outubro 1, 2012

Great British Bake Off

Cozinhar tudo "from scratch" por puro prazer é algo de um passado remoto, quando eu tinha tempo, energia e oportunidade de fazer algo além de ligar o forno e jogar qualquer coisa congelada lá dentro.

Eu ainda cozinho, pra Miss S, algumas vezes por semana em grandes quantidades para congelar porções. Miss S foi a bebê exemplar quando começou comer sólidos; avançava nos brócolis, abobrinha, cenoura, tudo. Agora que ela fala e tem opinião formada, ela pega tudo que é verde ou parecido, tira do prato e comunica:

"no, no little trees, Mummy" ("não, sem arvorezinhas, Mummy")
"this out. out. out" ("isso aqui pra fora, fora, fora")
"no, no want green" ("não, não quero esse verde")
"oh dear, Mummy, on the floor!" ("ó céus, Mummy, tudo no chão!!")

Então cozinho caçarolas de carne ou frango e coloco os verdes e seus comparsas nelas, misturo com arroz e Miss S come tudo, feliz da vida porque ela ama arroz. Finalmente algo que puxou de mim.

Mas muitas vezes sinto saudades dos meus desafios culinários particulares, de aprender a fazer determinados pães, de fazer macaroons, de experimentar novos bolos, sorvetes, sobremesas.

O mais próximo que posso fazer disso é assistir ao programa Great British Bake Off na BBC, que é uma competição para amadores que gostam de assar coisas gostosas.





Amo tanta coisa desse programa, que já está na terceira temporada. O que eu mais adoro:

    ♥ A locação. Geralmente num dos magníficos jardins de "stately homes", palácios dos séculos 16/17, algo tão quintessencialmente britânico. Se você já visitou a Inglaterra e viu tudo de Londres, Big Ben, Buckingham Palace etcéteras, da próxima vez inclua uma visita a um desses stately homes, principalmente se for no verão, truly british.
    ♥ A decoração. Tudo em tons pastéis e estilo vintage, what's not to like? Cada competidor tem sua própria bancada com forno Neff e fogão, pia, batedeira Kitchen Aid, tigelas Emma Bridgewater de bolinhas coloridas.
    ♥ Os participantes. Não sei como a BBC peneira os candidatos, mas nas três séries, os participantes são gente boa, bem-humorados e inteligentes. Quando algum desastre acontece (e acontece muito: bolo que cai no chão de cabeça pra baixo, dedos cortados no Magimix, etc) eles ajudam um ao outro, dão sugestão de como resolver. Humanos.
    ♥ Mary Berry, que é uma fofa. Ela e Paul Hollywood são os juízes. Paul é meio antipático e perfeccionista, mas Mary é aquela avozinha fofa que critica explicando o que deu errado, o que deveria ser feito, sempre sorrindo, quase lhe carregando no colo.
    ♥ Os desafios. São três em cada programa: signature dish, um prato que você faz de melhor de acordo com o tema; technical challenge: uma receita surpresa pra testar habilidades técnicas; showstopper: um prato elaborado que deve fazer a platéia suspirar e aplaudir.

Agora que estamos entre os cinco finalistas, o programa começa a mostrar a história de cada um, as famílias, as cozinhas, mas tudo sem pieguice. Estou torcendo para dois, uma médica que é da cidade vizinha daqui e um senhor de 63 anos muito competente e que adora decoração anos 70.

Eu fico empolgadíssima e inspirada e morrendo de vontade de pegar a balança e começar a medir farinha e açúcar. Até tenho o livro da temporada passada. Mas até o momento os únicos bolos que apareceram por aqui vieram dos supermercados (Waitrose e M&S) ou de caixas Betty Crocker. Oh the shame, the shame...

Escrito a mão pela Marcia às 3:34 PM | mais em What's on Telly | Comente este fragmento(10)

julho 29, 2012

"When our time came, we did it right" - Seb Coe

Danny Boyle, diretor da Cerimônia de Abertura das Olimpiadas de Londres 2012, uma vez respondeu a uma entrevista que a melhor coisa de ser os próximos depois de Beijing 2008 é que não é possível superá-los; é um novo começo, uma página branca para criar.

De certa forma, o mundo inteiro não tinha grandes expectativas. E talvez por isso mesmo a Cerimônia foi tão surpreendente. Ou talvez, mais provável, porque foi mesmo espetacular.

E pela repercussão nacional neste arquipélago onde predominam nay-sayers e reclamões, o ponto mais alto da Cerimônia não foram os efeitos especiais ou produções milionárias, mas sim o mais puro e inteligente humor britânico. A capacidade de fazer piada de si mesmo é o que faz esta nação ser tão orgulhosa de seu "Britishness" e acima de tudo ser tão humana.

Para Mr.M, os melhores momentos foram:


  • A homenagem a Isambard Kingdom Brunel (1806-1859), engenheiro mecânico e civil, que revolucionou os meios de transporte e a engenharia moderna em inúmeros projetos inovadores

  • Os anéis olímpicos sendo forjados em aço, representando o trabalho tão característico da história da região de Sheffield

  • A presença de Sir Tim Berners-Lee, inventor da WWW, sem a qual você leitor não poderia ler o que escrevo aqui (não que Berners-Lee se importasse com isso)

  • O design maravilhoso da Pira Olímpica em cobre

Para mim, os melhores momentos foram:


  • A Rainha como Bond Girl! Fantástico exemplo do bom humor e espírito esportivo. Segundo o The Times, o roteirista Frank Cottrell Boyce havia dito ao Palácio que seria possível usar uma dublê e fazer alguns cortes de enquadramento. O Palácio respondeu: "No, the Queen really wants to do it". Brilliant.

  • O hino nacional sendo cantado em linguagem de sinais.

  • A homenagem ao Great Ormond Street Hospital, um dos mais importantes hospitais infantis do mundo, especializado em tratamento e pesquisas de doenças e condições infantis gravíssimas.

  • JK Rowling lendo trechos de Peter Pan. Desde 1929 todos os royalties de Peter Pan (livros, filmes, teatros, merchandise etc) são doados para o Great Ormond Street Hospital.

  • Rowan Atkinson (Mr Bean) fazendo o que ele faz de melhor

Para Little Miss Sophie, que agora acha que dormir é para fracos e assistiu até as 22h, os melhores momentos foram:

  • Os balões estourando na contagem regressiva: "Balloon!! 'Other one! 'Other one! 'Other one! 'Other one! Again?"
  • A chuva de Mary Poppins e seus guarda-chuvas! Miss S está começando a falar frases e uma das frases mais longas que ela sabe falar é "It's raining AGAAAIN, Mummy. Umbrella!!"
  • Os anéis olímpicos: "Ring! It's Bigger!!"
  • O hasteamento da Union Jack Flag: "Flag! It's Bigger!!"
  • As crianças em pijamas: "Jim-jams. Bed. Boing-boing."

E para todos nós, um dos discursos mais bonitos recentemente, feito por Sebastian Coe, chairman dos Jogos Olímpicos 2012:

(...)"To my fellow countryman I say thank you, thank you for making all this possible. In the next two weeks we will show all that has made London one of the greatest cities in the world. The only city to have welcomed the games three times. Each time we have done it the world faces turbulence and trouble, and each time the games have been a triumph.

Our history as a thriving commercial centre, as a place were the people of all nations have for centuries, come to meet as a city that never stands still. This history has prepared us for today. For us too, every Britain just as the competitors this is our time.

And one day, we will tell our children and our grandchildren that when our time came we did it right!

Let us determine, all of us, all over the world, that London 2012 will see the very best of us."


Escrito a mão pela Marcia às 2:46 PM | mais em That British Kingdom | mais em What's on Telly | Comente este fragmento(6)

maio 14, 2010

BBC I'm in a Rock 'n' Roll Band

Ultimamente tem sido bastante rara as vezes em que a gente sente que vale a pena pagar o TV License para ter os canais da BBC. Raramente um ou outro programa se destaca, mas a maioria é descartável e inútil.

A salvação veio em forma de um programa de seis capítulos chamado I'm in a Rock 'n' Roll Band, que analisa o que uma banda de rock precisa ter para ser uma grande banda. A produção é excelente e grandes cantores, guitarristas e bateristas dão seus depoimentos.

No capítulo sobre guitarristas, tivemos a participação de Slash, Jeff Beck, Pete Townshend e também do queridíssimo Johnny Marr dando seu pitaco e tocando um trechinho de This Charming Man! Oh priceless, priceless.

Sim, ele envelheceu, como todos nós. Mas continua fantástico como sempre foi.

Escrito a mão pela Marcia às 3:51 PM | mais em What's on Telly | Comente este fragmento(2)

março 17, 2010

Giving Something Back

Este post teve origem ao assistir um programa do Channel 4 chamado The Secret Millionaire. Para quem está em UK o programa vai ao ar nas segundas-feiras, o que é um ótimo "feel good program" para afastar Monday's blues. Eu não sei se para quem está fora do Reino Unido é possível assistir pela Internet, mas se for, clique no link acima para conferir os episódios passados desta série. Ou tente este link do YouTube para ver um resumo dos episódios de outros anos.

A fórmula do programa é simples, um pouco piegas, mas enfim: multi-milionários disfarçados passam uma semana em alguma região carente da Inglaterra (e existem muitas regiões carentes por aqui) ajudando a entidades de caridade como voluntários e vivendo com salário mínimo. Eles explicam a presença das câmeras dizendo que estão fazendo um documentário a respeito da recessão e passam por experiências jamais imagináveis e conhecem pessoas incríveis no processo. No final, os milionários revelam sua identidade e fazem doações generosas para essas entidades.

Para ser honesta, esse programa existe há muitos anos e eu nunca prestei muita atenção. Achava que era mais um daqueles programas em que um milionário mimado sente o gosto do remédio amargo que é viver do outro lado. Porém, quando assisti a um episódio fiquei impressionada. Eu estava sendo injusta e preconceituosa com o tema do programa. Os milionários em questão são geralmente bastante carismáticos, abertos a todo tipo de experiência e principalmente empáticos, de bom caráter e generosos, independente da conta bancária. Não se vê nenhum deles reclamando de nada, muito pelo contrário, muitos revelam como a experiência trouxe mais sentido e valor na vida deles.

Mas o que mais chama a atenção nesse programa é ver a atuação dos voluntários dessas entidades de caridade. As entidades mostradas no programa não são aquelas populares que todo mundo já conhece e ajuda. Elas são pequenas, locais e voltadas para a comunidade da região, geralmente fundadas por pessoas que dedicam suas vidas a quem precisa, sem julgamentos e sem preconceitos. Há entidades que dão comida para quem mora nas ruas, sejam alcólotras, drogados ou miseráveis. Outras que ajudam prostitutas oferecendo a elas um quarto, roupa limpa, preservativos e apoio para saírem das ruas. Outras produzem entretenimento para adolescentes em vias de se tornarem criminosos. Outras são casas para doentes terminais (chamados hospices) que dão tratamento paliativo e um ambiente menos depressivo que um hospital.

Uma das que mais me tocou, porém, foi uma que dá apoio a refugiados, Refugee Action. Há muita informação errada e muito preconceito ao redor do tema e é excelente que um canal aberto como o Channel 4 tenha dado espaço para essa entidade explicar o que é fato e o que é mito espalhado irresponsavelmente por tablóides desinformados e partidos de extrema direita, que rotulam todo e qualquer refugiado como criminosos, folgados e desordeiros. Os fatos mostram que muitos refugiados têm ensino superior e que tinham uma vida estável em seus países antes da crise/guerra/Mugabe que os afetou. E que a maioria quer trabalhar, se não fosse a imposição do Home Office de negar visto de trabalho até que o visto de entrada seja aceito, forçando os refugiados a mendigar e a viver nas ruas. Entidades voluntárias como o Refugee Action dá abrigo e comida a esses refugiados e ajudam-os no processo de imigração legal e dão apoio para que encontrem empregos.

O programa também mostra indivíduos que não fazem parte de nenhuma instituição, mas que dão seu apoio valioso e autruísta, da forma que lhes cabem. Crianças que cuidam de seus pais ou mães deficientes; idosos que ajudam asilos em memória da esposa ou esposo que se foi; pais que tentam arrecadar fundos para pagar tratamentos dos filhos doentes em outro país.

Enfim, o que tinha tudo para ser um programa meloso e apelativo se transforma em algo infinitamente revelador, que abre a sua mente para o que realmente importa nesta vida. A maioria de nós sequer temos a menor idéia do que é passar fome, do que é dormir no chão da rua no inverno, do que é ter que vender seu corpo e estar vulnerável a todo tipo de abuso, do que é ser totalmente invisível mendigando na cidade, do que é ser tratado como assassino quando tudo o que você quer é uma única chance de reconstruir sua vida.

Mas oh, somos tão rápidos para julgar, apontar dedos acusadores, fazer discursos demagogos vazios, repetir feitos papagaios idéias preconceituosas prontas e fáceis, quando estamos com o traseiro sentado no sofá, dentro da casa quentinha e de barriga cheia. A grande diferença que faz desses voluntários tão especiais é que ele ajudam antes de mais nada. Ajudam sem ter nenhuma intenção religiosa, auto-promocional ou insincera. Ajudam quando todo o resto do mundo virou as costas, ajudam porque sabem o que é estar do lado daqueles que precisam de um abraço, de um sorriso, de um mínimo de encorajamento que lhes devolvam o que foi perdido há muito tempo: a dignidade. E o resultado são várias histórias de beneficiados que deram a volta por cima, que mudaram o rumo de uma vida que estava fadada a uma morte indigente.

