou o chuveiro, a banheira e também o novo vaso sanitário. É tudo o que precisávamos.

Ainda estamos sem t’Internets, graças à incompetência da BT. Uso o computador da biblioteca do vilarejo umas poucas vezes, mas eu quero minha própria broadband. Like, now.

Estamos aos poucos nos adaptando ao novo ritmo de vida vivendo no meio do mato. Por enquanto a infra-estrutura do vilarejo tem sido mais que suficiente para nossas necessidades. E o trem me leva pra Sheffield em meia hora, caso eu precise urgentemente de uma terapia no John Lewis ou no Meadowhall.

A casa está irreconhecível com a pilha de caixas e materiais de construção e decoração por todo lado. Então é difícil dizer se já me sinto “em casa”. Me sinto num depósito por enquanto. Mas posso dizer que é um grande prazer quando chego perto da nossa rua, procuro a chave na bolsa e percebo que é aqui sim onde moro. Sinto um sorriso se formar toda vez que atravesso o jardim da frente e abro a porta. Mesmo com toda a bagunça do lado de dentro, mesmo com todo trabalho pela frente, é aqui onde moro. Finalmente.



Escrito a mão pela Marcia às 7:12 PM | mais em Little House Around the Corner

junho 24, 2008

Moving Home

Ultimo dia em Sheffield. Hoje a noite nos mudamos definitivamente pra nossa casa e amanha nossa mudanca chega do deposito. Yay!

Amanha tambem e' o dia mundialmente conhecido como meu aniversario de 35 anos. Ja tenho bolo de chocolate e champagne esperando na geladeira. Yay!

Grandes progressos na reforma da casa. Temos um vaso sanitario funcionando (yay!), uma bomba de pressao instalada e valvulas do chuveiro no lugar. Ainda e' preciso conectar os tubos de agua nas valvulas, montar o chuveiro e instalar a banheira. E colocar o azulejo e o piso.

O jardim da frente esta com uma aparencia bem melhor. Com a ajuda da mae de Mr.M, limpamos os canteiros, podamos o ivy e a roseira, cortamos a grama. No dia seguinte choveu sem parar e as plantas ficaram todas alegrinhas.

Conhecemos agora todos os nossos vizinhos imediatos. Tres deles vieram se apresentar e uma das vizinhas nos trouxe um cartao ultra-fofo dando boas vindas `a nova casa. Aww.

Caminhei bastante pelo vilarejo, durante todos os cinco dias em que estivemos la. A rua do mercado chama-se Market Street, a rua da igreja chama-se Church Road, a rua por baixo da ponte chama-se Bridge Road. Assim, tudo facinho pra ninguem se perder.

Pepe e sua patroa estavam numa correria frenetica para alimentar os Pepeletes. O ninho deles fica na cerca viva dos fundos do nosso jardim, nao sei ainda quantos filhotes ha no ninho. Passaros selvagens sao protegidos por lei e e' uma ofensa passivel de multa mexer nos ninhos. Ofereci algumas uvas passas para dar energia e ambos aceitaram com muito gosto. Pepe outro dia encontrou uma lesma suculenta no gramado e ficou cutucando ela ao inves de comer logo. Porque nao sei se voces sabem, mas Pepe e' um tanto intelligence challenged, um tanto que devagar nas funcoes neurais, um tanto que miope tambem. E nesse vacilo todo, um pardal passou-lhe a perna e catou a lesma, voou e foi embora. Pepe ficou visivelmente frustrado, gritou pro pardal, sacudiu as asas, chutou a grama. Mesmo depois de um tempo ele ainda se virava pra onde a lesma estava e abria o bico indignadissimo, batendo as asas, nervosinho mesmo. Eu hein?

Os outros passarinhos tambem andam comendo tudo o que veem no jardim, ja renovei o estoque de comidas umas tres vezes em uma semana. O RSPB e' o orgao que controla o bem-estar dos passaros selvagens no Reino Unido e e' no website deles que eu encontro qual a melhor forma de alimentar cada especie. Estou tao encantada com o assunto que ontem fiquei entusiasmadissima quando encontrei na petshop aqui perto um pote de minhocas, taturanas e outros insetos desidratados! Ja comprei um pro banquete de celebracao.