O final do programa é sempre com muitas lágrimas e abraços, quando os milionários revelam suas identidades e as doações. Para a maioria deles, porém, dar um cheque não é o suficiente e muitos oferecem os serviços de seus empreendimentos para ajudar as entidades seja comprando novas instalações, equipamentos, automóveis ou simplesmente pagando viagens de férias para voluntários que merecem um descanso. E continuam em contato para manter esses portos seguros sempre funcionando.

E obviamente, o ponto principal do programa é mostrar que não é preciso ser milionário para fazer diferença. A generosidade dos voluntários é maior do que qualquer cheque assinado.

Impossível assistir e não ter vontade de fazer algo, seja via doações, seja dando uma mão para entidades similares, o que é um dos mais importantes efeitos colaterais do programa. Impossível assistir e não reacender um mínimo de esperança na humanidade. Impossível não deixar de pensar em como somos privilegiados porque somos aqueles que doam e não aqueles que precisam receber.

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Mais do que nunca estivemos envolvidos com instituições de caridades nesses últimos anos. Ajudamos a duas, próximas dos nossos corações, com doações mas quase nunca nos envolvemos pessoalmente. E por um outro lado tenho recebido ajuda de várias instituições voltadas a deficientes auditivos. Por isso é quase um dever moral para mim dar algo em retorno. Além, é claro, da minha colaboração para o British Hedgehog Preservation Society, mas não considero isso trabalho voluntário e sim dose diária de fofura extrema. :o)

Escrito a mão pela Marcia às 11:54 AM | mais em What's on Telly | Comente este fragmento(7)

março 13, 2009

Red Nose Day

De todos os eventos de caridade que acontecem neste reino, o único que eu adoro é o Comic Relief. O evento, que também é conhecido como Red Nose Day (porque você pode comprar o nariz de palhaço e ajudar a causa) é bienal e foi criado em 1985 por Richard Curtis, escritor de muitos filmes, entre eles Quatro Casamentos e Um Funeral.

Durante o mês do Comic Relief, vários comediantes britânicos se reúnem para fazer quadros cômicos exclusivos e paródias de shows populares para arrecadar fundos para crianças desamparadas na Africa e no Reino Unido. Um deleite para quem curte (e entende) o humor britânico.

Ontem foi a vez de parodiar o programa The Apprentice, com Sir Alan Sugar, algumas celebridades e comediantes. O mais engraçado foi o delicioso comediante mau-humorado Jack Dee falando pro Sir Alan: "eu gostaria que o senhor demitisse o cara que conta as cadeiras aqui no boardroom porque tem sempre alguém de pé e sem água". Tee-heee...

Mas o melhor de todos os sketches feitos para o Comic Relief, na minha opinião, foi o de Ricky Gervais e Stephen Merchant, em 2007. Genius:

Apesar do evento durar o várias semanas, hoje é a grande noite em que os melhores sketches vão ao ar pela BBC, depois das nove da noite que é o horário que pode falar palavrão e ficar pelado na BBC. É uma boa sessão pipoca mesmo quando não é o melhor e eu adoro dar risada.

Pickles the bear, apoiando o Red Nose Day

Escrito a mão pela Marcia às 1:13 PM | mais em That British Kingdom | mais em What's on Telly | Comente este fragmento(4)

agosto 19, 2008

Nihao the Antelope

Muito antes dos Jogos Olímpicos começarem, os clientes chineses de Mr.M nos presentearam com um dos Fuwa, os mascotes oficiais. O nosso é o YingYing, que representa o antílope ágil e rápido das montanhas, um dos primeiros animais a serem protegidos por lei na China, refletindo a preocupação ao meio-ambiente do país que é atualmente o maior poluidor e exterminador de espécies do mundo. Os ornamentos da cabeça do antílope captura a essência da cultura tibetana, que aliás tem sido pisoteada, perseguida e arrasada à força.

Nós apelidamos o antílope de Nihao porque essa é a única palavra que a gente ainda sabe falar em chinês. Nihao é meio chato e torce pra China e dá gritinhos quando seu país de origem ganha medalha de ouro. A gente manda ele shut the hell up e ameaça colocá-lo de volta ao armário onde ele vivia até o dia 08/08/08.




Eu pensei em colocá-lo na janela, mas como aqui no vilarejo todo mundo já suspeita que eu sou chinesa, se eu o exibisse a suspeita se tornaria uma certeza absoluta e eu não quero aumentar a confusão. Vou esperar os Jogos Olímpicos no Brasil daí eu coloco Zé Carioca, Hello Kitty e Wallace & Gromit na janela.

Tenho me divertido assistindo às competições. Nos Jogos Olímpicos de Atenas nós não acompanhamos à nada porque estávamos distraídos na África do Sul.

É bom poder torcer para dois países, apesar de ser raro ter transmições do time brasileiro por aqui. Mas assisti pela primeira vez à Daiane e torci pelos nadadores que nunca tinha visto antes. A Grã-Bretanha tem se saído bem no remo, ciclismo e natação feminina. Gosto do logotipo da equipe britânica, com o leão feito das listras da Union Jack Flag.

Adoro a ginástica artística e para mim essa competição é o grande ícone das Olimpíadas. Este ano aprendi a gostar também dos mergulhos sincronizados, graças à cobertura intensa da mídia sobre mergulhador inglês Tom Daley, de quatorze anos. Mr.M adora ciclismo e tem vibrado com Chris Roy, nosso Michael Phelps em duas rodas, com três medalhas de ouro. E nós dois adoramos as provas de atletismo também, porque países ricos e pobres competem igualmente e, apesar dos pesares de cada país, vence o mais rápido, mais forte, mais determinado. Ao contrário da elitista prova Equestrian Dressage, que podia muito bem ser retirada dos Jogos Olímpicos e transferida diretamente pro Crufts.

Eu já sinto pena da abertura dos Jogos Olímpicos em Londres, em 2012, depois do espetáculo em Beijing. Aqui não vai ter esse povo todo em coreografia sincronizada, não. No máximo umas Spice Girls rebolando, uma bandinha de fanfarra emprestada da Rainha, David Beckham acendendo a tocha com um isqueiro, depois todo mundo vai pro pub e fica tudo certo. E o mascote não deve ser nada que se assemelhe aos Fuwa chineses, da qual nosso antílope Nihao faz parte. Não. Trafalgar o Pombo, talvez.

Escrito a mão pela Marcia às 9:46 AM | mais em What's on Telly

abril 4, 2008

The Half Past Six Appointment

Nós jantamos cedo aqui no recinto dos M&M. Eu poderia dizer que é uma influência asiática da minha parte de jantar antes do sol se pôr, mas minha querida família jantava até que bem tarde, só depois que todos estivessem de volta dos respectivos trabalhos.

Mas aqui, entre os M&M, o jantar é servido cedo, sempre foi assim. Seis e meia é o horário padrão. Às vezes nos finais de semana, quando a gula é maior, jantamos mais cedo ainda. Nós dois nos sentimos melhor assim, dormimos melhor, nunca temos nenhum problema digestivo.

Quando morávamos em Taiwan, onde aliás a maioria da população janta bem antes das seis, eu assistia à TV japonesa NHK e acompanhava todos os torneios de Sumô. É uma luta fascinante, se você prestar atenção no que acontece ao invés de ficar fazendo piadinha da parca indumentária dos lutadores. E num dos torneios, um dos treinadores explicava que os lutadores de sumô seguem rígidos regimes de regras e condutas. Uma delas é ir dormir imediatamente após o jantar. Essa prática, segundo o treinador, faz com que a massa corporal aumente consideravelmente em pouco tempo. Dead right, todo mundo sabe o tamanho que esses lutadores podem alcançar.

Mas divago. Não é essa a razão pela qual jantamos cedo. Fazemos simplesmente porque é o horário que nos dá fome, horário que a comida fica pronta.

No entanto, a BBC tem criado um certo tumulto na minha organização doméstica ordinária, me forçando a rearranjar todo meu esquema à prova de catástofe. Porque todos os dias, às seis e meia em ponto, a BBC2 está apresentando a magnífica competição Greatest British Menu e eu tenho que ficar grudada à TV em cada um dos seus minutos. Os maiores e mais vitaminados chefes da Grã Bretanha estão competindo por uma chance de preparar um jantar único no topo do edifício "Gerkin" em Londres, num evento que vai ter como anfitrião o deus-na-terra, gênio-de-todos-os-tempos, Heston Blumenthal.

E nesta competição, só chefs de verdade, da mais alta competência. Nada de chefs-celebridades ou pseudo-chefs ou quem-posa-de-chef-mas-não-sabe-nada (hello Nigella, tudo bem?). Não, nada disso. A competição é séria, os chefs são respeitadíssimos, de reputação merecidíssima. A primeira série dessa competição em 2006 teve como prêmio criar e servir o menu para o aniversário da Sua Majestade, a Beth. Este ano a família real não vai ganhar a boca livre, mas imagino que criar um menu para Heston Blumenthal deve ser um privilégio muito mais gratificante.

Estamos no momento na segunda parte da competição. Durante esta semana, acompanhamos dois deles, Sat Bains e Glynn Purnell, mostrando seus processos de criação. É fascinante, para se dizer o mínimo, assistir a eles pesquisarem, criarem, testarem, recriarem todos os elementos para extrair o máximo de sabor de cada ingrediente em questão. E vê-los em ação no obsessivo cuidado com as cores, as texturas, os aromas, o visual.

Só então é possível compreender porque fine dinning é apresentado da forma que é, porque custa o preço que custa, porque não é para qualquer leigo. Fine dinning não é para encher a pança, mas para ter o privilégio de experimentar a profusão de sabores únicos que um chef conseguiu criar em cada lâmina, em cada gota, em cada centímetro cúbico da mais pura essência de sabor. É, basicamente, consumir uma obra de arte.

O programa é bem produzido, dura apenas meia hora e vai continuar ainda por muitas semanas pela frente até o final. O horário é meio ingrato, não apenas porque causa uma disrupção no meu horário de servir o jantar, mas porque também muitos ainda estão no trabalho ou a caminho de casa. Para quem pode acessar aqui em UK, o BBC iPlayer é a salvação.

Então, todos os dias, lá pelas sete da noite, estou faminta à beira de inanição, cheia de vontade de provar uma pitada que seja dos pratos criados pelos chefs da competição, cheia de idéias inconcebíveis, cheia de boas intenções culinárias. Nosso jantar é enfim servido, um milhão de vezes mais simples do que os pratos da TV, mas apreciado com um gosto diferente, prestando atenção no que as papilas gustativas têm a dizer, comentando o sabor disso ou daquilo, percebendo o que ficou bom, o que ficou não-tão-bom.

Outro dia servi uma salada nova, que nunca tínhamos provado antes, umas folhinhas redondinhas, parecidas com agrião, mas de um verde mais clarinho. Falei pro Martin advinhar o que era. Ele comeu uma folha e respondeu: "ervilha". Spot on, eram folhas de ervilha, pea tops. Nada mal, considerando que ele não é fã de saladas. A foodie in the making.

Escrito a mão pela Marcia às 11:27 AM | mais em What's on Telly

junho 7, 2005

Gordon Ramsay's Kitchen Nightmares

GordonRamsay.JPG

Gordon Ramsay é um dos chefs britânicos mais respeitados do arquipélago, ostentador de nada menos que sete Michelin Stars e dono do restaurante mais badalado de Londres, no prestigiadíssimo hotel Claridge.

Além de sua indubitável eficiência gastronômica, Ramsay é também famoso por seu perfeccionismo extremo e feroz atitude com seu staff. De cada cinco de suas palavras, três são palavrões. Ele não dá moleza, xinga mesmo, olha nos olhos sem medo e diz na cara de quem precisa os mais diversos palavreados ofensivos possíveis.

Mal-educado? Desrespeitoso? Boca-suja? Antes de ver qualquer programa com ele, eu achava que certamente ele era um babaca, que ninguém xinga desse jeito a troco de nada. Eis que no ano passado assisti pela primeira vez a um programa com Ramsay, no Channel 4. E eis que este ano o mesmo canal fez mais uma série desse programa e não tenho mais nenhuma dúvida de que estava redondamente enganada. Gordon Ramsay é fantástico.

No programa Gordon Ramsay's Kitchen Nightmares, o chef visita restaurantes à beira do abismo, às portas da falência e, em duas semanas, estuda o que há de errado, ensina desde os donos do restaurantes, até os garçons, gerentes e chefs de cozinha o que precisa ser feito para trazer o restaurante de volta aos trilhos.

E hell, ele sabe o que faz. E sabe o que fala. E nenhum dos seus palavrões soam errados ou fora de lugar. Mas absolutamente coerentes. Quando vê que há alguma comida sendo feita porcamente e requentada no microondas, Ramsay não faz rodeios com a equipe da cozinha. Ele aponta pro prato e diz: "This is fucking bullshit". E se vê algum ajudante de cozinha fazendo corpo mole e dando muitas desculpas para não trabalhar, na hora ele encara o fulano e manda: "Get your fucking arse moving or fuck off". Mas toda essa gentileza de sua parte não vem de graça. Ramsay ouve o que cada um da equipe tem a dizer, o que tem a reclamar. E explica, ensina, conversa francamente, mostra que são capazes, mostra que são bons profissionais e que precisam ter paixão pelo que faz ou estão perdendo o tempo deles, do restaurante e dos clientes.

Muitos restaurantes encontram seu caminho de volta e fincam suas raízes no mercado, depois do intenso treinamento com Ramsay. Outros partem para o "vou fazer do meu jeito e provar que o Gordon estava errado" e dançam fenomenalmente, fechando as portas para sempre.

De qualquer forma, para nós telespectadores, tudo é eletrizante e fascinante porque afinal não é nosso arse que está na reta. E é impressionante como os pequenos restaurantes, com donos mais humildes, ouvem atentos todos os conselhos, seguem a risca e se dão bem. Outros maiores, que carregam uma certa carga de orgulho ferido, geralmente batem de frente com Ramsay, xingam de volta, não aprendem nada e preferem seguir no caminho direto ao abismo. É triste e nós ficamos no sofá indignados. Mas são esses conflitos e essas atitudes inesperadas que fazem o que aqui chamamos de "good TV".

Tão "good TV" que Gordon Ramsay foi convidado no ano passado a fazer um programa similar nos EUA. Mas o programa foi todo dirigido para que Gordon gritasse mais, xingasse mais, fizesse o inferno com um staff escolhido, numa espécie de "reality show" na cozinha. E como qualquer programa britânico que é reproduzido nos EUA, eles nunca entendem qual é o ponto...

:o)

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maio 22, 2005

Eurovision - Eu também quero falar!

Hoje a maioria dos blogs europeus devem estar falando sobre a final do festival de música Eurovision, que aconteceu ontem. E eu também quero me incluir dentro desta! Espera eu!

A Grécia venceu, foi tudo bem divertido, até cantei com os moços da Noruega "you are the only one living in my fantasy...", na privacidade do meu lar, of course. Os comentários de Terry Wogan da BBC não foram tão engraçados como sempre são. No ano passado morri de rir, mas este ano ele estava de saco cheíssimo que ninguém ama nóis em UK.

A nação em si, como todo ano, também nem deve ter se ligado no festival. Ainda mais ontem que foi a final do Campeonato Inglês, com o classicão Manchester United x Arsenal (que aliás, Arsenal venceu nos pênaltis). Eurovision certamente não faz parte dos acontecimentos do ano para os britânicos.

O Reino Unido ocupou o esquecido antepenúltimo lugar, dividindo a lanterna com França e Alemanha, curiosamente, as grandes (ex)-potências européias. Como nas votações que decidem a competição cada país vota em seu vizinho mais próximo, o Reino Unido sambou bonito, porque além do mare britanicum que não vota, temos como vizinhos um país pão-duro (Irlanda) que deu 8 pontos quando poderiam ter dado 12 e também um vizinho invejoso e mal-educado (França) que não deu nenhum ponto. Agora, pergunta se a gente vai dar uma xícara de açúcar da próxima vez que eles precisarem?

Enfim, mesmo com essa política da boa vizinhança, o festival é divertido e ganha quem agrada o povo mesmo, no final das contas. Se a música é boa, já é outra história. Mas a gente torce, canta junto, dá gargalhadas com a grandma de Moldova e das perucas e calças de lycra da Noruega. A gente faz pipoca, fecha as cortinas deixando a luz clara das nove da noite lá fora. Depois que tudo acaba, inclusive a pipoca, a gente se dá conta que passaram-se três horas e quanta porcaria engolimos, inclusive na TV.

No ano que vem tem mais. Eba!

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 4:45 PM | mais em What's on Telly

maio 10, 2005

Food Phobia

Para aqueles que pediram para saber o que aconteceu com o menininho da The House of Tiny Tearways, que morria de medo de qualquer comida, vou contar aqui como foi a participação da família dele no programa.

O menino se chama Lewis e tinha dois anos e meio na época da produção do programa. Os pais dele são adoráveis, pessoas comuns, simples, casal apaixonado e extremamente amáveis com o garoto. E Lewis é um doce de menino, muito inteligente, bem articulado e simpático.

Porém seus pais se sentiam completamente arrasados com seu problema alimentar. A pobre criança não podia nem ver pedacinhos de comida que não fosse mousse de chocolate ou batata frita de pacotinho, que chorava em desespero, tremia e colocava as mãos nos olhos como se estivesse escondendo de um monstro. E também não suportava a idéia de ter nada que grudasse ou molhasse seus dedos, causando pânico e mais lágrimas.

A psicóloga observou o comportamento da família na casa deles por uma semana antes do programa começar e já teve as primeiras pistas do que estava acontecendo para que Lewis agisse daquela forma. No casarão do programa, a família se comportava da mesma forma e a terapeuta pôde gravar e mostrar aos pais aonde estavam os principais problemas:

Limpeza excessiva
Para onde Lewis ia, a mãe dele ia atrás carregando um pote de lenços umedecidos. Ao menor sinal de sujeira, ela logo limpava a mão dele com o lenço. Se ele chorava, mais lenços. Se comia, mais lenços. Se brincava de pintar, muitos mais lenços. Logo Lewis começou a associar que qualquer coisa que grudasse em suas mãos era sujo e errado. Não foi difícil para ele estender essa idéia em suas refeições, recusando a tocar alimentos úmidos.

Como se fosse um bebê
Porém, como a psicóloga já havia previsto, o problema da limpeza era apenas a ponta do iceberg. Havia uma razão muito mais importante e relevante no caso de Lewis que era o principal causador de todos os distúrbios que ele vinha tendo. Os pais deles simplesmente não aceitavam ver que o bebê deles tinha crescido e agora era um menino grande, com necessidades de menino grande. Lewis ainda tomava mamadeira, sentava no cadeirão, era alimentado por colheradas pelos pais. Quando os pais tentavam alimentá-lo com outro tipo de comida, faziam algum purê bem batido no liquidificador. Ou ofereciam potinhos de comida pra bebê. Tudo fervorosamente recusado por Lewis. Os pais também usavam linguagem de bebê para falar com ele. E nunca soltavam da mão dele quando iam ao playground, fazendo com que Lewis pouco interagisse com outras crianças e também morresse de medo de ficar sozinho em qualquer ambiente.

Mas inevitavelmente Lewis percebeu que havia crescido e que não era mais parte dos pais e sim um ser humano independente. Isso o assultava e causava uma insegurança monumental. E para completar, ele captava de seus pais os medos que eles tinham de perder o bebê que Lewis fora. Cada vez que os pais tentavam empurrar alguma comida sólida com uma certa tensão, ele sentia que havia algo muito errado e que certamente era aquele pedaço de comida. Ele não era mais um bebê, mas se os pais dele o amavam como bebê apenas, ele tinha medo de crescer, de comer como um menino grande e perder o amor dos pais.

A Solução
Reconhecido o problema, a psicóloga explicou aos pais tudo o que ela havia observado, mostrando como a atidude deles contribuía para o comportamento do filho e fazendo-os assistir às imagens deles interagindo com Lewis. Os pais ficaram abismados, perderam a fala e perceberam o quanto as palavras da psicóloga fazia completo e total sentido para tudo o que estava acontecendo. Ambos choraram cachoeiras e foram bastante consolados pela terapeuta, que reforçava que o bebê havia apenas crescido, mas Lewis sempre seria o menino adorável que sempre foi.

A partir daí o trabalho da psicóloga foi direcionado aos pais, com atividades para dizer adeus ao bebê e bem-vindo ao menino Lewis.

Ela ensinou a eles a deixar Lewis brincando sozinho, sem a presença deles. No começou Lewis chorou bastante e não conseguia dar um passo para brincar. Mas os pais foram mais fortes e disseram que iam ficar ali perto tomando chá e que Lewis podia brincar. E foram. Mas Lewis chorou. E berrou e se esgoelou. A mãe dele mais uma vez falou que eles estavam ali tomando chá e que ele podia ir brincar. Ele continuou berrando, mas os pais sentaram numa mesinha, tomaram seu chá e fingiram conversar sem olhar para Lewis. Aos poucos Lewis se acalmou e chegou perto do escorregador. O pai dele, lá da mesa onde estava, incentivou dizendo "Vamos ver se você consegue escorregar! Vai Lewis!" E Lewis foi e escorregou sozinho. Os pais bateram palmas e deram vivas e disseram que ele era um bom garoto. E Lewis sorriu e foi pro outro brinquedo. Sucesso!

Mas o maior desafio seria vencer a fobia de comida que Lewis tinha. A psicóloga havia instituído a abolição do cadeirão. Lewis já estava grande o suficiente para se juntar ao casal na mesa de jantar. E para que essa transação fosse calma, ela presenteou Lewis com um presente bem embrulhado com papel festivo e laços e disse que ele mereceu aquele presente porque ele é agora um menino grande tão bonzinho. Lewis ganhou o que aqui chamamos de "booster seat", que é um assento de plástico para colocar sobre a cadeira de jantar e a criança fica na altura apropriada para usar a mesa. Ele ficou entusiasmado para usar.

Na hora do jantar, a psicóloga se juntou a eles e enquanto os pais jantavam, ela propôs uma negociação com Lewis, que já estava chorando ao ver um pote com purê de batatas na frente dele. A negociação era: se ele colocasse o dedo indicador no purê, ganhava uma batata frita do pacote. Ele enfiou e todo mundo fez "êêêê!!", bateram palmas e ele ganhou uma batatinha. Ele olhou pros pais com uma expressão de "uau, sou bom mesmo". Daí a psicóloga foi avançando, agora ele precisava enfiar o dedo no purê e lamber o dedo. Ele fez e todo mundo "êêêê!!", mais salvas de palmas e mais uma batatinha. E finalmente a psicóloga pediu que ele fizesse um gancho com o dedo pra trazer mais purê e colocasse na boca. E ele fez. E fez de novo e de novo. E os pais choraram. A psicóloga pediu aos pais para não usarem mais nenhuma colher para alimentá-lo e deixar que Lewis usasse suas mãos para comer, sem se preocupar com a bagunça e que mantivessem as refeições mais relaxadas possíveis.

Nas refeições seguintes, os pais ficaram sozinhos com Lewis e usaram a mesma técnica das batatinhas. Porém, desta vez no prato dele havia: frango, batata cozida, o mais temido couve-flor, ervilhas e yorkshire pudding, ou o que chamamos de roast dinner, que Lewis não podia nem ver pela frente porque contém muitos pedações. Primeiro ele começou a chorar e empurrar o prato pra longe. Os pais foram instruídos a ignorar as manhas e continuar conversando como se ele não estivesse ali. Lewis percebeu que sendo mal comportado não estava tendo nenhuma atenção. Então ele pegou um pedacinho de frango, comeu e depois bateu palmas para ele mesmo dizendo "good boy, good boy". Os pais bateram palmas para ele também e disseram que ele era muito bom mesmo. E Lewis ganhou uma batatinha porque consistência é tudo. A partir daí ele começou a comer mais e mais e muito mais. Até a temida couve-flor foi devidamente engolida com muito gosto. Seu medo havia se dissipado porque os pais batiam palmas e elogiavam toda vez que ele comia como um menino grande e também sua mãe estava mais relaxada e não ligava mais se ele se melava com a comida.

Até mesmo a psicóloga não esperava esse progresso tão rápido no caso de Lewis. Ela havia comentado que geralmente essas fobias demoram até meses para serem devidamente tratadas e que o público provavelmente não veria nenhuma mudança durante o programa. Ao final ela não pôde deixar de parabenizar os pais e dizer o quanto o pequeno Lewis foi espetacularmente fenomenal aprendendo e testando novas comidas em tão curto espaço de tempo.

O último passo foi dizer adeus à mamadeira. Para isso a produção trouxe uma dúzia de balões de hélio bem coloridos, feitos um buquê com um balde de plástico amarrado na ponta. O pai de Lewis colocou a mamadeira dentro do balde e soltou os balões que subiram pro céu. Lewis mal olhou pra cima, só falou um distante "bye bye bottle". Mas seu pai caiu de joelhos em soluços e lágrimas, cheio de tristeza de dizer adeus ao bebê que Lewis fora.

Logo em seguida fizeram uma caça ao tesouro e Lewis corria para todos os lados para procurar seu "tesouro". Quando finalmente encontrou a arca, abriu e nela havia pratinhos coloridos, garfos e facas com seu personagem favorito e um copo infantil bem bacana. Não sei se no Brasil também tem, mas aqui existem centenas de copos específicos para essa idade (2-3 anos), todos com anti-vazamento, anti-abertura, anti-choque, anti-pinga-pinga. Têm um bico de borracha firme, que a criança tem que morder para beber. Com isso, a língua não precisa mais trabalhar para apertar o bico e fazer o líquido fluir e a criança aprende a beber em copos mais facilmente. Foi esse copo que Lewis ganhou e ficou todo feliz, ergendo em cima de sua cabeça como se fosse um troféu.