Outro dia tambem assistimos a doce cena de dois filhotinhos de goldfinches esperando no topo do comedouro enquanto a mae deles se alimentava com as sementes. Em seguida ela voava no meio dos dois e alimentava um e depois o outro. Os filhotinhos ficavam com a bocona aberta batendo as asinhas.

E no anoitecer, quando comecou a escurecer vimos um par de pequenos morcegos voando sobre o jardim.

Enfim, TV nao tem feito falta por la, com tantos dramas acontecendo do lado de fora. Sentamos de frente por jardim ate a hora de irmos dormir. O jardim nunca e' o mesmo no dia seguinte. Tem sempre uma flor nova abrindo, uma fruta mudando de cor, um inseto diferente visitando.

Assim que nos mudarmos ficaremos sem telefone e Internet por 10 dias, ate o servico ser conectado. Um longo tempo, mas assim como tudo no vilarejo e' preciso ter paciencia e ver o tempo passar aos poucos, mudando tudo ao nosso redor. Quando tudo estiver funcionando, espero ter mais cenas pitorescas pra contar.


Escrito a mão pela Marcia às 12:56 PM | mais em Little House Around the Corner

junho 18, 2008

Not Here, Not There

De volta a Sheffield, sem fotos e sem acentos.

A casa agora parece uma ruina. Estamos naquela fase da reforma em que nos perguntamos por que diabos comecamos. Chao sem piso, paredes esburacadas, muito entulho, poeira e material de construcao por todo lado. Mas aos pouquinhos comecamos a ver pequenas, minusculas melhorias. Mr.M terminou de colocar o piso de madeira em um dos quartos e e' uma imensa satisfacao ver o chao arrumadinho, novinho no lugar do carpete velho e cansado. Ainda ha o resto da casa para colocar o piso novo e o banheiro ainda nao esta funcional. Neste final de semana o pai de Mr.M vem nos dar uma maozona na reforma.

No jardim, tudo continua vivo. Alias por enquanto esta e' minha meta: manter tudo vivo, antes de comecar a me aventurar. Passei dias tirando varias especies diferentes de ervas daninhas, weeds, dos canteiros, arrancando-as pela raiz, na mao mesmo. Stinging Nettles be damned, all of them. Eram tantas, mas tantas que encheram nosso cesto de lixo de jardim de 240 litros. E ainda nem mexi no jardim da frente, onde o samba continua, nem em outros cantos. Nao quero ter um jardim excessivamente arrumado e cheio de manicures porque nao e' muito amigavel para os bichinhos que vivem em lugares escondidos. E sem bichinhos nao ha passarinhos ou mamiferos fofos para come-los.

Descobri que temos um solo cheio de minhocas, o que e' muito bom porque e' sinal de solo fertil e bem aerado. Descobri nao apenas durante a minha sessao de exterminio, mas principalmente porque tem um passaro muito simpatico, um Blackbird, que passa horas e horas bicando o gramado e puxando as minhocas do solo. Ele e' um tanto possessivo e nao deixa nenhum outro blackbird pisar no nosso gramado. Outros passarinhos podem, mas blackbirds nao, so' ele. Chamamos ele de Pepe. Ele tem uma patroa, chamada Pepina. Pepe de vez em quando cata uma minhoca bem gorda e comprida e deixa no chao pra Pepina comer. Ta certissimo.

Colocamos um outro comedouro para os penosos, agora especifico para atrair goldfinches, com sementes chamadas nyger seeds. E dois casais de goldfinches agora nos visitam o tempo todo.

Outro dia estavamos tomando cafe da manha olhando o jardim quando para nosso total espanto um esquilo apareceu! O esperto foi direto pro comedouro dos passarinhos, fez uma bagunca e virou algumas sementes na bandeja. Comeu sementes de girassol e foi embora. Agora estou animadissima para fazer um comedouro pro esquilo, espero que ele volte.

Conhecemos tambem os nossos vizinhos mais proximos. Ja haviamos percebidos uma certa curiosidade deles de saber quem e' que mudou na pacata vizinhanca. Nos apresentamos, conversamos um pouquinho. A idade media da vizinhanca e' de 105, hoho. Varios aposentados que jantam antes da cinco e nao fazem barunho em horarios nao-civis. Mais ou menos como nos. Toda vez que eles nos vem, cumprimentam e perguntam se ja nos mudados definitivamente. E e' com uma certa angustia que respondemos "No, not yet..."