Essa série terminou de ser exibida na sexta-feira passada. Duas semanas depois do experimento, a produção foi visitar as famílias que participaram e ver se realmente havia dado resultado. Todas as famílias continuam muito bem. E Lewis, em particular, está mais ativo, mais sociável e comendo tudo o que os pais servem. Adora usar seu próprio garfo e seu copão. E quando alguém pergunta qual o seu prato favorito, ele responde: "roast dinner!!"


Lewis.jpg

Well done, Lewis!


:o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:46 AM | mais em What's on Telly

maio 4, 2005

Tapa de amor não dói desde que não seja na sua bunda

Eu estava respondendo nos comentários, mas começou a ficar tão grande que resolvi fazer um post.

Por muito tempo eu também pensava assim, que um tapinha às vezes é bem corretivo. Que criança precisa. Eu também, como vocês, levava em conta a minha própria educação pessoal como algo comum e aceitável ("não é porque apanhei que sou psicopata", "não é um tapa que torna alguém agressivo" etc). Mas mudei de idéia depois de muito ler (e believe me, não foram poucos os livros que li), participar de forums e assistir a muitos programas desse tipo.

Eu gostaria que vocês pudessem ver o Little Angels pelo menos e mantivessem a mente aberta sobre esse assunto, percebendo ao longo dos programas como os tapas não fazem bem e como na verdade são desnecessários. Lá eles mostram cerca de 8 famílias por série e estão na terceira temporada. E porque essas crianças estão no extremo do mau comportamento é muito comum vê-las levando esses "tapas corretivos" e sim, muitos pais explicam antes de bater, na hora que batem e depois que batem. A criança chora, se cala e pára de fazer o que estava fazendo antes. Efetivo? Pode até ser. Ideal? Eu acho que não.

O programa mostrou mais de 20 famílias até agora, a grande maioria defensora de dar tapas na bunda, na mão, na perna. Com essa disciplina nenhuma dessas famílias conseguem ter o controle de suas crianças. A criança continua mau-comportada, os pais estressadíssimos e a casa cheia de tensão.

Quando os terapeutas entram em cena, eles não vão apontando o dedo acusando os pais. Não é assim, nenhum terapeuta é assim. Se vocês nunca tiveram a chance de fazer terapia, nunca vão saber o quanto esses profissionais podem ajudar. Enfim, eles entram na casa dessas famílias com o objetivo de ajudar, restaurar a harmonia, trazer de volta a alegria de viver em família.

Eles dão as diretrizes de como cada família pode lidar com específicos problemas que causa conflito entre a criança e os pais. São atitudes simples que muitos pais jamais pensaram em fazer e que realmente funcionam.

Por exemplo: um escândalo comum é quando uma criança está brincando num playground e não quer ir embora. Na disciplina de tapas, os pais chamam uma vez, duas, três. A criança ignora. Os pais tentam carrega-la. Ela esperneia, chora e solta dos braços deles. E corre. Os pais correm atrás, já putos da vida. Alcançam a criança e dão bronca. A criança se esgoela e chuta a perna do pai/mãe. O pai/mãe então dá-lhe um tapa na bunda, fim da estória. É sempre mais fácil bater. Plaft. Você fez isso, isso e isso e agora você vai ver. Plaft. Criança chorando, pais emputecidos.

Na disciplina sem violência, antes de sair de casa a criança recebe informações de quanto tempo vai ficar no playground e o que vai fazer quando sair de lá (um lanche, alimentar os patos, apostar corrida com o pai, etc.). Já quase na hora de ir embora, um dos pais avisa a criança: "daqui dez minutos a gente vai embora, o que você vai fazer nos seus dez minutos?". Passados os dez minutos um dos pais sugere: "vamos ver se você consegue sair do playground e tocar na minha mão em 20 segundos? Eu aposto que você não consegue ser tão rápido! 20, 19, 18, 17..." Eu achava que nenhuma criança ia cair nesse truque. E em cinco famílias que eu assisti que fizeram o mesmo com crianças de até 4 anos, todas as crianças saiam correndo com o desafio. Assim que elas tocavam a mão do pai/mãe, esses abraçavam e diziam o quanto ela era uma boa garota ou bom garoto, davam um abraço e um beijo e iam fazer o que haviam combinado a seguir. Criança satisfeita, pais menos estressados. Mais trabalhoso? Sem dúvida. Mas quem disse que ia ser fácil?

Isso é só um exemplo de uma situação banal. Há obviamente muitos outros problemas além de deixar um playground. E para cada caso, para cada criança, há opções de disciplina que são efetivas e controladoras. Basta pesquisar, basta ler, basta manter a cabeça um pouco mais além dos nossos próprios conceitos arraigados.

O mundo deu muitas voltas desde a nossa geração e muito mais voltas desde a geração anterior. Antes era comum ajoelhar no milho. Antes era comum sentar na frente da classe com um chapéu em formato de cone escrito "burro". Antes era comum levar reguada da professora. Antes era normal o marido bater na mulher para mantê-la nos eixos. "Ah, mas é diferente". Diferente como? Desde a criança que vai parar no pronto socorro com o nariz quebrado até a criança que ficou com a bunda rosada por causa de um tapinha, todas elas têm o mesmo em comum: o medo. Medo da dor, medo de apanhar de novo, medo dos pais não a amarem mais, medo.

Sinto muito, mas não concordo com esse discurso de que a criança que apanha e recebe explicações de porquê está apanhando vai entender e aprender. Se ela tem capacidade de entender e aprender, então por que não explicar, com voz firme, com bronca, com castigos (sentar sozinha, confiscar brinquedo, tirar privilégios), ao invés de bater? Aonde foi que eu perdi a explicação que prega que sentir dor diz mais do que palavras e atitudes?

Quanto ao que as crianças se tornam depois que crescem é uma outra história. Crescemos e nos tornamos adultos com diferentes atitudes, diferentes traumas e diferentes formas de pensar levando em conta um mundo de diferentes aspectos do nosso ambiente e acontecimentos da nossa vida. Mas pensar que a criança que apanha não vai carregar nenhum trauma por causa disso -- porque afinal é tão normal! -- na sua vida adulta é muito errado. Há traumas em menores escalas, mais brandas, mais escondidas, mais enterradas lá no fundo do seu subconsciente. Medo, dor, estarrecimento e humilhação são grandes ferramentas para desequlibrar qualquer auto-estima. Não é porque isso não aconteceu com você que apanhou e é supernormal e confiante em si que não vai acontecer com quem você bate. Porque você não é a outra pessoa e não sabe nem nunca vai saber como a mente do agredido funciona ou vai funcionar.

Anyway, tudo isso que eu escrevi aqui não é para agredir ninguém e nem fazer ninguém se sentir culpado por ter eventualmente usado a disciplina da chinelada. Cada um faz o que é o melhor para a sua família, levando em conta a informação que tem ou teve em seu tempo. Cada um escolhe como educar e disciplinar seus filhos, netos, sobrinhos, afilhados e eu não tenho absolutamente nada com isso. Como você foi educado ou como educou seus filhos já é passado, ninguém pode mudar. Mas há muitas famílias que podem se beneficiar com essas novas formas disciplinares. Há muitas famílias que precisam desesperadamente de ajuda de terapeutas. Há muitas famílias que simplesmente não querem dar tapa, mas querem crianças disciplinadas. E por que não darmos algum apoio? Por que não aceitar o novo? Por que não incentivar essas famílias a ao menos tentarem? Por que em tudo temos que ser "contra ou a favor"? Por que não podemos simplesmente entender que há outros meios atualmente?

A minha intenção aqui, é chamar a atenção para algo que está mudando. Ao invés de rebater tudo o que escrevi aqui diarréicamente, tentem ao menos refletir sobre o assunto, tentem ao menos ler os links do post anterior, ler os conselhos dos especialistas, os casos de cada familia. Antes de abrir a janela de comentários, pare e pense se realmente você já estudou os dois lados para defender suas idéias ou se sua opinião é apenas baseada na sua experiência, que sinto dizer, mas pode estar um pouco defasada.

Conhecimento nunca é em vão. Converse nos fórums, fale com especialistas, conheça as famílias, assista aos programas. Deixe de lado a idéia de que terapeutas são idiotas que só querem ganhar dinheiro. Deixe de lado a idéia de que o que você acredita é sempre o certo. Deixe de lado a rigidez da opinião popular. Porque o mundo muda, as idéias surgem, o ser humano evolui.

Eu talvez não sobreviva para ver isso, mas quero um mundo mais consciente de suas atitudes e conseqüências, um mundo que respeite os limites e direitos de cada ser vivo, um mundo onde levantar a mão para bater seja só para fazer pão. Eu devo mesmo estar atirando uma só estrela-do-mar de volta no oceano. Mas mesmo assim. Ainda assim.

Escrito a mão pela Marcia às 12:02 PM | mais em What's on Telly

maio 3, 2005

The Tiny Tearways

De uma hora para outra a TV britânica se inundou de programas sobre disciplina infantil. Existe o Little Angels da BBC, que trata de crianças entre dois ("the terrible two") a cinco anos, que têm problemas graves de birras, violência e desobediência. Existe também o Supernanny do Channel 4, que é uma "babá", na verdade uma terapeuta infantil, que fica na casa da família, aprende a dinâmica e faz as mudanças necessárias para corrigir o mau comportamento das crianças. E mais recentemente a BBC3 lançou o Teens Angels, que também trata de controlar terríveis teenagers indisciplinados.

Agora, a BBC se empolgou e resolveu produzir The House of Tiny Tearways num formato de Big Brother, com famílias que têm crianças difíceis de serem controladas. Num casarão enorme, todo childfriendly (protegido para a criança não se machucar), estão morando três famílias com suas respectivas crias de dois a cinco anos. A psicóloga infantil Tanya Byron (do Little Angels e Teens Angels) é quem ajuda e explica aos pais como ter de volta o controle sobre as crianças que estão firmes e fortes no objetivo de perfurar os tímpanos dos mesmos.

E todos os programas, sem excessão, são muito interessantes. As crianças geralmente apresentam os mesmos problemas: escândalos em supermercados, recusa ao fazer suas refeições, dramas na hora de ir dormir, brigas na hora de trocar de roupa, violência, gritos, mordidas, tapas, cuspes, chutes e palavrões. E o mais impressionante, ao meu ver, é que em todos os programas, absolutamente todos, quem precisa mudar de comportamento são os pais, não os pequenos. E em todos os casos, quando os pais mudam a atitude, os filhos mudam de forma espantosa. Sim, exatamente, a culpa é dos pais, sinto muito. Para os psicólogos, não existe essa coisa de "ah, minha filha é geniosa mesmo, não posso fazer nada". Pode sim. Pode fazer muito.

Uma das primeiras regras que todos os psicólogos que produzem as séries impõem é de nunca, jamais bater em sua criança. A não ser que você queira ter um mini pitbull em casa que vai aprender a bater nos irmãos, nos colegas, na professora e em tudo mais que estiver pela frente. Geralmente os pais que batem (com um tapa na bunda ou espancam até sangrar), querem simplesmente "mostrar quem manda" ou então "mostrar que a criança merece ser punida". Mas no fundo, a grande verdade é que em cada tapa os pais estão dizendo "eu não sei mais o que fazer e estou frustrada e com raiva, então eu bato em você porque você provocou esse sentimento de impotência em mim que eu não suporto admitir". E para a criança agredida, a mensagem é "se tudo mais falhar, parta para a violência física".

A partir dessa primeira regra, o resto é disciplina em si. Quase todas as crianças problemáticas estão gritando a todo pulmão o mesmo: me dê limites, me dê atenção, me dê seu amor. Elas precisam desses três aspectos, em doses iguais. Dê muito limite e pouco amor e elas se revoltam. Dê muita atenção e nenhum limite ("ai filhinho, não fura o olhinho da mamãe não, tá bom..?") e elas se revoltam. Dê limite, dê amor, mas nunca tenha tempo pra brincar e elas se revoltam.

E para dar conta desse delicado equilíbrio, os pais precisam ser determinados em manter suas atitudes sempre coerentes: punir sem violência física ou voz alterada quando o comportamento for inaceitável, elogiar efusivamente quando o comportamento for bom e verbalizar "eu amo você" sempre que seu coração disser.

Para punir sem violência existem um bilhão de recursos em milhares de livros de disciplina, cada família tem que escolher o que melhor funciona para si. Mas e quanto aos outros dois aspectos? Muitos pais dizem "ah ele sabe que eu o amo, não preciso dizer" e não conseguem pôr esse sentimento em palavras. Surprise, surprise mas a criança não, não sabia que os pais a amava e por isso se mostrava tão violenta. Ou então, frente ao bom comportamento, muitos não se dão ao trabalho de elogiar, como se fosse a obrigação mesmo da criança se comportar. "Olha, olha, comi essa cenoura", dizia a menina, cheia de orgulho. "Mmf, termina o resto, anda", foi a resposta que recebeu. Por que diabos eu iria comer outra cenoura??

Há casos mais específicos e crônicos, que levam muito tempo e dedicação dos pais para a criança mudar. Na House of Tiny Tearways existe um menininho de uns dois anos e meio, lindinho, bem comportado mas que morre de medo de comida. Tem pavor, tadinho. Tudo o que ele engole é uma papa de batata batido no liquidificador. Todo tipo de comida que de certa forma molhe seus dedinhos faz ele chorar e balançar os braços apavorado. Nenhum chocolate, iogurte, fruta, verdura, nada. Tudo causa tremores nele. A psicóloga tentou fazer um pic-nic só pra brincar com as comidas, não para comer. Ela enfiava o dedo até o fundo do mousse de chocolate, pintava o rosto com iogurte, amassava banana com os dedos, tudo brincando e rindo. O menino até tentou, deu umas risadinhas, mas bastou um pedacinho grudar no dedo dele e começou a chorar e não ver graça mais em nada. Estou bem curiosa para saber como a história dele vai se desenrolar. Parece que desde pequenininho os pais sempre corriam para limpar a mãozinha dele toda vez que ele se sujava de comida. De certa forma parece que ele agora acha que sujar a mão com comida é algo pavoroso, sujo e errado. Mas a psicóloga acha que há mais por tras disso. Veremos.

Enfim, adoro assistir a esses programas. E acho excelente que o grande público tenha acesso a esse tipo de apoio pedagógico, assistindo a outras famílias que passam pelo mesmo e recebendo conselhos e regras de especialistas. E aprendo bastante também, hohoho. Agora ao invés de oferecer opções de sim ou não como por exemplo "você quer alguma verdura?", eu agora pergunto pro Martin "você quer salada ou verdura com o jantar?" Daí ele pensa e responde: "salada". E eu saio rindo escondida. Depois ele vem atrás dizendo "cê me enganou, eu não queria nenhum dos dois". Hohoho. Útil, muito útil. Daqui a pouco vou instalar o "naughty corner" pra ele sentar e refletir no que fez de errado, me aguardem.

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 12:27 PM | mais em What's on Telly

março 10, 2005

Comida da Cantina

O Channel 4 está exibindo a nova série de programas do chef Jamie Oliver, que tem se dedicado inteiramente a melhorar drasticamente as refeições servidas nas escolas de todo Reino Unido, através da campanha Feed Me Better.

Os estudantes aqui entram na escola às nove da manhã e saem às três ou quatro da tarde. Durante esse período, eles têm cerca de uma hora de almoço e geralmente comem gratuitamente na cantina da escola.

E o que o programa têm mostrado é absolutamente horripilante. Em quase todo país o menu é o mesmo: hambúrgeres arroxeados, batatas fritas oleosas, pizzas, linguiças esbranquiçadas, nuggets feitos de sabe-se lá o quê e também -- o mais falado ultimamente -- turkey twizzlers, que parece ser uma salsicha sem pele processada em forma de mola, feita de peles, pés, e outras partes menos nobres do peru, servido frito.

O primeiro dia do programa causou um furor na mídia, todo mundo escandalizado ao ver o que as crianças comem dia após dia, após dia. Nutricionistas e pediatras também engrossaram o angú dizendo que se essa alimentação diária continuar, esta geração de crianças vai ser a primeira a morrer bem antes de seus pais. Assustador ou o quê?

Image148.jpg
Foto tirada do celular de Jamie Oliver, durante o evento Feed me Better, em Londres

Bem, então Jamie Oliver entrou em cena decidido mudar para sempre esse cenário nojento. Com a vergonhosa verba de 34p por criança (quase a metade da verba comparando com o gasto para alimentar presidiários), Jamie pegou uma escola para seu experimento, a Kidbrooke School, e começou a trabalhar com as dinner ladies, as serventes da cantina. Com muito esforço para convencer as mulheres que é preciso cortar legumes e cozinhar uma boa refeição ao invés de simplesmente jogar uns troços congelados no forno ou no óleo quente, Jamie conseguiu oferecer no seu primeiro dia foccacia, frango assado com ervas e espaguete com molho de cinco vegetais.

Porém, o grande problema, ele logo percebeu, é que as crianças já estão mais do que acostumadas com o junk food. Ninguém quis nem provar o que o moço da tv tinha feito. A maioria pedia o mesmo: pizza e chips, hamburguer e chips, nuggets e chips, turkey twizzlers e chips.

Durante o segundo programa, Jamie tentou fazer uma re-educação alimentar com as crianças, mostrando vegetais e perguntando se eles conheciam o que era. Nas mãos dele, um maço de aspargos. Na cabeça de uma das alunas aquilo era uma cebola (?!?). Envolveu as crianças no processo de preparar uma refeição, ensinou a misturar sabores, a provarem novas texturas. A maioria cuspiu a comida no chão.

De saco cheio, no terceiro programa, que foi ontem, Jamie institui que: ou as crianças comem o que ele faz, ou passam fome. E baniu todos os junk foods disponíveis. Chocadas, as crianças e adolescentes fizeram o que mais sabem fazer: manha. Uns gritaram, outros xingaram, outros choraram, outros fizeram drama. E impassível, Jamie segurava a criança pelo braço e dizia: "se você está mesmo com fome, você pelo menos vai tentar comer alguma coisa do que está sendo servido hoje. Se não está com fome, cai fora". De olhos arregalados, a maioria não sabia o que fazer. E o que estava sendo servido: cannelloni, coxas de frango assadas, arroz, salada, espaguete a bolonhesa e yakissoba vegetariano.

No primeiro dia os adolescentes resolveram pegar a comida da cantina, deixar nas mesas e sair sem comer nada, em protesto (porque adolescentes são mesmo um saco em qualquer lugar do mundo). Nos dias que seguiram, aos poucos as crianças começaram a comer o que tinha, por falta de opção. Depois de duas semanas, o volume de alunos comendo a comida da cantina já estava igual a antes. Com a diferença de que eles estavam comendo uma alimentação bem mais saudável e tinham muito mais energia para se concentrar na aula até o final do dia.

Agora Jamie Oliver e a servente da cantina Norma (engraçadíssima e super bacana), estão peregrinando pelo país inteiro para fazer o mesmo. E o que mais tem chamado a atenção deles é que a maioria das serventes são contratadas para enfiar congelados no forno, mais nada. Muitas sequer sabem cortar uma cebola em fatias. O trabalho da equipe de Jamie Oliver tem sido intenso e muitas vezes infrutífero, com pais reclamando na orelha dele que isso tudo é frescura e o Governo achando que tudo é só uma brincadeira de tv.

Mas alguma coisa já começou a mudar. Na semana passada o governo baniu a distribuição de turkey twizzlers nas escolas. E também está discutindo uma provável nova verba para a alimentação dos estudantes. É um começo. Muitos pais também já começaram a se envolver no projeto mais ativamente, exigindo de seus MPs mais atenção sobre o assunto.

E Jamie poderia muito bem ter continuado a tocar seu restaurante Fifteen, escrevendo livros e ganhando rios de dinheiro sem dar a mínima pro que acontece nas escolas públicas, uma vez que suas filhas provavelmente vão para escolas privadas. Mas ele escolheu mudar, escolheu dar as caras pra bater, escolheu fazer alguma coisa. Mesmo que isso tudo logo caia no esquecimento e as serventes voltem a entupir as crianças de processados, pelo menos ele fez o que estava ao seu alcance, pelo menos ele continua tentando com todas as forças. E muito bem.

E eu, pobre espectadora, fico louca da vida de ver as crianças dizendo que a comida que Jamie serve é horrível e nojenta. Eu me lembro tão bem da comida da cantina da escola estadual em que estudei. Me lembro das servendes mau-humoradas pegando um dos pacotes de comida em pó do depósito para despejar numa das panelonas cheias de água fervente. Me lembro que no depósito dessa comida em pó, os sacos que ficavam no chão eram todos molhados com xixi de rato e roídos por baratas, ratazanas e afins. Me lembro do cheiro enjoativo da gororoba sendo servida, me lembro do gosto de nada que aquela sopa tinha. Eu era uma felizarda que tinha dinheiro para comprar outra coisa na lanchonete da escola. Mas muitos dos meus colegas tinham que comer aquilo lá mesmo, todos os dias. E eu morria de pena e até vergonha de comprar um sanduíche bem melhor que aquilo. E essas crianças inglesas são presenteadas com frango assado, com cannelloni de espinafre e ricota!! Quão sortudas são elas?? O que a gente não daria para ter isso nas escolas estaduais brasileiras?? Essas crianças daqui e seus respectivos pais precisam de perspectiva. Se não gosta, tudo bem, não come. Mas fazer auê e dizer que tudo é nojento me tira do sério. Humpf.

Go, Jamie, go!

Escrito a mão pela Marcia às 11:57 AM | mais em What's on Telly

fevereiro 15, 2005

Brazilian Spirit

Acabei de assistir na BBC2 a um documentário chamado Inside Saatchi & Saatchi, que é uma das mais respeitadas e premiadas agências de propaganda da Inglaterra, senão do mundo. E o programa foi todo sobre a campanha que custou 20 milhões de libras para um cliente brasileiro, uma nova marca de cachaça desconhecida do público estrangeiro. O briefing foi de apresentar a cachaça como "o espírito brasileiro" mas a agência estava proibida de usar bananas, praias e bundas. Fizeram uma campanha fabulosa, toda com o cenário da vida paulista (bares, piscinas em terraços, vida noturna, taxis) com um ator de cabelos longos e braços estendidos, representando o ícone supremo carioca.


saatchi_saatchi.jpg


Foi bastante interessante ver uma agência trabalhar seríssimo e sem nonsense, sem atendimento burro, sem cliente ridículo, sem diretores de criação querendo ser os reis do custard preto e com copywriters sendo tratados com muito respeito, oh yes. Os únicos contratempos que enfrentaram foi ter o fotógrafo americano impedido de ir ao Brasil por falta de visto e a impiedosa chuva torrencial paulista. E aliás, os britânicos ficaram irritadíssimos de terem sido convocados pra uma reuniãozinha em plena crise. Hohohoho, como me lembro bem disso de meus dias de assalariada: quem sabe, faz. Quem não sabe, faz reunião, hohoho. No mais, competência, criatividade e muito bom gosto tanto da equipe brasileira, quanto dos ingleses que conseguiram capturar o sentido do "brazilian spirit" tão bem.

Escrito a mão pela Marcia às 11:22 PM | mais em What's on Telly

janeiro 18, 2005

Coach Potatoes

Começo de ano é uma boa época para vegetar na frente da TV. Tem muitos programas novos começando e uma outra porção de séries chegando de mansinho.

A BBC está apresentando a quarta série do belíssimo documentário Child of Our Time, que acompanha a vida de 25 crianças nascidas em 2000, de diferentes culturas e níveis sócio-econômicos do Reino Unido. Vimos as crianças nascerem em 2000 e em janeiro de 2001, 2002, 2003 e 2004 a BBC fez diversos experimentos para analisar como elas reagiam levando em conta as diferenças do seu meio-ambiente. E hoje, para muitas dessas mesmas crianças, a vida já mudou completamente: pais separados, pais desempregados, mudança de estado, irmão ou irmã mais novos na família, entre outros acontecimentos.

Agora as crianças já expressam com palavras o que sentem, o que acreditam e o programa está ficando cada vez mais rico e mais interessante. Num dos experimentos deste ano, as crianças tinham que responder o que queriam ser quando crescerem. A maioria das respostas giravam em torno de: professora, bailarina, bombeiro, policial, etc. Mas para um dos garotos, cuja mãe se separou do pai logo depois dele ter nascido e depois se juntou com um namorado violento, sendo forçada a fugir e se esconder em um abrigo para mulheres voiolentadas, para esse garoto, a pergunta não foi fácil. Ele esfregou o rosto, abaixou a cabeça e respondeu: "não sei". Os terapeutas insistiram e pergutaram mais uma vez o que ele gostaria de fazer, o que ele acharia legal ser quando for adulto. Mais uma vez ele mostrou desconforto e respondeu: "eu não sei". Porque para ele, futuro é algo incerto. Preso num presente tão difícil, o futuro é melhor nem pensar. Mas isso tudo, obviamente, ainda pode mudar. A BBC tem planos de continuar com o projeto por 20 anos, espero que não cortem as verbas porque até agora tem sido bem interessante.

Outra série bem feita que a BBC2 está apresentando é Auschwitz - The Naz*s and The Final Solution. Uma recente pesquisa mostrou que 45% dos jovens britânicos não sabiam o que foi Auschwitz. Para mudar esse cenário, Laurence Rees fez um documentário muito bom sobre o campo de concentração na Polônia, os planos originais, as técnicas de matança, entrevista com ex-militares naz*stas e testemunhos de sobreviventes. A BBC tem gastado rios de libras para apresentar esse documentário em séries durante todo o mês, até o dia em que vai ser comemorado os 60 de Libertação de Auschwitz. E tudo isso foi em vão porque bastou o cabeçudo do príncipe Harry aparecer na festa a fantasia vestido de soldado naz*sta com a Swast*ka no braço para chocar o mundo todo e fazer as pessoas falarem mais sobre o assunto do que a BBC jamais poderia ter feito. Tsc, tsc, shame on you, Harry!