Mas agora faltam poucos dias. A semana que vem e' a ultima semana do contrato deste apartamento, ate la precisamos nos mudar, com ou sem banheiro funcionando. Com ou sem internet ou telefone. Com ou sem a mudanca que ainda esta no deposito. Mas com nos dois, os ursos, o porquinho rosa-cinza e o burro de braco (ainda) enfaixado. Todos a nos juntar com Pepe e Pepina. Em casa.

Escrito a mão pela Marcia às 2:54 PM | mais em Little House Around the Corner

junho 12, 2008

Inheritance

Ainda não nos mudamos. Algumas reformas para fazer antes de trazer todas nossas tralhas casa adentro. E muita coisa para empacotar no apartamento alugado. Mas estivemos na pequena casa várias vezes, dormimos lá no final de semana passado, no colchão inflável, no chão do que um dia será nosso quarto.

No primeiro dia da nossa chegada entramos na casa cheios de curiosidade, já havíamos esquecidos de muitos detalhes desde a compra. Encontramos uma casa limpíssima, até a lixeira cheirava a jasmim, prestenção. E na cozinha, encontramos uma cartinha, escrita a mão, da ex-dona da casa. A carta nos dava boas-vindas e nos desejava muita felicidade, além de nos fornecer várias instruções sobre o jardim e seus visitantes. Enviei à ex-dona um cartão e uma cartinha, também escrita a mão, agradecendo e contando da nossa chegada ao que foi a casa dela por dez anos.

Gosto de pensar que "herdamos" muitas coisas nesta casa. E entre essas muitas coisas, herdamos um jardim pequeno, cuidado anteriormente com muita dedicação, mas que já me tira o sono só de pensar no monte de plantas, flores, frutas, árvores, gramados e arbustos que agora dependem de mim. E como se não bastassem os verdes, há também uma série de visitantes penosos, gulosos e incrivelmente apaixonantes que visitam nosso jardim regularmente. Goldfinches, greenfinches, blue tits, coal tits, black birds, sparrows e outros que eu não sei o nome (o que dirá o nome em português!)

Desde então tenho me dedicado totalmente a aprender sobre jardinagem e ornitologia britânica. Ao mesmo tempo em que é fascinante é também desesperador. Tanto a fazer! Principalmente porque quero que o jardim seja orgânico, sem uso de pesticida ou veneno. E quero também que seja um ponto de atração para todo tipo de wildlife (excluindo sapos, eca). Por enquanto tenho falhado miseravelmente porque as ervas daninhas estão em pleno carnaval, as roseiras estão com blackspot, já não coloco comida pros passarinhos há quatro dias, nem troquei a água da banheira deles, não reguei as plantas, nem cortei a grama.

Finalmente hoje voltaremos à pequena casa e ficaremos por lá por uns cinco dias, fazendo mais reformas e dando atenção aos exigentes seres do jardim, se der tempo. Na semana passada eu tirei os azulejos de quase todo o banheiro sozinha, com uma marreta e um chisel. Trabalho escravo, falta só uma parede para terminar. Enquanto isso, Mr.M arrancava o carpete e o assoalho de madeira para reconstituir o chão antes de instalar o piso novo. Então o que antes estava perfeitamente habitável hoje é canteiro de obras. A prioridade é tornar o banheiro funcionável antes da grande mudança. Só temos um banheiro, contei que a casa é pequena? Então.

Mas mesmo que a gente tenha que instalar um Porta-Loo na garagem e tomar banho de caneca, eu quero me mudar o quanto antes. Já não agüento mais morar neste apartamento, no meio do centro da cidade. Penso o tempo todo na casa, no que preciso fazer, nas obras que precisam ser concluídas, nos passarinhos coloridos, nas abelhas e no silêncio imperativo da vizinhança. Herdamos uma quietude que há muitos anos procurávamos, almejávamos, sonhávamos até. Sinais do tempo, pode ser. Mas imensuravelmente valiosa para nós.



Um dos cantos do jardim, onde vários passarinhos vêm se alimentar.



Um ovo azul abandonado no gramado.

Canteiro das berries: raspberries (framboesa) perto da janela,
redcurrants (groselha?) na frente
e strawberries (morangos) no chão.

PS: obrigada a todos pelos recadinhos e congratulações no post anterior. Very kind, thanks a lot.



Escrito a mão pela Marcia às 9:34 AM | mais em Little House Around the Corner