Fora esses dois belíssimos programas, na semana que vem a quarta temporada da série do super homem de aço começa, para se juntar com ER e Desperate Housewives. E Little Britain 3 não pode demorar para acontecer!!

E assim só preciso que alguém venha me regar semanalmente e me virar pro sol de vez em quando.


Escrito a mão pela Marcia às 7:00 PM | mais em What's on Telly

outubro 21, 2004

The Song that Rocked the World

"It's Christmas time
There's no need to be afraid
At Christmas time
We let in light and we banish shade
And in our world of plenty
We can spread a smile of joy
Throw your arms around the world
At Christmas time
"

Acabamos de assistir a um especial da BBCThree (êêêêê, viva à TV via Peneirão!!!), sobre o projeto Band Aid nos idos 1984. Quase não acredito que já faz 20 anos que a reunião dos maiores artistas pop dos anos 80 para arrecadar fundos à Ethiopia aconteceu em UK. Me lembro TÃO bem, mas tão tão bem de como AMEI a idéia, o projeto, a música Do They Know it's Christmas?, o compacto que comprei com meus poucos trocadinhos poupados com muito custo, meus grandes ídolos todos ali juntos cantando para o mundo que havia uma porção de gente morrendo de fome do lado de fora da sua janela.

"But say a prayer
Pray for the other ones
At Christmas time it's hard
But when you're having fun
There's a world outside your window
And it's a world of dread and fear
Where the only water flowing
Is the bitter sting of tears
And the Christmas bells that ring there
Are the clanging chimes of doom
Well tonight thank God it's them instead of you
"

O especial Band Aid - The Song that Rocked the World foi bastante emocionante. A grande maioria dos artistas que participaram deram seus depoimentos, todos tão mais velhos (assim como eu também estou), mas ainda muito tocados com o que significou fazer parte daquela caridade.

"And there won't be snow in Africa
This Christmas time
The greatest gift they'll get this year is life
Where nothing ever grows
No rain nor rivers flow
Do they know it's Christmas time at all"

Bob Geldolf (o idealizador de tudo e um ser humano que respeito muito pelas idéias que defende com dentes e unhas), Sting, Bono Vox, Simon LeBon do Duran Duran, John Taylor também do Duran Duran (e naquela época eu o achava o homem mais lindo do mundo), Paul Young (ainda vivo, diga-se de passagem), George Michael (naquela época, o segundo homem mais lindo da Terra), Boy George (o primeiro gay que conheci na minha vida, hohoho), além de Phil Collins, Spandeau Ballet ("i know this... might be... truuuue")... Céus, eu não conheço absolutamente ninguém dos atuais Top of The Pops, mas damn eu conheço esses todos de 20 anos atrás!!! Hohoho.

"(Here's to you) raise a glass for everyone
(Here's to them) underneath that burning sun
Do they know it's Christmas time at all?"

Enfim, foi ótimo relembrar dessa época. Em uma semana o Band Aid arrecadou mais de 1 milhão de Libras. Mas mais importante que isso, eles abriram os olhos de boa parte do mundo para o que acontece em países miseráveis numa época de repressão, de ditadura, de Margaret Tatcher, de ausência de Internet, de falta de liberdade em muitos cantos do planeta.

Fizeram a diferença, salvaram muitas vidas. Um dos idealizadores do projeto, Midge Ure, voltou à Ethiopia, no mesmo lugar onde antes havia os campos de concentração em que as crianças desnutridas morriam a cada segundo, um quadro desesperador e triste. Ainda há muita miséria por lá, mas a diferença é enorme. Ure encontrou com as mesmas famílias que havia conhecido na época, hoje morando em casas humildes mas com mais dignidade, comida na mesa, crianças brincando pelos campos verdes já com doze, treze anos de idade, quando antes não sobreviviam nem o primeiro ano. O país ainda está longe de estar bem, mas ao menos não é aquela imagem tão desconcertante de antes.

Inúmeras outras entidades de caridade surgiram depois dessa bem-sucedida empreitada, ajudando não apenas à Ethiopia, mas Serra Leoa, Uganda, Angola, Afeganistão, Iraque, entre outros países necessitados, inclusive é claro, regiões do Brasil.

Valeu sim, muito a pena ter cantado com eles:

"Feed the world
Let them know it's Christmas time
Feed the world
Let them know it's Christmas time again
"

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:50 PM | mais em What's on Telly

outubro 7, 2004

Ray Mears - Bushcraft and Beyond

Eu sei que eu já falei dele aqui muitas vezes e sei que algumas pessoas já estão cansadas de ler a mesma coisa que eu conto aqui. Mas, hohoho, ser tirana do próprio blog que dizer que eu posso repetir quinhentas vezes o mesmo assunto e ninguém me pára, hohohoho.

Enfim, eis que a BBC passou durante o mês passado a novíssima série de Ray Mears' Bushcraft. E não tem, minha gente, não tem como não se maravilhar e não assistir a tudo com os olhos arregalados, a boca aberta e a mente escancarada.

Ray Mears é especializado em ensinar Wilderness Bushcraft, que a grosso modo quer dizer "técnicas da selva" ou como ele mesmo chama, "a arte do possível". E seus conhecimentos vão além de básicos conceitos de sobrevivência. Ray Mears nos envolve no estudo sobre a natureza e a cultura indígena que nos cerca de forma simpática, rica e extremamente impressionante.

Há muitos tempo a gente sabe que esfregando dois gravetos é possível fazer fogo. Mas será que sabemos mesmo como fazer isso na prática? E de forma humilde, simples e direta Ray Mears explica e mostra como efetivamente fazer fogo. E a forma que ele nos ensina parece que está dentro da nossa sala de estar, conversando e fazendo uma receita fácil e deliciosa. Em quase todos os programas que apresenta ele aparece fazendo uma fogueira esfregando gravetos. É simplesmente hipnotizante.

Ele ensina, enfim, tudo aquilo que esquecemos. Como ler nas árvores em que direção da bússula estamos, como fazer abrigos com folhas e troncos de árvores, como encontrar o que comer, como "fazer" água para beber. E sei que muitos devem estar pensando "mas pra que diabos eu preciso saber disso?". Precisar não precisa, até o dia que você precisar. No ano passado a BBC passou a série Ray Mears Extreme Survival, que mostrava justamente isso, como nós, seres do mundo moderno, somos vulneráveis e ignorantes quando estamos perdidos. Foram vários programas dedicados à mostrar como pessoas comuns são vítimas de sua própria falta desses conhecimentos básicos. Um carro que quebra no deserto, uma tempestade de neve inesperada, a queda de um aeroplano no meio da floresta, um naufrágio perto da praia, ou até mesmo coisas mais simples como se perder numa trilha na mata ou na montanha. A frase que Ray Mears sempre repete é: ter os conhecimentos da vida selvagem é ser livre.

Para mim, conhecimento nunca é em vão, mesmo que a gente nunca use, mesmo que hoje a gente tenha um mundo de tecnologia para nos ajudar, saber e entender como a natureza funciona ao nosso redor é simplesmente encantador, um privilégio sem preço e uma diversão garantida.

Mas o melhor dos programas dele, para mim, é quando ele se encontra com tribos indígenas das mais diversas e remotas partes do mundo. Ele é extremamente carismático, mesmo entre índios completamente hostis ao mundo civilizado. Geralmente no começo ele fica só observando os indígenas, sem se intrometer, respeitando o cotidiano deles. Logo ele começa a arregaçar as mangas e a ajudar nas tarefas da tribo cortando árvores, caçando, pescando. E então simplesmente algo acontece e os índios passam a gostar dele como membro da tribo. No final estã todos se despedindo com lágrimas e abraços honestos e Ray acaba sempre ganhando algum presente feito com muita dedicação pela tribo. É comovente.

Nesta nova série em particular, Ray Mears' Bushcraft visitou a Amazônia, mas ficou na borda venezuelana, não no Brasil. Lá ele se encontrou com a tribo local e conviveu com eles por várias semanas aprendendo as técnicas bem diferentes, como a pesca por anestesia natural, onde os índios usam a seiva de raízes para jogar no rio e fazerem os peixes ficarem anestesiados e subirem para a superfície. O programa foi todo produzido dentro da floresta, em acampamentos feitos entre as árvores e refeições colhidas na natureza.

Foi bem bacana, mas o que mais me emocionou foi quando Ray Mears perguntou delicadamente aos índios que o acompanhavam se eles sabiam como fazer fogo com gravetos. Meio constrangidos, os dois tentaram mas não conseguiram e por fim confessaram que os antepassados deles sabiam mas hoje eles não sabem mais. E então Ray Mears com todo cuidado do mundo disse que o trabalho dele é de ensinar as pessoas essas técnicas esquecidas e que seria uma honra imensa mostrar para eles como se faz um fogo. Eles olharam meio desconfiados e descrentes que aquele branquelo poderia ensinar alguma coisa a eles. E Ray Mears estava todo cheio de dedos porque segundo ele, sul-americanos têm algo no sangue que os torna apaixonados pela sua própria masculinidade e é preciso muito tato para mostrar a eles que não saber alguma técnica não é nenhuma fraqueza e sim um conhecimento a ser adquirido. Eles aceitam e logo Ray Mears está a frente mostrando como cortar, como esfregar, como colher a brasa e como finalmente fazer a fogueira. O primeiro deles se dedicou bastante, seguiu todas as instruções e conseguiu colher bastante brasa. Ray colocou-as num montinho de serragem de madeira e pediu para eles assoprarem sem parar. E no meio da fumaceira, tcharam, o fogo se fez! Os dois arregalaram os olhos sem acreditar que haviam feito tudo com as próprias mãos! Sorriram, riram e pularam. No dia seguinte, os dois índios estavam ensinando a todas as crianças da tribo. Satisfeito, Ray Mears teve a certeza de que pelo menos por mais uma geração aquela tribo seria capaz de produzir seu próprio fogo.

Na semana passada, o programa foi na Tanzânia, continente africano. Ele já havia feito um programa lá, em 1994. E quando eles estavam filmando no acampamento, um velho índio da tribo Hadza se aproximou timidamente. Era um dos amigos que Ray Mears havia feito dez anos atrás e que tinha andado até lá para reencontrá-lo, quando soube que a equipe estava de volta. A partir daí eles passaram toda a produção juntos, fazendo as trilhas e caças conforme os costumes da tribo. O velho índio ensinou como fazer um arco e flecha, como encontrar água no seco solo africano. As mulheres da tribo ensinaram como fazer pão, como encontrar frutas na selva. No final, Ray Mears havia uma surpresa para a tribo. A equipe montou um monitor e chamou todos da tribo para assistirem à surpresa. Eles todos senteram no chão, curiosos e sem saber o que veriam na caixa quadrada. E eis que Ray Mears passa o vídeo do programa que eles haviam feito em 1994. Todos eles arregalam os olhos e riem ao verem a si próprio na tela. Na tribo, como em qualquer outra, não há album de fotografia, não há imagens passadas para relembrar. E para eles, verem a si próprios dez anos atrás é impressionante, para se dizer o mínimo. Quando o programa termina, muitos deles estão chorando e todos se despedem de Ray Mears com abraços e apertos de mão que dizem mais do que eles podem nos dizer.

A mistura de um pouco de tudo isso, conhecimento, cultura, lágrimas, carisma, amizade, risos e diversão é que faz desse programa tão especial.

Depois de testemunhar a eficiência de Ray Mears de fazer a sobrevivência possível nas mais difíceis situações, eu não tenho dúvida da minha resposta para quando alguém me perguntar quem eu levaria para uma ilha deserta, hehe. Pelo menos com Ray Mears por perto sei que sobreviveria.

Raymears.gif

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 11:08 AM | mais em What's on Telly

abril 14, 2004

Hawking

Ontem a BBC apresentou uma dramatização da juventude do cientista-físico-matemático-teórico-gênio Stephen Hawking. Muito bem produzido, o drama é envolvente não apenas pela biografia em si, mas pela excelente atuação do protagonista Benedict Cumberbatch .

Nascido em Oxford, Hawking entrou para a Universidade de Cambridge para estudar cosmologia depois de ter se graduado com honras em Ciências Naturais. Em sua carreira, fez inúmeros estudos sobre as leis naturais que governam o universo até ao ponto de comprovar como as Leis de Einstein chegam à Teoria do Big Bang e do Buraco Negro. Esse resultado foi a mais importante descoberta de todo o século 20.

No entanto, mais que seus esforços na área teórica e científica é ver Hawking lutando, desde seus 21 anos, contra a síndrome degenerativa que vem limitando cada vez mais seus movimentos musculares, sua fala, sua liberdade. Porém, não há síndrome que impeça de exercer um dos mais brilhantes cérebros do nosso tempo.

Escrito a mão pela Marcia às 2:20 PM | mais em What's on Telly

janeiro 7, 2004

Crianças do Nosso Tempo

Quando a BBC se aventura a fazer bons programas ela realmente faz muito bons programas.

Na virada do milênio, em 2001, a BBC começou um projeto audacioso chamado Child of Our Time. O programa está trabalhando com famílias dos mais variados aspectos genéticos, sociais, geográficos e étnicos para respoder apenas a uma pergunta: nascemos assim ou fomos criados assim?

E este projeto vai durar nada menos que 20 anos! Durante todo esse tempo, diversos experimentos serão feitos para analisar de forma cientificamente acurada como os genes e o ambiente em que as crianças são criadas influenciam na formação de uma pessoa.

Começamos a assistir ao programa quando as crianças tinham um ano. No programa desta nova série que começou ontem, as crianças já estão com três anos e muita coisa mudou em algumas famílias, trazendo conseqüências para a personalidade deles. É a idade crucial para a socialização e muitos já estão mostrando traços de introspecção ou extroversão, de bom-humor ou agressão.

E o mais interessante foi o experimento que media o quanto a TV influencia no comportamento. Uma a uma, as crianças assistiram a TV onde um dos cientistas beijava e abraçava um boneco inflável. Depois cada criança foi colocada numa sala com diversos brinquedos, entre eles o mesmo boneco. Todas se aproximaram do boneco, abraçando e beijando da mesma forma que o cientista.

Da mesma forma, elas assistiram a outro vídeo, onde o mesmo cientista batia e martelava o mesmo boneco inflável. Quando as crianças voltaram à sala de brinquedo, todas sem exceção, mesmo as mais princesinhas das meninas, empunharam a marreta e pow, martelaram o pobre boneco. Mesmo posteriormente, com a presença da mãe na sala dizendo que era errado bater, algumas crianças não pararam e insistiam que o boneco tinha que ser violentado.

Outra experiência interessante foi fazer aquela brincadeira de "advinha em que mão está a moeda?". Os cientistas fizeram essa brincadeira escondendo uma moeda numa das mãos e mostrando os dois punhos fechados, pedindo para a criança advinhar. Ao final da brincadeira, o cientista passava a moeda pra a criança e pedia para ela fazer o mesmo que ele iria advinhar.

O surpreendente é que muitas crianças mostravam ao cientista apenas uma das mãos ou então mostravam as duas mãos abertas com a moeda aparecendo. Elas ainda não são capazes de fazer a mesma brincadeira porque para elas o que elas sabem todos sabem também, por isso não há sentido em esconder ou tentar enganar. Para elas, ainda aos três anos, a idéia de que ela sabe algo que os outros não sabem é simplesmente impossível. E é exatamente por isso, que as crianças até três anos não mentem. Até tentam mentir a princípio, mas não conseguem esconder as evidências.

E para finalizar, é supreendende saber do fato que aos três anos uma criança sorri em média 400 vezes por dia. E essa média vai caindo com o decorrer dos anos e, aos 35 anos de idade, um adulto sorri em média 30 vezes apenas...

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 10:10 AM | mais em What's on Telly

janeiro 6, 2004

How Did Di Die?

Começa hoje o inquérito que vai investigar a real causa da morte da Princesa Diana. Isso tudo depois que Paul Burell, seu fiel mordomo e confidente, trouxe à tona uma carta escrita pela própria Diana, na qual ela dizia "Este está sendo o momento mais perigoso da minha vida. (...) está planejando um 'acidente' em meu carro, uma quebra e uma séria injúria na minha cabeça."

Resta saber se Diana morreu mesmo por causa de um acidente ou se houve um frio assassinato do Serviço Secreto.

No tablóide The Mirror de hoje, há a acusação de conspiração por parte de um membro sênior da realeza, interessado na morte da Princesa.

Nos últimos anos a Família Real tem servido apenas para isso, rechear tablóides sensasionalistas. Mas eu tenho pena de duas pessoas da realeza: William e Harry. Os dois filhos de Di e Charles, que nunca pediram para nascer príncipes, que tentam passar o máximo tempo possível longe da Inglaterra onde possam viver sem paparazzis, que perderam a mãe tão cedo e que são por vezes bombardeados por situações que ninguém merecia. Eles têm uma vida de rei, sim. Mas não por escolha própria e isso faz toda a diferença do mundo.

Há meses atrás, os dois fizeram um apelo aos tablóides para respeitarem o sentimento de perda que eles ainda têm pela mãe.

Mas infelizmente, maiores especulações em volta da família estão por vir. Principalmente depois das manchetes do The Mirror de hoje, que divulgou que a pessoa que estava planejando a morte de Diana, era ninguém menos que o pai deles, Charles.

Escrito a mão pela Marcia às 2:00 PM | mais em What's on Telly

dezembro 5, 2003

The Office - Ha ha ha!

O humor britânico é reconhecido mundialmente. Mais sofisticado que as comédias holliwoodianas, de humor negro discreto, de ironia inteligente e sarcasmo exagerado, os ingleses são os donos da bola quando o assunto é fazer rir.

E muitas vezes conseguem fazer do nonsense e do absurdo uma das melhores coisas já inventadas em território britânico: o Monty Python.

Ultimamente, o que mais tenho adorado é a série The Office! Não sei se passa nos canais a cabo, acho que sim, a série já recebeu diversos prêmios.

Todo mundo que já trabalhou um dia reconhece no programa os estereótipos: o chefe "motivador" que decorou os livros de "Qualidade Total" obsecado para ser politicamente correto; o puxa-saco descarado; a faxineira intrometida; o analista de sistemas folgado, a diretora de RH chata, entre outros.

Logo que a série começou eu pensei: "mas o que é que tem de engraçado em um programa sobre escritório?? Só esses ingleses mesmo..."

Até o dia que assistimos ao primeiro episódio da série. E morremos de rir e viramos fãs. E o mais interessante é que as cenas do The Office não são de humor debochado, escrachado. Não. Toda a graça acontece quando você reconhece os estereótipos e as situações ridículas. E aquela sensação de "haha, eu já vivi isso, já vi isso antes de verdade, haha!" é a melhor que tem!

Ricky Gervais é o excelente protagonista e um dos produtores da série. As entrevistas que dá são sempre muito inteligentes e engraçadas.

Office.jpg

:o)

Escrito a mão pela Marcia às 9:26 AM | mais em What's on Telly

novembro 27, 2003

Jungle

A BBC está passando um programa excelente sobre florestas tropicais! Ontem foi o primeiro programa da série Jungle, na floresta de Bornéo. A equipe de produção, juntamente com a apresentadora Charlotte Uhlenbroek estão usando toda tecnologia possível para estudar o ecossistema, além de balões a hélio, a gás, e muitas cordas para subir em árvores gigantescas do tamanho de um prédio de 21 andares! Um espetáculo!

E como não poderia faltar, logo eles estarão na Floresta Amazônica! Não vejo a hora de ver, morro de vontade de conhecer a mesma ao vivo e a cores. Ver a profusão de vida dentro da selva, os animais em seu ambiente natural, a história das plantas, a inteligência do imenso organismo. E, se não for pedir muito, ficar também naquele hotel em que os quartos ficam suspensos na copa das árvores! :o)

Escrito a mão pela Marcia às 6:18 PM | mais em What's on Telly

outubro 14, 2003

Só nas novelas daqui

Tem coisas que só as novelas inglesas podem fazer. Não, minha gente, aqui não temos Mulheres Apaixonadas. Mulheres nas novelas daqui são só neuróticas, paranóicas e obsessivas. Apaixonada não tem nenhuma. Mas ao contrário das consagradas novelas brasileiras, aqui as novelas não terminam. Como assim? Não, não tem fim. Não tem "the end". Continuam por anos a fio. Coronation Street já está no ar há mais de 30 anos. EastEnders, há 25 anos.

Então os escritores novelistas ingleses podem fazer algo impossível de acontecer nas novelas brasileiras: o retorno de um personagem dado como morto após 14 anos. Não estou me referindo àquela passagem de tempo em que se lê "14 anos mais tarde...", não. Não, não, não. 14 anos reais, quase uma década e meia, e o personagem retorna à trama principal.

A proeza aconteceu na semana passada em EastEnders. O assassinato de DirtyDen nunca foi totalmente esclarecido e o corpo que supostamente seria o dele estava sem condições de ser identificado. Den havia deixado uma filha adotiva da qual era muito apegado, uma outra filha e um filho naturais, dos quais nem sabia da existência até o presente momento. Os três filhos acabaram se encontrando e passaram a investigar os passos do pai, até culminar no encontro assombroso daquele que não morreu.

Obviamente que após 14 anos, os personagens nem precisam de maquiagem para sugerir o envelhecimento. Tudo é natural, as pessoas estão mais velhas, os filhos crescidos, alguns amigos já morreram. A única coisa que não mudou nesses anos todos foi o cenário, o mesmo pub, as mesmas casas e a mesma rua de sempre.

Em minha modesta opinião pessoal, a volta de um personagem é interessante quando vem para explicar algo na trama, surpreendendo os leitores (ou telespectadores) como nos contos de Aghata Christe. No mais, voltar por voltar, só traz a sensação de que a novela perdeu seu rumo e quer voltar ao sucesso que era antes. No caso de EastEnders, creio, deve ser o segundo caso.

Escrito a mão pela Marcia às 11:11 AM | mais em What's on Telly

outubro 10, 2003

Fame Academy 2

Alex.jpg Guardem este rosto e gravem este nome: Alex. Ela foi a vencedora do Fame Academy deste ano, que encerrou na semana passada. Desde a sua estréia, o público ficou atônito de ouvir esta adolescente de 19 anos cantando. E desde que entrou para o Fame, nunca chegou perto de correr o risco de ser cortada. Há algo na voz dela que encanta e faz sua nuca arrepiar. Algumas versões, como Yellow de Coldplay, Beautiful de Christina Aguilera e Baby Can I Hold You de Tracy Chapman trouxeram lágrimas aos olhos. Os professores gastaram todo o repertório de elogios a ela, que os aceitava modestamente. "Acho que Alex é uma artista única. Ela não é apenas excelente, mas é também diferente", comentou a treinadora vocal Carrie. E o sempre durão e crítico diretor Richard Park também concordou: "Eu não acho que ela tenha idéia do imenso potencial que tem". Como prêmio, Alex recebeu um contrato com a Polydor no valor de £1 milhão e o direito de morar num luxuoso apartamento em Londres todo decorado, por um ano. O single já está sendo gravado e em breve o álbum dela também estará disponível para o público. Eba!

Escrito a mão pela Marcia às 12:12 PM | mais em What's on Telly

setembro 17, 2003

Return to Jamie Kitchen

Estávamos curiosíssimos para assistir ao programa Jamie's Kitchen ontem. Principalmente porque nós acompanhamos todos os outros programas da primeira série. Dos 15 estudantes selecionados, atualmente só restam 9. Os outros se mandaram ou foram mandados embora. E apesar do restaurante Fifteen ter suas mesas lotadas todos os dias, muita coisa ainda vai mal para Jamie Oliver.

O orçamento inicial para montar o restaurante era de 500 mil libras. Até o momento foram gastos 2 milhões de libras. Com isso, o que entra de dinheiro é para pagar a dívida. Se isso é um fato para desanimar um profissional experiente, o que dirá dos trainees a chef? A apatia e o cansaço abateu boa parte dos estudantes, que já estão pensando em mudar de carreira e procurar um emprego que pague melhor.

Mas indubitavelmente os trainees estão cozinhando muito melhor! Dá para perceber pelo jeito que eles levam a sério, como estão craques em chacoalhar as panelas, como estão talentosos decorando os pratos. É muito bom ver esse avanço. Dois deles, Elisa e Johnny, estão mostrando um enorme potencial para a carreira, desde o começo do projeto eles se destacam pela competência.

O que mais me incomodou no programa, por incrível que pareça, foram alguns clientes. Sabe aquele tipo de gente que acha que tá pagando então tem direito a fazer o que quer? Esse tipo.

Primeiro uma mulher que mandou o livro através do garçon, pedindo para que Jamie o autografasse. Qualquer restaurante em horário de pico é uma loucura, todo mundo tem que estar atento para não errar os pedidos. Jamie é paciente e sabe que tudo isso faz parte e autografou o livro, entre a pilha de outros com o mesmo pedido. O garçon trouxe o livro de volta porque o nome da fulana estava escrito errado (!!). Jamie tem vontade de mandar a dona pra PQP, pragueja e diz para alguém que saiba escrever que autografe o livro. O garçon dá uma desculpa qualquer e logo em seguida vem o marido da fulana na cozinha pedindo para que Jamie autografe certo, em outra página. Jamie pede para o fulano soletrar e escreve com uma letra quase ilegível, mas não perde a educação. Cada um...

Outro cliente, provavelmente um dos que assistiu ao programa anterior e por isso quer humilhar os trainees, faz o pedido, come, reclama que o molho de taragon estava horrível, errado e intragável. E sai sem pagar. Jamie explica para os trainees para nunca aceitar isso, que em nenhum restaurante o cliente tem direito de fazer isso. Para Jamie, essa atitude tem um só sentido: roubo. Comeu e saiu sem pagar? Roubo. Cada um... tsc.

Mas tudo tem sua recompensa. Logo todos so trainees são convocados para preparar um almoço particular. O endereço é 10 Downing Street, a casa do Primeiro Ministro Britânico. Tudo deu muito certo, Cherrie Blair vai até a cozinha provar a comida que será servida e cumprimenta e elogia cada um deles. Depois do almoço Tony Blair vai pessoalmente agradecer e elogiar os trainees, dizendo que ficou surpreso com a qualidade e apresentação dos pratos.

Às vezes muita gente esquece que eles são bem jovens, 17 a 24 anos, que precisam de um certo incentivo para continuar. Muitos ainda são imaturos, mas não menos esforçados. Para a maioria deles, é o primeiro emprego. Assim como muitos telespectadores, eu também morria de raiva de alguns preguiçosos que faziam parte do projeto, mas esses já se foram. Hoje quem continua no Fifteen é porque investiu esforço, são aqueles que estão todos os dias descascando, picando, cozinhando, varrendo o chão e lavando a louça. Eles têm o meu respeito.

Escrito a mão pela Marcia às 9:53 AM | mais em What's on Telly

setembro 16, 2003

Controle Remoto

Já contei aqui que nós pagamos um dinheirão por ano por algo chamado TV License. É a taxa que nos permite assistir à BBC1 e BBC2. E temos também três canais abertos. ITV1, Channel 4 e Five (este não funciona em nossa região).

Por meses e meses a BBC só estava passando reprises das reprises de programas passados. Enervante. E a novela EastEnders está pior do que qualquer uma do SBT. Os canais abertos também raramente estavam transmitindo algo de bom ou novo.

Finalmente a partir desta semana começam a ser lançados os programas inéditos! A conferir:

Ray Mears' Real Heroes (sobrevivência em situações inóspitas)
Return to Jamie's Kitchen (o projeto de caridade de Jamie Oliver)
Tales from River Cottage (culinária rural)
Rick Stein's Food Heroes (culinária britânica)
The Kumars at No. 42 (comic chat show)
Grand Designs (grandes projetos arquitetônicos)
QI (quiz apresentado por Stephen Fry)

Enquanto a gente ainda não pode assinar a Sky, esses programas dão pro gasto. Vou ali afofar as almofadas do sofá. :o)

Escrito a mão pela Marcia às 8:23 AM | mais em What's on Telly

julho 20, 2003

Brasil vence na Inglaterra

Silverstone2003a.JPG

Para falar a verdade, é mais fácil torcer pelo Rubinho aqui na Inglaterra do que no Brasil. Longe das piadinhas imperdoáveis, longe da eterna comparação com Senna, longe das críticas inflexíveis. Barrichello aqui é mais respeitado que Schumacher, que aliás os britânicos odeiam pela forma suja de pilotar e subir na carreira. Barrichello aqui é até mais querido que o próprio britânico David Couthard.

Rubinho não é um desconhecido por aqui. Grande parte de sua carreira foi construída na Inglaterra, quando morava em Cambridge. Silverstone é o circuito que o consagrou como campeão da Fórmula 3, é quase sua segunda casa.

Durante a ultrapassagem que fez hoje no então líder da prova, Kimi Raikkonen, as arquibancadas de Silverstone sacudiram, o público inglês aplaudiu de pé, com direito às cornetas e todo barulho incomum a esse povo.

E os comentaristas da ITV não pouparam nenhum elogio. Disseram que Rubens Barrichello vencera com todos os méritos depois de fazer sucessivas ultrapassagens que, até agora, foram as melhores da temporada. Lembraram das outras vitórias dele em Silverstone e traduziram as lágrimas de Rubinho no pódium como de alguém que finalmente se deu conta do que tem conquistado.

Alguns sinais corporais que Barrichello faz não são fáceis de decifrar para quem não é brasileiro. A sambadinha, que lembra o Brasil e o embalo com as mãos, que homenageia o filho, por exemplo. Mas o braço erguido com o dedo indicador apontando para o céu foi bem claro. "Rubens aponta sua vitória a Deus e a Ayrton Senna. Deve ser difícil para um piloto ter a sombra de Ayrton Senna ao seu lado. Mas aí está a consagração deste brilhante piloto", disseram os comentaristas. E creio, não estavam errados.

Escrito a mão pela Marcia às 8:41 PM | mais em What's on Telly

julho 17, 2003

Assassinato do Bicho-Preguiça

A BBC One está passando um programa semanal tão bom! Chama-se WildLife on One, comandado pelo brilhante David Attenborough, que tem em seu currículo os programas Life of Mammals e The Blue Planet.

Ontem o título do programa foi "Whodunnit?" (tradução: "quem foi qui fez esta porra?").

Local do Crime: Floresta Amazônica

A Cena do Crime: foi encontrado parte do esqueleto de um Bicho-Preguiça no solo da floresta amazônica. A Perícia Médica do programa foi ao local, recortou o solo de toda a área que envolvia o esqueleto e levou a amostra para os laboratórios britânicos.

A Vítima: um jovem e saudável Bicho-Preguiça de três dedos que, apesar da lentião, consegue se livrar dos predadores através da camuflagem.

Os Suspeitos: queda acidental, águias, exército de formigas e onças pintadas.

Evidências: o esqueleto foi encontrado no solo.

A análise mostra que não há ossos fraturados, portanto, a hipótese de queda acidental está descartada.

As águias geralmente levam a presa para o ninho, onde é devorada e onde os restos mortais permanecem. Portanto, águia também descartada.

Os bichos-preguiça precisam, de tempos em tempos, se arrastar pelo chão em busca de comida. Apesar da ameaça, pequenos insetos não conseguem ultrapassar a barreira grossa dos seus pêlos. Portanto, exército de formigas.

Restou a onça pintada. Parte das costelas da vítima estão lascadas. Em duas das costelas há lascas grandes, que indicam uma mordida grande e potente. Porém, há outras pequenas e centenas de mordidinhas nas outras costelas. Uma onça geralmente causa maiores danos aos ossos da vítima no momento da caça e posteriormente durante a refeição. No entanto, o esqueleto se encontrava praticamente inteiro.

Dúvida: de quem seriam as centenas de mordidinhas nos ossos?

A Investigação: os peritos precisaram voltar um passo e recomeçar a análise. Investigando o crescimento das plantas que cresciam ao redor do esqueleto pode-se constatar quando o assassinato ocorreu. Com essa informação, o crime mudou de figura: a época do crime coincide com a época das cheias da Floresta Amazônica. O solo fica cerca de 1m submerso nas águas do segundo maior rio do mundo. Teria o bicho-preguiça sido assassinado na água?

Novos Suspeitos: peixe-elétrico (capaz de gerar um choque de 500v), botos, jacarés, piranhas e tubarões.

Novas Evidências: Bichos-Preguiça são exímios nadadores e podem prender a respiração debaixo d'água por mais de 40 minutos. São capazes de evitar e se defender de pequenos predadores como piranhas e peixe-elétricos. Botos, jacarés e tubarões também são descartados por estraçalharem os ossos da vítima durante a refeição. Caso a nossa vítima tenha sido morta na água, seus ossos mostrariam evidências de afogamento. Porém, os ossos não mostram nenhum sinal de afogamento, a vítima não se encontrava na água no momento de sua morte.

So, whatahell??: Os peritos então partiram do princípio que o Bicho-Preguiça estava em seu habit natural, pendurado em uma árvore, quando foi violentamente assassinado, para então cair nas águas.

Conclusão do Caso: As lascas grandes nas costelas monstram que provavelmente a vítima foi atacada por um animal de grande porte. Os dentes e as presas da Onça Pintada se encaixam perfeitamente às lascas grandes. Por viver em galhos e por seu um animal pesado, o equilíbrio do Bicho-Preguiça e de seu predador provavelmente ficou bastante comprometido. Apesar de ter assassinado a sua vítima com sucesso no momento do ataque, a Onça Pintada deixou o corpo do Bicho-Preguiça escapar entre suas garras e cair nas águas. A Onça poderia perfeitamente se jogar na água e recolher sua presa, mas antes disso, um cardume de piranhas já fazia a festa no moribundo Bicho-Preguiça, deixando pequenas e centenas de mordidas em seus ossos. Passada a época das cheias, o esqueleto da vítima jazia no solo, no mesmo estado em que os cientistas o encontraram.

FIM.

(Triste fim do Bicho-Preguiça brasileiro, que mal sabe que um bando de peritos bretões gastaram mundos e fundos para solucionar sua morte...)

Escrito a mão pela Marcia às 11:44 AM | mais em What's on Telly

maio 9, 2003

Horizonte da Homeopatia

Há um programa muito muito bom que passa na TV chamado Horizon. É uma espécie de Globo Repórter melhorado, vamos dizer assim, com reportagens e investigações. A grande diferença é que é patrocinada pela BBC, que por sua vez recebe um dinheirão de todos nós telespectadores e tem mais é que fazer programas bons. Pensou que a TV era de graça? Nananinanão, nós pagamos uma digna facada chamada TV License, mas isso é assunto para outra hora.

Enfim, o Horizon se beneficia ao ter apoio para fazer excelentes reportagens e faz isso muito bem. Geralmente abordam temas científicos, mas tudo explicado de forma simples e compreensível, ao mesmo tempo em que trazem à tona novos questionamentos e algumas prováveis respostas.

Este são alguns dos temas já apresentados pelo Horizon:

• Quem afundou o Kursk?
• A queda do World Trade Center
• Mega-Tsunami: a onda da destruição
• Anatomia de uma avalanche
• Gêmeos siameses
• Por dentro do sarcófago de Chernobyl
• Narcolepsia
• Quem construiu Stonehenge?
• O dia em que a Terra quase morreu
• Deus no cérebro

E muitos outros assuntos já foram abordados desde a estréia do programa em 1997.

Um dos assuntos que mais gerou polêmica e discussão foi sobre um programa dedicado à eficácia da homeopatia. Apesar de milhares de médicos e pacientes no mundo inteiro estarem convencidos de que a homeopatia pode curar, os cientistas continuam a acreditar que isso é impossível do ponto de vista efetivo.

Como a homeopatia funciona? O princípio básico é oferecer ao paciente uma pequena dose daquilo que está provocando os sintomas. Por exemplo, se a cebola irrita nossos olhos e nariz e nos faz chorar, então essa substância irritante pode ser dada a um paciente com rinite ou alergia, para aliviar os sintomas.

No entanto, a maioria das substâncias usadas na homeopatia são potecialmente venenosas, por isso os homeopatas diluem as mesmas em água ou bebida alcoólica por várias e várias e várias vezes.

É aí que os cientistas acreditam que tudo vai literalmente por água abaixo porque nenhuma solução diluída tantas vezes é capaz de funcionar. Por sua vez, os homeopatas acreditam que a água possui "memória" e pode lembrar as soluções que foram nela diluídas.

Até hoje ninguém apresentou qualquer prova científica explicando como os remédios homeopáticos funcionam, nenhum teste feito até o momento foi conclusivo. Isso fez com que o investigador James Randi lançasse o seguinte desafio: o primeiro que provar por A + B que os remédios homeopáticos funcionam, vai receber como prêmio 1 milhão de dólares. Nenhum pesquisador se prontificou.

Então pela primeira vez na história do programa, o Horizon decidiu conduzir seu próprio experimento científico. Juntou times de cientistas das maiores e mais respeitadas instituições do Reino Unido e trouxe o próprio James Randi e o vice-presidente da científica Royal Society para acompanharem os testes, sob as mais rigorosas condições.

O primeiro passo foi criar o remédio homeopático. No laboratório da Univesity College of London, o professor Peter Mobb produziu uma solução homeopática histamínica ao diluir uma gota do princípio ativo em 99 gotas de água. Para provar a experiência, foi necessário também diluir uma gota de água pura em 99 gotas de água pura também.

No final dessa fase, temos 10 tubos: 5 com histamínicos diluídos em água, 5 com água diluída em água. Uma gota de cada um desses dez tubos serão ainda diluídos em outras 99 gotas de água, que por sua vez, terão uma de suas gotas também diluídas em outras 99 gotas de água, assim por diante até que os 10 tubos completem 5 ciclos de diluição.

Ao final do quinto ciclo, o histamínico já foi diluído dez mil milhões de vezes. Há ainda algumas poucas moléculas deles na água, mas não muitas.

Uma nova cientista entra em cena e pega esses mesmos dez tubos e dilui uma gota de cada um deles novamente, num sexto ciclo. E repete os ciclos de diluição até chegar num décimo quinto ciclo, da mesma forma que todas as soluções homeopáticas são feitas. Todos os tubos (com histamínicos ou água pura apenas) passam pelo mesmo processo.

A solução homeopática e a água pura estão prontas para a hora da verdade. Os dez tubos finais estão enfileirados e, em cada um deles, é adicionado uma amostra de células humanas. Se a solução homeopática é mesmo eficaz, deve reagir nas células humanas.

O resultado final: o programa Horizon continua a ser apresentado nas quintas-feiras, porque não, nenhum dos produtores do programa ficaram milionários. A análise estatística confirmou que não houve diferença entre a solução que começou com o histamínico e a solução que começou como água pura.

A narração do programa termina dizendo que essa experiência não vai inibir nenhum paciente de usar a homeopatia ou deixar de acreditar nela. Mas a ciência está convencida: a homeopatia não funciona.

Para quem estiver interessado em saber mais detalhes sobre este ou outros assuntos apresentados no Horizon, ou para quem quiser contestar a idéia, acesse o site: www.bbc.co.uk/science/horizon/

Que coisa, não? :o)

Escrito a mão pela Marcia às 11:46 AM | mais em What's on Telly